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sábado, 21 de maio de 2016

O uso abusivo de palavras em inglês

NUNO BASTOS


O uso de palavras em inglês torna-se num hábito cada vez mais presente na nossa sociedade. E, pessoalmente, creio que essa situação está a passar para um nível abusador, ainda que as razões para tal possam surgir por via de diversas razões. Tentarei, pois, neste escrito debruçar-me um pouco sobre este assunto, não tanto para lhe encontrar uma solução mas mais como uma reflexão (mesmo que pouco profunda).
Começo, assim, por afirmar que se compreende que quando, na nossa língua materna, não existe uma palavra para designar algo, então que se utilize uma noutra língua e se lhe dê uso, integrando-a no léxico utilizado. Este é um processo perfeitamente natural de integração de uma nova palavra numa língua. Não é um processo forçado. Ao longo do tempo, dos séculos, dos milénios, essa palavra “emprestada” tornar-se-á, provavelmente, diferente da original obtida por ter sido modelada pela língua e pela cultura que a acolheu, sofrendo como que uma adaptação à cultura que a recebeu.

O que me parece de difícil compreensão é a situação em que existe uma palavra em português para designar algo e, mesmo assim, utiliza-se uma palavra em inglês para a substituir (e sobrepor-se) à sua semelhante em português. Lembro-me, por exemplo, de “personal trainer” (é o mesmo que dizer “treinador pessoal”); lembro-me também de “running” (que tal utilizar “corrida” em vez de “running”?); lembro-me de “sales manager” (utilize-se antes “gestor de vendas”); lembro-me de “coffee break” (diz-se em português “pausa para café”). E por aí adiante porque a lista é longa.

E mais ainda: nenhumas das palavras que utilizei nos vários exemplos acima caíram em desuso no português; todas essas palavras continuam a ser utilizadas no nosso quotidiano: treinador, pessoal, corrida, gestor, vendas, pausa, café (incluindo, claro, as preposições “de” e “para”).

Custa-me que uma língua tão rica como o português esteja a ser atropelada desta maneira e esteja a ser “escravizada” em prol de uma universalidade que se utiliza da língua inglesa. Nada tenho contra a língua de Sua Majestade e nada tenho contra a importância que o inglês adquire como língua universal nos tempos que correm. É sabido que o nosso mundo está cada vez mais pequeno e mais próximo e alguma tem de ser a língua comum e que sirva de forma de comunicação entre dois povos de diferentes falas (quer seja o inglês a língua de um desses povos, quer não seja e sirva apenas como língua de união); actualmente é o inglês e daqui a alguns séculos será outra língua (isto é apenas a História a avançar, servindo-se das circunstâncias que a constroem).

Bem sei que uma língua não é estática, que evolui e que está em constante mutação ao longo do tempo; o português que se falava há quinhentos anos não era igual ao de hoje. E esta evolução dá-se (ou dever-se- ia dar) por motivos naturais e não para agradar a determinados assuntos ou para parecer mais universal. E sim, já sabemos que o inglês está quase permanentemente presente no nosso dia e que se nos quisermos fazer entender num lugar algures do mundo iremos, provavelmente, expressarmo-nos em inglês (desde que tenhamos, pelo menos, algumas noções dessa língua). Mas nós estamos em Portugal e a língua oficial é o português (e também o mirandês).

Poderão alguns dizer que por estarmos num posicionamento global tendemos a usar palavras ou expressões em inglês para que noutro país se perceba aquilo que dizemos. Muito bem, certo. E compreende-se que um português diga a um vietnamita ou a um sueco “eu sou sales manager” (já traduzindo do inglês o “eu sou”). Mas parece-me abusivo que um português diga a outro português que “sou um sales manager” ou “vou comprar artigos de running” (falando ambos em português). Porquê optar por dizer a mesma coisa mas noutra língua?

