terça-feira, 24 de junho de 2014

Em Sintra, de olhos em Salzburgo



 JOÃO CACHADO



Na manhã do passado dia 5 de Junho, durante a apresentação pública do Festival de Sintra 2014, o senhor Presidente da Câmara referiu-se ao Festival de Salzburg para afirmar que, no próximo ano – altura em que vamos comemorar cinquenta edições – Sintra vai ter condições para apresentar uma programação digna da Meca da grande música.
Como já tive oportunidade de esclarecer, no uso de uma hipérbole bem aplicada, o Dr. Basílio Horta apenas pretendeu aproveitar aquela oportunidade de troca de impressões acerca da actual 49ª edição, comprometendo-se, desde já, com o maior empenho pessoal, para a afectação dos recursos indispensáveis, em 2015, à organização de um festival à altura dos seus melhores pergaminhos.
Ao Festival de Salzburg, portanto, se referiu o Presidente. Na realidade, bem pode assim designar-se embora tendo em consideração que, afinal, tão só e especificamente, se alude ao Festival de Verão, certo é que o mais importante, o mais conhecido da cidade dos príncipes arcebispos, mas apenas um dentre mais onze (!!!) que o burgo promove ao longo dos doze meses do ano, cada um dos quais importantíssimo, e também designado como festival de Salzburg…
Confirmando como assim é, durante temporadas sucessivas, a partir de Salzburg, subscrevi artigos para o Jornal de Sintra, três vezes por ano: um, durante a Mozartwoche [Semana Mozart], festival de Inverno, exclusivamente dedicado a Mozart, quase duas semanas entre Janeiro/Fevereiro, coincidindo com o aniversário de Mozart (27 de Janeiro); um outro, o Österfestspiel [Festival da Páscoa] e ainda o Salzburg Festspiel no Verão. E bem posso gabar-me do sucesso dessa escrita porquanto alguns dos meus leitores acabaram mesmo por ir a Salzburg.
A montante de uma fascinante realidade, que nos remete para um quadro deveras propício de cidade dos festivais, em que as belezas naturais e o património edificado desempenham papel crucial, cumpre lembrar que, de há muitas dezenas de anos a esta parte, Salzburg se apetrechou para acolher uma grande concentração de eventos musicais.
Essencialmente, capitalizou o factor da localização geográfica estratégica. Basta ter em consideração que alguns dos meus amigos, vivendo em Milão ou Stutgart fazem a viagem de ida e volta no mesmo dia, para não referir os de Munique, que estão a dois passos. Estranho, estranho é o que comigo acontece que, para lá chegar e regressar a casa, tenho de fazer um total de quase seis mil quilómetros! Como chego a lá ir três vezes por ano…
Números impressionantes
Então, passarei a apresentar os dados estatísticos mais recentes, referentes ao ano de 2013 e, reparem bem, só no que se refere ao Festival de Verão. Estão preparados? Pois bem, durante os 40 dias da iniciativa, dispondo de 14 auditórios, houve 293 espectáculos, dos quais 38 récitas de 6 grandes produções de ópera, 9 de récitas concertantes de ópera, 94 de concertos sinfónicos, coral-sinfónicos e recitais, 60 de récitas de teatro, 37 de espectáculos para crianças, 1 baile, 35 espectáculos especiais, 19 ensaios gerais abertos ao público.
Quanto aos bilhetes, estiveram 256.285 disponíveis (estão mesmo a ler bem, duzentos e cinquenta e seis mil, duzentos e oitenta e cinco ilhetes!), dos quais 73.834 referentes às óperas, 62.719 às peças de teatro, 119.732 aos concertos. Os espetadores provieram de 73 países dos quais 39 eram não europeus. Vendeu-se 93% dos bilhetes disponíveis sendo de E:28.285.082 (vinte e oito milhões, duzentos e oitenta e cinco mil e oitenta e dois Euros) a receita da bilheteira. Estiveram acreditados 653 jornalistas ao serviço dos media de 35 países.
Quanto às receitas, a distribuição é a seguinte: da venda dos bilhetes, 46%, da Associação dos Amigos e patrocinadores do Festival, 4%, Patrocínios e dádivas, 18%, Financiamento Público, 17%, Fundo de Promoção Turística, 4%, Outras Receitas, 11%. O último estudo datado de 2011, elaborado pelo Zentrum für Zukunftsstudien Fachhochschule Salzburg, entre outras conclusões, demonstra que o efeito deste Festival de Verão no domínio das receitas fiscais equivale ao triplo do montante do investimento das entidades públicas. Finalmente, que o impacto geral do Festival no volume de negócios e na produtividade se cifra em cerca de 276 milhões de euros! E, não esqueçam, em apenas 40 dias de Festival.
Valerá a pena, em Sintra, ter estes dados em consideração? E ainda lembrar os casos de outros famosos festivais como Bayreuth, Verona, Luzern que também já me têm ocupado nas páginas deste jornal? Julgo que, salvaguardadas as questões de escala, se se pretende que Sintra volte a ocupar um lugar de referência nacional, permitindo-se lançar algumas pontes além fronteiras, então estas fontes podem ser preciosas. Voltaremos a este assunto.




