terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A imagem do documento

RUI OLIVEIRA


Durante décadas, no contexto da investigação da História Local, quer do concelho de Sintra, quer dos concelhos vizinhos, a Inquirição Régia de 1220 desempenhou e desempenha papel importante. Por este documento ficamos a saber quais as propriedades que as importantes Instituições Canónicas, na época, detinham na Estremadura Medieva do século XIII. O mesmo documento tem, incluso, um Rol das Igrejas Paroquiais da região estremenha, da Cidade de Lisboa e seu termo.

Assim sendo, a vetusta Inquirição Régia, é um documento relevante para a História Local da Região Metropolitana de Lisboa; conhecido há décadas sobretudo devido ao trabalho de Silva Marques e seus alunos de Paleografia, que forneceram várias leituras, nem sempre condizentes devido a vários factores entre eles a natural complexidade de um Latim bárbaro.

Era, sempre o foi, fácil o acesso a tais leituras, deste e de outros documentos, muitas das quais religiosamente coligidas, encadernadas e disponibilizadas em Bibliotecas, em arquivos municipais como é o caso do Arquivo Histórico de Sintra. Acontece que sabíamos do seu conteúdo, mas faltava-nos a imagem do mesmo. Neste caso, podem crer, a imagem é importante porque é desafiadora. Finalmente, a imagem do documento foi disponibilizada ao “mundo”, aos investigadores de História Local, pela Torre do Tombo mercê as novas tecnologias.

É uma bela e esclarecedora imagem!








segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

“Esqueci-me do cachorro no porta-bagagens por 15 dias.”


CARLOS CAMACHO
 
José Valentim Lourenço, de alcunha o Zé Massano.

Certamente a figura mais carismática das aldeias de Fontanelas e Gouveia.

Muito para escrever. Tarefa árdua sintetizar quem era o Zé Massano em meia dúzia de linhas.

Figura central das duas aldeias até 2002 ano em que, prematuramente, faleceu.

Era um lunático bom. Um despistado em pessoa. Uma pessoa fora do tempo. Fazia só o que queria, como queria e o que gostava.

Sempre gostou de animais. A sua Quinta estava sempre recheada de bicharada, mas era tão despistado que uma vez quando lhe deram um cachorro na Malveira, pô-lo na mala do carro, esqueceu-se e lá ficou durante 15 dias.

Todos quanto estávamos a ouvir ficámos estarrecidos. Era uma falta terrível, um animal, sem água, sem comida, o calor...

E o que é que aconteceu ao cachorro?” Perguntou o Mascarenhas.

Meteu-se outra conversa qualquer, alguém chegou com uma piada, qualquer conversa com o Zé mudava repentinamente ao sabor do seu raciocínio.

Tudo o que dizia tinha piada. A Piada vinha sobretudo da expressão corporal, dos gestos, da intensidade e do tom de voz. A graça com que dizia as coisas, a forma como contava, o ar alucinado, os olhos esbugalhados plenos de convicção, a capacidade de rir de si próprio, enfim, tudo isto e muito mais, fizeram dele uma figura incontornável das nossas aldeias, da nossa freguesia, do nosso concelho, ...

Mas o que é que aconteceu ao cachorro?” Perguntou outra vez o Mascarenhas.

Espera!!!”.

O Zé era muito guloso. Por chocolates, “nougats”, gelados, coisas doces. Em 2000 estivemos na direcção da União Recreativa e Desportiva de Fontanelas e Gouveia e, como habitualmente, cabia-nos a preparação da Festa da Páscoa. Durante essa preparação e nas sucessivas reuniões, descobrimos num armário dois sacos grandes de “nougats” fora da validade mas, aparentemente, bons para consumo. O Zé andou, mirou, cheirou, provou, comeu e “limpou-os” todos em meia dúzia de reuniões. Qual validade, qual caraças. Sempre que olhávamos para o Zé estava ele a desembrulhar o barulhento plástico amarelo desculpando-se, invariavelmente, com qualquer treta arranjada à pressa para todos se rirem.

 “Mas o que é que aconteceu ao cachorro?” Perguntou mais uma vez o Mascarenhas.

Qual cachorro?”

“O que ficou na mala do carro por 15 dias!”

Durante muitos anos e antes de ter o talho, o Zé Massano comprava vitelos e gado de leite nas aldeias, vendendo-os de seguida na Feira do Gado, na Malveira. Era prática corrente as famílias terem gado de curral, fornecedores de leite e vitelos, para além do importante estrume, abundante e barato adubo natural para as terras, depois de curtido.

Em minha casa tínhamos um curral com lugar para 5 vacas, uma burra e duas ovelhas. No palheiro contíguo assisti, em miúdo, a um negócio de uma vaca que os meus avós tinham para venda. Lá em casa quem negociava era a minha avó Gertrudes até o meu pai assumir a parte comercial. O meu avô Labareda, Domingos Francisco Franco de alcunha “Tanoeiro”, nunca se ajeitou para negociar nem que fosse um copo de vinho. Dava tudo. Uma desgraça!...

Ó Ti Gertrudes. A vaca só vale 3 contos e quinhentos. É muita nova e ainda não pariu”. Dizia o Zé Massano, argumentando no negócio.