Dirão outros que usamos palavras como “mail” ou “net” (de “internet”) e que se traduzem por “correio” e “rede” (que existem e se usam no nosso português quotidiano). E sobre isto podemos dizer o seguinte:

Usamos “mail” para o distinguir do correio tradicional trazido até nossa casa por um carteiro. Dizemos “vou enviar um mail” e dizemos “vou escrever uma carta” (e enviá-la pelo correio). Ou seja, sabemos automaticamente que um “mail” chegará ou será enviado virtualmente e que não é um objecto físico como o é uma carta guardada num envelope com selo. E, da mesma maneira, temos a palavra “net” que distingue um sistema virtual de comunicação do objecto físico “rede”. É claro que (para aqueles, como eu, que não estão permanentemente ligados à internet e/ou que não lhe têm acesso através do telemóvel) podemos sempre dizer “vou à rede” em vez de “vou à net” mas tornou-se usual de forma natural o uso de “mail” e de “net”. São apropriações que se juntaram ao português e que vieram preencher uma inexistência: a não-presença de palavras destinadas a habitar um espaço que é a existência de um mundo virtual e de tudo o que lhe é agregado (a internet); e assim foram integradas no léxico. Temos, claro, o “correio electrónico” e o “endereço electrónico” (que há quem os denomine na versão em língua portuguesa) mas o facto é que a internet é uma espécie de país global (ainda que virtual) cuja língua-base é o inglês (ou tende a ser o inglês). E as palavras que constroem esse país global e virtual não são “personal trainer”, “coffee break” ou “running”.

Termino dizendo que pode, talvez, parecer que estou a querer cristalizar a língua portuguesa tornando-a pura ao máximo. Mas não, nada disso. Apenas pretendo que se usem palavras em português quando elas existem. Por outras palavras use-se “treinador pessoal” e não “personal trainer”, use-se “pausa para café” e não “coffee break”, use-se “corrida” e não “running” e por aí fora. Pretendo que as palavras entrem naturalmente numa língua e não a partir de uma espécie de imposição exterior.

Nenhuma língua e nenhum dialecto são eternos. A tendência é que existam enquanto houver falantes. E, como tal, o português não existirá para sempre. Eventualmente cairá em desuso e desaparecerá (como aconteceu a tantas outras) ou manter-se- á vivo num modo semelhante ao latim, por exemplo. A língua portuguesa fala-se em vários lugares do mundo (ainda que tenha variações locais) e é, em quantidade de utilizadores, das mais faladas actualmente (apesar da maior parte dos falantes não estarem na Europa).

Mas não me parece correcto haver quem opte por, aos poucos, ir esmagando a língua portuguesa, preferindo sobrepor-lhe sinónimos ditos noutra língua. E seja qual for a razão que o leve a fazer isso (o hábito, as necessidades de mercado, as modas, a ignorância, etc) é sempre importante decidir se há, de facto, necessidade em dizer “personal trainer” em vez de “treinador pessoal” (para citar apenas um dos muitos exemplos mas que é substituível por outro à escolha; muitos mais haverá mas, para simplificação, mantive-me repetindo os três ou quatro que utilizei ao longo deste texto).



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A mostrar O uso abusivo de palavras em inglês.doc.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Música erudita,- o novo Festival de Sintra

JOÃO CACHADO

Seja qual for a escala da vida cultural que se tiver em consideração, desde a local à da região metropolitana e, em muito menor grau, nacional ou internacional, a primeira constatação a assinalar é a evidência da cada vez mais reduzida visibilidade e diminuto impacto do Festival de Sintra.

 

No entanto, até há relativamente pouco tempo, a situação era totalmente diferente. A própria experiência no-lo confirma já que, durante décadas, muitos de nós nos habituámos a contar com os eventos programados pela organização do Festival como mais uma possibilidade de acolher em Sintra os nomes mais sonantes, por exemplo, da pianística mundial.

 

De facto, o Festival de Sintra era um acontecimento especialmente aguardado. Quem o frequentava sabia que, pautando-se a programação por rígidos padrões da mais alta qualidade, podia perspectivar a presença dos mais destacados músicos. Tanto assim sucedia que, ao longo de anos, com toda a pertinência, bem pude escrever que o Festival era o mais sofisticado produto cultural de Sintra sem que ninguém ousasse contradizer.

