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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O naufrágio da Humanidade

FERNANDO MORAIS GOMES

Existe hoje no mundo um contingente de cerca de 160 milhões de refugiados, pessoas forçadas a fugir por recearem pela sua vida e liberdade, e que na maioria dos casos, abandonaram tudo – casa, bens, família e país – rumo a um futuro incerto em terras estrangeiras, vindos da Síria, Líbia, Eritreia, Sudão, Afeganistão ou Iraque, países mergulhados em conflitos étnicos, religiosos, palco de senhores da guerra e do cinismo geopolítico das grandes potências.
Cada vez em maior número, vistos numa óptica securitária e com receio, os refugiados são em larga escala pessoas indefesas ante a violação cabal dos seus direitos humanos, não obstante os piedosos e retóricos tratados, acordos e protocolos internacionais visando protegê-los, mas que no terreno esbarram com a rejeição e o desdém do Outro, vizinho ou conterrâneo, por vezes com uma mera fronteira física ou um lago a separá-los.
A separação dicotómica neste mundo pós-moderno entre ricos e pobres, cristãos e muçulmanos, ocidentais e orientais, sunitas e xiitas, com que se tem rotulado comunidades inteiras, criou uma nova categoria de cidadãos de primeira e cidadãos de segunda, os desejados de um lado e os indesejados do outro. Hoje, deparamo-nos com novos escravos e estes têm um nome: refugiados, os novos indesejados, ameaçando a estabilidade económica e social e fazendo florescer sentimentos xenófobos e de afastamento, apesar das piedosas mas distantes e súperfluas campanhas nas redes sociais ou em protestos coloridos mas que não tiram ninguém da sua zona de conforto, como o não tiraram os Charlies ou os protestos anti-globalização dum passado recente, mobilizadores de jovens burgueses para happenings vistosos e pouco mais.
São precisas políticas humanitárias de inclusão social e acolhimento. O refugiado é alguém que perdeu quase tudo, e para quem apenas subsistiu a esperança, a raiar o desespero. Forçado a deixar o seu país, deambula hoje como zombie esmolando uma cidadania e implorando por liberdade, estima, emprego ou educação.
Segundo um relatório de 2002 do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, o ACNUR, em cada dez refugiados no mundo, sete foram acolhidos por países pobres, e entre 1992 e 2001, do total de refugiados, 86% provinham de países pobres. Quando virão os países desenvolvidos a assumir um papel proeminente na protecção dessas massas humanas em constante movimento, em diáspora permanente das suas pátrias, buscando nada mais que o sagrado direito à vida?. É urgente um Pacto de Humanidade visando a superação deste estado de insegurança colectiva em que o mundo vive, em colapso ético e moral, e que destaque a urgência do respeito pelo ser humano na sua diversidade bem como as diferentes culturas e crenças religiosas e políticas.
Se na frente diplomática é preciso por fim aos conflitos, sem sofismas ou tacticismos, é preciso igualmente tudo fazer para acabar com o tráfico de seres humanos, que acrescenta sofrimento e insegurança a populações já causticadas pelos conflitos que não criaram. E rejeitar os discursos etnocêntricos, pois a humanidade constitui um só povo.
Aos refugiados é preciso reconhecer o direito de ser aceite, conferir-lhe direitos de cidadania que lhes devolva uma identidade e o direito de constituir e manter uma unidade familiar, o reconhecimento do casamento e os direitos para os seus filhos, sem cuja superação teremos o crescimento de um contingente de párias sociais. Mas também o direito a manter as suas crenças religiosas, a manter e praticar a sua língua materna e o seu património e herança cultural, o direito à educação e reconhecimento das suas qualificações, o direito a um emprego e remuneração dignos e em igualdade com os naturais dos países de acolhimento, e, sobretudo, o direito à segurança que os fez sair das suas pátrias, comunidades e famílias, para um mundo que julgavam deles e muitos teimam em considerar coutada privada com admissão reservada, e o direito de poder transitar livremente dentro do país que os acolheu e deste para o exterior, sem serem tratados como presos em liberdade condicional.
A Terra é um só país, e os seres humanos os seus cidadãos. Se esta visão pudesse ser rapidamente transformada em realidade pelos governos nacionais, muito em breve, e quem sabe ainda na primeira metade deste século XXI, teríamos um mundo onde o conceito de refugiado seria considerado algo ultrapassado. Até lá, continuaremos a ver chegar às praias do Mediterrâneo vidas que se perderam pela indiferença e rejeição. Uma vez mais, os sinos dobram. E dobram por nós, analfabetos da Humanidade e náufragos da solidariedade, alcateia ao invés de rebanho e seita em vez de comunidade.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Os amigos de Alex



