sábado, 10 de janeiro de 2015

A Janela Redonda

EURICO LEOTE


O mar ao longe dificilmente se distinguia da linha do horizonte. Apenas através das diferenças de tonalidade se tornava possível distingui-las, e isto claro, sabendo que ele se encontrava lá ao longe naquelas bandas. Com efeito e por vezes em função da incidência dos raios solares, estes espelhavam reflexos brilhantes nas águas. Outras vezes era o próprio céu que se apresentava com uma coloração azul desmaiada sendo fácil distingui-lo do azul esverdeado forte e mais carregado das águas do mar.

A distância a que se encontrava do mar, era bastante significativa. Dir-se-ia uma boa dezena de km em linha recta.

A janela por dentro da qual espreitava o mar na distância, apresentava um formato arredondado formado mais correctamente por um painel de 4 pequenas vidraças, onde apenas duas delas se abriam para o exterior. Esta janela fazia parte de um apartamento situado num 5º andar, pertencendo a um bloco isolado de 9 pisos na sua altura máxima.

Na sua frente abria-se um amplo espaço permitindo a visão para longe, por cima dos telhados de algumas casas mais baixas, e localizadas em planos inferiores, numa total imensidão até onde a vista e a distância alcançavam.

Por perto uma pequena mata de pinheiros mansos permitia deliciar os olhos com o seu verde permanente, salpicado do amarelo dos rebentos novos e respectiva floração. Outra espécie de pinheiro formava áleas delimitando a zona pedonal da zona de circulação automóvel.

Uns campos de jogos agora abandonados, faziam as delícias dos mais novos, numa boa peladinha de futebol de cinco. Um pouco mais ao lado, o que já fora em tempos campo pelado, depois campo ervado, era agora de novo um campo pelado, aguardando a colocação de um piso de relva sintética, após ter sofrido algumas obras, como a construção de muros em betão delimitando o seu perímetro, tendo em vista a protecção do futuro espaço desportivo. O mesmo foi ligeiramente alargado e aumentado no seu comprimento, mas receia-se que esta ampliação não venha permitir a criação de uma pista em seu redor, no sentido de facilitar a prática do atletismo, algo bastante procurado pelos amantes desta modalidade, acessível a todos, os quais como única alternativa terão de continuar a correr pelas ruas e no meio dos carros, competindo com os automóveis, e respirando um ar saturado e nada favorável à prática desportiva.

A redonda janela embora não muito ampla, mostrava uma significativa área aberta, permitindo e convidando a que o olhar se estendesse sem chocar com coisa alguma.

Num longe perto avistavam-se meia dúzia de guindastes, sinal de construção, não obstante a situação de crise que atravessávamos.

Num longe significativamente longe, eram os postes das antenas de televisão que sobressaíam, atiradas para o ar como agulhas, mais parecendo troncos nus de folhas e ramos.

Um depósito de água encimado por uma cúpula redonda, sobressaía destacando-se no azul do céu, semelhando uma torre de controlo aéreo.

 O verde por entre a concentração de casas num plano próximo ajudava a quebrar a monotonia do betão, combatendo o amarelo torrado e o branco das casas, bem como os tons rosa da cor dos telhados.

A fita cinzenta das estradas lá seguia o seu caminho, ajudando à circulação automóvel, que fluía de forma rala e esparsa, própria da hora de pouco movimento.

Sentado na cadeira da sala servida por esta janela, podia observar calmamente todo o movimento. As nuvens rodavam desenfreadamente arrastadas por um vento contínuo, mais activo nas camadas altas da atmosfera, pois as folhas das árvores dobravam de forma rítmica e suave.

O céu aos poucos carregava e escurecia. Uma chuva miúda principia a cair. Uma breve bátega abateu-se de repente, dando rapidamente lugar a um brilhante sol, banhando de luz os objectos e colocando cintilações nas pingas pendentes, e nas poças de água agora criadas. Estávamos no início da Primavera, e a incerteza desta estação, assim determinava estes comportamentos. Belos todos eles, pelas matizes colocadas nas folhas e ramos, pelas cores variegadas vindas dos campos, que se esforçam por sorrir e fazer desabrochar as flores.

