sábado, 24 de agosto de 2013

Tempos medievais na Península Ibérica

BÁRBARA JORDÃO RODHNER

Sobrevoo Portugal e Espanha e não encontro palavras para descrever o cheiro que se embrenha nos meus cabelos, a angustia que se enrola sobre e no meu peito e a raiva que palpita na minha garganta ...

Está literalmente TUDO a arder, mais uma vez...

São tempos medievais desde que me lembro ... Absolutamente Toooodos os verões, TODOS os anos; a história repete-se e ninguém faz nada e depois repete-se e ninguém faz nenhum ; e quando nada se faz; nada se muda; é tão certo como o eu me chamar Bárbara .

Padrões que se repetem, c-o-n-s-t-a-n-t-e-m-e-n-t-e, por varias razões que desconheço mas posso perfeitamente tentar calcular.:

A falta de acção nas aldeias; hoje em dia praticamente abandonadas no interior e no norte do pais levam muitos adolescentes e perversos a procurarem alguma acção através da agitação de um fogo; meios sociais que precisam de dramas para vender jornais e revistas pirosas cor-de-rosas, tanto interesse económico da parte de alguma empresas privadas de aviação que disponibiliza tanques e mão-de-obra a preços exuberantes nestas épocas, para não falar privadas que querem accionar os seguros e construtores que querem activar licenças e assim pergunto-me.:

Quantos psicólogos maravilhosos desempregados há neste pais? Quantos maravilhosos técnicos de investigação que traçam perfis de potenciais psicopatas em "trinta segundos" EXISTEM realmente e são formados e bem formados em e Por Portugal? Porque não se auto-nutre de apoio preventivo durante o ano e nao se prepara devidamente este nosso querido Estado, em estado totalmente ardido, a desenhar planos e estratégias de prevenção para apanhar psicopatas a tempo de evitar estes enormes fogos e para alertar a população para indicadores importantes para a denunciação essencial e tão preventiva ?

Irriita-me enquanto Mulher e Mãe e Cidadã Activa na sociedade a quantidade de homens e mulheres grandes e saudáveis presos e presas à espera; a precisar e a querer algo nobre para fazer; tanto "pateta-alegre" a encher discotecas e a encher a cabeça de estupefacientes neste Portugal inteiro; a celebrar férias quando não fez absolutamente nada o ano inteiro; Tanto desempregado a usar subsídios sem vontade nenhuma de se trabalhar e de trabalhar e Tanto trabalho comunitário URGENTE por e para fazer ...
Não poderia o Estado em estado ardido investir em cursos de prevenção e controlo de fogos e seleccionar pessoas para apoiar devidamente a nação em épocas destas para proteger os poucos ( que são mesmo poucos ) que ainda dão o corpo ao manifesto da reprodução e que ainda se esforçam e tentam educar os filhos segundo alguns valores importantes e noções realistas da vida ? Possam as mães dormir "minimamente" descansadas em casa com os seus filhos aninhados nos berços. Possam os pais providenciar comida para as suas famílias e também eles serem devidamente protegidos! Ontem morreu uma bombeira bem mais nova do que eu; deixou para trás uma filha de quatro anos com o coração em chamas ; chama essa que provavelmente nunca se irá apagar .

Pobre criança cuj'a sua alegria e inocência morreu por "nós" que "fumamos" levianamente e atiramos cigarros ao vento, que pensamos em roupas descapotáveis e fluorescente para ir para o próximo sítio fazer ABSOLUTAMENTE nenhum; pobre criança que foi privada de uma mãe para salvar esta minha e a nossa nação, que tem coisas boas, sim, mas neste assunto é absolutamente e ainda TÃO estúpida e arcaica!

Tempos medievais, sim ! Os que ainda se vivem nesta nossa partilhada península ibérica.

Já chega de padrões de fogos o verão inteiro;

Civismo meus senhores!!!!! Por favor.

