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terça-feira, 13 de maio de 2014

O maior dos Ribafrias

FERNANDO MORAIS GOMES


Janeiro de 1659. Há três meses que Elvas sofria o cerco dos homens de Luís Mendes de Haro, primeiro-ministro de Espanha. Nesse dia 14, porém, os factos precipitaram-se, e o sangue falou mais alto.
Havia dezanove anos que os Braganças tinham recuperado o trono, mas nunca os espanhóis o reconheceram, persistentes, no Alentejo os portugueses batalhavam pelo Reino, sob o comando do conde de Cantanhede. Na frente contavam com mil homens, com armas e faxinas para cegar os fossos, comandados pelo general Diogo de Figueiredo, os infantes, cerca de três mil, eram comandados pelo conde de Mesquitela e por André de Albuquerque Ribafria, outros dois mil pelo sargento-mor Mendes Leitão. De reserva, dois mil mais, às ordens de Pedro de Lalande.
A artilharia ocupou posições perto de Amoreira, donde batia eficazmente o campo de batalha e bravos armados decidiam a sorte do reino. O troar das armas cedo virou para o lado português, cortando os homens de Diogo de Figueiredo as linhas, auxiliados pelos terços do conde de Mesquitela. Um fortim foi tomado, e pela brecha foram entrando as forças, que tomaram posição, pressionando os de Espanha.
André Albuquerque de Ribafria, 4º alcaide de Sintra, evidenciava-se no campo de batalha. De compleição rija, barba afiada, em forma de sabre, hábil manejador das armas, era uma lenda, qual Nuno Álvares, respeitado pelos pares e idolatrado pela soldadesca. Histórias a roçar a fantasia corriam pelos botequins e tabernas. Órfão aos treze, criado por D.Antão Vaz de Almada, treinara-se para as armas em Sintra, caçando com seu irmão Pedro sob o olhar do pai, Gaspar Gonçalves da Ribafria, o terceiro dos alcaides. Aos dezassete, combatera os holandeses no Brasil, aos dezoito herdara a alcaidaria. General com apenas trinta, nesse dia em transe cavalgou o campo de batalha, cerrando os dentes e incitando os homens: 
-A eles, soldados! É Elvas ou o céu! -gritou, bramindo a espada, do cimo do cavalo que rodopiava num bailado bélico.Com o corpo marcado por sequelas do tropel, sofrera ferimentos na cara em Arronches, pisado no chão da batalha por cargas de cavalaria, e nessa altura quase dado como morto. 
-O Forte da Graça já é nosso, vamos em apoio de Lalande, general! -sugeriu o conde de Mesquitela, mais cerebral.
Os soldados agigantaram-se sob o comando de Ribafria, o chefe que sabia recompensar, mas também castigar os que se lhe opunham. Adiantando-se numa zona mais alta, ficou alvo fácil dos de Espanha, e Don Luís de Haro, que comandava da retaguarda, vendo-o, ordenou o seu abate, cintilando no horizonte. Levantando um braço para repelir um peão, depois de já ter posto termo à vida a dois, uma bala assassina entrou-lhe pelo sovaco, mal protegido pela couraça. Os olhos ficaram turvos, o corpo mole, logo tombando desgovernado do cavalo. Em seu encalço foi Jorge da Franca, que lhe arrastou o corpo para junto de um sobreiro. 
-Está ferido, General?
-Não é nada, Jorge -sorriu, passando a mão pelo braço estilhaçado, onde uma poça de sangue ia alastrando –nossa, e livre, será Elvas ainda esta noite, bom amigo! 
-Vou chamar um físico, há que tratar o braço sem delongas, general! 
-Não, deixa-atalhou, já pálido. -Diz a Afonso de Mendonça que finda a batalha mande um homem a Sintra, e diga a meu feitor que hoje um português que nunca temeu espada senão a da justiça, tombou em honra, no campo de batalha. 
E cerrando os olhos, deixou-se partir, lentamente. Nervoso, o cavalo relinchou, órfão do companheiro de correrias pelo Alentejo, quase restaurado. Caída a noite, o cheiro a morte empestava os ares. Elvas estava liberta, e os espanhóis recuavam, dos dezoito mil, menos de um terço sobrevivera e recolhia a Badajoz. Pouco mais haveriam de durar as correrias, vencidos, os Filipes dobravam a espinha, perante a força indómita do povo.
Em recolhimento, o cadáver de André de Albuquerque foi levado para Elvas, e velado na Igreja de S. Maria de Alcáçova, donde, com pompa militar, foi levado a sepultar na Igreja de S. Francisco dos Capuchos, a 16 de Janeiro. Morto o homem, nascia a lenda do maior dos Ribafrias.


