domingo, 7 de dezembro de 2014

De volta à ilha- um conto de Filomena Marona Beja

FILOMENA MARONA BEJA


     Logo que completou dezoito anos, Anthony Botelho ficou sujeito a todas as obrigações de um norte-americano.

     Em cima da cómoda da Avó, está ainda uma fotografia dessa ocasião que o mostra entre amigos. Cantavam: Happy birthday to you...

     Nascera ali, na Ilha. E chegara aos vinte e dois meses a Lynn, Massachusetts.

     Foi à escola. Primary and middle school. Depois, fez um trimestre na Vocational High School. E desistiu.

     Como gostava de aceres quase tanto quanto do mar, propôs-se para guarda na reserva de Lynn Woods.

     Logo, porém, foi chamado para o Exército.  Estava-se em 2001. Junho de 2001.

     Em Dezembro, com os votos de Merry Cristhmas, a Avó recebeu outra fotografia. Tony era agora um soltado de cabelo cortado rente.

     A Avó chorou. E foi entregar o retrato ao Senhor Santo Cristo, pedindo: “Que ele volte para casa depressa e salvo.”


     À Ilha só voltaria depois do Afeganistão. Desmobilizado e com a esperança de se ir curando dos males da guerra.


     O boné!

     Levava-o uma rabanada de vento. Vento de sudoeste que se levantara ao largo e começava a virara as pranchas de windsurf.

     A pala do boné, em forma de telha, foi encaixar nas raízes de um metrosídero. Tony correu para o apanhar.

     Apanhou.

     Voltou a sentar-se na beira do muro. Acendeu um, dois cigarros.

     Tinha-se-lhe acabado o tabaco americano, e agora fumava maços de Estrela.


     Para a Avó, Tony era ainda um rapazito.

     Quando a Fábrica do Peixe apitava, às oito da manhã, ela entreabria a porta do quarto. Entrava.

     - Que Deus te abençoe e dê um bom dia, Tony.

     Trazia-lhe café com leite, bolo lêvedo, compota de araçá.

     Perguntava, às vezes, como fora no Afeganistão. Dormia vestido? E comer, comia enquanto disparava? Custara-lhe muito a passar aquele tempo?

     Não respondia.

     Ainda em Lynn, a Mãe também quisera saber dos combates. Das emboscadas. Do zigzaguear, mochila às costas e arma na mão, pelos trilhos das montanhas.

     O Pai nunca mostrara interesse pelo assunto. Tal como Tony, cumprira serviço militar obrigatório. Fora mobilizado e fizera uma comissão de dois anos, na Guiné. Sabia o que era a guerra.

     Acabava o bolo. Punha o tabuleiro ao lado da cama, tornava a adormecer.

     Dormia até tarde, almoçava e saía. Passava as tardes sentado no quebra-mar.

    

     Ali estava ele, agora.

     Vento cada vez mais forte. Os garajaus à procura de abrigo, em terra.

     A força das correntes arrastava para Sul os bocados das pranchas de surf. Ramos de arbustos. Destroços de cadeiras das esplanadas.

     Diante do mar, Tony lembrava-se do leito quase seco do rio Kaboul. Pelas margens, homens de albornoz arregaçado fazendo as necessidades. Limpando o rabo a um calhau.

     Repulsa.

     Depois, a progressão para Kandahar. Altitude, aridez.

     Quem me dera Lynn Woods”, pensava ao princípio. Depois, deixou de pensar.

     Atravessavam povoações. Dir-se-iam desertas quase todas. Revistavam as casas e davam com alguns velhos que lhes ofereciam os cachimbos.

     As mulheres e as raparigas invisíveis. Escondidas.

     As recomendações do Comando eram: “Não olhem!... Não toquem nestas mulheres!”. “O mundo delas não é o vosso!”.

     Abatessem-nas a tiro. Mas não lhes tocassem.

     “Devem ignorá-las... Têm de as ignorar!”


     Não ignorava.

     Desejava.

     Desejou até se esvair, esquecendo que tinha pés e pernas. Cintura. Olhos, boca.


     Um grupo de raparigas atravessou a rua. Uma excursão.

     Vinham quase todas de calções, duas ou três de saia. O vento trespassava-lhes as blusas. Desalinhava-lhes o cabelo.

