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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Aulas de Movimento Contemporâneo no Vale com Catarina Morato

BÁRBARA RODHNER

Sintra nos seus recantos mágicos guarda rebanhos de gente que se sente ou chegou porque se queria "vir", a sentir... Sintra, é assim, o fim da linha para tantos mas também um muito além; é o começo de uma estrada para quem nasceu a caminhar.

Mudei-me para cá faz agora nove anos, trouxe amigos, viu-os partir, arranjei caixotes , manobrei carrinhas, ri, chorei, brindei e rasguei. Poucos são os que A aguentam, o seu conhecido mau feitio de intempérie rígida mas quem fica ... Quem fica são sempre os mais fortes; os mais cheios, os que realmente importam.  Rijos, rectos, aéreos e complexos .

Uma grande amiga minha mudou-se agora, para ficar, espera-se... Sobre o chão de pedra montou um estúdio de paredes brancas, música certa e o movimento ideal e com ela esta nossa Sintra não será mais a mesma. Digo-vos eu... Entre o redondo das ancas, o movimento no espaço, a expressão do ar nasce uma dança, em mim, em ti e n'Ela...

Sintra. ...
Sintra! Entre as Bárbaras e as Catarinas desta vida nunca mais serás a mesma.

Voamos juntas?

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O soalho com cinzas dos pés

BÁRBARA RODHNER










O soalho com cinzas dos pés .

O alguidar que espanca o seu cabelo no chão ; esfrega.

Lava...

Larga!

Os miúdos pela mão vão-se para a cama-feita pelo pequeno-almoço de almofadas de algodão.

Eu?

Eu sou caixão ....
Coma profundo ao lado do meu próprio seio.

Dá-me Asas/ dá-me espaço.
Dá-me a tua mão...

O meio-do-meio é o meio que foi meu/teu.

 Foste/eras.?

Da-me colo; sou órfão...
pura .

Dá-me a mão ... A tua.
Dá-me o qu'é meu/teu .

(Para Alagamares; minha floresta sem FIM)

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Cores

BÁRBARA JORDÃO RODHNER
Ocorre-me a certeza profunda que eu lavo a cabelo, esfrego a pele com crina de cavalo, disfarçada, comprada no supermercado, sou torta mas uso um colete para me endireitar, aparelho dos dentes para domesticar o maroto dente que me nasceu desde que me senti eu. Sou. Estúpida ou não intelectualmente e emocionalmente, como uma bruxa que largou a vassoura e se agarrou, preguiçosamente, ao aspirador electrónico. Quando não me aceito; abdico do todo do mim.



Há mulheres assim, disformemente perfeitas, um horror para ter em casa porque não cabem em jarras nem sabem cozinhar.



Cabras.
Putas que difamam doces vaginas cheias de Mel.



Ela sou eu ou Eu sou ela?
Deusas negras. Mulheres das sombras .




 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A paixão é algo que arde sem se ver


BÁRBARA JORDÃO RODHNER
A paixão é algo que arde sem se ver. Escreveu alguém, alguém suficientemente grande para não se fazer esquecido . Eu sou ninguém mas acredito que a paixão além de arder sem se fazer ver é algo que voa demasiado rápido e se move com os ventos ; desertando casas; destituindo famílias numa desonra sem igual.


Quando morrer quero ser enterrada ao lado de quem quase sempre amei. Quero ser chamada brisa ao invés de tempestade ; se até lá viverei apenas peço que me honrem a alma.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Qualquer coisa se partiu

BÁRBARA JORDÃO RODHNER


Qualquer coisa se partiu aqui dentro quando ouvi o teu coração cair ao chão.

Apanhei os cacos, tentei cola-los, como não resultou, cozi.

Qualquer coisa se partiu em mim quando partiste o teu coração ao meio, como um pão de manteiga para me dar uma doce metade avantajada.

Estou quebrada , rebentada mas arranjada; com um braço ao peito, um pé coxo no chão, ainda assim, caminho sempre em linha recta.

Bárbara Jordão Rodhner
( depois de Veneza; 2014)

sábado, 21 de junho de 2014

Cerejas

BÁRBARA JORDÃO RODHNER


Caíram-me as cerejas quando a porta  da entrada de casa bateu. Tinha sete anos. Estava sobre o tampo de uma sanita para ficar à altura digna de um abraço adulto quando ouvi.:

" - Chegou a hora de eu partir."

