sexta-feira, 25 de abril de 2014

O 25 de Abril 40 anos depois

JORGE TELLES DE MENEZES
 
Havia heróis e vilões, como em qualquer história. Heróis eram a maioria, todos aqueles que no seu íntimo sabiam que "aquilo", a ditadura, a censura, o terror das prisões, as guerras, a miséria, o atraso, o subdesenvolvimento mesmo, a injustiça, porque no seu íntimo a maioria sabia que "aquilo" estava mal, sim, a maioria que eram também os que sofriam mais, sabia. Por isso bastou um golpe militar para que essa maioria saltasse para a rua e dissesse bem alto: esta é a minha hora!

Eu estava de volta a Portugal depois de oito anos no estrangeiro, a que chamaríamos hoje o último império colonial, eu era um viajante, estava de passagem para uma Europa por que muito tinha ansiado. Era um pré-retornado, ou alguém que regressa, não para ficar mas para partir. Dava-me muito mal com a falta de liberdade pessoal, fui forçado pela história a ser um rebelde na minha adolescência, a qual ainda não tinha terminado, nem sei se terminou alguma vez...

Nessa madrugada, nessa alvorada rara, nesse dia que se tornou no dia mais importante da minha existência, porque como Português assim o sinto e sei, eu estava naturalmente de viagem. Eu sabia tudo sobre a injustiça das guerras, sobre os direitos dos Africanos, aos dezasseis anos de idade vi com os meus olhos o que era uma prisão da Pide em cenário de fundo de guerra, li, estudei, conheci vários nacionalistas, encontrei gente que estava contra o sistema, em Luanda, em Johannesburg, na então Lourenço Marques, li a sua poesia, conheci os seus pintores, estudei a sua etnografia, tornei-me Poeta em Luanda, bela mãe de Poetas, e agora estava em viagem, Alentejo adentro, na madrugada ímpar da minha vida. Como português, ainda que desenraizado, tinha uma missão que a mim próprio destinei. Era esta a de levar dois amigos moçambicanos refractários ao serviço militar obrigatório até junto da fronteira espanhola, sendo o meio de transporte uma carrinha Volkswagen conduzida por um jovem alemão que conhecera em Sintra. Saímos assim de Sintra na madrugada libertadora, deixei-os a todos junto da fronteira e regressei. Ao meio-dia do dia 25 de Abril eu estava em Grândola. As peripécias continuaram, mas não vamos segui-las agora aqui.



