RUI OLIVEIRA
Temos para nós que História é a mais humana das
Ciências da Humanidade. A plenitude desta afirmação atinge-se quando a
História Local se focaliza no indivíduo, com todas as suas grandezas e
misérias, com todas as prerrogativas de ser, simplesmente, um vizinho de
entre muitos outros.
O presente artigo debruça-se sobre um “vizinho”,
nascido e criado no vetusto Centro Histórico da Vila de Belas, nos
meados do século XVIII (1746). Personalidade que se mantém no anonimato
dos portugueses em geral e, em particular dos moradores da Vila de
Belas, apesar de a autarquia local lhe ter atribuído, a alguns anos, uma
placa toponímica de uma rua na freguesia.
Como muitos outros portugueses, que desde sempre,
rumaram a outras paragens em busca das suas legítimas aspirações
pessoais, Manuel José de Herigoyem triunfou como arquitecto surgindo
como figura cimeira da arquitectura meridional alemã (REIDEL, 1982). O
seu contributo e talento, está ao nível dos grandes arquitectos europeus
que, como todos sabemos, circulavam um pouco por toda a Europa
setecentista. Ontem como hoje, a mobilidade, a troca de saberes e
experiências foi crucial para o desenvolvimento do então jovem
arquitecto. Tal caldeamento do “saber fazer” tem início em Portugal,
concretamente em Lisboa. Encetamos então a viagem, sedutora, de descoberta da vida e obra deste notável vizinho e conterrâneo.
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| Registo de Baptismo de Manuel José de Herigoyem (I.A.N.T.T. Freguesia de Belas, conc. de Sintra, Livro 4-B, p. 61) |
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O primeiro passo, é o seu registo de
Baptismo exarado pelo punho de um outro nosso conhecido, o Prior da
Igreja da Misericórdia de Belas, João Crysóstomo, refere o assentamento
que: «Aos quatro dias de Novembro do anno de mil setecentos e quarenta e
seis baptizei e pus os Santos Óleos a Manoel f.º [filho] de Martinho
Hirigo[y]en e de sua mº [mulher] Ana Margarida Floricin moradores nesta
villa [de] Belas e recebidos nesta Igr.ª [Igreja] foi padrinho o
sereníssimo Sr.º [Senhor] Infante D. Manoel de que fiz este assento. O
Prior João Crysóstomo» (1). Já depois da sua
assinatura, o Prior de Belas, faz rectificação do nome da mãe de Manuel:
«Declaro que o nome da may [mãe] do baptizado hé Anna Margarida
Floricin». Fecha a rectificação com a sua rubrica.
Neste documento existe um
dado importante a reter,reporta-se aos pais do nosso Manuel José
Herigoyem, ambos são estrangeiros, o pai é basco, de Baiona, a mãe
austríaca, de Viena, radicados em Portugal, com benfeitoria e protecção
ao nível da Casa Real Portuguesa, materializado no apadrinhamento da
criança pelo Infante D. Manuel, filho de D, Pedro II e irmão de D. João
V. Seguindo ainda as pisadas de Hermann Reidel, Martinho Herigoyem foi
vagomestre do Infante D. Manuel, isto é: mestre dos carros ou de
transportes e equipagem do exercito (2). Alguém importante na gestão de
transportes e da sua sustentabilidade, nomeadamente, no contingente de
cavalos. Ora desta importância deriva, afinal, a protecção régia,
materializada no convívio com o Infante D. Manuel e de benesses junto da
nobreza mais próxima da Casa Real. Nestes nobres se incluíam então os
Castelo-Branco, Condes de Pombeiro e Senhores de Belas.