     Falavam português. No entanto, Tony mal as entendia. Que pronúncia aquela, tão diferente da toada das Ilhas?

     Lisboa! E gente de Lisboa, era rara no Massachusetts, onde ele quase sempre vivera.

     Passaram por ele as raparigas, sem o abalar. Continuaram, sob as copas dos metrosíderos.


     Quisesse o Senhor Santo Cristo que tu escolhesses noiva aqui, na Ilha!”, pedia a Avó.


     E Tony poderia ter escolhido quem quisesse. Agradava a todas.

     De facto, era atraente e sabia-se que fora um bom soldado. Herói. Embora não se deixasse de admitir algum exagero.

     Por isso elas esmeravam-se. Umas exibindo virtude, outras atrevimento.

     Se alguma o conquistasse, segui-lo-ia no regresso a Lynn. Missis Botelho. Com direito a tudo o que de bom havia na América.

     E seria assim tão bom o que lá havia? Nas Ilhas dizia-se que sim. Melhor que no Brasil. Ou Canadá.

     Parecia no entanto que nenhuma mulher, solteira ou casada, seduzia Anthony Botelho.


     - Diga-me...

     Uma das excursionistas de Lisboa desertara do grupo. Voltara atrás e perguntava:

     -...não se pode descer por aqui, até lá abaixo?

     Descer entre rochas, até à nesga de areia escura deixada pelo mar?!

     Tony pousou o cigarro na borda do muro e levantou-se.

     Havia um trilho, sim senhora. Podia-se descer.

     -...mas olhe que tem perigo.

     - Por onde é?

     Tony apontou.

     Ela começou a descer. Voava-lhe a saia, escorregavam-lhe as sandálias. Desequilibrava-se.

     - Espere aí, miss!...

     Foi ajudá-la.


     Os dois de pedra em pedra. Olhos baixos. Ele a dizer-lhe onde havia de pôr os pés. A dar-lhe a mão.

     - E pronto!... Cá estamos.

     Perguntou-lhe o nome.

     Xana.


     O mar agitado, ao largo. E quase manso, na borda da areia.

     Xana descalçou-se. Agarrou nas pontas da saia e entrou na água. Estava fria, picava-lhe a planta dos pés, salpicava-lhe as pernas. E uma onda mais forte molhou-a acima dos joelhos.

     Então, veio para junto de um penedo e despiu-se.

     Tony estava sentado no chão. Viu-a prender a roupa com seixos. Ir nua para o mar.

     - É tão bom... Tão bom!

     Virou-se para ele. A água pelo meio das coxas. Mamilos arrepiados, o escuro de entre pernas em realce.

     - Venha! – chamou.


     Desembaraçou-se das sapatilhas. Tshirt, jeans, boxers.

     Foi até ela e agarrou-a pelo cabelo. Beijou-a, fazendo-lhe sentir a barba, a língua, os dentes. Toda a dureza do seu corpo.

     Depois levou-lhe a cabeça até à água. Fê-la dobrar-se. Mergulhar.

     Ela debatia-se. Debateu-se. Ainda levantou os braços.

     Tony não cedeu.

     Quando a sentiu inerte, enlaçou-a contra si. Nadou para o largo.


     Levou-os a corrente Sul.

     A invencível corrente que passa entre as Ilhas. E arrasta para a costa de África os restos de todos os naufrágios.


Filomena Marona Beja

Dezembro/ 2014.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti

FREDERICO PARADELA DE ABREU


Nenhum homem é uma ilha, escreveu John Donne. Pois as diferentes áreas do saber também não devem ser ilhas. A insularidade intelectual não tem cabimento nos tempos actuais quando vivemos em sistemas abertos e extremamente voláteis.



No mapa mundi do conhecimento, vermos nitidamente determinada geografia mas olharmos para o lado e vermos tudo escuro é potencialmente das situações mais perigosas em termos de tomada de decisão e interacção com os diversos agentes do ecossistema laboral, pois essa nitidez afunilada trará falsa confiança (e até arrogância) à nossa leitura de determinada situação. Essa escuridão são os limites do nosso conhecimento. Aqui, digo: entra depressa nessa noite escura – só assim conseguiremos alargar o nosso mapa. Todos os elementos estão ligados entre si, afectando e sendo afectados, formando a grande rede de conhecimento. A tendência de compartimentarmos as diferentes áreas pode enevoar a nossa noção de interdependência das mesmas. Nada é sozinho, tudo é sistémico.



