Mostrar mensagens com a etiqueta João Cachado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta João Cachado. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Original

JOÃO CACHADO


Tal como sempre tem acontecido ao longo de décadas de Festival, também no passado domingo, estive na Quinta da Piedade, mais uma vez, não só para a partilha da música em lugar único que as circunstâncias se encarregaram de mitificar, mas também para o encontro com amigos que raramente ali faltam ao apelo anual.
Ora bem, como preâmbulo do episódio que hoje pretendo partilhar, convém lembrar que o programa do 7º evento da presente edição do Festival de Sintra, subordinado ao título Recital Piano e Violino, Programa Luso-brasileiro, interpretado por João Paulo Santos e Bruno Monteiro, integrava obras de Fernando Lopes Graça.
Pois bem, interpretadas naquele santuário – neste escrito não me deterei em avaliações que reservarei para outra altura – as peças do compositor tiveram a inevitável consequência de suscitar a longínqua lembrança de uma cena que ali presenciei há não sei quantos, talvez uns quarenta e muitos anos. E, meus caros leitores, de tal cena, sabia eu, havia registo fotográfico nos arquivos de Teresa, Condessa Schönborn-Wiesentheid, neta da Senhora Marquesa de Cadaval.
Aliás, tanto assim acontece que tal foto foi utilizada como material documental integrante do filme biográfico Marquesa de Cadaval, uma Vida de Cultura de que sou co-autor. Claro é que se trata da que reproduzo nestas colunas, como ilustração, vendo-se o compositor  sentado num dos degraus da escadaria que dá acesso ao terreiro onde é montada a plateia.
Mas, uma vez desencadeada, como parar a torrente de memórias, em especial, as que articulam Lopes Graça com a Senhora Marquesa? Não é possível. Evidentemente. Então, chegado é o momento de vos dar a conhecer o tal episódio cuja partilha anunciei no início do segundo parágrafo. Para o efeito, não posso deixar de recorrer ao testemunho da grande pianista Olga Prats cuja relação, tanto com a Senhora Marquesa, de quem era afilhada, como com o Graça era mesmo muito próxima.
Terreno fértil
Preciso recuar no tempo para lembrar como crescia e se acentuava a repressão por parte do antigo regime. Para se ter uma ideia, na década de cinquenta, as orquestras nacionais foram proibidas de interpretar obras de Fernando Lopes-Graça, tendo-lhe sido sonegados os direitos de autor e também anulado o diploma de professor do ensino particular, facto que o obrigou a abandonar a Academia dos Amadores de Música.
Entretanto, com o êxito (?!) que se imagina, ia ele fazendo a via sacra do Sassetti e Valentim de Carvalho, editores de música. Perfeitamente ao corrente do que sucedia, a mesma Dona Olga – que, perante o próprio Salazar se responsabilizava, pessoalmente, pelos grandes artistas do bloco de leste que vinham a Portugal com o seu patrocínio – mal soube que o compositor estava a passar grandes privações, pediu ao seu colaborador Artur dos Ramos Prats, pai da pianista, que lhe fizesse chegar um cheque com um contributo.
Como tudo se processava com enorme discrição, Olga Prats desconhece o valor do donativo, apenas recordando ter seu pai confirmado que a Senhora Marquesa fora muito, muito generosa. Era esta a sua estirpe. Originária da mais alta nobreza europeia, constantemente lembrava a perspectiva em que seu pai falava do privilégio do berço, ou seja, na do préstimo aos demais, sem quaisquer barreiras, personificando a noção grega de áristos, excelente, o melhor, o mais nobre, que nada tem a ver com linhagem.
Só para os medíocres, a ideologia política poderá funcionar como obstáculo à partilha dos mais elevados sentimentos, em especial, daqueles que conotamos com a estética e a beleza. O cidadão Lopes Graça, membro do Partido Comunista Português desde meados da década de quarenta, era um cultor da Arte e, enquanto homem, o tal próximo de todo o cristão, naquele momento, até passava necessidades. Era este, por maioria de razões, o terreno fértil à actuação de quem o ex-Presidente da República Jorge Sampaio designou como a mais desinteressada mecenas. Sem quaisquer barreiras, sublinhemos.
Como acabam de perceber, a foto também fala de uma história entre os dois protagonistas, informalmente sentados. Próximos. Exemplarmente próximos.