  Salzburg Festspiel


[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Ferreira de Castro evocado por Miguel Real

MIGUEL REAL


FERREIRA DE CASTRO

“A Experiência” – um notável romance

Quarenta anos após a morte do autor, a editora Cavalo de Ferro e o editor Diogo Madre Deus, em colaboração com Ricardo A. Alves, director do Museu Ferreira de Castro, em Sintra, decidiram dar novo alento à obra de Ferreira de Castro publicando de novo a sua obra, há muito desaparecida dos escaparates das livrarias.

Caso o leitor queira revisitar a obra de Ferreira de Castro, pode começar – e começa muito bem – por um dos romances recentemente reeditados, A Experiência, publicado em 1ª edição em 1954. Tal como Os Emigrantes ou A Selva, A Experiência constitui, de facto, uma notável síntese do estilo e da visão do mundo do autor.

Dividido entre duas correntes estéticas complementares, o Naturalismo e o Realismo, ambas datadas da primeira metade do século XX, prolongamento de experiências literárias do fim de século anterior, Ferreira de Castro harmoniza sabiamente estas duas vertentes literárias, conjugando-as, de um modo superior, com os ideais humanistas da igualdade e da justiça sociais do Anarquismo, sua permanente visão política da sociedade e do homem.

Do Naturalismo, Ferreira de Castro recolhe os aspectos patológicos e perversos da sociedade (a prostituição; a miséria social sem redenção; as doenças venéreas; a velhice sem consolo nem remédio; a necessidade do roubo como modo de sobrevivência numa sociedade que é ela toda uma extorsão do trabalho dos pobres e assalariados; os ambientes pútridos das cadeias; os ambientes corruptores da juventude da vida nos asilos de mendicidade…). Do Realismo, recolhe o retrato narrativo da injustiça social, da opressão dos pobres pelos ricos, do fatalismo de uma vida nascida em miséria contra os privilégios dos embalados em berços de ouro e a necessidade de revolta e de luta política contra as instituições repressivas do Estado.

Assim se compõem as vidas de duas crianças aziagas caídas na infância num asilo: Januário, menino que, em adulto, por amor se tornará ladrão e criminoso, e Clarinda, menina desonrada e engravidada pelo filho da Dona Ludovina, dona da casa para onde foi trabalhar como criada após o encerramento do asilo.

Neste, dirigido por legado testamentário por um professor de Filosofia, tentara-se uma “experiência” educativa fundada na liberdade e no senso de justiça das crianças, educando-as segundo os ditames mais nobres da consciência moral. Porém, por contrário aos costumes e aos interesses das famílias poderosas, quer dizer, ricas, que têm no conjunto de crianças órfãs uma reserva de mão-de-obra para o trabalho nas suas casas e quintas, o asilo foi entregue a freiras e posteriormente fechado e restaurado pela Câmara como prisão. Januário, que em pequeno habitara o asilo, habita agora a novel prisão.

O estilo de Ferreira de Castro em A Experiência cruza aqueles dois tempos diferentes, intercalando-os por via da memória das personagens que, partindo de uma situação futura, uma nova e consumada evolução na sua vida, relatam os acontecimentos do passado.

Em A Experiência, existe uma concepção fatalista da História, no sentido de que estruturas sociais injustas criam e reproduzem vidas individuais infelizes, de que não só ninguém está a salvo como, por mais boa vontade que haja ou se tenha, não se consegue fugir. Esta concepção é sobretudo defendida no tribunal pelo advogado Macieira, uma personagem que, convivendo à mesa com os ricos, é, no entanto, envolvido tanto uma piedade cristã quanto por um desejo de igualdade entre todos os cidadãos.

