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sábado, 21 de maio de 2016

Offshore

ANTÓNIO LUÍS LOPES











Coloca o meu coração
num offshore
onde não haja inflação
e ninguém chore,
blinda-o com estatutos
irrevogáveis
que outros amores astutos
serão prováveis,

Coloca o meu coração
num paraíso fiscal,
a todos dirás que não,
não sabes nada do tal,
foi donativo de alguém
que nunca viste sequer
e que não vale um vintém,
nem o BCE o quer...

Coloca o meu coração
num offshore
e cria uma fundação
que o adore,
trata da transferência
com mil cuidados,
evitando a turbulência
dos mercados,

Coloca o meu coração
num paraíso fiscal,
a todos dirás que não,
não sabes nada do tal,
foi donativo de alguém
desconhecido de ti,
jurarás por tua mãe
e pelo Santo FMI...

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

In Memoriam Maria Almira Medina

ANTÓNIO LUÍS LOPES











"eras o desenho, não o que desenhavas. eras

as palavras, não o que elas diziam. eras a menina

girassol no olhar vivo e fugidio, não envelhecias.

terna alma agitada, doçura agreste, por vezes

o mar das Azenhas em dias de tempestade, de outras

a mansidão da Pena na tarde cálida de Agosto.

eras a lâmina, não a ferida. eras a causa, não a moda.

eras o grito, nunca o silêncio.

eras tu. apenas tu. imensamente tu. correndo da Foz

para a nascente. pintando o céu de vermelho.

adoçando o fel. chorando sem motivo ou rindo até

chorares.

Hoje levantei-me cedo, olhei a Serra pela

janela de casa

e vi desenhar-se o teu rosto."
 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Paris

ANTÓNIO LUÍS LOPES



  







 Partiram. Era de noite e havia música

 e perfume no ar, havia risos, havia

 uma rua cheia de gente, uma cidade a

 transbordar de Vida,

 as pontes, as vielas, as luzes que se

 refletem no rio, talvez uma concertina,

 talvez uma voz cantando.

 Partiram. Tinham dado as mãos. A felicidade

 era agora, era ali, eram eles. Podiam

 respirar a energia daquele momento,

 sentir-se únicos, sentir todos os sabores

 do Mundo na ponta da língua e serem o Mundo,

 podiam entrar ou sair dos cafés, trocar

 olhares com quem passava, folhear os livros

 nas bancas dos alfarrabistas, pontapear

 as folhas mortas no chão.

 Partiram. As balas não os escolheram, eles

 apenas estavam lá, aquela era a hora, aquela

 era a noite, queriam ainda sorver o último

 golo de café quente, queriam ainda

 sentir nos dedos o cabelo um do outro,

 mas não havia tempo, as balas não têm relógio,

 não hesitam, não se detêm perante a beleza

 do momento, não têm remorsos.

 Partiram. De mãos dadas. Mas nunca sairão

 de Paris, onde se continuarão a amar, a sorrir

 um para o outro, a percorrer os boulevards,

 a rir da Morte, a rir das balas, a debruçar-se

 nas pontes e a escarnecer do ódio

 sempre que as folhas caírem e o

 Outono chegar.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

A mulher amada nunca envelhece

ANTÓNIO LUÍS LOPES










A mulher amada nunca envelhece,

nunca as suas rugas provocam

estranheza,

no seu rosto o dia jamais

anoitece e o peso dos anos dança

com leveza,


a mulher amada é sempre a menina

com quem nos cruzámos há

mil anos atrás,

porque o tempo é nada quando nos

fascina a lembrança eterna

de um amor fugaz,


pode ser a mãe, a irmã, a avó

para quem a ama ela é uma

só,

e de cada vez que à mulher amada

roubarmos o beijo que a boca deseja,

ainda que aos 100 anos voltamos a ser

o rapaz que treme

quando a amada beija.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Palavra de Rei


ANTÓNIO LUÍS LOPES
Diálogo imaginário entre D.Fernando II e um nobre:

- Estou a pensar fazer um palácio soberbo no cimo da Serra de Sintra... Adquiri o velho convento ali existente, a cerca que o envolve, assim como o Castelo dos Mouros e as quintas e matas em redor...

- Vossa Majestade não sabe em que apuros se vai envolver...

- Porquê? O ar é puro, a vista magnífica, o arvoredo soberbo... Aquela Serra é mágica e o palácio que pretendo erguer será um cântico em pedra, uma oração à eternidade, um vislumbre do Paraíso...