Paz às Almas de quem se voluntaria .
Apenas uma mãe irada ;
Barbara Trigoso Jordão Rodhner
 
Foto Rodrigo Silva

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A arte de Filipe Costa

FILIPE COSTA  

Filipe Costa, nasceu no Penedo, Aldeia do Espírito Santo, alcandorada na Serra de Sintra. Cursou o Ensino Técnico tendo sido incentivado pelos seus Mestres Professores Martins Correia, Frederico George,Calvet de Magalhães –entre outros- a dedicar-se paralelamente ao desenho técnico e ao artístico.Bem cedo iniciou a sua actividade profissional como designer, tendo sido “art director” na prestigiada agência de publicidade“Serviço de Publicidade Suíço-Português” com algumas das suas criações distinguida. Extinta aquela agência, criou o seu próprio ateliê de design gráfico, onde por largos anos, exerceu a sua actividade. Desde os tempos do desenho manual e com várias técnicas, até à actualidade, utilizando novas vertentes tecnológica entretanto adquiridas proporcionaram-lhe, dedicar-se à ilustração vectorial assistida por computador, dos mais emblemáticos monumentos, edifícios característicos e paisagens da Região de Sintra. 
Exposições Colectivas (seleccionadas):1968. 1ª Bienal Luso-Espanhola de Publicitários, Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa; 1993. Exposição Homenagem a Natália Correia,  Teatro Maria Matos, Lisboa,  Biblioteca Municipal de Beja, Beja; 1994. Exposição Homenagem a Natália Correia, Cine-Teatro José Lúcio da Silva, Leiria Exposição Homenagem a Natália Correia,   Ponta Delgada, Região Autónoma dos Açores; 2010. Exposição Retrospectiva da sua Actividade, na Galeria Municipal de Sintra. Abaixo, um dos seus trabalhos, duma série de doze que iremos apresentando regularmente neste espaço

PALÁCIO NACIONAL DE SINTRA

No centro da Vila Velha ergue-se a mole majestosa do palácio na sua diversidade arquitectónica que distingue três períodos: Joanino, Manuelino e Pombalino. Os vários corpos do Palácio Nacional de Sintra, donde se destacam as duas altíssimas e emblemáticas chaminés cónicas, encantam quem os visita. São muitas as salas magníficas que transmitem a ideia do fausto e da grandeza de um reino, mas também das tragédias que envolveram homens que nele reinaram.

O Paço da Vila de Sintra é hoje um palácio onde podemos recriar a vista e a imaginação.

O desenho denota a preciosidade do conjunto mas também do pormenor e a qualidade artística que não deixa de trazer a um primeiro plano destacado a formosa Fonte Renascença situada no patamar das escadas do pórtico principal.
Texto de António Augusto Salles



quinta-feira, 22 de agosto de 2013

50 anos de Presidentes da Câmara de Sintra

FERNANDO MORAIS GOMES


Nos últimos 50 anos Sintra conheceu 11 presidentes da Câmara Municipal. Antes do 25 de Abril, o cargo não era electivo, mas por nomeação, sendo os presidentes geralmente da confiança do partido único, a União Nacional.


Desde 1958, e substituindo César Moreira Baptista (1953-1958) ocupou o cargo o prof. Joaquim Fontes, médico e homem de cultura. No seu tempo, o Hóquei Club de Sintra foi campeão de Portugal em hóquei em patins e Nafarros, S.João das Lampas e Gouveia inauguraram a luz eléctrica. Morreu no cargo, de doença súbita, em 10 de Setembro de 1960.
Sucedeu-lhe o Visconde de Asseca, D. António Correia de Sá,(1961 a 1968), período no qual as relíquias de D.Nuno Álvares Pereira vieram a Sintra, foi inaugurada a iluminação pública no Largo Rainha D.Amélia, na Vila Velha, e abriu o Hotel das Arribas( tudo em 1961).
Em 1962 foi criada a freguesia de Algueirão-Mem Martins,por influência de Isaías Paula, João Cordeiro e Francisco Fernandes entre outros, Lourel de Cima inaugurou um chafariz público, em Maio decorreu a inauguração da Tabaqueira, das novas instalações do Hóquei Clube de Sintra e do Colégio D. Afonso V, já em Outubro.
Em meados da década começa a urbanização de zonas como Algueirão e Rio de Mouro e abre o Hotel Miramonte, em Colares. Por essa altura se inauguraram igualmente as piscinas da Praia Grande e a estrada Várzea de Sintra-Fachada. Infausto, um incêndio na serra de Sintra em Setembro de 1966 provocou 25 mortos entre os militares que o combateram, e em Novembro de 1967 as cheias na zona de Lisboa afectaram Cacém, Belas e Queluz provocando 12 mortos na região de Sintra.A 10 de Janeiro de 1968, aos 67 anos o presidente da Câmara D.António Corrêa de Sá, visconde de Asseca, presidente desde 1961 e vereador de 1947 a 1960,testamenteiro de D.Manuel II e sua esposa Augusta Victória e chamberlain da rainha D.Amélia já no exílio, morre, de doença prolongada.
Sucede-lhe em Abril de 1968 o coronel Joaquim Mendonça Duarte Pedro, antigo governador de Cabo Verde .