Uma pequena e ténue neblina observada ao longe torna irreais os objectos apagando-os aos poucos no seu caminhar de proximidade. As casas perdem as suas cores e os seus contornos. A chuva miúda retorna a cair e desta vez parece que veio para ficar.

A claridade apesar de diminuta vinda através dos vidros da janela, permitem que continue a leitura da obra a que se dedicara nos últimos minutos. Trata-se de uma obra de conteúdo relaxante, o qual adquire outro sabor quando feito junto a esta janela aberta sobre o pequeno mundo no qual habita.

Através dela consegue alcançar outros mundos, outras vidas. Através dela deixa o seu olhar passear. Ousa sonhar e criar o seu próprio universo. Construir o seu castelo de cartas, e vê-lo ruir quando se retira para o interior e afasta da janela.

A janela constituía o contacto com o mundo exterior. Através dela chegavam os sons dos carros correndo na avenida, as sirenes das ambulâncias cavalgando apressadas, o vento rugindo ao passar na esquina do prédio. Escassas e imperceptíveis as vozes dos transeuntes dada a altura e a distância. No andar superior o cão do vizinho começou a falar de forma rápida e aparentemente de satisfação. Eram efectivamente horas dos donos regressarem a casa, e o bichano manifestava dessa forma a sua alegria.

O telefone tocou transportando-o para outra realidade. Alguém chamava do outro lado, necessitado de esclarecer alguma situação, ou prestar informações, sem colocar de lado a hipótese de ter havido engano no nº discado. Levantou-se rapidamente e caminhou para a sala onde se encontrava acordado e irritado o telefone pousado no descanso. Retinia com insistência e estridência, como se tivesse pressa. Levantou o auscultador, e do lado de lá ouviu um sinal sonoro indicador de corte de chamada. Certamente alguém se enganara e havia considerado essa hipótese, optando por interromper a comunicação. Pousou o auscultador com um singelo encolher de ombros. A hipótese formulada de possível engano vingara, pois não reconhecera o nº no visor.

Aproveitou para se deslocar à cozinha. Sentia uma ligeira necessidade de comer alguma coisa. Estava próximo da hora do lanche. O almoço fora aparentemente mais fraco que o habitual. Peixe e legumes segundo o ditado, não puxam carroça. Havia que comer algo para enganar o estômago e esperar assim pela hora do jantar. Preparou uma sandes com queijo, enquanto a cafeteira eléctrica entretanto ligada, cumpria a sua missão de aquecer  a água nela colocada. Iria tomar um chá a acompanhar a sandes.

Satisfeita esta necessidade básica e primária, já com recurso à iluminação artificial, pois a noite fechara-se sobre si, retomou à sala meio às apalpadelas, servindo-se agora da claridade vinda do exterior, que entrava pela vidraça adentro da janela redonda.

Perto e ao longe as lâmpadas da iluminação pública brilhavam, semelhantes a faróis faiscantes. No interior das casas próximas, a iluminação era bastante escassa. Os cidadãos encontravam-se a caminho de suas residências, após concluírem mais um dia de trabalho. Era assim um dos ciclos da vida e uma das rotinas a cumprir até à exaustão.