 

Atingiu-se uma tão alta fasquia, que, manifesta e naturalmente, a iniciativa era remetida para o patamar da excelência. Apresentando-se como o mais antigo, o Festival também era considerado o de maior prestígio, olhado como paradigma e, no melhor sentido, ‘invejado’ porque contava com os meios que lhe permitiam ocupar posição tão destacada no panorama da música erudita nacional.

 

Motivos de ordem vária, cujo enquadramento socio-cultural impõe que sejam devidamente analisados e registados – com indicação da correcta cronologia das opções estratégicas de sucessivos executivos autárquicos –  resultaram no actual modelo. Desde já fique muito claro que não estou fazendo quais quer juízos de valor quanto à qualidade e, muito menos, a cerca de dois meses do início da próxima edição.

 

 

Tendo alcançado ímpar notoriedade nacional e gabarito internacionalmente reconhecido, circunstância a que Sintra se habituou durante 50 edições, lembrarei que, a título de mero exemplo, no programa de 2008 apareciam os nomes de Grigory Sokolov, Viktoria Postnikova, Nikolai Lugansky, Kirill Gerstein, Valentina Igoshina, Denis Matsuev, Larissa Gergieva (que, na altura, era «só» a directora artística do Conservatório Mariinsky de São Petersburgo), Eldar Nebolsin, etc. E, novamente, em 2012, o mesmo Grigory Sokolov, nada mais nada menos do que considerado o maior pianista vivo.  

 

Na realidade, não é fácil que, a seco e desapaixonadamente, consigamos articular as memórias de um passado não muito longínquo, memórias referentes à presença dos nomes mais sonantes, os tais galácticos, com as realidades da programação actual, cujas características induzem algumas dificuldades de interpretação sempre que se pretende concretizar o inevitável exercício das comparações com a qualidade de outros festivais nacionais mais recentes.*

 

Tenho afirmado, e confirmo, que é possível organizar um festival, com uma certa dignidade, sem a presença de galácticos. De qualquer modo, conhecedor profundo que me considero da história de um festival que comecei a frequentar ainda garoto de calções, nos anos cinquenta do século passado, o que não posso é deixar de recordar o seu palmarés absolutamente honroso, património que exige estar e saber estar à altura de tamanha responsabilidade.

 

Um Festival outro

Pois bem, confiando aos actuais responsáveis pela programação do Festival de Sintra a difícil tarefa de compatibilizar tão difíceis ingredientes, seja-me permitido partilhar uma sensação de certo alívio na medida em que uma alternativa relativamente recente protagonizada pela Parques de Sintra.  

Para o efeito, tenhamos presente que, com o concerto do passado dia 4 do corrente, terminou o Ciclo dos Serões Musicais do Palácio da Pena, altura propícia para vos pedir que considerem mais dois ou três eventos que, com este, se relacionam inequivocamente.

Além desta iniciativa que, em pleno Inverno, explora os mais evidentes aspectos de uma envolvente ambiental do Romantismo cultural, tão propício no Palácio da Pena, reparem que a Parques de Sintra ainda é promotora de mais duas de grande relevância.

Refiro-me, primeiramente, em pleno Verão, aos Reencontros - Memórias Musicais de um Palácio, privilegiando a produção musical medieval e renascentista, e, em segundo lugar, às Noites de Queluz - Tempestade e Galanterie, proposta afecta à música dos períodos barroco e clássico, em expressos ciclos primaveril e outonal.

Palácio da Pena, Palácio da Vila, Palácio de Queluz, lugares da maior sofisticação, sejam quais forem as coordenadas geográficas em apreço, que acolhem uma programação cuidadíssima, do mais alto nível, nos termos da qual temos assistido a recitais, concertos e ópera concertante, contando com as prestações de alguns dos mais autorizados especialistas de fama mundial.

