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sábado, 5 de abril de 2014

Sintra há 100 anos

FERNANDO MORAIS GOMES
Em 1914 Sintra era ainda uma vila pacata. Enquanto na Europa a I Guerra Mundial espreitava e o país era presidido por Manuel de Arriaga, em S. Pedro, Raul Lino concluía a sua Casa do Cipreste e morria o conde da Azambuja, proprietário de Seteais, sucedendo-lhe D. Pedro José de Mendonça. Pela primeira vez era criada uma Associação Comercial e Industrial de Sintra, e a imprensa registava uma pujança assinalável. A 26 de Abril surgia o jornal “O Penaferrim”, dirigido por Joaquim Rodrigues Ferreira e em Junho o Notícias de Sintra, que funcionava na R. Alfredo Costa nº10. Era dirigido por António Cunha e propriedade de João Roberto Rosado.
António Duarte da Silva Souza presidia à comissão concelhia do PRP- Partido Republicano Português, que dominava a Câmara, e em Outubro era criada a empresa Sintra-Atlântico, que sucedeu à Sintra ao Oceano, dirigida por Collares Pereira e Álvaro Vasconcelos, entre outros.
Nesse ano era igualmente edificado o chafariz fronteiro à Câmara, e que ainda hoje lá se encontra, projecto de Tertuliano Lacerda Marques e execução de José da Fonseca, e criada a Cooperativa Libertadora Sintrense.
No plano social, faziam sucesso as récitas do Teatro Grémio Garrett


Vila Velha
Portela de Sintra

domingo, 30 de março de 2014

Guardanapo de Papel

FERNANDO MORAIS GOMES 

Arnaldo raramente ia à praia, vivia enfiado naquele sótão da casa na Rinchoa onde escrevia  poemas que ninguém lia, tesouro da sua gaveta, confessionário dum ser torpedeado de inseguranças e fantasmas. Existia sem viver. Naquele dia, depois da consulta no hospital e a notícia de um fim próximo, tabaco fazendo das suas, sentiu a necessidade de estar perto da água salgada, sentir o cheiro límpido do iodo. Aterrara naquela esplanada da Praia Grande num turbilhão de whiskies duplos. Ninguém nos ensina a morrer, mas a verdade é que todos os dias da vida são intervalos que a morte nos concede.

Um cancro no pulmão intrometia-se, convidado indesejável. No início a surpresa, a hipótese do engano, a segunda opinião. Depois o desespero, presença insuportável, lágrimas, mágoa, as dores como companheiras mais chegadas. Estava só, naquela morte de viver, os livros que nunca editara, tudo comprometido por um corpo frágil e tangível, qual anjo caído, pecador, mergulhado em culpas secretas a quem iam faltando asas para voar. Exaurido do mundo, exaurido de si, talvez finalmente descansasse.

Antevia já a campa inerte onde poucas flores lhe iriam levar, uma lápide burocrática e igual a todas as outras, ninguém para lembrar a obra desconhecida por editar, só aquele solitário funcionário do registo civil a escrevinhar em guardanapos de papel na mesa do canto da leitaria do bairro as obras- primas da sua gaveta secreta,fumando os religiosos três maços de cigarros diários. Agora acendia mentalmente o cigarro e fumava com a imaginação, comprara um isqueiro de plástico. A quimioterapia fazia das suas, os cabelos cada vez mais agarrados ao pente, tosse purulenta, olhos inchados.

Uma vez mais pegava na caneta e no guardanapo de papel e ensaiava um testamento, requiem dos bens que não tinha para uma família que não existia. Quando tudo acaba não sabemos ao certo o que devemos pensar, há a tentação de escrever para imortalidade. Redigiu umas linhas, levantou-se, passeando no areal, um trilho de pegadas na areia molhada.Ignorou o médico, e fumou um dos cigarros assassinos, o mal estava feito.

