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quarta-feira, 13 de maio de 2015

Aspetos da correspondência literária do escritor Francisco Costa: o caso de Aquilino Ribeiro

CARLOS MANIQUE DA SILVA

Francisco Costa (1900-1988) foi sintrense de elevada craveira intelectual, tendo desenvolvido, a par de carreira profissional na área da contabilidade, intenso labor de romancista, de poeta e de historiador. Com uma vida longa, não se estranha que no seu espólio pessoal, por entre os manuscritos das obras produzidas, encontremos numerosa correspondência literária; tanto mais que a epistolografia era uma forma habitual de partilhar ideias, experiências e, mesmo, sentimentos. Para se ficar com uma ordem de grandeza, estamos a falar de mais de 3000 missivas, entre registos ativos e passivos, constituindo um importante repositório da memória coletiva, no qual se perspetiva, aliás, muito da vivência cultural, social e política do país durante boa parte do século xx.
O caso que trazemos hoje ao conhecimento dos nossos leitores diz respeito à correspondência que Aquilino Ribeiro (1885-1963) trocou com Francisco Costa. Na verdade, no citado espólio, encontramos duas cartas que o autor de O Malhadinhas endereçou ao escritor sintrense. A primeira missiva, da qual não se apresenta transcrição, optando-se por dar breve notícia, foi escrita em 15 de abril de 1956. Aquilino, em tom intimista, solicita a Francisco Costa, à data diretor da Biblioteca e Arquivo Municipais de Sintra, autorização (e facilidades) para fotografar frontispícios da “Camiliana”; notável acervo municipal para a constituição do qual contribuiu decisivamente o referido escritor sintrense. A segunda carta, porventura a mais interessante, redigida em 12 de novembro de 1959, versa um assunto totalmente distinto, conforme se pode verificar na transcrição que se apresenta. Antes, porém, impõe-se uma nota para contextualizar a missiva. Trata-se de um pedido que Aquilino formula no sentido de Francisco Costa ser uma espécie de “testemunha abonatória” num processo que lhe movia o Ministério Público; o assunto (que não está expresso no texto) prende-se com a edição do romance Quando os Lobos Uivam, visado pela censura por (supostamente) conter elementos de troça da magistratura. Desconheço ulteriores desenvolvimentos… Mas fiquemos com a carta de Aquilino.
Meu ilustre confrade e amigo:
O meu advogado no processo que me move o Ministério Público, acusando-me de atentar contra a segurança do Estado!, manifestou-me o desejo de vê-lo à barra da instrução contraditória a propósito de qualquer quesito que respeite a liberdade do Pensamento.
Não gosto de incomodar ninguém, mas antes de formular tal voto, já eu pretendia formulá-lo junto do meu colega. Não lhe repugnará prestar-nos tal obséquio? Muito lhe agradecia.
O atento admirador e obrigado
Aquilino Ribeiro
(Espólio pessoal de Francisco Costa)

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Ética e Velocidade

HUGO LUZIO

Hugo Luzio, 19 anos. Estudante de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Menção Honrosa nas III Olimpíadas Nacionais de Filosofia e medalha de bronze nas I Olimpíadas Ibero-Americanas de Filosofia. Especial interesse em Lógica, Filosofia da Linguagem e Ciência Cognitiva. Músico (baterista e percussionista) em diversos projetos da zona de Sintra.

 "Afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com o seu capot ornado com grossos tubos semelhantes a serpentes de sopro explosivo... um automóvel que ruge e parece correr sobre a metralha é mais belo do que a Vitória de Samotrácia."

Marinetti, Manifesto Futurista

O Séc. XX brindou-nos com um larguíssimo legado de alterações socioculturais, mais ou menos dinâmicas, que revolucionaram completamente o panorama civilizacional vigente. Uma renovada abordagem ao meio e desenvolvimento sociais resultou, sobretudo, num profundo corte com a tendência tradicionalista ocidentalmente perpetuada, na requalificação de um tipo de arte que caíra no conservadorismo da sua própria academia, na inversão de um leque de concepções e abordagens profundamente estabelecidas, etc.

Numa curiosa associação, o Movimento Futurista 1 decretou a rejeição pura das perspetivas éticas vigentes, propagando a violência, a guerra e a força das máquinas como meio de desprezo total da padronização moral. A exaltação dos desenvolvimentos tecnológicos e da sociedade Moderna é, também aqui, um verdadeiro elogio da velocidade. Hoje, mais do que nunca, faz sentido considerarmos que a velocidade e a moralidade (ou a sua anulação), estabelecem uma interrelação de mútuo condicionamento.

A presente reflexão trata, fundamentalmente, as relações entre o imobilismo, a mobilidade, o movimento, a dinâmica de vida, a velocidade das ideias, o aceleramento das nossas decisões e todas as implicações que este tipo de fenómenos assumem na capacidade de reflexão ético-moral que desempenhamos sobre as nossas ações. O que significa, contemporaneamente, agir eticamente? Podem o lato conceito de verdade, e, consequentemente, as verdades particularizadas, os valores morais que tomamos como padrão para a nossa ação, ser definidos consoante um tipo particular de velocidade? De que modo o imediatismo vigorante nas nossas relações sociais acentua a tendência para uma instantaneidade (reação) irrefletida e será que uma ação irrefletida, automatizada, tem necessariamente de ser menos moral do que uma ação sobre a qual se efetue uma reflexão mais ponderada?