Sentou-se na cadeira contemplando o agora céu azul com bastantes nuvens, deixando antever escassos pontinhos brilhantes. Sentiu sonolência e as pálpebras algo pesadas. Optou por não contrariar este curto convite ao descanso. Encostou-se comodamente e fechou os olhos.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Carta a D.Manuel Clemente e ao Sheik Munir

ANTÓNIO LUÍS LOPES
 
Divulgo conteúdo de e-mail que irei enviar, nesta data, ao Sheik David Munir, da Mesquita de Lisboa, e ao Sr. Cardeal Patriarca de Lisboa:
"À atenção dos Exmºs Senhores
Sheik David Munir – Mesquita de Lisboa...
Cardeal Patriarca de Lisboa
Na sequência dos trágicos acontecimentos de Paris, enquanto cidadão Português, deputado na Assembleia Municipal de Sintra (líder da bancada do Partido Socialista) e católico, venho por esta via apresentar a seguinte proposta: que o Sr. Cardeal Patriarca de Lisboa e o Sheik David Munir, da Comunidade Islâmica, articulem entre si a realização, numa grande praça de Lisboa (Terreiro do Paço, por ex.) de cerimónia religiosa conjunta, em memória das vítimas de Paris e contra toda a violência extremista que, atualmente e de uma forma inaudita, ameaça o Continente europeu. Creio que seria um momento único e de grande significado no contexto europeu num País que tem, nas suas raízes, a cultura islâmica, mesclada ao longo dos séculos com a tradição cristã.
Considero, ainda, que as primeiras “vítimas” do extremismo islâmico são os meus irmãos muçulmanos - os que professam a sua religião pacificamente, os que têm em comum comigo (cristão) as raízes da sua Fé, os profetas iniciais, a crença num Deus único, a solidariedade com os mais fracos. Eles são os primeiros reféns da loucura criminosa dos terroristas islâmicos - porque a ignorância de muitos os confundirá com essa teia de medo, quando eles nada têm a ver com ela e são tão "vítimas" como qualquer um de nós.
Não é a religião que separa os homens - mas sim os homens e a forma como usam a religião para cavar trincheiras entre si. Não confundo a Fé no Islão com o terror islâmico, tal como não confundo o Papa Francisco com o inquisidor-mor, Tomás de Torquemada. Hoje (talvez mais do que nunca) é preciso relembrar isso - para que aqueles que legitimamente se insurgem contra a barbárie terrorista não acabem a ser os "cavalos de Tróia" da corrente xenófoba que ameaça percorrer a Europa (e o Mundo) de novo. In šāʾ Allāh. إن شاء الله.
Com os melhores cumprimentos,
António Luís Lopes"

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Sonoridades de Sintra

FRED LESSING


Nascido em 1961 na Alemanha, reside e trabalha em S. Pedro desde 1982. Colaborador da antiga revista Sintra Press, editou 2 livros de poesia, organizou eventos de poesia (um dos quais no Palácio da Pena) e fundou o projeto de rock sinfónico “Daymoon”.

Desejo a toda a gente um excelente ano novo e aproveito para deixar aqui duas homenagens musicais minhas a Sintra (e não só):

REDOMA DE SINTRA: junção de dois temas – um instrumental e outro cantado – que escrevi em 2003 para a ópera rock “Portugal Lda. 2125” com a minha banda SP’AM. Descreve um futuro mais ou menos próximo (2125) em que a Serra de Sintra está coberta por uma redoma construída pela UNESCO. O acesso à redoma é restrito a quem possui um “cartão dourado”, e tem um centro comercial no topo da cúpula. Tudo isto se passa numa altura em que o sul da Europa é novamente árabe (a fronteira sul em Portugal é o Tejo) e a UE e o euro já não existem. O tema conta com a participação especial do Cazé d’Os Corvos em violoncelo. De resto, divirtam-se com a letra na segunda parte - a taverna referida deve ser do conhecimento de muita boa gente ;-) O álbum nunca chegou a ser publicado, mas nunca se sabe …

FIRST RAIN: tema sobre as primeiras chuvas de outono, imaginadas e vividas no Parque da Pena. Escrito e lançado em 2011 (pela nossa editora MALS em Moscovo) para o álbum “All Tomorrows” da minha banda Daymoon para angariar fundos para salvar a vida da minha esposa Inês, que estava a morrer de cancro de cólon. Infelizmente, todos estes e outros esforços foram em vão, e a minha esposa faleceu em inícios de 2012. Estamos atualmente a gravar o nosso terceiro álbum sobre toda esta experiência devastadora. Todas as receitas desse álbum reverterão em favor da Liga Portuguesa Contra o Cancro.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Aulas de Movimento Contemporâneo no Vale com Catarina Morato

BÁRBARA RODHNER

Sintra nos seus recantos mágicos guarda rebanhos de gente que se sente ou chegou porque se queria "vir", a sentir... Sintra, é assim, o fim da linha para tantos mas também um muito além; é o começo de uma estrada para quem nasceu a caminhar.