[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]

terça-feira, 24 de junho de 2014

Em Sintra, de olhos em Salzburgo



 JOÃO CACHADO



Na manhã do passado dia 5 de Junho, durante a apresentação pública do Festival de Sintra 2014, o senhor Presidente da Câmara referiu-se ao Festival de Salzburg para afirmar que, no próximo ano – altura em que vamos comemorar cinquenta edições – Sintra vai ter condições para apresentar uma programação digna da Meca da grande música.
Como já tive oportunidade de esclarecer, no uso de uma hipérbole bem aplicada, o Dr. Basílio Horta apenas pretendeu aproveitar aquela oportunidade de troca de impressões acerca da actual 49ª edição, comprometendo-se, desde já, com o maior empenho pessoal, para a afectação dos recursos indispensáveis, em 2015, à organização de um festival à altura dos seus melhores pergaminhos.
Ao Festival de Salzburg, portanto, se referiu o Presidente. Na realidade, bem pode assim designar-se embora tendo em consideração que, afinal, tão só e especificamente, se alude ao Festival de Verão, certo é que o mais importante, o mais conhecido da cidade dos príncipes arcebispos, mas apenas um dentre mais onze (!!!) que o burgo promove ao longo dos doze meses do ano, cada um dos quais importantíssimo, e também designado como festival de Salzburg…
Confirmando como assim é, durante temporadas sucessivas, a partir de Salzburg, subscrevi artigos para o Jornal de Sintra, três vezes por ano: um, durante a Mozartwoche [Semana Mozart], festival de Inverno, exclusivamente dedicado a Mozart, quase duas semanas entre Janeiro/Fevereiro, coincidindo com o aniversário de Mozart (27 de Janeiro); um outro, o Österfestspiel [Festival da Páscoa] e ainda o Salzburg Festspiel no Verão. E bem posso gabar-me do sucesso dessa escrita porquanto alguns dos meus leitores acabaram mesmo por ir a Salzburg.
A montante de uma fascinante realidade, que nos remete para um quadro deveras propício de cidade dos festivais, em que as belezas naturais e o património edificado desempenham papel crucial, cumpre lembrar que, de há muitas dezenas de anos a esta parte, Salzburg se apetrechou para acolher uma grande concentração de eventos musicais.
Essencialmente, capitalizou o factor da localização geográfica estratégica. Basta ter em consideração que alguns dos meus amigos, vivendo em Milão ou Stutgart fazem a viagem de ida e volta no mesmo dia, para não referir os de Munique, que estão a dois passos. Estranho, estranho é o que comigo acontece que, para lá chegar e regressar a casa, tenho de fazer um total de quase seis mil quilómetros! Como chego a lá ir três vezes por ano…
Números impressionantes
Então, passarei a apresentar os dados estatísticos mais recentes, referentes ao ano de 2013 e, reparem bem, só no que se refere ao Festival de Verão. Estão preparados? Pois bem, durante os 40 dias da iniciativa, dispondo de 14 auditórios, houve 293 espectáculos, dos quais 38 récitas de 6 grandes produções de ópera, 9 de récitas concertantes de ópera, 94 de concertos sinfónicos, coral-sinfónicos e recitais, 60 de récitas de teatro, 37 de espectáculos para crianças, 1 baile, 35 espectáculos especiais, 19 ensaios gerais abertos ao público.
Quanto aos bilhetes, estiveram 256.285 disponíveis (estão mesmo a ler bem, duzentos e cinquenta e seis mil, duzentos e oitenta e cinco ilhetes!), dos quais 73.834 referentes às óperas, 62.719 às peças de teatro, 119.732 aos concertos. Os espetadores provieram de 73 países dos quais 39 eram não europeus. Vendeu-se 93% dos bilhetes disponíveis sendo de E:28.285.082 (vinte e oito milhões, duzentos e oitenta e cinco mil e oitenta e dois Euros) a receita da bilheteira. Estiveram acreditados 653 jornalistas ao serviço dos media de 35 países.
Quanto às receitas, a distribuição é a seguinte: da venda dos bilhetes, 46%, da Associação dos Amigos e patrocinadores do Festival, 4%, Patrocínios e dádivas, 18%, Financiamento Público, 17%, Fundo de Promoção Turística, 4%, Outras Receitas, 11%. O último estudo datado de 2011, elaborado pelo Zentrum für Zukunftsstudien Fachhochschule Salzburg, entre outras conclusões, demonstra que o efeito deste Festival de Verão no domínio das receitas fiscais equivale ao triplo do montante do investimento das entidades públicas. Finalmente, que o impacto geral do Festival no volume de negócios e na produtividade se cifra em cerca de 276 milhões de euros! E, não esqueçam, em apenas 40 dias de Festival.
Valerá a pena, em Sintra, ter estes dados em consideração? E ainda lembrar os casos de outros famosos festivais como Bayreuth, Verona, Luzern que também já me têm ocupado nas páginas deste jornal? Julgo que, salvaguardadas as questões de escala, se se pretende que Sintra volte a ocupar um lugar de referência nacional, permitindo-se lançar algumas pontes além fronteiras, então estas fontes podem ser preciosas. Voltaremos a este assunto.




