quinta-feira, 20 de junho de 2013

O renovado solstício

FERNANDO MORAIS GOMES

Litha chegou a 21 de Junho, o primeiro do verão, no antigo contar dos dias e um dos oito sabaths. Alexandre, no jardim da velha casa mirou as flores já pujantes, era o momento em que o confortante Sol chegaria ao zénite e o mundo das flores, folhagens e pastagens se encontraria, florido e verde. Retido em Sintra, este ano não iria a Stonehenge, lá, eterno, o círculo de pedra continuaria alinhado com o nascer do Sol. Tudo estava escrito, explicou à filha, a pequena Débora: após a união da Deusa em Beltane, o deus adulto viraria pai dos grãos e traria o verão e a fertilidade. E sendo esse o seu auge, também anunciaria o seu declínio após a sua função fertilizadora, utilizando o Barco da Morte para serenamente morrer em Samhain. Seria então a partida do Deus do Carvalho e a chegada do Deus do Azevinho, que duraria até ao branco e frio Yule.

Muitos verões Alexandre partilhara esse festim, também Débora, fruto do seu enlace com Ana, nascera num solstício de amor e dádiva. Ana partira, precoce a Barca da Morte colhera-a aos trinta, agora, com Débora e mais Irmãos da Floresta na clareira da Peninha, esperaria o Solstício, vigilante e agradecido. Depois do trabalho, pegou em Débora e com a Letícia, o Álvaro e a Mila partiram para a serra. Druida incógnito na selva urbana, Alexandre colheria cura para enfermidades, no balsâmico visco e no fértil basílico preservaria a energia nos tempos frios, em encantamentos e sortilégios.

Chegaram pela tarde, muitos lembrariam a data, em Stonehenge ou no Alvão, anónimos irmãos da Floresta reuniriam. Na Serra Sagrada, junto ao lago, aprontaram os preparativos para um banho purificador, em noite de Litha, acreditavam, tudo aquilo que fosse sonhado, desejado, ou pedido, tornar-se-ia realidade. Ana não viria esse ano, era certo, mas a crença em dias melhores e o futuro de Débora, eram suficientes para um redobrado fervor de Alexandre, o maluquinho das ervas, como colegas do banco o tratavam, a Susana do departamento de crédito, de olho nele, batizara-o carinhosamente de Panoramix. Como os povos antigos, acreditavam que, nessa noite criaturas mágicas correriam pelos campos e florestas, podendo facilmente ser vistos. Iniciando o ritual, queimaram os amuletos do ano anterior e novos talismãs, poções e filtros foram feitos, em momento de confraternização. Alexandre e Álvaro prepararam uma fogueira, a grande fogueira de Beltane, por cima dela mais tarde todos pulariam para afastar a negatividade, qual S. João, sem sardinha nem alho-porro. No final desse dia maior, a Grande Roda Solar do Ano alteraria o seu curso, e de novo os dias voltariam a encurtar, cíclicos e promissores, dando lugar ao azevinho-rei. Uma mesa foi improvisada na clareira: vegetais, frutas, pão de centeio integral, cerveja e hidromel seriam o cobiçado banquete. Fragrâncias foram libertas pelo ar já perfumado do eucalipto e dezenas de velas coloridas adornaram o altar de oferendas: camomila, sabugueiro, cânhamo, lavanda, glicínia ou verbena. Tudo preparado, Alexandre agarrou a mão de Débora, já com uma coroa de trigo na cabeça, e foram recolher pedras para formar um círculo com três metros de diâmetro e iniciar a cerimónia. Com uma vara de madeira, Alexandre traçou uma estrela de cinco pontas dentro dum círculo de pedras, enquanto os outros acendiam velas verdes, colocando uma em cada ponta do pentagrama, começando pelo leste. Colocada uma pedra grande e achatada ao centro, voltada para norte, como um altar, e sobre ela uma estátua da deusa, e de cada lado dela acenderam uma vela branca, e no ponto cardeal correspondente ao Ar, um sino de latão, consagrado, e um incensório com mirra.
No ponto correspondente à Água, um cálice de vinho, um prato com sal e uma tigela com água da chuva. Enquanto na Cidade Grande, apressados humanos corriam para casa, findo um dia de trabalho, na Floresta Límpida, um punhado de sábios do Mundo Oculto celebrava o Novo Ciclo, abrigados na serra testemunha de muitas lithas e yules e ciosa de segredos milenares. Abençoando o vinho, depois de coberto o cálice com as mãos, Alexandre consagrou-o à Deusa e salpicou um pouco de sal e água sobre o sino de latão, a abençoá-lo. Aceso o olíbano e a mirra, levantando os braços para o céu, fechou os olhos e deixou que pensamentos e visões agradáveis lhe invadissem a mente, a pequena Débora, de olhos igualmente cerrados, sorria, lembrando a Mãe, na sua primeira Lithia, e todos em silêncio repetiram o ritual, tombava já uma última réstia de sol dos lados do mar. Colocado o sino no altar de pedra e levados os cálices com vinho aos lábios, beberam e derramaram o resto no centro do pentagrama, em devoção à Deusa. Depois, colocado o cálice vazio no altar, tocaram o sino três vezes, e ajoelhando, ofereceram incenso e continuaram o banquete cantando músicas mágicas. Estava celebrado o Solstício, pujante podia vir agora o Verão, a invadir os ares e os campos.
No dia seguinte, Débora iria até à praia, com os colegas do infantário. Ainda inebriado da véspera, no banco, Alexandre acolheu com um sorriso cúmplice o Sol que benigno lhe entrou pelo gabinete. Talvez a Susana do crédito quisesse almoçar com ele e partilhar uma salada com o Panoramix das cobranças, os faunos na Serra apreciariam, contentes. Esperançoso, ligou-lhe, talvez o próximo solstício tivesse mais uma participante.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

