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segunda-feira, 13 de julho de 2015

Festival de Sintra, cinquenta edições, milhentos cuidados

JOÃO CACHADO 
 
No ano passado, depois de ter anunciado que, em 2015, para celebrar a sua quinquagésima edição, o Festival de Sintra contaria com todos os meios adequados – chegando a dar como exemplo o incomparável caso de Salzburg, e assim usando uma hipérbole que expressava a inequívoca disposição e a conforme disponibilidade de o executivo autárquico se adequar ao desafio – o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sintra criou a natural e boa expectativa que, de facto, esta iniciativa cultural merece.
Convenhamos que não se afigurava fácil a tarefa, tanto mais que se acrescentou a responsabilidade de contar com a Senhora Marquesa de Cadaval, a mais desinteressada mecenas a quem o Festival, Sintra e o país tanto devem, como figura tutelar deste jubileu. Na sua condição de mais antigo e mais prestigiado do país, eis o Festival de Sintra, com pergaminhos tais que, para estar à sua altura, preciso é trabalhar com a fasquia muito alta, em todos os domínios, desde a concepção do programa e sua coerência temática, ao contrato atempado dos artistas e, necessariamente, até ao detalhe de todos os aspectos organizativos.
Pois bem, tendo terminado no passado dia 6, é tempo de partilhar algumas ideias, não à guisa de formal avaliação mas, tão somente, com o propósito de que, acerca da quinquagésima edição, fiquem elas alinhadas à consideração de quem pode e deve concluir se os objectivos inicialmente formulados terão sido alcançados e, eventualmente, em que medida poderão ser rectificados alguns procedimentos.
Não me deterei em referências a qualquer dos eventos já que, em tempo oportuno, tanto no Jornal de Sintra, sobre o concerto de Abertura como, posteriormente, nas redes sociais, me fui pronunciando à medida que iam sucedendo. Tal não significa que me furte a indicar momentos ou circunstâncias que considero terem constituído pontos mais altos e menos positivos do Festival.
Deixem-me, porém, voltar à questão dos pergaminhos para vos confessar que, por vezes, chegam a intimidar. É que, pelo Festival de Sintra, passaram só os melhores do mundo, desde maestros, a pianistas, violinistas, violoncelistas, agrupamentos de câmara, orquestras, etc. É verdade! Há poucos dias publiquei o palmarés que impressiona qualquer melómano por mais rodado que seja…
Gostaria de confirmar que o tal prevalecente propósito de estar à altura do passado, não equivale à absoluta necessidade de contratar galácticos de nível idêntico. Absoluta e inequivocamente indispensável, isso sim, a manutenção do maior respeito pelo serviço à Arte e nenhuma concessão à facilidade, ao improviso ou à falta de dignidade na celebração da grande Música.
2015, altos e baixos
Em geral, nada houve que tivesse posto em causa os exigentes e exigíveis padrões de qualidade. Pelo contrário, momentos como o do recital inicial de Nelson Freire, no Centro Cultural Olga Cadaval, ou de ambos os concertos que contaram com Olga Prats, no Palácio da Vila bem como, na Quinta da Piedade, os eventos com o Quarteto Moscovo e o recital do pianista Jeffrey Swann, incluíram momentos da maior elevação. Pelo contrário, infelizmente, terei de registar – não inerentes a momentos de vivência musical mas a falhas de organização – circunstâncias que, de todo em todo, por não terem sido evitadas, afectaram o usufruto do público.
Muito especificamente, mesmo não entrando em pormenores, de referir uma série de indícios de manifesta escassez de recursos que acabariam por  comprometer o nível desejável. Desde os pianistas que, na maioria dos casos, não tinham quem lhes virasse as folhas das pautas, até aos programas de sala e programa geral, paupérrimos, pouco mais se limitando do que ao registo das biografias dos artistas, estivemos perante uma indigência que, hoje em dia, é raro encontrar.
Não esqueçamos que, além de lugares geométricos de relação com e de partilha da Música, um recital, um concerto, um festival também são lugares de aprendizagem, de profundo enriquecimento pessoal. Para o efeito, suposto é que os programas impressos se apresentem e sirvam como elementos imprescindíveis do acesso às obras, para consulta no momento e memória futura. Nos programas da 50ª edição do Festival de Sintra nem uma palavra sobre as peças, nada sobre os compositores, e, francamente, muito pouco, praticamente nada sobre a grande homenageada, a Senhora Marquesa de Cadaval.
Ainda de registar uma falha de organização que terá impedido a apresentação dos Carmina Burana, de Carl Orff, tal como anunciava o programa do concerto de encerramento, com a Banda da GNR, as vozes solistas de Ana Paula Russo, soprano, Mário João Alves, tenor e Armando Possante, barítono, bem como o Coro Lisboa Cantat. Em sua substituição, imprevistamente e sem qualquer relação programática, cronológica, temática ou outra, a referida formação musical apresentou peças de Samuel Hazo, Schostakovitch, Duarte Pestana, Saint Saens, Manuel de Falla e Tchaikovsky.
Sob a designação de Contrapontos, as conferências e concertos por bandas filarmónicas correram de forma bastante satisfatória. Entretanto, a transmissão televisiva dos eventos do Festival para as comunidades – em diferentes pontos do concelho, via streaming, em directo ou diferido – foi um programa que deu uns primeiros e tímidos passos que será necessário melhorar significativamente para que o resultado ora perspectivado seja efectivamente alcançado.
Em suma, uma edição do Festival de Sintra cujo interesse, num ano particularmente crítico de celebração e de homenagem, foi potenciado pela efeméride que alimentaria expectativas algo mitigadas por dificuldades que importa avaliar convenientemente.
Tal como tenho vindo a insistir em diferentes oportunidades, considero de toda a pertinência de operacionalizar o funcionamento permanente de  pequena equipa, não mais de dois elementos, exclusivamente afecta à preparação de todas as operações de uma iniciativa cultural com o gabarito que o Festival de Sintra já teve e que cumpre recuperar a todo o transe.


quarta-feira, 29 de abril de 2015

A política e os políticos

EURICO LEOTE


Os políticos são essencialmente e exclusivamente políticos, e só sabem fazer política.

Fazem em primeiríssimo lugar a sua política pessoal, depois a politica dos familiares e para os familiares e amigos, e por último a politica daqueles que os mantêm e alimentam, apenas interessados na política praticada pelos ditos políticos, no que concerne às suas pessoas.