No dia seguinte, a roupa foi encontrada numa rocha, o corpo nunca apareceu. Um empregado da esplanada, limpando as mesas, deu com um pequeno papel amarrotado dentro de um cinzeiro. Curioso, foi ler.”Hoje começa o dia de amanhã”.

sexta-feira, 21 de março de 2014

O Baile das Camélias

FERNANDO MORAIS GOMES

A sala estava profusamente engalanada, orgulho dos jardineiros que andaram preparando o evento: a noite das Camélias. O visconde de Asseca, o Presidente da Câmara, Joaquim Fontes, Medina Júnior, Rui Cunha, todos compareciam, com as esposas e as filhas casadoiras. Em breve o visconde de Asseca receberia a princesa Margarida, irmã da rainha de Inglaterra, e seria juiz da festa da Senhora do Cabo em S. Miguel, pelo que teria um 1959 em cheio. Homem alto e altivo, fora visita regular de D. Amélia em Versailles, durante o exílio, e sua ligação privilegiada desde que a condessa de Seisal falecera de provecta idade.


Ao microfone, Amadeu José de Freitas convidava os pares para os boleros e valsas, temas de Frederico Valério e Tavares Belo, e a orquestra excedia-se, ritmada, tocando congas, rumbas e músicas da moda. Os mais velhos falavam de política, exaltando as obras do governo: o novo ringue do hóquei, o matadouro, o bairro económico de Queluz, a bem da Nação, a política de fomento chegava a Sintra. Um discurso aqui, uma inauguração ou lápide ali, o progresso chegava ao ritmo de jantares e homenagens.


Olavo Moreira, jovem licenciado em Direito, era o secretário do visconde, e naquela noite estava particularmente atento a Lucrécia, uma corista do Maxime a quem convidara para o baile, embora dela não conviesse aproximar-se, era perigoso. Lucrécia, de sorriso malicioso, já lhe conhecia os hábitos, e sobretudo a carteira, e disfarçava trocas de olhares junto ao bar, onde assistia acompanhada de Humberto Madeira, em breve ambos entrariam na nova revista de Giuseppe Bastos. Humberto estava a par da relação, e de soslaio ia piscando o olho.

A certa altura, Olavo invocou um telefonema e saiu na direcção do Hotel Nunes. O gerente era conhecido e cúmplice logo lhe deu a chave da suite rosa, uma previdente nota de vinte compraria a discrição. Lucrécia chegou pouco depois. Lançou-se nos braços de Olavo e, avidamente, beijou-o, e tirou-lhe o casaco, enquanto lhe ia pintalgando o rosto de bâton, qual camélia ao seu dispor. Já rebolavam na cama quando da porta veio um toque seco e cadenciado:

-Quem é? –rosnou Olavo, irritado, ordenando silêncio a Lucrécia.

-É urgente, senhor doutor! Está um senhor lá em cima para falar consigo! – respondeu o porteiro da noite.

-Comigo? Aqui? -compôs-se, num ápice, e subiu à recepção. Era Arménio Raposo, agente da PIDE e visita assídua de Sintra, a quem a escapadela do baile não passara despercebida. Em Lisboa seguira-o no Maxime, havia ordens de discrição, o visconde era uma figura grada do regime e não se queriam escândalos.

-Sr. doutor…não queria incomodar, mas….Sintra, sabe, é muito pequena. Ainda se fosse no Estoril…-insinuou o agente, enfiado numa gabardina enxovalhada e com um borsalino preto. Olavo ficou furibundo:

-Você, aqui? Como se atreve a incomodar-me? -reagiu altivo e desafiador. Quer que o senhor visconde telefone ao seu chefe e o mande para os Açores de guarda aos cachalotes? -ameaçou.

-Eu se fosse a si não fazia isso, senhor doutor…-e puxando da carteira, sacou de uma foto dele com Lucrécia no Maxime, uma garrafa de champanhe francês ao lado…-O senhor ministro podia ficar incomodado, e nós não queremos que se estrague uma carreira promissora, pois não?..

A armadilha estava montada. Despachado Arsénio com azedume, voltou ao quarto, meteu Lucrécia num carro de praça para Lisboa, e voltou para o baile. Raposo seguiu-o, e discretamente ficou pelo bar, pedindo um copo de vinho. Por essa altura já o álcool reinava entre os convivas: o capitão Américo Santos repetindo-se, contava histórias estafadas do seu regimento em Benguela, no bar, senhoras balzaquianas e já rubras pediam capilés de groselha. O visconde, que trocava impressões com amigos, estranhou a longa ausência de Olavo e procurou-o:

-Olavo, onde foi você numa noite destas? O Provedor da Santa Casa quer falar comigo, mas gostava que você escutasse, tive de o despachar…

-Desculpe, senhor visconde, mas tive de atender um telefonema, era o engenheiro Pavão, por causa do apeadeiro da Portela, sabe, empreiteiros, não sabem quando estão a ser inconvenientes…-inventada a desculpa, pediu um gin e foi falar com o prof. Fontes, o presidente da câmara, a quem elogiou o novo ringue no Parque da Liberdade. O baile continuou e uma hora depois os viscondes voltavam a S. Sebastião, e Olavo à casa dos pais, enriquecidos com o volfrâmio durante a guerra.