O que é o Fundo Monetário Internacional?

JOÃO AFONSO AGUIAR 
 



A elaboração deste artigo visa contribuir, modestamente, para a compreensão dos meios e dos fins que consubstanciam a acção do FMI, enquanto instituição financeira mundial que emergiu no pós-guerra como pilar de uma nova ordem monetária que deveria contribuir para a paz e prosperidade global. Sendo esta instituição uma presença assídua nos meios de comunicação social sempre com a aura de misticismo de uns senhores, de fato escuro e com ar conhecedor dos assuntos económicos, que aparecem de três em três meses para se certificarem do nosso cumprimento do pacto que nos retirou a soberania, espero ajudar a divulgar a verdade sobre a sua organização e fins, onde saltam as incoerências e as imperfeições daqueles que se julgam possuidores de uma fórmula mágica para a resolução dos problemas financeiros nacionais.
Faremos então uma breve apresentação institucional, à qual se seguem os objectivos, as funções e a discussão sobre a reforma do Fundo. 
O FMI é  dotado de personalidade jurídica e tem hoje o estatuto de instituição especializada das Nações Unidas. Iniciou a sua actividade em 1 de Março de 1947, com 39 membros originários12, e é actualmente composto por 188 membros desde a entrada do pequeno Estado polinésio de Tuvalu em 24 de Junho de 20103 A cada membro é atribuída uma quota, no caso dos membros originários é definida no Anexo A dos estatutos do FMI e no caso dos outros membros é definida pela Assembleia dos Governadores e revista quinquenalmente.
A fixação da quota4 deveria ter por base critérios económicos, todavia têm sido igualmente adoptados critérios políticos de gestão das relações internacionais. Um critério que não é de todo estranho se considerarmos que é através da quota que cada membro estabelece o seu poder dentro do FMI, pois a cada membro são atribuídos 250 votos acrescidos de um voto por cada 100 mil direitos de saque especiais.A importância da quota aumenta nos momentos das decisões mais importantes, que exigem 85% dos votos, e países como os EUA, detentores da maior quota no FMI (17,14%), ou o conjunto dos Estados-membros da União Europeia, acabam por possuir um poder de veto nessas matérias.O cálculo do valor da quota é um processo complexo, existindo cinco fórmulas de cálculo, que ponderam o PIB do Estado, as suas reservas internacionais (em ouro, dólares, DES, euros e as posições de reserva do FMI) e o conjunto das receitas e dos pagamentos correntes. Além destes critérios económicos, são ponderados o potencial do país para contribuir para os recursos do FMI, as eventuais necessidades de financiamento e o impacto das suas políticas económico – financeiras na economia internacional.Este processo de definição da quota dos membros do FMI tem sido objecto de críticas que indicam um favorecimento dos EUA em detrimento de outras potências económicas5.Devido à sua natureza de organização internacional de cariz intergovernamental, os membros do FMI têm o direito de sair da organização (Artigo XXVI, secção 1) ou, se deixarem de cumprir com as obrigações do acordo, têm a possibilidade de serem expulsos (Artigo XXVI, secção 2).