Olho para trás, quarenta anos depois dessa noite, continuo a ser um viajante, sedentário embora, mas continuo a viajar nos mundos por onde sempre, afinal, viajei: os da poesia, da filosofia, da música, cinema e outras artes mais. Olho agora à minha volta, e digo: não reconheço o país em que vivo, devo sofrer de algum estranho síndroma de viajante... O Povo, todos nós, transformámos Portugal, "isto" não tem nada a ver com o que estava para trás. Hoje temos um futuro, porque temos liberdade. Somos livres, apesar desta sensação de liberdade ser partilhada muito desigualmente pelos Portugueses. O bolo que é produzido por todos os que diariamente laboram foi aprisionado por autênticas organizações de malfeitores, pelo mais refinado crime organizado que imaginar se possa, mascarado para agradar às massas que ilusoriamente buscam nos apelativos candidatos reflexos de uma vaga honestidade, que toda a gente sabe não existir neles, mas vota como que hipnotizado neles, apesar de saber que eles são desonestos. É certo que mudámos a infra-estrutura do país, mas as mentalidades são o mais difícil de mudar. Continuamos a ser prisioneiros do provincianismo reaccionário, tudo sabe a pequeno, asfixiante. Mas vieram novas gerações de Portugueses, mais livres, pelo menos mais educados, embora a falta generalizada de ética na governação da nossa sociedade seja um perigo corrosivo sempre presente.
Valeu a pena? A Liberdade vale todas as penas deste mundo. Desde que sejamos livres teremos sempre um futuro. Esse é o sentimento que cada Português deve, a meu ver, transportar sempre consigo como bilhete de identidade: o ser livre! Sejamos, pois, livres quanto baste para nos livrarmos para sempre de uma classe política corrompida, marioneta nas mãos do grande capital financeiro. Já tudo foi dito sobre eles, mas não mexem uma palha para mudar o sistema que a eles tão bem serve, enquanto afundam o nosso ser colectivo, permitem o roubo da nossa riqueza, hipotecam o desenvolvimento, seja ele qual for do país. Sei que nós temos uma tendência para um criticismo radical que se torna balofo por irrealismo, a cegueira ideológica ou outra impede-nos de ver com objectividade o todo, mas não posso deixar de me afligir com o calamitoso estado da Justiça nesta desvairada República. É uma trágica realidade que pesa sobre todos nós como uma sombra ameaçadora. A sua degradação é inconcebível, inimaginável em qualquer outro país ocidental. E se não há justiça, se sempre o rico ganha, se o próprio Estado se comporta como um malfeitor ao ser completamente permissivo com os mafiosos organizados dentro da classe política, ou com a sua cumplicidade, então devemos interrogar-nos se a Democracia resultante do 25 de Abril está realmente a funcionar bem, e a resposta só poder um rotundo não!
Os partidos governativos só se regenerarão por fortes impulsos éticos vindos do exterior, da sociedade. Por dentro eles tornaram-se sindicatos de variados interesses, logo sem capacidade para entenderem o todo. A melhor forma de os penalizar é não votar neles, é esse o meu apelo aos Portugueses: não votem em políticos mentirosos! Por uma política com ética, transparência, rotatividade de funções, de abnegado serviço ao público, por um Estado que não deva dinheiro aos cidadãos e pague a tempo e horas, um Estado que dê o exemplo, um Estado guia e modelo para outros Estados. O ideal seria um Estado intrincado de tal modo na sociedade que acabasse por se dissolver nela. Hoje, temos o direito sagrado e absoluto de exigir um Parlamento em que nenhum deputado seja simultaneamente representante de importantes grupos financeiros e económicos. Um presidente da República sem qualquer mácula de corrupção e de preferência não saído das áreas partidárias, uma Justiça independente, séria, incorruptível, livre, amiga dos pobres e dos fracos.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O meu 25 de Abril-Pedro Macieira

PEDRO MACIEIRA
No 25 de Abril de 1974, estava no serviço militar obrigatório.Pertencia ao 2º Grupo de Companhias de Administração Militar, no Campo Grande em Lisboa. Hoje Universidade Lusófona, onde a minha filha se licenciou.

Prestava serviço na Avenida de Berna  na Repartição de Mobilizados ao lado do antigo “Trem-Auto”, hoje Universidade Nova.

 No edifício da Avenida de Berna funcionava  nos pisos térreos, também o Distrito de Recrutamento e Mobilização (DRM)

No dia 9 de Março de 1973, um ano antes do 25 de Abril de 1974, uma bomba colocada  pelas  Brigadas revolucionárias do PRP, explodiu cerca das 17h30, provocando um morto ( o elemento que estava  a instalar o engenho) e muitos feridos –envolvendo-me nessa situação de várias formas – eu  na altura era também contra a guerra colonial…

Estando no serviço militar nas alturas em que o 25 de Abril de 1974  que acontecia nas ruas, razão porque as minhas  primeiras fotos  são do primeiro 1º de Maio. Também em outra data, uns meses depois de Abril, em 28 de Setembro  de 1974, a situação politica complicou-se-desde as primeiras horas da manhã, grupos de militantes paravam e revistavam carros de quem se dirigia a Lisboa para a chamada “Manifestação da maioria silenciosa”– uma iniciativa que não chegou a realizar-se,de apoio ao general Spínola, convocada dias antes por cartazes que invadiram a cidade nesse dia com prenúncio de golpe de Estado, da extrema-direita

Nessa altura discutia-se o destino das antigas colónias –Spínola terá convocado um conjunto de partidos fantoches angolanos para  tentar uma solução diferente do que estava preconizado no Programa do MFA. As fotos mais abaixo são da chegada destes “ilustres” políticos feitos à pressa, recebidos no Aeroporto da Portela por uma manifestação pró-MPLA



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terça-feira, 22 de abril de 2014

