domingo, 26 de outubro de 2014

Maçã podre

CARLOS CAMACHO

Em Fontanelas e Gouveia, grandes zangas se deram por questões de partilhas.

Famílias inteiras cortaram relações por questões relacionadas com a divisão da herança dos pais e avós. Era comum caminharem para Sintra em disputa de uma extrema de meio palmo  ou três pinheiros mansos. Qualquer coisa que não estava em modos, tribunal, quando não terminava tudo com uma sacholada nas fontes.

Gastavam dez vezes o valor da herança em advogados tarimbados nestas disputas de aldeia e iam sendo chupados a troco da promessa de que iriam ganhar a acção. Somavam-se as perdas de meios-dias a caminhar para o advogado, de chapéu na mão e passo acautelado. O ego não perdoava e sair vitorioso era a paga maior, independentemente do custo. Era um ponto de honra levar de vencida a contenda. Era preciso que a aldeia ficasse a saber quem tinha razão!

 “Não queres lá ver que o teu irmão quer o pinhal? Queria mais nada, não?” Dizia a Bombarda ao Tóino Marreco em jeito de aviso, não fosse o marido prometê-lo ao irmão.

Se ela olha mais alguma vez assim para mim, vou-lhe à cara”, dizia a Clotilde ao Chico Gordo depois das picardias no enterro da sogra por causa do cordão de oiro.

O Zé Rabeca foi ameaçado de forquilha pela Marieta, depois de lhe dizer que só ficava com a Terra do Alto se o matasse. Esteve quase...

Já a coitada da Lisete teve que fugir. Se não desse um pulo para o lado, o João Manias, que era cunhado, passava-lhe com o tractor por cima por causa de uma talha de barro, em disputa ia para 6 anos.

No meio de tanta picardia, existiam alguns que simplesmente deixavam as coisas correr, quer por não terem posses para litígios, serem pessoas mais pacatas ou simplesmente não era da sua índole gerar discórdia e criar conflitos.

O Tóino Marreco, opinioso e banana, a aturar a Bernarda há mais de 30 anos, que era cabra como tudo (em vez de ser duas casas estragadas foi só uma), quando os velhos fecharam os olhos e tocou a partilhas, prepararam tudo para ficar com as Terras de Semeadura, Pinhais e Pomares de Maçã Reineta, afastadas da aldeia mas com bom rendimento. Valiam muito mais do que Serrados, Quintais e bocados cheios de pedra dentro da aldeia, quer pela sua dimensão, quer pela sua utilidade. A Bernarda “pintou a manta” ao Moca e à Ernesta. Ameaçou, fez banzé no posto leite, queixou-se na loja das ratas, foi falar com as vizinhas a dizer mal dos cunhados, chamou-lhes tudo, falou com a bruxa da Várzea, prometeu um cordão à Sra. de Fátima, só para levar a dela avante e ficar com o quinhão melhor. O Moca, coitado, sem posses nem ânimo para contrariar a cunhada nem o irmão, lá concordou e assinou a partilha e o seu prejuízo. À data o Dr. Ulisses, vizinho de longa data, pessoa séria e experimentada nestas lides e com as vistas rasgadas até à nuca e sabendo da contenda, disse-lhe para não se preocupar que eles iriam ficar a ganhar, com o passar do tempo.

Nem mais.

Os pinhais foram consumidos por um valente fogo no Verão seguinte. Ficaram só cavacos e pontas queimadas. As terras de semeadura deixaram de ter utilidade, já que eles estavam a caminhar para velhos, sem forças, a jorna encareceu muito e não eram propícias a maquinaria. Deixaram de ter rendimento e ficaram de campo, bem como os pomares de Maçã Reineta que tinham que ser podados, cavados, sulfatados e raposados à unha. A herança desvalorizou para uma quarta parte ao fim de cinco anos. Já do lado do Moca e da Ernesta, os Quintais, Serrados e outros bocados dentro da povoação valorizaram para a construção, passando a valer dez vezes mais do que na altura da partilha, quando entrou um PDM que excluiu para construção todos os terrenos que estavam fora do perímetro urbano, onde se encontravam aqueles que lhes tinham sido negados. Passados dez anos o arranjo do Moca e da Ernesta era muito melhor do que o do Tóino Marreco e da Bernarda. Nessa altura o Moca, que tinha ficado com a conversa do Dr. Ulisses na ideia, perdeu a vergonha e perguntou ao vizinho:

Ó Sr. Dr. Ulisses. Porque é me disse para não me apoquentar com a minha cunhada?