Partimos, pragmaticamente, de três axiomas fundamentais apontados por Sloterdijk em A Mobilização Infinita: (1) Movemo-nos a nós próprios num mundo que se move a si próprio; (2) Os movimentos próprios do Mundo incluem e atropelam os nossos movimentos particulares; (3) Naquilo a que chamamos Modernidade, os movimentos próprios do Mundo provêm dos nossos próprios movimentos, que cada vez mais se adicionam ao movimento mundial.

A relação individual que temos para com o mundo 2 assume, afirmo, um vínculo mecanicista, quase-viciado. O Mundo evolui e desenvolve-se por força do avanço e progresso dos agentes particulares que o constituem. Deste modo, o desenvolvimento corrente é fruto do dinamismo de ação de seres particulares. O que paradoxalmente se aponta, é que o avanço dos agentes individuais que decretam o avanço do Mundo como todo, surge em consequência direta da modelação que o Mundo impõe aos agentes que lhe dão movimento 3. Assim, o progresso, este paradoxal avanço do Mundo, atropela quem o constitui. O que é certo, é que o Mundo não espera que atravessemos a sua passadeira, não para em sinais vermelhos. Muito pelo contrário, avança cada vez mais rapidamente. Conseguiremos nós acompanhar o veloz progresso do espaço em que nos inserimos?

Os contextos particulares que experienciamos, o espaço e o tempo praticados e as influências externas de todas as ordens, assumem-se como definidores centrais da nossa capacidade de reflexão sobre as ações que realizamos. Limitar a ação é limitar o tempo ofertado ao agente de ação para que este considere o real significado e consequências práticas do ato que efetiva. Não é, forçosamente, impedir ação X de ser realizada. As formas de intervenção humana na realidade vêm sendo cada vez mais direcionadas para o fazer e menos para o agir. Fazer é uma forma involuntária e automática de ação; Agir é uma forma voluntária de ação, requerendo a consciência dos objetivos válidos de determinado sujeito que atribui certo fundamento ao ato que efetiva. A tendência para o fazer ganhou uma consciência própria, uma urgência caraterística que se alinha com a dinâmica social em que nos vemos inseridos, relaciona-se diretamente com a pressa da inscrição do ato na realidade experienciada.

Vivenciar um contexto impresivelmente mutável, em que a dinâmica de ação individual cada vez mais se vê relacionada com as possibilidades de ação-no-espaço, resulta necessariamente na protocolação indireta da capacidade de reflexão sobre o agir. Assim, as relações sociais vão-se encontrando progressivamente associadas ao imediatismo da decisão, à velocidade com que temos de lidar com uma maior e mais ampla exposição nas nossas próprias vivências comunitárias, à pressa e rapidez consideradas como fatores fundamentais a adotar, como virtudes e necessidades do Homem Moderno, que constantemente se atualiza. Toda a informação, todos os contactos e possibilidades de comunicação estão hoje inseridos numa rede global, à distância de cliques e pequenos movimentos, imediatamente dispostos, não apenas por utilidade, mas por definição.

A reflexão sobre o estado fundamentado dos valores tomados como núcleos orientadores da ação, tal como a análise do comportamento humano e dos seus padrões (a)morais, complexificam-se num mundo em que a velocidade se assume como condição sine qua non do progresso individual no contexto social. - Mexe-te, se não o fizeres, ninguém o fará por ti. - A Ética poderá, hoje, ser reformulada não como determinado percurso escolhido após reflexão e deliberação individuais, mas como a velocidade com que percorremos esse mesmo percurso próprio. O que fazes face ao que acontece e a que ritmo o fazes, parecem ser questões que assumem um novo e decisivo papel nas nossas considerações morais.4

A consideração “Ética como velocidade” surge-nos, quase certamente, como analogia um tanto quanto obscura, sem linhas precisas definidas e sem exemplo de observação nas nossas experiências diárias. No entanto, são variadíssimos os exemplos ilustradores deste tipo de hipótese e da importância de levar a cabo uma reflexão deste tipo. São espantosos, a título exemplar, os resultados revelados pela Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, em relação a um estudo efetuado na área que tratamos.

Submetendo voluntários a assistir à narração de histórias geradoras de sentimentos de admiração pela virtude humana e comparando os resultados obtidos com as respostas ofertadas a situações em que se apresentaram casos de explícita dor física, exames de neuroimagem demonstraram a apresentação de uma resposta instantânea à perceção de dor física do Outro, mas uma demora de cerca de 6 a 8 segundos para responder às histórias que evocavam admiração ou compaixão pela dor emocional. Outro resultado admirável prende-se com a descoberta de que as áreas cerebrais ativadas ao ser reconhecida a dor física de um Outro foram as mesmas que nos fazem ter consciência do nosso próprio corpo.