Sintrenses em Alcácer Quibir


CARDOSO MARTINS
Advogado, antigo vereador na C.M.Sintra

Naquele fatídico dia de 4 de Agosto de 1578, nas margens do rio " El Makhezin" e perto do castelo de Ketama (Alcacer el-kebir), o Exército Português, comandado pelo seu jovem Rei D. Sebastião , sofreu a mais humilhante derrota da História de Portugal, devida ,sobretudo, à enorme desproporção dos efectivos, de cerca de 16 mil contra mais de 60 mil muçulmanos! A Batalha durou apenas 4 a 5 horas e foram chacinados ,para além do nosso Rei, cerca de 8.000 combatentes (incluindo mercenários estrangeiros ) entre eles 2 filhos de D. Álvaro de Castro (que mandou construir o Convento dos Capuchos, onde D.Sebastião terá passado uma das suas últimas noites antes de partir para África) e o alcaide-mor de Sintra, André Gonçalvez (dos Ribafria)! Os restantes (cerca de 8.000) foram feitos prisioneiros e vendidos como escravos! Da parte do exército muçulmano, comandado por Mulei Muluco, doente e transportado numa liteira, terão sido mortos cerca de 18 mil combatentes! Entre os cativos distinguiu-se,no cativeiro em Marrocos (actual Marraquexe), um rapaz de apenas 12 anos, natural de Colares, de nome Amaro, filho de Silvestre Gonçalves e de Francisca Jorge. Já  com 18 anos de idade terá  sido torturado e morto com um garrote, juntamente com outros seis jovens portugueses, por não ter abjurado a fé cristã.
Quem o contou foi Jerónymo de Mendonça, também cativo no campo da batalha, no seu livro JORNADA DE ÁFRICA, editado em 1607, depois de ter sido libertado.



segunda-feira, 21 de abril de 2014

Balanço do II Congresso da Cidadania Lusófona: uma pequena grande “semente”.

RENATO EPIFÂNIO  

O balanço do II Congresso da Cidadania Lusófona, que decorreu a 16 de Abril de 2014, relativamente ao primeiro, realizado em Abril de 2013, igualmente na Sociedade de Geografia de Lisboa, foi claramente positivo. Eis o que foi devidamente salientado na mesa final de Conclusões, onde, sob a presidência de Carlos Vargas, intervieram João Salgueiro, António Gentil Martins, Miguel Real, Manuel Ferreira Patrício e Garcia Leandro que, tendo tido que se ausentar ao final da tarde, deixou uma mensagem, que foi lida, onde desde logo salientou “o sucesso, com muito trabalho, do II Congresso da Cidadania Lusófona, organização das Sociedades Civis da Lusofonia, que, pouco a pouco, se vai reforçando”, ressalvando que “estes Congressos são apenas pequenas sementes duma rede que deve sempre crescer”, dado que, como acrescentou, “a Lusofonia tem potencial para ultrapassar as fronteiras políticas, já que é uma realidade cultural, que deve ser também económica”.

Era já essa, de resto, a aposta de Agostinho da Silva, um dos grandes inspiradores deste desígnio estratégico da convergência lusófona, por diversas vezes evocado ao longo do Congresso, nos 20 anos do seu falecimento, que, ainda em vida, nunca se cansou de dizer: “Trata-se de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa, política essa que tem uma vertente cultural e uma outra, muito importante, económica”. Os mais cínicos dirão que isso será uma mercantilização da Lusofonia, não percebendo que a sua força reside precisamente em cruzar os vários planos: não só o cultural e o económico, como ainda o político e o social. A convergência lusófona cumprir-se-á, simultaneamente, em todos esses planos ou não se cumprirá. No essencial, foi essa a resposta que resultou da questão geral deste Congresso: “Que prioridades na cooperação lusófona?”. Tendo cada país e região as suas especificidades, o que, em geral, todos salientaram foi que essa cooperação deve ter sempre presente esses diversos planos: o cultural, desde logo, mas também o social, o económico e o político.