quinta-feira, 1 de maio de 2014

Uma gaivota voava, voava

FERNANDO MORAIS GOMES


-O Povo está! Com o MFA! - gritava a multidão Estefânia abaixo naquele dia 1º de Maio, mal refeita ainda dos eventos dos dias anteriores. Coisa nunca vista em Sintra, mesmo pelos antigos, o povo desfilava de braço dado desfraldando faixas gigantes e apregoando a palavra liberdade, como se houvesse que gritar sem parar para que acreditassem ser verdade.

Eufórica, Susana esperava junto ao Tirol, cravo vermelho na lapela, João vinha no cortejo, com as personalidades de Sintra e alguns militares à cabeça. O dr. Sargo, velho republicano com residência fixa em Sintra desde que nos anos trinta participara na revolta da Madeira, parecia uma criança, abraçado aos amigos, já falara com o Salgado Zenha, a quem a Junta de Salvação Nacional convidara para o novo Governo. Aqui e ali, profetas da desgraça agoiravam com os perigos do comunismo. O Quintas, fiscal da Câmara e salazarista convicto, que dias antes do golpe estivera num almoço da PIDE, em Queluz,  agitava com os riscos da anarquia, o Spínola estava na mão dos capitães, instigava, fora dinheiro o que os movera, depois de orientados com as comissões em África.

O desfile, que teve início na Vila e seguiu pela Volta do Duche, terminando na Portela de Sintra, foi uma inesquecível procissão da democracia, liturgia da nova liberdade, com crentes e conversos celebrando aquele dia redentor. De sorriso aberto e a vasta cabeleira ao vento, João chamou por Susana, que correu para ele, rompendo pela multidão, beijando-o e seguindo ambos no cortejo dum país de braço dado. Dois meses depois casariam, sortuda, já tinha emprego prometido como telefonista no serviço de PBX que se previa abrir em breve.

O dr. Sargo, na cabeça do cortejo, ao passar pelo Capote avistou o José Alfredo à conversa com o Cortêz Pinto e o Lacerda Tavares e acenou-lhes, com olhar cúmplice e sorriso largo:

-Viva Portugal! -saudou, qual general romano voltando a Roma depois da conquista da Gália.

-Viva! –responderam todos em uníssono, com o Zé Alfredo a orquestrar, os olhos brilhando atrás dos óculos de massa.

Um carro de som ecoava canções antes só trauteadas em surdina, e agora consagrados hinos. Fanhais, Adriano, a marcha do MFA. A democracia ganhava ícones, e os novos sons de Portugal chegavam a uma Sintra mais dada a passeios de charrete pela Vila que a ruidosas manifestações de rua. Mal sonharia o dr. Forjaz, que com pompa e circunstância recebera três meses antes o ministro do Interior, Moreira Baptista,  antigo presidente da Câmara, que pouco tempo decorrido o Portugal do “a bem da Nação” se veria arquivado na prateleira da História.

Com o 25 de Abril foi designada uma Comissão Administrativa presidida por José Alfredo, com Cortêz Pinto, Álvaro de Carvalho e Lino Paulo entre outros, período conturbado que culminou no afastamento agastado do grande Zé em 1976. Teimoso, ainda conseguiu inaugurar a estátua a D. Fernando no Ramalhão e inumar as cinzas de Ferreira de Castro na serra. Era o mínimo. As autárquicas de 1976 valeram a Câmara ao PS e a presidência a Júlio Baptista dos Santos. Passado a embriaguez, o país construía uma normalidade.