FERNANDO MORAIS GOMES
 
Eram os trinta anos da greve académica, mais gordos e burgueses, encontraram-se na Trindade para um bife e recordar os dias frenéticos  da Faculdade. O tempo separara-os, hoje juristas de sucesso ou políticos do centrão.

Nos fins de setenta, Direito era território maoísta, iconográficos, os retratos de Ribeiro Santos e Maximino de Sousa pontificavam no átrio da escola. Durante a greve académica pregara-se a revolução na rádio universitária e em zelosos piquetes, e Alexandre, o da voz grave, entre jingles anunciava a gloriosa luta dos estudantes, e lançava setas aos professores, achincalhando a obesidade da Magalhães Colaço ou as épicas tiradas do Soares Martinez. Sem graça, meteu-se uma vez com Sousa Franco, crismando-o de inteligente, por tudo lhe entrar por um ouvido mas não sair pelo outro, assim gozando com a sua deficiência na orelha. A Glória, agora procuradora em Aveiro, era a mais acirrada, quebrando vitrinas com um pé de cabra, várias vezes foi detida por vandalismo, mas logo cúmplices comunicados desmascaravam o abuso fascista. O Heitor, hoje deputado, depois da passagem como vereador de uma Câmara, via no jantar a oportunidade de mostrar que até fora irreverente em tempos. Romântico aos vinte, sim, mas calculista aos quarenta. Do grupo, só Rafael enveredara pelos jornais, onde andava a investigar a vida dum político, por sinal do partido de Heitor.

Tinham sido tempos gloriosos. Comunicados policopiados, pichagem de paredes, revolucionários “copos” no Jamaica, para tudo acabar no Cacau da Ribeira, após a tomada da Aula Magna. Glorinha  mantinha a beleza de outrora, todo  o 5º ano a disputava nessa altura, Passionária do Campo Grande, com uma voz de arrepiar, muitas vezes haviam reunido cantando os hits do momento, sonhando amanhãs, e organizando protestos. Em 1979 o socialismo caminhava já para a gaveta, e os avós da troika já cá estavam, mas era quente a luta, e com muita garra. Uma alegria utópica os unira, e essa recordação sobrevivia ainda.

Por esses dias correram Lisboa no Audi do pai do Heitor, chamando à luta, reunindo no Técnico, em Económicas e em Letras, sempre bem servido de moças com bom aspecto, e durante dias fumos negros nos braços e faixas nas paredes decretaram luto pelo ensino. Ao lembrar a cena, Rafael comentou como irónico parecia hoje ser o então “exorbitante” preço das propinas, comparado com os dias de hoje, mais elitistas, apesar do ruído com a defesa da escola pública.

No jantar da Trindade, abatidas muitas canecas, revisitaram esse passado, onde coexistiam Zeca, Pablo Neruda ou os Fisher-Z, perdidos nos esconsos das garagens onde após lânguidos slows se prometeram amores eternos e o Shangri-La socialista. Após o jantar, como nos velhos tempos, voltaram ao Jamaica, depois de um copo no Hot Club, onde Rafael apanhara a primeira cardina, chamando depois princesa a uma desdentada vinda do Fontória. O passado era marcado pelos bares: primeiro o Archote, o Whispers, o Bolero, depois o Jamaica, o Bora-Bora, o Charlie Brown, mais burgueses o Ad Lib ou os Stones, atrevidos  a Cova da Onça e o Pipodrom junto ao Coliseu, onde com uma moeda de vinte cinco escudos se via  a Olga de Jurídicas a fazer streap-tease para pagar os estudos. Todos os rapazes da turma lá foram, esbugalhando os olhos ante a visão celeste do corpo alvo da hoje ilustre advogada. No final da noite, à porta do Jamaica e abraçados, celebraram esse passado, já várias vezes rebobinado.