Nesse período surge a electrificação do campo de jogos do 1º de Dezembro, a iluminação pública em Sacotes, a luz eléctrica em Campo Raso e na Ulgueira, abrem o grémio da Lavoura de Sintra e a ponte de Colares, ergue-se a antena de televisão de Janas , realiza-se a I Feira Agro-Pecuária de S. João das Lampas, e em Colares ocorre a milionária festa Schlumberger. A 3 de Julho de 1969, pouco mais de um ano depois, o coronel Duarte Pedro demite-se.
É então a vez de António Pereira Forjaz, antigo presidente do Sport União Sintrense e figura da vida local, que exerce o lugar a partir de Janeiro de 1970.


Durante o seu mandato, que durou até ao 25 de Abril de 1974, foi inaugurado o Bairro Administrativo de Queluz e o posto de turismo do Cabo da Roca, a luz eléctrica em S. Marcos, as novas instalações da Biblioteca de Sintra no Palácio Valenças, o posto de correios da Praia das Maçãs. João Pimenta inicia a urbanização intensiva na zona de Sintra com as construções J.Pimenta e ganham regularidade os Encontros de Sintra.
Depois do 25 de Abril, só a 14 de Junho, toma posse uma Comissão Administrativa, composta por José Alfredo Costa Azevedo (presidente) José Joaquim de Jesus Ferreira, Aristides Campos Fragoso, Lino Paulo, Jorge Pinheiro Xavier, Cortêz Pinto, Álvaro de Carvalho, Manuel Monteiro Vasco,Carlos Quintela, António Manuel Carvalheiro, Manuel Maximiano e Mário Barreira Alves.

Foi um período conturbado e de mudanças. Em Maio de 1975 procedeu-se à inumação das cinzas de Ferreira de Castro na serra de Sintra e em Junho desse ano à inauguração da estátua de D.Fernando II no Ramalhão, tributos pelos quais se bateu José Alfredo Costa Azevedo. José Alfredo abandona a Comissão Administrativa em Fevereiro de 1976, agastado, ficando no seu lugar até às primeiras eleições autárquicas, em Dezembro desse ano Cortêz Pinto.

Inicia-se então o período democrático regular, com vereações eleitas por 3 anos, e, a partir de 1985, para mandatos de quatro.
A 12 de Dezembro de 1976, o tenente-coronel Júlio Baptista dos Santos foi eleito primeiro presidente da câmara depois do 25 de Abril e Maria Barroso presidente da Assembleia Municipal(depois substituída por José Valério Vicente).

