domingo, 12 de outubro de 2014

“Não há dúvida. É bagaço, é."

CARLOS CAMACHO


A URDFG (União Recreativa e Desportiva de Fontanelas e Gouveia) foi fundada em 15 de Agosto de 1942, fruto da carolice de uma boa mão cheia de pessoas que deram muito de si para a construção do que é hoje esta digna instituição septuagenária.

Do início ou quase desde o início, destacou-se uma figura carismática pela sua sempre disponibilidade, generosidade e qualidade petisqueira na ajuda ao “Bufete” da Sociedade como era, à data, chamada esta associação recreativa da aldeia de Fontanelas, na freguesia de S. João das Lampas, Concelho de Sintra, distrito de Lisboa. Para além dos bagacinhos e copos de três servidos no “bufete”, era também habitual e obrigatório a bela bifana. Aqui entra o “Ti Chico Ai Ai” (alcunha de Francisco da Silva Jacinto), devoto e dedicado fazedor de bifanas durante várias décadas na Sociedade. Bifana 5 paus, sandes de molho 10 tostões. Era tal o perfume emanado daquela velha frigideira com molho de 4 bailes, que ninguém resistia à tentação, mesmo que tivesse acabado de comer ceia de matança de porco em casa. Mas como não há bela sem senão e ninguém é perfeito, o Ti Chico tinha alguma dificuldade nas restantes tarefas do bufete, nomeadamente a identificação das bebidas brancas de garrafas dispostas na prateleira de mármore lióz, fixas à parede por cima da pia de enxaguar copos. O verdadeiro desafio deu-se quando um freguês exigente quis um bagaço numa altura em que só lá estava o Ti Chico de serviço. E agora? Não há problema!!! Retirando uma garrafa da prateleira questiona-se: “Será bagaço ou Anis?” -Garrafa à boca. “É Anis” exclamou prontamente. “E esta? Tem cor de bagaço!” Vai à boca mais uma - “ Nãaaa! É genebra”. Mais uma -“E esta?” Mais um gole directo à garrafa. Sem perder a embalagem, enche o copo do freguês e diz, triunfante: “Não há dúvida. É bagaço, é”. Dois mil réis e está despachado. Saudades das bifanas do “Ti Chico Ai Ai”.  

sábado, 11 de outubro de 2014

Valsa Lenta com Tejo em fundo

FERNANDO MORAIS GOMES
Destroços dum póstumo sol, sequestradores de disfarçadas libidos, tudo é incerto, monótono, e débil plágio de vidas não vividas. Eis-me só, louco do desejo de viver, louco da insana lucidez de querer amar, abraçar, ser cúmplice, e do lado de lá aconselharem calma, soporíferos, analgésicos, derrotas a que outros chamam vida- vidinha será- sem chama ou centelha. Tudo isto penso em torno dum bagaço neste boteco em Alfama onde fugido do Telhal me acolhi, e exilado fiquei.
Para vós, leitores, aqui fica a minha história, a história de António Ameal, terminal quase. 
Tudo começou no dia em que toldado pelo tinto do Higino, urinei as malvas da sua varanda esconsa. E, loucura das loucuras, acariciei as mamas da Mena, deixando-me louco de desejo, e abocanhando uma rosa, juntos dançámos um invisível Gardel, juntando os nossos corpos transpirados.
Muitos anos assim foi, desde que nos idos de setenta vim de Estremoz cursar Letras em Lisboa, e contra hipócritas costumes me passeei nu na estação do Rossio, apelando a que se desnudasse a Verdade, a diáfana, a do Eça, amordaçada em contentores de valores e etiquetas. Foi o meu primeiro internamento. Corria 1975, e Lisboa gritava nas paredes pichadas de hinos à liberdade. Não para mim, porém. Fugi, depois de amordaçar um enfermeiro, coitado, borrou-se à vista da minha dentadura de plástico. Gritei revoluções, dormi com putas, vivi à conta de amigos a quem a revolução sorriu, e, volta não volta, a silhueta do Telhal e eu, amigos inseparáveis e odiados. Voltei pela última vez há cinco anos, depois de tentar amassar pão no rabo enfarinhado da Violeta, brochista reformada que durante anos aviara estivadores no Campo das Cebolas. Para reeditar a Grande Farra. Azar! O médico decretou loucura, para mim era apenas ternura.
É domingo, e cada vez mais Inverno. Para quê sol nos corpos quando gela a alma? Odeio os domingos. Dantes a família almoçava, depois da missa, enfiada nos fatos domingueiros. Já não há famílias, nem missa. Que saudades do passeio ao Ginjal, para comer enguias. Nunca mais comi enguias. Têm passado, os sabores, muitos deles sem futuro. E o rádio, com o relato da bola, gritando cada canto quase antecedendo um enfarte.
É, o passado está todo aí, em álbuns e arquivos de vidas. Amigo, outro bagaço! É bonito falar do passado, por nostalgia ou arrependimento. Tem uma vantagem: ao menos tem-se passado. Ó chefe, apague a televisão, chega de electrodomésticos por hoje!
Não mexe uma palha lá fora, cá dentro corre um vento intranquilo. Que recordarão de mim daqui a vinte anos? Os copos que bebi? Queria ouvir o Morrison, mas estou intemporal, apetece-me música de salão, hoje. Ó chefe, passe aí a polka 117 de Strauss, grande música para um slideshow de vida, feliz e realizada. Não sabe o que é? Falta aqui o Fred para lhe explicar, mas o cabrão foi para o Miguel Bombarda, tem a mania que é um urubu. Eu quero é evadir-me, quero mais bagaço, aumente o som, diga aos vizinhos que enlouqueci e que o som é por conselho médico!
Sinto-me pássaro em melodia de Dvorák. Ainda bem que o domingo está a acabar. Naquele tempo não importavam os domingos, todos os dias eram de Vida, sem separar por semanas, décadas, gerações. Amanhã será segunda. Monday. Dia da Lua. Olhe, esconda a garrafa do bagaço e diga ao mundo que o louco do Telhal desistiu de viver. Só ouvia discos de vinil e num mundo onde não vendem pontas de diamante, riscou-se de membro. Que partiu, ao som da polka, levando os livros, os sonhos, o perfume da Sofia, os passeios ao Ginjal e o bolo de noz da avó. Auf Wierdersehn!. E diga ao Fred que ficaram contas na farmácia, quando lerem no jornal que o corpo de António Ameal foi recuperado do Tejo alguém terá de as pagar!.Mais um bagaço, porra, que não quero morrer sóbrio!