Recentemente reformada da Portugal Telecom, e passeando com a neta depois do lanche no Tirol, Susana deu consigo assaltada por esses sons e memórias já distantes. O povo, unido, jamais será vencido! Cavernoso, lembrou-lhe cabelos compridos e calças à boca-de-sino. -Tão ridículos que nós éramos! –pensou, melancólica.

-Oh avó, andas ou não andas? -questionou a pequena, puxando-lhe o braço.

Subitamente desperta, apressou-se, o 441 para Fontanelas estava quase a passar.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O druida da Regaleira

FERNANDO MORAIS GOMES

Executado o solicitado, Manini e Carvalho Monteiro faziam a primeira visita ao poço, uma impressiva galeria com escadaria em espiral sustentada por colunas esculpidas.

-Signore Monteiro, está como pediu, nove patamares separados por lanços de quinze degraus cada, e referências à Divina Comédia. Lá em baixo mandei embutir em mármore a rosa-dos-ventos sobre a cruz templária -ia explicando o italiano, cenógrafo de óperas metido a arquitecto.

-Perfeito! -soltou o velho Monteiro, tirando a cartola e escorrendo suor, esse era o seu emblema heráldico e indicativo da Ordem Rosa-Cruz, tudo estudara para dar cunho simbólico à Quinta da Regaleira, onde pedras de Ança chegavam às toneladas e canteiros trabalhavam sem parar há quatro anos. Com ar enigmático, deixou escapar um comentário:

-Sabe que é impossível a alguém elevar-se para a luz sem antes descer ao inferno? Só o afrontar do Mal em nome do Bem permite o acesso aos estados superiores do Ser!

Entrados no poço, o eco ampliou como um rugido a tonitruante voz do magnata. O labiríntico poço estava ligado por várias galerias e túneis a outros pontos da quinta, a Entrada dos Guardiães, o Lago da Cascata e o Poço Imperfeito, os morcegos deambulavam, guardiões do escuro e do desassossego. Pela primeira vez iria subir a escadaria, qual ritual, secreto e cadenciado, começando pela torre subterrânea. Antes de subir, levantou um braço e abordou Manini:

-Este era já o Espaço, é agora o Tempo de abandonar o velho e enfrentar o novo. A cada entrada, um novo nascimento, uma nova renovação…

-Como vê, sente-se a mão do Grande Arquitecto…-ironizou Manini, retorcendo o bigode.

-Neste caso, você, meu caro! -retorquiu o ricaço, espetando uma palmada nas costas do italiano.

-Agora repare: saindo da escada em espiral, o elemento aquático ganha novo esplendor, previ uma passagem sobre o lago por cima de quinze pedras ziguezagueantes -com as mãos abertas e gestos largos, Manini explicava o plano, qual mapa do tesouro, Monteiro tomava atenção aos pormenores, enquanto dois cisnes brancos nadavam no lago. Passaram de seguida por uma íbis egípcia, logo surgindo a estátua de um leão encravada entre três bancos:

-Este leão simboliza os reis de Chipre, familiares dos Lusignan, seus antepassados. Eu mesmo o desenhei!

-Podia ser maior…E agora?

-Agora sobe-se a torre, em direcção à cripta.

A escada em caracol remetia-os para um mundo de sombras que a megalomania do velho bibliófilo idealizara, uma hiperbólica teia acabada de ser tecida. Passando ao palácio, para onde a biblioteca de Lisboa estava a ser transferida, Monteiro fez questão que Manini observasse um livro adquirido recentemente:

-Conhece este livro? -um largo volume encadernado continha a cópia de um manuscrito, Fama Fraternitatis. Abrindo-o desfiou:

-Aqui está a verdadeira história dos rosa cruzes. Sabia que o Rosenkrautz era descendente de uma família alemã que abraçava as doutrinas albigenses? Toda a família foi condenada à morte por Conrad de Turíngia, excepto ele. Com cinco anos foi levado secretamente para um mosteiro onde conheceu os quatro Irmãos que mais tarde fundariam a Irmandade Rosa Cruz.

Manini ouvia em silêncio, mais interessado num magnífico relógio que dois empregados acabavam de trazer com luvas brancas. O milionário reparou, e foi mostrar-lhe o troféu:

-Já tinha visto o meu Leroy O1? Esteve na exposição de Paris, tem um mecanismo de quatro níveis e mais de novecentas peças…Custou-me vinte mil francos, um capricho! -e riu como uma criança com um brinquedo de estimação, o mundo de Carvalho Monteiro era sem dúvida outro.