O PS elegeu 6 vereadores ( Júlio Baptista dos Santos, Rui Fonseca ,Sérgio Melo, Alcides Matos, Oliveira Barbosa e Valério Chiolas) a FEPU 3(Lino Paulo, Cortêz Pinto e Mário Alves) o PPD 1(Eduardo Lacerda Tavares) e o CDS 1(Fernandes Figueira).
Nesse período foi inaugurada em Mem-Martins a cooperativa de ensino A Papoila e o miradouro de Santa Eufémia. Em Setembro de 1977, o Museu Anjos Teixeira. Em 1978, a Academia da Força Aérea na Granja do Marquês.
Em Dezembro de 1979, o despachante alfandegário José Lopes é eleito presidente da CMS pela AD. Nesse inicio da década de oitenta, Sintra assistiu a um crescimento ainda moderado do urbanismo e das zonas urbanas, a par das preocupações com a protecção da serra e o litoral. Politicamente a década foi marcada por gestões autárquicas da Aliança Democrática com forte presença da Aliança Povo Unido na gestão da CMS.
Na Câmara presidida por José Lopes foram vereadores Lino Paulo, Júlio Baptista dos Santos, Germano Coutinho, Jaime da Mata, Machado de Souza, Mário Alves, Teves Borges, Jaime Alcobia, Frederico Estêvão e José Valério Vicente. Jaime Figueiredo Gonçalves foi presidente da Assembleia Municipal. Por esses dias foi inaugurada a sede da Associação de Comerciantes de Sintra, na Estefânea, e o polémico Hotel Tivoli, na Vila. Foi criada a Área de Paisagem Protegida de Sintra-Cascais e inaugurados a escola primária da Várzea de Sintra , o Museu Ferreira de Castro e a Repartição de Finanças do Cacém, entre outros melhoramentos.
Em Dezembro de 1982, é a vez de Fernando Tavares de Carvalho da AD vencer as eleições autárquicas com 37294 votos, ficando a APU a 1500 votos com 35790. Foram vereadores Lino Paulo, Raúl Curcialeiro, Salvador Correia de Sá, Jaime da Mata, Correia de Andrade, Hermínio dos Santos, Vera Dantas, Fernando Costa, Megre Pires e Felício Loureiro. Joaquim Bento Sabino presidiu à Assembleia Municipal.

Tavares de Carvalho cumpriu dois mandatos, até Dezembro de 1989, período no qual renasceu o Instituto de Sintra, com António Pereira Forjaz como presidente e Francisco Costa presidente da Assembleia Geral, abriu a estação dos correios da Portela de Sintra e ocorreram as calamitosas cheias de 1983. A Câmara aprovou a primeira fase das urbanizações do Grajal e de Fitares, com projecto inicial de 2000 fogos e foi lançada a primeira pedra do Hóquei Clube de Sintra em Monte Santos, inauguradas escolas primárias na Portela de Sintra, Magoito e Lourel. A vida cultural teve algum realce, na década, com o aparecimento do grupo de teatro CIDRA, o I Encontro de Poetas Populares do Concelho de Sintra ou o Congresso Internacional do Romantismo. Em Dezembro de 1985 a AD(PSD/CDS) volta a ganhar as eleições autárquicas, com 32181 votos sendo Fernando Tavares de Carvalho reconduzido, a APU de Lino Paulo ficou a 700 votos com 31469. O brigadeiro Machado de Souza foi eleito presidente da Assembleia Municipal de Sintra. Neste segundo mandato, a Rádio Ocidente inicia emissões, é criado o GRAUS com vista à recuperação do centro histórico de Sintra, nasce a CHESMAS -Cooperativa de Habitação Económica, e o teatro Chão de Oliva, impulsionado por João Melo Alvim e Maria João Fontaínhas. Decorrem as I Jornadas de Teatro de Sintra, participando grupos como Os Filhos do Povo, de Montelavar, o Teatro da Sociedade, de Sintra, Masgiruz, de Queluz e outros, e nasce a Orquestra Regional de Colares, sob inspiração de David Tomás e Fernando Moreira.
Em 1988 Algueirão-Mem Martins é elevada a vila e é criado o Instituto D.Fernando II. A Assembleia da República aprova a criação da freguesia de Pêro Pinheiro e Sintra gemina-se com a cidade marroquina de El Jadida (antiga Mazagão), abre a Escola Profissional de Recuperação do Património.
Chega Dezembro de 1989 e o industrial e comendador João Francisco Justino é eleito presidente da Câmara como independente pela lista PSD/CDS, com 34% dos votos.A CDU teve 31% e o PS 29%.