 Os objectivos e as funções do FMI.

O FMI é  o resultado da conferência de Bretton Woods e a sua concepção teve origem no Plano Whyte. Deste modo, ele reflecte uma certa visão ideológica e política das nações vencedores da II Guerra Mundial que visavam estabelecer uma ordem económica liberal e impedir o regresso das práticas monetárias anteriores à guerra.
Em resultado dos seus fins, o fundo assume três perspectivas distintas7:
  1. A disciplina da actuação dos Estados através de um Código de boa conduta das políticas monetárias;
  2. A de instituição financeira que assegura a liquidez necessária para os países enfrentarem os problemas com as suas balanças de pagamentos;
  3. A de organização internacional com competências para decidir e praticar actos de gestão.
Quanto aos seus objectivos começamos por esclarecer que estes são distintos dos do Banco Mundial, pois não há uma preocupação directa com o desenvolvimento económico. O FMI foi essencialmente concebido para resolver os problemas emergentes das balanças de pagamentos e não se preocupa em primeiro plano com os problemas estruturais da economia como o Banco Mundial.Daqui decorre uma das críticas normalmente apontadas ao fundo de que este é contrário ao desenvolvimento, porém, os seus defensores, perante esta crítica, tendem a afirmar que o FMI não é uma organização de desenvolvimento, logo esta não teria de ser a sua principal preocupação, e que sem o equilíbrio da balança de pagamentos não é possível o desenvolvimento económico8. Independentemente da polémica, se apenas é possível desenvolvimento económico com uma balança de pagamentos equilibrada ou se apenas é possível uma balança de pagamentos equilibrada com desenvolvimento económico, os objectivos do FMI são marcados pela lógica do equilíbrio financeiro, pela separação entre os seus objectivos e os objectivos do Banco Mundial e têm-se mantido praticamente os mesmos desde a sua fundação devido às dificuldades de estabelecer um compromisso político para a sua alteração.Os objectivos do FMI estão consagrados no Artigo I dos estatutos, os quais passamos a enunciar:
  1. Promover a cooperação monetária internacional;
  2. Facilitar a expansão e o crescimento equilibrado do comércio internacional;
  3. Promover a estabilidade dos câmbios;
  4. Contribuir para a instituição de um sistema multilateral de pagamentos e para a eliminação das restrições cambiais;
  5. Incutir confiança aos membros, pondo temporariamente à sua disposição os recursos do Fundo, mediante garantias adequadas;
  6. Encurtar a duração e reduzir o grau de desequilíbrio das balanças de pagamentos internacionais dos membros.
Termina o artigo a referir que em todas as suas políticas e decisões, o Fundo orientar-se-á pelos objectivos consignados no presente artigo.   
Deste conjunto de objectivos decorrem três funções fundamentais9 10: a regulação das relações financeiras entre os membros; a assistência financeira aos Estados em dificuldades; a de órgão consultivo.A função de regulação das relações financeiras alterou-se substancialmente desde a segunda emenda aos estatutos do FMI e com o consequente colapso do sistema definido em Bretton Woods, desde então que se menciona uma função de vigilância em vez de regulação. Está consagrada no Artigo IV, secção 3 dos estatutos, e estatui a realização de consultas regulares aos países membros e o exame periódico da evolução das taxas de câmbio. As consultas regulares decorrem tanto das visitas e recolha de informação pelo FMI, como do dever de prestação de informação pelos países (Artigo VIII, secção 5), e no final é elaborado um relatório que será analisado pelo Directório Executivo.
A função de assistência financeira é a mais complexa e a mais significativa desde a criação dos DSE.
Existe uma vasta e complexa estrutura de formas de intervenção que sinteticamente podem ser dividas em11:
    1. Meios financeiros que provêem de recursos próprios ou de recursos provenientes de empréstimos, podendo estes ser bilaterais ou multilaterais.
    2. E assistência financeira onde se enquadram:
      1. Mecanismos ou facilidades de vocação geral (tranches de reserva, tranches de crédito, acordos stand-by e um mecanismo alargado de crédito);
      1. Facilidades de vocação especial (desenvolvidos para as economias de certos países);
      2. Facilidades de apoio ao desenvolvimento (o mecanismo de facilidade de ajustamento estrutural e a facilidade para o crescimento e a redução da pobreza);
      3. Facilidades extraordinárias (facilidade de reserva suplementar e a linha de crédito contingente).
    1. Por fim, os DSE.
 A função de consulta é essencialmente exercida na preparação dos acordos a celebrar com os países ou pode ser solicitada pelos países no apoio a reformas dos seus sistemas financeiro e fiscal. Tem igualmente expressão na reflexão teórica desenvolvida e publicada pelo FMI sobre os desafios económicos e financeiros.
No entanto, esta função poderá colidir com o dever do FMI de abstenção de intervenção política, que decorre não directamente dos estatutos mas dos seus princípios e da salvaguarda da sua credibilidade, obrigando o fundo a um elevado rigor científico nas suas intervenções.

