BÁRBARA RODHNER
- Se tu cruzares azul com preto o que é que acontece?
- Cinza.
- Cinza?
- Cinza.
- Hum...
- Se tu te cruzares comigo o que é que acontece?
- Dentes de mentiroso.
- Dentes de mentiroso!?
- Dentes de mentiroso.
- Hum...
Mostrar mensagens com a etiqueta Bárbara Jordão Rodhner. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bárbara Jordão Rodhner. Mostrar todas as mensagens
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
sábado, 19 de setembro de 2015
Escorreguei na cauda de um dragão
BÁRBARA JORDÃO RODHNER
Desci a cauda de um dragão. Escorreguei.
A beleza de um animal ancestral é a sua brutalidade, a
sua ausência de medo. Garras em vez de mãos. Escamas em vez de pele. Queimada
do sol, suei. O corpo-crocodilo imanava um cheiro ácido de sexo versus a minha
virgindade árida e adocicada. Sabia ao que ia. Sabíamos os dois...
Nenhum vacilou. Nenhum se demorou...
Desviando o olhar um do outro, procurámos as bocas onde
ainda não moravam beijos. Respiramos juntos...
No entreaberto-pequeno por onde vibram os corações
humanos as línguas encontraram-se num ninho. Unindo-se, uniram-nos. Senti as
pernas encharcadas, as costas feridas sangravam pequenas gotinhas de fel.
Silêncio! A boca fechou-se. O arco da cabeça vibrou.
Entregamo-nos os dois...
Não há amor onde existe ego. Não houve performance. Nem
tão pouco houve só sexo. Houve tudo o resto... Mão na mão. Peito a favor de
peito.
-
Porque demoraste tanto?
-
Acho que perdi o foco no caminho...
Palavras a mais para quê? Chegámos onde éramos
destinados. Reconhecemo-nos. Reencontramo-nos. O resto são literalmente restos
sem nexo...
Senti o líquido sagrado subir-me as entranhas.
-
És meu?
-
Todo teu.
As bocas reuniram-se em paz e foi assim que o primeiro
beijo da humanidade se deu.
Desci a cauda do dragão... Escorreguei mas não cai.
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
Mulher Braba
BÁRBARA JORDÃO RODHNER
Os
sapatinhos vermelhos ardem-nos nos pés.
Quem
somos nós?
As
brabas...
Mulher
carcomidas em suas almas.
Mulheres
desmembradas.
Mulheres
mal-amadas...
Somos
as mulheres-filhas-da-mães que fazem o fogo nos seus fogões, que assam a comida
nas suas entranhas, que lavam o chão com o seu suor, que limpam os talheres até
brilharem no escuro e com as suas lágrimas ainda esfregam o fogão...
Somos
as Sylvias Plath fartas deste caminho. As mulheres sem mãos...
Perdemos
o norte, o sul, o oeste e o faroeste.
Perdemos
os índios porque fomos comidas por cowboys...
Em
noites de lua cheia fugimos das camas perfumadas e passadas a ferro para
corrermos nuas e inteiras nas clareiras das fogueiras.
(Pois)
Já não somos ninguém...
Procuramos
o "tudo" para encontrarmos rigorosamente nada.
Já
não somos ninguém...(?)
Ergueram-nos
estátuas-frias para depois nos arderam junto dos livros antigos.
Fomos
adoradas para rapidamente sermos esquecidas...
Já
não somos ninguém (...)
Mulher
braba, também eu ando perdida, estende-me o teu braço que eu dou-te a minha
mão.
Quando
a lua regressar com os seus segredos de negrume-preto vamos prometer(nus)
caminhar juntas pelas entradas da loucura até ao vale da imensidão.
Mulher
braba, calaram-nos a voz mas não nos calaram a alma que ainda arde ao sabor do
vento nas lareiras vazias de fogo cheias de teias de aranha esquecidas...
Trocaram-nos
por ares condicionados, é um facto, mas não estamos totalmente perdidas.
Mulher
Braba, que as tuas noites de horror se juntem às minhas, que o teu útero jorre,
agora, somente de alegria, que a tua avó sossegue junto da minha porque nem tu,
nem eu, nem as nossas filhas, devem sofrer esta agonia de cantar um canto
cândido que toda a alma dança mas só ás escondidas...
Que
se fodam as torradeiras!
Que
se queimem as assadeiras!
Que
vão para o inferno as barrigas-gordas cheias de fome porque o nosso destino é
dançar loucas e sem destino até nos cortarem os pés.
E
já agora "Sapatinhos vermelhos"...
