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quarta-feira, 10 de maio de 2017

A Informática



EURICO LEOTE
Eu gosto muito da informática. A informática é muito bonita. Eu nunca fui à informática.

Abro assim de forma jocosa e à laia de redacção naife, esta ligeira observação sobre a complexidade da informática.

A informática é com efeito um óptimo instrumento que nos poupa imenso tempo e trabalho, e reduz as tarefas a executar, quando funciona, e que ao mesmo tempo e no minuto seguinte nos põe os cabelos em pé, ou nos põe a uivar de raiva, quando pretendemos aceder a um determinado ficheiro, e o mesmo se recusa a abrir, ou reporta mensagem de erro, ou leva uma eternidade a abrir, após a máquina se ter desligado várias vezes.

Mas só assim se comporta e reage, quem efectivamente desconhece a verdadeira génese e complexidade da máquina. Os vários circuitos, funções e tarefas que a mesma executa em permanente e incansável trabalho, quando tempo é o que não temos, e que mais falta nos faz.

Quando carregamos no botão que irá ligar e fazer arrancar a máquina, não fazemos uma pálida ideia das tarefas que ela inicia, dos ficheiros que ela carrega, das portas e periféricos que ela reconhece, dos controladores que ele instala, das rotinas que ele corre, dos programas que instala, no sentido de nos permitir executar as tarefas pretendidas com a maior celeridade e segurança possíveis, ou que os seus componentes físicos o permitem, como será o caso da velocidade do processador, da capacidade de trabalho e velocidade das memórias, da velocidade de leitura e arrumação do disco rígido, ou de tantos outros elementos que a constituem, incluindo os sistemas de arrefecimento, os quais podem levar ao encerramento da máquina, em caso de sobreaquecimento.

Grave mesmo é quando algo danifica o disco – um pico de corrente por exemplo – disco esse que contêm toda a informação necessária e religiosamente guardada numa pasta, por vezes até protegida por uma palavra de código.

E o que dizer quando se perdeu a palavra de acesso que nos permite entrar na máquina, ou mesmo na pasta desejada?

E como nos sentirmos seguros e livres da enorme panóplia de vírus e similares, troianos, warms, phishing e spywears?

Mas afinal é ou não suposto ser a informática uma ferramenta útil e ao dispor do cidadão para o ajudar nas múltiplas e complexas tarefas que pretende executar?

As actuais ameaças e riscos vindos dos mais variados lugares e entidades constituem uma realidade com a qual teremos de continuar a viver, sendo necessário para o efeito, utilizarmos as maiores cautelas e precauções, quer utilizando sistemas de defesa mais eficazes, firewall e antivírus, quer prevenindo os nossos ficheiros e pastas através das cópias e backups de segurança, guardando-os em outros suportes físicos como um disco externo, uma pen, ou efectuando uma gravação em CD ou mesmo DVD.

Problemas e avarias, todos estamos sujeitos a elas, e só aplicando a prevenção sistemática será possível minimizar os danos causados e vencer este acérrimo combate desigual. Desigual porque oculto. Desigual porque traiçoeiro, disparado dos mais variados lugares e com múltiplas formas, com um objectivo, o de incomodar, destruir, roubar informação, em suma, prejudicar o utilizador que é aquilo que todos nós somos com maior ou menor grau de formação e de conhecimentos.

É por tudo isto que eu gostava muito de ir à informática.

domingo, 24 de maio de 2015

As Palavras e o Fumo

EURICO LEOTE


As palavras são como o fumo branco e cinzento, farrapos negros, cáusticas mesmo.
O fumo esconde a luz, as palavras escondem e desculpam os actos.
Fechadas e herméticas, as palavras ficam encerradas em si próprias, tal como o fumo negro encerra a luz e tapa a verdade, camuflando-a, e por vezes disfarçando com fiapos mais claros, meramente prometedores e só isso.
As palavras isoladas não associadas a actos, meramente de retórica e de ocasião, são como o fumo que se evola e sobe em turbilhão para a atmosfera, desvanecendo-se na sua ascensão rumo a nenhures.
Por vezes sentimos que estamos a falar para o vazio, que atiramos palavras para o ar, que seguem o mesmo percurso que o fumo.
Algumas palavras são duras e negras, magoam, doem no íntimo do ser, trazendo-nos lágrimas aos olhos, tal como o negro e pesado fumo que se liberta do incêndio que lavra, destruindo haveres e fazendo o homem mais pobre e triste.
As palavras por vezes são promessas. Promessas são sempre esperanças. O dia a dia de cada um de nós constrói-se alicerçado nessas esperanças. Agarra-mo-nos às palavras, bebe-mo-las e repeti-mo-las, procurando com isso obter ecos, que possam reforçar e complementar essas esperanças. Sentimo-nos defraudados quando aos poucos e no tempo, essas promessas se vão esfumando, e com elas as esperanças acalentadas. Aí somos nós que passamos a fazer uso das palavras, apelidando tudo e todos, desabafando, libertando a pressão interior, soltando as palavras caladas e acumuladas, devolvendo-as, ásperas e pontiagudas, certeiras, porque sinceras e verdadeiras. E mais uma vez as esperanças se foram levadas para a estratosfera, longe, bem longe, para onde os homens delas se possam esquecer, e outros as possam continuar a ignorar.