Em face deste quadro excepcional de iniciativas, uma conclusão evidente não pode deixar de se retirar: através desta intervenção cultural, a nossa Sintra - lugar que se orgulha da passada fama do seu Festival de Música - está a recuperar e, nitidamente, a ultrapassar aquelas marcas de um saudoso passado de grande prestígio e notoriedade.

Actualmente, portanto, temos a possibilidade de aceder a ciclos da melhor música de todos os tempos, em locais únicos, praticamente ao longo de todo o ano! Ao apostar numa tal estratégia, o Conselho de Administração da Parques de Sintra bem pode orgulhar-se de já contar com um público que esgota os eventos, público que, das mais diferentes proveniências, se desloca expressamente para o efeito.

Trata-se de um investimento à altura dos pergaminhos da Parques de Sintra e que já está a render os mais significativos dividendos. Este, um novo Festival de Sintra, com a presença de outros galácticos, deslumbrados com as condições de que aqui dispõem, e dos mais significativos nomes nacionais. Este o Festival outro, com as suas diferentes vertentes de música erudita, que percorre mil anos da mais notável produção musical europeia e já tanto lugar ocupa como iniciativa cultural do maior prestígio.

 

Grigory Sokolov, por muitos considerado o maior pianista vivo, participou algumas vezes no «antigo» Festival de Sintra
 
Inequivocamente, o mais prestigiado dos pianistas portugueses, Artur Pizarro já participou em eventos programados pela Parques de Sintra, nas "Noites de Queluz, Tempestade e Galanterie.



*Mesmo tendo em consideração quaisquer dificuldades financeiras e/ou logísticas na preparação da próxima edição, não consigo entender que motivos ponderáveis poderão ter inviabilizado a concretização de eventos na Quinta da Piedade. Não entendo. A afirmação constante de que Sintra honra a memória da Senhora Marquesa de Cadaval, também passa por manter bem viva a prática de promover a realização de concertos e recitais naquele espaço quase mítico, que a mecenas amorosamente preparou e soube abrir aos frequentadores de um Festival indissociável da sua anual presença.

[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Tresler Ciência

EDUARDO SÉRGIO



PARTE I

1.O desenvolvimento alcançado modernamente pelas ciências, em especial pelas ciências naturais (ramo que as opõe naturalmente às ciências artificiais) deu ensejo a que se procurasse relacionar os resultados obtidos pelas investigações científicas com as VERDADES REVELADAS.

2. Ora, estas verdades, as designadas por REVELADAS, provém da chamada CIÊNCIA INFUSA. Esta CIÊNCIA INFUSA (por vezes difusa para aqueles que nela acreditam em percentagens movediças) provém de um ente tido por supraHumano. No antigo Egipto esse ente, como se sabe, era o Sol – o astro-rei que veio a saber-se ser uma estrela. Em outras mais recentes religiões, esse ente toma a designação de deus no singular e, para bem o distinguir do plural “deuses”, mandam grafa-lo com D maiúsculo. E, como o povo dantes dizia, “manda quem pode & obedece quem deve”. Mas, como quem não deve, não teme, temos que…

3.… nos vários credos que vêm grassando pelo mundo, com +/- graça têm aparecido teóricos dessa deidade, chamados de teólogos ou de teósofos (conforme a cor, a direcção, o peso e a densidade das teorias em causa) que sustentam não poder haver contradições entre a ciência dos ateus e a ciência dos crentes. No entanto, há autores – e nãoPoucos – que afirmam haver de facto demasiadas Contradições demasiado Evidentes.

4.Serenamente, percebe-se então que há de facto inumeráveis contradições entre a religião e a ciência, entre a fé e a razão. Não vamos, porém, tratar de qualquer fé – a fé não se discute, aceita-se sem que a razão intervenha. E prontus!

5.Antes de serem inventadas as ciências infusas, existiram as ciências ocultas; matéria muito séria que ainda hoje faz sorrir boa gente.