Os vídeo-jogos violentos são exemplos concretos desta relação entre rapidez e apatia moral. Por força da dinâmica com que os eventos decorrem no contexto virtual, não se permite a mínima compaixão com as figura-representativas (por vezes, humanos). O único objetivo é a aniquilação, a morte rápida. A compaixão não existe virtualmente. A aceleração do real pode aqui ser considerada como impulso à instintividade, à reposta imediata, comumente relacionável com a imoralidade. Mas tem necessariamente uma ação irrefletida, automatizada, de ser menos moral 5 do que uma ação sobre a qual se efetue uma reflexão ponderada? É, necessariamente, o fazer menos moral do que o agir?

Uma ação imediata é uma ação menos refletida. No entanto, uma ação menos refletida não é necessariamente uma ação que faça um uso menos direto da consciência moral individual, tendo em conta que esta é, em parte, resultado direto da confluência entre os padrões morais vigentes em determinado contexto social onde o indivíduo se vê integrado e das considerações individuais adotadas sobre esses mesmos padrões. É-o, antes, considero, uma ação mais instantânea, mais automática, mais mecânica. Hoje em dia o automatismo não pode, ainda assim, ser necessariamente interligado ao primitivismo da “reação”, tal como uma reação mais instintiva ou direta a determinada situação não pode ser imediatamente considerada menos moral. A reação, a velocidade imediata de aproximação a determinado evento, está, hoje, diretamente interligada ao padrão moral dominante, à força da ideologia determinada. O instinto ganhou um novo significado, porque não existe mais independentemente do meio, não é apenas resultado direto da individualidade do sujeito; é o contexto social que gera os seus contornos, que programa o seu tipo de manifestação.

Falamos aqui de uma espécie de linguagem programática da ética. É ponto assente que a tecnologia não pode resolver dilemas morais: um computador não tem consciência, não delibera ações, não considera moralmente opções, não analisa possíveis consequências éticas. Contudo, se nele introduzirmos referências de condicionantes sociais, genéticas, pessoais, noções gerais de valores a serem considerados como orientadores de escolha, etc, é certo que a máquina conseguirá, dentro do seio do próprio padrão programático introduzido, resolver questões de cariz moral. Simplesmente agirá segundo a lógica da procura dos resultados mais produtivos/benéficos para o maior número de partes envolvidas na questão. Também nós estamos sujeitos a esta espécie de programa definidor, a um influenciador da ação.

A reflexão moral assenta, sobretudo, na separação entre aquilo que tomamos como bem, passível de ser considerado como impulso à boa-acção, e mal, passível de ser tomado como impulso à má-acção. Existe, na valoração moral, uma certa noção de verdade. É verdade, para mim, que há mal na dor, daí que, quando confrontado com a possibilidade de premir, ou não, o gatilho de um revólver contra alguém, provavelmente, escolherei não o fazer. Não é, assim, segundo os meus próprios princípios e valores morais, uma ação ética, matar alguém. Contudo, o que me garante que a opção que tomo como correta, apoiada num certo critério de veracidade que em muito molda o meu próprio posicionamento moral, é, de facto o mais correto? O que me garante que é verdadeiramente imoral matar?

O caso apresentado em Austerlitz, de W. G. Sebald, evidencia concretamente o que podemos inferir da noção de Verdade como um tipo particular de velocidade, do qual farei uso figurativo para esboçar as implicações diretas da dinâmica do meio nas nossas decisões morais. A dado momento da obra, o protagonista encontra um vídeo de propaganda Nazi, que tenta passar a ideia de uma cidade construída pelos nazis para os judeus, onde se vive maravilhosamente entre homens livres. Na tentativa de averiguar se uma pessoa particular esteve presente nesse mesmo vídeo, o protagonista manda fazer uma cópia do mesmo em câmara lenta, não com a duração original de catorze minutos, mas de uma hora.

A transformação da velocidade da película revela, como Gonçalo M. Tavares refere, uma estranha manifestação de elementos antes ocultos: “[...] a alegre polca que se ouve na banda sonora torna-se numa marcha fúnebre que se arrasta de um modo quase grotesco.”, as pessoas que surgiam primeiramente como alegres cidadãs, surgem agora andando longa e morosamente, num cenário que melhor parecer ilustrar alguma verdade efetiva sobre a dinâmica social do nazismo. A redução da velocidade mostra, aqui, alguma verdade antes ignorada: “o que parecia uma canção alegre é, afinal, uma canção fúnebre”. A velocidade de exposição do mundo e a velocidade de observação do real tornam-se conflituosas, apresentado um novo (e estranho) conceito que surge pela consolidação destes dois tipos de aproximação: a Verdade como velocidade certa da realidade, como velocidade intermédia entre o observador e o que é observado.6

As tartarugas conhecem melhor as estradas que os coelhos.7 Se as nossas decisões ético-morais estão diretamente associadas a determinadas noções de verdade, a certas verdades incontornáveis que necessariamente assumimos para definir o rumo da nossa ação, então, torna-se impositivo relacionarmos a dinâmica externa, a velocidade dos fenómenos com que lidamos e a nossa própria velocidade de aproximação aos fenómenos que decorrem, com a capacidade de reflexão moral. Diz-me a que velocidade andas, dir-te-ei qual a tua moral.