quinta-feira, 21 de maio de 2015

As montras de Amesterdão

EURICO LEOTE

As montras da cidade de Amsterdão na Holanda são especiais e diferentes em relação à generalidade dos países que conheço, pois são as únicas que utilizam manequins vivos e ao natural, para publicitarem os seus artigos, especialmente e quase em exclusividade roupa interior. Da cuequinha ao babydoll, do soutien às meias de liga.

Tem mais duas particularidades em destaque e diferentes dos outros países. Não praticam um horário normal de trabalho, pois estão em actividade quase 24 horas por dia, e fazem-se anunciar e chamar a atenção dos clientes interessados, utilizando luzes néon avermelhadas e bastante chamativas.

Não faço ideia onde param os sindicatos holandeses que não controlam estes horários de trabalho, nem fiscalizam o patronato. As trabalhadoras manequim estão terrivelmente mal defendidas nos seus direitos, pois exibem-se em pequenos cubículos sem condições, não permitindo grandes movimentos. Alguns dos cubículos possuem uma cadeira, que facilita de vez em quando o descanso. Outros nem isso, obrigando à permanência em pé do manequim, até à sua substituição por outra.

Uma coisa positiva neste processo, e de referência, é o facto de os manequins serem de todas as raças e cores, magras e gordas, altas e baixas, revelador de que apesar das más condições de trabalho, não existe discriminação, nem racismo.

Quanto aos dotes e qualidades dos manequins, existe para todos os gostos, o que se compreende, dada a heterogeneidade do público consumidor.

A avaliar pela quantidade de lojas abertas, a crise ainda não chegou a este sector de pronto a vestir, em especial de roupa interior e feminina. E tudo indica ir de vento em poupa, pois o número de casas novas abertas, alastra para outras zonas da cidade, não se confinando à tradicional rua das montras, com o seu canal dividindo a rua em duas.

É uma rua muito frequentada por gente de todas as idades. Inclusive faz parte do roteiro turístico da cidade, pois cruzamo-nos frequentemente com caleches turísticas puxadas por cavalos, que fazem o circuito completo, transportando gente de todos os níveis e faixa etária.

Confesso que regressei de uma curta visita a Amsterdão, maravilhado com esta forma muito original de fazer publicidade de lingerie feminina, utilizando manequins naturais e ao vivo. Algumas dançavam ao som de um leitor de CD’s estrategicamente colocado no minúsculo cubículo. Sempre era a forma de chamar mais a atenção. Iam rodando, mostrando a peça em vários ângulos.

Chegado a casa e regressado portanto ao meu país de origem, contei estes episódios a um grupo de amigos e amigas, que escutaram em silêncio o meu relato, mantendo um sorriso ao canto da boca, e manifestando-se de vez em quando com uma ligeira gargalhada mal disfarçada.

Mantiveram-se em silêncio sem grandes comentários. Rapidamente quiseram mudar de assunto e de tema de conversa, e relataram-me as suas odisseias por cá vividas durante a minha ausência.

Despedimo-nos como bons amigos e cada qual regressou a sua casa.

Só então e mais tranquilo, reflecti um pouco sobre o comportamento deles, tendo concluído tratar-se pura e simplesmente de inveja, por não poderem ter estado no País dos canais.

Enfim, cada um com o seu defeito.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

As saudades


EURICO LEOTE
O vento irritado soprava intenso e vigoroso. O homem teimoso insistia em cobrir com um oleado a lenha disposta em camadas alinhadas e tranquilas.

As árvores com os seus ramos vergados e torcidos gemiam, enquanto buscavam um abrigo impossível face à desolação que as cercava.

Por detrás das vidraças uma criança brincava olhando de tempos a tempos para o exterior, sobressaltada pelo troar do vento.