A política é suja. Os políticos são corruptos. Os amigos dos políticos são sabujos. Os que alimentam e mantêm os políticos são vampiros. Os políticos são vis e torpes. Manipulam opiniões públicas, praticam a política do obscurantismo. Escondem-se atrás de políticos pseudo sociais a troco de votos não esclarecidos, comprados, chorados sob a ameaça de tumultos, da fome e da instabilidade social.

Os políticos perpetuam-se no poder com falinhas mansas e pezinhos de lã, e pela força da força e das armas. Os políticos vendem a alma ao diabo para poderem continuar a sua carreira politica assente no poder. Surgem na politica e para a politica vindos do nada. Mentem e espezinham para se fazerem afirmar como os doutos, os sábios, os únicos, os dotados, os iluminados. Fazem passar a todo o custo essa mensagem. Alienam com a não informação. Dizem descaradamente que o povo não está preparado. Não está, nem nunca estará, pois é esse o interesse primeiro da politica. Se todos soubessem o mesmo, outro galo cantaria. E todos seríamos galos e aí o mundo dos políticos afundar-se-ia. Deixariam de se vender gravatas, sorrisos e discursos. As palmas, abraços e palmadinhas nas costas entravam para saldos ao preço da uva mijona. Os políticos fechavam a loja e abriam falência. O séquito de seguidores juntava os trapinhos, arrumava a mala e ia pedir esmola para as esquinas dos prédios. Se calhar nem para isso serviam, pois nem para isso têm engenho. Só sabem tirar e roubar, sem pedir, nem justificar.

Que vivam os políticos enquanto não morrem.

domingo, 26 de abril de 2015

Imediato!

JOÃO CACHADO
De tal modo foi o eco do “Inadiável!” que, na sequência de alguns comentários extremamente pertinentes, subscritos por conhecidos sintrenses, me senti obrigado a continuar a matéria então tratada e, se não a acrescentar, pelo menos, a recordar e sublinhar soluções que, há tantos anos, tenho advogado e partilhado com os meus leitores.


Funicular? Dar tempo ao tempo


Primeiramente, gostaria de esclarecer que a minha opinião, contrária à da Câmara Municipal de Sintra, que pretende instalar um teleférico entre São Pedro, Santa Eufémia e a Portela de Sintra, de modo algum, poderá ser interpretada como coincidente com outra, que subscrevo, em relação ao funicular. Há, de facto, uma distinção que cumpre assinalar inequivocamente.
Se, quanto ao teleférico, a solução se me afigura inadequada em relação ao objectivo que a autarquia se propõe resolver, isto é, do transporte expedito e rápido dos visitantes à Pena, na medida em que põe em causa e, inclusive, agride valores históricos e paisagísticos que, até ao presente, foi possível manter intactos, já no que respeita ao funicular a sua viabilidade apenas estará comprometida devido à abundante existência de vestígios arqueológicos.
 Por outro lado, acerca da posição do Doutor José Cardim Ribeiro, se “(…) me rendo, total e boamente perante a impossibilidade decretada pelo famoso arqueólogo (…)”, palavras que  subscrevi no artigo acima mencionado, tal não significa que, futuramente, depois de ter disposto do tempo imprescindível ao diagnóstico exaustivo mas sereno de todos os factores em presença, arqueológicos e outros, não venha a ser possível encarar devidamente a sua adopção.
 Também estou em crer que se encontrará uma alternativa viável, através de um circuito que se venha a revelar compatível com as circunstâncias, sem temer que, em Sintra, o funicular possa vir a matar a galinha dos ovos de ouro, animal e produtos estes que jamais foram postos em causa nos locais em que o funicular tanto sucesso conhece… Portanto, e sempre no respeito pelos interesses da História em geral e da Arqueologia em particular, a instalação do funicular, ainda que pertinente, poderá esperar por melhores dias.
A verdade é que, repito, Sintra não aguenta qualquer adiamento relativamente à instalação dos parques periféricos de estacionamento, dissuasores do acesso das viaturas particulares ao centro do burgo, razão sine qua non para advogar a sua imediata construção, e aí concentrando todos os esforços e todos os recursos, sem a mínima distracção.
É nela que radica o sistema integrado de estacionamento-rede de transportes públicos que poderá resolver a expressiva maioria dos urgentes problemas de mobilidade em que Sintra se enredou. De acordo com o que desde sempre tenho defendido e insistido, esta, sim, é a solução. (1)
E, na realidade, cumpre não esquecer que a estratégica instalação dos parques periféricos constituirá a estrutura de base em que se alicerçará a rede de transportes, – nas zonas de Lourel (Santa Maria), Ribeira (São Martinho) e Ramalhão (São Pedro), a montante das entradas de acesso à sede do concelho, bem como as bolsas de proximidade, nomeadamente, uma junto à estação da Portela e outra adjacente ao edifício do Urbanismo  – constituirá a estrutura de base em que se alicerçará a rede de transportes.


Sintomático? Talvez não…


Permitam que, acerca daquele espaço, vos confronte com uma notícia da Lusa que ontem – escrevo no dia 24 – era veiculada pelo jornal Público. Há escassos quatro meses, durante uma 'Presidência Aberta', o Senhor Presidente da Câmara anunciou que “(…) a autarquia já não tenciona construir um silo de estacionamento na Portela de Sintra, onde irá apenas reordenar o actual parque junto ao edifício do urbanismo. (…)”
Tratava-se da concretização de um projecto cujas características, muito menos ambiciosas, de modo algum, coincidem com as deste. Não vale muito a pena nem estou particularmente interessado em especular sobre as motivações que terão presidido a alteração tão substancial da decisão inicial.
A verdade é que, no caso precedente, as obras, estavam a cargo dos serviços camarários, limitando-se a uma requalificação do recinto. Agora, infere-se que a concretização deste dependerá de investidores privados, aumentando a dimensão para o dobro da capacidade, com restaurantes, zona comercial, e jardim suspenso. Ou seja, transfere-se para a Portela a solução que esteve pensada para o Vale da Raposa, lembram-se?
Agora, o anúncio deste determinará um adiamento imprevisível em relação ao anterior, já que pressupõe uma intervenção muito mais «pesada». Enfim, sem que me possam apontar qualquer espécie de espírito menos colaborante, não posso deixar de me interrogar, não só quanto às vantagens de complicar a proposta inicial, embora de menor capacidade de estacionamento, mas também relativamente às perniciosas consequências do atraso em perspectiva.
Porque não manter a requalificação do parque anunciado durante a ‘Presidêmcia Aberta’ e, em simultâneo, aumentar a capacidade do Parque da estação da CP Portela, parques baratos, à superfície, expeditos, operacionais, sem investimento significativo?
Parques dissuasores, complementos & suplementos