Antes de ter sido inventada aquela matéria científica, que veio depois a ser designada por – por exemplo – Psicologia das massas amorfas, já o sorriso amarelo de diferentes tonalidades era a reacção dominante dos bem e mal pensantes com pretensões cientificantes dentro do sériÓsisudo.

6.As principais ciências ocultas que atingiram grande celebridade na denominada Idade Média europeia…

7… período histórico algo pardacento que, como sabido, se divide em Alta, Média e Baixa Idade Média, conforme o grau de circunspecção e concupiscência do tema em análise…

8.… foram a Alquimia, a Astrologia, a Cartomância e a Magia – importadas de modo mais ou menos directo da velha Caldeia (actual Palestina) e do Antigo Egipto.

9.Segundo corre por aí, certos arqueólogos que conseguiram decifrar restos de hieróglifos ainda aglutinados, afirmam que os faraós tinham ao seu serviço magos que pretenderiam imitar os prodígios pirotécnicos e de prestidigitação de Moisés – tal como converter varas em serpentes e estas em varas hirtas; e destas para viperinas ondulatórias.

10.A Astrologia tinha por fim adivinhar o futuro. A Alquimia, a transmutação dos metais – do ferro para o bronze e deste para o ouro (de preferência não volátil e ainda sem capacidade de entrar na bolsa de valores). A Magia ocupava-se da busca do remédio universal e, consequentemente, do estabelecimento do elixir da imortalidade.

11.Tanto acolhimento vieram a ter as ciências ocultas que no século X existia na Universidade de Bolonha uma cátedra para o ensino da Astrologia Judicial.

12.Chegando cada corte europeia do século XI, a ter um astrólogo que traçava os horóscopos e acompanhava os monarcas e seus ministros, conforme a disposição dos planetas e sinais encontráveis nas percentagens de cinzentos (mais ou menos escuros) nas nuvens que certos ventos tinham o poder de acumular em horizontes físicos mas sobretudo mentais.

13.Do exercício destas ciências, passou-se ao seu estudo ainda mais científico, tendo nascido – com lentidão exasperante – uma alquimia de terceira geração. Esta veio a denominar-se Química: uma muito invejada Ciência – Espavento.

14.Para a prática das várias classes e níveis de Magia (nunca esquecer os níveis!) empregavam-se objectos he-te-ró-cli-tó-Compostos. Nos sortilégios empregava-se sangue obtido fresco de galináceos, na falta de águias e gaviões; lebres e coelhinhos brancos, na falta de animais de maior porte.

15.E no maior porte, entenda-se aqui as fêmeas ovelha e cabra. Do sangue fresco dos machos esperavam aqueles cientistas obter melhores orientações racionais – usavam, assim, o cordeiro para tirar os pecados do mundo e o bode para espiar faltas de naturezas outras…

16.Para casos mais complexos e em hierarquias sociais superiores, era empregue o sangue de crianças. Se tais crianças eram obtidas entre os escravos, livros arquiArcaicos que certas religiões ainda utilizam, mencionam sangue de criança, filha do próprio mago oficiante.

17.Houve mestres e professores públicos de necromancia e escreveram-se numerosas e volumosas obras (algumas soberbamente ilustradas) com sentenças, receitas e aforismos em linguagem obscura ou criptografada.

18.Como reminiscências, que muita gente distraída julga temporalmente muito e suficientemente afastadas, existem as cartomantes, as sonâmbulas, videntes e outras exploradoras Certificadoras das incógnitas da vida. É curioso observar, porém, que essas profissões, tradicionalmente ocupações e vocações femininas na maioria dos centros civilizacionais, passaram a ter acesa concorrência do sexo oposto.

19.Este assunto pode parecer sem importância e perdido na poeira dos tempos. Acontece que atentos sociólogos descobriram, por exemplo, que demasiadas irrequietudes sociais da etnia roma ou romani (vulgo ciganos) se possa dever à perda da exclusividade de leitura da sina, feita agora por magos encartados, ora de raça negra, ora indo-ariana, com consultórios anunciados na grande imprensa e entrevistas na televisão.