Esses
fodidos e estrupidos "sapatinhos vermelhos" que se expludam em mil
pedaços!
Até
ao final de todas as Brabas.
quarta-feira, 20 de maio de 2015
O conto da Adraga
Dizem que a vida é feita de desejos.
Quantos deles recalcamos porque nos
ensinaram que a maioria dos desejos estão errados?
Conheci uma mulher que ardia
loucamente dentro de si. Contou-me uma história de olhos fechados. Em pleno
Inverno falou-me do Verão. Ouvi-a sem preconceito.
- Estou queimada do sol. Tenho fogo
debaixo da pele... Quero alguém humano. Fenomenalmente humano...
- Compreendo-te. – respondi.
Ficamos caladas a ouvir o grito das
gaivotas. O sol pôs-se, o frio apertou.
- Gosto de marinheiros e pescadores.
Com a pele enrugada do sal.
- Eu também...
- Às vezes faz falta falar menos.
- Encontrar bocas quentes...
- Isso.
- Comunicar mais.
- Queria deitar-me numa praia
deserta...
- Ouvir música e tirar a roupa.
- Ser engolida pela areia branca...
- Ser beijada com intensidade contra
o chão. Não abrir mais os olhos...
- Ser guiada por uma mão.
- Apetece-me um mundo mais livre.
- Terminar o que nunca começamos
porque somos cobardes...
- Isso...
- Exorcizar o fantasma da mente.
- Precisava tanto...
- Trocar cadernos de poesia.
- Apaixonar-me por um só dia.
- Criar um mundo novo.
- Composições soltas baseadas
somente no amor.
- Achas que alguma dessas coisas
poderia correr mal?
- Não sei.
- Não aguento mais viver num mundo
de castração muda e aguda.
- É dolorosa sim.
- A verdade liberta-nos.
- Mas matou vários profetas.
- Sim.
- Escuta. Conheci um homem.
- E?
- E esse homem é um Homem sem igual.
- Conta.
- Não eras tu que me ias contar uma
história?
- Essa é a minha história. Quero
conta-la através de ti.
Fechei os olhos e inspirei
profundamente o vento que nos unia.
- Isso. O vento conhece todas as
histórias... Conta-me a minha.
Ganhei coragem e continuei.
- Esse homem beijou-me os olhos e
disse-me de mansinho “Ficas com a minha promessa.”
- Que era qual?
- De enfrentar a sua condenação.
- ?
- Amar-te.
- A mim?!
- Não tonta. A mim...
Ela sorriu.
Eu continuei.
- Não podemos desviar os ciclos da
vida. São como os riachos de água viva.
- E as condutas? O que é que
acontece às condutas?
- São ilusões.
- Ilusões... gosto disso.
- Sim.
- Agora sou eu a condenada. – continuou a minha história -
Tenho a voz dele presa no meu corpo. O meu nome ecoa em corredores mentais...
- Pois... o amor é perigoso.
- Mas viver sem amar é muito mais.
- Será que um dia tem tempo para
tudo?
- Não sei mas sei que um dia pode
mudar uma vida...
- E quem disse que um dia não é uma
vida?
- Foi o que ele te disse?
- Sim.
Ela sorriu e o céu abriu-se.
- Quando penso nele cheiro a rosas e
a terra molhada.
- É natural que ele goste de ti...
- Transformo-me num mar de
sentimentos indescritíveis que saem por mim fora para amaciar tudo por onde
passam.
- O amor é lindo...
- É.
- A respiração dele torna-se intensa
quando ele experimenta a minha pele.
Ficamos as duas incomodadas.
- Tens medo de amar? – Perguntou-me.
- Não sei. Não tenho por hábito
pensar muito no amor...
- És como eu.
- Acho que ele ou acontece, ou não
acontece...
- Eu gosto mais de imaginar o amor.
- Alimenta-lo.
- Idealiza-lo.
- Isso também é amor.
- Não sei...
- Descreve as idealizações.
- Imagino uma rede numa varanda com
vista para a serra.
- O que é que está no céu?
- Sobre as cabeças? Estrelas...
Ela sorriu.
- Conta.
- Imagino dois corpos que se
ameaçam. Um contra o outro.
- Ameaçam?
- Sim. A mão entre as coxas. Ela
geme até ter de ceder...
- Gosto disso. E o que é que ele lhe
diz?
- Nada. Ela fala muito mais que ele.
- Ele é assertivo.
- Sim...
- A mulher é pequena mas forte.
Guarda-se todas as noites. Como um lobo.
