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sábado, 26 de julho de 2014

Rio de Mouro – a “minha” terra

ANTÓNIO LUÍS LOPES 


  
Vivo em Rio de Mouro há praticamente 50 anos. Aqui cresci, aqui fiz a Escola Primária (com a saudosa Professora Isabel, que morava numa bonita vivenda junto à estação da CP), aqui casei (na Igreja de Nossa Senhora de Belém (em cerimónia celebrada pelo Padre Delmar Barreiros) em Rio de Mouro Velho, aqui sepultei, no cemitério local, alguns dos meus familiares. Por tudo isto, e tendo nascido em Lisboa, considero esta a "minha" terra.
Lembro-me de como era Rio de Mouro há 50 anos atrás, um pequeno aglomerado urbano a despontar junto à velha estação do comboio, as várias quintas na Rinchoa e Rio de Mouro Velho, o espaço eminentemente rural que o "cimento" dos anos 70 / 80 descaracterizou gradualmente. Lembro-me do vendedor de perus que, no Natal, arrastava os bichos atrás de si, presos com cordas, andando a vendê-los de porta em porta. Lembro-me do velho posto da UCAL onde se levava uma garrafa de vidro para encher com leite, assim como da mercearia do Sr. Alexandre com as postas de bacalhau "demolhado" em alguidares à porta, as sacas de arroz, feijão e grão abertas e o azeite que a minha mãe me mandava comprar e que era vertido para a garrafa a partir de uma velha máquina de medir azeite. Lembro-me da taberna do Sr. João onde o meu saudoso pai me mandava comprar vinho para o jantar (do "especial") e um maço de "High Life", o tabaco que fumava. Lembro-me do forno da cal que existia no mesmo sítio onde hoje está a Escola Secundária Leal da Câmara e do grande eucaliptal em seu redor. Lembro-me do cinema ambulante (verdadeiro Cinema Paraíso) que surgia de vez em quando e que assentava arraiais no largo junto à estação da CP, projetando no interior da grande tenda, filmes como o "Sarilho de Fraldas", com o António Calvário e a Madalena Iglésias ou o Spartacus, com o Kirk Douglas, dois daqueles que me lembro de ver, depois do meu avô Luís pedir ao dono do tal cinema que me deixasse entrar, apesar dos meus 7 ou 8 anos estarem muito abaixo do "escalão etário" permitido... Lembro-me das provas de motocrosse nos terrenos junto à estação da CP, do lado da Calçada da Rinchoa, e onde mais tarde foi construída a primeira igreja (uma pequena capela) em Rio de Mouro (Estação). Lembro-me de, naqueles meses que se sucederam ao 25 de Abril de 1974, chegar um dia à janela da casa dos meus pais (onde ainda hoje mora a minha mãe) e ver um "chaimite" a descer a rua em frente, com grande alarido dos miúdos e espanto de homens e mulheres, sendo que aquilo que se dizia era que viera "caçar" um "informador da PIDE". Lembro-me da Amália Rodrigues a cantar num palco improvisado dentro das garagens dos prédios na Calçada da Rinchoa onde, a seguir ao 25 de Abril, também foram colocadas as urnas para as eleições, com longas filas de votantes como jamais visto...
Muitas histórias de uma terra com História.
 