  Salzburg Festspiel


[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Sob a égide da Senhora Marquesa de Cadaval

JOÃO CACHADO

Ainda o Festival de Sintra cuja programação detalhada tive oportunidade de partilhar convosco na última edição deste jornal. De algum modo, se hoje volto ao assunto, faço-o com um diferente objectivo ao qual, como verificarão, dificilmente me poderia subtrair.

O regresso tem a ver com as justíssimas referências ouvidas no MU.SA à Senhora Marquesa de Cadaval, inicial e principal mentora desta prestigiada iniciativa cultural, que também patrocinou ao longo de várias décadas, para benefício de sucessivas gerações de melómanos.

De tal forma a sua figura se tornou indissociável do Festival que bem pode falar-se de uma omnipresença que, tão significativamente, se mantém mesmo depois de nos ter deixado em 1996 e, em especial, em vésperas de celebrar o meio século de edições já no próximo ano. Ora bem, a partir deste momento, vão permitir que introduza uma vertente pessoal.

Senhora Marquesa de Cadaval, meu mito

Além de balizarem um tempo de contemporaneidade da vida musical portuguesa, estas também são datas que fazem parte da minha cronologia pessoal. Comecei a frequentar as primeiras edições do Festival de Sintra, ainda criança, de calções. E cá estava a Senhora Marquesa de Cadaval. Pela mesma altura, sempre pela mão de meu pai, também em Lisboa, via a Senhora Dona Olga nos recitais e concertos, fossem os do Ciclo de Cultura Musical ou do Festival Gulbenkian e outros, quando, nos anos cinquenta, fui iniciado no gozo da boa música, ao vivo, nos auditórios.

Nessa época, para mim, a Senhora Marquesa já era um mito. E tão impressivo como alguns dos grandes músicos russos que ela própria se empenhou em trazer a Portugal num período em que isso não era nada fácil. Estou a vê-la, por exemplo, no Coliseu, quando cá veio o David Oistrakh, há 54 anos, interpretar o Concerto para Violino em Ré Maior de Beethven, com a Orquestra da Emissora, sob a direcção do Maestro Pedro Freitas Branco, seu grande amigo…

Totalmente fascinado pela sua personalidade, a coisa mais natural deste mundo acabaria por suceder muitos anos mais tarde quando, com Mário João Machado na produção, João Santa Clara na realização, me envolvi na concretização do projecto Marquesa de Cadaval, uma vida de cultura, o filme biográfico de que somos autores João Pereira Bastos e eu próprio.*

Para o efeito, entrevistámos amigos, como Maria de Jesus Barroso Soares, Jorge Sampaio, João Paes, Nella Maissa, Maria Germana Tânger, Luís Pereira Leal ou Luís Santos Ferro – este último como uma colaboração de grande destaque – bem como grandes artistas que beneficiaram do seu desinteressado mecenato, como Daniel Barenboim, Stefan Kovacevitch, Nelson Freire ou  Olga Prats.