Quem quiser seguir o caminho da especialização (estrita) que o faça consciente de que se está a enfraquecer e que se tornará, isso sim, um especialista em tomar más decisões e não propriamente um especialista na área em que se decidiu isolar. Nada é sozinho, tudo é sistémico.



Tirar, por exemplo, uma licenciatura em Marketing e depois um mestrado em Marketing é das decisões mais absurdas que se pode tomar porque não irá acrescentar novas competências e noções às suas capacidades e acabará por cair na armadilha da nitidez afunilada. Se os títulos académicos forem frequentados na mesma instituição de ensino então deliberadamente oficializam a estagnação. Cada instituição de ensino tem o seu próprio mindset, a sua maneira de interagir com o conhecimento e com o mundo. Quanto mais essa idiossincrasia for diferente da nossa, maior é o crescimento profissional. Não há que temer o contraste, antes pelo contrário. Além do mais, em qualquer conjunto de pessoas (empresas, escolas, associações, grupo de amigos, et cetera) criam-se vícios que são indetectáveis aos «insiders». Dinâmicas que se cristalizam dentro de cada sistema e que tipicamente são anti-benéficos, ou até mesmo maléficos, sendo muito difícil ganhar-se consciência delas. Estes vícios são inerentes a qualquer sistema social, é possível fazer-se frente a eles mas são como ervas daninhas que, de x em x tempo, acabam sempre por voltar. O truque é mudar o contexto com regularidade.



Fazê-lo (repetir a área de formação) sob o desígnio de seguir a carreira académica desembocará a média prazo (quando estiverem a leccionar as suas unidades curriculares) em mais iatrogenia no ensino em Portugal. A empatia (cuja Psicologia define como a capacidade de compreender a perspectiva psicológica do outro) é fundamental para exercer qualquer actividade de forma integrada e realmente proveitosa para sociedade. A melhor maneira será, certamente, a de compreender a perspectiva do outro através da formação em áreas diferentes do background de base. O truque é mudar o contexto com regularidade.



Quem quiser fortalecer-se profissionalmente (entre as várias consequências deste fortalecimento a mais tangível será provavelmente a progressão na carreira), mude de cargo, mude de departamento, mude de área, mesmo que seja temporariamente, o regresso será robusto. O saldo entre o tempo em que não esteve a ganhar a experiência no seu antigo trabalho e o desenvolvimento de aptidões e noções da nova área é sempre positivo*. O cruzamento das perspectivas das diferentes áreas engrandece a nossa capacidade de trabalho e o nosso output. Na qualidade de pessoa não formada na área da medicina, creio que esta ideia de «cruzamento» poderá estar ligada ao facto de não ser o número de neurónios que determina os nossos dotes cerebrais mas sim o número de ligações (sinapses) entre eles. O cruzamento de perspectivas melhora o resultado.   



Num plano mais macro, a teoria de David Ricardo (luso descendente), sobre a especialização, é perigosa porque deixa os países altamente vulneráveis a mudanças de circunstâncias. Se as pessoas deixarem de consumir vinho (não pensem que este cenário é assim tão improvável, basta observar o comportamento dos consumidores ao longo dos tempos) ou se surgir outra praga, cujo impacto seja semelhante ou maior que o da filoxera, Portugal, caso tivesse depositado todos os seus esforços nesta especialização, ficaria devastado e sem armas para se defender ou, usando uma linguagem na linha do contexto, sem vantagens competitivas. Isto é válido também para regiões. O turismo em Sintra tem vindo a crescer fortemente e ainda há muito potencial para ser aproveitado. Se a Câmara Municipal de Sintra apostar exclusivamente no sector do turismo e este sofrer uma quebra, a economia da região quebrará com ele. O ecletismo combate a dependência.



Individualmente, ser ecléctico estimula-nos a explorar diferentes caminhos. Cada caminho trabalha-nos de forma única mas o seu desenvolvimento espalha-se sobre os demais. Esta é a linha de pensamento que tem vindo a ser desenvolvida até aqui. Mas o outro aspecto benéfico do ecletismo advém da criação de uma diversidade de caminhos que resulta em menor vulnerabilidade caso as coisas não corram bem num deles. O ecletismo combate a dependência. 