A reforma do FMI.

O tema da reforma do FMI tem estado especialmente presente desde a década de 1990, quando o fundo começou a disponibilizar ajuda a países num valor superior ao das suas quotas e não para a superar os problemas tradicionais com a sua balança de pagamentos mas problemas decorrentes da liberalização dos mercados financeiros12.
O FMI é uma organização essencialmente concebida para a resolução de problemas de curto prazo relacionados com a balança de pagamentos e para uma ordem monetária de câmbios estáveis à luz dos acordos de Bretton Woods.Ora, a ordem monetária do pós-guerra desapareceu dando início a uma era de câmbios flexíveis e com a globalização financeira da década de 1980 surgem novos desafios que ultrapassam o paradigma da balança de pagamentos. Todavia, o fundo manteve-se o mesmo sem reformas institucionais, apesar da sua reforma “invisível” ao privilegiar um modelo económico neo-liberal e assente numa economia da oferta em detrimento do seu paradigma inicial de uma economia da procura13.
Aliás, tem sido o modelo económico usado para o apoio aos países em dificuldade mas com resultados pouco consensuais e sujeitos a duras críticas tanto por economistas de prestígio internacional, como Paul Krugman ou Joseph Stiglitz, como por movimentos sociais anti-globalização14.Independentemente das críticas ao modelo económico desenvolvido, pois essa é uma discussão do fórum da ciência económica, a verdade é que o fundo é uma organização concebida para uma realidade que já não existe. Como poderá funcionar o FMI na nova ordem monetária internacional ou faz a sua existência sentido nesta nova realidade?As duas grandes linhas de reforma são as que apontam para a extinção ou redução das atribuições do fundo15 e as que desejam um reforço do envolvimento do fundo nas questões relacionadas com o desenvolvimento económico.Porém, a linha que parece ser mais consensual é a que deseja a continuação do FMI mas com uma profunda reforma institucional16. Esta reforma teria como vértices a instituição de um executivo forte em detrimento das reuniões informais das economias mais poderosas do mundo, a redução da burocracia interna, a legitimação do executivo com uma revisão profunda das quotas dos países membros e das maiorias necessárias para cada votação e a necessidade de reequilibrar os poderes dentro do fundo, onde oito Estados (EUA, Reino Unido, Japão, França, Alemanha, Arábia Saudita, Rússia e China) têm 48,15% dos votos contra 51,85% do resto do mundo.O maior bloqueio a esta reforma tem sido protagonizado pelos EUA que não deseja perder o poder que têm sobre o fundo, poder que utiliza para impedir qualquer resolução de reforma, fazendo uso do seu poder de veto nas votações que exigem 85% dos votos a favor.
Por último, a reforma do FMI não poderá ser feita isoladamente, terá sempre que ser concebida em conjunto com o Banco Mundial ou a Organização Mundial do Comercio. Em face dos novos desafios do mundo, talvez seja tempo de convocar uma nova conferência para estabelecer uma nova ordem monetária (e económica) internacional. 