Volto já ao cerne das questões que vinha conjugando antes do subtítulo precedente. Por si só, contudo, o sistema em apreço só pode ser encarado como globalmente estratégico se, a propósito, apesar de já não sei quantas vezes ter escrito acerca do assunto, lembrar que, em determinadas artérias do centro histórico, a circulação de viaturas particulares, pura e simplesmente, deverá ser interdita e, tão somente, autorizada a residentes, comerciantes, veículos prioritários e congéneres universalmente considerados em situações análogas.
No artigo anterior, se bem lembrados estão, referi a fundamental proibição de circulação na Rampa da Pena. Mas não se pode ficar por aí já que a montagem de um dispositivo integrado desta dimensão pressupõe outras atitudes semelhantes e indubitavelmente complementares. Por exemplo, o caso do eléctrico é paradigmático.
Como me afiançou o Senhor Vereador com o Pelouro da Mobilidade Urbana, se a Câmara Municipal de Sintra pretende prolongar a linha do eléctrico até à estação terminal da CP e Vila Velha, num prazo tão curto como os dois anos e meio que ainda faltam para terminar o actual mandato do executivo autárquico, ou seja, até ao fim de 2017, pois então tal projecto só será concretizável, precisamente, mediante o condicionamento do trânsito na Alfredo da Costa, Miguel Bombarda e Volta do Duche...
Por outro lado, tudo quanto venho lembrando e veementemente sublinhando, deve articular-se com a resolução de um problema tão simples (!?!) como o da implantação de um civilizado regime de cargas e descargas, considerando um horário adequado às novas exigências suscitadas pela solução integrada dos parques periféricos e bolsas de proximidade. É, meus senhores, a perspectiva sistémica ditando a operacionalização e a viabilidade das medidas.
E, neste ínterim, importa ter o passado bem presente. Em anteriores intervenções, como a da pedonalização da Heliodoro Salgado ou, mais recentemente, aquando da infeliz supressão da ponte metálica, se tivesse prevalecido uma perspectiva sistémica, tanto na fase de diagnóstico como na da subsequente concretização das decisões, não estaria a Estefânea e a Portela de Sintra na lamentável situação em que se encontram. Neste domínio da mobilidade, incalculáveis são os custos quando se toma determinada medida isolada dos contextos tanto a montante como a jusante.
Espanto-me, isso sim, como, em Sintra, temos incorrido em erros tão sistemáticos e, por vezes, tão grosseiros, se dispomos de tão bons técnicos nos serviços, boa gente que conhecemos e respeitamos, técnicos que dominam todo este saber fazer muito melhor do que eu jamais saberia expressar. Neste enquadramento não consigo deixar de partilhar convosco a inocente pergunta constante do parágrafo seguinte.
Perante o leque das opções técnicas que, ao longo dos anos e de sucessivos mandatos, lhes têm sido apresentadas, e em função de compromissos de ordem vária que não souberam ou não quiseram contornar, não terá acontecido que os decisores políticos impuseram, aos serviços e à comunidade, soluções tão prejudiciais à qualidade de vida dos sintrenses e visitantes?
Se, a nível nacional, multiplicarmos pelos n casos que nem nos atrevemos a imaginar, e, nessa operação, não nos esquecermos de incluir os locais donos disto tudo, entre outras, as  conclusões, também nos remeterão para a ideia do prejuízo pelo qual se traduz a ausência dos cidadãos da vida cívica em que deveriam estar envolvidos, não fossem as razões que desfavorecem a concretização de tal civismo em acção. Pois é, níveis de escolaridade diminuta ou muita limitada, preocupantes índices de literacia, modelos sociais desviantes, enfim, contas de um rosário outro a que muito se resume o nosso lusitano fado…
Finalmente. A terminar, não tenho palavras para vos dizer da minha preocupação relativamente aos períodos quentes que se avizinham em termos da demanda turística. Sei que também a União das Juntas de Freguesia de Sintra está a fazer diligências no sentido de articular as suas justas preocupações no âmbito do estacionamento e da circulação, com a Câmara e com as polícias. Para satisfação do interesse geral, espero bem que os esforços de todos sejam coroados de êxito.
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(1)
Não gostaria de vos maçar com a indicação dos artigos que, em tantos e sucessivos anos, sem qualquer ponta de originalidade, me pronunciei acerca da estratégia dos parques dissuasores. É escusado, creio, os leitores sabem o que tem sido a minha luta a favor de uma forma civilizada de viver a urbe e, em simultâneo, de defender o seu património, bem como propondo as melhores condições possíveis para o usufruto dos bens culturais em que Sintra é tão pródiga.  

terça-feira, 21 de abril de 2015

O Espírito da Europa

MIGUEL REAL

Da abundante literatura sobre o tema, ninguém melhor que George Steiner definiu a Europa de hoje: a Europa é um “lieu de mémoire”, assim mesmo, escrito em francês como homenagem à língua de Descartes, de Napoleão e da “Razão Universal”. Com efeito, provocatoriamente, poderíamos postular que, das três dimensões do tempo, nenhuma se harmoniza melhor com a Europa que a do “passado”, e um passado tão cheio, tão absoluto, que outro continente não existe com tão grandiloquente e realizador passado.