Num plano menos profissional, creio que uma actividade saudável para sairmos da nossa ilha passa por nos relacionarmos com todo o tipo de pessoas – todo o tipo. Sejam curiosos, façam perguntas, e liguem a escuta activa. Isto ajuda-nos a ver como essas pessoas (que têm diferentes percursos de vida) captam, de forma diferente, a mesma realidade. Não fiquem introvertidos por irem a festas em que só conhecem o aniversariante (mas preparem uma desculpa de salvaguarda caso não estejam a divertir-se muito – o que acontecerá muito menos vezes daquilo que expectavam), são oportunidades formidáveis para privarmos com pessoas de backgrounds bastante diferentes do dos nossos círculos de amigos. O cruzamento de perspectivas melhora o resultado.    



* ”Sempre?! Mas quem és tu para falares com essa convicção?!? Meu zé-ninguém sem experiência!” – Anónimo com experiência profissional mas que provavelmente sofre de nitidez afunilada.

Resposta: Procura olhar para o conteúdo da ideia e não para o cargo ou status da pessoa.



Estilo de rima emparelhado:



A – Nada é sozinho, tudo é sistémico



A – Nada é sozinho, tudo é sistémico



B – O truque é mudar o contexto com regularidade



B – O truque é mudar o contexto com regularidade



Estilo de rima interpolado



A – O cruzamento de perspectivas melhora o resultado



B – O ecletismo combate a dependência



B – O ecletismo combate a dependência



A – O cruzamento de perspectivas melhora o resultado


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Dois decilitros de revolução



FERNANDO MORAIS GOMES
A televisão não se calava com a crise, na tasca do Jaime dois velhos revolucionários entre mais um bagaço e uma amêndoa amarga, comentavam a situação política. Aborrecidos por não poderem armar o povo, Acácio, Heduíno e outros velhos anarquistas, dividiam-se, unidos na crença de que havendo governo é para ser contra ele:

-Esta corja só à porrada!- com fartos cabelos brancos escorrendo pelo ombro, anarca da velha guarda, Acácio saboreava a S. Domingos, a bem dizer bebia-a dum trago, que havia que saciar a cirrose - o Eça é que tinha razão: o Governo não há-de cair, porque não é um prédio; há-de sair com benzina, porque é uma nódoa! -chamando o Jaime, pedia mais uma dose. Aos cinco bagaços faria um comício, aos dez salvaria o mundo e aos quinze, em êxtase, alcançaria o nirvana, agarrado a quatro amigos que por acaso até eram só dois…

Heduíno estivera no Chile, no tempo de Allende e com a UDP, fora um dos barbudos do RALIS no Verão Quente de 75. Fosse mais novo, e saberia o que fazer com uma G-3, sabia de uma “em boas mãos”, a democracia burguesa e capitalista é que era a culpada da crise:

-Mataram o Marx depois do muro de Berlim, mas o velho cada vez está mais actual. Para quem dizia ter o capitalismo acabado, aí está ele, puro e duro, os “mercados” mais não são que o polvo da Trilateral, do grupo de Bildeberg e dos judeus que dominam a finança mundial! -meio zonzo, tal como Acácio, ajudava à missa na tarefa de enterrar o capitalismo antes do fim da noite, ajustando a boina basca:

-Estes gajos são todos lacaios do capital, a mamar na teta do Orçamento. Arrotam que são eleitos, mas é tudo uma treta. Um deputado é um moço de recados, só que em vez dum contrato, inventaram umas coisas chamadas votos, e o maralhal de vez em quando lá lhes vai garantir o tacho enfiando o papel numa caixa de madeira. Aliás, a coisa é tão tenebrosa que a caixa até é preta, e até se chama urna, já viram a ironia? -satisfeito com a chalaça, pedia mais um bagaço fresquinho.