Uns dias mais tarde, Raposo foi alvo de um processo disciplinar, dum cofre na PIDE sumira o fundo de maneio, o Mesquita e o Roldão, agentes de 2ª classe, juravam tê-lo visto a tirar o dinheiro e levá-lo numa mala. A foto sumira, entretanto, sem que desse por nada, num aperto de convivas meio ébrios, um amigo de Olavo furtara-lha na noite do baile. A carteira apareceu mais tarde, mas sem a foto. Alvo dum processo inconclusivo, acabou em Elvas, a carimbar salvo-condutos.

No ano seguinte, Olavo voltou à Noite das Camélias. Desta vez, Lucrécia não foi, aguardaria numa vivenda na Rinchoa, um vinho e velas esperariam uma tardia ceia, camélia mas suplente, no baile da vida. A foto do Maxime, ornamentava o psyché junto à caixa das jóias que ele, agora administrador dum banco e em ascensão na União Nacional, regularmente ia acrescentando com brincos de amor e anéis de paixão...


quarta-feira, 12 de março de 2014

A Sinfonia dos Pássaros

FERNANDO MORAIS GOMES

Está a chegar, despertadas, as Criaturas da Mata anunciam a sua presença, sinos do submundo tocam, arautos da cor e clorofila, despertando o perfume nas flores. Tonitruante, toda a nação dos pássaros toca a rebate, comandada por zelosas andorinhas, voltadas do Grande Sul. Depois do Branco Inverno partir para o sono de várias luas na gruta-ventre, exércitos de borboletas libertinas invadem os ares em  sagração, poisando em pétalas redentoras, bafejadas por raios generosos. Poetas estremunhados abandonam os invernosos esconsos, bebendo Luz e respirando jasmim, na senda da Iniciação Multicolor. É o Começo.

Ostara chama a reunir, gamos e colibris, crisântemos e girinos, libelinhas e lagartos, todo o mundo do silêncio convocado pelas forças da Criação, em noite de Equinócio. No bosque da Cynthia Imortal, lá onde entre oceano e fortalezas homens ergueram templos à Floresta-Mãe, reúnem em assembleia elfos e centauros, como sempre, desde a noite dos tempos, a desenhar um anel de luz e em prece às chuvas, sémen da vida e seiva de renovação. No silêncio cúmplice da noite, a sagrada chama crepita no altar, ao lado, a revigorante poção dum druídico caldeirão sacia ressequidos lábios, bafejados por novo renascimento. Toda a Floresta comparece, e os dias escuros partem, a terra alberga sementes, o mundo renova a sua Luz.

No altar sagrado, pejado de grinaldas e ovos, grãos e raízes, o Coelho Pontífice guarda, sentinela, atento às entranhas de Cynthia, perturbada e perturbante. De mãos dadas, os convocados, em adoração à deusa liberta do longo  Inverno, entregam-se ao ritual das fragrâncias, viajando entre ramos e folhas, sulcando o orvalho vitamínico e puro. Toda a Floresta desvairadamente celebra, num festim de castanhas, pinheiros, verduras e verdes límpidos.

Terráqueos da montanha colocam flores no altar, no caldeirão, água pura e flores esperam o momento da oferta, enquanto na clareira, iluminada pela argêntea Lua, incenso e velas se acendem em acordo com os elementos. Rasteiros e vindos de Cynthia, assustados terráqueos tocam nas plantas, em busca do milagre da vida, prometendo amizade e cumprindo o círculo, para depois partirem por algumas luas, ao encontro de Beltane, Litha mais tarde celebrará o apogeu de Ostara e o seu declínio, para os entes da floresta e desde a noite dos tempos, sinal sabido da chegada de Samhein e Yule, e com eles das trevas da gruta em novo apagar de fogueiras, fugidas do eólico norte e da escuridão da tundra uivante.