O céu cobriu-se de negro o que levou a criança a espreitar mais de perto, agora de nariz colado na vidraça. O bater ruidoso e rápido das lágrimas caídas do céu, levou a criança a recuar num misto de defesa e de susto, pelo inesperado da cena. Uma luz forte que por breves momentos surgiu, anunciou um forte ribombar que estremeceu toda a casa, pelo que o salto dado pela criança, seguido de uma rápida corrida para junto de sua avó sentada no seu canapé, apostada em dar vida a um par de meias, fundiram-se numa só acção.

Uma vez aninhada junto da avó e perante a tranquilidade desta, a criança serenou regressando às suas brincadeiras. O dia deu rapidamente lugar à noite e as luzes da casa surgiram de pronto acesas pela atenta serviçal que era dona de toda aquela casa, uma vez que era ela que punha e dispunha, procurando sempre ir ao encontro das necessidades de avó e neto, aos quais era dedicada.

A entrada do Inverno fazia-se assim anunciar, contrariando algumas previsões, e augurando a saída do período de seca que até então a população da aldeia havia sentido, e pela qual passara nos últimos meses, com fortes problemas e dificuldades para plantas e animais. A população da aldeia apesar de ver secar a água nas suas torneiras, conseguiu ultrapassar a situação e a carência de água recorrendo a cisternas e poços comunitários providenciais. A aldeia embora pequena era auto suficiente pois possuía igualmente um forno comunitário de onde se elevava um cheiro reconfortante e doce, especialmente quando se faziam os bolinhos típicos de mel, ou quando se assavam batatas doces.

Um moinho agora com as suas pás travadas e as respectivas mós paradas, não fora o vento mandar tudo pelos ares e estragar o engenho, era responsável pela moagem dos cereais usados na confecção. Do milho ao trigo usado pelo homem a outras farinhas utilizadas na alimentação do gado, tudo era triturado por aquelas mós já gastas pelo tempo, onde o Sr. José com o seu saber gosto e esforço se empenhava em manter a funcionar, consciente da importância do mesmo para toda a aldeia.

A avó com os seus óculos na ponta do nariz, acabara de compor a meia e jogava agora a mão a uma peça de roupa do menino, de onde se soltara um botão cansado de estar sempre no mesmo lugar, e que de vez em quando espreitava da sua casa.

A avó era a tranquilidade em pessoa, trabalhando com os seus gestos lentos mas eficientes e perfeitos, pois a pilha de roupa já composta e reparada ía ganhando altura no tabuleiro. De ali seguiria para as gavetas da cómoda e do roupeiro, levadas e arrumadas pela Carlota. Era bonita a avó apesar da idade que aparentava e das rugas que sulcavam a sua cara. Os óculos de aro de tartaruga balançando na ponta do seu nariz conferiam-lhe um ar de pessoa sapiente, meiga e amiga. Volvidos vários anos e após ter criado o filho, cabia-lhe agora e ainda tomar conta do neto. Não que isso lhe não desse prazer. Sempre se sentia mais acompanhada, e as correrias e diabruras da criança ajudavam a preencher os espaços da casa e a quebrar os silêncios que em nada ajudavam a passar o tempo, em quanto aguardava que os seus filhos como os tratava, regressassem de outras paragens para as quais foram compulsivamente atirados face à impossibilidade de encontrar trabalho dentro de portas. Este era um panorama generalizado por todo o país, com os jovens a sair em busca de trabalho e buscando a independência, cansados de viverem debaixo do mesmo tecto com os pais e os irmãos. Há uma altura para tudo, e por muito que custem os cortes e separações, é preciso partir em busca de realização pessoal. As saudades serão mitigadas dentro do possível e sempre que surjam as oportunidades.

Agora mais tranquila a criança e passada que fora a borrasca, regressou à janela para ver recolher a casa e de enxada às costas o homem teimoso que conseguira vencer por agora o vento, e cobrir a sua lenha para a manter seca para os tempos mais frios que se aproximavam. Lançou um adeus à criança que por detrás da janela e a coberto da intempérie assistia ao que se passava no exterior. A criança timidamente correspondeu reconhecendo de pronto e a coberto do capote o Sr. António que por vezes aparecia lá por casa para dar um jeito no jardim. Sorriu, e agora sim manifestou toda a sua simpatia com um aceno mais violento e contínuo. O Sr. António sorriu igualmente e afastou-se no seu passo permitido pelo ainda forte vento que se instalara, e que de acordo com as previsões viera para ficar toda a santa semana.