- Uma loba?
- Isso. Sabes que os lobos só têm um
parceiro na vida.
- A sério?
- Sim. Uma vez tocados ficam para
sempre enfeitiçados e fieis.
- Conta-me mais sobre isso.
- Ela imaginou-o desde que nasceu.
Preparou-se para aquele encontro. Sem beber e sem comer... Lavou a pele,
perfumou os cabelos, esfoliou o peito e a boca.
- E ele gostou?
- Muito... Ele penetrou-a devagar. Como
um homem deve sempre fazer.
- Mas depressa também é bom...
- É, mas só no fim. Eles não tinham
pressa...
- Sim. – imaginou.
- Ela tinha um buraco no peito. Ele
preencheu-a.
- Isso é bonito.
- Muito.
- Mais. Conta-me mais.
- Não sei.
- Como não sabes? Tens de acabar o
que começaste.
- Ok. – pensei - Ela ficou doente.
- Doente?
- De amor. Não se sabia ser sem ele
por dentro...
- Obcecou?
- Ele assustou-se.
- Não! Não faças dele um cobarde por
favor.
- Ok. – repensei - Ele respirou-a.
- Sim. Continua...
- Os ventos mudaram, os fundos do
mar também mas ele permaneceu.
- Onde?
- Na rede. No céu. Em cada estrela
que os via... Cada vez que ele a penetrava um gigante e aberto “ah” lhe saia.
Ele comi-a...
Ela calou-se.
- Não havia passado, nem presente na
vida deles. Apenas um futuro. O deles.
- Isso é bom... –suspirou.
- É.
- Eles eram cúmplices no seu crime.
- O amor não é um crime.
- Talvez...
- Um dia ela pediu-lhe o impossível.
- O quê?
- Pedi-lhe que ele construísse uma
parede.
- Entre eles?!
- Não. Atrás dela.
- Para que?
- Para ele empurra-la contra ela e
nunca mais a deixar fugir.
- E o que é que ele fez? – perguntou.
- Ele concedeu-lhe o desejo e
perguntou.: “Queres morrer de desejo?”
Os olhos dela brilhavam.
- E ela?
- Ela disse que sim por isso ele
amarrou-a pelos braços e absorveu-a por completo.
- E ela? O que é que ela lhe deu?
- Ela escreveu-lhe uma peça de
teatro.
- Teatro?
- Sim. Teatro. Mas um teatro
perfeito. Com os tempos e as pausas no sítio exacto.
- Gosto disso.
- Ela deu-lhe o protagonismo que ele
sempre quis. Elevou-o...
- É isso que o amor faz.
- É.
- E ele?
- Ele encenou a peça e depois
guardou-a numa gaveta.
- Numa gaveta?! Porquê?
- Porque o amor dela era demasiado
especial.
- Ai sim?
- Sim. Ele temia que se alguém
conhecesse aquele amor perfeito o vandalizasse.
- Porquê? – chocada.
- Porque os infelizes são assim.
- E onde está essa gaveta?
- Dentro de mim.
- Mostra-me.
- Aqui. – apontei para a minha cicatriz no
ventre.
- O que é isso?
- Vestígios de guerra.
- Que guerra?
- A minha guerra. Guerra de poder e
de adição.
- Tiveste uma vida pesada?
- Muito pesada.
- E onde é que ele está agora?
- Em casa.
- Ficaste com ele?
- Não.
- Então?
- Ele ficou comigo. Com tudo o que
sou eu.
- Com as cicatrizes e esse cansaço?
- Sim. Com tudo é com tudo. Foi ele
que me ensinou...
- Ele é grande.
- É.
- Sabes que eu estou farta de poetas
e mentirosos, de atores e de fingidos, de ilusionistas e malabaristas mas eu
gosto de ti.
- Porque o meu amor é carnal e real.
- Parece que sim...
- Temos a loucura e a candidez
debaixo da palma da mão.
Ela fechou os olhos e voou.
- Como é que Ele se chama?
- Chama-se.
- Como assim?
- Tem o nome do meu pai, do meu
irmão, do meu melhor amigo, ouvinte e amante.
- João?
- Não.
- Não queres dizer?
Ficámos caladas em respeito uma pela
outra. Cada uma dá o que pode. Fechamos os olhos para absorver o barulho da
areia a ser enrolada na água da praia. O frio congelava-nos as entranhas. A
mente planava.
Ela abriu a mochila, tirou um
caderno e desenhou.
Aguarela de TINEISACHSEN
Subscrever:
Mensagens (Atom)