Improvisada a cada momento do tempo pelos diversos países constituintes, sacudida permanentemente pelos contributos cruzados e desencontrados do sul (da Itália renascentista, resgatadora inicial da cultura greco-romana, seguido da expansão ultramarina de Portugal e Espanha, até ao final do século XVI) e do centro e do norte (a II Expansão Ultramarina protagonizadas pela França, a Inglaterra e a Holanda; a revolução francesa iluminista e burguesa e a revolução industrial inglesa), a Europa tornou-se não só a criadora da imagem geográfica e cultural do mundo que hoje possuímos como transmitiu a este, historicamente, mal e bem, as suas categorias sociais e as suas estruturas mentais. Daquelas, realça-se tanto a diferencialidade marcante em classes e grupos sociais e étnicos (que o século XIX e a primeira metade do XX designarão por “colonialismo”), quanto a capacidade singular do indivíduo, pelo mérito, pela manha ou pela especulação, estilhaçar as fronteiras da distinção social (que os séculos XIX e XX designarão por “individualismo” e “liberalismo”). No que se refere às estruturas mentais, a Europa espalhou no mundo, como um vírus, uma íntima inquietação metafísica marcante e uma vontade de progresso que se encontram na base ontológica do húmus do pensamento crítico que a tem constituído. No entanto, indubitavelmente, a Europa foi feita sem plano, falhando nela todas as previsões históricas de longo prazo:

a. - falhou a perpetuidade dos valores metafísicos do catolicismo medieval;

b. -  falhou a predominância do classicismo italiano;

c. - falhou a superioridade dos valores cristãos protestantes ingleses e alemães;

d. -  falhou a soberania da ética burguesa mercantil e a pureza de uma razão científica iluminista e positivista;

e. – falhou o sonho visionário comunista de igualdade social absoluta.

Em cada fracasso, porém, como o pelicano que extrai carne do seu próprio peito para alimentar as crias, ou como a Fénix que em cada morte renasce das cinzas, a Europa ressuscita diferente a cada momento e porventura mais sólida e mais forte face ao futuro, ainda que, face ao passado, mais existencialmente desorientada.

À semelhança dos tempos romanos e medievais, a Europa arrasta hoje às costas o gigante que é o passado constitutivo da sua verdadeira essência. Se o passado o tem bem conservado em museus, monumentos e, sobretudo, na prática diária de vida, os sonhos de futuro que a Europa sonha, esses, têm sido realizados, desde o final da II Guerra Mundial, por outros, nomeadamente os Estados Unidos da América, mas também, no estrito campo da tecnologia, pelo Japão e pela Coreia do Sul, e, recentemente, pela Índia, em parte pela China e, também em parte, pelo Brasil. 

Neste sentido, a Europa é, hoje, um estado de espírito que, gerado nas suas entranhas ao longo de cerca de três mil anos, amassado a sangue, a fogo e a felicidade, se generalizou pela totalidade do mundo numa fúria devastadora de religiões, tradições, línguas, culturas e costumes locais, nivelando os continentes segundo a luz da propriedade privada e da razão contabilista (ou, para falar a linguagem de Heidegger, a razão “calculista”; ou, segundo H. Marcuse “a razão unidimensional”, ou, se permitem citar um filósofo português, José Enes, a “razão funcionalista”, a razão eficiente do Estado).

Deve a Europa respeitar e orgulhar-se dos seus feitos passados:

- primeiro, de criadora dos valores que se encontram na base permanente do Humanismo, da defesa da liberdade e dos direitos humanos e ambientais;

- segundo, de mediadora entre continentes, culturas e religiões, criando o actual arquipélago de continentes a que chamamos Terra;

- terceiro, de instauradora de uma nova ordem no mundo, uma ordem racional e mercantil, a primeira ordem global, de tendência humanista, socorrido do espírito missionário da religião cristã.

No entanto, a Europa não deve orgulhar-se nem deve venerar os meios utilizados (a guerra, o genocídio, a substituição violenta de culturas e religiões, a criação da escravatura industrializada, a rapina dos recursos naturais, a destruição de habitats ecológicos). Por este motivo, tão positivo quanto negativo, deu-se à ordem mundial assim instaurada, de que Portugal foi cabeça e motor, o nome de “ocidentalização do mundo”, radicalmente diferente da actual globalização; a nossa “globalização”, de origem ibérica,  possuía uma tendência espiritual e humanista, inclinada a salvar o outro, o bárbaro, o pagão, o incréu, o ímpio, o gentio, o não-civilizado; a segunda, possui um explícito carácter materialista, desprovido de qualquer laivo de transcendência.

Por isso, G. Steiner identifica o espírito da Europa com a cultura nascida no e pelo “café”, entendido este como um lugar livre de meditação, de escrita e de discussão ou debate de ideias. De outro modo, acrescentamos nós, o símbolo da actual globalização identifica-se com a Coca-cola e o McDonald’s, símbolos do hedonismo individualista. Com efeito, para a antiga Europa, a ideia circulada pelos cafés constituía a essência, ateia ou religiosa, por que o cidadão instruído via o mundo, lutando e morrendo pela sua dimensão política. Onde Steiner escreve café, podemos nós, também, escrever a “ágora” grega, o “forum” romano, o átrio da igreja, o claustro do convento, o rossio da aldeia ou vila, a albergaria ou a pousada acolhedora de desconhecidos e o botequim dos séculos XVII e XVIII, antecessores do “café”, nascido e generalizado nos séculos XIX e XX. Não fala Steiner, injustamente, dos corredores e das celas dos conventos e, hoje, dos gabinetes das Universidades. Em todos, é comum o encontro, a partilha de inquietações e descobertas, a generalização de saberes, o entusiasmo na aceitação da ideia nova, a mordacidade e a sátira de grupos e tipos sociais decadentes, a liberalização de costumes, isto é, a concretização social do espírito crítico.

De facto, que espírito é esse que, mais do que em foro privado e íntimo, se centra recorrentemente no espaço público e que presta contorno de figura relevante à Europa, simultaneamente que lhe faz pulsar acelerado o coração? Que forma mentis é essa que forçou Ulisses a penar uma viagem de dez anos e Xenófanes de Cólofon a clamar que se os bois adorassem deuses estes teriam necessariamente cornos? Que sopro da consciência é esse que forçou Antígona, uma mulher, a revoltar-se contra o Estado, que a proibia de enterrar o corpo defunto do irmão? Que ânimo vital é esse que fez nascer o Homem da revolta contra os deuses (Prometeu), roubando-lhe o fogo do pensamento (a razão) ou recebendo destes o fruto do conhecimento (Eva e Adão)?

Esse quid que fez e faz a Europa, e tão integral e puro não existe em outro continente, consiste no puro nada sem conteúdo nem forma que se dá pelo nome de inquietação, de frenesi de conhecimento, de desejo de saber, de questionamento, de substituição da certeza pela dúvida, da resposta definitiva pela pergunta anómala, por vezes e aparentemente sem sentido, da substituição da aceitação crédula pela crítica demolidora. Numa palavra, pela realização do sentimento que os filósofos designam por “espanto”, a capacidade de assombramento pela existência das coisas, assim mesmo como são e estão e por que não são e estão de outro modo, ou, numa frase lapidar, escrita por Leibnitz há trezentos anos, “Porque existe o ser e não o nada?”, ser que pressupõe ordem, organização, estrutura, e não o nada, que pode pressupor também o caos, a desordem anárquica.