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A Lua mais bela

JOÃO AFONSO AGUIAR










Luz de velhos amores,

os poetas de ti são cantores,

e dos seus fados desafiantes.


Os olhos são natureza,

os cabelos raios de Apolo,

que o mar namora em leveza,

e as estrelas ornam o encanto.


Por ela me apaixonei,

e sou mais do que serei,

ao ver a Lua mais bela

que em Sintra encontrei.


Sintra, Agosto de 2014,

João P. Afonso Aguiar

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A tarte de cereja



EURICO LEOTE
Pé ante pé, umas vezes saltitando e outras tropeçando, caminhei devagar, rumo ao objectivo previamente alinhado e traçado. Enquanto caminhava ocorriam-me à imaginação vários pensamentos. E se num repente alguém entrasse e decidisse acender a luz? Que susto não apanharia ao ver-me ali àquela hora, descalço, semi-nu e de cabelos desgrenhados, caminhando aos tropeções, qual sonâmbulo mecânico, receoso porque cauteloso, procurando desviar-me dos móveis vários que habitavam na casa. De tantos cuidados colocados na deslocação rumo ao meu objectivo, acabei inevitavelmente por bater com o meu dedo mindinho, mesmo o mais pequenino, precisamente na perna de uma cadeira, acidentalmente depositada fora do seu lugar habitual. Vociferei. Tapei a boca e gritei para dentro. Devo ter assumido todas as cores do arco do íris. Fiz caretas medonhas que deviam assustar seguramente o Adamastor. Dobrei-me e acariciei o dedo magoado. Esfreguei-o e apertei no sentido de tentar acalmar a dor crescente. Suspirei. Contive-me a muito esforço poupando algumas imprecauções prontas a serem vomitadas da boca para fora. Senti-me banhado por suores frios. Respirei fundo absorvendo a maior quantidade de ar possível. Forcei-o a sair lentamente, perdendo gradualmente pressão e esvaziando por completo os pulmões. Sentei-me momentaneamente no chão. Cerrei os olhos com força. Curvei o tronco numa postura de prostração. Fi-lo subir lentamente puxando as costas para trás. Inspirei e expirei rápido. Senti-me mais calmo e aliviado da dor que aos poucos se desvanecia e afastava. Soergui-me devagar tendo o cuidado de rolar lateralmente, não fosse ser apanhado por alguma tontura momentânea, que me conduzisse ao desequilíbrio e atirasse de novo ao chão, e aí tudo poderia complicar-se e piar de outra maneira. Já refeito e mantendo-se o total silêncio, concluí que ninguém dera por nada e que tudo se mantinha normal e tranquilo.

Acerquei-me da janela e entreabri os fortes cortinados para espreitar para o exterior. A lua estava baça, difusa e desfocada. Sinal de chuva, costumam dizer os mais velhos servindo-se da sua sabedoria de observação, quando a lua se apresenta com um halo em seu redor. Uma ligeira brisa própria da hora matutina soprava visível nas ramadas altas das árvores, as quais compunham a alameda da rua fronteira à casa.