O progresso técnico, a Modernidade, a tecnologia, as extensões mentais materializadas em resoluções tecnológicas, o evitar da apatia e a consideração da lentidão como atitudes contraproducentes, potenciais canalizadores de inação 8 estão a limitar significativamente o espaço para a reflexão moral, a protocolar cada vez mais o instinto e o imediatismo automático das nossas decisões, a tornar a urgência da ação um fenómeno necessário à sustentável vivência social. É neste ponto, que devíamos todos pegar no comando utilizado por Adam Sandler em Click 9 e transformar a existência contínua, as nossas vivências e ações irrefletidas (mas não necessariamente imorais), num processo de reflexão em slowmotion, notando na experiência lenta os pormenores que nos escapam pela pressa, transformando a moralidade numa categoria reparada, tornando a ação re-ação, uma ação duplamente repetida: a primeira - pensar a ação; a segunda - realizar a ação pensada.10

Se somos o motor do Mundo, e se é o Mundo que define, cada vez mais acentuadamente, a nossa própria velocidade de existência, tornar-nos-emos, num futuro próximo, meras vítimas da nossa própria velocidade? Atropelar-nos-emos paradoxalmente, como vítimas de um mobilismo que peca pela irreflexão? Seremos nós apenas produtos de uma Técnica que torna urgente a prática?

Resumida sinteticamente, a minha proposta central é a de que a velocidade e o imediatismo da realidade com a qual lidamos correntemente nos estão a conduzir, progressivamente, à amoralidade (e não à imoralidade). Isto é, a um fazer automatizado (não necessariamente imoral); somos meras reduções concretas da ideologia prática que nos guia, do fio que conduz a marioneta humana.

[Advertência para o leitor mais ingénuo: tudo o que se escreve é erro em potência.]

 Hugo Luzio

1 Com origem no Manifesto Futurista, de Marinetti [citação inicial], e nacionalmente representado, p.e., por Álvaro de Campos (ver Ode Triunfal)

2 Mundo, como espaço social unificado, encontro centralizado onde todos os indivíduo são coletivamente.

3 Restam opções contrastantes: ou assumimos que a superestrutura social define as consciências individuais, ou consideramos, ao invés, que por força da superestrutura social ser produtora direta das consciências individuais, elas acabam sendo apenas produto delas próprias.

4 Tavares, Gonçalo M. – “Pés e Pensamento” – Atlas do Corpo e da Imaginação; p. 111

5 Menos moral, como tendência para a imoralidade.

6 Tavares, Gonçalo M. – “Velocidade da Realidade, e Lentidão” – Atlas do Corpo e da Imaginação

7 Khalil Gibran

8 Porque é que, em religião alguma, se criou um “Deus da Lentidão?”

9 2006

10 “Don’t act. Just think.” – Slavoj Žižek – Big Think

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Escoliose Cerebral

FREDERICO PARADELA DE ABREU


A escoliose define-se como um desvio da coluna vertebral para um dos lados. As actividades que fazemos ao longo da vida podem potenciar esse desvio. Quem estiver familiarizado com a silhueta do tenista Rafael Nadal captará bem a noção das assimetrias provocadas pelo uso que damos ao nosso corpo. Tomados de forma isolada, facilmente se atribuiria o seu braço esquerdo a um lutador de Jiu Jitsu, na categoria de peso pesado, e o direito a um bibliotecário que recentemente se inscreveu num ginásio por recomendação do seu médico. O problema é que estas duas «personagens» musculares, bastante distintas, estão ligadas à mesma estrutura e isso interfere com o seu bom funcionamento a longo prazo.

É normal que haja sempre um lado mais desenvolvido do que o outro, um destro dará inconscientemente preferência ao braço direito para executar uma panóplia de actividades rotineiras ao longo da sua vida, como levar o saco das compras, lavar os dentes, et cetera. Contudo, existem estilos de vida que conduzem para um desalinhamento e assimetria da coluna vertebral acentuados podendo degenerar em dor e desconforto muscular, deficiências respiratórias, entre outros malefícios. Não mata mas mói.

Passando agora para o órgão mais misterioso do corpo humano, onde nestes últimos anos se tem descoberto novas e surpreendentes evidências sobre ele. Digo surpreendentes porque realmente quem pagou uma operação para retirar o apêndice deve estar surpreendido por ele afinal ser preciso. Mas deixemos isso agora. Passemos antes para o segundo órgão mais misterioso do corpo humano: o cérebro.

O cérebro está dividido em dois hemisférios, esquerdo e direito, cada um responsável por determinadas funções. Contudo, as novas experiências neste campo têm vindo a questionar a tese de que os hemisférios cerebrais possuem uma divisão de tarefas rígida, sendo portanto um processo interactivo entre ambos mas mantendo a lateralização nos domínios em que cada metade é especialista. Aliás, estamos a falar de uma área em que as evidências científicas que existem são frágeis e facilmente temos de manhã uma evidência a dizer que é por ali, e à tarde, no próprio dia, termos outra a dizer que afinal é por acolá – semelhante às alterações de governo durante a Primeira República mas sem tanto aparato – Portanto, tudo o que for aqui dito vale enquanto valer.