Os anos passaram, a seu modo haviam respondido à chamada do seu tempo, de sangue na guelra para as causas generosas, razoavelmente exigindo os impossíveis, só salvando o mundo se poderiam salvar. Salvara-se a memória, o orgulho de ter tentado e a certeza de jamais ter desistido. Deambulando a pé até à Baixa, no Rossio, um grupo de jovens dormia, com cartazes de apoio à Grécia. Junto ao Nicola, os veteranos da greve académica miraram os ingénuos actores das novas utopias. Atrás de tempo, tempo vem, trinta anos tinham passado, e valera a pena. Hoje como sempre, o tempo ainda é feito de mudança.

terça-feira, 26 de maio de 2015

O cofre

FERNANDO MORAIS GOMES

Passava das duas e meia da manhã quando Luís e Pedro saíram do Legendary, o bar junto à Câmara onde habitualmente se detinham a beber longas horas. Em frente, o torreão do edifício de Adães Bermudes vigiava um sonolento vigilante dormitava no átrio.
Respirando o ar quente dum inesperado outono, cálido e atípico, começaram a andar na direcção do edifício, a construção era elegante, construída em cima do cemitério de S. Sebastião, dizia-se, alguns asseveravam mesmo ouvir os mortos uivando em noites luarentas, em protesto pelo desaforo de erigir em cima de um local sagrado.
Segundo o velho Porfírio, fiscal reformado, a morar não longe do Legendary, nos anos trinta o filho de um Presidente da Câmara fora surpreendido pela noiva com uma amante no primeiro andar do torreão, e com uma faca de cozinha terá posto termo à vida de ambos. Só que nunca os corpos foram encontrados, tudo não passando de coisas do feitiço de Sintra, como, incrédulo, afirmava o Luís, pouco dado a histórias de fantasmas, não obstante durante o dia as impingisse aos turistas, entre flashes e selfies com o telemóvel. O calor da noite e os vapores do álcool levaram-nos a afoitar-se junto ao torreão, onde uma luz trémula parecia brilhar no primeiro andar, hoje ocupado por serviços, o Pedro sabia haver nessa sala um cofre onde em tempos se guardavam as receitas da Câmara, mas que há muito não era aberto, nem se sabia quem tivesse a chave.
Temerários, e movidos pela bebida, propuseram-se escalar o torreão, ante o olhar circunspecto dum gato que deambulava perto da Tasca do Manel. O vigilante dormia, quem sabe o tal cofre contivesse ainda algumas notas esquecidas, ou documentos de interesse sobre a história de Sintra, tão do agrado do Pedro.
Curiosamente, a luz trémula e fraca parecia aumentar de intensidade ao aproximar do edifício. Na ânsia de subir pela parede, Luís aleijou o nariz pontiagudo, ficando a sangrar um pouco. Alcandorando-se à janela, de fora tudo parecia normal, sem sinal de candeeiro ou candelabro, mas, curiosamente, o cofre estava entreaberto, não deixando contudo ver o interior.
Entraram. A sala era uma ampla divisão, com um pé direito grande e arejado, sobre as secretárias silenciosas dos funcionários que ali trabalhavam, papéis e fotos de Sintra espalhavam-se numa mesa. Ao longe, à porta do Legendary os últimos copos eram sorvidos por tipos cambaleantes, o Rui, professor de desenho, gesticulava e ensaiava poemas a Sintra, entre dois goles e abraços a um amigo a quem tratava no plural. 
Luís foi atraído pelo cofre cinzento e entreaberto,quem sabe um mini bar retemperador.Sobre uma secretária, Pedro deu de caras com um recorte de jornal dos anos trinta, relatando o desaparecimento do filho do então presidente e duma moça da Vila, até hoje ainda envolto em mistério. O Faias e o Parracho já tinham abordado o assunto nos jornais, mas sem conclusões palpáveis.
Curioso, Luís  aproximou-se do cofre com a porta encostada, e antes que lhe tocasse, uma mão esquálida vinda do interior agarrou-o pelo pescoço, logo desaparecendo com ele para dentro do cofre. Em pânico, Pedro reconheceu o rosto macilento do filho do antigo presidente, igual ao que o jornal na secretária retratava, desaparecendo com o atarantado Luís.
Precipitando-se para o cofre, donde exalava um  cheiro  nauseabundo a enxofre, ainda mal descortinava o buraco fundo por onde Luís e o vulto haviam desaparecido, quando uma mulher vestida de branco, lhe piscou o olho, surgida não se sabe de onde, logo o empurrando para o interior, e entrando atrás, fechando o cofre por dentro, e levando-o para uma cripta nos fundos do torreão, onde os mortos de S. Sebastião se deleitavam num festim, e Luís, com os olhos baços, se divertia, bebendo cidra com um esqueleto de mulher. Também Pedro, atónito, sentiu o corpo a transformar-se, os tecidos a encolher e a pele a ficar roxa. Olhou nos olhos a mulher que o agarrara, e identificou a amante do filho do presidente, ambos desaparecidos no torreão setenta anos antes e de cujo paradeiro ninguém mais ouvira. Foi a sua última visão, antes de definitivamente ficar cataléptico e dormente.
Na sala do cofre, de novo fechado, nada deixou antever a presença dos dois amigos, apenas a janela entreaberta que Diana, uma funcionária, na manhã seguinte atribuiu a esquecimento da empregada da limpeza. No Legendary, Joana, neta da noiva do filho do presidente, que entretanto casou com um industrial de Montelavar, sorria, enigmática, aviando as últimas cervejas e olhando para o torreão, de novo sepulcral e às escuras.
Ninguém mais voltou a ver os dois amigos, constando-se mais tarde que terão partido para um Erasmus em Barcelona, sem se despedir de ninguém. Coisas de Sintra...