Da nova Câmara faziam parte Rui Silva, Ferreira dos Anjos, João Carlos Cifuentes, Lino Paulo, Jaime da Mata, Felício Loureiro, Vera Dantas, Correia de Andrade, Álvaro de Carvalho e Pinto Simões. Rómulo Ribeiro é presidente da Assembleia Municipal.Decorre a I Trienal de Arquitectura de Sintra, inaugura-se o novo relvado do Sintrense, mas ao longo do ano de 1990 degrada-se a relação entre o presidente Justino e o vereador do CDS Ferreira dos Anjos, originando sindicâncias à Câmara de Sintra, até que em Outubro desse ano o PSD lhe retira o apoio político. Abre o mercado de Mem Martins e surge a cooperativa cultural Veredas. Depois dum período conturbado João Justino perde o mandato no Tribunal Administrativo, sendo substituído em 1992 pelo vice-presidente Rui Silva, do PSD, que completou o mandato, no meio de alguma turbulência política.
Em 1994 e até 2001(2 mandatos) ocupou a presidência a socialista Edite Estrela, num período em que Sintra subiu a Património Mundial da Humanidade, se concluiu o IC-19, abriram o Centro Cultural Olga de Cadaval e o Museu de Arte Moderna, a Câmara adquiriu a Quinta da Regaleira e foi criado o Parque Natural de Sintra-Cascais.Sintra tem agora 20 freguesias e roça os 400.000 habitantes.

Foram vereadores nesse período Álvaro de Carvalho, Pinto Simões, Lino Paulo, Estrela Ribeiro, Viegas Palma,Fausto Caiado,Matos Manso, Rui Pereira, Baptista Alves entre outros. Fernando Reino e Jorge Trigo presidiram à Assembleia Municipal.
Em Janeiro de 2002 ocupa o lugar o social-democrata Fernando Seara , renovando mandatos até 2013.Foram vereadores neste período Marco Almeida, Luís Patrício, Lino Ramos, Ana Duarte, Paula Simões, Luís Duque, Baptista Alves, Guadalupe Simões, João Soares, Ana Gomes, Rui Pereira, Domingos Quintas, Eduardo Quinta-Nova e Ana Queirós do Vale. Ribeiro e Castro e Angelo Correia foram presidentes da Assembleia Municipal. Neste período deu-se a transferência para a câmara de muitas competências na área da educação, sendo a prioridade orçamental a acção social.Sintra aderiu à Aliança das Paisagens Culturais e surgiu a Parques de Sintra-Monte da Lua como gestora da área do património mundial, inaugurou-se o Centro de Ciência Viva, a Casa Mantero e o novo Tribunal, o Museu de História Natural e a Casa de Cultura de Mira Sintra.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Nuvens do Norte

JORGE TELLES DE MENEZES











As nuvens
que às sete horas da tarde        
desta serra se aproximam,
trazem a bruma do norte,
fria, húmida e ventosa,
e à alma recordações
de mansas paisagens
árvores em fila
numa estrada rectilínea
que conduz à confortável Landhaus.
Tudo é burguês e arranjado
no Norte.
As pessoas calmas e doces,
sempre prontas para um chá
na sala, junto à lareira.
A paisagem encanta fotograficamente
o olhar.
Mas aqui no Sul,
ou Ocidente – como hoje queria um polaco,
tudo é imaginativo e apaixonado,
caracteres rudes, palavras ásperas.
Moro perante uma paisagem heróica
que me deixa em êxtase
ao poente,
arrebato-me e estiolo,
incompreendido,
no próprio florir da ideia,
frustro-me e amaldiçoo – o Sul.
Amar-te e também odiar-te
Por não permitires que seja sereno – oh Sul!
E desejo partir outra vez,
para um fim de tarde
com música de Bach,
nevoeiro, filas geométricas de árvores,
risos amigos, chá e uma lareira
ardendo na angenehmen Haus,
e a consciência burguesa e profissional
de merecer o conforto, a cultura e a paisagem.


(Poema escrito em S. Pedro de Sintra, em pé, à janela da casa da Rua do Campo, a 6 de Setembro de 1986)

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Contemplar

FREDERICO MARTINS RODRIGUES

Onde a ponta solta encontra o nó, eu sinto o teu toque.
Quando me beijas as pálpebras, eu vejo o Sol nascer.
Quando só há o chilrear dos pássaros a preencher o silêncio, eu ouço-me a chamar por ti.
Onde milhares de flores me lembram que é primavera, eu inspiro aquele aroma que trazes sempre contigo e que é teu.
É disto que os meus olhos, mudos, falam quando paro para olhar para ti...