Não tem descrição o que, a nível pessoal, aprendi e partilhei. De seu admirador desde criança, posso dizer, sem qualquer ponta de presunção, que passei à condição de membro do círculo dos seus mais afectos, portanto, daqueles que, por todos os meios ao alcance, não perdem oportunidade para lhe honrar a memória e divulgar a sua tão importante como discreta obra.

Por tudo isto, não admira que, na passada sexta-feira, durante a referida sessão de apresentação, além do júbilo, também muito me tivesse emocionado com as informais e tocantes alusões à Senhora Marquesa de Cadaval e à Quinta da Piedade, por parte quer do Prof. Adriano Jordão, actual Director Artístico do Festival quer do Presidente da Câmara Dr. Basílio Horta, quando se dirigiam a Teresa, Condessa de Schönborn-Wiesentheid, neta da ilustre patrona do contíguo Centro Cultural.

Pública promessa

Mantendo-me, tal como indica o título, sob a égide da Senhora Marquesa, confesso que estava à espera das palavras que ouvi de louvor ao trabalho de um seu grande e bom amigo pessoal, o Dr. Luís Pereira Leal que, durante cerca de trinta anos, foi competentíssimo Director Artístico do Festival de Sintra. A ele devemos, tanto em tempo de maior desafogo financeiro como no das recentes dificuldades, a vinda a Sintra dos mais consagrados intérpretes e de jovens valores do universo da música. Estou certo de que, a breve trecho, a CMS não perderá a oportunidade de concretizar a homenagem que é devida.

Finalmente, uma promessa que tem foros de compromisso público do maior realce. Com a satisfação que se lhe adivinha por poder concretizar tão auspicioso anúncio, o senhor Presidente da Câmara, informou e, perante a insistência de Adriano Jordão, confirmou que, em 2015, por ocasião da sua quinquagésima edição, o Festival de Sintra vai ter meios especiais para poder apresentar uma programação digna de Salzburg!... Nem mais nem menos!

Enfim, com os «descontos» que se me impõem perante a tão generosa hipérbole do Dr. Basílio Horta, eu que, há tantos anos, tão bem conheço a esplêndida oferta de Salzburg, adivinho, nas suas palavras, isso sim, um empenho digno da jubilar efeméride e da memória de quem foi a grande impulsionadora do mais sofisticado produto cultural de Sintra.


*O documento biográfico, com cerca de uma hora de duração, foi apresentado pela primeira vez no Centro Cultural Olga Cadaval, em 17 de Janeiro de 2014, por ocasião do aniversário natalício da Senhora Marquesa de Cadaval, já depois de ter sido adquirido pela RTP que assegurou os direitos exclusivos de teledifusão nacional e internacional pelo período de cinco anos. Logo que possível estará disponível no mercado uma versão em DVD.



[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]

terça-feira, 3 de junho de 2014

Estacionamento em discussão pública, movimento cívico em acção

JOÃO CACHADO

Trata-se, sem a menor dúvida, do assunto que mais intervenção cívica me tem determinado ao longo de anos e anos de escrita na imprensa regional e nas redes sociais. Questão transversal, cujas plataformas de abordagem se cruzam, na maior intimidade, com uma miríade de problemas, também ainda por resolver, a resolução do problema do estacionamento é absolutamente crucial.