Responde-lhe prontamente o Dr. Ulisses:

 “Ó Moca. Maçã podre cai sozinha, não é preciso apanhar”.

E caiu...

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Sugestões para uma reforma autárquica

FERNANDO MORAIS GOMES
 
Trinta e oito anos de experiências autárquicas, demonstram que é chegado o momento do virar de página no quadro territorial, de competências e de gestão das mesmas. Litoralizado o país, florescendo conurbações interligadas nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, sobretudo, impõe-se um novo quadro, porque realidades há que exigem novas abordagens, unificando concelhos ou reajustando outros, pesem os bloqueios de paróquia que mais se devem afirmar no quadro de afirmação cultural que na representação institucional.
Por outro lado, mais ágil e adequado se afigura um modelo eleitoral em que as candidaturas sejam para a Assembleia Municipal, sendo presidente o candidato da lista mais votada, e os demais tendo assento na Assembleia, esta com poderes reforçados. O presidente, livre de escolher a sua equipa, apresentaria programa à Assembleia, poderia ser objecto de censura, em tudo acompanhando o modelo actualmente usado com o Governo. Sugeriria que, introduzindo a “nuance” da obrigação de, derrubado um executivo, os opositores deverem apresentar alternativa clara, a sós ou em coligação, em nome do princípio da governabilidade (moção de censura construtiva). Os membros da vereação poderiam ser livremente nomeados e demitidos pelo presidente, e este teria poderes reforçados, havendo vantagens na presidencialização do presidente da câmara, evoluindo do actual modelo para outro mais eficaz. O mesmo quadro para as juntas de freguesia, igualmente sujeitas a reorganização territorial
No quadro da gestão, haveria que criar sistemas de gestão partilhada de serviços e pessoal, num quadro inter-municipal e regional, numa economia de meios e reforço de recursos. Porquê a proliferação de serviços de águas, lixo, cultura, protecção civil por cada município, quando num quadro integrado se poderia obter vantagens de gestão, força de reivindicação, e operacionalidade reforçada?
O quadro das despesas deveria contemplar a maleabilidade do outsourcing, a eliminação de serviços duplicados e o das receitas, derramas sobre as mais-valias a favor de obras ou acções de interesse comunitário e maior participação na fatia dos impostos nacionais. O cheque para a cultura, em que 1% dos impostos e taxas cobrados serviria para financiar um fundo de promoção cultural gerido pela autarquia e pelos agentes culturais, e as isenções de parte do IMI para os proprietários que reabilitassem seriam outras medidas bem vistas.
No quadro do planeamento, prioridade à reabilitação urbana, agilizando os planos de pormenor, reduzindo os pareceres de entidades sempre que haja plano director aprovado e dispensando prazos de apreciação quando os pedidos se ajustassem a plano-tipo que a autarquia disponibilizaria. O recurso a empresas externas para a apreciação de projectos ou a manutenção de equipamentos num quadro de igualdade de oportunidades seria igualmente interessante.
No que a Sintra concerne, seria curial um número de vereadores não superior a 7 e uma assembleia municipal reduzida em 1/3. Já quanto às freguesias, porque não elaborar quadros de pessoal partilhados, ou as mesmas poderem recorrer aos serviços municipais em igualdade de circunstâncias que a Câmara Municipal?.A gestão das áreas da educação, saúde, polícia municipal, cultura ou cobrança de impostos poderia ser feita num âmbito intermunicipal, através de serviços dependentes de associações de municípios ou comunidades intermunicipais, por exemplo.
Claro, tudo isto são só ideias e sugestões. Seria no entanto útil que os visados tivessem uma palavra a dizer em vez de virem a ser surpreendidos com uma reforma autárquica feita a partir de cima e às pressas, e numa lógica meramente economicista.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