Era a repetição de uma primeira vez , que eu não me lembro e faço questão de me esquecer. A partir daí a minha mãe trabalhava mais horas, e eu já não podia mais comer cerejas de boca cheia, a escorrer " sangue" ; a lavagem dos vestidos estava legitimamente controlada.

Ainda hoje tremo quando as vejo na beira da estrada ...

Aos fins de semana ia para a minha avó que corrigia testes no escritório e me deixava na cozinha entre tachos e  outras coisas como bacias que transformavam comida normal em ouro através das doces mãos da nossa querida Saravitch ( como o Joaozinho a baptizou )

- Oh menina, coma lá isso com prazer, não se preocupe com as camisas que a Sara esfrega-as tão bem que ficam a brilhar como novas!

A minha vida foi somente isto, o oposto "perfeita", sem falha de malha, entre o real e o real; mas o real em si tem tanto que se lhe diga e pode ser e é tão diferente dependendo de quem o vê.

Hoje sou "crescida", 33, Idade de Cristo , como se diz sempre por aí .

"- Podias ser mais normal Bárbara Jordão "  - Ás vezes penso de mim, para mim.

Podia; senão fossem estas cerejas que nascem e murcham a cada instante dentro de mim; esta dualidade imensa entre a inocência em si e a saudade dessa inocência que perdi.

Quando escrevo publicamente o que sinto ligam-me a perguntar .:

"- Prima, estás doente ?"

- Doente sendo isso o quê?  

"- Sei lá, triste... Deprimida...?"

- Mas se tudo o que sou e sempre fui é uma espécie de tristeza azul poética; achas que estou doente ?

" - Não ." ( sorri)

- Então ... ( sorriu também )

Amo as pessoas que amam de verdade, que se preocupam mas só até ao ponto saudável de querer confirmar que está realmente tudo bem, essas são as que me conhecem ; não gosto de quem interferem no processo criativo vivencial de cada um, acho isso uma necessidade de controlo esmagador. 

Imaginemos que ligávamos aos " mega cromos" do sucesso financeiro e lhes perguntávamos se estavam doentes por fazerem mais um milhão ?

Eu cá ligava, mas era para pedir uns míseros 1.500€ que não tenho e me fazem tanta falta para fazer umas obras na casa que com a tempestade frenética deste inverno se estragou.

Dizem sempre que o suicídio é genético , assim como o cancro, ter olhos verdes e essas tretas todas; eu acho que nunca me vou suicidar porque o meu gosto é pela vida é esse mesmo; enorme mas não por uma vida "eufórica" , estupidamente feliz,  que nos vendem nos retratos publicitários. Eu também os sei compor, repor , estudei design de comunicação , edição de vídeo e argumentação , e uso-os com prazer para depois os desfazer; é a aí que reside a lição .:

Não está, nem tem de estar sempre tudo bem! O que eu gosto na vida é essa sua franca fragilidade, como uma andorinha que voa tanto no sol como na chuva ; agora estamos bem, depois já não; paciência !  É a paixão por aquilo que não se vê , que não se explica mas que está aqui, em todo o lado , como um contorno sobre o contorno do que foi feito sem sequer ser imaginado .

Eu imagino as coisas ; coisas que, porque existem dentro da minha cabeça, passam a existir cá fora;  num lugar muito especial, só meu.

Coisas que não são para curar, nem para largar, nem para arrumar porque são as minhas coisas, as coisas que escolhi deixar ficar porque me distingue dos demais.

Quando deixei de poder comer cerejas porque sujava realmente muito a roupa que a minha mãe limpava , sozinha e cansada, passei a coleccionar selos; assaltava caixas de correio e tirava-os com uma pinça e vapor de água quente ( depois devolvia as cartas , juro!)  passei a cola-los todos  num caderno preto improvisado e garanto-vos, com toda a inocência que ainda existe no meu ferido coração , lambe-los sabia-me a cerejas e limão *

domingo, 11 de maio de 2014

Perigoso- um poema de Bárbara Rodhner

BÁRBARA ROHDNER






mete aqui o pé que eu como-te.

os homens estão moles,
as mulheres também.

Vive-se numa época de mijo - xisto que eu abomino

Quero a Silvia Plath de volta assim como a Virginia!
Não é justo que mulheres interessantes morram-mortas-suicidas pela ausência de seres que as fodam-com-poesia-e-tremores.

terça-feira, 11 de março de 2014

Novo texto de Bárbara Rodhner

BÁRBARA RODHNER



Sentada no sofá vejo ondas que invadem praias, engolem bares.

