terça-feira, 12 de agosto de 2014

No café

ANTÓNIO LUÍS LOPES












nada esperes. na mesa em frente ele levanta-se,

ela permanece, depois ele regressa e ela parte,

não aguardes compreensão, não escutes a porta

a bater. nada desejes. trazes esse cão negro da

ansiedade pela trela mas é ele quem te guia, ao

balcão alguém pede um café, a manhã passa,

a vida passa, a rua passa, lá fora a sombra passa

mas nada esperes, o que te prometeram foi

anzol, o que te mostraram foi ilusão, quebra-se um

copo na cozinha e há um riso de cacos no ar.



andamos há quarenta anos nisto, acorda, acorda,

não sei se ouvi num sonho ou foi agora,

nada é certo, nada é nosso, nada nos mostra

a chave da paz que perseguimos. o cão negro rosna.

não queria perder a fé nos homens agora que a

recuperei de Deus mas todos os dias o sol ameaça

desaparecer de vez e é por isso que vivo no medo.

nada esperes, então. Iludiram-te. Enganaram-te.

Nunca é tarde para prender a trela àquele poste

lá fora. E ir embora.

sábado, 9 de agosto de 2014

Sintra, Ribafria, outra música

JOÃO CACHADO


No passado dia 10 de Maio participei na visita à Quinta da Ribafria que a Alagamares promoveu, integrando um grupo que compreendia alguns cidadãos sintrenses interessados e activos na defesa do património local.
 
Depois daquela esclarecedora jornada, continuando preocupados com o estado de abandono e degradação que o local tão manifestamente vinha acusando, reunimos algumas vezes no sentido de equacionar a melhor atitude a tomar, tendo resolvido apresentar à Câmara Municipal de Sintra um documento síntese de propostas de actuação, instrumento de trabalho esse que entregámos ao Senhor Vice-Presidente e Vereador do pelouro da Cultura no dia 17 do passado mês de Julho.

Lembremos que a história da Ribafria nos remete para Gaspar Gonçalves e André Gonçalves Ribafria, prosseguindo a sua posse até Jorge de Mello e, a partir de 2002, passando a património municipal. De então para cá, sem actividade, sem obras de manutenção, a Quinta precisa de uma intervenção muito significativa e urgente para salvaguarda e recuperação do palácio, anexos, capela/mãe d’água e jardins, bem como dos terrenos agrícolas e do estupendo bosque. (*)

No entanto, além da recuperação do património edificado e natural em presença, impõe-se equacionar a vida futura que lhe será mais conveniente, na perspectiva de concretização das mais diversas iniciativas e atitudes culturais, parecendo pacífica a ideia de que o enquadramento epocal daquele magnífico lugar há-de determinar a maioria, senão a totalidade das iniciativas que convém equacionar e promover.


Renascença e Música Antiga


Neste contexto, permitam que, do documento entregue à CMS, passe a citar:

“(…) A Quinta da Torre de Ribafria é um dos espaços patrimoniais mais emblemáticos de Sintra e um raro exemplo da cultura renascentista e das apetências quinhentistas numa busca do locos amoenus, na construção e idealização dos espaços como paraíso terreal. É, só por isso, um património que deve merecer toda a atenção e empenho das entidades competentes na sua preservação e restauro.

Acresce ainda a este valor filosófico - que preside aos gostos do século XVI, com o inevitável retorno à aurea mediocritas ruralis - ser uma propriedade carreada de História e mandada edificar pela única família nobre de origem inteiramente sintrense. Juntamente com a Quinta da Penha Verde, o Palácio Nacional de Sintra, o Paço dos Ribafria na vila, e os mosteiros da Penha Longa, o que resta do Real Mosteiro da Pena e o Convento dos Capuchos, forma um conjunto que possibilita uma viagem bastante interessante pelo Humanismo e pelo Renascimento português. (…)”

[Relatório da visita técnica promovida pela Alagamares-Associação Cultural e por um grupo de cidadãos à Quinta da Ribafria em 10 de Maio de 2014]

São estas considerações que, na sequência dos parágrafos anteriores, me autorizam à abordagem do assunto que pretendo partilhar. Pois bem, tratando-se de um espaço cujas características tão singulares nos remetem para o período da Renascença, parecerá conveniente que um dos mais importantes factores de actuação aponte para que a programação geral das actividades culturais a desenvolver na Ribafria obedeça a uma grelha cuja matriz tenha aquele específico período como primordial do seu enquadramento.