Nas aldeias de Cynthia, as terras pedem sementes, e as árvores folhagens, chilreios em beirados prometem fertilidade, logo partirão desbravando céus e mares, noites e dias, até que o grande astro de novo os traga. Como sempre, Ostara protegerá Cynthia, antes a fez rude e pedregosa, apoteose do verde agora.

Toda a noite um fogo redentor aqueceu os terráqueos, com Pã no carvalho chilreando a flauta, logo em melódico coro acompanhado por rouxinóis e toutinegras. Ao amanhecer, cristalina e espelhada em frescos lagos, a Primavera reinará esplendorosa, com o seu ceptro de azevinho e coelhos nervosos saltitando pela floresta. Os avaros dias do longo Inverno crescerão generosos, frutos e plantas brotarão, suculentos, cardumes cruzarão os rios, serpenteantes patos se banharão nos rios atrás de irrequietas rãs.

No ano seguinte e em todos a seguir, assim será até ao fim dos tempos e até que na Valhalha Odin junte os guerreiros,  esperando o advento do Ragnarok. Cynthia verá choros, risos, lutos, borrascas, milagres, e sempre no tempo em que o dia for igual à noite, Ostara voltará, fugaz pitonisa a espalhar a redentora Luz. 

segunda-feira, 3 de março de 2014

Recordar Maria Gabriela Llansol

FERNANDO MORAIS GOMES

Passa hoje, 3 de Março, o sexto aniversário da morte de Maria Gabriela Llansol, escritora que nos últimos anos da sua vida escolheu Sintra e a antiga Estalagem da Raposa como lugar de residência. Escritora com uma densidade telúrica, uma "camponesa da palavra" como a si mesma se designou, de Sintra nos deixou alguns textos, um dos quais sobre o Grande Maior, o vetusto plátano da Volta do Duche a quem dedicou belas palavras, e que a Câmara de Sintra assinalou colocando no local uma lápide.


Quando eu passo, as árvores ficam sempre – é uma constatação que eu faço, caminhando da Sintra comercial para a Sintra confusa e banal onde se eleva o Palácio. Sintra fraca e promíscua, penso muitas vezes. «Se não fossem as árvores», não haveria arquitectura em Sintra, penso muitas vezes. Caminho, pois, na Volta do Duche, acompanhada pelo lado aéreo do olhar que vou lançando sobre as árvores, e por estar a querer fazer um texto sobre Marguerite Yourcenar – de quem deixei, em casa, um livro aberto.
É um daqueles dias em que receber companhia equivale a um certo desejo de conversar e de crescer. A tarde é verídica, vou a Sintra pôr uma carta enviada em correio azul, em passo de pensamento, que é muitas vezes o meu passo lento de passeio.
Na mesma direcção que eu, mas real, não mulher de pensamento, Yourcenar ou outra, uma mulher de tez clara caminha a meu lado – rústica, sólida, daqueles seres criados no campo com quem faço uma troca imediata. Diz-me:
- Como Sintra é bela, por ter às vezes também árvores!
Passávamos agora por Grande Maior, a minha árvore favorita, pela impressão que me traz a sua grandeza, na sua sombra de simplicidade.
[...]
É um facto que eu, quando penso em Marguerite Yourcenar, penso sempre numa árvore que escreve, com uma escrita que circula entre a raiz e o cimo, tecendo uma rede sinuosa em que a seiva, mesmo ascendente, está sempre ligada ao peso grave de tanto se imiscuir na terra.
Poderia ser uma árvore, uma ave que levanta voo coberta pelo seu peso,e que cai de novo sobre a raiz, transformando o voo cortado em seu verde?
Sombra verde, em tentativa rápida realizada. Apoio seguro. Tronco por onde eu passo levantando os olhos _______ e seguindo para a frente.


Poderia ser Yourcenar uma figura, tal como eu a concebo? Uma espécie de lugar de troca, como as árvores o são – uma espécie de realização duradoura, presa, e material do espírito? E no tom de olhar com que as concebo e as vejo?...
[...]
Nesta meditação, a olhar através das plantas verdes, ocorre-me que outro dia, pela Volta do Duche, seguia para a Vila Velha através de plátanos, castanheiros, e de uma árvore soberba – a que eu chamo Grande Maior. Quando passo por ela digo sempre (pura verdade!):