Não houve ninguém que tivesse posto isso em causa – nem da parte da manhã, onde tomaram a palavra Luís Aires Barros (Sociedade de Geografia de Lisboa), Carlos Manuel Castro (Câmara Municipal de Lisboa), Maria Perpétua Rocha (PASC: Plataforma Activa da Sociedade Civil), Renato Epifânio (MIL: Movimento Internacional Lusófono) e Luísa Janeirinho (Sphaera Mundi: Museu do Mundo), na Sessão de Abertura e, depois, Adriano Moreira (Presidente Honorário do Congresso), Ana Paula Laborinho (Instituto Camões), Gilvan Müller (Instituto Internacional de Língua Portuguesa), Guilherme de Oliveira Martins (Centro Nacional de Cultura) e Vítor Ramalho (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa); nem da parte da tarde, onde falaram representantes de Associações da Sociedade Civil de todo o espaço lusófono: Vítor Fortes e Zeferino Boal (Angola), Armando Jorge Silva e Loryel Rocha (Brasil), Alberto Rui Machado (Cabo Verde), Maria Dovigo e Alexandre Banhos (Galiza), Djarga Seidi (Guiné-Bissau), José Lobo do Amaral (Macau), Luísa Timóteo (Malaca), Delmar Gonçalves (Moçambique), Mário Lopes e Celso Soares (São Tomé e Príncipe), e David Guterres (Timor-Leste).

Como eu próprio defendi, enquanto Presidente do MIL: “Se há povo que compreende bem a importância da Lusofonia é, precisamente, o timorense; porque ela foi a marca maior de uma autonomia linguística e cultural que potenciou a resistência à ocupação indonésia e a consequente afirmação de uma autonomia política que, como sabemos, só se veio a concretizar mais recentemente, já no século XXI. Mesmo após esse período, tem sido a Lusofonia o grande factor de resistência ao assédio anglo-saxónico, via, sobretudo, Austrália. Contrapolarmente, o Brasil, pela sua escala, poderia ser o único país a ter a tentação de desprezar a mais-valia estratégica da Lusofonia. Nunca o fez, porém. Pelo contrário – apesar de alguns sinais contraditórios, a aposta na relação privilegiada com os restantes países e regiões de língua portuguesa parece ser cada vez maior. Quanto aos PALOPs: Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, essa também parece ser, cada vez mais, a aposta. Simplesmente, reiteramo-lo, porque é do interesse de cada um desses países este caminho de convergência. Por isso, é a Lusofonia um caminho de futuro. Por isso, é a Lusofonia um espaço naturalmente plural e polifónico, que abarca e abraça as especificidades linguísticas e culturais de cada um dos povos desta comunidade desde sempre aberta ao mundo”.

Não foi, porém, o caso de Timor-Leste que esteve em destaque neste II Congresso da Cidadania Lusófona, mas o da Galiza, por causa do Prémio Personalidade Lusófona, promovido pelo MIL, com o patrocínio do Instituto Internacional de Macau. Depois de já terem sido premiados Lauro Moreira, Ximenes Belo, Adriano Moreira e, mais recentemente, Domingos Simões Pereira, ex-secretário-executivo da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, o premiado deste ano foi Ângelo Cristóvão, em reconhecimento de todo o seu incansável trabalho em prol do reforço dos laços entre a Galiza e a Lusofonia. Tal como quase todos os timorenses, também muitos galegos sabem bem a importância da Lusofonia. Se não fosse esta, a Galiza, na sua autonomia linguística e cultual, já se teria dissolvido de vez no espaço castelhano. Eis, desde logo, o que foi salientado ao final da manhã, na mesa em que estiveram presentes Alarcão Troni (Presidente da SHIP: Sociedade Histórica da Independência de Portugal), José Lobo do Amaral (em representação do Instituto Internacional de Macau), Renato Epifânio e Fernando Nobre (em representação do MIL), para além, obviamente, do premiado.