1 Países que estiveram representados na conferência de Bretton Woods e que os governos aceitaram ser membros antes de 31 de Dezembro de 1945.
2 Os estatutos do FMI dividem expressamente os seus membros no Artigo II em “membros originários” e “outros membros”.
3 A consulta dos membros pode ser feita no sítio na Internet do FMI, http://www.imf.org/external/np/sec/memdir/memdate.htm
4 Sobre o processo de fixação da quota cf. MORAIS, Luís D. S. (Org.) – ob. cit. pág. 211 a 213.
5 cf. FERREIRA, Eduardo Paz – ob. cit. pág. 284.
6 No sítio da Internet http://www.imf.org/external/np/exr/facts/spa/list.aspx
7 cf. FERREIRA, Eduardo Paz – ob. cit. pág. 277.
8 cf. Ibidem.
9 cf. FERREIRA, Eduardo Paz – ob. cit. pág. 278
10 cf. MORAIS, Luís D. S. (Org.) – ob. cit. pág. 168 e seg.
11 Para uma análise no âmbito da ciência económica cf. MEDEIROS, Eduardo Raposo de – ob. cit. pág. 520 e seg.
12 Esta discussão iniciou-se nos EUA em resultado da crise mexicana de 1994-95. cf. FERREIRA, Eduardo Paz – ob. cit. pág. 289 e seg.
13 cf. KRUGMAN, Paul – O Regresso da Economia da Depressão e a Crise Actual.4ª ed. Lisboa: Editorial Presença, 2009. pág. 181 e seg.
14 As actuações muito criticadas do fundo são as intervenções na Ásia e na Rússia em 1997, no Brasil em 1998, na Argentina em 2001 e, mais recentemente, a impensável intervenção em países cuja moeda é o Euro – Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha?...
15 cf. STIGLITZ, Joseph E. – Globalização A Grande Desilusão. 3ª ed. ver. Lisboa: Terramar, 2004. pág. 290.
16 cf. FERREIRA, Eduardo Paz – ob. cit. pág. 295.

Santa Eufémea- Um poema de Jorge Telles de Menezes

JORGE TELLES DE MENEZES

Descobri Sintra no Inverno de 1974. Já narrei esse primeiro encontro fulminante em Novelos de Sintra. Fundeei primeiro em S. Pedro de Sintra, dez anos mais tarde, depois de muita navegação. Os poemas que aqui publico, em Sintra Deambulada, são inéditos, foram escritos na primeira fase do meu percurso pela geografia da montanha da Lua.  

SANTA EUFÉMEA



Não

perto do Cabo da Roca

nem

através da fantasia dos livros.