O acalmar da chuva trouxe à rua o cachorro do Sr. Filipe, animal meigo que se mantinha normalmente por aqueles lados, recebendo as carícias dos vários amigos que por ele passavam. Era vê-lo deitado dormitando ou de orelhas à escuta, atento aos ruídos e à vizinhança.

De dentro a voz soou trazendo o menino à realidade. Chamavam-no para ir tomar o seu lanche. Menino em idade de crescer precisa de estar bem alimentado dizia a avó. Até porque tinha contas a dar aos pais, quando estes aparecessem, ainda que por um curto período de tempo. Não estavam ainda criadas as condições que permitissem o retorno, e estava fora de causa fazer deslocar o menino para um outro meio mais hostil, onde a língua seria indubitavelmente uma forte barreira ao crescimento e desenvolvimento. Pelo menos assim o pensavam os pais, que estavam de comum acordo nesta matéria.

Por vezes o silêncio da casa era perturbado por suspiros mais profundos da pobre senhora, que sentia o peso da responsabilidade. Acontece que os anos não perdoam, e uma pobre velha tem dificuldade em criar uma criança, a qual necessita do convívio de outras idades, e de ter por perto os pais, para ser criada de acordo com os padrões e exigências familiares.

A aldeia era o espelho do país no tocante à constituição da população. Os muito novos e os muito velhos como ela, o Sr. António, o Sr. Filipe e a tia Maria que sempre viveram agarrados à terra e aos animais. Os braços produtores e as cabeças sãs e instruídas haviam emigrado em busca de trabalho que mitigasse a fome e permitisse uma satisfação pessoal, uma lufada de ar e uma esperança no futuro, em oposição a um país moribundo, cheio de velhos do Restelo, sem uma visão globalista, antes pelo contrário fechada e monolítica. Haviam de regressar um dia. Essa era a esperança e o sonho que os mantinha longe e ao mesmo tempo tão perto.

domingo, 3 de maio de 2015

Amor Fugaz

EURICO LEOTE

Ela era linda, simpática e parecia eficiente. Linhas bem perfeitas, torneadas e cativantes. Tinha 19 frescos e alegres anos. Estatura mediana, escorreita, cabelos morenos curtos e aparados. Ar garoto e andar bamboleante, atraente e direi mesmo algo provocador. Peito miúdo mas firme, exibindo mamilos deliciosos e agradáveis à vista.

Ele a dar-se ares de filósofo, bem falante, cachimbo ao canto da boca, ar distante. Estatura acima da média para homem mediterrânico. De chapéu e de sapatos brilhantes, bem vestido e engomado. Conjunto de fato e gravata azul marinho, com bolinhas azuis mais escuras. Um verdadeiro cavalheiro, de cabelo algo desalinhado mas bem tratado. Conheceram-se no local de trabalho. Um encontro meramente casual e inevitável para quem partilha e cruza os mesmos caminhos. Cruzaram-se nas escadas altura em que ele lhe chamou a atenção para a ponta do tapete levantada, não fora ela tropeçar e cair. Sorriram. Agradeceu a atenção e cuidados. Trocaram um olhar mais demorado. Voltaram a sorrir e afastaram-se ambos com um ligeiro brilho nos olhos. O cupido estivera presente naquele rápido e fugaz encontro. Dera mais um tiro certeiro com o seu instrumento caça lovers, pelo menos momentaneamente. Sim, porque o futuro e continuidade deste processo já não era da sua conta nem responsabilidade. Uma vez alcançado este objectivo, partira em busca de outro parzinho de arma assestada. A fase seguinte ficava entregue ao deus dará, ao alinhamento da lua, à conjuntura social e política, aos deuses do amor, da saúde, da justiça e de outros criados e inventados pelo homem ao sabor das suas necessidades, e para satisfação dos seus interesses momentâneos e fugazes.

O namoro teve início uma semana depois, quando voltaram a cruzar-se à entrada para a cafetaria fronteira ao local de trabalho. Uma comum interligação e vontade de aprofundar conhecimento, levou-os até uma mesa, onde após breve troca de banalidades, passaram a entrecruzar ideias, e a partilhar experiências, e a aferir gostos e sentimentos. Passaram a encontrar-se diariamente e a sair juntos. Trocaram tudo o que havia para trocar. Partilharam o que bem lhes aprouve ao sabor de gostos e desejos momentâneos. Desencantaram a lua e descobriram o que havia guardado nos baús. Brincaram como crianças que descobrem o brinquedo desejado. Esqueceram por momentos o que havia à sua volta.