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Anoitecer em Amarelo Scotch


FERNANDO MORAIS GOMES
Chove na mente, é um dilúvio a alma, o fim, sempre ele espreitando, sinistra silhueta da esperança fugidia. Encafuado poeta de café, apátrida dos tempos, sombra velha dos espaços, em silêncio calcorreio o pontão sem gente. Como desolada está a praia, cinzenta como o espírito, náufragos de calção circulam aflitos por miragens. Recolho ao carro, e ao cúmplice rádio de roufenhas melodias.

É Inverno no país das flores, de vez foram os cravos furtados das armas, agora apontadas a subjugados prisioneiros no país que foi de Zeca. Volta Zeca, volta de teu túmulo, adormecida guitarra talhada no ventre dum povo culpado por sonhar. O mar provoca, desafia a vencer, qual Gama da nau catrineta, cavalgar a onda, ousando, e logo um atávico apelo a desistir, vencido de si, temeroso. Os amanhãs perdem cor, pardacentos, longe, muito longe, no chamuscado purgatório entre o pesadelo e a ilusão. No rádio do carro passa Kurt Weil, por onde o caminho para o próximo whisky bar?

Escrevo. Apago. Escrevo de novo. Rasgo, despótico. Que fazer? Dar o corpo à arma? Recomeçar, com novos cravos em cano agora apontado a nós? Brancos, desta vez querem-se brancos, alvos e puros. A Primavera fugiu… Volta, és nossa, és Sul, és Sal, e tão longe de Portugal…

Ululantes hordas de conformados patrulham a Cidade, raptada pelo tédio e pelo spleen, assustam-te, confessa. Mudaram as madrugadas, antes límpidas e ledas, agora ameaçadoras, promessa de castigos, cruéis e castradores, estivais armagedeões relampejados. Que fazer para não despertar, para voltar ao filme onde todos são felizes?. Ah, como é puro o cheiro do iodo!