domingo, 19 de outubro de 2014

Um beberrão de má-fé



CARLOS CAMACHO
Sempre existiram bailaricos na aldeia de Fontanelas. Presenciei uma fase de transição entre os bailes de dançar “a dois” e os de dançar “sozinho”. O “rock” e os “Slows” deram cabo dos bailes com música a metro. Lembro-me, particularmente, da década de 70 e dos grandes bailes abrilhantados por conjuntos muito conceituados que reproduziam músicas dos Rolling Stones, Beatles ou Led Zeppelin. Eram os Orpor, Intento, Black Stars, etc, etc. Toda uma geração mais velha do que eu apanhou em pleno essa época, recheada de contestação ao Status Quo vigente e às músicas da Eugénia Lima ou do Jazz Flôr da Aldeia. Deixou de se dançar a dois, excepto nos “slows”. Muita coisa mudou nos anos 70, em Fontanelas e no mundo.

Existiam denominadores comuns a todos os bailes. Contestação à música alta, mães vigilantes, filhas a tentarem contornar a vigilância, bifana 5 paus e sandes de molho 10 tostões, pais a beber copos no bufete e a velha tradição da bofetada no final do baile, por esta ordem e aumentando de intensidade com o avançar da noite.

Quanto à música alta muito se ralhava mas pouco se fazia. Era moda e a vantagem era dos órgãos “Farfisa”, das baterias “Yamaha” e das guitarras “Fender”.

No que toca a vigilância das mães, esta assumia contornos ridículos, que ia desde a ocupação ininterrupta da primeira fila do camarote, estrategicamente sobranceiro à sala, proporcionando um posto de observação privilegiado, à permanência em pé na sala ou até, por mais do que uma vez, à permanência em pé nas cadeiras de madeira gingonas que bordejavam o salão da Sociedade em dupla fila. Havia de tudo. Esta vigilância assumia especial cuidado quando tocavam aquelas músicas mais calmas, os “slows”. Aí sim, o radar era accionado a 500% e a vigilância feita à lupa. Não há registo de que alguma mãe alguma vez tenha conseguido conter as hormonas malucas das filhas que teimavam em pular que nem doidas.

As filhas fugiam como podiam. Davam um pulo à casa de banho com passagem pela rua. Combinavam encontros, dançavam mais apertadas ou, simplesmente, saltavam a janela do quarto depois do baile.

Bifana 5 paus, sandes de molho 10 tostões.

Minis, médias, copos de tinto e branco, cheio ou meio, interessava era molhar o bico. Aquela música maluca baralhava a cabeça e fazia sede.

 Normalmente antes do baile acabar havia sempre bofetada. Era o sal e a pimenta da coisa. Tinha sempre que haver zaragata, normalmente provocada por um copito a mais, uma raiva antiga ou uma disputa de saias.

Quando o motivo eram saias, a coisa resolvia-se à bulha na rua com intervenção feminina ou ficava prometida nova investida na próxima vez. Raivas antigas era só letra. Não passava de trinta e um de boca, ameaças e “segurem-me senão eu mato-o”.

Copitos, dependia da rezinguisse dos intervenientes. Quando estavam os dois “carregados”, a coisa prolongava-se. Quando só um estava “tocado”, daqueles que qualquer copito fazia despoletar o azedume da vida e vir ao de cima o amargoso fel que lhes temperava a alma, era mais ou menos simples. Era a história do beberrão de má fé, do Bocage:



Um beberrão de má-fé,

numa tasca amotinando,

dá tamanho pontapé

Num sábio que ia passando

que dá com ele no chão.

Esperava-se função.

Mas este levantou-se,

dizendo para a taberna:

Por uma besta dar um Couce

Há-de se lhe arrancar uma perna?



E acabava a zaragata e o baile. Boa noite.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Francisco Costa, a reescrita da vida

CARLOS MANIQUE

Num texto publicado a propósito do centenário do nascimento de Francisco Costa (1900-1987), muito justamente celebrado no ano de 2000, analisei alguns aspetos associados à casa onde o citado escritor viveu cerca de sessenta anos (situada em Sintra, na rua Sacadura Cabral). Procurei, no momento, valorizar a cumplicidade existente entre o autor do projeto de arquitetura, Raul Lino, e os desígnios do futuro utilizador. Com efeito, a obra literária do escritor sintrense deixa transparecer quão significativa foi a casa que habitou – entendamo-la enquanto espaço de vivência cultural e familiar – para o seu labor criativo. E não é apenas pelo facto de em alguns romances de Francisco Costa serem descritas paisagens observadas do alpendre de sua casa (cf., por exemplo, A Graça e a Serpente, edição de 1969, p. 229) – do qual se tem, aliás, ampla e privilegiada vista para os vetustos castelo mourisco e paço real –, do mesmo modo, trechos do interior da habitação, mas sobretudo pelo lar surgir como um espaço de contrastes, se quisermos, de dicotomias: luz/sombra; alegria/tristeza…