- Bom dia, Grande Maior!
Assim me apetecia saudar Marguerite Yourcenar, sabendo que Grande Maior, sobretudo no tronco, tem as suas limitações de transparência, de movimento e de diáfano.
Mas a tal mulher, que não era ela, pôs-se a meu lado enquanto eu seguia e, a níveis e a entoações diferentes, falou-me da mesma paixão – a sua passagem através do verde, que não era a minha. Mas falávamos com muita verdade mútua, e encantamento pela expressão dos verdes, nos animais, nos homens, nas plantas verdejantes e nas coisas.
«Grande Maior» – a minha árvore preferida da Volta do Duche, está oscilando sobre esta imagem que – já só por si – treme. A árvore ainda existe? O plátano ainda existe, pois.
Vejo-a imobilizar-se no écran do computador e quero saber o que é o fasto e o nefasto, e ouço a voz dos automóveis que me diz: «que só há caminho».
É a primeira vez que uma coisa assim inerte e útil me fala. Ou haverá imagens translúcidas de beleza no que eu julgava inerte?
Se assim for, dou o sentido por não sentido – como faço sempre. Tenho pouca ciência para aprofundar a eclosão da beleza.
[...]
(Do Caderno 1.48 do espólio, 1997)

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Gerações

FERNANDO MORAIS GOMES

O novo som dos Pearl Jam era brutal, dizia o Becas para o pessoal, na altura em que o Duarte, acompanhado do pai, chegou ao bar do Diogo. Concluído o curso, arranjara emprego a recibo verde num call center da PT, mas mais uns dias e terminaria, não era política da empresa renovar contratos. Liliana chegou também, acelerada, o pessoal de Jornalismo combinara ir à manif dos indignados, já mandara convites pelo Facebook:

-Então, chavala, sábado estamos lá no Rossio? - Duarte entusiasmara-se com a ideia do protesto, não era a Praça Tahrir, mas havia que estar presente, trezentos euros por mês não davam nem para o tabaco.

-Podes crer, meu, ainda agora falei com a Xana, vamos de comboio! - Liliana mandara fazer uma T-Shirt com a frase Fartos de recibos verdes estampada, o pessoal de esquerda andava a apalpar terreno.

-Esta coisa das manifestações inorgânicas é perigosa, putos! –aconselhou Artur, o pai do Duarte, veterano doutras guerras depois de Abril  - correm o risco de virem a ser acusados dum discurso anti partidos, que o Hitler foi assim que começou, etc…

-Mas é verdade, senhor Artur- ripostou a Liliana- é tudo conversa fiada, falam que somos a geração com mais competências de sempre, mas afinal tiramos cursos para quê? Para ser caixas no Pingo Doce? Viu o tipo da Jerónimo Martins, a dizer que não aparece ninguém para os talhos deles, que ninguém quer trabalhar? O tipo passou-se, com certeza!

-Uma coisa é certa, o que pode ser uma grande ideia pode perder-se no ruído, eles estão a fazer disto caricatura para desvalorizar e dizer que vocês são apenas putos irreverentes…Artur Esteves lembrava os seus tempos, outras roupas, velhas questões-E o paradoxo é que os que mandam agora são os mesmos que há vinte anos andavam a mostrar o rabo ao ministro…É sempre assim, já o Karl Marx dizia: a História repete-se sempre, primeiro como tragédia, depois como farsa!

-O cota do teu pai tem razão, puto, isto sem barulho não vai a lado nenhum, viram na Tunísia e no Egipto? –concordou o Becas, acabando um cigarro de enrolar. No portátil do filho, Artur leu o manifesto, lançado no Facebook:

-Não acham um pouco utópico? Dispara em todas as direções, isto não há como ser seletivo com o alvo! -o velho mas enxuto dirigente académico dos finais de setenta, parecia recuar uns anos para o tempo das lutas em Direito, que não chegara a completar. Nessa época era contra o MRPP, lembrava-se bem do Durão Barroso, desfraldado e com caspa, e agora servidor daqueles que tanto combatera- Além disso, faz falta um líder, um rosto…

-As caras hão-de aparecer! -argumentou Liliana- no Maio de 68, o Cohn-Bendit também surgiu espontaneamente, dei isso na faculdade. Não mexer uma palha é que não é nada. Sabe quantos estágios já fiz à borla? Três, não estou interessada em fazer disso modo de vida, assim não dá! Ou então é dar o salto, três amigas minhas já foram….Mais cerebral, Duarte observou:

-Os comentadores encartados menorizam a coisa, viram o Miguel Sousa Tavares na SIC? Parecia o Medina Carreira a falar. Falam muito, mas preferem a segurança do sistema, têm medo dos jovens. Isto é novidade, é uma coisa que não percebem, e tem-se medo daquilo que se desconhece. É o tradicional maniqueísmo dos bons e dos maus, e quando não identificam uns e outros nos seus quadros de arrumação mental, rejeitam, é mais seguro….