Ultrapassando o perfil daquela minha atitude interventiva que, à excepção da luta contra a instalação de um parque subterrâneo de estacionamento na Volta do Duche, tem sido mais pessoal, proporcionou-se agora a possibilidade de trabalhar na análise do Projecto de Alteração ao Regulamento de Trânsito e Estacionamento do Município de Sintra, aprovado em 23 de Novembro de 2011, no âmbito da União das Juntas de Freguesia de Sintra. Fernando Cunha coordenou o grupo que integrou Sofia Dionísio, Rui Bernardo, João Dinis, Ricardo Duarte e eu próprio, enquanto membros activos de movimentos cívicos que, tanto em São Pedro como na Estefânea, vão dando passos certos e interessantes. 



Intróito

Começámos por apresentar uma Introdução em que, desde logo, se nos revelou que o documento em apreço focaliza toda a atenção na possibilidade de colher o máximo proveito das cobranças inerentes ao parqueamento pago, reforçando e alargando zonas, principalmente, quer na sede do concelho quer nas praias, atitude que estará ferida de legalidade.
Com toda a pertinência, manifestámos a maior estranheza quanto ao facto de a Câmara Municipal de Sintra ter desperdiçado a oportunidade que se lhe oferecia na presente circunstância, no sentido de propiciar aos munícipes um documento de estratégia que visasse o equacionamento e a operacionalização de medidas afins da resolução de gravíssimos problemas de estacionamento na sede do concelho.

Também sublinhámos ser cada vez mais problemática a situação gerada com o afluxo de viaturas motorizadas particulares ao centro histórico e pontos altos da Serra de Sintra, situação tanto mais contundente quanto se conjuga com práticas de designada tolerância das autoridades policiais que, cumulativamente, tiveram como visível consequência cenas que, de modo algum, se coadunam com a justa aspiração de Sintra a emparceirar com os destinos nacionais e internacionais mais sofisticados em termos da qualidade de vida dos residentes e condições de visita aos forasteiros.

Confirmámos como será sempre de acordo com uma perspectiva que privilegie a análise sistémica e uma subsequente intervenção integrada que, para os problemas do estacionamento, poderão encontrar-se soluções eficazes, civilizadas e expeditas, em articulação com problemas tão diversos mas confluentes, tais como o regime de cargas e descargas, sistema de transportes públicos, condicionamento de trânsito em determinadas vias e zonas, etc.

Tal como tantas vezes se tem evidenciado, nenhuma das soluções que convêm a Sintra neste domínio, constituirá qualquer novidade relativamente às que já foram concretizadas noutras latitudes, nomeadamente, nos contextos europeus que, por analogia de condicionalismos, por exemplo, geográficos ou culturais, enfrentaram e resolveram problemas semelhantes.

Parques periféricos e oferta integrada de transportes

Seguidamente, decidimos apresentar, ainda que, necessariamente, em termos muito sumários, um conjunto de propostas cuja concretização avaliamos como prioritária, já que o bem comum assim o determina, apesar de poderem gerar uma previsível controvérsia. É para o efeito que os decisores políticos dispõem da autoridade democrática conferida pelos votos dos cidadãos, através da implícita delegação do poder.

Não poderá constituir qualquer novidade que tenhamos proposto, como incontornável e inadiável, a instalação de parques de estacionamento periféricos, estrategicamente localizados, de dimensões variáveis, com inequívocas condições de higiene e segurança onde os utentes possam deixar as suas viaturas e, mediante tarifas diferenciadas, consoante percursos pré seleccionados e disponíveis, dirigirem-se aos seus destinos, perfeitamente descansados, com um título de transporte que inclui a tarifa do parqueamento.

É imprescindível entender-se que a solução parques dissuasores periféricos também resolverá o problema da impossibilidade de acesso de viaturas particulares aos pontos altos da Serra de Sintra. O património natural em questão não pode continuar sendo agredido pela poluição causada por milhares e milhares de automóveis. É por isso que se advoga a solução de voltar a encerrar a Rampa da Pena, apenas autorizando a circulação de transportes públicos e, pura e simplesmente, eliminando os parques de estacionamento que a PSML instalou junto ao Castelo dos Mouros, do Parque da Pena e do Chalé da Condessa.