É precisamente D. Luís de Castelo Branco Correia e
Cunha, décimo sexto Senhor de Belas, quarto Conde de Pombeiro, Capitão
da Guarda-Real dos Arqueiros, casado com D. Pelágia Teresa Agostinho de
Almada, Dama de Honor da Rainha Maria Ana Victória da Áustria, esposa de
D. João V, que rectifica o aforamento efectuado a vinte cinco de
Novembro de 1745, pelo seu feitor Pedro Lons, a Martinho Herigoyen
Castanheiro, de: «um pedaço de chão e baldio junto ao curral do concelho
para fazer nele umas casas com seu logradouro» (3). A área aforada
proporcionava uma pequena quinta, dentro de uma outra denominada de
Quintinha, por oposição à Quinta Grande de Belas. Pagava, mesmo para a
época, um foro irrisório de doze galinhas por ano.
Retomando a narrativa do que foi a formação do jovem
Manuel José Herigoyem, sabemos, porque ele assim refere na sua
autobiografia, que frequentou o Real Colégio das Necessidades até aos
inícios de 1762. Este, Colégio a cargo da Congregação do Oratório, teve o
seu início em modestas instalações, primeiro na fanga (praça) da
Farinha, posteriormente, em 1674, para o Convento do Espírito Santo, na
freguesia de Santos-o-Velho e daqui se mudaram, a 6 de Maio de 1750,
para a Casa das Necessidades, mandada construir por D. João V (PORTUGAL e
MATOS, 1974: 390).
Os Oratorianos na época exerciam, no ponto de vista
pedagógico, uma certa oposição aos Colégios Jesuítas. Fortemente apoiado
pelo monarca, este Real Colégio das Necessidades era um local em que a
Física Experimental tinha grandes entusiastas e o maior vulto da época
neste campo, o padre Teodoro de Almeida (CARVALHO, 2001:399-402). Os
Oratorianos representavam e divulgavam a nova corrente do saber: o
Iluminismo.
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| Herigoyen uniformizado |
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Após o Terramoto de 1755 e sequente
reconstrução de cidade de Lisboa, Manuel José Herigoyen tem aulas de
Desenho, Pintura e Arquitectura, com Giovanni Antinori, que a partir de
1755 tem o cargo de Arquitecto Régio (LAVANGINO, 1940:137). Nessa época,
Lisboa era um imenso estaleiro, local em que a teorização e a
concretização tinham o mesmo espaço de acção.
Serviu na Marinha Real, com vinte anos de idade, nas
viagens de serviço teve a oportunidade de constatar outras realidades
sociais. Esteve na Madeira, Porto Santo, Ilhas Canárias, Brasil,
Gibraltar, Açores, Cabo Verde e costa guineense. O prelúdio da sua vida
de emigrante.
Aos 24 anos e depois da Morte de seu padrinho de
baptismo, o Infante de Manuel, ocorrida em 1766, abandona a Marinha e
parte para o estrangeiro. Inicialmente, segundo cremos, na companhia de
ambos os pais ou mesmo só de seu pai, fixa-se em Baiona, em curta
estadia, na casa de familiares do lado paterno. Daí rumou a Paris e na
École des Ponts et Chaussées (Escola de Pontes e Estradas), entre 1767 e
1769, o jovem Herigoyen completa a sua formação e obtém o grau de
engenheiro. O término da sua formação técnica é agora a linha de partida
para uma vida de trabalho competente.
Inicialmente integra a complexa teia de funcionários
da Corte Imperial Austríaca, onde não era desconhecido de todo em todo,
dado que um seu tio, materno, ocupar nessa altura o posto de
primeiro-tenente engenheiro. Posteriormente, é contratado pelo conde
alemão Wilhelm de Sickingen para seu arquitecto privado. A sua área de
acção é o Condado de Landstuhl – Renânia Palatinado.
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| Ratisbona.