Contudo, tudo se complica e modifica, quando partilhar responsabilidades se torna necessário, e quando se acorda verdadeiramente para o real. Surgem as desconfianças. Os caracteres e comportamentos acordam do sonho e revelam-se verdadeiros. O encanto dos primeiros momentos cedeu lugar a pontuais discussões. Surgem as dúvidas e naturais interrogações.

Mais denso se avoluma o problema quando as chamadas liberdades pessoais e individuais são colocadas em causa.

Aos poucos foram-se afastando. Algo quebrara aqueles momentos mágicos e únicos, e dera agora lugar a ocasionais e fortuitos encontros.

Começaram mesmo a evitar-se. Fora algo meteórico, relâmpago, e está tudo dito. Não são necessárias mais palavras, quando falharam os actos associados a novas realidades.

O afastamento deu-se por completo quando a nossa jovem fazendo valer as suas qualidades responsáveis e a eficiência, foi estagiar para um gabinete de advogados na outra extrema da cidade, e aí arranjou apartamento provisório. Nunca mais se soube nem de um, nem do outro. Entre eles ficou a recordação dos bons momentos partilhados.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

A política e os políticos

EURICO LEOTE


Os políticos são essencialmente e exclusivamente políticos, e só sabem fazer política.

Fazem em primeiríssimo lugar a sua política pessoal, depois a politica dos familiares e para os familiares e amigos, e por último a politica daqueles que os mantêm e alimentam, apenas interessados na política praticada pelos ditos políticos, no que concerne às suas pessoas.

A política é suja. Os políticos são corruptos. Os amigos dos políticos são sabujos. Os que alimentam e mantêm os políticos são vampiros. Os políticos são vis e torpes. Manipulam opiniões públicas, praticam a política do obscurantismo. Escondem-se atrás de políticos pseudo sociais a troco de votos não esclarecidos, comprados, chorados sob a ameaça de tumultos, da fome e da instabilidade social.

Os políticos perpetuam-se no poder com falinhas mansas e pezinhos de lã, e pela força da força e das armas. Os políticos vendem a alma ao diabo para poderem continuar a sua carreira politica assente no poder. Surgem na politica e para a politica vindos do nada. Mentem e espezinham para se fazerem afirmar como os doutos, os sábios, os únicos, os dotados, os iluminados. Fazem passar a todo o custo essa mensagem. Alienam com a não informação. Dizem descaradamente que o povo não está preparado. Não está, nem nunca estará, pois é esse o interesse primeiro da politica. Se todos soubessem o mesmo, outro galo cantaria. E todos seríamos galos e aí o mundo dos políticos afundar-se-ia. Deixariam de se vender gravatas, sorrisos e discursos. As palmas, abraços e palmadinhas nas costas entravam para saldos ao preço da uva mijona. Os políticos fechavam a loja e abriam falência. O séquito de seguidores juntava os trapinhos, arrumava a mala e ia pedir esmola para as esquinas dos prédios. Se calhar nem para isso serviam, pois nem para isso têm engenho. Só sabem tirar e roubar, sem pedir, nem justificar.

Que vivam os políticos enquanto não morrem.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Breve Momento

EURICO LEOTE

Olhando a imensidão e profundidade das montanhas, caio em mim e sinto-me insignificante face aos fenómenos naturais.

Estas massas enormes foram e continuam a ser moldadas pela natureza ao longo dos séculos. Perante a sua idade a minha existência nada é, contudo, sou suficientemente teimoso e quiçá estúpido ao querer e insistir em transformar e domar estes corcéis altivos, rudes mas simultaneamente belos ao olhar. Olhar que não cansa face à diversidade morfológica e às tonalidades obtidas.

Na alta montanha a cor do céu está constantemente a mudar. As nuvens correm tingindo de cinza os penedos. Num repente abrem e noutro repente fecham refulgindo os cabeços, onde ainda se avistam restos de gelo resultado do inverno recente, pois as neves mais brancas e macias há muito se foram liquidas encosta abaixo a correr nos rios que passam nos frescos e arborizados vales.

Eis que de repente o cabeço se avermelha semelhando sangue escorrendo pelas suas encostas, resultado único e inolvidável do sol coberto pelas nuvens ao incidir no seu cimo. As nuvens até então cor cinza deixam ver agora pinceladas de vermelho numa tela multicolor. Rapidamente preparo a minha máquina de registar os momentos e obtenho uma magnífica fotografia para poder contar e mostrar aos amigos.