-Os gajos passam a vida aos gritos, gritam sempre, chocados uns com os outros. Mas não têm espelho lá em casa? Se calhar até levam porrada da mulher, mas na rua apregoam que ninguém os cala…- Acácio falava de cor, uma vez candidatara-se à junta e fizera o mesmo. Vindo das Finanças, chegou entretanto o doutor Almada, homem do contra, mas menos anarquista, tinham sido todos do hóquei, nos anos setenta. O jornal falava em eleições e  o perigo de bancarrota era real, mas o Acácio desvalorizou:

-Bancarrota? Na minha algibeira todos os dias há bancarrota, e dívida externa…olha, o Baptista do talho que diga como está a minha balança de pagamentos… -ironizava - princípio sagrado: na falta de guito, não deixes para amanhã o que podes deixar para depois de amanhã - uma risada foi o pretexto para mais uma rodada, o spread do bagaço não tardaria a encarecer.

-Então e quem ganha? -sondou o Almada, a espevitar os amigos, sabedor das convicções contra tudo o que fosse poder. Heduíno  desvalorizou, ganharia o grande capital, pois então, e os serventuários do costume:

-A Europa já disse tudo o que era para fazer, estes anormais que cá estão é só para carregar pianos! Não há nenhum que não tenha sido julgado incapaz de governar, mas vão sempre os mesmos os que continuarão a dirigir o país. E acreditem numa coisa: quantas mais mostrarem  incapacidade para governar, mais serão recompensados com administrações ou lugares em fundações. É um contabilista mediano? Vai para ministro das Finanças. Distingue um rabanete dum nabo? Grande ministro da Agricultura! E se sabe o nome de três ou quatro capitais, são os Negócios Estrangeiros pela certa. Acácio aproveitou a deixa e meteu colherada:

-Olha, e tu nesse estado “delitro” já podes mostrar a tua liquidez e pagar mais uma rodada....aliás, é mesmo de líquido que se trata…- ironizou, meio zonzo.

Heduíno caprichou e levantando-se já ébrio e de copo na mão ensaiou um discurso, japoneses que passavam acharam piada ao seu ar de Woodstock e desataram a disparar flashes, era o avô do Che Guevara pela certa. Rodrigo, o neto do Acácio, chegou nessa altura e foi ter com eles, bebendo o resto do copo que o avô se aprestava a despejar:

-Pessoal! Os bacanos do guito querem sugar-nos o tutano e entregá-lo ao FMI e à Merkel. Há que abrir a pestana, atacá-los à saída das marisqueiras, sabotar-lhes os Mercedes, dinamitar os ginásios, sequestrá-los nas saunas! É preciso escutar a geração à rasca!

Prestava-se a continuar, para gáudio dos cotas, agitadores de outros tempos, quando o avô, cruzando as pernas com ar aflito correu para a casa de banho, Heduíno, endireitando a boina basca gracejou com Rodrigo:

-A incontinência  e a próstata não perdoam, Rodrigo, chega à nossa idade, e aí é que vais ver o que é a  geração à rasca! Literalmente!

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

"Beba à vontade e sem medo"