Mudei-me para cá faz agora nove anos, trouxe amigos, viu-os partir, arranjei caixotes , manobrei carrinhas, ri, chorei, brindei e rasguei. Poucos são os que A aguentam, o seu conhecido mau feitio de intempérie rígida mas quem fica ... Quem fica são sempre os mais fortes; os mais cheios, os que realmente importam.  Rijos, rectos, aéreos e complexos .

Uma grande amiga minha mudou-se agora, para ficar, espera-se... Sobre o chão de pedra montou um estúdio de paredes brancas, música certa e o movimento ideal e com ela esta nossa Sintra não será mais a mesma. Digo-vos eu... Entre o redondo das ancas, o movimento no espaço, a expressão do ar nasce uma dança, em mim, em ti e n'Ela...

Sintra. ...
Sintra! Entre as Bárbaras e as Catarinas desta vida nunca mais serás a mesma.

Voamos juntas?

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

António Tavares- O esteticismo como motor narrativo

MIGUEL REAL

O romance de estreia de António Tavares, As Palavras que me Deverão Guiar um Dia, finalista do Prémio Leya 2013, anuncia um autor raro no campo da filosofia da construção romanesca, privilegiando menos o realismo (teoria hoje dominante no romance português) e mais uma visão estética na composição da narrativa. O autor foi igualmente galardoado com uma menção honrosa no Prémio Literário Alves Redol de 2013 com o romance O Tempo Adormeceu sob o Sol da Tarde, ainda não publicado (cf. “António Tavares. Vereador da memória”, de Luís Ricardo Duarte, “JL” de 3/9/14). João Céu e Silva não hesitou em classificar este romance como “um dos livros mais inovadores que esta rentrée literária de 2014 deverá oferecer” (QI, “Diário de Notícias” de 6/9/14)