Sinceramente? Não sinto nada. Parece-me tudo tão previsível como o viver dentro da boca-vulva de um vulcão e chorar a sua erupção.

Qual é o risco de amar uma mulher bonita? O mesmo que se paga por habitar, domar, os locais mais invejados.

O Homem chora, eu não.

Frigida! - acusei-me.

Olho para o chão e vejo uma pequena sombra; Filho de peixe sabe nadar. Fugiu-me uma cria... Está parada, paralisada, encostada à parede fria.

- Mãe ... Vamos todos morrer?

A cara branca, os olhos de cão , a faca que me rasga. Afinal estou viva. Revejo naquela expressão-rija-tensa todo o pânico que senti no dia em que descobri que não somos imortais.

Não fui capaz de mentir.

- Sim; Vamos todos morrer.

- Quando?

- Não sei.

- podemos ir juntos ? ...

...

A mulher é este vale-montanha, com o seu lado lunar, azul corvo, metálico, frio, e o seu lado solar, quente, árido, amarelo inflamado, encarnado.

Chorei.

Perco-me no meu pensamento.

Regresso.

- Mãe , quando ?!

Traumatizei o meu filho mas não sou capaz de mentir. Mentir é adiar a verdade que virá naturalmente ao de cima como o mar engole a terra.

- Quando chegar o nosso dia.

Ele suspira. Eu também. Damos um abraço com apenas uma certeza:

Somos mortais; vivemos enquanto temos oportunidade.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Quero ser feliz


BÁRBARA JORDÃO RADHNER

Há quem se queixe desta crise; Compreendo...

Gasto em média setenta euros de sete em sete dias só em legumes e fruta para encher o papo dos periquitos que vivem dentro do meu ninho; fora o resto mas o resto que fique fora deste (con)texto. Escrevo não para reclamar mas para relembrar que a crise é uma situação em tom de bola de sabão junto ao riacho real que invade a minha alma, agora. Quando escolho olhar o dia longe da densidade em que se enquadram as notícias da caixa quadrada que opto por desligar e calar com o pé e com a mão, escolho-me. Quero ser feliz; Ponto.

Procuro em mim a capacidade de renovação; o que me move? Toco-o.

Tenho aulas de piano a troco de um valente abraço, umas moedas e sobretudo muita atenção. Se é tempo de ficar por casa, fico, mas n'outra condição. Escolho cada pensamento que me invade como uma frenética dona de casa escolhe o pano com que lava o chão.

Quero ser feliz, já disse;Ponto!!!

A minha vizinha recicla um pseudo iPad,iPode,iPede, fico com ele sem qualquer pinga de vergonha, encaixo-o no pc e encho-o com músicas novas, levo-as comigo, junto ao coração. Não tenho medo do escuro, não tenho medo da crise, recrio-me em cada canção e quanto mais procuro na música uma meditação mais entendo que a minha alma simples se move e comove não com o enrodilhado complicado mas com aquilo que se trauteia gentilmente quando se está apaixonado. É tão simples ser feliz; basta escolher; descomprimir.

Aconselho, para ouvir:


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Passei o dia na serra

BÁRBARA RODHNER





Passei o dia na Serra;

Aquilo que antes me metia medo fascina-me,

Sinto a carne viva, o sangue que escorre, o sustento da vida, incrivelmente já não tenho frio, é a alma que se enrola, aninha, brilha, são as correntes do rio-riso-puro que atravessam através, entre, por dentro de.

Fundo-me; perco-me para me encontrar acertivamente. Oiço rãs, vejo sapos; piso poças, sinto lama; terra, solta, Natureza viva, morta; caminho, entro, mergulho, fundo, nunca me lembro da hora do regresso, ignoro o tempo, o prato-descalço por lavar; observo as árvores; dançam! A bruma que esconde; portas, janelas, cantos, montes! Atravesso um riacho de olhos fechados, estendo as mãos aos céus, encolho e estico o peito, observo; ouroboros, movimento circular; octogonal, central, nasal, funcional! Sinto o Tudo e integro o Nada; depois choro... Choro muito, choro tanto! O encanto, a beleza, a solidão; Por onde andei?! Onde me perdi?! Quem esqueci?!

Abraço uma Raiz. 