Os incidentes anteriores e a contemplação da rua com os candeeiros alinhados, cuja luz se perdia no fio contínuo e convergente da faixa de rodagem, levaram-me a alterar e a suspender os propósitos e desígnios programados inicialmente.

Decidi regressar ao ponto de partida, e iniciei o caminho de retorno, com atenções e cautelas redobradas. Havia que evitar repetir o incidente e a dor sofrida.

Consegui regressar ao meu destino. Entrei no quarto. Calma e placidamente deitei-me sobre a cama. Cobri-me com o cobertor e rapidamente adormeci.

Fui despertado pelo barulho do estore da janela do meu quarto a ser puxada e levantada. A claridade irrompeu e a luz revelou todo o meu quarto. Minha mãe em pé, olhava para fora observando o movimento da rua. Aguardava que aos poucos fosse despertando e acordando. O sol havia penetrado no quarto. Voltou-se sorridente e perguntou-me se por acaso e acidentalmente durante a noite, eu não teria dado uma escapadinha até à cozinha, afim de comer uma saborosa fatia de tarte de cereja, pois pela manhã encontrara migalhas por toda a parte da casa. Fiz cara de estranho, neguei veementemente e desculpei-me. Concluí que o meu irmão mais novo concretizara o que eu não fora capaz de levar por diante. Contudo, sentia-me igualmente culpado, pois todo o meu ser e pensamento comungou da mesma ideia, apenas não realizada face ao incidente do qual fora protagonista.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Para uma história do cartório da Misericórdia de Sintra