Funicular e eléctrico

Assim sendo, inevitável se revela equacionar a solução do funicular, que opera muito discretamente, sem qualquer impacto ambiental, em carril adossado ao monte, cujo desnível é vencido em ambos os sentidos, ascendente e descendente, como acontece noutros lugares dotados de abundante património edificado, também classificados pela UNESCO como Património da Humanidade, lugares com a análoga característica de Sintra, em que a impositiva presença da montanha, no cimo da qual há pontos de inequívoco interesse a visitar, determina a adopção deste meio de transporte.

Ao tratar do caso do eléctrico, tivemos em consideração as Jornadas de Reflexão sobre a Estefânea, debate público promovido no Palácio Valenças em 22 de Março de 2004, durante as quais foi proposta a reabertura ao trânsito da Avenida Heliodoro Salgado, apenas no sentido ascendente, de tal modo que permitisse a concretização do projecto do seu renovado atravessamento pela linha do eléctrico, prolongando o percurso até à estação terminal da CP e à Vila Velha, tal como aconteceu em tempo remoto. Em sentido complementar, deveria também proceder-se ao prolongamento até às Azenhas do Mar.

Mais uma vez se repete que, resolvido o problema do estacionamento, nomeada mas não exclusivamente, através da instalação dos parques periféricos – já que importa manter bolsas de estacionamento de proximidade para residentes, comerciantes e alguns funcionários, em particular, de entidades públicas – é perfeitamente possível encarar esta solução do eléctrico. A sua compatibilização, aliás, pressuporá um elevado índice de condicionamento de trânsito na Volta do Duche, apenas permitido a transportes públicos, veículos dos serviços oficiais, prioritários, mercadorias para cargas e descargas, táxis, comerciantes e residentes locais e a jusante da Vila Velha, tanto no sentido de Colares como no da Serra.

Casos bicudos

A bolsa de estacionamento de proximidade, adjacente ao edifício do Departamento do Urbanismo, deverá merecer um particular cuidado por parte da autarquia já que, de acordo com a capacidade instalada, constitui o mais importante supletivo em relação ao limitado estacionamento nas imediações do Centro Cultural Olga Cadaval, Casino e Igreja de São Miguel, incluindo a garagem da EMES.

Além da requalificação do espaço - que não deverá suscitar a precipitada decisão de o transformar num parque pago - urge reinstalar a passagem aérea que permite o acesso pedonal, em ambos os sentidos, entre os bairros da Estefânea e da Portela. Por ocasião da realização de eventos de grande afluência no CCOC é indispensável contar com esta disponibilidade cuja divulgação também deverá ser encarada através dos meios mais eficazes.

Outro assunto extremamente preocupante, por resolver há muitos anos, é o da inexistência de um parque de campismo e de autocaravanismo para onde poderiam ser conduzidos estes veículos cujos condutores demandam, cada vez mais, os destinos sintrenses. Na ausência de espaços para o efeito vocacionados, tanto a autarquia como as autoridades policiais têm tolerado soluções, afinal, intoleráveis, bem patentes nas cenas de perfeito terceiro mundo em pleno centro histórico, suscitando sérios problemas sanitários e de segurança. Entretanto, na impossibilidade de resolução definitiva de tão melindrosa questão, sugerimos a utilização do espaço, para o efeito oportunamente criado junto ao estádio do Primeiro de Dezembro, que está dotado de infraestruturas mínimas e decentes.
    Foto Fernando Castelo
À guisa de conclusão, acrescentaria que os tempos de austeridade que atravessamos só podem determinar ainda maior contenção, cumprindo à autarquia dar respostas com a dignidade que Sintra merece, numa abordagem correcta, porque devidamente estudada, dotada dos meios apropriados, integrada e articulada. Nada é preciso inventar. Para ganhar esta luta contra o desleixo, pela disciplina e correcção do acesso ao centro histórico e aos monumentos, basta copiar o que acontece em certos lugares nacionais e estrangeiros para onde o cidadão sintrense não precisa nem deve olhar invejosamente.

