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terça-feira, 15 de setembro de 2015

Eros Extático

PAULO BRITO E ABREU












EROS EXTÁTICO

( convoco, para a Musa minha, o 10 de Copas caroal )

Os meus lábios são húmidos da boca
Que aprendi a beijar como ninguém,
Que Maio é comoção, a terra é pouca:
No mar, o teu Amor é mais além.

E à noite, a cor é vela em nossa toca,
A rosa a ti, Maria, te convém.
Marina e a fiar, navio ou roca,
A voz rouca, tu lias em Belém.

Por isso à Bela eu amo. Ao lado o círio
Me diz que ela é Cibele, e eu fecundo;
Gritamos, ela grita em seu delírio,

Infinita ela jaz, e eu no fundo......
Por isso a Paz, a Lua até ao lírio,
Bela vás, vás até ao fim do mundo.

SIC ITUR AD ASTRA


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Carlos Vale Ferraz- Arte da Memória

MIGUEL REAL 

Porventura com excepção de Os Lobos Não Usam Coleira (1991), toda a obra de Carlos Vale Ferraz é de cunho memorialístico. A obra ora publicada, A Estrada dos Silêncios, não escapa a esta regra.
Na literatura, a memória é historicamente vital e esteticamente transbordante quando reconstrói a realidade, não segunda uma imitação fiel, mas segundo o poder simbólico da evocação que permite recordar e recriar a pluralidade de significações sociais e imagéticas do passado, inclusive o que não se viveu, mas, estando na lógica do acontecimento, se poderia ter vivido. Carlos Vale Ferraz é um escritor da memória.
Recentemente, vimos aqui o modo como Álvaro Manuel Machado trabalha a arte literária da memória, ancorando-a em três ou quatro vivências da realidade individual (Foz Velha do Porto, infância e juventude, a casa da família, exílio…). Carlos Vale Ferraz trabalha a memória literária de um outro modo, não menos nem mais legítimo do que o de Álvaro Manuel Machado.
O autor do incontornável romance Nó Cego (1983) sobre a Guerra Colonial, concretamente sobre a operação militar desencadeada por Kaúlza de Arriaga no Norte de Moçambique, mas também de Soldadó (1988), a história do povo miúdo analfabeto e rural forçado a sobreviver de armas na mão em defesa do Império, reconstrói literariamente a memória logrando confluir os acontecimentos evocados pelas personagens com os diversos sentidos histórico-políticos de Portugal. A memória é, aqui, eminentemente colectiva e reprodutora dos rumos da História - e as personagens verdadeiras metonímias circunstanciais do destino de Portugal. Assim nos seus livros sobre a Guerra Colonial; assim nos romances sobre África, Fala-me de África (2007); assim em O Livro das Maravilhas (1999); assim em A Mulher do Legionário (2013), um dos seus melhores romances; assim no romance ora publicado, A Estrada dos Silêncios, que, portanto, segue em continuidade a oficina literária do autor.
Com a acção decorrida nos finais da década de 80, A Estrada dos Silêncios, fazendo jus ao trabalho da memória a um nível histórico, encontra as suas raízes estruturais no início da Guerra Peninsular, nas consequentes Invasões Francesas (1807 – 1810) e na rebelião dos povos do Sardoal, Vila de Rei e Abrantes contra os soldados franceses.
Uma nova estrada, projectada com Fundos Europeus e anunciada pelos serviços oficiais do Estado e das Câmaras Municipais como símbolo do Progresso, ligando esta zona relativamente desértica do interior à fronteira, é impedida de ser construída pela aparente teimosia de Francisco Afonso, proprietário do Monte Cimeiro, cuja herdade será amputada pela estrada, principalmente um morro de onde sobressai uma oliveira centenária.
Porém, a aparente teimosia de Francisco Afonso revela-se de contornos históricos e de fundamentação dinástica (familiar) e reenvia para duzentos e cinquenta anos antes, quando dois militares franceses, o capitão Alfonse Barre e o sargento Jean Secail desertam e não regressam a França. Os motivos para a deserção de ambos são profundamente diferentes, o primeiro apaixona-se por uma portuguesa de Abrantes (Ana Mendonça), o segundo quer e tenta por diversas vezes mas não consegue retornar a Paris.
Ambos dão origem a duas dinastias familiares diferentes, a do capitão, que finda em Francisco Afonso, e aqui termina definitivamente (sem filhos), e a do sargento que desemboca na pessoa da juíza do Tribunal de Abrantes que analisa o processo de expropriação do Monte Cimeiro, Joana Secalha.
Cruzam-se assim, nos finais da década de 1980, duas visões da história de Portugal, uma, que crê no progresso europeu e encara a adesão à Comunidade Europeia em 1986 como motor da futura felicidade desenvolvimentista dos portugueses; outra, que intenta respeitar o passado e honrar os mortos, já que, sob as raízes da oliveira, se encontram os ossos daqueles que um dia, em 1807, vieram da Europa revolucionária trazer o Progresso e a Razão Iluminista e provocaram uma autêntica hecatombe bárbara em Portugal, com violações e morticínios. Os antigos caminhos de cabras e carroças que Junot, Soul e Massena foram forçados a palmilhar e, de certo modo, contribuíram para a sua derrota, transformar-se-ão agora, por vida de dinheiro europeu, numa estrada lisa, recta e directa por onde os novos invasores entrarão sem impedimento. A própria fronteira já não existe. O Portugal antigo e tradicionalista de Francisco Afonso está a morrer e a machadada final, entende a personagem, será dada pela construção da estrada. Por isso a impede, contra a justiça, o Estado, as Câmaras e, até, contra a Europa, ou, melhor, contra a visão desenvolvimentista de Portugal apoiada pela Comunidade Europeia.
Como decidirá a juíza Joana Secalha, ela própria descendente desse ancestral passado - também europeu – de Portugal? Como reagirá Francisco Afonso à morte desse Portugal de antanho, que ele considera representar? E à cigana e ao cão que vivem solitariamente com ele no Monte? E o que sucederá ao engenheiro Carlos Matias, funcionário da Junta Autónoma das Estradas, encarregue de abrir a estrada europeia e filho do soberbo construtor de Cabora Bassa?
Entre todas, a personagem de Joana Secalha é a mais completa, embora o protagonismo vá inteiro para Francisco Afonso. Joana Secalha sintetiza, de certo modo, a vida dos portugueses universitários pós-25 de Abril de 1974. Maoísta, cultora do amor livre, que pratica em vastas orgias, torna-se senhora respeitável na década de 80 com o cavaquismo, pertencente às elites de Abrantes e arredores. Descendente do primitivo Secail, nome aportuguesado para Secalha, Joana tem a inspecção da máquina do Estado pendente sobre a sua decisão. Como decidirá?