CARLOS MANIQUE
Introdução
Remonta a finais de Oitocentos o interesse dos investigadores nacionais pelos arquivos das Misericórdias. Entre esse período e as primeiras décadas do século XX, figuras como Anselmo Braamcamp Freire, Gabriel Pereira, Costa Goodolfim, Vítor Ribeiro, Álvaro Rodrigues de Azevedo, Rui de Azevedo, Silva Marques, Francisco Costa, Artur de Magalhães Basto, Fernando da Silva Correia, entre outras, produziram importantes estudos com base nos acervos documentais das confrarias leonorinas. Afigura-se, por isso, algo paradoxal o desfasamento existente entre essa motivação e as medidas conducentes à produção de instrumentos de descrição desses arquivos.
Como o título deixa antever, o presente texto procura analisar a composição e evolução do antigo cartório da Santa Casa da Misericórdia de Sintra. Decorrente dessa orientação, considerarei o seguinte arco cronológico: entre os meados do século xvi e a década de 1930; limites temporais respetivamente coincidentes com a fundação da Confraria sintrense e o reconhecimento (de facto) do valor cultural e arquivístico do seu cartório.
Génese da Confraria da Misericórdia de Sintra: particularidades iniciais do seu cartório
Entre 10 de março e 8 de julho de 1545, a instâncias da Rainha D. Catarina, mulher de D. João III, foi criada a Confraria da Santa Casa da Misericórdia de Sintra. Em larga medida, a recém-formada instituição consubstanciou uma praxis assistencial protagonizada desde tempos medievais pelo Hospital do Santo Espírito e Gafaria de Sintra, à luz documental já existentes em meados do século XIV[1]. Com efeito, tais estabelecimentos caritativos (bem diferenciados apesar de formarem um só organismo ou instituição jurídica) foram anexados à Confraria da Misericórdia por carta e alvará régios de D. João III[2]. De resto, idêntica situação viria a acontecer com grande parte dos hospitais do Reino, sobretudo a partir de 1560[3]. Como se lê no original do último documento referido, essa medida era justificada “por serviço de Deus e bem das almas dos finados que deixaram as rendas dos Hospitais de Santo Espírito e Gafaria da dita vila e por mo a Rainha minha sobre todos muito amada e prezada mulher pedir”[4].
Por via dessa anexação, todos os foros, rendas e outros bens patrimoniais do Hospital do Santo Espírito e Gafaria de Sintra foram confiados à administração da Misericórdia. Tendo por objetivo a eficaz gestão patrimonial da recente entidade, esse processo de transferência foi tramitado de modo muito rigoroso, sendo acompanhado pela escrituração de inventários, como indicava, aliás, o texto do citado alvará. É também a essa luz que se entende uma provisão de D. João III, igualmente datada de 26 de setembro de 1545, instando o provedor e escrivão do Hospital e Gafaria a entregarem à Confraria os “tombos dos bens e heranças dos ditos Hospitais e quaisquer livros e escrituras e provisões”[5].
É difícil saber em que grau se cumpriu a provisão real, embora seja de crer que a totalidade da documentação do Hospital e Gafaria tenha sido incorporada na nova instituição[6]. O certo é que, descontando as perdas ocorridas já em pleno século xx, às quais se refere Silva Marques[7], transitaram para o cartório da Misericórdia as unidades arquivísticas que atualmente se conservam no Arquivo Histórico, a saber: o Tombo das Heranças e Propriedades do Hospital do Santo Espírito e Gafaria de Sintra[8], códice pergamináceo mandado fazer por ordem da Rainha D. Leonor (c. 1512), dez livros de contas (1523 a 1544), e 101 pergaminhos avulsos[9].
Graças ao valor jurídico, histórico e moral que esse conjunto documental teve desde o século XVI e, consequentemente, ao cuidado e proteção a que esteve sujeito até tempos relativamente recentes, obstando à sua degradação e eventual perda, é hoje possível identificar as propriedades pertencentes ao Hospital e Gafaria de Sintra nos inícios da centúria de Quinhentos; designadamente, a partir da descrição feita no Tombo, o qual constitui também um precioso documento para o estudo: i) da evolução da malha urbana sintrense; ii) do preço dos géneros; iii) dos grupos sociais ligados à instituição hospitalar; iv) da toponímia; v) dos patronímicos.
Além dos livros de contas, peças fundamentais para a compreensão do fluxo financeiro das duas instituições, os 101 pergaminhos (ordenados por Silva Marques no início dos anos de 1930) assumiram especial importância para a Confraria de Sintra, tanto mais que, muitos anos passados da anexação, já em meados do século xix, parte é referenciada num inventário do cartório elaborado por João Jesuíno Nogueira de Andrade. Percebe-se que, mesmo nessa época, tais registos continuavam a ter utilidade prática (além do seu “valor histórico”).
Esta última ideia é facilmente percetível se tivermos em mente que, no ano de 1782, a Santa Casa da Misericórdia de Sintra recebia ainda benefícios de pessoas residentes no termo de Cascais, cuja origem, pasme-se, remontava a um contrato celebrado em 1371 entre os dois concelhos, o qual, pela sua importância, foi trasladado nos primeiros fólios do Tombo.