- Vossa Majestade é um visionário mas dou-lhe por garantido que irá encontrar mais escolhos do que mar chão, até que tal obra se conclua. Até parece que já estou a ver: o Grupo de Amigos da Serra irá colocar em causa o transporte de materiais e o gigantismo da obra, as árvores a derrubar, a vozearia dos operários, o espezinhar dos caminhos, quiçá o calcar de vestígios arqueológicos ainda por estudar e recuperar... A Associação de Benfeitores do Monte da Lua irá certamente questionar Vossa Majestade pela alteração do perfil da paisagem, pela nova edificação que alterará a vista do cume de tão soberba serrania e que impossibilitará a plena visão das nuvens em determinadas épocas do ano... A Liga de Proteção das Aves fará sessões invetivando contra a destruição do habitat natural da carriça e do chapim real... A Confraria dos Devotos de Nossa Senhora da Pena irá questionar a destruição da capelinha, ainda que a mesma esteja em ruínas já bem antes de 1755, mas Vossa Majestade sabe bem que a polémica, em Sintra, anda sempre de mão dada com o início de qualquer obra... O povo interrogar-se-á pelos gastos da Coroa e em tudo verá grossa despesa sem necessidade, com tanto palácio que já por aí há... Como vê, Vossa Majestade, vai meter-se numa carga de trabalhos...
- Entendo, velho e fiel amigo, são sábias e corretas as tuas palavras...

 Mas, no final, será tão magnífica a obra que suplantará qualquer dúvida ou objeção. Palavra de Rei!...

terça-feira, 3 de março de 2015

Fala-vos um “radical”…

ANTÓNIO LUÍS LOPES
Há coisas em que sou radical. Sou radical na defesa da democracia e da liberdade. Sou radical na defesa de quem trabalha, dos seus salários, dos seus direitos. Sou radical numa Justiça igual para todos, independentemente do estatuto, classe social, cargo ou fortuna pessoal. Sou radical na defesa de Educação e Saúde públicas para todos, porque um país com cidadãos mais cultos e devidamente apoiados na doença é um país certamente mais desenvolvido e justo.
Sou radical na lealdade, na lisura, na honestidade, na equidade. Sou radical na coerência, na verdade, na frontalidade. Sou radical na memória daqueles que nos antecederam e deram o melhor de si para o bem comum, muitas vez com o custo da própria vida - devem ser lembrados e servir de exemplo. Sou radical no combate ao fascismo, ao nazismo, a todos os totalitarismos ideológicos ou religiosos que degradam a condição humana e renegam o espírito de concórdia e de paz. Sou radical contra a estupidez erigida em sabedoria.
Sou radical na defesa das tradições que são como as raízes profundas das árvores e que, quando cortadas, fazem a árvore morrer. Sou radical contra as ervas daninhas que, mesmo aparentando belas cores, impedem as plantas úteis de crescer. Sou radical contra a prepotência, contra a intolerância, contra o medo enfiado na alma como forma de limitar a natural divergência entre os seres humanos. Sou radical contra a vulgaridade, contra a mentira, contra as falsa aparências.
Sou radical na defesa do trabalho coletivo, no elogio do contributo individual e na repartição justa dos elogios e dos louros por todos. Sou radical na defesa da Pátria. Sou radical na defesa das minhas convicções e não as altero em função de interesses ou de pressões se continuar a achar que são justas e corretas. Sou radical no elogio ao bom trabalho alheio. Sou radical a cumprimentar seja quem for com a mesma atenção e respeito. Sou radical no amor à minha família e na lealdade aos meus amigos.
Dizem alguns que este radicalismo já não se usa na Política atual - e, talvez sem se darem conta, estão a apontar para a razão de ser do definhamento das democracias modernas.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Carta a D.Manuel Clemente e ao Sheik Munir