Nasce assim a necessidade de uma revolução social, que “há-de vir um dia em que haverá pão para todos” (última frase do romance).

No último capítulo, o amor sobressai e vence a injustiça social e Clarinda confessa que esperará pela saída da prisão de Januário para recomeçarem a vida.

Romance tecido de miséria, perversão individual, exploração social e económica e profunda opressão sobre quem nasce pobre.



A Experiência,

Cavalo de Ferro, 224 pp. 13,50 euros.

sábado, 21 de junho de 2014

Cerejas

BÁRBARA JORDÃO RODHNER


Caíram-me as cerejas quando a porta  da entrada de casa bateu. Tinha sete anos. Estava sobre o tampo de uma sanita para ficar à altura digna de um abraço adulto quando ouvi.:

" - Chegou a hora de eu partir."

Era a repetição de uma primeira vez , que eu não me lembro e faço questão de me esquecer. A partir daí a minha mãe trabalhava mais horas, e eu já não podia mais comer cerejas de boca cheia, a escorrer " sangue" ; a lavagem dos vestidos estava legitimamente controlada.

Ainda hoje tremo quando as vejo na beira da estrada ...

Aos fins de semana ia para a minha avó que corrigia testes no escritório e me deixava na cozinha entre tachos e  outras coisas como bacias que transformavam comida normal em ouro através das doces mãos da nossa querida Saravitch ( como o Joaozinho a baptizou )

- Oh menina, coma lá isso com prazer, não se preocupe com as camisas que a Sara esfrega-as tão bem que ficam a brilhar como novas!

A minha vida foi somente isto, o oposto "perfeita", sem falha de malha, entre o real e o real; mas o real em si tem tanto que se lhe diga e pode ser e é tão diferente dependendo de quem o vê.

Hoje sou "crescida", 33, Idade de Cristo , como se diz sempre por aí .

"- Podias ser mais normal Bárbara Jordão "  - Ás vezes penso de mim, para mim.

Podia; senão fossem estas cerejas que nascem e murcham a cada instante dentro de mim; esta dualidade imensa entre a inocência em si e a saudade dessa inocência que perdi.

Quando escrevo publicamente o que sinto ligam-me a perguntar .:

"- Prima, estás doente ?"

- Doente sendo isso o quê?  

"- Sei lá, triste... Deprimida...?"

- Mas se tudo o que sou e sempre fui é uma espécie de tristeza azul poética; achas que estou doente ?

" - Não ." ( sorri)

- Então ... ( sorriu também )

Amo as pessoas que amam de verdade, que se preocupam mas só até ao ponto saudável de querer confirmar que está realmente tudo bem, essas são as que me conhecem ; não gosto de quem interferem no processo criativo vivencial de cada um, acho isso uma necessidade de controlo esmagador. 

Imaginemos que ligávamos aos " mega cromos" do sucesso financeiro e lhes perguntávamos se estavam doentes por fazerem mais um milhão ?

Eu cá ligava, mas era para pedir uns míseros 1.500€ que não tenho e me fazem tanta falta para fazer umas obras na casa que com a tempestade frenética deste inverno se estragou.

Dizem sempre que o suicídio é genético , assim como o cancro, ter olhos verdes e essas tretas todas; eu acho que nunca me vou suicidar porque o meu gosto é pela vida é esse mesmo; enorme mas não por uma vida "eufórica" , estupidamente feliz,  que nos vendem nos retratos publicitários. Eu também os sei compor, repor , estudei design de comunicação , edição de vídeo e argumentação , e uso-os com prazer para depois os desfazer; é a aí que reside a lição .:

Não está, nem tem de estar sempre tudo bem! O que eu gosto na vida é essa sua franca fragilidade, como uma andorinha que voa tanto no sol como na chuva ; agora estamos bem, depois já não; paciência !  É a paixão por aquilo que não se vê , que não se explica mas que está aqui, em todo o lado , como um contorno sobre o contorno do que foi feito sem sequer ser imaginado .

Eu imagino as coisas ; coisas que, porque existem dentro da minha cabeça, passam a existir cá fora;  num lugar muito especial, só meu.

Coisas que não são para curar, nem para largar, nem para arrumar porque são as minhas coisas, as coisas que escolhi deixar ficar porque me distingue dos demais.