De seguida, completaram o périplo subindo ao Patamar dos Deuses, a água da serra-mãe corria cristalina na fonte dos íbis, detendo-se na Entrada dos Guardiões, imponente e altiva. Na gruta de Leda, Monteiro colocou a mão sobre o cisne, também ele Zeus do seu império terreno, e suspirou, enrolando a barba:

-Quem nunca demandar o interior da terra nunca encontrará a verdade oculta! Aqui semearei a verdade, caro Manini!

Nesse final de 1909 Carvalho Monteiro tinha o seu Olimpo concluído, deus entre os deuses, sortilégio das trevas, a torre, ímpar, rasgando o céu triunfante. Nos anos seguintes, o caldeirão do Espírito fervilhou nas entranhas da terra-gruta, guardando segredos que só o génio de alguns podia desvendar. Até que uma noite, findava já 1920, o Druida partiu para a Grande Viagem, etéreo descendo ao poço, etapa por etapa, das Trevas á Luz, ecoando ao longe o grasnar dos cisnes brancos, refletidos pela Lua-Prata protectora do Jardim.

sábado, 12 de abril de 2014

A pé por Sintra:passado e presente

FERNANDO MORAIS GOMES

José Alfredo Costa Azevedo, o cronista de Sintra do século XX descreveu nas suas crónicas do Jornal de Sintra, depois reunidas em livro, a história da vila no dealbar da primeira metade do século XX. Uma das zonas por si em detalhe analisadas foi o então “novo” bairro da Estefânea, resultado da expansão urbana da Vila Velha com a chegada em 1873 do Larmanjat, o efémero “tramway” monocarril, primeiro, e do comboio depois, em 1887. Baptizado em homenagem à rainha D.Estefânea, a jovem e malograda esposa de D.Pedro V, esse bairro compreendia a zona “nova”, a partir dos Paços do Concelho (também eles recentes, inaugurados em 1909, construídos no local onde antes estava uma capela dedicada a S.Sebastião, demolida em 1904) e as actuais Av.Nunes Carvalho e Largo do Morais(embora a ligação à Portela e Lourel seja hoje quase contínua, detenhamo-nos nestes limites.

Numa viagem ao passado, com fotos de hoje, uma memória de locais onde se fez História, embora a Memória hoje nem sempre retenha.

Começamos pelo  edifício contíguo ao recente Espaço do Cidadão.

Aí funcionou a Escola Oficial Conde Ferreira, homem rico que falecendo jovem e sem filhos deixou em testamento que se construíssem 120 escolas para ambos os sexos em vilas sede de concelho. Nesta escola exerceu durante muitos anos António Joaquim das Neves, conhecido pelos antigos como Mestre Neves e que foi tio do antigo Presidente do Concelho Marcelo Caetano, e depois regente de português na Escola Primária Superior, que existiu em Sintra, na escola do Morais entre 1919 e 1925. Este mestre Neves foi igualmente avô do jornalista e antifascista Mário Neves.

Ao longo da actual R.Alfredo Costa (médico, o mesmo da maternidade em Lisboa), alguns edifícios de nota.

Logo à esquerda, a antiga estalagem da Raposa e actual sede do Espaço Llansol, por aí ter também vivido durante alguns anos essa escritora nossa contemporânea.

Este edifício foi propriedade do abastado proprietário José Antunes dos Santos, que aí viveu e morreu, e aí viveu também o Dr. Álvaro Vasconcelos, presidente da Câmara entre 1930 e 1938 (foto abaixo)e muitos anos conservador do Registo Predial de Sintra e presidente nos anos 40 e 50 da União Nacional.

No nº 9, foi a tesouraria das Finanças, e um clube com jogo clandestino no tempo da monarquia, e aí teve escritório o advogado Porfírio de Sousa Martins.

Na cave do prédio com entrada pelo nº28 existiu o Clube dos 40, fundado em 1928, que mais tarde se mudou para o local da actual Pensão Nova Sintra.