Caneta, papel, umas linhas esculpidas com uma cana no areal, ao lado ujm trilho de passos na areia molhada. Empolga, a canção do CD, são os Doors, albergue de errantes, trôpegos de futuro e sem pedras de gelo. Vamos para Alabama, acolhidos ao whisky bar! Cheers! Lá vai a Sílvia com o caniche, a caminho do Angra, e eu sóbrio ainda...

O Chico emigrou, cansado de desesperar. Emigrou não, globalizou-se. O Zé Luís morre aos poucos, licenciado em currículos e catedrático de bares. Ao Manel surpreendi ouvindo o Zeca, cinco aguardentes durou, no esconso da casa do Gil, só pela madrugada alcançou o nirvana, enroscado no sofá do canto.

No quiosque da praia, anoréticos jornais vendem insegurança e medo, intranquilos, invasores, cardíaco relato dum diário crepúsculo. Aconselhado deixar de ler jornais. Aliás, deixar de ler em absoluto. De tão abusadas, gastaram-se as palavras e analfabetos não descobrimos novas, entre silêncios soltamos enredos, esboçamos adjectivos, talvez se salve o mundo aí pelo quinto gin. Limão. É o limão que tira a piada à vida.

Deixou-me, a Mafalda. Cansou-se. Também eu a havia deixado já, amancebado com o álcool redentor e concubino. Amigo certo, presenteou-me com uma poética cirrose, maleita de intelectual, é o mínimo. Não morrerei de pijama, mas de fraque, não se vai para o outro mundo de pijama. Espero que no tal Céu haja Visa, parece que não deixam levar dinheiro. De partida agora, posso pensar em novas madrugadas com cravos brancos, quero cravos brancos sobre uma laje fria, fica bem nas fotos, com Chopin em fundo, talvez o Fernando faça um poema. Campa, sim, quero uma campa, quero alistar-me no exército das cruzes, entre memoriais de defuntos imortais, nada do irrespirável e tórrido crematório, coisa para frango ou Joana d'Arc.

Neste último texto registo silenciosos gritos, cúmplices cirroses servidas com caneta de aparo. Passou a Ângela no calçadão, trauteio baixinho uma canção de Brel, pelo retrovisor vejo o Max no banco de trás. Grande Max, já partiu, e de fraque, sete Outonos atrás, aguarda-me Max, vou a caminho!

É cruel, a caneta de aparo. As palavras sangram e impiedoso o aparo mata, invasiva arma contra palavras vãs, com tinta preta se deviam proclamar revoluções, gritar esperanças, borrar epitáfios, apunhalar palavras errantes em confidenciais cadernos. 

É sábado. Cristo morreu, Marx também, e eu não me sinto lá muito bem.. São cruéis os dias, e convocam à lassidão do corpo. O homem de Nazaré morreu numa sexta. Aninhado entre pregos de aço, ressuscitou num sábado, hora de Greenwich. Todos os dias ressuscito para tornar a morrer. Melhor ir a mais um gin, no bar. Esfíngico, o sol põe-se no horizonte, não serviu de nada hoje, fugido do Verão, o CD no carro repete o Brel em looping, aguarda, Max, vou já!…. Eis-me poeta de cirroses, servidas em copo alto, em vésperas de Libertação.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Dois decilitros de revolução



FERNANDO MORAIS GOMES
A televisão não se calava com a crise, na tasca do Jaime dois velhos revolucionários entre mais um bagaço e uma amêndoa amarga, comentavam a situação política. Aborrecidos por não poderem armar o povo, Acácio, Heduíno e outros velhos anarquistas, dividiam-se, unidos na crença de que havendo governo é para ser contra ele:

-Esta corja só à porrada!- com fartos cabelos brancos escorrendo pelo ombro, anarca da velha guarda, Acácio saboreava a S. Domingos, a bem dizer bebia-a dum trago, que havia que saciar a cirrose - o Eça é que tinha razão: o Governo não há-de cair, porque não é um prédio; há-de sair com benzina, porque é uma nódoa! -chamando o Jaime, pedia mais uma dose. Aos cinco bagaços faria um comício, aos dez salvaria o mundo e aos quinze, em êxtase, alcançaria o nirvana, agarrado a quatro amigos que por acaso até eram só dois…