Duas observações marginais. Uma: o espírito paganista africano tem lugar em quase todos os romances de Carlos Vale Ferraz, mas pensamos que exageradamente em A Estrada dos Silêncios, atribuindo a culpa do afogamento do pai de Carlos Matias a uma maldição lançada pelo feiticeiro da tribo deslocada à força do seu território para a construção da barragem de Cabora Bassa. Trata-se de uma enxertia africana forçada num romance que é todo ele escrito segundo a razão europeia. Outra, sente-se por vezes a necessidade de uma revisão literária do romance, há frases, esporádicas, raras, demasiado ligeiras e quotidianas para serem consideradas literárias.


A Estrada dos Silêncios,
Casa das Letras, 352 pp., 17,90 euros.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Amor Celeste

PAULO BRITO E ABREU












AMOR CELESTE

( avoco, para a Musa minha, o Arcano, o Arcaico da Força )

Em Númen's multicores, em beleza,
Marinela de plantas se vestia,
E as Graças, os Cupidos, a Magia,
Nos seus cabelos eram a lindeza.

Mansíssima oração, alada deusa,
Coa Lua vens silente em Poesia.
Bendita sejas tu, bendito o dia
Em que o Vate a ti veio com pureza.

Em ti bailam as flores da floresta,
Em ti cessa o meu mal por que eu me afoite.
Bendita sejas tu, ó meiga mesta,

Bendito seja o ventre em que me acoite.
Maria, Mãe das flores, vem qual Vesta,
Maria, Mãe dos astros e da Noite.