quinta-feira, 20 de março de 2014

A boleia

ANTÓNIO LUÍS LOPES
Um destes dias, no acesso de Rio de Mouro ao IC19, reparei num velhote negro que caminhava na berma com um pequeno "jerry can" na mão. Como mais atrás existe um posto de combustíveis e ele caminhava na direção do IC19, calculei que tivesse ficado sem combustível em plena estrada e se visse forçado a caminhar até àquele posto. Parei o carro um pouco à frente e abordei-o quando passava, perguntando ...se precisava de boleia. O seu rosto suado quedou-se de espanto mas logo me disse que, efectivamente, deixara o carro a poucos metros e necessitara de fazer aquela caminhada para comprar combustível. Sentou-se no lugar ao meu lado, agradeceu a atenção e poucos minutos depois deixei-o junto da sua viatura. Quando saiu, senti que estava visivelmente comovido com um gesto que devia ser banal mas que a dureza dos tempos transformou em quase aventura e apertando-me a mão disse-me: "Fique com Deus, amigo, muito obrigado pela sua ajuda". Fiquei a pensar em como, hoje em dia, o "mal" se banalizou de tal forma que, por vezes, nos impede de proceder da forma correta e nos tolhe enquanto Pessoas. Lembram-se do romance "O meu pé de laranja lima", de José Mauro de Vasconcelos e de como um miúdo brasileiro se faz amigo de um Português emigrado no País irmão, que lhe dá boleia e com quem partilha ensinamentos sobre a Vida e sobre os Homens?... Quem se atreveria hoje em dia a ter um gesto semelhante, com receio de ser acusado das mais vis acções?... O "mal" ganhou espaço - nas nossas vidas, nos nossos gestos, nas nossas inibições, nos nossos medos. Há que "recuperar" o "bem" - a honra da palavra dada, a ajuda sincera e desinteressada, o sigilo de um segredo partilhado, a mão estendida para quem precisa. Ainda iremos a tempo?...

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A Europa numa encruzilhada

ANTÓNIO LUÍS LOPES

Uma nuvem de poeira com origem num vulcão islandês pairou sobre a Europa em Maio de 2010, perturbando o tráfego aéreo. Tal como essa nuvem de poeira, paira igualmente sobre o projeto político e económico europeu uma enorme nuvem cinzenta de pessimismo e dúvida.


Uma crise que começou por ser financeira (e que teve origem – será bom não o esquecer – num quadro de desenfreada especulação financeira e numa “bolha” artificial criada pelos grandes especuladores financeiros a nível global) degenerou numa crise social de contornos ainda indefinidos. Os mercados reagem de forma quase esquizofrénica – “afundam-se” perante a perspetiva de elevados défices e da possibilidade de incumprimento por parte das Nações; mas também não recuperam nem se animam quando são tomadas as medidas restritivas que, teoricamente, levariam a tal reação. Temem o incumprimento – mas também a recessão a que algumas medidas restritivas poderão conduzir. No entretanto, as famílias da classe média sentem-se “acossadas”, vêem os seus rendimentos reduzidos mas os encargos contraídos manterem-se ou até crescerem, temem o futuro, não entendem que todas as “faturas” lhes sejam impostas quase sempre em exclusivo.

Tal como na Revolução Industrial, vivemos uma era de profunda mudança política, social e económica. Se no século XIX se registaram profundas alterações no modelo produtivo, com os movimentos migratórios dos campos (agricultura) para as cidades (fábricas) e a “exclusão” de muitos milhares que não se adaptaram ou não conseguiram integrar-se nesse novo modelo, também hoje se vislumbram os primeiros contornos sérios de uma Revolução a que chamaria do “Conhecimento”, que veio alterar não apenas o modelo de produção mas a forma como cada indivíduo se relaciona (ou posiciona / “transaciona”) num mercado de trabalho completamente aberto.

O Trabalho de hoje exige cada vez menos força física ou repetição burocrática – e, cada vez mais, originalidade, criatividade, prestação de um melhor serviço. As máquinas do passado praticamente não precisam quem as opere – mas sim quem conceba os novos produtos que elas se encarregarão de fabricar. Já não basta ter uma porta aberta e esperar que os clientes entrem – há que procurar fatores diferenciadores da concorrência, especialmente em termos de prestação de um melhor serviço, com maior disponibilidade horária, com conhecimento profundo do produto vendido, com geração de “proximidade” face às necessidades do cliente, etc. Tal como no passado se destruíam as máquinas que a Revolução Industrial criara, tentando inutilmente deter a marcha do inexorável progresso, veja-se agora para onde se dirigem as “pedras” e os cocktails molotov (físicos ou discursivos): para os bancos, para o comércio, para as "marcas" de sucesso, para os novos “magnatas do Conhecimento” (Windows / IBM / Apple, etc).