Em boa medida, esse pensamento encontra-se plasmado num soneto digno de referência, na sua derradeira versão (já que resultou de um processo de reescrita ao longo da vida) intitulado “A Casa” e publicado em Última Colheita (1987). Note-se que a ideia do soneto remonta ao período de construção da casa do poeta (1926 a 1929). De resto, a primeira versão conhecida, intitulada “Domus mea”, data de maio de 1930. Também desse ano (tudo leva a crer) existe uma outra versão, sem título, muito similar (exceção feita à segunda quadra) e escrita numa folha avulsa. Tratar-se-á do primeiro esboço?

O dito soneto só viu a luz do dia em 1938, nas páginas do Jornal de Sintra e sob o título “Domus nostra”. Verificam-se, aliás, algumas alterações relativamente à versão escrita em 1930, sendo interessante a própria mudança de “mea” para “nostra”; traduz, na minha perspetiva, maior espírito de comunhão entre a família que então crescia, se enraizava e partilhava o espaço do lar.

Passaria quase meio século até que o poeta voltasse a deter-se no soneto, ou seja, já na fase final da sua vida. E é na última versão, passados então muitos e férteis momentos de alegria, mas também de agrura e tristeza (como foram os dos falecimentos da filha mais velha e da esposa), que a escrita explora com mais fluidez e sentimento a dor física dos obreiros (metamorfoseada na dor de quem é acolhido pelas paredes da casa). O próprio nome com que Francisco Costa rebatizou o soneto, prescindindo de um pronome possessivo, deixa antever alguém que se encontrava “maduro para a eternidade […] para repousar sem mais turbações de existência”, fazendo minha a feliz expressão de Pinharanda Gomes.  

Procuremos, então, fruir as três versões do soneto…

Domus mea

Quando esta casa, que hoje abriga a gente

das chuvas e dos ventos, mal se via

emergir dos caboucos, dia a dia,

pedra a pedra, penosa e lentamente;


em certo dia abafadiço, ardente,

o suor dos obreiros escorria

juntando-se à argamassa inerte e fria

numa pasta de dor, salgada e quente.


Se, pois, ante os espinhos e os escolhos

da vida, nos vier o pranto aos olhos,

não ergamos queixumes para Deus.


Nossas lágrimas são a indigna paga

do suor que outros deram, baga a baga,

para que estes muros fossem teus e meus.

(Maio de 1930; espólio Francisco Costa)

Domus nostra

Quando esta casa, que hoje abriga a gente

das chuvas e dos ventos, mal se erguia

acima do cabouco, e a trave esguia

viçava ainda no pinhal ridente,


ah! quantas vezes, sob o sol candente,

o suor, que em fartas gotas escorria

da fronte dos obreiros, convertia

a argamassa banal num fluido ardente.


Hoje, ao abrigo enfim dos temporais,

íntimos ventos nos povoam de ais,

molham-se os meus, choram teus olhos puros.


e o nosso pranto, lentamente, apaga

a dor que outros suaram, baga a baga,

e que arde incorporada nestes muros.

(12 de junho de 1938, publicado no Jornal de Sintra a 19 do mesmo mês e ano)

 A Casa

Quando esta casa, feita mesmo em frente

da serra verde, ainda mal se erguia,

e as traves da futura moradia

eram belos pinheiros, simplesmente,


houve uma tarde, sob um sol ardente,

em que o suor em bagas escorria

da testa dos pedreiros e fazia

da cal e areia uma argamassa quente.


Hoje, há paredes contra os vendavais,

mas é cá dentro que soltamos ais

nos dias mais aflitos ou mais duros.


Enquanto gemem temporais lá fora,

pagamos nós em lágrimas, agora,

a dor incorporada nestes muros.

(Última Colheita, 1987, p. 13)