Em síntese, durante muitos anos o núcleo documental anterior à fundação da Misericórdia de Sintra corporizou o elo de ligação a um passado no qual foram garantidos os direitos fundamentais do Hospital; pretérito esse que, como caraterizou Francisco Costa[10], remetia para os anos de 1368 e 1369, na devida ordem quando se dera o restabelecimento da autonomia da sua administração face ao conselho municipal[11] e se procedera à eleição do primeiro provedor – figura institucional que, doravante, asseguraria o dispêndio dos rendimentos com os pobres ou em outras esmolas, contrariamente à prática que vinha sendo adotada. Essa memória, num gesto de grande antevisão, foi assegurada em 1412 por iniciativa de Gonçalo Anes, então provedor do Hospital, ao mandar trasladar em pública-forma os atos notariais que consagraram tais prerrogativas[12].
Evolução do cartório entre os séculos XVII e XIX
Uma análise, ainda que breve, do inventário do cartório da Misericórdia de Sintra efetuado por Paulo do Prado em 1618, ao qual aludi, evidencia claramente que o património confraternal cresceu de modo muito significativo num período de tempo correspondente a pouco mais de meio século. Esse alargamento patrimonial radicou, em boa medida, nos aforamentos de propriedades, nas doações testamentárias e nos legados pios[13]. Por outro lado, o visível aumento de privilégios da Confraria, sobretudo durante a segunda metade de Quinhentos[14], conduziu também ao reforço da sua intervenção na esfera local.
Florescente a Misericórdia de Sintra nos inícios do século XVII, comprometida no entanto com numerosas obrigações às quais era necessário dar resposta – caso paradigmático das “missas por alma”, fonte de elevada despesa –, impunha-se, com mais acuidade do que nunca, uma gestão capaz de assegurar e expandir de forma sustentada os seus destinos.
É sob a perspetiva anunciada que deve ser entendido o trabalho de Paulo do Prado, mormente enquanto escrivão. Na verdade, a sua ação no cartório teve importante impacto na organização interna da Santa Casa, acabando por deixar, por esse mesmo motivo, memória viva nos seus seguidores. Tal é o caso, em finais do século XVII, de Diogo Ribeiro de Sequeira, de igual modo escrivão empenhado, que louva o seu antecessor na forma seguinte: “com tanto zelo e trabalho principiou o Irmão Paulo do Prado, restaurador do cartório”[15]. Ora, a referência laudatória permite inferir que o cartório, nos alvores de Seiscentos, se encontrava desorganizado e que a atividade então iniciada prosseguiu. Terá sido assim?
Com efeito, para proceder à inventariação do cartório Paulo do Prado teve primeiramente de conferir ordem à massa documental existente, como no-lo atestam os índices individuais que elaborou para os maços de documentos avulsos, alguns dos quais subsistem ainda hoje, sendo difícil confirmar se a própria ordenação desses maços foi de sua autoria (algo que se afigura muito provável). Para se ver, o cuidado do escrivão chegou ao ponto de verificar, no ano de 1618, se os livros anteriores ao seu mandato possuíam termo de encerramento, lavrando-os pelo próprio punho na sua inexistência. Ainda nesse mesmo ano, saiu igualmente de sua mão o Livro que é para servir de inventario de todo o móvel desta Casa e Hospital dela e, em 1619, o Livro de propriedades da Misericórdia e Hospital; o último dos quais levantamento minucioso realizado em cotejo próximo com o que havia sido exarado no Tombo cerca de um século antes, para o qual compôs, aliás, um índice e aditou muitas notas marginais, demonstrando um aturado estudo sobre os bens imóveis da instituição. Todas essas iniciativas, reveladoras de um espírito metódico, entroncam efetivamente num objetivo central: a “restauração” do cartório, para adotar o termo utilizado por Diogo Ribeiro de Sequeira.
O modo como o inventário de 1618 é constituído exprime muito mais um processo prévio de intervenção ao nível da documentação, do que propriamente uma simples descrição do que se encontrava no cartório. Antes mesmo de enunciar os itens seguidos por Paulo do Prado nesse inventário, um dos elementos que pode eventualmente aduzir algo a essa ideia prende-se com o facto, já referido, de nele não constar documentação anterior a 1545 (à exceção do Tombo, códice que o escrivão releva pelas razões acima expostas). Tratava-se, no fundo, de encontrar uma “classificação” que traduzisse, em termos orgânico-funcionais, o processo de produção documental no período subsequente à anexação. Vejamos então a forma como Paulo do Prado estruturou o inventário:
  • Livros de Acórdãos;
  • 1 livro de inventário da prata da sacristia e Hospital;
  • 1 livro de pergaminho encadernado em tábuas com suas brochas de latão que é o tombo das propriedades do Hospital e Casa;
  • 1 livro de propriedades da Casa;
  • Livros de receita e despesa de 1580 para diante;
  • Livros de receita e despesa anteriores a 1580;
  • Provisões e cartas de reis e rainhas;
  • Escrituras de aforamento na vila e termo de Sintra;
  • Escrituras de aforamento das propriedades no termo de Cascais;
  • Escrituras de propriedades que deixaram algumas pessoas;
  • Bens e propriedades com que Violante Gomes dotou a Misericórdia;
  • Testamentos que os defuntos fizeram e que contêm as obrigações e legados que deixam;
  • Títulos de procurações, arrendamentos… e outros papéis;