[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]


quarta-feira, 21 de maio de 2014

Casino, novo destino



JOÃO CACHADO

Museu das Artes de Sintra - MU.SA! Ora aí temos, bem mais cedo do que jamais imaginaríamos, o novo espaço museológico que, aproveitando as características de um edifício tão interessante como é o Casino, permite explorar a subtil polivalência de propostas que ali é possível concretizar para benefício dos munícipes e visitantes em geral.

Apesar de tão bem a conhecer, fascina-me cada vez mais esta grande casa da Heliodoro Salgado. Depois do inicial Casino, sem quaisquer jogos de azar, Sintra exigiu-lhe cenas de Biblioteca Municipal – onde trabalhou a grande figura da Cultura Portuguesa que foi o filósofo Manuel Lourenço – também de Secção de Finanças ou Escola Preparatória e, mais recentemente, Museu de Arte Moderna-Colecção Berardo.

Enfim, para nossa permanente surpresa, as sete vidas que lhe vamos acrescentando, dele têm feito um verdadeiro felino, flexível, adaptável a todas as circunstâncias… E, de facto, esgalhado pelo gabarito do Arquitecto Norte Júnior, aquele edifício tem aguentado tudo o que se lhe pede, com uma ductilidade fora do comum.

Ora bem, cumpre lembrar que, como tem sido público e notório, através dos artigos nestas páginas dados à estampa ao longo dos últimos meses, estive perfeitamente convencido de que o último pedido ao Casino tinha sido oportunamente formulado, no sentido de acolher a designada Colecção Bartolomeu Cid dos Santos, já que decorria dos termos do Protocolo celebrado entre a autarquia e Maria Fernanda dos Santos.

A montante do MU.SA

Praticamente, desde o início do mandato do actual executivo autárquico, se sabe que existiam divergências de interpretação de algumas e importantes cláusulas do referido documento contratual. Naturalmente, tal circunstância suscitou a necessidade de recorrer aos consultores jurídicos de ambas as partes. De acordo com as informações que obtive, embora prolongadas e ainda não concluídas, é de prever que as negociações tenham o desfecho que mais convirá à salvaguarda tanto dos interesses da autarquia como da cedente.

Confortável com esta explicação, considerei que, dispondo da mais-valia de tal edifício, não era possível protelar, sine die, a ocupação do Casino que – entretanto, tal como tenho dado conhecimento – foi devidamente beneficiado e dotado das condições necessárias e suficientes ao funcionamento como espaço propício à promoção de exposições de artes plásticas permanentes e temporárias. Pois bem, tanto quanto indaguei, foi neste contexto que se evidenciou e concluiu como a solução MU.SA se revestia da maior pertinência.

Quando me apercebi de que, surpreendentemente, e em tempo curtíssimo de trabalhos de preparação, a Câmara Municipal de Sintra já estaria a perspectivar a reabertura para uma data tão próxima quanto era a do dia 17 do corrente mês de Maio, procurei inteirar-me. Logo entendendo que era esse o meu objectivo, o Vice-Presidente Rui Pereira, também Vereador com o Pelouro da Cultura, sugeriu-me integrar o pequeno grupo que, no passado dia 9, se deslocou ao Casino em visita de reconhecimento.

Se, em boa hora o fez, ainda em melhor aceitei eu o convite porque, só assim, teria o privilégio de partilhar opiniões e impressões indispensáveis à redacção destas linhas. Em primeiro lugar, gostaria de sublinhar o facto de, já há alguns anos, ser este um projecto cuja eventualidade de concretização foi objecto de frequente troca de impressões entre técnicos dos serviços, tal como, participante activa da visita, a Dra. Conceição Carvalho, assessora do Conselho de Administração da SintraQuorum, teve oportunidade de recordar.

