quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

"Nem tirou o capacete"

CARLOS CAMACHO

Tenho saudades do Tó Pê.

Só o costumava ver duas ou três vezes por ano, quando cá vinha cheio de saudades das coisas simples que Fontanelas tem. Revia a família, os amigos e “carregava baterias”. Quando chegava, independentemente da hora, tinha um ritual há tantos anos quantos estava no estrangeiro. Antes de ir para casa da mãe, ia regalar as vistas e tomar um banho de maresia e de mar à Praia da Aguda. Tinha, obrigatoriamente, que sentir a Praia da Aguda.

Não era mau diabo, antes pelo contrário. Se existia alguém com valores morais, pessoais e filosóficos, era o Tó Pê.

O Tó Pê nasceu em Fontanelas no início da década de 60 e foi um dos símbolos dessa geração. Faleceu prematuramente muito novo, na casa onde cresceu, em casa da mãe. António Pedro Borlido, de alcunha o Tó Pê, depressa seguiu as pisadas do seu falecido pai na descoberta do mundo além-fronteiras. Do avô António Pedreiro herdou a veia comunista, por si próprio desenvolveu a contestação, a irreverência, o sentido revolucionário, o que lhe valeu alguns dissabores na sociedade Fontanelense, à data ainda muito pouco tolerante em relação à diferença. Numa aldeia como Fontanelas, sob muitos aspectos fechada, o aconchego a alegados valores morais, religiosos e bafientos “bons costumes”, toldam a visão e escamoteiam a evolução, inevitável e irreversível.

Tinha vontade de ser diferente, de fazer o que as suas crenças lhe ditavam, de ter a liberdade que achava que devia ter. O Tó Pê era único. Numas das nossas últimas conversas, no bar do Janeca em 2007, o Tó Pê estava feliz, tinha os filhos na boa, a estudar e a trabalhar, na sua vida pessoal fazia o que queria, estava ligado à dança e andava a aprender a tocar uma espécie de acordeão de madeira. Também participava em associações culturais, fazia work-shops de dança, fazia o que realmente gostava: interagir, brincar, ensinar e gostar de pessoas.

O Tó Pê não era o típico emigrante empurrado pela vontade de vencer e ter condições financeiras mais favoráveis. Era aventureiro. Gostava de ser livre e correr mundo, apenas pelo prazer de conhecer novas pessoas, novas culturas, novas gentes.

O Tó Pê sempre foi um “lobo solitário”. Sempre fez o que lhe ia na alma e sem “dar cavaco” a ninguém. Na sua juventude e antes de ir para fora, sempre andou sozinho, avesso ao sentido de manada, à “Maria-vai-com-as-outras” que caracteriza a maior parte de todos nós, a nossa sociedade. A preocupação da Sra. Manuela, sua mãe, nunca o impediu de “correr mundo” e estar temporadas fora, a partir dos 17 ou 18 anos.

O Tó Pê tinha piada. Arranjava uma treta qualquer, uma conversa qualquer que todos sabíamos ser treta para nos rirmos. Fazia parte da sua forma de estar e de ser. Qualquer conversa em grupo tinha, invariavelmente, que meter risota e boa disposição. A palavra que caracterizava mesmo o Tó Pê era “alegria”. Era uma pessoa alegre, apesar de ter sofrido algumas agruras ao longo da sua vida.

Gostava de contar anedotas e mentiras teatrais, daquelas que toda agente sabia que era mentira, mas contadas com arte e engenho. Gostava de rir e fazer rir.

Certa vez chegou ao pé da malta na sua moto, todo lampeiro, e arranjou logo uma mentira, na hora.

Começou por dizer que tinha conhecido uma rapariga que andava de mota na Praia das Maçãs. Conversa mete conversa, era de Sintra, tinha 20 anos, não tinha namorado, uma coisa leva a outra e acabaram na praia, “confortavelmente”.

Epá, deu caldinho?” perguntou o Varetas.

Deu pois” respondeu o Tó Pê.

E a gaja, era bonita?” perguntou o Coutinho?

Responde o Tó Pê: “Epá, nem reparei. Não tirou o capacete...”

 Boa, Tó Pê. Enquanto cá estiveste, viveste em pleno...

domingo, 7 de dezembro de 2014

De volta à ilha- um conto de Filomena Marona Beja

FILOMENA MARONA BEJA


     Logo que completou dezoito anos, Anthony Botelho ficou sujeito a todas as obrigações de um norte-americano.

     Em cima da cómoda da Avó, está ainda uma fotografia dessa ocasião que o mostra entre amigos. Cantavam: Happy birthday to you...

     Nascera ali, na Ilha. E chegara aos vinte e dois meses a Lynn, Massachusetts.