Saliente-se ainda, ao final da tarde, a intervenção de representantes de algumas entidades da Sociedade Civil de Portugal – nomeadamente: a DARIACORDAR – Associação Contra o Desperdício, a Associação 8 Séculos de Língua Portuguesa, a Associação Mares Navegados, o Centro de Estudos da Lusofonia Agostinho da Silva e o Instituto dos Mares da Lusofonia –, para além da conferência proferida pelo Secretário de Estado do Mar, Manuel Pinto Abreu, que, naturalmente, defendeu a importância estratégica do mar. Por fim, registe-se que, no âmbito do II Congresso da Cidadania Lusófona, decorreu ainda um muito concorrido Jantar-Concerto no Palácio Foz, magnificamente organizado pela Sphaera Mundi, com cerca de uma centena e meia de pessoas, onde houve espaço para a música, a dança e a poesia de diversas proveniências lusófonas, e, sobretudo, para os afectos. Como sublinhou Maria Perpétua Rocha, a Lusofonia não pode ser apenas motivo para o exercício da teoria mas também para o encontro de afectos. De resto, terá sido essa a segunda grande conclusão deste II Congresso da Cidadania Lusófona: para que venha a haver uma Comunidade Lusófona importa haver primeiro um genuíno sentimento de fraternidade entre todos os falantes de língua portuguesa. Nesse plano, foi também este Congresso uma “semente”, uma pequena grande “semente”.

domingo, 20 de abril de 2014

Raul Lino, Francisco Costa e uma Casa.

EUGÉNIO MONTOITO

A forma de ver um espaço proporcionador de momentos contemplativos, penserosos e criativos com um novo destino
 Quando esta casa, feita mesmo em frente da serra verde, ainda mal se erguia, e as traves da futura moradia eram belos pinheiros, simplesmente, houve uma tarde, sob um sol ardente, em que o suor em bagas escorria da testa dos pedreiros e fazia da cal e areia uma argamassa quente.

Hoje, há paredes contra os vendavais, mas é cá dentro que soltamos ais nos dias mais aflitos ou mais duros. Enquanto gemem temporais lá fora, pagamos nós em lágrimas, agora, a dor incorporada nestes muros.
(Francisco Costa, Última Colheita, 1987)

Nos primeiros dias de Abril assisti, no Palácio de Seteais, a um conjunto de conferências integradas no Colóquio Nacional sobre Raul Lino em Sintra, iniciativa da responsabilidade científica do IADE (tendo apoio logístico do Hotel Tivoli Palácio de Seteais, da Câmara Municipal de Sintra, da Colares Editora e da Discovery – Culture & Taste).


O presente colóquio procurou assinalar os 40 anos do falecimento de Raul Lino e os 100 anos da inauguração da Casa do Cipreste, relançando a discussão sobre as suas distintas valências no campo das artes e na sua intervenção como arquitecto.


No seguimento desta oportunidade comemorativa e no aproveitamento das palavras e dos discursos ouvidos sobre estes registos, estas memórias e estes patrimónios, veio-me à lembrança um edifício desenhado por Raul Lino que, actualmente, pertence à Câmara Municipal de Sintra e que está fechado e sem utilização. Falo da casa do escritor e ensaísta sintrense Francisco Costa (1900-1988), localizada na Rua Sacadura Cabral, perto do Largo do Morais.




A obra de Raul Lino possuirá sempre uma dualidade antagónica nos fundamentos identificadores do seu traço e da sua filosofia. Para uns, estamos perante um espirito conservador e tradicionalista, enquanto, para outros, o epiteto será de revolucionário e ousado. No entanto, julgo que, em ambas as leituras, Raul Lino será sempre considerado um dos grandes arquitectos portugueses do século XX, sendo a sua vasta e ecléctica obra reconhecida como ímpar no panorama arquitectónico nacional. 

Esboço Aguarelado de Raul Lino – Casa de Francisco Costa
Na observação dos especialistas da nossa História da Arte, a obra de Raul Lino assenta em três postulados interligados e permanentemente consolidados. O primeiro, «num arquétipo culturalista, no qual predomina a ideia de que só o conhecimento do terreno/paisagem sobrevalorizam conceitos e valores tradicionais da pura arquitectura portuguesa». O segundo, num reconhecimento de que estamos perante um registo romântico ruralista, onde Raul Lino vai «procurar a naturalidade, a integração paisagística, a simplicidade, a harmonia decorativa, a estética das proporções, a funcionalidade prática e simbólica das casas alegres e simples que, no seu entender, constituíam a tradição popular nacional, camponesa ou urbana». E, por último, as influências filosóficas e ideológicas recebidas e estruturadas – muito em resultado de uma materialização teórica obtida no seu percurso académico realizado na Alemanha e em Inglaterra –, e, posteriormente, aplicadas nas suas sínteses arquitectónicas em Sintra e em Portugal, no que respeita à sua arquitectura doméstica, paisagística, monumental ou urbana.
Os desenhos e os perfis finais, muitos deles aguarelados, enunciam os elementos e as virtudes que, nos seus projectos mais amorosamente concretizados, configuram a sua mítica recriação da "casa portuguesa". Para Raul Lino, «a arquitectura só ganharia sentido, quer prático quer simbólico, quando organicamente integrada na paisagem natural e na cultura ou no espírito do próprio homem que nela habita», em rejeição absoluta às concepções científicas e racionalizantes da habitação e do espaço, quer fossem exemplos de mau gosto de fin-de-siècle ou de um racionalizante modernismo arquitectónico.
Raul Lino encontrou em Francisco Costa um interlocutor de excelência nesta aplicação gramatical de soluções arquitectónicas, equacionadas na base da sensibilidade lírica interpretativa do espírito nacional da época e da contextualização filosofada na leitura da sua alma poética.