A verdade é que, ultimamente, esta mesma hipótese de montar um museu no Casino ganhou novo realce depois de ter sido ventilada por Fernando Castelo, no seu blogue Retalhos de Sintra, num texto em que propunha, além da exposição das obras de pintura do valiosíssimo espólio municipal, também a possibilidade de constituir um núcleo museológico com as peças oportunamente doadas pela escultora Dorita de Castel-Branco e considerar mais outro espaço para a realização de exposições temporárias.

Ao reconhecer o seu manifesto interesse, o Vice-Presidente Rui Pereira, durante a conversa que comigo manteve antes da aludida visita, não perdeu a oportunidade de me dar a entender como aquela proposta fora determinante para a efectivação do projecto e, portanto, como a autarquia está atenta às sugestões dos cidadãos.

A visita

Integrei-me, então, no tal grupo visitante que, contando com a já mencionada Dra. Conceição, era composto pela Dra. Ana Santos, adjunta do gabinete da Vice-Presidência, Dr. Carlos Vieira, Chefe da Divisão de Cultura, Pintor Vitor Pi, fotógrafo Nuno Antunes, foi guiado pelo Coordenador do Núcleo de Museus e Galerias de Arte da CMS, Mestre Jorge Martins, cuja estratégia e coerência de opções teve oportunidade de connosco partilhar.

Uma das notas salientes é a presença da obra de Dorita, já que não se limita à ocupação do núcleo museológico que, no rés-do-chão, à direita de quem acede ao interior do edifício lhe é totalmente afecto. De facto, quer na esplanada exterior quer no primeiro andar, algumas das suas peças sublinham as afinidades de um percurso que o visitante deverá entender, como será a da tapeçaria de grandes dimensões que, na parede fronteira, ao cimo da escadaria, naquele impositivo patamar do primeiro andar, é um marco da distribuição da pintura, da escultura e da fotografia do importante acervo do município de Sintra.

À direita, teremos uma zona de homenagem a Emílio Paula Campos, a quem é consignado o devido reconhecimento e destaque. Á partir daí se parte para uma viagem que, através das sucessivas e contíguas salas, nos levará à obra de consagrados, como Júlio Pomar, Milly Possoz, Cristino da Silva ou de Adriano Costa, o pintor de Sintra, na apreciação de Fernando Pamplona no seu “Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses”. 
 Obra de Júlio Pomar de 1942 no MU.SA

Neste piso, um lógico circuito vai privilegiando a paisagem, desde obras figurativas, até à abstracção, num bem encadeado novelo de conotações, igualmente circulando por uma componente espacial em que se articulam obras premiadas no Concurso D. Fernando II, finalizando com a vertente da fotografia. Depois de descer e retomar o rés-do-chão, eis um espaço afecto às exposições temporárias – a primeira das quais dedicada a Vitor Pi – e o Lab.Art, zona de lugar à vanguarda, cuja primeira iniciativa contemplará a instalação “Entrentrente” de Jorge Cerqueira.

Pendentes

Não poderia deixar de aproveitar a oportunidade para lembrar que, ininterruptamente, entre 2005 e 2013, o “World Press Cartoon” viveu 9 edições, de início, no Centro Cultural Olga Cadaval e, posteriormente, no Casino. Trata-se de um evento anual do maior interesse que já está indissociavelmente ligado a Sintra e que Sintra não tem qualquer vantagem em perder para um enquadramento alheio.

Final e compreensivelmente, o grande destaque de pendência para a Colecção Bartolomeu Cid dos Santos. Como é sabido, além do espólio do grande artista, cujo magistério na Slade School de Londres ainda hoje é reclamado pelos maiores gravadores mundiais, a Colecção integra um núcleo de obras assinadas pelos mais prestigiados pintores portugueses contemporâneos, tais como Paula Rego, Vieira da Silva ou Júlio Pomar, bem como peças do também seu amigo Francis Bacon, um conjunto perfeitamente deslumbrante que, não tenho a mínima dúvida, passarão a constituir um extraordinário polo de atracção cultural em Sintra. Tendo sido prevista para o Casino, há que lhe equacionar a melhor solução.

[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]