Volvidos breves momentos, o vermelho deu rapidamente lugar ao cinza. Acabara de viver e registar um momento pouco comum e nem sempre observável, só possível em alta montanha, onde tudo é imprevisível e acontece em rápidas fracções de tempo. Tempo que é aquilo que alguém em período de descanso e ainda por cima já reformado do seu quotidiano trabalho, tem que sobeje, para ficar a olhar para tudo e para o nada, o que é algo que vai acontecendo com maior frequência. Deixamos o cérebro relaxar e divagar. Ficamos com o olhar fixo e aparentemente parado. Só o cérebro continua a sua função e vai destrinçando e ordenando a multiplicidade de pensamentos que vão correndo e desfilando na nossa mente.

O sol apressava-se para ir dormir, ou mais correctamente para ir banhar de luz e de calor a outra metade do planeta, pois o sol nunca dorme nem descansa para nosso conforto e bem estar. O céu apresentava-se vestido de nuvens cinzentas esparsas, deixando antever algumas manchas azuis.

Recolho ao meu refúgio antes que a noite se encerre sobre si, até porque uma fria aragem vem descendo do alto da montanha, arrastada por uma suave camada de nuvens, vulgarmente conhecida por nevoeiro. Opto por encerrar as janelas não vá o vento fazer uma partida. Por outro lado reduzo a exposição ao frio, e a probabilidade de precipitação em alta montanha é muito frequente, mais valendo prevenir do que remediar.

No aconchego dos meus aposentos, ao abrigo da intempérie, e ouvindo o passar do vento roçagando nas paredes sento-me comodamente após colocar um cd no prato da grafonola, a curtir alguns momentos musicais de todos os tempos, e implicitamente do meu tempo, pois para tudo há um tempo e um momento, e momento passado já não volta, já não é nem pode ser como foi. Daí por vezes a nostalgia que nos assola, e a recordação do que foi e já passou, e que de vez em quando insistimos em trazer ao nosso imaginário, forçando a mente a levar-nos nessa viagem de recordações, embora por breves momentos nas asas do tempo. Por vezes ficam apenas os testemunhos como o daquela foto que obtive há pouco, e que simboliza algo que irei mostrar e rever com carinho.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A Crise

EURICO LEOTE


Retomo a minha viagem iniciada há dois dias, quando decidi sair do meu país rumo a um país estrangeiro.

São oito horas da manhã. Já com o pequeno almoço tomado, e pronto para uma nova aventura, faço-me de novo à estrada no meu veículo casa. Trata-se de uma autocaravana com seis anos de vida, que possui as condições mínimas e necessárias para que nela se possa habitar, usufruindo de todas as belezas que a mãe natureza nos oferece.

Apesar da hora matinal sou surpreendido com bastante trânsito, e em especial por verdadeiras caravanas de carros pesados de transporte de mercadorias. São filas a perder de vista, alguns tentando ultrapassar outros mais lentos, o que origina autênticos rolhões no trânsito, apesar das duas faixas para circulação em cada um dos sentidos.

Nas áreas de serviço e de descanso, vou-me cruzando com outras dezenas de carros pesados de todo o tipo e feitio, os quais transportam as mais variadas cargas conhecidas e outras inimagináveis.

A vista não consegue enxergar tantos veículos estacionados, quer nas áreas situadas à esquerda, quer nas áreas localizadas à direita. Sou levado naturalmente a questionar-me sobre a brutal quantidade de veículos em circulação. Sobre o monstruoso consumo de combustível, bem como para a incrível libertação de CO2 para a atmosfera. Ocorre-me à memória a recente paralisação dos camionistas exigindo redução do preço dos combustíveis. Sou assaltado por fortes preocupações relacionadas com a crise dos combustíveis, nomeadamente no diminuir das reservas, da exploração intensiva, dos limites, porque tudo tem um ponto final, e da excessiva e porque não total dependência da civilização moderna pelo ouro negro.

É facto que os camionistas com os seus transportes e movimentos, percorrendo todas as partes e todos os lugares, num mercado totalmente aberto, são uma força de respeito, e suporte financeiro das várias economias por esse planeta fora. E se é verdade que sabemos perfeitamente o que pensam e desejam os homens de negócios, e todos aqueles que vivem e são satélites destes, de certeza absoluta que poucos são os que se preocupam com os comportamentos e reacções que o planeta vai sofrendo, e a maneira como este vai reagindo às ofensas que sofre a todo o instante.