20.Mas, não vos espanteis, Senhoras e Senhores! As chamadas cartas astrais, seus traçados a cores e decifração/interpretação, há mais de 30 anos que se encontra sob a forma de software para qualquer computador portátil adquirido no supermercado dali.

21.Desde que as estações de correios passaram a ter escaparates e expositores de “gadgets” e livralhada, fácil se torna adquirir ciência futurológica – cartologia “tarot”, invocação de anjos tutelares, levitação em 10 lições, etc.



PARTE II

1.Do confuso emaranhado com CIÊNCIAS OCULTAS, estivemos até agora expondo algumas facetas da ciência infusa, aquele dom preter-natural pelo qual um nunca visto Ente supraHumano comunica a uma inteligência Humana, a inteligibilidade das coisas sem o concurso dos sentidos nem do esforço intelectivo. É assim e pronto!

2.Infusão, como sabeis, é a conservação temporária de uma substância num líquido para se lhe extrair princípios medicamentosos ou alimentícios. E cremos bem terem percebido que a ciência infusa é a dos conhecimentos ou virtudes que alguém tem sem haver trabalhado para os adquirir…

3.Vamos falar-vos agora da outra ciência, aquela que precisa de trabalho, e não pouco, para a sua percepção. Isto é, o conhecimento certo e racional sobre a natureza das coisas e sobre as suas condições de existência. E também a investigação metódica das leis dos seus fenómenos.

4.Esse tipo de ciência nasceu da Grécia do século VI a.C. com a preocupação de fundamentar e sistematizar o saber. E tudo parece indicar que nasceu ao mesmo tempo que a indagação racional sobre o mundo e o Homem, com o propósito de encontrar a sua explicação última. Essa indagação racional passou a denominar-se Filosofia. “Filo” de amigo, + “Sofia” de conhecimento, como se ensina (ou ensinava…) nos bancos da escola d'Antigamente: “Amor da Sabedoria”.

5.Acontece que até hoje as questões da relação entre a ciência e a filosofia continuam a não encontrar consenso na mente humana. São possíveis, porém, três respostas fundamentais a este respeito. 1ª resposta: a Ciência e a Filosofia não têm qualquer relação.

6.2ª resposta: a Ciência e a Filosofia estão tão intimamente relacionadas entre si, que de facto são uma só e a mesma coisa.

7.3ª resposta : a Ciência e a Filosofia mantêm entre si relações muito complexas.
Complexidade A (de ABERTO, de ANGÚSTIA, de AGUDO): a relação entre as duas é de índole histórica – a Fi foi, e continuará a ser, aquela que se ocupada da formação dos problemas, depois tomados pela Ci para os solucionar.

8.Complexidade B (de BRILHO, de BURACO, de BERRO): a Fi é não só a mãe, como madrinha-madrasta-tia das Cis no decurso da história, mas também – SALVE! – a rainha das Cis em absoluto. Quer por conhecer o +Alto grau de abstracção / quer por se ocupar do Ser em geral / quer por tratar dos pressupostos das Ciências.

9.Complexidade C (de CIFRA, de CIMO, de CERTEZA): a Ci, as Cis, constituem um dos objectos da Fi ao lado dos outros; há por isso uma Fi da Ci (e das diversas Cis fundamentais) tal como há uma Fi da religião, uma Fi da arte, uma Fi da Indignação, etc.
10.Complexidade D (de DELEITE, de DESERTO, de DELÍRIO): a Fi é fundamentalmente a teoria do conhecimento das Cis. Isto porque o que distingue uma Ci de outra Ci, não é a natureza dos objectos que estuda, mas o ponto de vista sob o qual os estuda.

11.Complexidade E (de ESPELHO, de ESPANTO, de ESCURO): as teorias científicas mais compreensíveis – surpreendentemente – são teorias de teorias.