Poucos são os romancistas estetas hoje. Porventura Vasco Graça Moura, José Sasportes, António Mega Ferreira e alguns textos de Hélia Correia, sobretudo Adoecer, a que se junta agora, com justiça, o nome de António Tavares. Esteta é o autor que, na composição dos seus textos, privilegia as referências culturais (história da música, da literatura, da pintura, da ciência…) às referências da realidade social imediata e exterior (o realismo). O seu intento é continuar, prolongar com subtileza, o longo entrelaçar milenário da história da cultura, evidenciando que as ideias, as imagens, os sons estéticos e culturais criados pelo homem modelam, ou podem modelar, a realidade exterior, agindo nesta de um modo transformador e, até, revolucionário, perfazendo, assim, a construção de um mundo do espírito paralelo ao mundo social e político. Esteta é o autor que vê o mundo através dos óculos históricos da cultura, da arte, da ciência, aquele que para toda a situação existencial encontra o seu modelo e motor no mundo paralelo da cultura. Neste sentido, esteta é todo o autor que, mais do que se inspirar na realidade exterior, se inspira no passado histórico da sua especialidade artística. No caso de António Tavares, na história da literatura e do pensamento europeus. Só no “Prólogo” e no primeiro capítulo, constituído por 7 páginas, o autor enuncia mais de doze autores, evidenciando assim o esteticismo do romance.
António Tavares confessou a Gonçalo F. Santos, da revista Time Out de 27 do passado mês de Agosto, que as personagens dos seus romances têm equivalências literárias, “Neca, por exemplo, é tão pontual como Kant”. Com efeito, o narrador de As Palavras que me Deverão Guiar um Dia vai assentando num caderno, ao longo da passagem da puberdade para a juventude, as reflexões pessoais sobre os acontecimentos havidos no seu bairro da cidade de Moçâmedes (Angola), registando um paralelismo harmónico entre os acontecimentos do bairro e situações semelhantes descritas pelos autores em romances e ensaios. Consoante o narrador vai crescendo e bairro vai mudando ao longo da década de sessenta (passagem de moradias para prédios de apartamentos, encerramento da mercearia e abertura de um supermercado, morte de habitantes, aparecimento de novos modelos de carros, emergência de novos costumes, rodagem de um filme com cenas ostensivas de sexo…), vai registando no caderno, posteriormente passadas a romance, as “palavras”, isto é, as cenas ou personagens de romances e as mensagens de ensaios que o “deverão guiar um dia”. A realidade conforma-se com a literatura e o texto, constituído por palavras, evidencia-se como um outro e novo mundo, tão ou mais relevante que o primeiro: “Se as palavras nomeiam as coisas – que o mesmo é dizer, este meu mundo – mas também dão existência à realidade, aqui fica ela [no conteúdo do romance], toda a minha realidade” (p. 9). Não admira que o romance termine com o levantamento de uma biblioteca numa velha carrinha da Gulbenkian e, depois, com a oferta de todos os livros aos habitantes do bairro. Ficou apenas um: o caderno, que se transformará no romance ora publicado, isto é, na realidade verdadeiramente pensada e vivida.
Assim, o esteticismo de As Palavras que me Deverão Guiar um Dia reside justamente na conformidade da descrição da realidade do bairro e das personagens com trechos de romances clássicos ou de pensamento de ensaios famosos. Por exemplo, nas primeiras partes do romance, o narrador tem por hábito subir à copa de uma árvore e daí contemplar as pessoas, exactamente como a personagem Cosimo de O Barão Trepador, de Calvino. De facto, este processo de identificação de situações narradas com trechos literários ou filosóficos constitui-se como motor narrativo de todo o romance e confere, de certo modo, um tom melancólico à narração. A melancolia é expressa, não através da análise psicológica das personagens, mas através da sucessão contínua de acontecimentos que, sob a impotência do narrador, que desejaria contemplar um mundo mais estável do alto da árvore, alteram profundamente a face do bairro. Da copa da árvore, o narrador observa a outra personagem permanente, Luísa, a menina sem mãe que chupa limões, habitante num ferro-velho com o pai e as três irmãs, que partirão; no final o pai também partirá, entregando a sucataria ao narrador. Este, já na década de 1970, irá à guerra, combaterá, sofrerá um ano de tortura preso a uma árvore e, no final, regressará para abraçar a menina, agora rapariga, e viver com ela.
Das nádegas lésbicas da São modista aos prédios do Ivo mudo, da menina da mercearia sujeita a violência doméstica e depois fugida com o charmoso Cunha Mendes à dona Alice, mulher do copofónico Santiago e futura amante da São modista , do puritano e oportunista Amadeu à repressão moral do padre Neves, do Neca pontual, carregado de remorsos, ao congolês enfermeiro Tyrone, do Américo preso pela vida a uma máquina à Aninhas deprimida finha do defunto senhor Leal, da Dona Vitória carnal e adúltera ao marido ferroviário ausente, do Bill cineasta à incandescente Mila actriz… é, de facto, o  mundo a passar debaixo da árvore do narrador, levantada entre um montão de tralha de sucateiro.
Por fim, tudo passou, só as palavras ficaram como monumentos imorredoiros.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O naufrágio da Nau Nossa Senhora da Conceição em 1621