  • Título das sentenças que a Casa tem, certidões da Misericórdia de Lisboa sobre a ordem e repartição das insígnias e outros papéis[16].
Apesar de serem vários os “títulos” indicados, o inventário não foi exaustivo. Por outro lado, permanece um mistério a separação dos livros de receita e despesa com base no marco temporal de 1580. Seja como for, julgo importante destacar esta primeira tentativa de sistematização do cartório, sobretudo pela referência que constituirá para futuras intervenções, particularmente durante a segunda metade do século XVII.
A despeito da intervenção de Paulo do Prado, o crescimento da Misericórdia ao longo de Seiscentos acabou por colocar novos embaraços ao nível da gestão da informação, algo que se fazia já sentir em meados da referida centúria:
E assim mais assentaram o dito provedor e irmãos da mesa e junta que por ser necessário trasladar muitas escrituras que no cartório andam para melhor se ter notícia pelo livro delas se nomeasse um irmão que com zelo e caridade tratasse do dito cartório e traslados de escrituras com ordem do escrivão da mesa[17].
Em 1682, certamente agudizados os problemas funcionais, a Irmandade procura encontrar uma solução para o cartório, uma vez que, do seu ponto de vista, “estava muito mal tratado e nele havia pouco resguardo”[18]. Assim, foi deliberado que se fizesse um novo cartório “na casa de dentro da mesa”, no qual a documentação mais antiga ficaria guardada, permanecendo os livros de uso corrente do escrivão no “cartório velho”[19]. Acresce dizer que, para a acomodação dos documentos considerados com “valor histórico”, foram gastos quinze mil réis em obras de estantes[20].
Envolvido nesse processo de reestruturação do cartório esteve seguramente Diogo Ribeiro de Sequeira, escrivão da Confraria em 1682[21]. Seguindo um pouco o rasto da sua atuação no desempenho desse cargo, constata-se que preservar a informação contida nalguns testemunhos do século xvi foi um dos seus principais objetivos[22]. Daí a razão de ter trasladado no Livro 2.º do Registo de Escrituras que há na Casa pertencentes assim ao Hospital como à Misericórdia, aberto em 1682, os documentos ligados à fundação da Misericórdia e os privilégios a ela concedidos no período imediatamente subsequente, para identificação dos quais deve ter sido precioso o inventário de 1618. Entre esses traslados, contam-se três cartas da rainha D. Catarina sobre a fundação da Confraria da Misericórdia de Sintra, cujos originais se perderam no início do século xx, o regimento do Hospital, bem como o breve do Papa Pio IV, neste último caso tanto a versão em latim como a correspondente tradução portuguesa.
Há, pois, duas sensibilidades claramente diferenciadas ao longo do século xvii no que concerne ao cartório, embora com manifesta ligação. Nos princípios dessa centúria, num momento em que a presença da Misericórdia no meio local se encontra firmada, a intenção é a de definir uma organização que permita maior entendimento funcional, embora sem a preocupação em autonomizar o que consideraríamos hoje os arquivos histórico e corrente. Nos finais de Seiscentos, na sequência do trabalho iniciado por Paulo do Prado, procede-se efetivamente à separação do “histórico” do “corrente”, medida em grande parte decorrente de uma orientada política de salvaguarda dos registos iniciais da Confraria.
Tanto quanto consegui apurar, situa-se já na década de 1840 uma outra intervenção significativa ao nível do cartório. Nesse período, as dificuldades financeiras da instituição tornam premente a efetivação de mecanismos de controlo económico. Assim se compreende, em 1842, a decisão de proceder ao inventário do cartório, contemplando todas as declarações, hipotecas, juristas, foreiros, localidades e fiadores, e tudo o mais que possa esclarecer e dar o perfeito conhecimento do estado das coisas[23].
Da análise da documentação, constata-se que o inventário não foi executado de imediato. De facto, volvido mais de um ano João da Silva Paulo é nomeado cartorário, estipulando o seu contrato, entre outras cláusulas, a obrigação de elaborar um tombo geral de propriedades e um cadastro das quantias que a Misericórdia tinha emprestado a juro, além de ter de se apresentar nas sessões da Mesa para prestar esclarecimentos sobre o arquivo[24]. Em agosto de 1845, João da Silva Paulo é demitido das suas funções, sendo deliberado fechar o arquivo na forma em que este se encontrava, visto não haver inventário do mesmo[25]. A despeito das intenções, o panorama agrava-se no ano seguinte, culminando com a supressão do lugar de cartorário[26].
A situação descrita conhece inflexão no ano de 1847, particularmente a partir do momento em que João Jesuíno Nogueira de Andrade é encarregue de solicitar a cobrança das receitas da botica e dos foreiros e juristas devedores de grandes quantias[27]. Para proceder a essa ação, Nogueira de Andrade teve necessidade de organizar o cartório, elaborando para o efeito o Inventário dos Livros, Escrituras e Títulos que existem no Arquivo da Santa Casa da Misericórdia desta vila. Esse instrumento, que dá uma ideia da organização do cartório cerca de 1848, tem em termos arquivísticos uma importância fundamental, pois constitui o único elemento que permite reordenar, de forma segura, os primitivos maços de documentos, infelizmente desmembrados na década de 1930.