Ou seja, neste entendimento, que ali aconteça Poesia da Renascença, Teatro da Renascença, Música da Renascença, etc, sem que, naturalmente, vínculo tão determinante, impeça qualquer intervenção de contexto epocal diferente, inclusive de vanguarda.

Em Portugal, no que à Música então produzida diz respeito, são escassas as iniciativas que têm por objecto a proposta de eventos cujos programas integrem peças da época que, para todos os efeitos, compreende um longo período de composição, bem podendo afirmar-se jamais ter sido ultrapassada quer em qualidade quer em quantidade.

Pois, se alguma tese eu defendo quanto aos locais onde a música erudita se faz em Sintra, se não posso estar mais de acordo relativamente à prática de os Palácios do período Romântico acolherem as obras mais afins, marca distintiva da programação do Festival de Sintra, nomeadamente no âmbito da pianística, então, também se me impõe que a Ribafria se possa afirmar como lugar geométrico das propostas daquela que, lato sensu, é abrangida pela designação de Música Antiga.

No entanto, terminando já, tal apenas será possível se houver o discernimento bastante para especializar o lugar nesse preciso sentido. Naturalmente, haveria que contar com o apoio dos bons especialistas portugueses do período em questão que, estou certo, transformariam esta hipótese de trabalho em mais outra grande mais-valia para Sintra.


(*) Entretanto, já estão em curso trabalhos de limpeza, sob orientação da Escola Profissional de Recuperação do Património de Sintra, intervenção cuja qualidade é proverbial garantia de qualidade. Enfim, bons sinais não faltam para que mantenhamos a esperança.

 [João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

História em amarelo sépia

FERNANDO MORAIS GOMES


Chove na mente, é um dilúvio a alma, o fim, sempre ele espreitando, sinistra silhueta da esperança fugidia. Encafuado poeta de café, apátrida dos tempos, velha sombra dos espaços, em silêncio calcorreio o pontão sem gente. Como desolada está a praia, apesar de Agosto, cinzenta como o espírito, náufragos de calção circulam aflitos por miragens. Recolho ao carro, e ao cúmplice rádio de tranquilizantes melodias.

Agosto. É Inverno no país das flores, de vez foram os cravos furtados das armas, agora apontadas a subjugados prisioneiros no país que já foi de Zeca. Volta Zeca, volta de teu túmulo, adormecida guitarra talhada no ventre dum povo culpado por sonhar. O mar provoca, desafia a vencer, qual Gama, da nau catrineta, cavalgar a onda, ousando, e logo um atávico apelo a desistir, vencido de si, temeroso. Os amanhãs perdem cor, pardacentos, longe, muito longe, no chamuscado purgatório entre o pesadelo e a ilusão. No leitor do carro, passo Kurt Weil, por onde o caminho para o próximo whisky bar?…

Escrevo. Apago. Escrevo de novo. Rasgo, despótico. Que fazer? Dar o corpo à arma? Recomeçar, com novos cravos em cano agora apontado a nós? Brancos, desta vez querem-se brancos, alvos e puros. A Primavera fugiu… Volta, és nossa, és Sul, és Sal, e tão longe de Portugal…

Ululantes hordas de conformados patrulham a Cidade, raptada pelo tédio e pelo spleen, assustam-te, confessa. Mudaram as madrugadas, antes límpidas e ledas, e agora ameaçadoras, promessa de castigos, cruéis e castradores, estivais armagedeões relampejados. Que fazer para não despertar, para voltar ao filme onde todos são felizes, que inveja. Ah, como é puro o cheiro límpido do iodo, apesar do verão avaro.

Caneta, papel, umas linhas para a imortalidade esculpidas no areal, ao lado ujm trilho de passos na areia molhada. Empolga, a canção do CD, é Brel, é Portugal amarelo scotch em fundo, albergue de errantes, trôpego de futuro e sem pedras de gelo. Vamos para Alabama acolher-nos num whisky bar! Cheers! Lá vai a Sílvia com o caniche, a caminho do café, e eu sóbrio ainda.