É neste “caldo” que vivemos e no qual teremos que construir as soluções de futuro. A Sociedade do Conhecimento é uma realidade e é nesse âmbito que se reformulará o valor do fator trabalho, que se criarão novas carreiras (as Universidades começam a adaptar-se e a criar novas soluções académicas), que se exigirão novas regras na contratação, que se transformarão os sindicatos, que se estreitarão laços entre países. É precisamente por isso que aprender Inglês (indubitavelmente a atual língua universal) no Ensino Básico ou aceder a um computador portátil, não são “caprichos” que alguns néscios ou inconscientes, entre nós, se apressaram a criticar – são sinais de preocupação, ainda que rudimentares, com um futuro que já está aí e onde os novos analfabetos, os novos “excluídos”, serão aqueles que, efetivamente, desconhecerem esses saberes básicos.

Posto tudo isto, ainda assim a “nuvem” persiste… Talvez porque a sensação é a de que esta “Revolução” está órfã de uma efetiva liderança política. Com efeito, ninguém pode ter como “projeto de vida” o equilíbrio de um qualquer défice. Ninguém pode motivar-se se o horizonte que vê é cada vez mais negro. Nenhum “modelo europeu” digno desse nome pode passar apenas pela lógica financeira e pela contabilidade organizada das Nações. Falta liderança. Falta condução. Falta visão. A Europa de Merkel, de Durão Barroso e de Passos Coelho é uma Europa de “mangas de alpaca”, aprisionada num enorme colete de forças de onde parece incapaz de sair. Não há rasgo. Não há projeto. E é por isso que os povos se agitam, temem o futuro, se angustiam.
As pessoas questionam-se legitimamente – de que serviram os sacrifícios feitos há vinte e tal anos atrás, se de repente parecemos voltar à estaca zero? Onde está a “nossa” Europa de bem-estar e desenvolvimento generalizados? O que foi feito de tantos milhões em apoios e subsídios que, em Portugal, especialmente nos “anos dourados” das maiorias do 1º ministro Cavaco Silva, visaram reformar profundamente o País e deixá-lo preparado para evitar “crises” como a atual? Afinal, duas décadas volvidas e estamos novamente a ser confrontados com um cenário de empobrecimento generalizado, de recessão, de medo do futuro?...

É urgente, assim, “refundar” a Comunidade Europeia. Essa “refundação” só poderá ser feita por lideranças determinadas e visionárias, capazes de sacrificar o que for necessário agora mas em função de uma meta clara e objetiva a atingir, chame-se ela “paz”, “desenvolvimento sustentado” ou “Conhecimento”. A Europa tem todas as condições para liderar uma Revolução do Conhecimento a nível mundial, até pelas relações privilegiadas com África, Ásia e América Latina, com quem pode estabelecer novas pontes e criar novas parcerias. O exemplo de paz e tolerância, durante décadas, dentro das fronteiras da Europa, pode ainda ser alargado com a adesão da Turquia e possibilitar um novo diálogo com o Irão. Disseminar Conhecimento deve ser um desígnio europeu. Só o Conhecimento gera tolerância, diálogo, desenvolvimento. Em seu redor é possível desenvolver novas indústrias e serviços na área dos conteúdos e da criatividade em geral, articular com o Turismo, alicerçar com mão de obra qualificada e formação à medida. A Europa pode começar a fornecer as “canas para pescar” em vez do peixe já pescado. O nosso “petróleo” é o Conhecimento e há todo um campo por explorar num Mundo onde a pobreza e a exclusão ainda são (tristemente) reinantes.

Recordemos que, mesmo numa cidade de Londres barbaramente destruída pelos ataques aéreos nazis, durante a 2ª Grande Guerra, a população “persistia” em reunir-se em grandes salões de baile e dançar ao som de uma qualquer orquestra da época, com sorrisos rasgados que escondiam a profunda dor que certamente sentiam. Centenas de pessoas dançavam e rodopiavam durante horas – enquanto o seu mundo ruía, os seus entes queridos morriam, o amanhã era incerto. Mas aquelas pessoas tinham Esperança e Determinação. O seu sacrifício fazia sentido. Nenhum inimigo, por mais poderoso que fosse, as faria desistir. Queriam demonstrar que nada podia abalar o seu patriotismo e a sua defesa da Democracia, custasse o que custasse. Para que tal sucedesse foram determinantes líderes visionários, como Churchill ou De Gaulle, obviamente.