O hemisfério esquerdo processa de forma lógica, racional, analítica, funcional. Pensa sequencialmente – reconhece ocorrências em série. Exemplos de funções seriais desempenhadas pelo hemisfério esquerdo são as actividades verbais como falar, compreender o discurso de outras, ler e escrever. Por seu turno, o hemisfério direito processa de forma simultânea, contextual, sintética, metafórica e estética. Apreende a realidade em termos holísticos – reconhece padrões e interpreta as coisas simultaneamente. É responsável por compreender o significado das emoções e expressões não-verbais. Inúmeros estudos demonstram que o hemisfério direito está incumbido de perceber as metáforas. Imaginemos que recebe uma carta nos dia dos namorados de alguém a dizer que vai “abrir o coração para si”. Graças ao hemisfério esquerdo foi capaz de ler a frase contida na carta mas pode agradecer ao hemisfério direito por fazer com que não entre em pânico julgando que o remetente acabou de espetar uma faca no seu próprio peito para que você pudesse espreitar o interior do coração dessa pessoa, pois é o hemisfério direito o responsável pelo decifrar de que aquela frase é o anúncio de uma declaração de amor e não um convite para um novo e bizarro hobby da moda: heartwatching – Peço encarecidamente aos cibernautas com queda para o satanismo que não abandonem o exercício retórico em que aquele conceito foi criado e não o tornem «uma coisa», por favor.

Sendo que cada hemisfério é especializado em certas áreas, as actividades ligadas as esses domínios desenvolvem maioritariamente o hemisfério que é chamado a intervir. Ao ler estarei a trabalhar maioritariamente o hemisfério esquerdo e ao desenhar estarei a trabalhar maioritariamente o hemisfério direito, por exemplo. Posto isto, e com o eco da linha de pensamento supracitada (lá bem supra no texto) ainda bastante audível, facilmente inferimos que as actividades que fazemos ao longo da vida podem contribuir para uma assimetria entre hemisférios podendo degenerar em escoliose cerebral.

E isto é preocupante? Epá… é. Uma escoliose cerebral para o lado esquerdo dá origem a uma existência fria sem emoção, semelhante à das máquinas, e uma escoliose cerebral para o lado direito gera uma realidade histérica e disfuncional incapaz de criar o seu próprio manual de instruções de sobrevivência. Quem precisar de evidências para aceitar esta tese basta convidar um contabilista para ir tomar café ou tentar organizar um evento de relativa complexidade com um indivíduo de belas-artes.            

Tal como a escoliose normal, a escoliose cerebral também causa dor e desconforto (deficiências respiratórias ainda não houve registo de algum caso clínico) mas neste contexto em vez de nos músculos é na mente. E isso torna tudo muito mais delicado porque a mente é terreno intangível e portanto mais difícil de tratar mas também de diagnosticar. A escoliose cerebral também não mata mas mói porém se calhar era preferível que matasse porque assim receberia a devida atenção. As pessoas falham o diagnóstico porque habituam-se à redução dos padrões de bem-estar mental e emocional, acomodando-se a essa realidade «moída». O hábito gera tolerância.

Com base nos estudos do INEI (Instituto Nacional de Estatísticas Inventadas), as estatísticas dizem-nos que 3 em cada 5 portugueses sofrem de escoliose cerebral. Ora os números são assustadores mas mais assustador é o facto de uma das principais causas ter na génese do seu propósito o desígnio oposto. O ensino público português forma todos os anos milhares de «Rafaeles Nadales» cerebrais. Porquê? Porque dedica mais tempo e atenção às disciplinas que trabalham com o hemisfério esquerdo: Português, Matemática, etc., negligenciando as restantes.

Esta conversa não é nova, e tão-pouco é minha intenção dizer que o hemisfério esquerdo é um vilão opressor do hemisfério direito. Mas a verdade é que há na sociedade uma enorme assimetria estrutural para o lado esquerdo. Mas se há, ainda bem que é para o lado esquerdo, se fosse para o lado direito estávamos tramados. Os relógios derreteriam e nenhum transporte público chegaria a horas, os aviões não estariam sincronizados e as buzinas dos carros emitiriam excertos de textos humorísticos a cada apitadela, entre outros surrealismos insustentáveis para a vida gregária de animais verbalizadores. Se bem que seria giro imaginar um pintor a chegar ao ponto de saturação pela falta de rotina, atirando o pincel e a palete ao chão, gritando veemente “Basta! Fini cette merde!”, e saindo a correr do seu ateliê em direcção à primeira loja Armani que encontrasse, vestindo um bom fato, sacrificando o conforto da sua traqueia com genuíno prazer através da utilização de uma gravata, e, libertando-se do mundo desregrado e desconexo onde trabalhava há já mais de 30 anos, indo perseguir o seu sonho de criança de ser banqueiro, trabalhando com um horário e salário fixos, vivendo de forma estável e pacata.