O Chico emigrou, cansado de desesperar, emigrou não, globalizou-se, o Zé Luís morre aos poucos, licenciado em currículos e catedrático de bares. Ao Manel surpreendi ouvindo o Zeca e Doors, cinco aguardentes durou, no esconso da casa do Gil, só pela madrugada alcançou o nirvana, enroscado no sofá do canto.

No quiosque, anoréticos jornais vendem insegurança e medo, intranquilos, invasores, cardíaco relato dum diário crepúsculo. Aconselhado deixar de ler jornais. Aliás, deixar de ler em absoluto. De tão abusadas, gastaram-se as palavras, analfabetos, não descobrimos novas, entre silêncios soltamos enredos, esboçamos adjectivos, talvez se salve o mundo aí pelo quinto gin. Limão. É o limão que tira a piada à vida.

Deixou-me, a Mafalda, cansou-se. Também eu a havia deixado já, amancebado com o álcool redentor e concubino. Amigo certo, presenteou-me com uma poética cirrose, maleita de intelectual, é o mínimo. Não morrerei de pijama, mas de fraque, não se vai para o outro mundo de pijama, espero que no tal Céu haja Visa, parece que não deixam levar dinheiro. De partida agora, posso pensar em novas madrugadas com cravos brancos, quero cravos brancos sobre uma laje fria, fica bem nas fotos, com Chopin em fundo, talvez o Fernando faça um poema. Campa, sim, quero uma campa, quero alistar-me no exército das cruzes, entre memoriais de defuntos imortais, nada do irrespirável e tórrido crematório, coisa para frango ou Joana d'Arc.

Neste  texto derradeiro registo silenciosos gritos e cúmplices cirroses servidas com caneta de aparo. Passou a Ângela no calçadão, trauteio baixinho uma canção de Brel, pelo retrovisor vejo o Max no banco de trás, grande Max, já partiu, sete Outonos atrás, espera aí Max, vou a caminho!

É cruel, a caneta de aparo. As palavras sangram e impiedoso o aparo mata, invasiva arma contra as palavras vãs, com tinta preta se deviam proclamar revoluções, gritar esperanças, borrar epitáfios, apunhalar palavras errantes em confidenciais cadernos.  

É Sábado. Cristo morreu, Marx também, e não me sinto lá muito bem. São cruéis os sábados, convocam à lassidão do corpo. O homem de Nazaré morreu numa sexta, aninhado entre pregos de aço, mas ressuscitou num sábado, hora de Greenwich. Todos os dias ressuscito para tornar a morrer. Melhor ir a mais um copo no bar. Esfíngico, o sol põe-se no horizonte, não serviu de nada hoje, fugido do Verão, o CD no carro repete o Brel em looping, Max, vou já!…. Eis-me poeta de cirroses, servidas em copo alto, em vésperas da Libertação.
Pedro Toscano, pintor de amarelos sépia

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A guerra do soldado Avelino

FERNANDO MORAIS GOMES



Avelino nunca saíra de Fontanelas, feliz entre as vacas e hortaliças que diariamente levava à Malveira, a chamada à tropa, ainda mal fizera dezoito anos, deixou os velhos pais em cuidado, aflita, a Anacleta acendeu uma vela pelo seu cachopo. Em 1916, Portugal entrara na Grande Guerra, e depois de uma recruta apressada, Avelino era mandado para o Corpo Expedicionário, integrando o Corpo de Artilharia Pesada Independente, composto por três grupos mistos de baterias de artilharia pesada.



Em Janeiro de 1917 lá embarcou para França, chegando a Brest em Fevereiro, e só em finais de Abril chegou às trincheiras. Não entendia aquela guerra, apenas que detestava a ração inglesa e o frio, contrastante com a brisa de Fontanelas. O tempo foi passando, escutando o matraquear da artilharia e esculpindo varinhas com uma navalha. Ao fim de um ano na frente, nunca gozou uma licença, sendo analfabeto, jamais escreveu à família. Em casa, a mãe temia, os ataques com gás pimenta podiam ser fatais, agoirava Venâncio, o regedor.



Na frente viu tombar camaradas, ao Gervásio, da sua brigada, que lhe morreu nos braços, ficou com o relógio, para entregar ao filho, em Palmela, pediu-lhe à hora da morte. O general Tamagnini nada informava sobre as operações, mas sentia-se que as coisas estavam mal.