Senão em cima dum pequeno rochedo

ao fim da vereda

para Santa Eufémea



Vendo a Lisboa

ao Tejo

e às cores

do mar

atinjo eu

os confins

dos mundos meus

S. Pedro de Sintra, 1985

Poeta, tradutor, dramaturgo, cultor de spoken word. Sintra tem despertado no autor e do muito que por sua vez o poeta nascido no Porto tem dado à Sintra que (o) adoptou: o seu nome é, com efeito, parte obrigatória do roteiro cultural sintrense, quer pela sua ligação regular às produções da companhia de teatro Tapa Furos e apoio dado a iniciativas literárias de interesse para a cidade quer pela poesia que faz ecoar na serra que Lord Byron tanto amou. Cultivando um género de espectáculos onde confluem diversas disciplinas artísticas – desde a poesia recitada e a representação à música ouvida e às artes plásticas, o grupo, em associação com o Teatro Tapa Furos, promoveu um conjunto de sessões “pantónicas”, espectáculos semi-espontâneos, próximo das jam sessions do Jazz, fundamentados na aspiração ao sincretismo patenteado nas composições do músico alemão Arnold Schönberg. As “pantónicas” mudaram certamente para sempre a forma de se dizer e de se fazer arte em Sintra. Jorge Telles de Menezes fez ouvir a sua voz de diseur também em outros momentos mais informais, como os das tertúlias poéticas organizadas no antigo restaurante Casa da Avó, acontecimentos mais espontâneos mas decerto igualmente importantes para a vida cultural sintrense. À poesia e ao jornalismo literário – foi director interino do Jornal de Sintra, encontra-se ligado à criação de um novo jornal on-line, Selene Culturas de Sintra, e assina uma rubrica para a revista Nova Águia, intitulada “As Ideias Portuguesas de George Till” – junta-se uma prolifera actividade de tradutor . A obra literária publicada de Telles de Menezes enceta com uma edição bilingue de textos em prosa poética, Numa Cidade Estranha / In einer fremdem Stadt (Berlim, Edition Sonnenbarke, 1983, trad. dos poemas para alemão por Cornelia Fuchs) e passa, em 2003, por Selenographia in Cynthia (Lisboa, Hugin, 2003), um volume que congrega experimentações de uma voz poética surpreendente, tendo como pano de fundo as cenografias pré e pós-históricas da adoração à Sintra Lunar. Novelos de Sintra (Porto, Afrontamento, 2010) dá consistência à ideia de Sintra como lugar de utopia, destino de todos os poetas lunares.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Que música deve tocar a banda do Titanic?-por Renato Epifânio

RENATO EPIFÂNIO 
Mais uma greve, agora na Educação. Mas, de ambos os lados, o que se discute é a música que deve tocar a banda do Titanic. Como se isso impedisse o nosso afundamento colectivo…
Olhemos então, de frente, a realidade: por razões desde logo demográficas, há cada vez menos jovens no nosso sistema de ensino e cada vez mais pessoas qualificadas para ensinar. Logo, o desemprego dos professores só pode aumentar. Independentemente do contexto económico em que estamos e dos acordos com a Troika. Também aqui não há milagres.
O caso do desemprego, cada vez mais massivo, dos professores em Portugal é, de resto, um excelente exemplo da miopia estratégica dos nossos partidos e sindicatos. Pois o que há a fazer é óbvio e entra pelos olhos dentro, apesar de ninguém falar disso.
Existem vários países lusófonos que assumem, publicamente, a necessidade de professores qualificados para ensinar (e não apenas a língua portuguesa). O que o Governo deveria fazer era estabelecer protocolos com os Governos desses países de modo a corresponder a essa procura. Obviamente, haveria questões a discutir e a solução não poderia ser a mesma para todos os países: desde logo, na forma como esses professores seriam pagos.
No limite, porém, mesmo que alguns desses países (como, por exemplo, a Guiné-Bissau) não pudessem, de imediato, partilhar esses custos, ainda assim valeria a pena: esses professores teriam emprego e o futuro da língua portuguesa ficaria bem mais garantido. Seria pois um investimento a médio-longo prazo que interessaria a todos. E que teria, mais cedo ou mais tarde, retorno, inclusive no plano económico. É assim tão difícil percebê-lo?