Esboços de Raul Lino – Casa de Francisco Costa
Ora, quando nos abeiramos da janela alpendrada da casa de Francisco Costa, identificamos, de imediato, a clareza da aplicação do conceito do entender e interpretar o "espírito do lugar", bem como o riscar dos espaços e recantos do projecto, de acordo com as necessidades dos momentos contemplativos, penserosos e criativos do detentor final da obra. Segundo Carlos Manique, em artigo sobre esta casa e os escritos do seu proprietário, houve grande cumplicidade entre o poeta e o arquitecto no percurso da elaboração do projecto, intuindo Raul Lino que o seu desenho iria possibilitar que o escritor, em Diálogos Estéticos expressasse as suas certezas de que, ali, naquele alpendre sobranceiro à serra, preenchida de verdes e neblinas movediças, se podiam escrever romances e reflectir sobre a poesia deles.
Na interpretação e leitura de Irene Ribeiro (Arquitectura, Paisagem e Sintra. Raul Lino Romântico), o arquitecto considerava a casa como o espaço privilegiado do homem, visto como um lugar de abrigo e refúgio e de «realização da própria essência humana, quer pela sua dimensão material – a luz, o ar, o isolamento, a comodidade, a solidez, a companhia dos objectos, quer pela dimensão espiritual - condição de intimidade, recolhimento, protecção e hospitalidade, factor de paz, afecto e liberdade
Raul Lino não procurou, apenas, promover modelos éticos e estéticos, identificados com a tradição cultural e nacionalista, bem à mentalidade conservadora e individualizante da época, ele pretendeu educar e moralizar o espirito e as sensibilidades sociais para as suas verdades e valores, lidos na aplicação dos materiais, na negação do pastiche proveniente das influências estrangeiradas, na importância atribuída ao jardim e à decoração interior, desenhados e articulados, 4 arquitectonicamente, com elementos considerados tipicamente portugueses: beirais, alpendres, azulejos, cantaria, caiação.