Certo dia, o general Haking, mandou a Divisão de Avelino tomar novas posições. À sua brigada competia guarnecer três linhas de trincheiras e a linha de defesa baseada em baluartes ao longo de 40 quilómetros. A norte dos portugueses, estava a 40ªDivisão de Infantaria britânica, a sul, a 55ª.



Pelas quatro da manhã de 9 de Abril de 1918, estava a brigada de Avelino estacionada junto à ribeira de La Lys, entre Gravelle e Armentières, quando os alemães desencadearam uma barragem de artilharia com mais de duas horas de duração. Emboscados, os portugueses, mais de quinze mil, viram-se subitamente em combate, subordinados ao Corpo Britânico, comandava-os Gomes da Costa. Oito divisões do 6º Exército Alemão, com 55 000 homens, comandados pelo general von Quast lançavam a operação Georgette, visando tomar Calais e Boulogne-sur-Mer. Desorganizados, em apenas quatro horas perdeu-se um terço dos efectivos, bem como 327 oficiais. Desesperados, os alemães queriam abrir um flanco, e o sector português era o sítio adequado.



Na trincheira, sob fogo cruzado, Avelino rangia os dentes e fazia fogo com a Lewis, a Luísa, como chamava à sua metralhadora, parecia dia de círio, tal o foguetório, assassinas, as balas  cruzavam os ares, de forma alucinante. Ao seu lado, o Ramires e mais três tombaram mortos, o Tomé, polidor em Loures, gritava, atingido por uma bala. Ao fim de uma hora, só Avelino restava vivo na trincheira, deambulando entre os mortos, recolhendo cunhetes de balas que foi tirando de camaradas, só pela noite, extenuado e ferido, se conseguiu reunir ao 8º Batalhão. Arrastando-se, conseguiram chegar ao hospital de Saint Venant, pejado de feridos, e aí, ardendo em febre, pôde enfim descansar. Tinha um lenho na perna, mas não inspirava cuidados. Ao passar pela sala de tratamentos, ouviu chamar o seu nome, em português:



-Avelino!



Espantado, viu um jovem franzino, deitado numa maca com um braço esfacelado esperando para ser operado, o ar sério do médico prenunciava uma amputação. Era o Sebastião Trina, de Lourel, companheiro de cavalhadas em Sintra, ignorava que também estivesse na Flandres.



-Sebastião. Que te aconteceu, homem? – apesar de ferido,  e a arrastar a perna, Avelino  foi abraçá-lo, no ar angustiado do amigo,  pinga-amor de Sintra, anteviu mais um estropiado, sorvido por uma guerra alheia e perseguido por gente que nunca lhe fizera mal. O destino tecia a sua teia, e, nesse dia, marcou encontro nas margens do La Lys.



No terreno, a seriedade da situação levou o General Haking a chamar os reservistas para ajudar a 3ª Brigada portuguesa a conter o inimigo. O 1º Batalhão do King Edward's Horse e o 11º de Ciclistas foram enviados para Lacouture, onde se uniram aos portugueses dos 13º e 15º Batalhões, para defender a vila. Lacouture resistiu 26 horas, mas caiu a 10 de Abril, tendo os alemães capturado 168 portugueses e 77 britânicos. Nesse dia negro, os portugueses sofreram sete mil e quinhentas baixas, entre oficiais e soldados, 398 tombaram e mais de seis mil foram aprisionados. Em perda, os alemães ainda conseguiram abrir uma brecha de cinco quilómetros nas linhas aliadas, desmoralizadas, as 1ª e 2ª Brigadas da Infantaria portuguesa retiraram a 13 de Abril para uma nova linha de defesa, entre Lilliers e Stennberg. O comando britânico ainda enviou duas divisões para fechar as linhas aliadas, mas, para os portugueses, a batalha estava acabada.



No mês seguinte, Avelino e Sebastião foram evacuados para Portugal, sem um braço, o choro convulsivo da mãe recebeu Sebastião no seu regresso a casa. Para Avelino, uns arranhões apenas, e uma cicatriz a lembrar a guerra.



Já recuperado, foi a Palmela. Num mísero casebre, uma mulher do campo e um rapaz descalço receberam-no, sem saber quem era o estranho que os visitava. Sem corda, parado no tempo, o relógio do Gervásio foi enfim entregue ao filho, orgulhoso do pai herói, que pelos outros deu a vida que não vivera.