Quando deixei de poder comer cerejas porque sujava realmente muito a roupa que a minha mãe limpava , sozinha e cansada, passei a coleccionar selos; assaltava caixas de correio e tirava-os com uma pinça e vapor de água quente ( depois devolvia as cartas , juro!)  passei a cola-los todos  num caderno preto improvisado e garanto-vos, com toda a inocência que ainda existe no meu ferido coração , lambe-los sabia-me a cerejas e limão *

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Sob a égide da Senhora Marquesa de Cadaval

JOÃO CACHADO

Ainda o Festival de Sintra cuja programação detalhada tive oportunidade de partilhar convosco na última edição deste jornal. De algum modo, se hoje volto ao assunto, faço-o com um diferente objectivo ao qual, como verificarão, dificilmente me poderia subtrair.

O regresso tem a ver com as justíssimas referências ouvidas no MU.SA à Senhora Marquesa de Cadaval, inicial e principal mentora desta prestigiada iniciativa cultural, que também patrocinou ao longo de várias décadas, para benefício de sucessivas gerações de melómanos.

De tal forma a sua figura se tornou indissociável do Festival que bem pode falar-se de uma omnipresença que, tão significativamente, se mantém mesmo depois de nos ter deixado em 1996 e, em especial, em vésperas de celebrar o meio século de edições já no próximo ano. Ora bem, a partir deste momento, vão permitir que introduza uma vertente pessoal.

Senhora Marquesa de Cadaval, meu mito

Além de balizarem um tempo de contemporaneidade da vida musical portuguesa, estas também são datas que fazem parte da minha cronologia pessoal. Comecei a frequentar as primeiras edições do Festival de Sintra, ainda criança, de calções. E cá estava a Senhora Marquesa de Cadaval. Pela mesma altura, sempre pela mão de meu pai, também em Lisboa, via a Senhora Dona Olga nos recitais e concertos, fossem os do Ciclo de Cultura Musical ou do Festival Gulbenkian e outros, quando, nos anos cinquenta, fui iniciado no gozo da boa música, ao vivo, nos auditórios.

Nessa época, para mim, a Senhora Marquesa já era um mito. E tão impressivo como alguns dos grandes músicos russos que ela própria se empenhou em trazer a Portugal num período em que isso não era nada fácil. Estou a vê-la, por exemplo, no Coliseu, quando cá veio o David Oistrakh, há 54 anos, interpretar o Concerto para Violino em Ré Maior de Beethven, com a Orquestra da Emissora, sob a direcção do Maestro Pedro Freitas Branco, seu grande amigo…

Totalmente fascinado pela sua personalidade, a coisa mais natural deste mundo acabaria por suceder muitos anos mais tarde quando, com Mário João Machado na produção, João Santa Clara na realização, me envolvi na concretização do projecto Marquesa de Cadaval, uma vida de cultura, o filme biográfico de que somos autores João Pereira Bastos e eu próprio.*

Para o efeito, entrevistámos amigos, como Maria de Jesus Barroso Soares, Jorge Sampaio, João Paes, Nella Maissa, Maria Germana Tânger, Luís Pereira Leal ou Luís Santos Ferro – este último como uma colaboração de grande destaque – bem como grandes artistas que beneficiaram do seu desinteressado mecenato, como Daniel Barenboim, Stefan Kovacevitch, Nelson Freire ou  Olga Prats.

Não tem descrição o que, a nível pessoal, aprendi e partilhei. De seu admirador desde criança, posso dizer, sem qualquer ponta de presunção, que passei à condição de membro do círculo dos seus mais afectos, portanto, daqueles que, por todos os meios ao alcance, não perdem oportunidade para lhe honrar a memória e divulgar a sua tão importante como discreta obra.

Por tudo isto, não admira que, na passada sexta-feira, durante a referida sessão de apresentação, além do júbilo, também muito me tivesse emocionado com as informais e tocantes alusões à Senhora Marquesa de Cadaval e à Quinta da Piedade, por parte quer do Prof. Adriano Jordão, actual Director Artístico do Festival quer do Presidente da Câmara Dr. Basílio Horta, quando se dirigiam a Teresa, Condessa de Schönborn-Wiesentheid, neta da ilustre patrona do contíguo Centro Cultural.