São esses líderes que urge encontrar nos nossos dias para que, tal como a chuva ajudou a dissolver a nuvem de partículas originada pelo vulcão islandês, possam também “dissolver” esta angústia das populações à procura de referências concretas para a construção do futuro. Caso contrário talvez estejamos a caminhar, inexoravelmente, para o fim da união europeia tal como os seus pais fundadores a conceberam, sem que se vislumbre qualquer alternativa, democrática e progressista, válida.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Regresso ao passado

ANTÓNIO LUÍS LOPES

Um destes dias, à noite, regressava a casa, a pé, depois de ter concluído sessão de formação que estive a conduzir em horário pós-laboral.

 À minha frente caminhava um grupo de 5 pessoas - um casal na casa dos 30 e poucos anos e, pelo que pude aperceber-me, três filhos, de idades entre os 12 / 13 anos e uma pequenita com cerca de 4 ou 5. Pelo percurso que faziam concluí que vinham da igreja local, que àquela hora mantinha ainda aberta uma área de distribuição de alimentos e outros produtos para apoio a famílias necessitadas, creio que com apoio da Junta de Freguesia.

O homem e a mulher levavam grandes sacos onde era possível vislumbrar arroz, massas, batatas, enfim, os víveres necessários para a alimentação do mês. Todas as crianças ajudavam, transportando também sacos mais pequenos com alimentos, incluindo a pequenita, que saltitava e sorria, na inconsciência e pureza da sua tenra idade.

Fui vendo aquela família dirigir-se para casa, em silêncio, no início da noite, saberá Deus com que preocupações para o dia seguinte, talvez com o desemprego a roer a alma, talvez já com a ameaça de perder a habitação, certamente um espaço para o medo e incerteza para criar e educar os três filhos... Serão milhares, infelizmente, as famílias portuguesas nesta situação... Mas aquela, sem o saber, acordou em mim a memória de um outro tempo distante em que também vi os meus pais fazerem mil e um malabarismos para viverem com dignidade, numa outra época difícil, sem que nada faltasse aos filhos, mas onde tantas vezes as dificuldades apertavam o coração na calada da noite. Regressou este meu País às trevas da fome, do desemprego, da miséria envergonhada, da incerteza no futuro...

Numa curva mais adiante, a família carregada de sacos com alimentos para o mês, desapareceu - antes de entrar em casa e regressar para junto da minha própria família tive que fazer um breve momento de espera, apenas o tempo do vermelho dos olhos e da pressão no peito já não serem visíveis para os meus.

Mas não consigo esquecer aquela menina que, de saquito com alguns alimentos na mão, inocente, livre, doce, sorria e saltitava no meio da família que, abrigada pelo anonimato da noite, carregava o parco sustento para escassas semanas... 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

"É o consumo, estúpidos!"