Ao bar chegaram entretanto o Kiko e a Mónica. Kiko arranjara um part-time na Worten mas o contrato acabara e não seria renovado. O wireless do bar do Diogo ajudava a mandar sem dispêndio currículos por mail, à cautela, esconderia as habilitações, senão lá viria o velho e estafado bordão dos estudos a mais.

-Men, vais lá sábado? Tenho estado a fazer forward da convocatória para o pessoal, só da Lusófona vão nove! -Duarte pedira uma imperial, o pai aceitou uma fresquinha, também, a seguir iria para casa concluir a peça para o jornal sobre o novo hospital de Sintra.

-Conta comigo, puto, depois vamos beber umas jolas! -a perspectiva de festa não estava posta de parte, Liliana juntar-se-ia à noite no Bairro.

-“Camaradas, pah”…-caricaturou o Kiko, imitando o Jel e o Falâncio-“a luta é alegria”. Oh Liliana, tu podias ir de ceifeira, assim uma espécie de Catarina Eufémia com piercing, minha!

-Vai-te catar, Kiko! És mesmo nerd!

-Rapazes, atenção, que há por aí muita gente a dizer que vocês  não querem fazer nada, só querem que vos caia tudo de mão beijada, que são os deolindos…-Artur moderava os ânimos, ainda não dissecara bem a coisa, novato no Facebook.

-Sr. Artur, no seu tempo, quanto tempo é que teve de esperar para arranjar emprego? O meu velho diz que dantes só não trabalhava quem não queria…-atalhou Liliana, meio revoltada.

-Sim, nesse aspecto está tudo muito diferente. Eu, três meses depois de deixar os estudos, já trabalhava no Diário de Notícias, e casei aos vinte e quatro!

-Está a ver…A sua geração fez a trampa e nós pagamos a factura, é o que é. Nada de pessoal consigo, chefe!

-Eu entendo…-Meio triste, Artur interiorizava os já arqueológicos anos do PREC, os companheiros de então agora cuidando das cirroses e próstatas, vencidos da vida da era do telemóvel, fora tudo tão rápido, da embriaguez à ressaca.

Pelas oito horas dispersaram, numa televisão ao fundo, novos velhos do Restelo opinavam sobre a dívida, o desemprego, os pais dos problemas aventando soluções, agora que estavam afastados do poder. Já em casa, Artur serviu-se dum whisky e releu um poema amarelecido de Sophia, sempre ela, pitonisa e bela:

“Revolução isto é: descobrimento /Mundo recomeçado a partir da praia pura /Como poema a partir da página em branco / Catarsis emergir verdade exposta /Tempo terrestre a perguntar seu rosto”

-Duarte! -na cozinha o filho descongelava a pizza no micro-ondas, enquanto ia debitando mensagens para os amigos:

-Diz pai!

-Sabes quem foi Jean Paul Sartre?

-Ya, era um cota muita fixe, desconcertante às vezes, falámos dele uma vez, na faculdade.

Enigmático e antes de se isolar a ouvir Doors, Artur Esteves largou uma frase sibilina do Velho Feiticeiro: “O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós”

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Entrevista com Rui Mário

FERNANDO MORAIS GOMES

“O teatro precisa de perseverança”

Rui Mário, 40 anos, encenador e ator com 23 anos dedicados ao teatro, sobretudo à sua companhia de sempre, o Tapafuros, falou-nos de si e do teatro em Sintra, passado e futuro.

O Rui Mário está há 23 anos ligado ao teatro que se faz em Sintra, e é conhecido sobretudo como encenador do grupo Tapafuros. Como surgiu o gosto pelo teatro, e o que destaca desse percurso?

Tudo começou na Escola Leal da Câmara e nas encenações que um grupo de alunos fez a partir de certa altura para as aulas de Filosofia do professor Carlos Amaral. Recordo a Apologia de Sócrates, entre eles. Mais tarde integrei o Grupo de Teatro de Letras (GTL), em 1994, e aí tive o prazer de muito aprender com Ávila Costa, meu mestre desse tempo. O grupo Tapafuros, com existência formal como associação a partir de 1994, vinha já do período das apresentações de Filosofia, em 1990, tendo como primeira peça na fase de profissionalização “O Principezinho”, em 2000.