CARLOS CAMACHO

Propriedade do Ti Zé e da Ti Firmina, o “Café do Zé” foi, durante várias décadas e até 1981, o centro da aldeia de Fontanelas.
As tabernas perderam clientela nova e fresca para o café, mais inovador, com oferta moderna, como bica, bagaço ou brandi. O cheiro a vinho retardado, associado a uma clientela mais rústica e pouco exigente, afastava esta nova vaga de freguesia ávida por bebidas finas, bolos quentes e gelados Olá.
Era no café do Zé lá que miúdos, graúdos, veraneantes e outra gente se encontravam. A esplanada sobranceira à estrada era uma autêntica torre de vigia e não permitia que alguém passasse por Fontanelas sem ser objecto de controlo apertado. Era aí que todos se encontravam e iniciavam a malandragem juvenil, os primeiros copos, os primeiros namoricos, os primeiros cigarros Mata-Ratos.
Autênticos torneios de futebol se deram na esplanada e na rua principal, em frente. Quando vinha a GNR, cuidado. Dava direito a multa de 33 escudos por jogar à bola na via pública. Também a “casa dos bonecos”, como era chamada a sala dos matraquilhos e das máquinas “flipper”, iniciou a miudagem toda na arte de fumar às escondidas, bater caricas para substituir moedas de 10 tostões ou roubar as máquinas electrónicas, quer fosse com um arame de fardo no moedeiro ou com um berbequim manual.
Roubar pastilhas, gelados e bolos da montra também fazia parte das habilidades dos miúdos mais atrevidos. Os pastéis de nata feitos pela Ti Firmina davam um “bigode” a qualquer “Pastel de Belém” mais afamado, sem direito a tornas. O Ti Zé era polivalente e palmilhava quilómetros a arrastar os pés, ininterruptamente, acudindo às mesas ou ao balcão. Quando o Suca pediu se podia mudar para o segundo canal o Ti Zé perguntou, pondo a mão atrás da orelha: “Fresca ou Natural?”.
O “Menino”, carinhosa alcunha do Alberto e único filho do casal, também lá trabalhava afincadamente, embora muitas vezes ausente por “má disposição”, alegava a Ti Firmina.
O café do Zé era, para além de “café”, um conhecido e afamado restaurante, onde o Cozido à Portuguesa era rei, sem menosprezar o Cabrito ou o Bacalhau. Longas filas anteviam uma generosa refeição em qualquer Domingo solarengo de Janeiro a Dezembro.
O Staff era numeroso e familiar. Uma grande parte da juventude de Fontanelas e Gouveia, masculina e feminino, passou por lá a trabalhar aos fins-de-semana ou no Verão. Aqui se fizeram bons profissionais que seguiram o seu caminho na restauração ou noutra qualquer área profissional, sempre com a bênção do Ti Zé e da Ti Firmina, autênticos patriarcas do bom acolhimento e da boa-vontade com os clientes e com os empregados.
Das oito à meia-noite, sete dias por semana, quatro semanas por mês, doze meses por ano.
Muito deram o Ti Zé a Ti Firmina ao lazer de milhares de pessoas de sucessivas gerações que passaram pelo Café do Zé e dele disfrutaram. Tanta dedicação só podia gerar no sucesso que gerou enquanto restaurante, até e após encerrar como café em 81.
Tive o previlégio de trabalhar com o Ti Zé no Café Coreto ao longo de centenas ou milhares de duras horas de trabalho, sem que lhe possa apontar o que quer que seja.  
Provavelmente só quem tiver mais de 50 anos se lembrará de uma quadra escrita nuns velhos azulejos rachados, mantidos unidos por uma moldura de sólida madeira escura. Transmitia confiança ao freguês mais medroso, dissipando receios de uma possível “cadela” causada pela abusiva ingestão de bebidas alcoólicas. Engalanava a parede junto à televisão, mesmo por cima da mesa de tampo metálico onde, habitualmente, o Dr. Tavares passava longas tardes a ler calhamaços técnicos, a fumar “I Life” e a bebericar cálices de brandy “Mosca”.
Contudo, a quadra não era totalmente verdadeira, ou por outra, reflectia precisamente o inverso da prática vigente, ou seja:
Beba à vontade e sem medo - Ninguém podia beber à vontade e sem medo, cuidado porque a bebedeira era certa.
Se ficar de grão na asa - Era uma certeza ficar de grão na asa e não “se”.
A gente guarda segredo - No dia seguinte já todos saberiam, qual segredo, qual carapuça... .
E vamos levá-lo a casa  - Levá-lo a casa, népia. Curtia a bebedeira no local ou ia pelo próprio pé. Havia ainda a hipótese de uma alma caridosa pegar no carrinho do gás e carregar até casa o necessitado.
Beba à vontade e sem medo!!!
O que será feito desta histórica moldura com os azulejos rachados?
Ainda sinto o cheiro da “casa dos bonecos”. Um misto de óleo dos matraquilhos, fumo de tabaco e barris de vinho.
As coisas que me vêm à cabeça....

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O soalho com cinzas dos pés

BÁRBARA RODHNER










O soalho com cinzas dos pés .

O alguidar que espanca o seu cabelo no chão ; esfrega.

Lava...

Larga!

Os miúdos pela mão vão-se para a cama-feita pelo pequeno-almoço de almofadas de algodão.

Eu?

Eu sou caixão ....
Coma profundo ao lado do meu próprio seio.

Dá-me Asas/ dá-me espaço.
Dá-me a tua mão...

O meio-do-meio é o meio que foi meu/teu.

 Foste/eras.?

Da-me colo; sou órfão...
pura .

Dá-me a mão ... A tua.
Dá-me o qu'é meu/teu .

(Para Alagamares; minha floresta sem FIM)