     Foi à escola. Primary and middle school. Depois, fez um trimestre na Vocational High School. E desistiu.

     Como gostava de aceres quase tanto quanto do mar, propôs-se para guarda na reserva de Lynn Woods.

     Logo, porém, foi chamado para o Exército.  Estava-se em 2001. Junho de 2001.

     Em Dezembro, com os votos de Merry Cristhmas, a Avó recebeu outra fotografia. Tony era agora um soltado de cabelo cortado rente.

     A Avó chorou. E foi entregar o retrato ao Senhor Santo Cristo, pedindo: “Que ele volte para casa depressa e salvo.”


     À Ilha só voltaria depois do Afeganistão. Desmobilizado e com a esperança de se ir curando dos males da guerra.


     O boné!

     Levava-o uma rabanada de vento. Vento de sudoeste que se levantara ao largo e começava a virara as pranchas de windsurf.

     A pala do boné, em forma de telha, foi encaixar nas raízes de um metrosídero. Tony correu para o apanhar.

     Apanhou.

     Voltou a sentar-se na beira do muro. Acendeu um, dois cigarros.

     Tinha-se-lhe acabado o tabaco americano, e agora fumava maços de Estrela.


     Para a Avó, Tony era ainda um rapazito.

     Quando a Fábrica do Peixe apitava, às oito da manhã, ela entreabria a porta do quarto. Entrava.

     - Que Deus te abençoe e dê um bom dia, Tony.

     Trazia-lhe café com leite, bolo lêvedo, compota de araçá.

     Perguntava, às vezes, como fora no Afeganistão. Dormia vestido? E comer, comia enquanto disparava? Custara-lhe muito a passar aquele tempo?

     Não respondia.

     Ainda em Lynn, a Mãe também quisera saber dos combates. Das emboscadas. Do zigzaguear, mochila às costas e arma na mão, pelos trilhos das montanhas.

     O Pai nunca mostrara interesse pelo assunto. Tal como Tony, cumprira serviço militar obrigatório. Fora mobilizado e fizera uma comissão de dois anos, na Guiné. Sabia o que era a guerra.

     Acabava o bolo. Punha o tabuleiro ao lado da cama, tornava a adormecer.

     Dormia até tarde, almoçava e saía. Passava as tardes sentado no quebra-mar.

    

     Ali estava ele, agora.

     Vento cada vez mais forte. Os garajaus à procura de abrigo, em terra.

     A força das correntes arrastava para Sul os bocados das pranchas de surf. Ramos de arbustos. Destroços de cadeiras das esplanadas.

     Diante do mar, Tony lembrava-se do leito quase seco do rio Kaboul. Pelas margens, homens de albornoz arregaçado fazendo as necessidades. Limpando o rabo a um calhau.

     Repulsa.

     Depois, a progressão para Kandahar. Altitude, aridez.

     Quem me dera Lynn Woods”, pensava ao princípio. Depois, deixou de pensar.

     Atravessavam povoações. Dir-se-iam desertas quase todas. Revistavam as casas e davam com alguns velhos que lhes ofereciam os cachimbos.

     As mulheres e as raparigas invisíveis. Escondidas.

     As recomendações do Comando eram: “Não olhem!... Não toquem nestas mulheres!”. “O mundo delas não é o vosso!”.

     Abatessem-nas a tiro. Mas não lhes tocassem.

     “Devem ignorá-las... Têm de as ignorar!”


     Não ignorava.

     Desejava.

     Desejou até se esvair, esquecendo que tinha pés e pernas. Cintura. Olhos, boca.


     Um grupo de raparigas atravessou a rua. Uma excursão.

     Vinham quase todas de calções, duas ou três de saia. O vento trespassava-lhes as blusas. Desalinhava-lhes o cabelo.

     Falavam português. No entanto, Tony mal as entendia. Que pronúncia aquela, tão diferente da toada das Ilhas?

     Lisboa! E gente de Lisboa, era rara no Massachusetts, onde ele quase sempre vivera.

     Passaram por ele as raparigas, sem o abalar. Continuaram, sob as copas dos metrosíderos.


     Quisesse o Senhor Santo Cristo que tu escolhesses noiva aqui, na Ilha!”, pedia a Avó.


     E Tony poderia ter escolhido quem quisesse. Agradava a todas.

     De facto, era atraente e sabia-se que fora um bom soldado. Herói. Embora não se deixasse de admitir algum exagero.

     Por isso elas esmeravam-se. Umas exibindo virtude, outras atrevimento.

     Se alguma o conquistasse, segui-lo-ia no regresso a Lynn. Missis Botelho. Com direito a tudo o que de bom havia na América.