Numa palavra sintética, a Europa é o lugar da formação do saber gerado como resposta (sempre inconclusiva) a esse espanto:


a.     o lugar da filosofia (a interrogação fundamental)

b.    o lugar da ciência pura (desinteressada, o porquê das coisas individuais)

c.     o lugar da poesia (a projecção lírica ou trágica do sentimento do espanto)

d.    o lugar do romance (a projecção da aventura de uma consciência em processo de descoberta e conhecimento concretos)

e.     o lugar do ensaio (a projecção da aventura de uma consciência em processo de descoberta e conhecimento abstractos)

f.      o lugar da arte (a cristalização do sentimento de espanto em papel, tela, som, cores, formas da realidade).

Neste sentido, a Europa é o continente do inútil, do que não é absolutamente necessário à sobrevivência do homem, do supérfluo, do gratuito, do vão, isto é, da filosofia, da ciência pura (desinteressada de efeitos materiais), da poesia, do romance, do ensaio e da arte, que, sistematizados em configurações técnicas conjunturais, classificados, dispostos em correntes, logo sofrem de decadência, substituídos por outras filosofias, outras teorias científicas, outras formas de poesia, romance e arte.

Porventura melhor do que todas as outras, a forma do ensaio define a forma mentis da Europa – pensamento crítico descomprometido que avança tacteando pontos de apoio, atingindo instáveis certezas, logo traduzidas em incertezas, mas visíveis e sólidas plataformas para novas buscas, que de imediato se transfiguram em outras tantas dúvidas, algumas logo negadas, outras reafirmadas com grau rijo de ambiguidade, até se atingir uma certeza mais firme que todas as restantes, que, com algum grau de convicção, declaramos ser a verdade. A Europa é o único continente que sabe, hoje, que a verdade consiste na forma provisória da não-verdade.

De facto, qual a diferença entre a Europa e a cultura dos restantes continentes? O que a estes lhes faltou percorrer que os europeus já percorreram? Que experiência nova trouxe a Europa ao mundo, não vivida pelos restantes continentes? Falta-lhes ter atravessado o mundo, fazendo-o nascer para a consciência da humanidade, no que se formou e consistiu o espírito europeu da Idade Moderna. Falta-lhes, nesta travessia, o primitivo sentido aventureiro e trágico da viagem.

Tal como o ensaio no plano teórico e filosófico, a viagem torna-se, no sentido cultural, definidora do homem enquanto ser primitivamente nómada. Com efeito, viajar é imaginariamente retornar a esse estado de absoluta imprevisibilidade que definiu o homem pré-histórico e que nos definiu como animais humanos ao longo de cerca de 200 000 anos. Se não nos ficou nos genes, a viagem ficou-nos nos arquétipos imagiológicos reitores do inconsciente.

Em essência, a viagem ou o estado de nomadismo reside na imprevisibilidade, na ausência de qualquer plano prévio excepto a demarcação bem precisa de um objectivo final, que nos nossos patriarcas, habitantes da pré-história, se deveria circunscrever à busca de alimentos, isto é, de territórios onde abundasse água, carne, frutas, cereais. Não é impossível que a nossa visão do Paraíso, recorrente em todas as épocas e em todas as épocas adornada de novas qualidades, possua a sua mais arcaica fonte imagética nessa interminável busca do homem primitivo, seguindo sem cessar manadas sem, ao mesmo tempo, se afastar dos cursos de água.

Desse penar infindável, em termos de forma imagética, se alimenta a Ilíada (o livro mais livro da cultura europeia, verdadeiro arquetípico desta cultura) e o périplo imprevisível dos dez penosos anos de Ulisses, estatuindo-se como paradigma cultural da nossa civilização. Ítaca, por seu lado, gravou-se na literatura de todos os tempos como imagem substituta do Paraíso. Se atentarmos no itinerário físico e existencial de Ulisses e o compararmos com outras narrativas modelares da viagem, como a Eneida, de Vergílio, a Navegação de São Brandão, o Conto de Amaro ou Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, constatamos que no coração de todas estas obras reside a imprevisibilidade enquanto estado humano de absoluto inesperamento, de fortuitidade, de acaso, de percurso animado de múltiplos acidentes e peripécias que desviam o herói de atingir o seu objectivo, atrasando-o, jogando-o por caminhos e situações insólitas e por sentimentos e estados interiores que lhe são totalmente desconhecidos, forçando-o a ceder ou a resistir, a recuar ou a avançar, a hesitar e a conciliar, no que foi definido pelos gregos como a famosa “manha” de Ulisses.

Porém, a imprevisibilidade da viagem não se tece de um absoluto acaso. Diferentemente, a mão de Deus ou dos deuses existe por detrás dos acidentes de percurso sofridos pelo herói e constituem-se como provas pelas quais a divindade ou o Destino (a moira grega ou o fatum romano) experimenta as virtudes do herói. Ulisses, como Amaro, Brandão ou Fernão Mendes Pinto, sofrem todo o tipo de tentações (é-lhes oferecido riqueza, poder, fama…), experimentam o tremor e o terror kierkegaardiano da angústia e do desespero, da solidão, sofrem, expiam, suam, vomitam todo o mal que se encontra no seu interior, purificando-se, e, finalmente, superadas as limitações, transcendidas as provações, o herói atinge a sua realização, Ulisses reconquista a sua Ítaca, Brandão e Amaro sofrem a visão do Paraíso eterno, a Terra dos Bem-Aventurados, ou as Ilhas Afortunadas, Fernão Mendes Pinto regressa rico a Portugal e Vasco da Gama é erótica e espiritualmente premiado pelo conforto das deusas na Ilha dos Amores.

Assim, se seguirmos a lição dos clássicos, não há viagem que não seja tecida destes quatro elementos constituintes: imprevisibilidade, terror do inesperado ou provação/tentação, sofrimento/ expiação e visão transcendente.