Em jeito de conclusão para esta reflexão sobre as assimetrias cerebrais poderia inserir uma máxima (em itálico) sobre o «equilíbrio» ou poderia coligir uma mão cheia de estudos de várias áreas, capitaneadas pela Psicologia, para dar força à mensagem de que o equilíbrio é a chave do bem-estar mental e emocional mas a verdade é que ao longo das nossas vidas fomos acumulando evidências estatísticas de dias e dias de acordar de manhã e ir viver acontecimentos e experiências que demonstram que o equilíbrio é mesmo a chave de tudo. Combater a escoliose cerebral é acumular mais uma evidência aos resultados dessa investigação científica em que todos trabalhamos diariamente chamada: existência.      


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Aulas de Movimento Contemporâneo no Vale com Catarina Morato

BÁRBARA RODHNER

Sintra nos seus recantos mágicos guarda rebanhos de gente que se sente ou chegou porque se queria "vir", a sentir... Sintra, é assim, o fim da linha para tantos mas também um muito além; é o começo de uma estrada para quem nasceu a caminhar.

Mudei-me para cá faz agora nove anos, trouxe amigos, viu-os partir, arranjei caixotes , manobrei carrinhas, ri, chorei, brindei e rasguei. Poucos são os que A aguentam, o seu conhecido mau feitio de intempérie rígida mas quem fica ... Quem fica são sempre os mais fortes; os mais cheios, os que realmente importam.  Rijos, rectos, aéreos e complexos .

Uma grande amiga minha mudou-se agora, para ficar, espera-se... Sobre o chão de pedra montou um estúdio de paredes brancas, música certa e o movimento ideal e com ela esta nossa Sintra não será mais a mesma. Digo-vos eu... Entre o redondo das ancas, o movimento no espaço, a expressão do ar nasce uma dança, em mim, em ti e n'Ela...

Sintra. ...
Sintra! Entre as Bárbaras e as Catarinas desta vida nunca mais serás a mesma.

Voamos juntas?

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

António Tavares- O esteticismo como motor narrativo

MIGUEL REAL

O romance de estreia de António Tavares, As Palavras que me Deverão Guiar um Dia, finalista do Prémio Leya 2013, anuncia um autor raro no campo da filosofia da construção romanesca, privilegiando menos o realismo (teoria hoje dominante no romance português) e mais uma visão estética na composição da narrativa. O autor foi igualmente galardoado com uma menção honrosa no Prémio Literário Alves Redol de 2013 com o romance O Tempo Adormeceu sob o Sol da Tarde, ainda não publicado (cf. “António Tavares. Vereador da memória”, de Luís Ricardo Duarte, “JL” de 3/9/14). João Céu e Silva não hesitou em classificar este romance como “um dos livros mais inovadores que esta rentrée literária de 2014 deverá oferecer” (QI, “Diário de Notícias” de 6/9/14)


Poucos são os romancistas estetas hoje. Porventura Vasco Graça Moura, José Sasportes, António Mega Ferreira e alguns textos de Hélia Correia, sobretudo Adoecer, a que se junta agora, com justiça, o nome de António Tavares. Esteta é o autor que, na composição dos seus textos, privilegia as referências culturais (história da música, da literatura, da pintura, da ciência…) às referências da realidade social imediata e exterior (o realismo). O seu intento é continuar, prolongar com subtileza, o longo entrelaçar milenário da história da cultura, evidenciando que as ideias, as imagens, os sons estéticos e culturais criados pelo homem modelam, ou podem modelar, a realidade exterior, agindo nesta de um modo transformador e, até, revolucionário, perfazendo, assim, a construção de um mundo do espírito paralelo ao mundo social e político. Esteta é o autor que vê o mundo através dos óculos históricos da cultura, da arte, da ciência, aquele que para toda a situação existencial encontra o seu modelo e motor no mundo paralelo da cultura. Neste sentido, esteta é todo o autor que, mais do que se inspirar na realidade exterior, se inspira no passado histórico da sua especialidade artística. No caso de António Tavares, na história da literatura e do pensamento europeus. Só no “Prólogo” e no primeiro capítulo, constituído por 7 páginas, o autor enuncia mais de doze autores, evidenciando assim o esteticismo do romance.