É urgente repensar as políticas energéticas e aplicar as alternativas já conhecidas e menos poluentes. É necessário rever os meios de transporte, reduzir consumos, trabalhar com alternativos, inverter a política consumista e do deita fora para trocar por novo. Estamos a delapidar recursos. Estamos a comprometer as gerações futuras, deixando uma terra esgotada graças à prática da política da terra queimada.

O sol sobe no horizonte apesar de algumas nuvens teimosas, que de vez em quando insistem em cobri-lo por breves momentos. Decido fazer aquilo a que costumo chamar de fazer uma parada técnica. Saio na primeira área de repouso, que me aparece assinalada na estrada. Apeio-me da viatura e dirijo-me para os serviços de apoio. A minha atenção é automaticamente disparada para uma torneira que se encontra aberta, vertendo e desperdiçando água. A nossa água potável. A escassa e cada vez mais poluída água que constitui toda a nossa existência. O elemento fundamental na existência do homem. Aquela mesma água pela falta da qual morrem dezenas de humanos diariamente. Que falta de consciência e sensibilidade planetária.

Alto! Mas o que é isto?

Se por causa dos preços dos combustíveis e da paralisação dos camionistas foi o que foi, como será quando a água potável escassear? Ou estamos demasiado ocupados com o nosso umbigo, que não nos apercebemos do resto, desse resto que é ao mesmo tempo tudo?

sábado, 10 de janeiro de 2015

A Janela Redonda

EURICO LEOTE


O mar ao longe dificilmente se distinguia da linha do horizonte. Apenas através das diferenças de tonalidade se tornava possível distingui-las, e isto claro, sabendo que ele se encontrava lá ao longe naquelas bandas. Com efeito e por vezes em função da incidência dos raios solares, estes espelhavam reflexos brilhantes nas águas. Outras vezes era o próprio céu que se apresentava com uma coloração azul desmaiada sendo fácil distingui-lo do azul esverdeado forte e mais carregado das águas do mar.

A distância a que se encontrava do mar, era bastante significativa. Dir-se-ia uma boa dezena de km em linha recta.

A janela por dentro da qual espreitava o mar na distância, apresentava um formato arredondado formado mais correctamente por um painel de 4 pequenas vidraças, onde apenas duas delas se abriam para o exterior. Esta janela fazia parte de um apartamento situado num 5º andar, pertencendo a um bloco isolado de 9 pisos na sua altura máxima.

Na sua frente abria-se um amplo espaço permitindo a visão para longe, por cima dos telhados de algumas casas mais baixas, e localizadas em planos inferiores, numa total imensidão até onde a vista e a distância alcançavam.

Por perto uma pequena mata de pinheiros mansos permitia deliciar os olhos com o seu verde permanente, salpicado do amarelo dos rebentos novos e respectiva floração. Outra espécie de pinheiro formava áleas delimitando a zona pedonal da zona de circulação automóvel.

Uns campos de jogos agora abandonados, faziam as delícias dos mais novos, numa boa peladinha de futebol de cinco. Um pouco mais ao lado, o que já fora em tempos campo pelado, depois campo ervado, era agora de novo um campo pelado, aguardando a colocação de um piso de relva sintética, após ter sofrido algumas obras, como a construção de muros em betão delimitando o seu perímetro, tendo em vista a protecção do futuro espaço desportivo. O mesmo foi ligeiramente alargado e aumentado no seu comprimento, mas receia-se que esta ampliação não venha permitir a criação de uma pista em seu redor, no sentido de facilitar a prática do atletismo, algo bastante procurado pelos amantes desta modalidade, acessível a todos, os quais como única alternativa terão de continuar a correr pelas ruas e no meio dos carros, competindo com os automóveis, e respirando um ar saturado e nada favorável à prática desportiva.

A redonda janela embora não muito ampla, mostrava uma significativa área aberta, permitindo e convidando a que o olhar se estendesse sem chocar com coisa alguma.

Num longe perto avistavam-se meia dúzia de guindastes, sinal de construção, não obstante a situação de crise que atravessávamos.

Num longe significativamente longe, eram os postes das antenas de televisão que sobressaíam, atiradas para o ar como agulhas, mais parecendo troncos nus de folhas e ramos.

Um depósito de água encimado por uma cúpula redonda, sobressaía destacando-se no azul do céu, semelhando uma torre de controlo aéreo.

 O verde por entre a concentração de casas num plano próximo ajudava a quebrar a monotonia do betão, combatendo o amarelo torrado e o branco das casas, bem como os tons rosa da cor dos telhados.