A Europa, transformando os continentes em ilhas de um grande arquipélago chamado Terra, provou o sabor desta cultura nómada da viagem, interiorizando-a na sua mentalidade social. Por isso sabe que o nomadismo, hoje desprovido de transcendência paradisíaca, constitui a forma por que o espanto da existência melhor concretiza geográfica e politicamente a natureza errática do homem. Hoje, três mil anos depois de Moisés e Homero, a Europa sabe que o Paraíso, a Terra Prometida, não constitui um ponto de chegada, mas o motor ético que força o homem a partir. O Paraíso tornou-se o cais de partida de todo o homem aventureiro, isto é, ensaísta, isto é, europeu. Esta a grande, grande diferença entre a Europa e os restantes continentes. A Europa já viajou pela Terra inteira, verdadeiramente criou a actual representação da Terra, e já regressou a casa; os outros continentes, sobretudo o Americano (que faz da viagem uma epopeia espacial) e o Africano (que, infelizmente, por culpas de que não nos são de todo alheias, transformou o nomadismo da viagem em naufrágio) ainda se encontram em viagem.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Inadiável!

JOÃO CACHADO




No passado dia 4 de Março, ao comemorar o seu décimo aniversário, a Alagamares-Associação Cultural, promoveu um participado debate sobre os 20 anos de Sintra, Património Mundial, na categoria de Paisagem Cultural, que teve lugar no Casino de Sintra, em instalações do MU.SA, evento que, oportunamente divulgado, me dispensa de referências que já foram notícia.
É naquele contexto que, para o efeito das ideias a partilhar convosco, gostaria, mais uma vez, de fazer minhas algumas das preocupações que, a propósito do trânsito e da mobilidade em geral, nomeadamente na sede do concelho, Fernando Morais Gomes, Presidente da referida associação, evidenciou ao proferir as palavras de abertura e de apresentação da iniciativa.
Mas, antes de o citar, permitirão que, em breve aparte, relembre as duas décadas passadas sobre a data em que a UNESCO contemplou Sintra com distinção tão honrosa como desafiante. E, na verdade, depois de tanto tempo decorrido, sabem os leitores que nada, absolutamente nada de substancial foi feito, que pudesse ter obviado o natural agravamento de uma situação há muito degradada. 
Pelo contrário, aliás, algumas das medidas entretanto concretizadas, por exemplo, no âmbito da parcial pedonalização da Av. Heliodoro Salgado – resultando naquela desgraça estética, tão mal resolvida em termos técnicos – que ainda pioraram o estado das coisas, desde o Ramalhão, a montante, até à Portela, ao Lourel e à Ribeira, a jusante daquela artéria, impondo a adopção de circuitos absolutamente labirínticos, gerando perdas incalculáveis nos domínios do tempo, da qualidade do ambiente e da qualidade de vida em geral, sem qualquer mais-valia e, muito menos, sem atingir qualquer dos objectivos que se propunha.
Periféricos prioritários
Retomo o fio da meada para citar Morais Gomes: “(…) residir num Património Mundial pode ser um benefício, mas também um pesadelo: as questões inerentes ao despovoamento do centro histórico, o estacionamento, o que é o fim-de-semana em Sintra no Verão. (…) Há soluções que podem passar pela proibição de circulação a partir de determinadas zonas. Aliás, há modelos internacionais a este nível: ou se proíbe o estacionamento ou se criam parques periféricos (…)”.
Com a autoridade que se lhe reconhece, recuperou suas próprias palavras, ditas e repetidas anos a fio. Em aditamento a estas, poderia eu trazer à colação testemunhos de outros militantes da causa da defesa do património de Sintra cujo entendimento da situação e propostas de resolução não divergem substancialmente. Porque a defesa do património, nos seus superiores desígnios, tem de se articular e, concomitantemente, promover a solução dos problemas de acesso aos lugares, portanto, questões afins dos transportes, trânsito e estacionamento.
Vezes sem conta, também eu não me tenho poupado a permanentes contributos que, como a todos nos compete, nunca se limitam à sistemática denúncia mas, isso sim, sempre insistindo na apresentação das respectivas propostas de solução. Sem ponta de humor, nem o Morais Gomes nem eu corremos qualquer hipótese de risco de originalidade já que se trata de quadros há muito adoptados nas mais diferentes latitudes, com inequívoco sucesso.
Embora já o tenha escrito em inúmeras oportunidades, ao longo dos últimos vinte anos, tanto no Jornal de Sintra como noutros media, nada me custa repetir. Tudo se resume à instalação de parques de estacionamento periférico, a partir dos quais funcionará um sistema integrado de transportes públicos, através de carreiras de autocarros de diferentes tipos e características.
Não poderá deixar de se optar pelo regime de subida e descida, de acordo com as opções do utente, praticando-se uma tarifa incluindo a da viatura estacionada, o mais reduzida possível, sempre tendo em consideração que o lucro desse serviço se obtém não na bilheteira mas através da satisfação dos padrões habituais em contextos similares, ou seja, um lucro implícito nas atitudes de consumo suscitadas nos diferentes domínios abrangidos. É por isso que, provavelmente, os bilhetes que os operadores cobrarão, deverão ser subsidiados pelas entidades implícita e explicitamente beneficiárias do regime em apreço.
No caso de Sintra, três parques deverão ser estrategicamente instalados, em áreas ainda disponíveis nas diferentes entradas da sede do concelho, ou seja, Ramalhão, Lourel e Ribeira. Ainda outro, menos periférico, na zona da Portela, entre a estação dos caminhos de ferro e o Tribunal, podendo-se perspectivar uma ampliação bastante significativa da actual capacidade já que terreno não falta para o efeito.im
Pena: Caso especial, estratégia específica
Caso especial, a merecer particular atenção, o do acesso à Pena. De uma vez por todas, haverá que interditar a Rampa da Pena às viaturas particulares – aliás, atitude vigente durante parte do mandato de Edite Estrela e, portanto, apenas autorizando o acesso no sentido ascendente, exclusivamente aos transportes públicos de dimensão e lotação apropriadas – bem como acabar, definitivamente, com todos os parques de estacionamento actualmente disponibilizados in loco.
Logicamente, se o acesso apenas for permitido a transportes públicos para utentes que, a montante e muito civilizadamente, tiverem estacionado as suas viaturas nos parques periféricos, nada justifica manter a possibilidade de estacionamento lá em cima. Mais uma, talvez pela enésima vez, trago à colação o exemplo de Neuschwanstein, um dos famosos castelos de Luís II da Baviera, ao qual se acede, maioritariamente a pé, depois de ter estacionado o carro num parque periférico. Sim, a pé, havendo que vencer rampa muito íngreme, no fim da qual se espera horas para uma visita o mais rápida possível!...
Em termos gerais, passa por este dispositivo integrado a oferta de estacionamento, articulada com uma rede coerente de transportes públicos para os diversos destinos, principalmente os turísticos, na qual também caberá a linha do eléctrico que, de acordo com o que temos advogado, acaba por coincidir com o projecto da CMS, pretendendo prolongar o percurso, desde o actual término na Vivenda Alda até à estação de Sintra e à Vila Velha. Tal como em tempos alvitrei, para implementar todo este dispositivo, deveria recorrer-se a uma campanha de divulgação sistemática, recorrendo a conhecidas e mediáticas figuras que Sintra tem sabido distinguir no passado recente.
                                                                                                 