Como vê a relação do público com o teatro hoje e nomeadamente como vê a apetência do público local pelo fenómeno teatral?

Há um afastamento notório no público suburbano, contudo, há que lutar para mostrar que há mundo para além do dormitório. O teatro tem um pendor universalista, e isso o provou o público diferenciado e vindo de Lisboa ou de concelhos limítrofes quando nos apresentámos na Quinta da Regaleira durante vários anos. Foi efetuado um estudo que demonstra que o público tipo desses espetáculos tinha formação superior e era da faixa etária entre os 18 e os 40 anos.

Que peças mais gostou de encenar e quais as que ainda gostaria de levar à cena, como encenador e como ator?

Gosto muito de Becket, Garcia Lorca, Shakespeare. Destacaria, de entre as iniciais, O Amor de D.Perlimpim com Belisa em seu jardim, mas todas são desafios, são filhos por igual. Uma peça por representar? À espera de Godot, sem dúvida, em qualquer papel. Para 2014 e enquanto Tapafuros estamos a apresentar no Estúdio 2M, em Mem Martins, VerboPessoa, com base na obra de Fernando Pessoa, e estreámos igualmente uma peça designada Cor!Ação!, para todas as idades, e gostaríamos se vier a ser possível, de apresentar as Guerras de Alecrim e Manjerona nos jardins do Palácio de Queluz.

O Tapafuros tem desde 1999 um espaço teatral em Mem Martins. Considera que esse local continua a responder às exigências atuais? Que planos têm para o dinamizar?

O nosso contrato de comodato vem de 1999, mas passados estes anos há que realizar obras estruturais, visando o conforto e a melhoria do nosso trabalho.

Que conselhos quer deixar a quem queira hoje enveredar por uma carreira no teatro?

Como formador, apostar na perseverança. O país está hoje mais apetrechado de equipamentos, mas quem vem para o teatro tem de vestir a camisola. Há que reinventar o teatro, comunicar a necessidade e a urgência de ver e vir ao teatro.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Entrevista com Miguel Real

FERNANDO MORAIS GOMES
 
O Miguel Real é um escritor por muitos laços ligado a Sintra. Acha que há um sentido trágico dominante em Sintra ou serão apenas exacerbações românticas derivadas dos mitos que a ela se associam, hoje em retorno acentuado? 

Não, não existe sentido trágico ligado a Sintra. Muito pelo contrário. Sintra evoca um espírito poético, como João Rodil o prova em Sintra. Serra, Luas e Literatura (1995), identificando-se com o corpo literário criado pelos poetas e escritores que por aqui passaram. Um espírito poético que apenas pode ser comungado poeticamente. O corpo de que esta alma é unidade é, indubitavelmente, a minerabilidade esmagante da serra: a Serra enche, deleita e rejubila a nossos olhos, sacia os nossos sentidos, e sempre que atingimos o cume da Serra de novo nos confrontamos com dois gigantes cósmicos: o azul do mar e o azul do céu, ambos cruzados num indefinível recorde. Face a esta tripla paradoxal maravilha, constatamos que só pode ser comungada pelo coração do sintrense através de uma forma que a sublime, uma alma que a transfigure esteticamente, um espírito que lhe corresponda em grandeza e excelência - e esse é o espírito poético.
 

Costuma dizer-se que depois de Sartre a pós modernidade colocou os intelectuais numa posição descentrada. O que é ser intelectual hoje? Se o intelectual nasceu com a Cidade, hoje, com a globalização terá virado funcionário? O intelectual é um "escriba obscuro" como escreveu Foucault?
 

Peço desculpa, mas não. O intelectual, como Saramago, Lobo Antunes, Boaventura de Sousa Santos, Manuel Maria Carrilho. Gonçalo M. Tavares, Viriato Soromenho-Marques..., continua empenhado em transformar o mundo. Porém, não o faz já usando uma voz política, como até à primeira metade do século XX, mas uma voz estritamente cultural. A política perdeu o fulgor de transformador do mundo, existe apenas como regedor da existência. A cultura e a ciência, diferentemente do passado, penetram hoje nos costumes da população, exprimindo os desejos de mudança e o horizonte da transformação social. O político rege, o intelectual, pela sua obra, anuncia o novo mundo. O político rege, o cientista transforma directamente o mundo, impondo novos objectos que modelam uma nova existência social, e o intelectual abre todos os dias novos horizontes ao pensamento.