Monumento a Kepler. À esquerda Herigoyen, ao centro o Conde Gaspar de
Sternberg e à direita o padre Plácido Henrique. Gravura de Joham
Bitchell de 1808 |
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Com base na sua experiência e
capacidade de liderança, Herigoyen foi nomeado primeiro-tenente do Corpo
de Engenheiros do Principado da Mogúncia, no ano 1778. Como militar,
Engenheiro e Arquitecto, planeia e dirige construções de edifícios
públicos, religiosos e aulicos; procede a levantamentos cadastrais e
cartográficos. Mas, não só! Segundo Reidel, o nosso Manuel José
Herigoyen, então com 38 anos, aventurou-se na Física Experimental,
quando na Abadia de Altmuenster, na Mogúncia, projectou e construiu um
aeróstato (balão de ar quente) que se incendiou, ainda, no chão, corria o
ano de 1784. As aulas dos Oratorianos e a saga de Bartolomeu Gusmão,
mantiveram-se presentes no espírito arguto do engenheiro.
A pujança artística da obra de Herigoyen, que
abrangem um período de cinquenta anos aproximadamente, para além de
revelar uma personalidade versátil, intuitiva e fortemente alicerçada no
conhecimento do melhor que se fazia e construía na Europa, denota a
forte mutação de estilos e de gostos ocorridos durante os finais do
século XVIII e os princípios do século XIX. Iniciada sob as influências
ressonantes do Rococó austríaco, prosseguiram sob a influência francesa,
bem patente nas suas obras na Mogúncia; ou em associações de elementos
palacianos ingleses com decorações ao estilo Império bem exemplificado
nos edifícios de Rastibona; para, em Munique, atingirem os primeiros
alvores do Historicismo.
Assumidamente cosmopolita, fiel a princípios
caracterizados pela modéstia discreta e altruísta, Manuel José Herigoyen
faz parte de uma plêiade de Homens e Mulheres para quem um mundo (ou a
globalidade se o entenderem como tal) é o seu palco e a Humanidade o seu
público. Pelo menos é o que nos deixa transparecer quando escreveu, em
1816, a sua autobiografia «… que o destino deixou-o nascer em Portugal e
a Honra o conservou para falecer, depois de tantas experiências e
muitas andanças, ao serviço de Sua Majestade o Rei da Baviera» (ARENS,
1970, 118).
Rui Oliveira (*)
(*) Investigador de História Local, Coordenador D.I.A. da Associação Verde foi Meu Nascimento
Email: ruy.oliveira@sapo.pt
Blogue: http://olimposintrense.blogspot.com/
Site: http://www.radioocidente.pt/
Belas, Dezembro 2010
Notas:
1 - Optamos neste texto, em concreto, por uma lição
paleográfica livre. Ainda, assim, desdobramos as abreviaturas que, como
as palavras ou letras omitidas por descuido do escrevente, foram
colocadas entre colchetes direitos.
2 - A raiz etimológica desta palavra composta é alemã: Wagenmeister; no francês Vaguemestre.
3 – Cartório Notarial de Belas – A, 1.º Oficio,
Livro 61, fol.60-64. O documento integra a tese de Doutoramento do
Mestre Arquitecto Rui Rodrigues, que tivemos o privilégio de acompanhar
na sua totalidade, e a quem agradecemos a disponibilidade e cedência do
documento.
Bibliografia:
ARENS, Fritz, 1970 «Der Weihergarten in Mainz. Das
Werk des Kurmainzischen Architekten Herigoyen» in Mainzer Zeitschrift,
65, pg. 118.
CARVALHO, Rómulo de, 2001 «História do ensino em
Portugal». Ed. Fundação Caloustes Gulbenkian, S.E. e Bolsas, Lisboa, III
edição, pg. 399- 402.
LAVAGINO, Emílio, 1940 «Gli Artisti Italiani in Portogallo», Roma, p. 137.
PORTUGAL, Fernando, MATOS, Alfredo de, 1974 «Lisboa em 1755 - Memórias Paroquiais de Lisboa». Ed. C. M. de Lisboa, pg. 390.
REIDEL, Hermann, 1982 «Emanuel joseph von Herigoyen.
Koeniglich Bayerischer Oberbaukomissar. 1746-1817» Schnell &
Stainer, Munique/Zurique. Utilizamos a tradução de Virgolino Jorge,
incerta no Boletim Cultural da A. Distrital de Lisboa, III série – n.º
88 - 1.º Tomo (Separata)