Martela-me um impulso, cru, deito-me. Desejo dormir uma sesta mas ao invés disso escuto, oiço, vejo; Capto o mundo como ele verdadeiramente É, tão maior que eu e os meus pequenos pés, tão maior que o vizinho e o seu carro encarnado, tão maior que o amigo e o seu stress diminutivo. A terra gira, movo-me com ela, n'Ela, por Ela; as pedras, as rochas, as árvores, (outra vez as árvores!) permanecem "de pé", cantam, sem medo, as torturas da sua alma, o que nós lhe provocamos... Ainda assim libertam, gentilmente, oxigénio puro para nós vivermos; alimentam-nos, sem vingança, os sonhos que nos provocam e movem! Estabilidade debaixo da sola das botas; mantenho-me, firme-fico. Choro mais um pouco e tanto é mesmo tanto; Cada vez mais...

Resumo, seguro; agora que VI não posso esquecer;  não estou preparada para morrer; vou ficar aqui uns largos anos, ponto. Com família, inteira, coesa, unida; concreta-amiga; por eles, por nós; Pendentes no mesmo ponto; o Centro.

Deus no Vento.

Mãe na Terra.

A Nossa Serra...

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A caça às bruxas

BÁRBARA JORDÃO RODHNER


No outro dia sentei-me no jardim para contemplar os pássaros.

Há muito que a Natureza é a minha via. Uma concha que se enrola, internamente, em espiral como a ponta dos dedos da minha mão são provas vivas e infinitas de que Deus, em qualquer formato, Existe.

Qual meu espanto quando um vizinho, homem de Cristo, se aproxima para trocar ideias, um vizinho que eu admiro, que escuto, um vizinho que nem é velho, antigo ou antiquado, é um Homem que se tenta apresentar e se experimenta, muitas vezes ou quase sempre, por aquilo que se chama, no comum do inconsciente, o Bem. Falamos sobre Arte, como se apresenta A arte e o meu corpo foi rasgado, trespassado, com facas afiadas e finas de forma lenta mas atenta.

"A Arte, é quase sempre e toda Obra inteira do Diabo. Tudo o que está bem escrito, tudo o que está perfeito é d'ele. Ele mora nos detalhes."

Fiquei sem palavras, não apenas naquele momento, mas n'uma semana inteira, se O Diabo mora na escrita, na poesia, na dança, na música; QUEM SOU EU?

Que Deus é esse que me fez à sua imagem e perfeição, me deu olhos para chorar, braços para dançar, corpo para amar, e depois me "acusa" de pecar por Ser Criadora como o meu próprio Pai, aquele... "que me Fez á sua Imagem"?

Calei.

Calei e comi.

Calei e engoli.

Calei e digeri.

Calei mas vomitei.

Sou livre!

Sou livre para discordar, sou livre para amar a Arte e toda a Natureza como quem ama Jesus e ama a sua Cruz.

Se há historia e livro mais morbidamente bem contada e escrito é esse mesmo, a Bíblia que tem como protagonista esse Ser mágico que eu tanto admiro mas chega de fanatismo! Chega de d-i-v-i-s-ã-o, de discórdia, de matar em nome de.

Sou tão filha perfeita quando recuso uma ida à missa com a benção de uma mão alheia como qualquer um que vá e não entenda ou oiça absolutamente NADA do que lá foi dito.

Sou tão pura e inocente quando me ajoelho na terra húmida e escura dando graças ao que Ela me dá como qualquer um que chore em frente á imagem linda de uma Virgem Maria.

Sou tão inteira e única quando me desmancho, me confesso, me condeno e peço perdão dentro das paredes da minha casa entre a minha família como qualquer um que o faz n'um confessionário. Se foi Jesus que disse eu repito.:

"Somos todos irmãos." Sejamos então.

Que o julgamento entre nós se desvaneça como as rochas se transformam em areia; isso sim É OBRA DE DEUS, que cada um seja livre para encontrar a SUA oração, o SEU Templo, a SUA Missão.

Se eu sinto Deus em todas as coisas vivas, se o sinto em cada artista, até mesmo num "vilão", como posso eu ser demoníaca?

Olho o mundo todos os dias e até neste encontros "menos felizes" vejo A sua Obra; absolutamente PERFEITA, sem ponta de mancha.

Obrigada Irmão por me mostrares o caminho, o MEU caminho:

(Dead can Dance By Pina Bauch)
Por Barbara Jordão
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