Pública promessa

Mantendo-me, tal como indica o título, sob a égide da Senhora Marquesa, confesso que estava à espera das palavras que ouvi de louvor ao trabalho de um seu grande e bom amigo pessoal, o Dr. Luís Pereira Leal que, durante cerca de trinta anos, foi competentíssimo Director Artístico do Festival de Sintra. A ele devemos, tanto em tempo de maior desafogo financeiro como no das recentes dificuldades, a vinda a Sintra dos mais consagrados intérpretes e de jovens valores do universo da música. Estou certo de que, a breve trecho, a CMS não perderá a oportunidade de concretizar a homenagem que é devida.

Finalmente, uma promessa que tem foros de compromisso público do maior realce. Com a satisfação que se lhe adivinha por poder concretizar tão auspicioso anúncio, o senhor Presidente da Câmara, informou e, perante a insistência de Adriano Jordão, confirmou que, em 2015, por ocasião da sua quinquagésima edição, o Festival de Sintra vai ter meios especiais para poder apresentar uma programação digna de Salzburg!... Nem mais nem menos!

Enfim, com os «descontos» que se me impõem perante a tão generosa hipérbole do Dr. Basílio Horta, eu que, há tantos anos, tão bem conheço a esplêndida oferta de Salzburg, adivinho, nas suas palavras, isso sim, um empenho digno da jubilar efeméride e da memória de quem foi a grande impulsionadora do mais sofisticado produto cultural de Sintra.


*O documento biográfico, com cerca de uma hora de duração, foi apresentado pela primeira vez no Centro Cultural Olga Cadaval, em 17 de Janeiro de 2014, por ocasião do aniversário natalício da Senhora Marquesa de Cadaval, já depois de ter sido adquirido pela RTP que assegurou os direitos exclusivos de teledifusão nacional e internacional pelo período de cinco anos. Logo que possível estará disponível no mercado uma versão em DVD.



[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]

Só- Um poema de João Afonso Aguiar

JOÃO AFONSO AGUIAR











Sinto, só, o solo

árido e torrado

e apodreço-me


Bebo, só, o vinho

ácido e martelado

e esqueço-me



Como, só, a carne

azeda e malcheirosa

e adoeço-me


Durmo, só, o sono

intermitente e atormentado

e canso-me


Leio, só, o livro

alegre e alienado

e aborreço-me


Procuro, só, o amor

verdadeiro e tolerante

e perco-me


Vivo, só, o momento

necessitado e expirado

e, de vós, retiro-me



João P. Afonso Aguiar

Sintra, 1 de Junho de 2014

sábado, 7 de junho de 2014

Vermelhos e Azuis

FERNANDO MORAIS GOMES


Desde que voltara de Angola, retornado do império, Alípio Gomes não mais saíra do país. Bancário, casado e sem filhos, dividia o tempo entre o balcão de Pêro Pinheiro e despreocupados verões  na  Manta Rota, num apartamento alugado à época. A sua grande ocupação era a construção duma vivenda no Sabugo, a dez  minutos  do emprego, onde com Adelina passaria o fim dos seus dias, tranquilo, os cinquenta  iam pesando já.

Certo dia, durante um almoço de colegas, empolgados pela conversa e pelo Old Parr, um grupo do banco combinou ir a Milão ver o Benfica com o Inter, na era Camacho, depois do jogo aproveitariam para três dias em passeio. Benfiquistas ferrenhos,  passavam os almoços lembrando jogos de outros tempos, os mais empolgantes sempre contra os lagartos, se bem que o Antunes da contabilidade, leão acérrimo, sempre lembrasse os 7-1 do tempo de Manuel José. Adelina não gostou muito da ideia, quatro homens em Itália não era algo que lhe agradasse muito, mas lá anuiu, a promessa de perfumes e chocolates amenizou o facto de ficar sozinha. Mas teria de lhe ligar todos os dias, e agasalhar-se, que estava a nevar, bem vira na televisão, levar gorro e luvas, e medicamentos para a azia, as pizzas não a convenciam.

Até partirem, os dias foram passados a combinar detalhes, e em sussurro, as facadinhas no matrimónio que haveriam de dar. Mal chegassem  seria tiro e queda, dizia o Amaral, a barriga obesa da imperial e tremoços a comandar as operações, as caras metade ficariam em casa a ver novelas. À cautela, Alípio  até comprou uma caixa de Viagra, nunca usara, mas à solta em terras de Sofia Loren não passaria o tempo  apenas a ver o Scala de Milão, há muito que nem à noite saía, só para visitar o sogro na Azambuja.