Suscita alguma reflexão o cartório da Santa Casa da Misericórdia de Sintra ter atravessado quase quatro séculos praticamente íntegro, vindo apenas a sofrer incúria já em pleno século xx. Tanto mais incompreensível é essa situação quando se pensa no zelo de alguns dos seus escrivães e cartorários, na sobrevivência ao terramoto de 1755, que causa danos na igreja e no conjunto hospitalar, ou ainda nas radicais transformações jurídicas e económicas que a instituição sofre a partir da segunda metade de Oitocentos, à semelhança das suas congéneres.
A “descoberta” do cartório na década de 1930: o papel decisivo de Silva Marques e de Francisco Costa
Quando, em 1931, Silva Marques visitou o cartório da Misericórdia de Sintra – que conhecia das referências de Anselmo Braamcamp Freire[28] e do conde de Sabugosa[29], e para o qual o escritor Francisco Costa havia chamado a sua atenção – encontrou um quadro que decerto não esperaria[30]. Com efeito, grande parte dos documentos mais antigos achava-se arrecadada num vão aberto numa parede da igreja, espaço manifestamente exíguo e sem qualquer ventilação. Nesse cenário, os livros estavam desordenados e, como indiquei, os maços de documentos praticamente desfeitos. Se a situação não era minimamente aceitável, algum tempo antes o acervo havia mesmo estado em risco de perda total, dada a instalação num sótão do edifício hospitalar[31]; diga-se em perfeito desamparo e onde chovia abundantemente, razão pela qual se perderam algumas unidades arquivísticas. O desprezo a que chegara o antigo cartório no início da década de 1930 terá resultado de um processo de abandono hipoteticamente observado a partir de 1885, a ter por base a visita de Braamcamp Freire, que nada indica de negativo sobre as condições do mesmo. De forma evidente, esse facto está intimamente associado ao afogo financeiro da instituição e ao desgoverno da mesma, agudizados entre os finais do século XIX – onde a desamortização forçada dos bens pertencentes aos estabelecimentos pios ou de beneficência (Carta de Lei de 22 de junho de 1866) tem influência determinante –, e o primeiro quartel da centúria seguinte; seja pela diminuição de proventos em razão do citado diploma, seja pela redução de dádivas patrimoniais, seja, ainda, por via da crescente interferência externa na nomeação de mesários, sucedendo-se as comissões administrativas e sindicâncias às suas gerências, naturalmente reveladoras da instabilidade vivida no plano institucional. Um bom indicador desse estado de coisas é dado pelas ruinosas condições em que se encontrava o Hospital, chegando os mesários a advogar, no ano de 1930, a demolição de uma parte do edifício[32].
Em presença do panorama calamitoso em que se encontrava o cartório, Silva Marques resolve atender de forma prioritária aos documentos mais antigos, procedendo assim ao estudo analítico dos pergaminhos avulsos do Hospital e Gafaria de Sintra[33]. Essa primeira medida será decisiva para a preservação do cartório, não pela sua transferência para um espaço com melhores condições, algo que não sucederá a breve trecho, mas pelo facto de despertar o interesse pela história da instituição na base do seu acervo documental.
Na verdade, em 1932, Francisco Costa publica no periódico Sintra Regional uma série de artigos dedicados aos antecedentes e à fundação da Confraria, apoiando-se em documentos inéditos do cartório. De resto, tirando as notas de Braamcamp Freire e do conde de Sabugosa, essa investigação constitui o primeiro conjunto de estudos históricos sobre a Misericórdia sintrense. E, sublinhe-se, será absolutamente decisiva para o reconhecimento (de facto) do valor cultural e arquivístico do cartório da Misericórdia.
 tombo
[1] Cf. João Martins da Silva Marques, Cartório da Misericórdia e Hospital do Santo Espírito e Gafaria de Sintra, [1940], p. 106.
[2] Cf. IAN/TT, Chancelaria de D. João III, Livro 35, fls. 99 v.- 100 v., “Carta Régia de D. João III anexando à Confraria da Misericórdia de Sintra o Hospital do Santo Espírito e Gafaria da dita Vila”, 23 de setembro de 1545 e Arquivo Histórico da Misericórdia de Sintra (AHMS), “Alvará de D. João III pelo qual o Hospital e Gafaria de Sintra, com suas propriedades e rendimentos, foram anexados à Confraria da Misericórdia”, 26 de setembro de 1545.
[3] Cf. Pedro Penteado, “Das confrarias medievais às Misericórdias. Salvação da alma, solidariedade e serviço aos desprotegidos”, Communio, n.º 2, 30 de abril de 2001.
[4] AHMS, “Alvará de D. João III pelo qual o Hospital e Gafaria de Sintra, com suas propriedades e rendimentos, foram anexados à Confraria da Misericórdia…”, fl. 1.
[5] AHMS, “Provisão de D. João III dirigida ao Provedor e Escrivão do Hospital e Gafaria de Sintra a comunicar que anexou os ditos Hospitais à Confraria da Misericórdia”, 26 de setembro de 1545.