Neste pátio foi igualmente a estação do Larmanjat, o efémero monocarril que Saldanha entendeu introduzir em Portugal depois de o ver em funcionamento em França.

No nº30 existiu uma vivenda, já demolida, chamada Casa das Magnólias onde viveu o republicano e governador civil de Lisboa depois da República Eusébio Leão.

No r/c dos nº 38 e 39, a actual Casa dos Frangos, muitos anos passou o Verão João de Deus, o autor da “Cartilha Maternal”. No 1º andar funcionou a Loja Maçónica Luz do Sol, de que foi Venerável o médico Gregório de Almeida, de que fizeram parte José Bento Costa, Nunes Claro, Virgílio Horta e o próprio José Alfredo, com o nome de “António Oliveira”.
Dr. Gregório de Almeida

 O chalé avermelhado do lado oposto da rua foi propriedade do comandante Fernando Branco, um dos criadores da esquadrilha de submersíveis portugueses e ministro dos Estrangeiros e da Marinha, e avô do presidente Jorge Sampaio. Também o pai deste, o médico Arnaldo Sampaio aí residiu, mantendo-se a casa na esfera da família.


No prédio verde onde durante anos funcionou o Departamento de Urbanismo e as Varas Mistas do Tribunal de Sintra, agora de novo um serviço camarário, morou há muitos anos Carlos dos Santos Silva, um dos fundadores do Banco Fonsecas, Santos e Viana, mais tarde Banco Fonsecas e Burnay.

No prédio com o nº 43, viveu no período de Verão o general Correia Barreto, primeiro ministro da Guerra depois da República e que aqui faleceu em 15 de Agosto de 1939.Em 1900 inventou a pólvora sem fumo.

Aqui foi homenageado pela Banda da Sociedade União Sintrense, depois de os revoltosos monárquicos de Monsanto terem sido repelidos, e ovacionado pelos populares.

No 53 viveu a Ti Gertrudes, ou a “Bonecreira”, a parteira da terra, que durante anos ajudou a vir ao mundo centenas de crianças em Sintra.


De seguida passamos ao Largo D.Manuel, anteriormente chamado R.Vasco da Gama. As pérgolas e arranjo urbanístico do local são do tempo do capitão Craveiro Lopes, presidente da Comissão Administrativa depois do 28 de Maio e mais tarde Presidente da República, sendo vereador responsável o capitão Mário Alberto Soares Pimentel, então presidente da Comissão Municipal de Iniciativa e Turismo.

Antes destas obras, haviam aqui uns barracões onde a CP fazia a recolha das carruagens.

À esquerda fica a Correnteza, antes Av. Barão de Almeida Santos, grande amigo de Sintra. Na rua paralela, R.Francisco Gomes de Amorim, viveu este escritor, no nº3. A rua tem o seu nome desde 1899.

No nº5 nasceu o escritor sintrense Francisco Costa em 12 de Agosto de 1900. 


Ao fim da rua, actual acesso à Biblioteca Municipal, ficava a casa que a viúva Mantero adquiriu a um tal Peixoto, proprietário do nº15, depois da trágica morte dum filho deste num acidente de viação na Volta do Duche.

Toda esta fiada de casas teve inicio com a construção do Larmanjat, para alojar os engenheiros que vieram trabalhar na linha, pois a viagem até Lisboa nesse tempo não permitia deslocações diárias como hoje.

Uma curiosidade: foi por influência de Tomé de Barros Queirós, o homem que proclamou a República em Sintra, e tinha uma casa na rua com o seu nome desde 1926, que a partir de 1913 se iniciou o arranjo urbanístico deste jardim.

E curiosamente, os candeeiros hoje ainda aí existentes vieram da sua loja em Lisboa, conforme se pode verificar a uma aproximação atenta.

Contornando a Correnteza para a R.Câmara Pestana chegamos ao Centro Cultural Olga de Cadaval. Nos anos 30 funcionou aí o Sintra-Cinema  

Só em 1948 foi inaugurado o Cineteatro Carlos Manuel, projecto do arquitecto Norte Júnior mandado construir por António Marques de Sousa.
Onde fica o Centro de Arte Moderna foi muitos anos o Casino, de Norte Júnior também e mandado construir por Adriano Júlio Coelho. 