ANDRÉ MANIQUE



A Nau do séc. XVII e o seu naufrágio em 1621 (muitas vezes confundido com o da Nau do mesmo nome, naufragada em 1651 em Buarcos, na Figueira da Foz ou com o da naveta ao largo da Praia das Maçãs, em 1637), entre a Ericeira e o Cabo da Roca, tem levantado múltiplas questões ao longo dos últimos três séculos. Primeiro, e logo após o naufrágio, a da responsabilidade do então general da armada D. António de Ataíde, acusado de não ter acorrido em seu socorro logo que se souberam as notícias de uma armada de corsários turco-argelinos nas imediações. Por fim, e já mais recentemente, a localização do naufrágio, bastante procurado por equipas de caçadores de tesouros.
Esta Nau, de 22 peças de artilharia, foi a vigésima primeira a ser baptizada em honra de Nossa Senhora da Conceição.
Comandada por Jerónimo Correia Peixoto, largou de Goa no dia 1 de Março de 1621, com destino a Lisboa, juntamente com a Nau Nossa Senhora da Penha de França. Transportando pimenta, pedrarias e sedas, e abarrotada de passageiros com suas respectivas bagagens tornou-se uma presa apetecível, não só durante o seu percurso, como também pelos actuais caçadores de tesouros.
As duas naus suportaram durante mais de um mês um fortíssimo temporal ao largo do Cabo da Boa Esperança, acabando por se perderem de vista. Continuando sozinha, a Nossa Senhora da Conceição fez escala na ilha de Santa Helena, onde viria a morrer de acidente Jerónimo Correia Peixoto. O comando da nau foi entregue a D. Luís de Sousa, que a dirigiu para os Açores. Ao largo do Faial voltou a encontrar forte temporal, sendo necessário aportar na Terceira. Aqui foi-lhes alertado, por duas caravelas que traziam notícias do reino, para o perigo de encontro com uma frota de piratas argelinos, que se sabia rumarem de Argel em direcção à costa portuguesa.
Com apenas 14 artilheiros e 6 soldados e com poucos tripulantes para pegarem em armas, D. Luís de Sousa pede ao governador da Terceira alguns soldados para ajudarem a engrossar a guarnição da sua Nau. O pedido foi aceite, porém logo se constatou que os embarcados ou eram bastante idosos, ou os mais novos, não tinham qualquer experiência. Ainda assim foi então decidido rumar até à costa portuguesa pelo norte das ilhas Berlengas, onde uma esquadra de Guarda-Costas de D. António de Ataíde a escoltaria até à barra do Tejo.
As Berlengas são avistadas a dia 8 de Outubro. Durante a madrugada avistam-se alguns vultos de navios no meio da neblina e a ouvem-se vozes, o que fez os da Nau de D. Luís de Sousa julgarem tratar-se da esquadra de D. António de Ataíde. Mas o amanhecer logo veio revelar o mais temido. A Nossa Senhora da Conceição encontrava-se rodeada de cerca de 17 naus e patachos Argelinos, cada um deles com cerca de 30 a 40 peças de artilharia. Comandados por Tábaco-Arrais, esta frota já havia capturado dias antes, ao largo do cabo Espichel, 19 navios ingleses. A nau da Índia, carregada e solitária, mostrava-se assim uma presa fácil. Forçado a navegar em direcção a terra, D. Luís de Sousa prepara-se no entanto para o combate. Sendo mais velozes, os navios de Tábaco-Arrais logo se aproximam, disparando um tiro de salva, no intuito de deter o navio português. Ao responder com um tiro de bala, começou um prolongado combate de cerca de onze horas, no qual a Nossa Senhora da Conceição sofreu vários