[6] Esta referência quer apenas significar o “arquivo” da nova entidade produtora, não se reportando necessariamente a um novo espaço físico, até porque esse é um aspeto a esclarecer. A ter por base o alvará de 26 de setembro de 1545, a documentação do Hospital e Gafaria seria guardada numa arca, da qual só poderia ser retirada em caso de dúvida ou de muita necessidade. Todavia, para o serviço dos mesários deveria ser feito um traslado do tombo de propriedades (cópia destinada a estar sempre na Mesa). Ainda em relação à organização do cartório da Confraria, não deixa de ser significativo o facto de existir, até 1671, um livro de receita e despesa para a Misericórdia e um homólogo para o Hospital, por ano, mostrando que não foi tão linear como o diploma impunha o entendimento de uma administração completamente demarcada da anterior.
[7] Cf. Op. cit. O autor indica que no início da década de 1930 foram destruídos dezoito livros de contas do princípio do século XVI, entre outros documentos do cartório
[8] Doravante este códice será abreviadamente designado por Tombo.
[9] Curiosamente, num inventário do cartório da Misericórdia de Sintra realizado por Paulo do Prado em 1618, e escriturado num livro de sepulturas, figura apenas, da documentação anterior à fundação da Confraria, o Tombo (cf. AHMS, Livro de todas as Sepulturas desta Casa da Misericórdia desta Vila de Sintra, 1577).
[10] Cf. Gonçalo Anes Homem Bom de Sintra, Sintra: Câmara Municipal de Sintra, 1959.
[11] A grafia com “s” resulta do facto do termo se reportar ao “juiz e oficiais” e não à “vila de Sintra e seu termo”.
[12] O traslado em questão, datado de 22 de fevereiro de 1412, é o pergaminho n.º 1 da “Coleção Silva Marques”.
[13] No caso da Misericórdia de Sintra constituíram importante fonte de enriquecimento patrimonial as doações testamentárias e legados pios provenientes de sintrenses falecidos na Índia e China. Cf., a este respeito, Silva Marques, Sintra e Sintrenses no Ultramar Português, Lisboa, 1949.
[14] Cite-se, a título de exemplo, um breve do Papa Pio IV, dado em Roma a 9 de fevereiro de 1563, a conceder perpetuamente à Confraria da Misericórdia de Sintra todas as isenções, graças, privilégios, indultos e indulgências, tanto temporais como espirituais, já concedidos pela Santa Sé, ou a conceder, à Misericórdia de Lisboa (cf. AHMS, “Coleção Silva Marques”, pergaminho n.º 98).
[15] Citado por Silva Marques, Cartório da Misericórdia…, p. 12.
[16] Cf. AHMS, Livro de todas as Sepulturas desta Casa da Misericórdia desta Vila de Sintra, 1577. Este inventário, fonte preciosa de informação, foi pouco valorizado por Silva Marques (cf. Sintra e Sintrenses…).
[17] AHMS, Livro 11 dos Acórdãos da Misericórdia de Sintra, sessão de 26 de abril de 1654, fl. 131 v. O Irmão nomeado para essa função foi o padre Francisco Correia.
[18] AHMS, Livro 13 dos Acórdãos da Misericórdia de Sintra, sessão de 18 de maio de 1682, fl. 232 v.
[19] AHMS, Livro 13 dos Acórdãos da Misericórdia de Sintra, sessão de 18 de maio de 1682, fls. 232 v-233r.
[20] Cf. AHMS, Livro da Corrente da Misericórdia e Hospital de Sintra, n.º 151, 1681-1682, fl. 117 v.
[21] Diogo Ribeiro de Sequeira foi figura destacada do meio sintrense, ocupando os cargos de juiz das coutadas de Sintra e almoxarife do Paço Real. Na Misericórdia a sua admissão ocorreu em 1670, tendo sido várias vezes escrivão e conselheiro oficial, alcançando o grau máximo da hierarquia em 1685.
[22] Porém, a documentação pertencente ao Hospital e Gafaria recebeu também alguma atenção da parte de Diogo Ribeiro de Sequeira, já que procedeu à elaboração dos sumários de quase todos os pergaminhos a que me reportei.
[23] AHMS, Livro 26 dos Acórdãos da Misericórdia de Sintra, sessão de 24 de julho de 1842, fl. 27. O Irmão Sebastião Paulo da Fonseca Cabral ficou encarregue da coordenação desse inventário.
[24] Cf. AHMS, Livro 26 dos Acórdãos da Misericórdia de Sintra, sessão de 9 de novembro de 1843, fl. 40.
[25] Cf. AHMS, Livro 26 dos Acórdãos da Misericórdia de Sintra, sessão de 25 de agosto de 1845, fl. 57 v.
[26] Cf. AHMS, Livro 26 dos Acórdãos da Misericórdia de Sintra, sessão de 5 de julho de 1846, fl. 66. Essa decisão baseou-se na falta de “proveito que de tal emprego se tem tirado”.
[27] Cf. AHMS, Livro 26 dos Acórdãos da Misericórdia de Sintra, sessão de 10 de agosto de 1847, fl. 79.
[28] Cf. Brasões da Sala de Sintra, Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1973 [1.ª edição de 1885], vol. I. Braamcamp Freire analisou o cartório em 1885, consultando alguns pergaminhos. Tudo leva a crer que, nessa data, o investigador encontrou o cartório íntegro.
[29] Cf. O Paço de Cintra, Lisboa: Imprensa Nacional, 1903.
[30] Para um conhecimento das vicissitudes por que passou o cartório neste período, ver Silva Marques, Cartório da Misericórdia…
[31] Julgo que o cartório terá sido retirado do sótão do Hospital em 1930, tendo em conta que, no dia 14 de setembro desse ano, é feita referência à natureza e valor do mesmo em ata da Mesa, sendo decidido guardar os documentos em local mais adequado. Essa medida resultou de uma prospeção ao cartório efetuado por Luciano Ribeiro e Afonso Dornelas (cf. AHMS, Livro de Atas da Misericórdia de Sintra, n.º 30, fls. 24-25).    
[32] Cf. AHMS, Livro de Atas da Misericórdia de Sintra, n.º 30, sessão de 16 de fevereiro de 1930, fl. 6 r.
[33] Nesse trabalho participou diretamente Francisco Costa, como se comprova por um ofício da Misericórdia de Sintra dirigido ao escritor, em 21 de dezembro de 1932, agradecendo a sua ação e a do professor Silva Marques na “catalogação” dos pergaminhos (documento do espólio pessoal de Francisco Costa).