António Tavares confessou a Gonçalo F. Santos, da revista Time Out de 27 do passado mês de Agosto, que as personagens dos seus romances têm equivalências literárias, “Neca, por exemplo, é tão pontual como Kant”. Com efeito, o narrador de As Palavras que me Deverão Guiar um Dia vai assentando num caderno, ao longo da passagem da puberdade para a juventude, as reflexões pessoais sobre os acontecimentos havidos no seu bairro da cidade de Moçâmedes (Angola), registando um paralelismo harmónico entre os acontecimentos do bairro e situações semelhantes descritas pelos autores em romances e ensaios. Consoante o narrador vai crescendo e bairro vai mudando ao longo da década de sessenta (passagem de moradias para prédios de apartamentos, encerramento da mercearia e abertura de um supermercado, morte de habitantes, aparecimento de novos modelos de carros, emergência de novos costumes, rodagem de um filme com cenas ostensivas de sexo…), vai registando no caderno, posteriormente passadas a romance, as “palavras”, isto é, as cenas ou personagens de romances e as mensagens de ensaios que o “deverão guiar um dia”. A realidade conforma-se com a literatura e o texto, constituído por palavras, evidencia-se como um outro e novo mundo, tão ou mais relevante que o primeiro: “Se as palavras nomeiam as coisas – que o mesmo é dizer, este meu mundo – mas também dão existência à realidade, aqui fica ela [no conteúdo do romance], toda a minha realidade” (p. 9). Não admira que o romance termine com o levantamento de uma biblioteca numa velha carrinha da Gulbenkian e, depois, com a oferta de todos os livros aos habitantes do bairro. Ficou apenas um: o caderno, que se transformará no romance ora publicado, isto é, na realidade verdadeiramente pensada e vivida.
Assim, o esteticismo de As Palavras que me Deverão Guiar um Dia reside justamente na conformidade da descrição da realidade do bairro e das personagens com trechos de romances clássicos ou de pensamento de ensaios famosos. Por exemplo, nas primeiras partes do romance, o narrador tem por hábito subir à copa de uma árvore e daí contemplar as pessoas, exactamente como a personagem Cosimo de O Barão Trepador, de Calvino. De facto, este processo de identificação de situações narradas com trechos literários ou filosóficos constitui-se como motor narrativo de todo o romance e confere, de certo modo, um tom melancólico à narração. A melancolia é expressa, não através da análise psicológica das personagens, mas através da sucessão contínua de acontecimentos que, sob a impotência do narrador, que desejaria contemplar um mundo mais estável do alto da árvore, alteram profundamente a face do bairro. Da copa da árvore, o narrador observa a outra personagem permanente, Luísa, a menina sem mãe que chupa limões, habitante num ferro-velho com o pai e as três irmãs, que partirão; no final o pai também partirá, entregando a sucataria ao narrador. Este, já na década de 1970, irá à guerra, combaterá, sofrerá um ano de tortura preso a uma árvore e, no final, regressará para abraçar a menina, agora rapariga, e viver com ela.
Das nádegas lésbicas da São modista aos prédios do Ivo mudo, da menina da mercearia sujeita a violência doméstica e depois fugida com o charmoso Cunha Mendes à dona Alice, mulher do copofónico Santiago e futura amante da São modista , do puritano e oportunista Amadeu à repressão moral do padre Neves, do Neca pontual, carregado de remorsos, ao congolês enfermeiro Tyrone, do Américo preso pela vida a uma máquina à Aninhas deprimida finha do defunto senhor Leal, da Dona Vitória carnal e adúltera ao marido ferroviário ausente, do Bill cineasta à incandescente Mila actriz… é, de facto, o  mundo a passar debaixo da árvore do narrador, levantada entre um montão de tralha de sucateiro.
Por fim, tudo passou, só as palavras ficaram como monumentos imorredoiros.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O naufrágio da Nau Nossa Senhora da Conceição em 1621