AMOR MAGISTER EST OPTIMUS

terça-feira, 14 de julho de 2015

Soneto inspirado no poeta Bocage

PAULO BRITO E ABREU











SONETO INSPIRADO NO POETA BOCAGE

( avoco, para a Musa minha, o Ás de Paus como Arcano )

aos meus Amigos da Academia Carioca de Letras
à memória de Jacob Levy Moreno
à Hermética Irmandade dos Amigos da Luz

Ó Musa, que me levas, já cansado,
Arrastando os farrapos, e banido,
Agora, já por zoilos maltratado,
Agora, por cruéis avorrecido......

Com minh'Alma chagada no valado,
Eu choro, e tu comigo, embravecido,
Tu que em cânticos jovens eras Fado,
Tu que arfavas e rias sendo f'rido.

Toma a lágrima, o canto, a solidão,
Toma a lama, as aspérrimas correntes.
Por que dás, por que dás a mim, canção,

As Musas clamorosas e ardentes?
«Verdes são campos da cor do limão.»
E a Nela? E os outros? E as gentes?

AD AUGUSTA PER ANGUSTA

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Os amigos de Alex



FERNANDO MORAIS GOMES
 
Eram os trinta anos da greve académica, mais gordos e burgueses, encontraram-se na Trindade para um bife e recordar os dias frenéticos  da Faculdade. O tempo separara-os, hoje juristas de sucesso ou políticos do centrão.

Nos fins de setenta, Direito era território maoísta, iconográficos, os retratos de Ribeiro Santos e Maximino de Sousa pontificavam no átrio da escola. Durante a greve académica pregara-se a revolução na rádio universitária e em zelosos piquetes, e Alexandre, o da voz grave, entre jingles anunciava a gloriosa luta dos estudantes, e lançava setas aos professores, achincalhando a obesidade da Magalhães Colaço ou as épicas tiradas do Soares Martinez. Sem graça, meteu-se uma vez com Sousa Franco, crismando-o de inteligente, por tudo lhe entrar por um ouvido mas não sair pelo outro, assim gozando com a sua deficiência na orelha. A Glória, agora procuradora em Aveiro, era a mais acirrada, quebrando vitrinas com um pé de cabra, várias vezes foi detida por vandalismo, mas logo cúmplices comunicados desmascaravam o abuso fascista. O Heitor, hoje deputado, depois da passagem como vereador de uma Câmara, via no jantar a oportunidade de mostrar que até fora irreverente em tempos. Romântico aos vinte, sim, mas calculista aos quarenta. Do grupo, só Rafael enveredara pelos jornais, onde andava a investigar a vida dum político, por sinal do partido de Heitor.

Tinham sido tempos gloriosos. Comunicados policopiados, pichagem de paredes, revolucionários “copos” no Jamaica, para tudo acabar no Cacau da Ribeira, após a tomada da Aula Magna. Glorinha  mantinha a beleza de outrora, todo  o 5º ano a disputava nessa altura, Passionária do Campo Grande, com uma voz de arrepiar, muitas vezes haviam reunido cantando os hits do momento, sonhando amanhãs, e organizando protestos. Em 1979 o socialismo caminhava já para a gaveta, e os avós da troika já cá estavam, mas era quente a luta, e com muita garra. Uma alegria utópica os unira, e essa recordação sobrevivia ainda.

Por esses dias correram Lisboa no Audi do pai do Heitor, chamando à luta, reunindo no Técnico, em Económicas e em Letras, sempre bem servido de moças com bom aspecto, e durante dias fumos negros nos braços e faixas nas paredes decretaram luto pelo ensino. Ao lembrar a cena, Rafael comentou como irónico parecia hoje ser o então “exorbitante” preço das propinas, comparado com os dias de hoje, mais elitistas, apesar do ruído com a defesa da escola pública.