Heduíno estivera no Chile, no tempo de Allende e com a UDP, fora um dos barbudos do RALIS no Verão Quente de 75. Fosse mais novo, e saberia o que fazer com uma G-3, sabia de uma “em boas mãos”, a democracia burguesa e capitalista é que era a culpada da crise:

-Mataram o Marx depois do muro de Berlim, mas o velho cada vez está mais actual. Para quem dizia ter o capitalismo acabado, aí está ele, puro e duro, os “mercados” mais não são que o polvo da Trilateral, do grupo de Bildeberg e dos judeus que dominam a finança mundial! -meio zonzo, tal como Acácio, ajudava à missa na tarefa de enterrar o capitalismo antes do fim da noite, ajustando a boina basca:

-Estes gajos são todos lacaios do capital, a mamar na teta do Orçamento. Arrotam que são eleitos, mas é tudo uma treta. Um deputado é um moço de recados, só que em vez dum contrato, inventaram umas coisas chamadas votos, e o maralhal de vez em quando lá lhes vai garantir o tacho enfiando o papel numa caixa de madeira. Aliás, a coisa é tão tenebrosa que a caixa até é preta, e até se chama urna, já viram a ironia? -satisfeito com a chalaça, pedia mais um bagaço fresquinho.

-Os gajos passam a vida aos gritos, gritam sempre, chocados uns com os outros. Mas não têm espelho lá em casa? Se calhar até levam porrada da mulher, mas na rua apregoam que ninguém os cala…- Acácio falava de cor, uma vez candidatara-se à junta e fizera o mesmo. Vindo das Finanças, chegou entretanto o doutor Almada, homem do contra, mas menos anarquista, tinham sido todos do hóquei, nos anos setenta. O jornal falava em eleições e  o perigo de bancarrota era real, mas o Acácio desvalorizou:

-Bancarrota? Na minha algibeira todos os dias há bancarrota, e dívida externa…olha, o Baptista do talho que diga como está a minha balança de pagamentos… -ironizava - princípio sagrado: na falta de guito, não deixes para amanhã o que podes deixar para depois de amanhã - uma risada foi o pretexto para mais uma rodada, o spread do bagaço não tardaria a encarecer.

-Então e quem ganha? -sondou o Almada, a espevitar os amigos, sabedor das convicções contra tudo o que fosse poder. Heduíno  desvalorizou, ganharia o grande capital, pois então, e os serventuários do costume:

-A Europa já disse tudo o que era para fazer, estes anormais que cá estão é só para carregar pianos! Não há nenhum que não tenha sido julgado incapaz de governar, mas vão sempre os mesmos os que continuarão a dirigir o país. E acreditem numa coisa: quantas mais mostrarem  incapacidade para governar, mais serão recompensados com administrações ou lugares em fundações. É um contabilista mediano? Vai para ministro das Finanças. Distingue um rabanete dum nabo? Grande ministro da Agricultura! E se sabe o nome de três ou quatro capitais, são os Negócios Estrangeiros pela certa. Acácio aproveitou a deixa e meteu colherada:

-Olha, e tu nesse estado “delitro” já podes mostrar a tua liquidez e pagar mais uma rodada....aliás, é mesmo de líquido que se trata…- ironizou, meio zonzo.

Heduíno caprichou e levantando-se já ébrio e de copo na mão ensaiou um discurso, japoneses que passavam acharam piada ao seu ar de Woodstock e desataram a disparar flashes, era o avô do Che Guevara pela certa. Rodrigo, o neto do Acácio, chegou nessa altura e foi ter com eles, bebendo o resto do copo que o avô se aprestava a despejar:

-Pessoal! Os bacanos do guito querem sugar-nos o tutano e entregá-lo ao FMI e à Merkel. Há que abrir a pestana, atacá-los à saída das marisqueiras, sabotar-lhes os Mercedes, dinamitar os ginásios, sequestrá-los nas saunas! É preciso escutar a geração à rasca!