ANTÓNIO LUÍS LOPES
 
Divulgo conteúdo de e-mail que irei enviar, nesta data, ao Sheik David Munir, da Mesquita de Lisboa, e ao Sr. Cardeal Patriarca de Lisboa:
"À atenção dos Exmºs Senhores
Sheik David Munir – Mesquita de Lisboa...
Cardeal Patriarca de Lisboa
Na sequência dos trágicos acontecimentos de Paris, enquanto cidadão Português, deputado na Assembleia Municipal de Sintra (líder da bancada do Partido Socialista) e católico, venho por esta via apresentar a seguinte proposta: que o Sr. Cardeal Patriarca de Lisboa e o Sheik David Munir, da Comunidade Islâmica, articulem entre si a realização, numa grande praça de Lisboa (Terreiro do Paço, por ex.) de cerimónia religiosa conjunta, em memória das vítimas de Paris e contra toda a violência extremista que, atualmente e de uma forma inaudita, ameaça o Continente europeu. Creio que seria um momento único e de grande significado no contexto europeu num País que tem, nas suas raízes, a cultura islâmica, mesclada ao longo dos séculos com a tradição cristã.
Considero, ainda, que as primeiras “vítimas” do extremismo islâmico são os meus irmãos muçulmanos - os que professam a sua religião pacificamente, os que têm em comum comigo (cristão) as raízes da sua Fé, os profetas iniciais, a crença num Deus único, a solidariedade com os mais fracos. Eles são os primeiros reféns da loucura criminosa dos terroristas islâmicos - porque a ignorância de muitos os confundirá com essa teia de medo, quando eles nada têm a ver com ela e são tão "vítimas" como qualquer um de nós.
Não é a religião que separa os homens - mas sim os homens e a forma como usam a religião para cavar trincheiras entre si. Não confundo a Fé no Islão com o terror islâmico, tal como não confundo o Papa Francisco com o inquisidor-mor, Tomás de Torquemada. Hoje (talvez mais do que nunca) é preciso relembrar isso - para que aqueles que legitimamente se insurgem contra a barbárie terrorista não acabem a ser os "cavalos de Tróia" da corrente xenófoba que ameaça percorrer a Europa (e o Mundo) de novo. In šāʾ Allāh. إن شاء الله.
Com os melhores cumprimentos,
António Luís Lopes"

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Na Rua do Medo

ANTÓNIO LUÍS LOPES












na rua do medo, ninguém se revolta,
vive-se em segredo
com o medo em volta,
vive-se morrendo em cada dia um pouco,
na rua do medo
quem não teme é louco

na rua do medo o amanhã assusta,
o sol põe-se cedo
e nasce sempre à justa,
canta-se em silêncio embalando a noite,
na rua do medo
não há quem se afoite

nessa rua os homens vivem resignados
ao medo profundo
que os traz calados,
só os velhos falam de um tempo diferente
onde o medo não
metia medo à gente

na rua do medo há quem imagine
o dia em que um dia
o medo termine,
porque o medo assusta, isso é bem verdade,
mas a luta justa
no coração arde...

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Serra de Sintra

ANTÓNIO LUÍS LOPES









Serra de Sintra
Aqui terra e mar num só se fundem,
e rasgam-lhe as entranhas maravilhosos caminhos
por onde os súbditos de Agharta vêm espreitar-nos,
a nós, miseráveis pedras semeadas ao vento,
outras noventa e nove portas pelo Mundo
espalhadas, nenhuma delas de semelhante força
telúrica, nenhuma outra onde a neblina e a maresia
e a dança invisível das almas ecoe no Atlântico,
perdido o Paraíso, estilhaçou-se o mapa para regressar
a casa,  logrará encontrá-lo quem souber ler nos carvalhos e
pinheiros mansos, na língua das salamandras,
no voo do falcão peregrino,
da Lua o monte, sagrado, imenso, rasgado
nos sonhos dos deuses e nas histórias dos amores
secretos, dos poetas, dos oráculos, irmão de Al-Ribat
e de Montejunto, serra, sonho, cosmos.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

No café

ANTÓNIO LUÍS LOPES












nada esperes. na mesa em frente ele levanta-se,

ela permanece, depois ele regressa e ela parte,

não aguardes compreensão, não escutes a porta

a bater. nada desejes. trazes esse cão negro da

ansiedade pela trela mas é ele quem te guia, ao

balcão alguém pede um café, a manhã passa,

a vida passa, a rua passa, lá fora a sombra passa

mas nada esperes, o que te prometeram foi

anzol, o que te mostraram foi ilusão, quebra-se um

copo na cozinha e há um riso de cacos no ar.



andamos há quarenta anos nisto, acorda, acorda,

não sei se ouvi num sonho ou foi agora,

nada é certo, nada é nosso, nada nos mostra

a chave da paz que perseguimos. o cão negro rosna.

não queria perder a fé nos homens agora que a

recuperei de Deus mas todos os dias o sol ameaça

desaparecer de vez e é por isso que vivo no medo.

nada esperes, então. Iludiram-te. Enganaram-te.

Nunca é tarde para prender a trela àquele poste

lá fora. E ir embora.