Professor de Semiótica no IADE. Membro do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, da Direcção da Associação Agostinho da Silva e da NOVA ÁGUIA, Revista de Cultura para o Século XXI. Presidente do MIL- Movimento Internacional Lusófono.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Voo-artigo de Gonçalo Moleiro



GONÇALO MOLEIRO 
Imaginar a cidade vista de cima é voar. Desenhá-la é materializar o imaginário, desvendando os segredos de cada espaço que, simultaneamente, sobrevoo e construo no íntimo. Sobrevoar a cidade e desenhá-la é afastar-me do que me é familiar, fazendo desaparecer paredes, portas e janelas e trabalhando apenas com texturas que mancham telhados e pavimentos. A aproximação ao abstracto é evidente. As vias são artérias fortemente hierarquizadas que, bombeando veículos e pessoas, assumem um carácter vital no funcionamento da cidade e na composição criada. São elas os elementos transversais às diversas partes do desenho, estabelecendo ligações entre os inúmeros edifícios que nascem de um solo demasiado fértil. Há pouco espaço vazio. O betão sobrepõe-se à natureza nesta cidade imaginária e na folha em que a construo. O protagonismo de construções antigas é apagado por novas, autistas e cegas em relação ao que as envolve. O espaço público desaparece para que se levantem mais edifícios. Imagino, sem as desenhar, as pessoas encerradas em caixas a que, revelando simpatia, damos o nome de casas. A rua, estreita, não mais lhes pertence. Vista de cima é, aliás, praticamente inexistente.
Sintra está presente nesta composição. Não só a Vila mas toda a linha que, ao longo de uma enorme artéria, nos liga à capital. Tal como se verificou neste e em tantos outros territórios, a cor branca da folha deixou de existir aos poucos. O desenho reúne várias cidades numa só. O caos materializa-se em linhas e manchas que, uma vez mais, reflectem sentimentos e acontecimentos relativos à cidade e traduzem, caricaturando, o que nela existe de bom e de mau, num exercício simultâneo de elogio e crítica aos nossos tempos.




domingo, 16 de junho de 2013

Evocando Leal da Câmara- de Pangim à Rinchoa



ANTÓNIO LUÍS LOPES

Tomás Júlio Leal da Câmara nasceu em Pangim, Índia Portuguesa, no dia 30 de Novembro de 1876 e faleceu em 21 de Julho de 1948, aos 72 anos de idade, na Rinchoa (Freguesia de Rio de Mouro - Sintra).

Desde cedo se destacou como pintor e caricaturista mordaz, forma de expressão através da qual, enquanto Republicano de gema, combateu os excessos, misérias sociais e hipocrisia da Monarquia da época e da Igreja Católica que lhe dava suporte fundamental. Foi sem qualquer espécie de contemplação que Leal da Câmara deu expressão a esse combate, com participações em jornais da época como A Corja, A Sátira, O Diabo ou A Marselhesa.

Considerado “inimigo da Coroa”, viu-se forçado a exílio no estrangeiro (Espanha, a que se seguiu França e, finalmente, a Bélgica), o que veio alargar o seu reconhecimento internacional, nomeadamente pelas suas caricaturas no conhecido jornal L´Assiette au Beurre.

Foi grande amigo do poeta nicaraguano Ruben Dario (pseudónimo de Félix Rubén García Sarmiento), um dos “pais” do modernismo na literatura hispano-americana. Dario escreveu, entre outros, o famoso poema “A Roosevelt”, onde invectivava o Presidente norte-americano:



“Es con voz de la Biblia, o verso de Walt Whitman,
que habría que llegar hasta ti, Cazador!
Primitivo y moderno, sencillo y complicado,
con un algo de Washington y cuatro de Nemrod.
Eres los Estados Unidos,
eres el futuro invasor
de la América ingenua que tiene sangre indígena,
que aún reza a Jesucristo y aún habla en español.