Qual a sua obra mais conseguida? Já se zangou por ter escrito alguma delas?
 

No campo do ensaio, Introdução à Cultura Portuguesa, sem dúvida, já com tradução para castelhano na editora Planeta e com lançamento na Feira do Livro de Bogotá, a segunda mais importante da América Latina. Também me orgulho bastante da série "Nova Teoria", que publico na D. Quixote. No campo do romance, tenho três romances felizes: Memórias de Branca Dias, já em 4ª edição; A Voz da Terra, sobre o terramoto de 1755, também em 4ª edição, e O Feitiço da Índia, já em 2ª edição. Sim, recuso-me a reeditar um romance há muito tempo esgotado: A Ministra. Foi escrito com raiva e hoje não gosto nada dele.

Pode dizer-se que o escritor escreve sempre o mesmo livro e toda a obra é autobiográfica?
 

Sim, há traços idiossincráticos identificadores do autor em toda a sua obra: o privilégio atribuído à personalidade de certas personagens recorrentes; o privilégio a certas construções frásicas, a certas palavras, um estilo invariável, uma descrição semelhante do tempo atmosférico, do ambiente natural, dos conflitos sociais... Por isso, Saramago dizia justamente que todo o romance era em parte autobiográfico, não no sentido de reflectir directamente a personalidade do autor ou no sentido de narrar a sua vida, mas no sentido de espelhar as grandes preocupações existenciais do autor. Desde Aparição (1959) a até à sua morte, a escrita de Vergílio Ferreira é sempre tocada pela amplidão metafísica, e toda a obra de José Cardoso Pires é sempre realista. É neste sentido - e só neste - que se pode dizer que o autor está sempre a escrever o mesmo livro.

O que anda a escrever, e que projectos tem para o futuro imediato?
 

Penso que os quatro livros que sairão em 2014 confirmam alguma maturidade de escrita, conseguida por uma intensa experiência estética desde há 10 anos: três ensaios (Nova Teoria do Sebastianismo, na D. Quixote; O Futuro da Religião, na Nova Vega, e Manifesto em Defesa de uma Morte Livre, na Relógio d'Água). No final do ano, sairá um romance sobre uma utopia (2384) como homenagem a Thomas More, criador deste termo há quinhentos anos (1516).

Como vê a cena cultural em Sintra e o que poderá ser feito para a dinamizar?
 

Com a regência do PSD, a cena cultural sintrense diminuiu fortemente se tivermos em conta os tempos áureos de Edite Estrela. Foram extintos os grandes congressos sobre Romantismo, Identidade Nacional, Eça de Queirós..., desapareceram imensas iniciativas, como os "Dias da Lusofonia" (salvo erro assim era designado), que tinham colocado Sintra no mapa cultural do país. A revista erudita Vária Escrita, que era o cartão de apresentação de Sintra para o mundo universitário, também desapareceu. Ficou a Regaleira e o esoterismo, o Olga Cadaval e as grandes produções que passam, distraem mas pouco formam. O turismo na serra profissionalizou-se no tempo do PSD, e pouco mais para além do clássico: o teatro e a CT de Sintra, o Festival de Sintra. Muito, muito mais poderá ser feito. Tenho esperança, sinceramente nesta nova vereação, sobretudo na longa experiência autárquica de Rui Pereira, o vereador que esteve na base do lançamento de quase todos os grupos de teatro em Sintra.

O que pensa que procura o leitor quando busca uma obra literária? O leitor é generoso ou é um ser distante e que tem de ser conquistado?

O leitor nunca é estúpido e move-se entre o apelo a uma literatura séria, que o force a pensar e a criticar as certezas instituídas pela sociedade, e o apelo a uma literatura de distracção que o liberte e o evada de uma vida diária difícil. Um bom romancista, como Saramago ou Eça de Queirós, sabe conciliar os dois pólos estéticos. Temos hoje dois óptimos exemplos em Sintra com a escrita de Sérgio Luís de Carvalho no romance histórico e de Ricardo Adolfo no retrato de uma nova mentalidade emergente da linha de Sintra.