12.Complexidade F (de FELIZ, de FRÁGIL, de FARDO): a Fi está em relação de constante intercâmbio mútuo relativamente à Ci; proporcionando-lhe certos afagos, perdão, certos conceitos gerais (ou certas análises) enquanto esta proporciona àquela, dados sobre os quais desenvolve esses conceitos gerais (ou, enfim, leva ou tenta levar a cabo essas análises).

13.Complexidade G (de GRETA, de GRAVE, de GOZO) : a Filosofia examina certos enunciados que a Ciência supõe, mas que não pertencem à linguagem desta.





PARTE III



1.Enumerámos 7 complexidades: pensamos nós que a sua totalidade! Será fácil, no entanto, comprovar que a maior parte delas é de dramático carácter parcial.



2.Onde a tal parcialidade se fica a dever a um suposto prévio: o de que Ciência e Filosofia são conjuntos de proposições que se procuram comparar, identificar, subordinar, entrelaçar, enroscar, rivalizar, abocanhar, etc.



3.Não fora o caso pragmático de estarmos dentro deste espectáculo, teceríamos umas tantas considerações – nomeadamente o facto de, para não poucos cientistas, a Filosofia Não Ser um conjunto de sofismas nem de sistemas que emergem e se fundem continuamente…



4.… nem de mais ou menos lindas concepções, em última análise, de índole poética.



  MÚSICA + VÍDEO Nº….



5.A inquietude do ser Pensante desde sempre tentou classificar as Ciências. Parece unânime, no entanto, que as antigas classificações têm hoje apenas ridente interesse histórico.

6.Foi só no século XIX que apareceram classificações com valor doutrinal e fundadas na natureza dos problemas colocados pelas diversas Ciências. Um senhor importante como Augusto Comte reconheceu 6 fundamentais: Matemática, Astronomia, Física, Química, Biologia e Sociologia. Teve, porém, a ideia de juntar uma 7ª ciência que ele classificou de suprema: a Moral. Esta bizarra categoria – Ciência Moral – fez abalar parte do edifício da racionalidade científica.

7.Óbvio que outros, muitos outros, vieram com outras ideias, tais como Ciências abstractas, abstrato-concretas e concretas,

8.            Ciências do logos,

9.            Ciências da realidade,

10.          Ciências naturais e artificiais,

11.          Ciências formais,

12.          Ciências do espírito,

13.          Ciências fenomenológicas, genéticas e sistemáticas,

14.          Ciências físicas precisas e imprecisas,

15.          Ciências físicas sinópticas,

16.          Ciências biológicas,

17.          Ciências empíricas e subjectivas – tal como as Sociais,

18.          Ciências matemáticas,

19.          Ciências filosóficas e por aí fora, fora e fora num vasto delírio de taxonomias.

20.Os exemplos apontados constituem simples indicadores de quanto é difícil encontrar critérios válidos de tipologização e de quanto parece fácil operar reduções, formular postulados e exibir preconceitos.

21.Mas, Senhoras e Senhores, urge dizê-lo: a classificação das ciências em pormenor é simples matéria de conveniência. Tem muito maior e duvidoso valor prático do que concreto significado teórico

……………………………………………………….(TAMBOR)



22.Pois … acontece é que as relações entre Filosofia e Ciência estiveram sempre marcadas e …

23.… e continuam a estar marcadas, acaso mais do que nunca …

24.… pelo sinal da am-bi-gui-da-de.

25.É essa ambiguidade que se estabelece com frequência excessiva, ao tornar sinónimos e unívocos os conceitos “exactidão & verdade”…

26.… “verdade & objectividade”!

27.Falar mais para quê?





 (GONGUE)

*********TEXTO DA CONVERSA AO TELEFONE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!





(segue Parte IV– Arte ………………………………………………..e final)



Eduardo Sérgio Pessoa de Magalhães Figueiredo é 2ª Barão da Costeira. Nasceu a 11 de Abril de 1937 e é professor universitário aposentado, escultor, músico e art performer.
Representado, como músico, em