Prestava-se a continuar, para gáudio dos cotas, agitadores de outros tempos, quando o avô, cruzando as pernas com ar aflito correu para a casa de banho, Heduíno, endireitando a boina basca gracejou com Rodrigo:

-A incontinência  e a próstata não perdoam, Rodrigo, chega à nossa idade, e aí é que vais ver o que é a  geração à rasca! Literalmente!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Sugestões para uma reforma autárquica

FERNANDO MORAIS GOMES
 
Trinta e oito anos de experiências autárquicas, demonstram que é chegado o momento do virar de página no quadro territorial, de competências e de gestão das mesmas. Litoralizado o país, florescendo conurbações interligadas nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, sobretudo, impõe-se um novo quadro, porque realidades há que exigem novas abordagens, unificando concelhos ou reajustando outros, pesem os bloqueios de paróquia que mais se devem afirmar no quadro de afirmação cultural que na representação institucional.
Por outro lado, mais ágil e adequado se afigura um modelo eleitoral em que as candidaturas sejam para a Assembleia Municipal, sendo presidente o candidato da lista mais votada, e os demais tendo assento na Assembleia, esta com poderes reforçados. O presidente, livre de escolher a sua equipa, apresentaria programa à Assembleia, poderia ser objecto de censura, em tudo acompanhando o modelo actualmente usado com o Governo. Sugeriria que, introduzindo a “nuance” da obrigação de, derrubado um executivo, os opositores deverem apresentar alternativa clara, a sós ou em coligação, em nome do princípio da governabilidade (moção de censura construtiva). Os membros da vereação poderiam ser livremente nomeados e demitidos pelo presidente, e este teria poderes reforçados, havendo vantagens na presidencialização do presidente da câmara, evoluindo do actual modelo para outro mais eficaz. O mesmo quadro para as juntas de freguesia, igualmente sujeitas a reorganização territorial
No quadro da gestão, haveria que criar sistemas de gestão partilhada de serviços e pessoal, num quadro inter-municipal e regional, numa economia de meios e reforço de recursos. Porquê a proliferação de serviços de águas, lixo, cultura, protecção civil por cada município, quando num quadro integrado se poderia obter vantagens de gestão, força de reivindicação, e operacionalidade reforçada?
O quadro das despesas deveria contemplar a maleabilidade do outsourcing, a eliminação de serviços duplicados e o das receitas, derramas sobre as mais-valias a favor de obras ou acções de interesse comunitário e maior participação na fatia dos impostos nacionais. O cheque para a cultura, em que 1% dos impostos e taxas cobrados serviria para financiar um fundo de promoção cultural gerido pela autarquia e pelos agentes culturais, e as isenções de parte do IMI para os proprietários que reabilitassem seriam outras medidas bem vistas.
No quadro do planeamento, prioridade à reabilitação urbana, agilizando os planos de pormenor, reduzindo os pareceres de entidades sempre que haja plano director aprovado e dispensando prazos de apreciação quando os pedidos se ajustassem a plano-tipo que a autarquia disponibilizaria. O recurso a empresas externas para a apreciação de projectos ou a manutenção de equipamentos num quadro de igualdade de oportunidades seria igualmente interessante.
No que a Sintra concerne, seria curial um número de vereadores não superior a 7 e uma assembleia municipal reduzida em 1/3. Já quanto às freguesias, porque não elaborar quadros de pessoal partilhados, ou as mesmas poderem recorrer aos serviços municipais em igualdade de circunstâncias que a Câmara Municipal?.A gestão das áreas da educação, saúde, polícia municipal, cultura ou cobrança de impostos poderia ser feita num âmbito intermunicipal, através de serviços dependentes de associações de municípios ou comunidades intermunicipais, por exemplo.
Claro, tudo isto são só ideias e sugestões. Seria no entanto útil que os visados tivessem uma palavra a dizer em vez de virem a ser surpreendidos com uma reforma autárquica feita a partir de cima e às pressas, e numa lógica meramente economicista.