     E seria assim tão bom o que lá havia? Nas Ilhas dizia-se que sim. Melhor que no Brasil. Ou Canadá.

     Parecia no entanto que nenhuma mulher, solteira ou casada, seduzia Anthony Botelho.


     - Diga-me...

     Uma das excursionistas de Lisboa desertara do grupo. Voltara atrás e perguntava:

     -...não se pode descer por aqui, até lá abaixo?

     Descer entre rochas, até à nesga de areia escura deixada pelo mar?!

     Tony pousou o cigarro na borda do muro e levantou-se.

     Havia um trilho, sim senhora. Podia-se descer.

     -...mas olhe que tem perigo.

     - Por onde é?

     Tony apontou.

     Ela começou a descer. Voava-lhe a saia, escorregavam-lhe as sandálias. Desequilibrava-se.

     - Espere aí, miss!...

     Foi ajudá-la.


     Os dois de pedra em pedra. Olhos baixos. Ele a dizer-lhe onde havia de pôr os pés. A dar-lhe a mão.

     - E pronto!... Cá estamos.

     Perguntou-lhe o nome.

     Xana.


     O mar agitado, ao largo. E quase manso, na borda da areia.

     Xana descalçou-se. Agarrou nas pontas da saia e entrou na água. Estava fria, picava-lhe a planta dos pés, salpicava-lhe as pernas. E uma onda mais forte molhou-a acima dos joelhos.

     Então, veio para junto de um penedo e despiu-se.

     Tony estava sentado no chão. Viu-a prender a roupa com seixos. Ir nua para o mar.

     - É tão bom... Tão bom!

     Virou-se para ele. A água pelo meio das coxas. Mamilos arrepiados, o escuro de entre pernas em realce.

     - Venha! – chamou.


     Desembaraçou-se das sapatilhas. Tshirt, jeans, boxers.

     Foi até ela e agarrou-a pelo cabelo. Beijou-a, fazendo-lhe sentir a barba, a língua, os dentes. Toda a dureza do seu corpo.

     Depois levou-lhe a cabeça até à água. Fê-la dobrar-se. Mergulhar.

     Ela debatia-se. Debateu-se. Ainda levantou os braços.

     Tony não cedeu.

     Quando a sentiu inerte, enlaçou-a contra si. Nadou para o largo.


     Levou-os a corrente Sul.

     A invencível corrente que passa entre as Ilhas. E arrasta para a costa de África os restos de todos os naufrágios.


Filomena Marona Beja

Dezembro/ 2014.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti

FREDERICO PARADELA DE ABREU


Nenhum homem é uma ilha, escreveu John Donne. Pois as diferentes áreas do saber também não devem ser ilhas. A insularidade intelectual não tem cabimento nos tempos actuais quando vivemos em sistemas abertos e extremamente voláteis.



No mapa mundi do conhecimento, vermos nitidamente determinada geografia mas olharmos para o lado e vermos tudo escuro é potencialmente das situações mais perigosas em termos de tomada de decisão e interacção com os diversos agentes do ecossistema laboral, pois essa nitidez afunilada trará falsa confiança (e até arrogância) à nossa leitura de determinada situação. Essa escuridão são os limites do nosso conhecimento. Aqui, digo: entra depressa nessa noite escura – só assim conseguiremos alargar o nosso mapa. Todos os elementos estão ligados entre si, afectando e sendo afectados, formando a grande rede de conhecimento. A tendência de compartimentarmos as diferentes áreas pode enevoar a nossa noção de interdependência das mesmas. Nada é sozinho, tudo é sistémico.



Quem quiser seguir o caminho da especialização (estrita) que o faça consciente de que se está a enfraquecer e que se tornará, isso sim, um especialista em tomar más decisões e não propriamente um especialista na área em que se decidiu isolar. Nada é sozinho, tudo é sistémico.



Tirar, por exemplo, uma licenciatura em Marketing e depois um mestrado em Marketing é das decisões mais absurdas que se pode tomar porque não irá acrescentar novas competências e noções às suas capacidades e acabará por cair na armadilha da nitidez afunilada. Se os títulos académicos forem frequentados na mesma instituição de ensino então deliberadamente oficializam a estagnação. Cada instituição de ensino tem o seu próprio mindset, a sua maneira de interagir com o conhecimento e com o mundo. Quanto mais essa idiossincrasia for diferente da nossa, maior é o crescimento profissional. Não há que temer o contraste, antes pelo contrário. Além do mais, em qualquer conjunto de pessoas (empresas, escolas, associações, grupo de amigos, et cetera) criam-se vícios que são indetectáveis aos «insiders». Dinâmicas que se cristalizam dentro de cada sistema e que tipicamente são anti-benéficos, ou até mesmo maléficos, sendo muito difícil ganhar-se consciência delas. Estes vícios são inerentes a qualquer sistema social, é possível fazer-se frente a eles mas são como ervas daninhas que, de x em x tempo, acabam sempre por voltar. O truque é mudar o contexto com regularidade.