Regressado a Portugal após a Revolução do 5 de Outubro de 1910, Leal da Câmara fixou-se no Porto, onde promoveu, entre outras, a célebre exposição do Grupo dos Fantasistas, no Palácio da Bolsa, em 1915. Enveredando pela carreira de professor a partir de 1919, dividiu-se entre o Porto e a capital enquanto docente de várias cadeiras de Desenho e Artes Decorativas.

Em 1930, com 54 anos de idade, Leal da Câmara foi residir para a Rinchoa (aliás, para o Estado Livre da Rinchoa, como ele fazia questão de dizer!...). A casa que adquiriu ( e que hoje constitui a Casa Museu Leal da Câmara) fora em tempos uma estação de muda de cavalos e pertença do Marquês de Pombal. Leal da Câmara fez as obras necessárias e adaptou-a para residência e atelier até ao fim dos seus dias.
As suas aguarelas e desenhos sobre figuras e tradições populares da zona saloia perduram até aos dias de hoje e, para além da excelência artística, constituem testemunho de inestimável valor sociológico e antropológico sobre aqueles a quem Raul Proença assim caracterizava em 1924, no seu Guia de Portugal:
 “Quando Afonso Henriques tomou posse de Lisboa, consentiu-se ao mouro que refluísse para os subúrbios da cidade, e ele aí se estabeleceu, entregue ao cultivo das hortas, com a água a escorrer da nora generosa. É desta população consentida, mourisca e subalterna que deriva o mais da gente que habita os contornos de Lisboa – o saloio de tez morena, pele tisnada, olhos e cabelos negros ou castanhos, membros secos, tipo sem finuras de raça e beleza plástica de linhas, tão afastado da gente bela e robusta do Norte, como o berbere dum dos melhores rebentos da gente circassiana”

Jovem de 15 morto à pancada: caso bem encerrado versus coragem comunitária



 ANDRÉ MARGALHO

Segundo testemunhas, médicos e familiares, a causa da morte do jovem no Bairro do 6 de Maio na Amadora está relacionado com o espancamento cometido por alguns agentes da PSP da esquadra da Amadora ao mesmo. Já se sabe que a PSP aparece no relatório da Amnistia Internacional deste ano devido ao seu abuso de poder e excesso de violência sobre os cidadãos...é preciso que estes casos como o de este jovem sejam escrutinados e investigados "decentemente" como mandam as regras, se não caminhamos para um cenário de conflito sem fim...não é assim que se resolve o problema da delinquência juvenil, métodos destes são utilizados noutros países e não podem ser prática nos nossos concelhos. Já muitas vezes em conversa com amigos, lhes disse que os recursos humanos e a preparação da polícia para os problemas urbanos é desadequada e não está em consonância com o resto das acções educativas que tentam minorar e prevenir a delinquência juvenil e a criminalidade. É preciso que se trabalhe em rede e em parceria: PSP, CPCJ, IPSS´S/SEGURANÇA-SOCIAL, escolas e famílias, entre outros, terão que trabalhar em conjunto e não separadamente para que casos como estes sejam uma excepção e não uma regra...o concelho de Sintra, como o da Amadora, têm altos índices de criminalidade juvenil, por isso é preciso começar a envolver os nossos jovens do concelho de Sintra - que é de onde sou - na construção de um futuro melhor para eles e para nós todos.

Não podemos deixar que o medo se instale e caminhe para ira, e esta para a brutalidade desmedida...é preciso estarmos atentos e não ter medo...são precisas referências e ferramentas pessoais/sociais para os nossos jovens, acima tudo é preciso esperança e coragem!



Antropólogo