sábado, 11 de outubro de 2014

Valsa Lenta com Tejo em fundo

FERNANDO MORAIS GOMES
Destroços dum póstumo sol, sequestradores de disfarçadas libidos, tudo é incerto, monótono, e débil plágio de vidas não vividas. Eis-me só, louco do desejo de viver, louco da insana lucidez de querer amar, abraçar, ser cúmplice, e do lado de lá aconselharem calma, soporíferos, analgésicos, derrotas a que outros chamam vida- vidinha será- sem chama ou centelha. Tudo isto penso em torno dum bagaço neste boteco em Alfama onde fugido do Telhal me acolhi, e exilado fiquei.
Para vós, leitores, aqui fica a minha história, a história de António Ameal, terminal quase. 
Tudo começou no dia em que toldado pelo tinto do Higino, urinei as malvas da sua varanda esconsa. E, loucura das loucuras, acariciei as mamas da Mena, deixando-me louco de desejo, e abocanhando uma rosa, juntos dançámos um invisível Gardel, juntando os nossos corpos transpirados.
Muitos anos assim foi, desde que nos idos de setenta vim de Estremoz cursar Letras em Lisboa, e contra hipócritas costumes me passeei nu na estação do Rossio, apelando a que se desnudasse a Verdade, a diáfana, a do Eça, amordaçada em contentores de valores e etiquetas. Foi o meu primeiro internamento. Corria 1975, e Lisboa gritava nas paredes pichadas de hinos à liberdade. Não para mim, porém. Fugi, depois de amordaçar um enfermeiro, coitado, borrou-se à vista da minha dentadura de plástico. Gritei revoluções, dormi com putas, vivi à conta de amigos a quem a revolução sorriu, e, volta não volta, a silhueta do Telhal e eu, amigos inseparáveis e odiados. Voltei pela última vez há cinco anos, depois de tentar amassar pão no rabo enfarinhado da Violeta, brochista reformada que durante anos aviara estivadores no Campo das Cebolas. Para reeditar a Grande Farra. Azar! O médico decretou loucura, para mim era apenas ternura.
É domingo, e cada vez mais Inverno. Para quê sol nos corpos quando gela a alma? Odeio os domingos. Dantes a família almoçava, depois da missa, enfiada nos fatos domingueiros. Já não há famílias, nem missa. Que saudades do passeio ao Ginjal, para comer enguias. Nunca mais comi enguias. Têm passado, os sabores, muitos deles sem futuro. E o rádio, com o relato da bola, gritando cada canto quase antecedendo um enfarte.
É, o passado está todo aí, em álbuns e arquivos de vidas. Amigo, outro bagaço! É bonito falar do passado, por nostalgia ou arrependimento. Tem uma vantagem: ao menos tem-se passado. Ó chefe, apague a televisão, chega de electrodomésticos por hoje!
Não mexe uma palha lá fora, cá dentro corre um vento intranquilo. Que recordarão de mim daqui a vinte anos? Os copos que bebi? Queria ouvir o Morrison, mas estou intemporal, apetece-me música de salão, hoje. Ó chefe, passe aí a polka 117 de Strauss, grande música para um slideshow de vida, feliz e realizada. Não sabe o que é? Falta aqui o Fred para lhe explicar, mas o cabrão foi para o Miguel Bombarda, tem a mania que é um urubu. Eu quero é evadir-me, quero mais bagaço, aumente o som, diga aos vizinhos que enlouqueci e que o som é por conselho médico!
Sinto-me pássaro em melodia de Dvorák. Ainda bem que o domingo está a acabar. Naquele tempo não importavam os domingos, todos os dias eram de Vida, sem separar por semanas, décadas, gerações. Amanhã será segunda. Monday. Dia da Lua. Olhe, esconda a garrafa do bagaço e diga ao mundo que o louco do Telhal desistiu de viver. Só ouvia discos de vinil e num mundo onde não vendem pontas de diamante, riscou-se de membro. Que partiu, ao som da polka, levando os livros, os sonhos, o perfume da Sofia, os passeios ao Ginjal e o bolo de noz da avó. Auf Wierdersehn!. E diga ao Fred que ficaram contas na farmácia, quando lerem no jornal que o corpo de António Ameal foi recuperado do Tejo alguém terá de as pagar!.Mais um bagaço, porra, que não quero morrer sóbrio!