Fazê-lo (repetir a área de formação) sob o desígnio de seguir a carreira académica desembocará a média prazo (quando estiverem a leccionar as suas unidades curriculares) em mais iatrogenia no ensino em Portugal. A empatia (cuja Psicologia define como a capacidade de compreender a perspectiva psicológica do outro) é fundamental para exercer qualquer actividade de forma integrada e realmente proveitosa para sociedade. A melhor maneira será, certamente, a de compreender a perspectiva do outro através da formação em áreas diferentes do background de base. O truque é mudar o contexto com regularidade.



Quem quiser fortalecer-se profissionalmente (entre as várias consequências deste fortalecimento a mais tangível será provavelmente a progressão na carreira), mude de cargo, mude de departamento, mude de área, mesmo que seja temporariamente, o regresso será robusto. O saldo entre o tempo em que não esteve a ganhar a experiência no seu antigo trabalho e o desenvolvimento de aptidões e noções da nova área é sempre positivo*. O cruzamento das perspectivas das diferentes áreas engrandece a nossa capacidade de trabalho e o nosso output. Na qualidade de pessoa não formada na área da medicina, creio que esta ideia de «cruzamento» poderá estar ligada ao facto de não ser o número de neurónios que determina os nossos dotes cerebrais mas sim o número de ligações (sinapses) entre eles. O cruzamento de perspectivas melhora o resultado.   



Num plano mais macro, a teoria de David Ricardo (luso descendente), sobre a especialização, é perigosa porque deixa os países altamente vulneráveis a mudanças de circunstâncias. Se as pessoas deixarem de consumir vinho (não pensem que este cenário é assim tão improvável, basta observar o comportamento dos consumidores ao longo dos tempos) ou se surgir outra praga, cujo impacto seja semelhante ou maior que o da filoxera, Portugal, caso tivesse depositado todos os seus esforços nesta especialização, ficaria devastado e sem armas para se defender ou, usando uma linguagem na linha do contexto, sem vantagens competitivas. Isto é válido também para regiões. O turismo em Sintra tem vindo a crescer fortemente e ainda há muito potencial para ser aproveitado. Se a Câmara Municipal de Sintra apostar exclusivamente no sector do turismo e este sofrer uma quebra, a economia da região quebrará com ele. O ecletismo combate a dependência.



Individualmente, ser ecléctico estimula-nos a explorar diferentes caminhos. Cada caminho trabalha-nos de forma única mas o seu desenvolvimento espalha-se sobre os demais. Esta é a linha de pensamento que tem vindo a ser desenvolvida até aqui. Mas o outro aspecto benéfico do ecletismo advém da criação de uma diversidade de caminhos que resulta em menor vulnerabilidade caso as coisas não corram bem num deles. O ecletismo combate a dependência. 



Num plano menos profissional, creio que uma actividade saudável para sairmos da nossa ilha passa por nos relacionarmos com todo o tipo de pessoas – todo o tipo. Sejam curiosos, façam perguntas, e liguem a escuta activa. Isto ajuda-nos a ver como essas pessoas (que têm diferentes percursos de vida) captam, de forma diferente, a mesma realidade. Não fiquem introvertidos por irem a festas em que só conhecem o aniversariante (mas preparem uma desculpa de salvaguarda caso não estejam a divertir-se muito – o que acontecerá muito menos vezes daquilo que expectavam), são oportunidades formidáveis para privarmos com pessoas de backgrounds bastante diferentes do dos nossos círculos de amigos. O cruzamento de perspectivas melhora o resultado.    



* ”Sempre?! Mas quem és tu para falares com essa convicção?!? Meu zé-ninguém sem experiência!” – Anónimo com experiência profissional mas que provavelmente sofre de nitidez afunilada.

Resposta: Procura olhar para o conteúdo da ideia e não para o cargo ou status da pessoa.



Estilo de rima emparelhado:



A – Nada é sozinho, tudo é sistémico



A – Nada é sozinho, tudo é sistémico



B – O truque é mudar o contexto com regularidade



B – O truque é mudar o contexto com regularidade



Estilo de rima interpolado



A – O cruzamento de perspectivas melhora o resultado



B – O ecletismo combate a dependência



B – O ecletismo combate a dependência



A – O cruzamento de perspectivas melhora o resultado