bombardeamentos de través, ficando bastante danificada e com inúmeros feridos. Um desses feridos foi o próprio D. Luís de Sousa, que foi obrigado a comandar as operações deitado sobre um caixote. Os argelinos, no entanto, também sofreram várias perdas. A artilharia portuguesa era de maior calibre, provocando graves danos no casco e aparelho dos navios argelinos, bem como numerosos mortos e feridos entre os mesmos. Um dos navios argelinos mais atingidos, estando a meter água, resolve abordar o navio português, travando-se um duro combate no castelo da proa. Amontoados em tão reduzido espaço os argelinos tornam-se presa fácil. Um deles, mais atrevido, resolve cortar os cabos de manobra das velas para tentar reduzir a velocidade da nau. Por engano, corta os cabos errados, fazendo cair estrondosamente a verga da Gávea sobre o castelo, matando grande número de argelinos. Os restantes, que não tiveram tempo de se atirar ao mar, foram mortos pelos portugueses
Com os seus navios bastante danificados os argelinos acabam por desistir da perseguição, afastando-se com o cair da noite para oeste. A Nossa Senhora da Conceição continuou a navegar em direcção à costa, bastante danificada. Mais de 30 mortos e feridos e dos 14 artilheiros, apenas 1 sobrevivera.
A 10 de Outubro é avistada a Ericeira. D. Luís de Sousa decide então aí fundear, com o objectivo de pedir reforços para o caso de um novo ataque argelino. Foi-lhe proibido fundear com o argumento que não era possível dar abrigo nessa época do ano e aconselhado a dirigir-se para o largo, onde a esquadra de D. António de Ataíde o aguardava. Foi-lhe também recusado o pedido de recolha dos feridos, mulheres e crianças, por terem ordem de não atracar à nau. D. Luís de Sousa não teve outra alternativa se não abandonar o intento e dirigir-se para o largo, na esperança de encontrar a frota do capitão da armada de costa. Sem o habitual vento de feição de noroeste, e incapaz de navegar mais rapidamente para sul, a nau volta a encontrar-se com a armada de Arrais no dia 11 de Outubro, entre a Ericeira e o Cabo da Roca. Da esquadra de D. António de Ataíde nem sinal. 
Depois de pesados bombardeamentos por parte da frota argelina e uma abordagem do navio, a Nossa Senhora da Conceição acabaria por incendiar-se, afundando-se com toda a riqueza que trazia da Índia. Os portugueses que se salvaram foram feitos cativos e levados para Argel, entre os quais, o heroico capitão D. Luís de Sousa, que viria a falecer dos ferimentos causados três dias depois. Alguns dos cativos conseguiram voltar ao reino após pagamento do resgate. Entre estes constava João Carvalho Mascarenhas, libertado em 1625 ou 1626, e que viria a deixar o seu testemunho na sua Memorável Relação da Perda da Nau Conceição. Esta narrativa relata os eventos que estiveram relacionados com o naufrágio da Nossa Senhora da Conceição, bem como o seu período de cativeiro em Argel.
A D. António de Ataíde foi imputada a culpa da perda da nau da Índia e preso no Limoeiro. O processo arrastou-se por três anos. Como defesa, D. António de Ataíde justificou a incapacidade de poder socorrer a Nau, como era seu dever, devido às condições de navegação que se faziam sentir na altura do infortúnio, tentando no entanto perseguir a armada argelina no mar alto, porém sem sucesso. Acabaria por ser considerado inocente.