Tefeférico e funicular: JAMAIS!
No termo do debate inicialmente referido, e, em resposta a uma questão que lhe coloquei acerca das soluções teleférico ou funicular, com o objectivo de aceder aos pontos altos da Serra, nomeadamente à Pena, o conhecido arqueólogo José Cardim, descartou qualquer hipótese de Sintra concretizar uma ou outra, opinando de forma peremptória e definitiva.
No caso do teleférico, o flagrante impacto na paisagem “(…) num dos troços mais emblemáticos nas antigas gravuras ou na Literatura (…)” e, quanto ao funicular, os vestígios arqueológicos, por toda a Serra: “(…) Não estou a ver ponto nenhum entre o Ramalhão e o Castelo dos Mouros e entre este e a Vila, em que fosse possível um trajecto sem ferir variadíssimo património arqueológico (…)” eis, em suma, as razões fundamentais da sua frontal recusa.
Aliás, também ali, em conversa informal com os arquitectos Thiago Braddell e Gerald Luckhurst, aos quais Sintra também tanto deve, colhi a mesma opinião quanto ao teleférico e, tal como eu próprio, acrescentando muito mais argumentos em seu desfavor. Na realidade, quando estes – e, mais do que ninguém, envolvido na defesa do património de Sintra como o Dr. Cardim, responsável pela candidatura à classificação pela Unesco de Sintra como Património da Humanidade – são tão definitivos, sinto o conforto da minha atitude do máximo respeito e acatamento.
Quanto a Cardim, a sua não é só uma opinião mas a expressão do empenho de toda uma vida dedicada às mais nobres e dignas causas da defesa do património de Sintra. É a razão da Ciência Histórica aliada à emoção suscitada por uma terra que está farta de ser ofendida e que carece de trabalho profícuo no sentido de resolver questões pendentes, há tempo demais, questões bem concretas e nada fantasiosas, como a da urgentíssima instalação dos parques periféricos e da rede integrada de transportes públicos que, como há tantos anos está demonstrado, tudo resolverá sem necessidade daquele tão controverso meio de transporte a sobrevoar zonas urbanas.
Portanto, «rendo-me», total e boamente perante a impossibilidade decretada pelo famoso arqueólogo. Imagino a extrema dificuldade da Câmara Municipal de Sintra e potenciais financiadores de tão polémico projecto. Na realidade, muitas já são as reacções, e altamente negativas, que vamos detectando entre historiadores, ambientalistas, engenheiros e arquitectos paisagistas, técnicos actualizadíssimos que se espantam perante a ousadia.

sábado, 4 de abril de 2015

Credível e Previsível



JOÃO CACHADO

Quando um executivo autárquico anuncia determinados projectos, mesmo sem se comprometer com um específico cronograma, deve usar do maior cuidado para não suscitar nos cidadãos fundadas reservas quanto à sua viabilidade e concretização, dentro de prazos mais ou menos consentâneos com as mais justas expectativas. Convém lembrar que alguns daqueles projectos surgem na sequência de infelizes pendentes à pele dos quais se colou o estigma da perpetuidade mais indesejada…


Ora bem, remontando a Outubro de 2013 a tomada de posse do actual executivo autárquico, a verdade é que, cerca de ano e meio depois, persistem situações em relação às quais alguns Senhores Vereadores e também o próprio Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sintra, anunciaram iniciativas que não tiveram desenvolvimento notório, algumas das quais até acabaram por obrigar os seus autores à sempre desagradável emenda da mão.

Centro de Saúde inviável

Sem preocupação do escrupuloso respeito pela ordem cronológica das ocorrências, primeiramente, lembraria o caso do Centro de Saúde de Sintra. Foi anunciado que sairia das precárias instalações actuais, na Rua Dr. Alfredo da Costa, para ocupar o edifício sito na Av. Dr. Desidério Cambournac, cujo destinatário inicial seria a Junta de Freguesia.

Como é do conhecimento geral, há bastantes anos, a construção foi interrompida na sequência da falência do empreiteiro. Enfim, ali permanece, chaga inestética e pouco recomendável às sensibilidades mais fragilizadas, qual caixote e cinzentão paralelepípedo de betão, quotidiana agressão e, seja ela de quem for, a incompetência gritada de quem não resolve ou não deixa resolver o problema.

Como não podia deixar de ser, saudei a notícia da mudança de instalações e, através dos meios de comunicação em que habitualmente me manifesto, dei largas à natural satisfação. Pois, cerca de um ano mais tarde, por altura da Presidência Aberta de 7 de Novembro de 2014, soube-se que o Ministério da Saúde inviabilizara a intenção, por manifesta falta de condições do edifício em questão.

Cabe perguntar porque razão, antes de fazer o anúncio, não houve a prudência de colher a informação absolutamente indispensável que pudesse sustentar a viabilização ou demonstrar a incompatibilidade do propósito em apreço.

Netto, oportunidade desperdiçada

No badaladíssimo caso do Netto também algo de semelhante se passou. Tendo decidido exercer o direito de preferência, a Câmara Municipal de Sintra decidiu-se pela compra do hotel, assim impedindo que a Parques de Sintra Monte da Lua concretizasse o projecto de recuperação do edifício, praticamente adjacente ao Palácio Nacional da Vila de Sintra, monumento este cuja gestão e administração lhe estão afectas.