ANTÓNIO LUÍS LOPES
 

Nick Hanauer é um milionário norte-americano e vive em Seattle. Em Março de 2012 foi convidado para dar uma Conferência para a TED, na qual teve oportunidade de dizer (entre outras coisas) o seguinte:
“Posso garantir que os ricos não criam empregos. O que produz mais emprego é o “feedback” entre consumidores e empresas. Só os consumidores podem dar vida a este círculo de procura e de oferta. Neste sentido, um consumidor de classe média pode criar muito mais emprego do que um capitalista como eu. (…) Toda a gente que tem uma empresa sabe que empregar mais gente é uma medida de último recurso, algo que se faz apenas quando o aumento da procura do consumidor o exige. Neste sentido, dizermos que somos criadores de empregos não só é incorreto, como falso. É por isso que as atuais políticas estão de pernas para o ar. Quando se tem um sistema de impostos que beneficia os mais ricos, tudo em nome da criação de empregos, o que acontece é que os ricos ficam mais ricos.”
Simples e revelador. Nick Hanauer coloca o dedo exatamente na ferida e confirma a razão de todos aqueles que consideram que a “austeridade” erigida como “regra” é mais do que um disparate – é criminosa. O círculo vicioso de somar austeridade à austeridade, de diminuir rendimentos indiscriminadamente, de apertar o consumo, apenas conduz à falência das empresas e ao desemprego em crescendo, gerando mais miséria, menos consumo e mais impactos negativos para todo o sistema económico. Não crescem plantas em terreno que não se rega – nem se geram recursos para uma Nação se a sua população vegeta na miséria.
Nick Hanauer sabe do que fala e tem plena consciência que, se continuarmos reféns da lógica predatória dos “mercados” e da insanidade reverente de Governos incapazes de reagir à situação, nada mais restará do que caos e destruição.
Resta acrescentar que a TED se recusou a divulgar o vídeo desta Conferência no seu site (tal como faz com todos os oradores convidados), achando-a demasiado “politizada”… Felizmente o poder das redes sociais evidenciou-se, uma vez mais, permitindo que chegasse ao nosso conhecimento aquilo que Nick Hanauer defendeu e destacando-se a imensa hipocrisia em que vivemos atualmente e que urge desmascarar e combater sem tréguas.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Os três médicos

ANTÓNIO LUÍS LOPES   


Os médicos (eram 3) aproximaram-se da cama e disseram:

- Caro senhor, vamos ter que lhe cortar o pé esquerdo...

O homem (era apenas 1, doente e só) estremeceu e perguntou:

- Não há outra saída, senhores doutores?

- Não, sr. António, não há... Temos que cortar para estancar o mal e dentro em breve o senhor estará muito melhor.

Cortaram-lhe o pé esquerdo.

Semanas depois vieram novamente os médicos (eram três) e disseram:

- Lamentamos, caro senhor, mas é urgente que lhe cortemos o pé direito. E para termos a garantia de que, desta vez, será resolvido o problema na totalidade, o melhor é cortarmos as duas pernas.

O homem (continuava sozinho, doente e receoso do futuro) balbuciou:

- Não há mesmo alternativa?...Não será melhor ouvir a opinião de outros médicos?...

- Sr. António, desde já o avisamos que não há tempo a perder. Pode até ouvir outros médicos mas tememos que o tempo perdido leve depois à imposição de medidas ainda mais gravosas!...

- Pronto... Cortem... Eu quero é ver-me livre deste mal...

- Fique descansado, sr. António,  desta vez vamos resolver a situação.

Cortaram o pé direito. Aliás, cortaram o pé direito, que foi agarrado à perna direita e esta acompanhou a esquerda até à incineradora do hospital.

Um mês decorreu e os três médicos voltaram.

- Bom dia, sr. António...

- Bom dia, senhores doutores...

- Vínhamos dizer-lhe que está quase a poder sair do hospital...

- A sério?... - animou-se o homem (ele que era apenas metade daquilo que outrora fora).

- Há bons indícios, muito bons, aliás. Mas temos que estabelecer um programa cautelar...

- Vão mudar-me a medicação?...

- Mais ou menos, sr. António... Vamos realmente introduzir algumas alterações ao nível medicamentoso mas estamos inclinados para lhe fazer uma proposta que coloque um ponto final no seu sofrimento.

- Digam, por favor...

- Sr. António: nós propomos cortar-lhe a cabeça...

O homem (meio homem) mal conseguiu reagir, ele que nos últimos meses quase se habituara a viver com o medo na alma e se resignara ao seu triste destino. Meio aturdido, ainda balbuciou:

- E os senhores doutores garantem que este é um corte definitivo?... Começo a desesperar...

- Sr. António, desta vez damos a garantia absoluta, o problema será resolvido de vez.

O homem (ou o que restava dele) anuiu. Estava cansado, fraco, descrente.

Os médicos avançaram e a cabeça rolou.

A boca que ficava na cabeça do homem (aquela que rolou) ainda quis gritar que nada daquilo era aceitável, que bastava de cortes e mais cortes, que a morte não pode ser cura para quem deseja a vida - mas já era tarde.

Os médicos (eram 3) saíram mais cedo. Tinham que apanhar um avião para irem fazer uma amputação urgente em Atenas.