BELLO, Mónica. A Costa dos Tesouros, Temas e Debates, 2006.
PEREIRA, José António Rodrigues. Grandes Naufrágios Portugueses (1194-1991), A Esfera dos Livros, 2013.
DOMINGUES, F.C ; GERREIRO, Inácio. D. António de Ataíde, capitão-mor da armada da Índia de 1611 in A Abertura do Mundo, Estudos de História dos Descobrimentos Europeus, Vol. II, Editorial Presença, 1987.
MASCARENHAS, Joam Carvalho. Memoravel Relaçam da Perda da Nau Conçeicam, Lisboa, 1627.
 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

"Nem tirou o capacete"

CARLOS CAMACHO

Tenho saudades do Tó Pê.

Só o costumava ver duas ou três vezes por ano, quando cá vinha cheio de saudades das coisas simples que Fontanelas tem. Revia a família, os amigos e “carregava baterias”. Quando chegava, independentemente da hora, tinha um ritual há tantos anos quantos estava no estrangeiro. Antes de ir para casa da mãe, ia regalar as vistas e tomar um banho de maresia e de mar à Praia da Aguda. Tinha, obrigatoriamente, que sentir a Praia da Aguda.

Não era mau diabo, antes pelo contrário. Se existia alguém com valores morais, pessoais e filosóficos, era o Tó Pê.

O Tó Pê nasceu em Fontanelas no início da década de 60 e foi um dos símbolos dessa geração. Faleceu prematuramente muito novo, na casa onde cresceu, em casa da mãe. António Pedro Borlido, de alcunha o Tó Pê, depressa seguiu as pisadas do seu falecido pai na descoberta do mundo além-fronteiras. Do avô António Pedreiro herdou a veia comunista, por si próprio desenvolveu a contestação, a irreverência, o sentido revolucionário, o que lhe valeu alguns dissabores na sociedade Fontanelense, à data ainda muito pouco tolerante em relação à diferença. Numa aldeia como Fontanelas, sob muitos aspectos fechada, o aconchego a alegados valores morais, religiosos e bafientos “bons costumes”, toldam a visão e escamoteiam a evolução, inevitável e irreversível.

Tinha vontade de ser diferente, de fazer o que as suas crenças lhe ditavam, de ter a liberdade que achava que devia ter. O Tó Pê era único. Numas das nossas últimas conversas, no bar do Janeca em 2007, o Tó Pê estava feliz, tinha os filhos na boa, a estudar e a trabalhar, na sua vida pessoal fazia o que queria, estava ligado à dança e andava a aprender a tocar uma espécie de acordeão de madeira. Também participava em associações culturais, fazia work-shops de dança, fazia o que realmente gostava: interagir, brincar, ensinar e gostar de pessoas.

O Tó Pê não era o típico emigrante empurrado pela vontade de vencer e ter condições financeiras mais favoráveis. Era aventureiro. Gostava de ser livre e correr mundo, apenas pelo prazer de conhecer novas pessoas, novas culturas, novas gentes.

O Tó Pê sempre foi um “lobo solitário”. Sempre fez o que lhe ia na alma e sem “dar cavaco” a ninguém. Na sua juventude e antes de ir para fora, sempre andou sozinho, avesso ao sentido de manada, à “Maria-vai-com-as-outras” que caracteriza a maior parte de todos nós, a nossa sociedade. A preocupação da Sra. Manuela, sua mãe, nunca o impediu de “correr mundo” e estar temporadas fora, a partir dos 17 ou 18 anos.

O Tó Pê tinha piada. Arranjava uma treta qualquer, uma conversa qualquer que todos sabíamos ser treta para nos rirmos. Fazia parte da sua forma de estar e de ser. Qualquer conversa em grupo tinha, invariavelmente, que meter risota e boa disposição. A palavra que caracterizava mesmo o Tó Pê era “alegria”. Era uma pessoa alegre, apesar de ter sofrido algumas agruras ao longo da sua vida.

Gostava de contar anedotas e mentiras teatrais, daquelas que toda agente sabia que era mentira, mas contadas com arte e engenho. Gostava de rir e fazer rir.

Certa vez chegou ao pé da malta na sua moto, todo lampeiro, e arranjou logo uma mentira, na hora.

Começou por dizer que tinha conhecido uma rapariga que andava de mota na Praia das Maçãs. Conversa mete conversa, era de Sintra, tinha 20 anos, não tinha namorado, uma coisa leva a outra e acabaram na praia, “confortavelmente”.

Epá, deu caldinho?” perguntou o Varetas.

Deu pois” respondeu o Tó Pê.

E a gaja, era bonita?” perguntou o Coutinho?

Responde o Tó Pê: “Epá, nem reparei. Não tirou o capacete...”

 Boa, Tó Pê. Enquanto cá estiveste, viveste em pleno...