Funcionou nos anos 20 com récitas e espectáculos, entre eles os do Orpheon de Sintra, e foi adquirido pela Câmara nos anos 50, tendo depois lá funcionado a Escola D.Fernando II e as Finanças. Em 1997 abriu como Centro de Arte Moderna, albergando alguns anos a Colecção Berardo, e agora sub-utilizado. O Orpheon de Sintra funcionou até 1927 e chegou a ter duzentos elementos.Uma imagem de 1927:
Tornejando para a Av. Heliodoro Salgado (deixaremos outras artérias para outra ocasião), algumas notas soltas, entre a cacofonia existente pouco digna dum burgo como Sintra.
Esta artéria, hoje pedonal, chamava-se anteriormente D.Maria Pia, no tempo da monarquia, e tem hoje  o nome dum maçon e jornalista que nada tem a ver directamente com Sintra, mas com o fervor republicano de alguns dos dirigentes da época. Anteriormente era mais estreita, e parcialmente ajardinada do lado esquerdo na direcção do Largo Afonso de Albuquerque. A 1 de Maio de 1974 assistiu à maior manifestação que até hoje teve lugar em Sintra.
Em frente do supermercado houve em tempos um varão de ferro onde os saloios amarravam os burros quando vinham às compras.

Onde fica a pastelaria Tirol( inaugurada em 1950) funcionou uma carpintaria, de um Raio, da Várzea de Sintra.

Atrás do prédio onde ficava o Jornal de Sintra existiam terras e terrenos de cultura, tudo conhecido como o Casal dos Cosmes. No prédio de gaveto, existiu um hotel com o nome de Europa. 


Na zona destes prédios hoje em recuperação, existiu antes de 1931 um estabelecimento de recuperação de bicicletas, propriedade de António Augusto de Carvalho,(foto abaixo) vencedor da I Volta a Portugal em Bicicleta, em 1927.

Descendo na direcção da Av. Miguel Bombarda, antes José Luciano de Castro, temos o Café Elite, inaugurado em 14 de Outubro de 1937, e onde se realizaram muitos saraus com o Estefânea Jazz, (foto abaixo) grupo criado em 1930 por Martins de Oliveira (quem diria…).

A estação dos caminhos de ferro sofreu inúmeras alterações no tempo de Adriano Júlio Coelho (o do Casino). O primeiro comboio eléctrico chegou a Sintra em 29 de Novembro de 1956.
Em frente da estação fica o Café Cynthia, que anteriormente se chamou Bijou.

 A praça de táxis, ontem e hoje.
Onde fica hoje o parqueamento frente à estação, esteve previsto o Hospital de Sintra, projecto de Pardal Monteiro(abaixo)

O Presidente da República da época, Teixeira Gomes, chegou a vir a Sintra lançar a primeira pedra. Mas como outras obras, nunca saiu do papel...
Descendo para os Paços do Concelho, na primeira casa morou o arqueólogo Félix Alves Pereira.

E um pouco mais à frente, onde hoje fica o Café Saudade, foi a fábrica de queijadas da Mathilde, fundada em 1850. Depois de encerrada, ali funcionou um escritório de advogado, a papelaria ABC e uma agência de viagens.

Finalmente, onde fica hoje o restaurante Apeadeiro, inaugurado em Setembro de 1970, foi a tipografia Minerva Comercial Sintrense, de João Roberto Rosado, que em 1966 se transferiu para a R.João de Deus.

Pouco alterada pelo tempo, mas para pior, Sintra não tem sabido estar à altura dos seus antepassados. Produto dum casuísmo urbanístico, deixando degradar casas com História, aqui se deixa este “relambório” para que, pelo menos, muitos de nós ao passar na sua rotina diária por estas pedras e paredes silenciosas se lembrem que também aqui se fez Sintra, infelizmente quase sem memória para os seus habitantes de hoje.Talvez só a sombra de José Alfredo contemple a sua vila e suspire, contendo a vontade de como em 1934 voltar a tocar a rebate os sinos da igreja da Torre da Vila contra os atentados já então anunciados. Josés Alfredos, precisam-se!