O cartoon de João Vasco Castro

JOÃO VASCO CASTRO

Marco Almeida-o estranho independente, é o título do cartoon em que João Vasco Castro nos dá a sua visão pessoal do momento eleitoral em Sintra. João Vasco Castro, arquitecto e artista plástico, tem vindo a ter intervenção no movimento cultural associativo, nomeadamente na associação Três Pontos, de Fontanelas, Sintra.


Outros cartoons em

Improviso sobre o pensamento

GONÇALO NUNO NEVES


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Português

ANTÓNIO LUÍS LOPES









apesar da crise,
apesar da seca,
apesar daqueles que me querem
domar,
apesar de tudo,
apesar de nada,
apesar do vento, da chuva
ou do ar,
apesar do medo,
apesar do aperto,
apesar da pistola apontada
à cabeça,
apesar da miséria,
apesar da vergonha,
apesar da alma que vagueia
e tropeça,
apesar da tez,
apesar do feitio,
apesar da fome que se instala
na praça,
apesar dos erros,
apesar das glórias,
apesar da ânsia que se agarra e
não passa,
apesar do grito,
apesar da reza,
apesar da Grécia,
apesar do cerco,
apesar da raiva,
apesar do arnês,

nascia de novo
e era Português.

domingo, 18 de agosto de 2013

No tempo em que tirei a licença de velocípedes

JOSÉ CARLOS SERRANO


É um mito!

Toda a gente dizia: “fui à Câmara tirar a carta de moto “.

Simplesmente a malta ia à Câmara tirar uma “Licença de Condução de Velocípedes”, no processo mais simples do mundo, apenas era necessário saber uns sinais de trânsito, básicos, ter motorizada e capacete.

Eu tinha 16 anos e comprei uma “Famel Foguete Santa Maria”, que me custou, na altura 1.500$00 (hoje em dia 15€), uma fortuna para mim, era do sogro do meu irmão, motor Zundapp, 3 velocidades de pé.

Lá fui eu! Inscrição feita na Câmara. Naquela época o exame era feito na Fiscalização, nas traseiras do Edifício, ao lado da Policia.

Primeiro, era a teoria, estudada no momento com uma agenda, daquelas de bolso, facultada no local.

Segundo, não havia muita margem para enganos, era descer até ao “Rio do Porto”, dar a volta e fazer um oito frente à porta da Policia.

Portanto, muitos olhos a ver!

Ou um gajo sabia andar ou estava lixado. Porque arrancar e descer era fácil, agora subir e fazer o oito já carecia de perícia, porque era feito em rampa. Correu menos mal, estava nervoso, e como morava ali perto até conhecia algumas das pessoas que estavam a ver.

Ainda me lembro da minha “distração”, montei-me na motoreta, de capacete no braço, o senhor explicou-me o que tinha de fazer e eu ia arrancar, sem capacete, nas barbas da Policia e de quem me fazia o exame, ouvi logo: “ ó artista mete lá o capacete “!

Correu bem, fiquei “ encartado “, já não tinha de andar às escondidas.

Comecei cedo, 12, 13 anos em cima do passeio à porta de casa. O meu irmão tinha motorizado foi fácil. Dei alguns tombos, mas faz parte da aprendizagem. Velhos tempos em que se podia fazer isso em cima do passeio.

A Santa Maria foi marcante. Quando a comprei era toda preta, e eu dei-lhe cor. Depósito branco com as letras a dizer Santa Maria a azul, quadro amarelo, roda da frente vermelha, era “tutti – frutti”.

Todos os meses passava pela oficina, era frágil. Eu queria que andasse muito e “berrava”. Aquilo era motoreta à “velhote”, para ir pró trabalho, devagar.

Fazia corridas com as Casal Boss, que eram de duas velocidades, e estavam “normais”. As que estavam quitadas 75, voavam baixinho!

Bons tempos! Muitas rampas da Pena, a descer à noite, ligada e desligada, para ver quem embalava mais.

Às vezes corria mal e dava tombo, com muitas faíscas no meio do escuro, era o metal em contacto com o asfalto.