No dia aprazado lá partiram livres das mulheres, os colegas que não iam a desdenhar das alegadas facadinhas, já no aeroporto, juntaram-se à parafernália de cachecóis dos lampiões, prometendo quatro golos sem resposta.

Em Milão nevava copiosamente e batedores da polícia aguardavam para conduzir os autocarros com a falange do Glorioso ao estádio, ao som de “Benfica!” e “SLB!”. Desafiador, um fã do Inter profetizava 2-0 com os dedos em riste. O jogo foi logo nessa noite, com o Giuseppe Meazza a abarrotar de lampiões, numa enorme faixa lia-se “Pêro Pinheiro presente”, ideia do Pascoal. Já a viagem na Alitália deixara as hospedeiras atarantadas com os gritos de guerra prometendo a vitória dos encarnados, Milão que se cuidasse que não ia ser ópera, mas baile…

O jogo foi renhido, mas contas feitas, o Inter, desmancha-prazeres, acabou ganhando 4-3, a partir de Lourel o Antunes enviava mensagens pelo telemóvel, foram de carrinho mas viriam de carroça. Depois do balde frio inicial, era preciso afogar as mágoas e partir à caça das ragazzas, por certo ansiosas pelos temerários portoghesi, todos primos do Cristiano Ronaldo, menos na barriga, na careca e no resto.

Mais viajado, o Pascoal descobriu um bar com show erótico, do varão para o sofá e do sofá para a felicidade. Com ar maroto, o Alípio esfregou as mãos, um Viagra azul estava já de parte. Não que precisasse, ia apregoando, mas por causa das tosses, nada como fazer para melhorar a performance, no fim, elas é que pagariam para estar com eles, iam ver. A Adelina não deu por ele os ter comprado, era uma semana de liberdade e a vida são dois dias, afinal. Um contratempo, porém: no dancing não aceitavam cartão, só cash, e juntos não tinham euros que chegassem. Foram a outro, mas novo percalço: entrada só com sapatos de couro, o Barbosa, suburbano, ia de ténis, coisa de pobre, chingou o Alípio, tinha de ser ele a estragar a festa. Num outro, sugerido por um polícia, os preços eram caros, e até para tocar nas bailarinas havia que pagar, o table dance era mais caro que nos bares de alterne lá da zona. Com a coisa complicada, acabaram por ir para o hotel e alugar filmes para ver nos quartos.

No dia seguinte, a descoberta de Milão e partida para o Lago de Garda, uma paisagem de postal salpicada de pitorescas aldeias. Aí chegaram noite cerrada, o hotel era num vilarejo onde fechava tudo às dez, bebidas só no hotel, ficaram à conversa sobre a equipa do Benfica dos anos sessenta com o barman. Adiado, o comprimido azul era um peso morto na bagagem. No último dia, de volta a Milão, com o dinheiro escasseando, a miragem da facadinha era cada vez mais miragem, ao Antunes haveriam de inventar cenas tórridas, para o lagartão se babar de inveja.

Apesar dos dias bem passados, a prometida investida transalpina ficou-se pelo convívio. Valera a pena, apesar de tudo, no avião de regresso até encontraram o Toni, velha glória dos encarnados.

De volta à rotina e entregue a prenda à Adelina, os relatos no bar do Hélder asseveravam a facilidade com que haviam conquistado a Itália, apesar do penalty que não foi penalty. Nos dias seguintes, o quotidiano do banco, as baboseiras do Antunes, o regresso às obras no Sabugo. 
Uma semana mais tarde, ao jantar, a Adelina apareceu branca como a cal da parede:

-Estás bem, amor? Já eram saudades do maridinho, não eram? -confortou Alípio, dando uma garfada no bife.

-Não, não. Não sei o que tenho, estou com uma enxaqueca terrível. Olha, de manhã até tomei um comprimido azul daqueles que levaste a  Milão. Mas não ajudou, acho até que fiquei pior!

Quase engasgado e com o bife entre dentes, correu ao quarto e escondeu as malditas embalagens numa caixa de sapatos, faltava só um, felizmente. Não tinha havido aventura italiana, mas, ou se enganava muito ou uma noite  acalorada vinha pela frente naquele frio Abril do Sabugo.