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sábado, 13 de julho de 2013

MarcosBest, poeta do quotidiano urbano

ANTÓNIO LUÍS LOPES

Talvez pouca gente conheça o Marcos, um jovem nascido e criado no bairro da Serra das Minas, freguesia de Rio de Mouro. Mas o Marcos merece ser (ainda mais) conhecido e reconhecido pelo trabalho que faz. Porque ele é um poeta destes novos tempos, um “cantautor”, uma voz de protesto urbano, através da sua “arma” de eleição – o hip hop. Com o nome artístico de Marcos Best ( o Best não é sinal de presunção, é admiração de infância pelo jogador de futebol inglês, George Best) é (na minha modesta opinião) autor de algum dos melhores temas hip hop do panorama nacional e, acima de tudo, um excelente “escritor de canções”.

Descobri o trabalho do Marcos por mero acaso – pessoa de família ofereceu-me um CD (Kronicas de G´z), sabendo do meu interesse por uma expressão musical que considero ser a “canção de protesto” dos novos tempos. Confesso que andei uns dias com o CD no carro até me decidir a ouvi-lo. Depois – a grande surpresa. Palavras duras como aço mas bem reveladoras do que é a vida de muitos jovens nos subúrbios de Lisboa, em temas como “Ruínas” ou “Resiste”. Uma ternura agridoce  em “Primeira história de amor”. E muitos outros temas que me prenderam do início ao fim deste trabalho (o segundo, como vim a saber mais tarde), onde a palavra é “soberana”, o quotidiano é inspiração e o bom gosto das “misturas” musicais demonstra profissionalismo e apuro técnico.
O Marcos tem site na Internet (www.marcosbest.net). O seu CD, “Kronicas de G´z", vende-se na FNAC (se ainda o encontrarem) ou através do próprio site. Mesmo que não sejam apreciadores deste género musical, garanto-vos que vale a pena descobrir o trabalho deste jovem sintrense.


terça-feira, 2 de julho de 2013

Viver o Património de Sintra

ANTÓNIO LUÍS LOPES

Quando se fala em Património é necessário que não se tenha em conta apenas o património edificado – as igrejas, os palácios, os castelos, as fortificações, etc. O conceito de Património deve incluir a riqueza das paisagens, da fauna e flora existentes, os usos e costumes, as lendas, o vestuário tradicional, a gastronomia, os instrumentos de trabalho de outros tempos, as particularidades da Língua, a música, etc.

Património não é uma realidade estática – renova-se e (re)constrói-se em cada dia. Tem raízes no passado mas evolui no presente para se projectar no futuro de uma Comunidade. Deve ser preservado mas, simultaneamente, ter sempre novas páginas em branco para preencher. Tem que ser conhecido e usufruído para que todos entendam a sua relevância e contribuam activamente para a sua preservação.

Muito daquilo que hoje consideramos como Património resultou, na época em que foi concebido ou erigido, de processos de inovação e, em certos casos, até constituiu motivo de alguma polémica circunstancial. Nos alicerces de muitos dos monumentos que nos rodeiam nos dias de hoje, dormem as ruínas de património de outras eras…

Sintra tem uma riqueza incomensurável no Património que possui. Esse Património constitui-se como legado universal e, como tal, deve, acima de tudo, começar por ser amado e respeitado pelos habitantes do próprio Concelho. Isso só acontecerá se existir um plano concertado e persistente de divulgação, abertura, envolvimento, colaboração e “familiarização” dos Sintrenses com o seu Património. Estima-se e respeita-se aquilo que consideramos como “nosso”. Preserva-se e divulga-se aquilo em que nos consideramos envolvidos.

Esse é um desafio permanente – viver e fazer (re) viver o nosso Património em cada dia. Aproximá-lo de quem, no seu dia a dia, pouco se apercebe da sua relevância ou a acha responsabilidade de “outros”. Torná-lo “visita de casa” dos grandes aglomerados urbanos, com a realização de eventos ou promoção regular de iniciativas que o coloquem no centro da vida actual e “surpreendam” o quotidiano cinzento. Estabelecer compromissos em que cada habitante do Concelho se sinta um “guardião” deste “tesouro” que é motor de desenvolvimento, gerador de emprego, factor de progresso.

Creio que essa será a melhor forma não só de preservar o actual Património mas também de contribuir para que se acrescentem novas páginas a este “livro” que resulta de uma “escrita” permanente.