Tenho muita pena, não tenho uma única foto da Santa Maria.

sábado, 17 de agosto de 2013

Uma gaivota voava, voava

FERNANDO MORAIS GOMES


-O Povo está! Com o MFA! -gritava a multidão Estefânia abaixo, naquele 1º de Maio, mal refeita dos acontecimentos dos dias anteriores. Coisa nunca vista em Sintra, mesmo pelos antigos, as pessoas desfilavam de braço dado como família reencontrada, desfraldando faixas gigantes e apregoando a palavra liberdade, como se houvesse que gritar para que todos ouvissem.

Eufórica, Susana esperava junto à Farmácia Simões, cravo vermelho na lapela, a alegria de criança com brinquedo novo, João vinha no cortejo, com velhas personalidades de Sintra à cabeça e militares à mistura. O dr. Sargo, velho republicano e advogado, com residência fixa em Sintra desde que nos anos trinta participara na revolta da Madeira, parecia uma criança, abraçado aos amigos, já falara com o Salgado Zenha, a quem a Junta de Salvação Nacional convidara para o novo Governo. Aqui e ali, descrentes profetas da desgraça assustavam com os perigos do comunismo. O Quintas, fiscal da Câmara e salazarista convicto, que três dias antes do golpe estivera num almoço da PIDE em Queluz, agitava os riscos da anarquia, o Spínola estava na mão dos capitães, instigava, fora dinheiro o que os movera, depois de orientados com as comissões em África.

O desfile, que teve início na Vila Velha e seguiu Volta do Duche fora, terminando na Portela de Sintra, foi uma inesquecível procissão da democracia, liturgia da nova liberdade, com crentes e conversos celebrando o dia redentor também no vetusto burgo. João, de sorriso aberto e a vasta cabeleira ao vento, chamou Susana à passagem pela Farmácia Simões, que correu para ele rompendo pela multidão, beijando-o, e seguindo no cortejo dum país de braço dado. Dois meses depois casariam, sortuda, já tinha emprego como telefonista no serviço de PBX que se previa abrir em breve.

O dr. Sargo, na cabeça do cortejo, ao passar pelo Capote avistou o José Alfredo à conversa com o Cortez Pinto e o Lacerda Tavares e acenou-lhes, com olhar cúmplice e sorriso largo:

-Viva Portugal! -gritou, qual general romano entrando em Roma depois da conquista da Gália.

-Viva! –responderam em uníssono, com o Zé Alfredo a orquestrar, os olhos brilhando por trás dos óculos de massa.

Um carro de som ecoava canções antes só trauteadas em surdina, e agora consagrados hinos. Fanhais, Adriano, a marcha do MFA. A democracia ganhava novos ícones, e os novos sons de Portugal chegavam a uma Sintra mais dada a passeios pela Vila Velha que a manifestações de rua. Mal sonhava o dr. Forjaz, que com pompa e circunstância recebera três meses antes Moreira Baptista, até ali ministro do Interior e antigo presidente da Câmara, que pouco tempo decorrido o Portugal do “a bem da Nação” se veria arquivado na prateleira da História.

Com o 25 de Abril foi designada uma Comissão Administrativa presidida por José Alfredo, com Cortez Pinto, Álvaro de Carvalho e Lino Paulo entre outros, período conturbado, que culminou no afastamento agastado do grande Zé em 1976. Teimoso, ainda conseguiu inaugurar a estátua a D. Fernando no Ramalhão e inumar as cinzas de Ferreira de Castro na serra. Era o mínimo. As autárquicas de 1976 valeram a Câmara ao PS e a presidência a Júlio Baptista dos Santos. Passado a embriaguez, o país construía uma normalidade.

Recentemente reformada da Portugal Telecom, e passeando com a neta depois do lanche no Tirol, Susana deu consigo assaltada por esses sons e memórias já distantes. O povo, unido, jamais será vencido! Cavernoso, lembrou-lhe cabelos compridos e calças à boca-de-sino. -Tão ridículos que nós éramos! –pensou, melancólica.

-Oh avó, andas ou não andas? -questionou a pequena, puxando-lhe o braço.

Subitamente desperta, apressou-se, o 441 para Fontanelas não tardava a passar.