No jantar da Trindade, abatidas muitas canecas, revisitaram esse passado, onde coexistiam Zeca, Pablo Neruda ou os Fisher-Z, perdidos nos esconsos das garagens onde após lânguidos slows se prometeram amores eternos e o Shangri-La socialista. Após o jantar, como nos velhos tempos, voltaram ao Jamaica, depois de um copo no Hot Club, onde Rafael apanhara a primeira cardina, chamando depois princesa a uma desdentada vinda do Fontória. O passado era marcado pelos bares: primeiro o Archote, o Whispers, o Bolero, depois o Jamaica, o Bora-Bora, o Charlie Brown, mais burgueses o Ad Lib ou os Stones, atrevidos  a Cova da Onça e o Pipodrom junto ao Coliseu, onde com uma moeda de vinte cinco escudos se via  a Olga de Jurídicas a fazer streap-tease para pagar os estudos. Todos os rapazes da turma lá foram, esbugalhando os olhos ante a visão celeste do corpo alvo da hoje ilustre advogada. No final da noite, à porta do Jamaica e abraçados, celebraram esse passado, já várias vezes rebobinado.

Os anos passaram, a seu modo haviam respondido à chamada do seu tempo, de sangue na guelra para as causas generosas, razoavelmente exigindo os impossíveis, só salvando o mundo se poderiam salvar. Salvara-se a memória, o orgulho de ter tentado e a certeza de jamais ter desistido. Deambulando a pé até à Baixa, no Rossio, um grupo de jovens dormia, com cartazes de apoio à Grécia. Junto ao Nicola, os veteranos da greve académica miraram os ingénuos actores das novas utopias. Atrás de tempo, tempo vem, trinta anos tinham passado, e valera a pena. Hoje como sempre, o tempo ainda é feito de mudança.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Bon Sauvage

PAULO BRITO E ABREU












BON SAUVAGE

( convoco, para Angola, o Arcano do Sol )

Era nino, criança, e tu também,
Barbado macaquinho de Luanda,
Tinhas pêlos no queixo, e tua Mãe
Te dava, maviosa, Amor e manga.

Contigo eu aprendi o parabém.
Que de mel!!! Que de soca na locanda!!!
Macaquinho bebé faz o tem-tem
Quando eu lembro, a banana ser a branda.

Eu quero relembrar minhas primícias,
A ti, sempre ao meu lado nas florestas.
Sem palmadas, Amigo, e sem sevícias,

Apenas com ginástica nas ervas,
Pois graças, chico meu, morram polícias:
Virá de novo o reino das giestas.