A Casa de Francisco Costa integra-se, perfeitamente nesta leitura, tanto pela sua estrutura arquitectónica modelar, quer pelo seu significado. A par disso, a paisagem envolvente da Sintra que dali se avizinha corresponde ao gosto do desafio ideológico do arquitecto. Deste ponto, também se sentem as forças naturais e desafiantes de «um terreno descontínuo, de relevo muito variado, onde o céu nunca se vê num hemisfério total, com grandes variações de luz e sombra e uma vegetação que funciona como diferentes filtros do olhar», conferindo-lhe, tudo isto, uma aura de encantamento e mistério que vai expressivamente ao encontro do ao arquétipo romântico do arquitecto Raul Lino.
Feito este pequeno apontamento, gostava de deixar, também, registado a minha opinião sobre o emprego a dar a este magnifico espaço sem subverter o que autor do projecto e proprietário entendiam e interpretavam por "espírito do lugar" e criando novos acordos entre os espaços e os recantos desenhados no projecto com novas utilizações e necessidades, também elas proporcionadoras de momentos contemplativos, penserosos e criativos. Refiro-me, em concreto, à instalação neste edifício dos serviços do Arquivo Histórico do Município de Sintra que, segundo murmurativos falares, irá sair da sua primitiva, única e actual morada, no Palácio Valenças.
Esta opinião de instalar neste espaço o Arquivo Histórico não se resume a um simples exercício académico, analisados que são os factores de ordem prática consentâneos a uma deslocação do Arquivo, julgo que este aproveitamento e, consequente, integração do edifício existente e da área adjacente responde como a solução mais consensual em reposta a três itens: O primeiro, como processo mais enquadrado e digno de Salvaguarda e Promoção do Património Arquivístico Municipal dos suportes de memória dos 860 anos de existência do Concelho de Sintra; O segundo, visto como aproveitamento e requalificação do Património Edificado Municipal com identificação histórica; E, o terceiro, como espaço passível de ser alvo de uma intervenção consentânea com as necessidades especificas de segurança, de funcionamento e de preservação imposta a um Arquivo Municipal.
Em suma, a escolha da Casa do Escritor francisco Costa, como possibilidade de instalação do Arquivo Histórico, justifica-se, acima de tudo, na oportunidade de se utilizar propriedade municipal e, paralelamente, no possuir uma dualidade funcional que qualquer Arquivo Histórico deve ter em linha de conta, através da observação das necessidades dos utilizadores e das condições de acesso aos documentos. Um edifício para Arquivo não pode estar fisicamente inacessível aos utilizadores, sejam eles cidadãos anónimos que procuram um documento probatório, ou estudantes e investigadores que pesquisam informação histórica ou, até, funcionários da autarquia que necessitam do registo administrativo. Deste modo, considero que a localização escolhida satisfaz, plenamente, esta premissa, pois coloca o Arquivo Histórico suficientemente perto dos organismos e com uma boa acessibilidade à população. Considero, ainda, que os três pisos do edifício respondem às necessidades de instalação do Arquivo Histórico, na perspectiva de utilização arquitectónica requalificada, observadas que são as três áreas funcionais do serviço: Áreas de Tratamento Técnico e Classificação, Áreas de Depósitos e Recepção Documental e, por último, Áreas de Circulação Pública e de Consulta.
As particularidades e a dimensão do actual Arquivo Histórico, instalado no Palácio Valenças, no que respeita aos dois circuitos de circulação documental e de circulação do público, encontram paralelismos nas áreas limpas e nos espaços da Casa. Aliás quem conheceu a casa por dentro, com as características mobiliadas do seu antigo proprietário, consegue perceber que a única alteração será na altura do vão de prateleira, porque onde, antes, havia estantes para livros, agora poderá passar a haver estantes para caixas de arquivo, mantendo-se a função do destino dos seus espaços – obviamente, impondo um conjunto de requisitos específicos, consoante a sua utilização, mas nada mais do que isso. Na cave do edifício poderão ser instalados os depósitos, bastando, para isso, criar as condições de impermeabilidade, arejamento e controle de humidade adequados à segurança e salvaguarda da documentação, enquanto que os locais de trabalho e de consulta pública se distribuirão na observação dos espaços, naquilo que eles em tempos foram, escritórios e salas de estar.
Estou totalmente convencido que esta proposta é exequível no seu propósito e na dimensão do seu custo financeiro e, igualmente, imbuído do espirito do lugar e da memória do escritor Francisco Costa, como responsável pela criação do Arquivo Histórico do Município de Sintra e seu primeiro arquivista.



Baleia. 10 de Abril de 2014

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O druida da Regaleira

FERNANDO MORAIS GOMES

Executado o solicitado, Manini e Carvalho Monteiro faziam a primeira visita ao poço, uma impressiva galeria com escadaria em espiral sustentada por colunas esculpidas.

-Signore Monteiro, está como pediu, nove patamares separados por lanços de quinze degraus cada, e referências à Divina Comédia. Lá em baixo mandei embutir em mármore a rosa-dos-ventos sobre a cruz templária -ia explicando o italiano, cenógrafo de óperas metido a arquitecto.

-Perfeito! -soltou o velho Monteiro, tirando a cartola e escorrendo suor, esse era o seu emblema heráldico e indicativo da Ordem Rosa-Cruz, tudo estudara para dar cunho simbólico à Quinta da Regaleira, onde pedras de Ança chegavam às toneladas e canteiros trabalhavam sem parar há quatro anos. Com ar enigmático, deixou escapar um comentário:

-Sabe que é impossível a alguém elevar-se para a luz sem antes descer ao inferno? Só o afrontar do Mal em nome do Bem permite o acesso aos estados superiores do Ser!