Tudo estava programado em relação à intervenção naquela unidade hoteleira abandonada e, há dezenas de anos, em processo de permanente degradação. Factor determinante para a concretização do projecto, o seu financiamento estava totalmente garantido por instituições de crédito, ao corrente do alto nível de capacidade da PSML em obras que tais.

Naturalmente, a Câmara Municipal de Sintra estava no seu pleno direito. Contudo, muito mal se entende que, passado cerca de um ano sobre a data de tal anúncio, o Senhor Presidente tivesse vindo a público, perplexo, em sede de Assembleia Municipal, afirmar que ‘o Património’ o obrigava a manter a fachada do Netto e que, só tal operação, implicava no dispêndio de montante incomportável para os cofres da Câmara…

Então, compreende-se que, em nome dos munícipes, habituados à eficiência e impecabilidade de actuação da PSML, a CMS tivesse decidido nos termos anunciados sem cuidar de se munir da informação bastante – e, neste aspecto reside a analogia com a situação do Centro de Saúde – que a habilitasse para o efeito?

Ou seja, em 6 de Novembro de 2013, quando anunciou o imediato envolvimento da empresa no projecto, o Prof. António Ressano Garcia Lamas, então Presidente da PSML sabia tudo e, inclusive, que a fachada do Netto era para manter, que tal determinação‘do Património’ era condição sine qua nonpara a sua efectivação e, pois claro, em quanto é que isso montava…

Respondendo à questão formulada no penúltimo parágrafo, de modo algum se compreende, até porque, pelo menos um ano de atraso já lá vai. Foi uma oportunidade desperdiçada. Seria suposto, isso sim, o Senhor Presidente da Câmara estivesse tecnicamente bem aconselhado, já que não pode, não tem de saber tudo. E implícita e explicitamente, para que, a posteriori, não se visse obrigado a assumir uma falta que não deveria ter ocorrido, é que adjuntos e assessores deveriam ajudá-lo a defender-se.

Ponte pedonal

Devido à insistência com que o tenho feito, até corro o risco de ser mal-entendido. De qualquer modo, prefiro que assim aconteça, portanto, por excesso, do que não manter em permanente ordem do dia, o caso da reposição da ponte metálica pedonal que permite a circulação expedita de transeuntes entre os bairros da Estefânia e da Portela.

Repetidas vezes anunciada pelo Senhor Vereador com o pelouro da Mobilidade Urbana – que, perante testemunhas insuspeitas, chegou ao ponto de usar a expressão doa a quem doer!, porque está em causa o interesse geral dos cidadãos contra o de particulares – tal operação, afinal, continua por concretizar apesar da incontestável urgência.

De acordo com os termos em que me tenho referido à falta deste equipamento, volto a lembrar que, uma vez reposto, permitirá que o parque de estacionamento adjacente ao edifício do Departamento do Urbanismo seja indicado, tanto pela CMS como pelas autoridades policiais, como inequívoco preferencial para os condutores das viaturas que demandam o Centro Cultural Olga Cadaval aquando da realização de eventos nocturnos, altura em que aquele espaço está totalmente deserto e disponível…

Porque assim não acontece, vem a propósito contar que, na noite da passada sexta-feira, 6 de Fevereiro, nova cena de terceiro mundo esteve armada nas imediações do CCOC. Cerca da meia-noite e um quarto, não conseguindo circular, os condutores buzinavam insistentemente e insultavam-se com todos os efes-e-erres. Polícia? Nem vê-la! O que será preciso mais fazer para que, contra o escândalo actual, em nome do sossego e da civilidade a que os munícipes têm direito, a CMS se disponha a fazer intervir a autoridade policial?

Outros casos
Faz um ano, no próximo dia 28 deste mês, que, na sequência da publicação de um artigo no Jornal de Sintra, subordinado ao título“Defesa do Património, coerência de propósitos”, o Senhor Presidente da Câmara teve a gentileza de me contactar pessoalmente para garantir que, imediatamente, iria dar instruções no sentido de remediar as situações que eu tinha denunciado, certo é que nada estruturantesmas sintomáticas de um statu quo.

Referira-me ao estado lastimoso em que se encontrava algum do património edificado e classificado da Estrada Velha de Colares, casos Chafariz d’El Rei e a Fonte dos Ladrões, bem como o Casal de São Domingos, na Rua Dr. Alfredo da Costa e o vizinho Vale da Raposa. Se não tive a menor dúvida em confiar na sinceridade dos propósitos do Senhor Presidente, na verdade, um ano passado sobre a publicação do artigo e conversa pessoal subsequente, que tão positivamente me tinha impressionado, tudo permanece inalterado…

Ou, melhor, foi beneficiado o aspecto geral da Fonte dos Ladrões, porque, aproveitando o facto de ter feito uma obra do outro lado da via, o Conde Filipe Schönborn deu instruções ao empreiteiro para rebocar os muros e limpar o pavimento à volta… Portanto, o bónus de uma intervenção particular. Mais nada!

Também no dia 13 do mês de Março, terá passado um ano sobre a data em que foi anunciado oQuarteirão das Artes, uma proposta para a Estefânia.Entretanto, como mais nada se soube acerca de tal projecto, não é possível perceber em que medida ele se insere na requalificação da Heliodoro Salgado, em ambas as partes, viária e pedonal, e se esta requalificação vai mesmo acontecer e quando.

Aliás, em articulação com esta incógnita, uma outra faz o dilema. Foi anunciada a intenção – e não há quem não aplauda! – de prolongar a linha do eléctrico, em primeira fase, desde a Vila Alda até à estação terminal da CP e, depois, como antigamente, chegando à Vila Velha. Assim sendo, importa perceber se, efectiva e necessariamente, as obras indispensáveis à sua passagem pela Heliodoro Salgado, já serão contempladas durante a próxima intervenção para requalificação da via. Como facilmente se compreende, não faria qualquer sentido intervir agora, sem contemplar esta vertente tão importante da questão para que, mais tarde, se destruísse o benefício em apreço…

As dúvidas são mais que muitas. E o tempo passa, corre inexoravelmente. Ainda noutro dia foram as eleições e, já passado um terço do mandato, estamos com uma série de promessas de problemático cumprimento. Também por isto, prevejo muito complicada a actuação das associações cívicas e culturais que, na autarquia, seria suposto encontrarem uma entidade credível e previsível. Por vezes, tenho de lamentar que tal não aconteça. De qualquer modo, apesar de muita dúvida, ainda o benefício da dúvida porque permanece o conforto da esperança.