 

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Imaculado

ANTÓNIO LUÍS LOPES












Querem que eu pague aquilo que roubaram,
Querem que eu guarde o grito apetecido,
Querem que eu fale o que imensos calaram
Querem que eu morra antes de ter nascido

Querem que eu coma o pão que o Diabo
Arrastou na lama do seu imenso cio,
Querem que eu seja de mim próprio escravo
Querem que eu rebente de calor ao frio

Querem ver-me alegre no meu funeral,
querem meu vazio para o poder encher,
querem convencer-me que o amor faz mal
e que do chicote só virá prazer

Querem que eu aceite ser actor de mim
E representar tudo o que detesto,
Querem começar agora pelo fim,
Com minhas virtudes provar que não presto

Querem tudo isso e muito mais que dê
Para reduzir-me ao pó que vão soprar
Querem que eu responda sem saber ao quê
Mas respondo sempre para não falhar…


domingo, 16 de junho de 2013

Evocando Leal da Câmara- de Pangim à Rinchoa



ANTÓNIO LUÍS LOPES

Tomás Júlio Leal da Câmara nasceu em Pangim, Índia Portuguesa, no dia 30 de Novembro de 1876 e faleceu em 21 de Julho de 1948, aos 72 anos de idade, na Rinchoa (Freguesia de Rio de Mouro - Sintra).

Desde cedo se destacou como pintor e caricaturista mordaz, forma de expressão através da qual, enquanto Republicano de gema, combateu os excessos, misérias sociais e hipocrisia da Monarquia da época e da Igreja Católica que lhe dava suporte fundamental. Foi sem qualquer espécie de contemplação que Leal da Câmara deu expressão a esse combate, com participações em jornais da época como A Corja, A Sátira, O Diabo ou A Marselhesa.

Considerado “inimigo da Coroa”, viu-se forçado a exílio no estrangeiro (Espanha, a que se seguiu França e, finalmente, a Bélgica), o que veio alargar o seu reconhecimento internacional, nomeadamente pelas suas caricaturas no conhecido jornal L´Assiette au Beurre.

Foi grande amigo do poeta nicaraguano Ruben Dario (pseudónimo de Félix Rubén García Sarmiento), um dos “pais” do modernismo na literatura hispano-americana. Dario escreveu, entre outros, o famoso poema “A Roosevelt”, onde invectivava o Presidente norte-americano:



“Es con voz de la Biblia, o verso de Walt Whitman,
que habría que llegar hasta ti, Cazador!
Primitivo y moderno, sencillo y complicado,
con un algo de Washington y cuatro de Nemrod.
Eres los Estados Unidos,
eres el futuro invasor
de la América ingenua que tiene sangre indígena,
que aún reza a Jesucristo y aún habla en español.

Regressado a Portugal após a Revolução do 5 de Outubro de 1910, Leal da Câmara fixou-se no Porto, onde promoveu, entre outras, a célebre exposição do Grupo dos Fantasistas, no Palácio da Bolsa, em 1915. Enveredando pela carreira de professor a partir de 1919, dividiu-se entre o Porto e a capital enquanto docente de várias cadeiras de Desenho e Artes Decorativas.

Em 1930, com 54 anos de idade, Leal da Câmara foi residir para a Rinchoa (aliás, para o Estado Livre da Rinchoa, como ele fazia questão de dizer!...). A casa que adquiriu ( e que hoje constitui a Casa Museu Leal da Câmara) fora em tempos uma estação de muda de cavalos e pertença do Marquês de Pombal. Leal da Câmara fez as obras necessárias e adaptou-a para residência e atelier até ao fim dos seus dias.
As suas aguarelas e desenhos sobre figuras e tradições populares da zona saloia perduram até aos dias de hoje e, para além da excelência artística, constituem testemunho de inestimável valor sociológico e antropológico sobre aqueles a quem Raul Proença assim caracterizava em 1924, no seu Guia de Portugal:
 “Quando Afonso Henriques tomou posse de Lisboa, consentiu-se ao mouro que refluísse para os subúrbios da cidade, e ele aí se estabeleceu, entregue ao cultivo das hortas, com a água a escorrer da nora generosa. É desta população consentida, mourisca e subalterna que deriva o mais da gente que habita os contornos de Lisboa – o saloio de tez morena, pele tisnada, olhos e cabelos negros ou castanhos, membros secos, tipo sem finuras de raça e beleza plástica de linhas, tão afastado da gente bela e robusta do Norte, como o berbere dum dos melhores rebentos da gente circassiana”