IN HERBIS ET IN VERBIS

terça-feira, 26 de maio de 2015

O cofre

FERNANDO MORAIS GOMES

Passava das duas e meia da manhã quando Luís e Pedro saíram do Legendary, o bar junto à Câmara onde habitualmente se detinham a beber longas horas. Em frente, o torreão do edifício de Adães Bermudes vigiava um sonolento vigilante dormitava no átrio.
Respirando o ar quente dum inesperado outono, cálido e atípico, começaram a andar na direcção do edifício, a construção era elegante, construída em cima do cemitério de S. Sebastião, dizia-se, alguns asseveravam mesmo ouvir os mortos uivando em noites luarentas, em protesto pelo desaforo de erigir em cima de um local sagrado.
Segundo o velho Porfírio, fiscal reformado, a morar não longe do Legendary, nos anos trinta o filho de um Presidente da Câmara fora surpreendido pela noiva com uma amante no primeiro andar do torreão, e com uma faca de cozinha terá posto termo à vida de ambos. Só que nunca os corpos foram encontrados, tudo não passando de coisas do feitiço de Sintra, como, incrédulo, afirmava o Luís, pouco dado a histórias de fantasmas, não obstante durante o dia as impingisse aos turistas, entre flashes e selfies com o telemóvel. O calor da noite e os vapores do álcool levaram-nos a afoitar-se junto ao torreão, onde uma luz trémula parecia brilhar no primeiro andar, hoje ocupado por serviços, o Pedro sabia haver nessa sala um cofre onde em tempos se guardavam as receitas da Câmara, mas que há muito não era aberto, nem se sabia quem tivesse a chave.
Temerários, e movidos pela bebida, propuseram-se escalar o torreão, ante o olhar circunspecto dum gato que deambulava perto da Tasca do Manel. O vigilante dormia, quem sabe o tal cofre contivesse ainda algumas notas esquecidas, ou documentos de interesse sobre a história de Sintra, tão do agrado do Pedro.
Curiosamente, a luz trémula e fraca parecia aumentar de intensidade ao aproximar do edifício. Na ânsia de subir pela parede, Luís aleijou o nariz pontiagudo, ficando a sangrar um pouco. Alcandorando-se à janela, de fora tudo parecia normal, sem sinal de candeeiro ou candelabro, mas, curiosamente, o cofre estava entreaberto, não deixando contudo ver o interior.
Entraram. A sala era uma ampla divisão, com um pé direito grande e arejado, sobre as secretárias silenciosas dos funcionários que ali trabalhavam, papéis e fotos de Sintra espalhavam-se numa mesa. Ao longe, à porta do Legendary os últimos copos eram sorvidos por tipos cambaleantes, o Rui, professor de desenho, gesticulava e ensaiava poemas a Sintra, entre dois goles e abraços a um amigo a quem tratava no plural. 
Luís foi atraído pelo cofre cinzento e entreaberto,quem sabe um mini bar retemperador.Sobre uma secretária, Pedro deu de caras com um recorte de jornal dos anos trinta, relatando o desaparecimento do filho do então presidente e duma moça da Vila, até hoje ainda envolto em mistério. O Faias e o Parracho já tinham abordado o assunto nos jornais, mas sem conclusões palpáveis.
Curioso, Luís  aproximou-se do cofre com a porta encostada, e antes que lhe tocasse, uma mão esquálida vinda do interior agarrou-o pelo pescoço, logo desaparecendo com ele para dentro do cofre. Em pânico, Pedro reconheceu o rosto macilento do filho do antigo presidente, igual ao que o jornal na secretária retratava, desaparecendo com o atarantado Luís.
Precipitando-se para o cofre, donde exalava um  cheiro  nauseabundo a enxofre, ainda mal descortinava o buraco fundo por onde Luís e o vulto haviam desaparecido, quando uma mulher vestida de branco, lhe piscou o olho, surgida não se sabe de onde, logo o empurrando para o interior, e entrando atrás, fechando o cofre por dentro, e levando-o para uma cripta nos fundos do torreão, onde os mortos de S. Sebastião se deleitavam num festim, e Luís, com os olhos baços, se divertia, bebendo cidra com um esqueleto de mulher. Também Pedro, atónito, sentiu o corpo a transformar-se, os tecidos a encolher e a pele a ficar roxa. Olhou nos olhos a mulher que o agarrara, e identificou a amante do filho do presidente, ambos desaparecidos no torreão setenta anos antes e de cujo paradeiro ninguém mais ouvira. Foi a sua última visão, antes de definitivamente ficar cataléptico e dormente.
Na sala do cofre, de novo fechado, nada deixou antever a presença dos dois amigos, apenas a janela entreaberta que Diana, uma funcionária, na manhã seguinte atribuiu a esquecimento da empregada da limpeza. No Legendary, Joana, neta da noiva do filho do presidente, que entretanto casou com um industrial de Montelavar, sorria, enigmática, aviando as últimas cervejas e olhando para o torreão, de novo sepulcral e às escuras.
Ninguém mais voltou a ver os dois amigos, constando-se mais tarde que terão partido para um Erasmus em Barcelona, sem se despedir de ninguém. Coisas de Sintra...

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Coração Repeso

PAULO BRITO E ABREU













CORAÇÃO REPESO

( avoco, para a Musa minha, o Arcano, o Arcaico do Mundo )

«Erros meus, má fortuna, Amor ardente»
Foram mágoa na minha perdição.
Foram tantos os danos, fatalmente,
Que a deia d' amar foi desolação.

Tudo passei, mas vendo, incontinente,
Que a amada era a serpente e o dragão,
As mãos da láctea Virgem vi somente,
Rojei meu róseo corpo sobre o chão.

Ó fundas atracções do meu abismo,
Falácias, que sois filhas do engano;
Flanais no meu caminho d' egotismo,

Conceito variais camoniano,
Que não pode cantar, com aticismo,
Um peito, amargurado, e mariano.

Lisboa, 03/ 06/ 1997

IGNE NATURA RENOVATUR INTEGRA