Entrados no poço, o eco ampliou como um rugido a tonitruante voz do magnata. O labiríntico poço estava ligado por várias galerias e túneis a outros pontos da quinta, a Entrada dos Guardiães, o Lago da Cascata e o Poço Imperfeito, os morcegos deambulavam, guardiões do escuro e do desassossego. Pela primeira vez iria subir a escadaria, qual ritual, secreto e cadenciado, começando pela torre subterrânea. Antes de subir, levantou um braço e abordou Manini:

-Este era já o Espaço, é agora o Tempo de abandonar o velho e enfrentar o novo. A cada entrada, um novo nascimento, uma nova renovação…

-Como vê, sente-se a mão do Grande Arquitecto…-ironizou Manini, retorcendo o bigode.

-Neste caso, você, meu caro! -retorquiu o ricaço, espetando uma palmada nas costas do italiano.

-Agora repare: saindo da escada em espiral, o elemento aquático ganha novo esplendor, previ uma passagem sobre o lago por cima de quinze pedras ziguezagueantes -com as mãos abertas e gestos largos, Manini explicava o plano, qual mapa do tesouro, Monteiro tomava atenção aos pormenores, enquanto dois cisnes brancos nadavam no lago. Passaram de seguida por uma íbis egípcia, logo surgindo a estátua de um leão encravada entre três bancos:

-Este leão simboliza os reis de Chipre, familiares dos Lusignan, seus antepassados. Eu mesmo o desenhei!

-Podia ser maior…E agora?

-Agora sobe-se a torre, em direcção à cripta.

A escada em caracol remetia-os para um mundo de sombras que a megalomania do velho bibliófilo idealizara, uma hiperbólica teia acabada de ser tecida. Passando ao palácio, para onde a biblioteca de Lisboa estava a ser transferida, Monteiro fez questão que Manini observasse um livro adquirido recentemente:

-Conhece este livro? -um largo volume encadernado continha a cópia de um manuscrito, Fama Fraternitatis. Abrindo-o desfiou:

-Aqui está a verdadeira história dos rosa cruzes. Sabia que o Rosenkrautz era descendente de uma família alemã que abraçava as doutrinas albigenses? Toda a família foi condenada à morte por Conrad de Turíngia, excepto ele. Com cinco anos foi levado secretamente para um mosteiro onde conheceu os quatro Irmãos que mais tarde fundariam a Irmandade Rosa Cruz.

Manini ouvia em silêncio, mais interessado num magnífico relógio que dois empregados acabavam de trazer com luvas brancas. O milionário reparou, e foi mostrar-lhe o troféu:

-Já tinha visto o meu Leroy O1? Esteve na exposição de Paris, tem um mecanismo de quatro níveis e mais de novecentas peças…Custou-me vinte mil francos, um capricho! -e riu como uma criança com um brinquedo de estimação, o mundo de Carvalho Monteiro era sem dúvida outro.

De seguida, completaram o périplo subindo ao Patamar dos Deuses, a água da serra-mãe corria cristalina na fonte dos íbis, detendo-se na Entrada dos Guardiões, imponente e altiva. Na gruta de Leda, Monteiro colocou a mão sobre o cisne, também ele Zeus do seu império terreno, e suspirou, enrolando a barba:

-Quem nunca demandar o interior da terra nunca encontrará a verdade oculta! Aqui semearei a verdade, caro Manini!

Nesse final de 1909 Carvalho Monteiro tinha o seu Olimpo concluído, deus entre os deuses, sortilégio das trevas, a torre, ímpar, rasgando o céu triunfante. Nos anos seguintes, o caldeirão do Espírito fervilhou nas entranhas da terra-gruta, guardando segredos que só o génio de alguns podia desvendar. Até que uma noite, findava já 1920, o Druida partiu para a Grande Viagem, etéreo descendo ao poço, etapa por etapa, das Trevas á Luz, ecoando ao longe o grasnar dos cisnes brancos, refletidos pela Lua-Prata protectora do Jardim.