A fita cinzenta das estradas lá seguia o seu caminho, ajudando à circulação automóvel, que fluía de forma rala e esparsa, própria da hora de pouco movimento.

Sentado na cadeira da sala servida por esta janela, podia observar calmamente todo o movimento. As nuvens rodavam desenfreadamente arrastadas por um vento contínuo, mais activo nas camadas altas da atmosfera, pois as folhas das árvores dobravam de forma rítmica e suave.

O céu aos poucos carregava e escurecia. Uma chuva miúda principia a cair. Uma breve bátega abateu-se de repente, dando rapidamente lugar a um brilhante sol, banhando de luz os objectos e colocando cintilações nas pingas pendentes, e nas poças de água agora criadas. Estávamos no início da Primavera, e a incerteza desta estação, assim determinava estes comportamentos. Belos todos eles, pelas matizes colocadas nas folhas e ramos, pelas cores variegadas vindas dos campos, que se esforçam por sorrir e fazer desabrochar as flores.

Uma pequena e ténue neblina observada ao longe torna irreais os objectos apagando-os aos poucos no seu caminhar de proximidade. As casas perdem as suas cores e os seus contornos. A chuva miúda retorna a cair e desta vez parece que veio para ficar.

A claridade apesar de diminuta vinda através dos vidros da janela, permitem que continue a leitura da obra a que se dedicara nos últimos minutos. Trata-se de uma obra de conteúdo relaxante, o qual adquire outro sabor quando feito junto a esta janela aberta sobre o pequeno mundo no qual habita.

Através dela consegue alcançar outros mundos, outras vidas. Através dela deixa o seu olhar passear. Ousa sonhar e criar o seu próprio universo. Construir o seu castelo de cartas, e vê-lo ruir quando se retira para o interior e afasta da janela.

A janela constituía o contacto com o mundo exterior. Através dela chegavam os sons dos carros correndo na avenida, as sirenes das ambulâncias cavalgando apressadas, o vento rugindo ao passar na esquina do prédio. Escassas e imperceptíveis as vozes dos transeuntes dada a altura e a distância. No andar superior o cão do vizinho começou a falar de forma rápida e aparentemente de satisfação. Eram efectivamente horas dos donos regressarem a casa, e o bichano manifestava dessa forma a sua alegria.

O telefone tocou transportando-o para outra realidade. Alguém chamava do outro lado, necessitado de esclarecer alguma situação, ou prestar informações, sem colocar de lado a hipótese de ter havido engano no nº discado. Levantou-se rapidamente e caminhou para a sala onde se encontrava acordado e irritado o telefone pousado no descanso. Retinia com insistência e estridência, como se tivesse pressa. Levantou o auscultador, e do lado de lá ouviu um sinal sonoro indicador de corte de chamada. Certamente alguém se enganara e havia considerado essa hipótese, optando por interromper a comunicação. Pousou o auscultador com um singelo encolher de ombros. A hipótese formulada de possível engano vingara, pois não reconhecera o nº no visor.

Aproveitou para se deslocar à cozinha. Sentia uma ligeira necessidade de comer alguma coisa. Estava próximo da hora do lanche. O almoço fora aparentemente mais fraco que o habitual. Peixe e legumes segundo o ditado, não puxam carroça. Havia que comer algo para enganar o estômago e esperar assim pela hora do jantar. Preparou uma sandes com queijo, enquanto a cafeteira eléctrica entretanto ligada, cumpria a sua missão de aquecer  a água nela colocada. Iria tomar um chá a acompanhar a sandes.

Satisfeita esta necessidade básica e primária, já com recurso à iluminação artificial, pois a noite fechara-se sobre si, retomou à sala meio às apalpadelas, servindo-se agora da claridade vinda do exterior, que entrava pela vidraça adentro da janela redonda.

Perto e ao longe as lâmpadas da iluminação pública brilhavam, semelhantes a faróis faiscantes. No interior das casas próximas, a iluminação era bastante escassa. Os cidadãos encontravam-se a caminho de suas residências, após concluírem mais um dia de trabalho. Era assim um dos ciclos da vida e uma das rotinas a cumprir até à exaustão.

Sentou-se na cadeira contemplando o agora céu azul com bastantes nuvens, deixando antever escassos pontinhos brilhantes. Sentiu sonolência e as pálpebras algo pesadas. Optou por não contrariar este curto convite ao descanso. Encostou-se comodamente e fechou os olhos.