ANDRÉ MANIQUE



A Nau do séc. XVII e o seu naufrágio em 1621 (muitas vezes confundido com o da Nau do mesmo nome, naufragada em 1651 em Buarcos, na Figueira da Foz ou com o da naveta ao largo da Praia das Maçãs, em 1637), entre a Ericeira e o Cabo da Roca, tem levantado múltiplas questões ao longo dos últimos três séculos. Primeiro, e logo após o naufrágio, a da responsabilidade do então general da armada D. António de Ataíde, acusado de não ter acorrido em seu socorro logo que se souberam as notícias de uma armada de corsários turco-argelinos nas imediações. Por fim, e já mais recentemente, a localização do naufrágio, bastante procurado por equipas de caçadores de tesouros.
Esta Nau, de 22 peças de artilharia, foi a vigésima primeira a ser baptizada em honra de Nossa Senhora da Conceição.
Comandada por Jerónimo Correia Peixoto, largou de Goa no dia 1 de Março de 1621, com destino a Lisboa, juntamente com a Nau Nossa Senhora da Penha de França. Transportando pimenta, pedrarias e sedas, e abarrotada de passageiros com suas respectivas bagagens tornou-se uma presa apetecível, não só durante o seu percurso, como também pelos actuais caçadores de tesouros.
As duas naus suportaram durante mais de um mês um fortíssimo temporal ao largo do Cabo da Boa Esperança, acabando por se perderem de vista. Continuando sozinha, a Nossa Senhora da Conceição fez escala na ilha de Santa Helena, onde viria a morrer de acidente Jerónimo Correia Peixoto. O comando da nau foi entregue a D. Luís de Sousa, que a dirigiu para os Açores. Ao largo do Faial voltou a encontrar forte temporal, sendo necessário aportar na Terceira. Aqui foi-lhes alertado, por duas caravelas que traziam notícias do reino, para o perigo de encontro com uma frota de piratas argelinos, que se sabia rumarem de Argel em direcção à costa portuguesa.
Com apenas 14 artilheiros e 6 soldados e com poucos tripulantes para pegarem em armas, D. Luís de Sousa pede ao governador da Terceira alguns soldados para ajudarem a engrossar a guarnição da sua Nau. O pedido foi aceite, porém logo se constatou que os embarcados ou eram bastante idosos, ou os mais novos, não tinham qualquer experiência. Ainda assim foi então decidido rumar até à costa portuguesa pelo norte das ilhas Berlengas, onde uma esquadra de Guarda-Costas de D. António de Ataíde a escoltaria até à barra do Tejo.
As Berlengas são avistadas a dia 8 de Outubro. Durante a madrugada avistam-se alguns vultos de navios no meio da neblina e a ouvem-se vozes, o que fez os da Nau de D. Luís de Sousa julgarem tratar-se da esquadra de D. António de Ataíde. Mas o amanhecer logo veio revelar o mais temido. A Nossa Senhora da Conceição encontrava-se rodeada de cerca de 17 naus e patachos Argelinos, cada um deles com cerca de 30 a 40 peças de artilharia. Comandados por Tábaco-Arrais, esta frota já havia capturado dias antes, ao largo do cabo Espichel, 19 navios ingleses. A nau da Índia, carregada e solitária, mostrava-se assim uma presa fácil. Forçado a navegar em direcção a terra, D. Luís de Sousa prepara-se no entanto para o combate. Sendo mais velozes, os navios de Tábaco-Arrais logo se aproximam, disparando um tiro de salva, no intuito de deter o navio português. Ao responder com um tiro de bala, começou um prolongado combate de cerca de onze horas, no qual a Nossa Senhora da Conceição sofreu vários bombardeamentos de través, ficando bastante danificada e com inúmeros feridos. Um desses feridos foi o próprio D. Luís de Sousa, que foi obrigado a comandar as operações deitado sobre um caixote. Os argelinos, no entanto, também sofreram várias perdas. A artilharia portuguesa era de maior calibre, provocando graves danos no casco e aparelho dos navios argelinos, bem como numerosos mortos e feridos entre os mesmos. Um dos navios argelinos mais atingidos, estando a meter água, resolve abordar o navio português, travando-se um duro combate no castelo da proa. Amontoados em tão reduzido espaço os argelinos tornam-se presa fácil. Um deles, mais atrevido, resolve cortar os cabos de manobra das velas para tentar reduzir a velocidade da nau. Por engano, corta os cabos errados, fazendo cair estrondosamente a verga da Gávea sobre o castelo, matando grande número de argelinos. Os restantes, que não tiveram tempo de se atirar ao mar, foram mortos pelos portugueses
Com os seus navios bastante danificados os argelinos acabam por desistir da perseguição, afastando-se com o cair da noite para oeste. A Nossa Senhora da Conceição continuou a navegar em direcção à costa, bastante danificada. Mais de 30 mortos e feridos e dos 14 artilheiros, apenas 1 sobrevivera.
A 10 de Outubro é avistada a Ericeira. D. Luís de Sousa decide então aí fundear, com o objectivo de pedir reforços para o caso de um novo ataque argelino. Foi-lhe proibido fundear com o argumento que não era possível dar abrigo nessa época do ano e aconselhado a dirigir-se para o largo, onde a esquadra de D. António de Ataíde o aguardava. Foi-lhe também recusado o pedido de recolha dos feridos, mulheres e crianças, por terem ordem de não atracar à nau. D. Luís de Sousa não teve outra alternativa se não abandonar o intento e dirigir-se para o largo, na esperança de encontrar a frota do capitão da armada de costa. Sem o habitual vento de feição de noroeste, e incapaz de navegar mais rapidamente para sul, a nau volta a encontrar-se com a armada de Arrais no dia 11 de Outubro, entre a Ericeira e o Cabo da Roca. Da esquadra de D. António de Ataíde nem sinal. 
Depois de pesados bombardeamentos por parte da frota argelina e uma abordagem do navio, a Nossa Senhora da Conceição acabaria por incendiar-se, afundando-se com toda a riqueza que trazia da Índia. Os portugueses que se salvaram foram feitos cativos e levados para Argel, entre os quais, o heroico capitão D. Luís de Sousa, que viria a falecer dos ferimentos causados três dias depois. Alguns dos cativos conseguiram voltar ao reino após pagamento do resgate. Entre estes constava João Carvalho Mascarenhas, libertado em 1625 ou 1626, e que viria a deixar o seu testemunho na sua Memorável Relação da Perda da Nau Conceição. Esta narrativa relata os eventos que estiveram relacionados com o naufrágio da Nossa Senhora da Conceição, bem como o seu período de cativeiro em Argel.
A D. António de Ataíde foi imputada a culpa da perda da nau da Índia e preso no Limoeiro. O processo arrastou-se por três anos. Como defesa, D. António de Ataíde justificou a incapacidade de poder socorrer a Nau, como era seu dever, devido às condições de navegação que se faziam sentir na altura do infortúnio, tentando no entanto perseguir a armada argelina no mar alto, porém sem sucesso. Acabaria por ser considerado inocente.

BELLO, Mónica. A Costa dos Tesouros, Temas e Debates, 2006.
PEREIRA, José António Rodrigues. Grandes Naufrágios Portugueses (1194-1991), A Esfera dos Livros, 2013.
DOMINGUES, F.C ; GERREIRO, Inácio. D. António de Ataíde, capitão-mor da armada da Índia de 1611 in A Abertura do Mundo, Estudos de História dos Descobrimentos Europeus, Vol. II, Editorial Presença, 1987.
MASCARENHAS, Joam Carvalho. Memoravel Relaçam da Perda da Nau Conçeicam, Lisboa, 1627.