Ripostava a minha avó - “Chega-lhe o boi que ela enche. É da maneira que pega bem.”

Mas a primeira barriga não presta. Morre tudo antes de nascer”. Dizia o Zé.

A vaca vale 4 contos. Está aparelhada como deve ser, não tem ferro e come bem. Dá 5 litros de leite cada mugidela e não pega com as outras”, Ripostava a Ti Gertrudes já a ficar afinada.

Ó Ti Gertrudes. Quatro contos é muito. Depois não sou capaz de a vender a ganhar cem mil réis. Para a conta ficar como deve de ser, a gente divide a coisa a meias e ficamos por aí. Três contos, setecentos e cinquenta escudos e a gente chega a negócio.” Argumentava o Zé.

Mas tu deste 4 contos pela vaca da Maria Mariana a semana passada”. Teimava a minha avó.

Ripostava o Zé - ”Mas era uma vaca feita com quatro barrigas e a dar 15 litros.”

E esta há-de lá chegar. ” mantinha a Ti Gertrudes.

Horas naquilo. Não sei se a vaca foi vendida nem porque preço. O que é certo é que o Zé me disse, 30 anos mais tarde, que “não gostava de negociar com a Ti Gertrudes porque que ela era muita teimosa. Queria levar sempre a dela avante.” Dois teimosos...

 “Mas o que é que aconteceu ao cachorro, pá? ” Inquiriu novamente o Mascarenhas.

Epá, tu és mais chato que a potassa!”

Mas diz lá o que aconteceu ao cachorro”...

Qual cachorro?”

O que ficou na mala do carro por 15 dias!!!!!”

Ahhhhhh. Olha, levei-o para casa.”

Mas morreu?” Inquiriu o Mascarenhas.

Nãaaa. É de louça!

O Zé Massano era assim. Nunca se esgotava. Uma caixa de surpresas e uma risota pegada...  


sábado, 10 de janeiro de 2015

A Janela Redonda

EURICO LEOTE


O mar ao longe dificilmente se distinguia da linha do horizonte. Apenas através das diferenças de tonalidade se tornava possível distingui-las, e isto claro, sabendo que ele se encontrava lá ao longe naquelas bandas. Com efeito e por vezes em função da incidência dos raios solares, estes espelhavam reflexos brilhantes nas águas. Outras vezes era o próprio céu que se apresentava com uma coloração azul desmaiada sendo fácil distingui-lo do azul esverdeado forte e mais carregado das águas do mar.

A distância a que se encontrava do mar, era bastante significativa. Dir-se-ia uma boa dezena de km em linha recta.

A janela por dentro da qual espreitava o mar na distância, apresentava um formato arredondado formado mais correctamente por um painel de 4 pequenas vidraças, onde apenas duas delas se abriam para o exterior. Esta janela fazia parte de um apartamento situado num 5º andar, pertencendo a um bloco isolado de 9 pisos na sua altura máxima.

Na sua frente abria-se um amplo espaço permitindo a visão para longe, por cima dos telhados de algumas casas mais baixas, e localizadas em planos inferiores, numa total imensidão até onde a vista e a distância alcançavam.

Por perto uma pequena mata de pinheiros mansos permitia deliciar os olhos com o seu verde permanente, salpicado do amarelo dos rebentos novos e respectiva floração. Outra espécie de pinheiro formava áleas delimitando a zona pedonal da zona de circulação automóvel.

Uns campos de jogos agora abandonados, faziam as delícias dos mais novos, numa boa peladinha de futebol de cinco. Um pouco mais ao lado, o que já fora em tempos campo pelado, depois campo ervado, era agora de novo um campo pelado, aguardando a colocação de um piso de relva sintética, após ter sofrido algumas obras, como a construção de muros em betão delimitando o seu perímetro, tendo em vista a protecção do futuro espaço desportivo. O mesmo foi ligeiramente alargado e aumentado no seu comprimento, mas receia-se que esta ampliação não venha permitir a criação de uma pista em seu redor, no sentido de facilitar a prática do atletismo, algo bastante procurado pelos amantes desta modalidade, acessível a todos, os quais como única alternativa terão de continuar a correr pelas ruas e no meio dos carros, competindo com os automóveis, e respirando um ar saturado e nada favorável à prática desportiva.

A redonda janela embora não muito ampla, mostrava uma significativa área aberta, permitindo e convidando a que o olhar se estendesse sem chocar com coisa alguma.

Num longe perto avistavam-se meia dúzia de guindastes, sinal de construção, não obstante a situação de crise que atravessávamos.

Num longe significativamente longe, eram os postes das antenas de televisão que sobressaíam, atiradas para o ar como agulhas, mais parecendo troncos nus de folhas e ramos.

Um depósito de água encimado por uma cúpula redonda, sobressaía destacando-se no azul do céu, semelhando uma torre de controlo aéreo.

 O verde por entre a concentração de casas num plano próximo ajudava a quebrar a monotonia do betão, combatendo o amarelo torrado e o branco das casas, bem como os tons rosa da cor dos telhados.

A fita cinzenta das estradas lá seguia o seu caminho, ajudando à circulação automóvel, que fluía de forma rala e esparsa, própria da hora de pouco movimento.

Sentado na cadeira da sala servida por esta janela, podia observar calmamente todo o movimento. As nuvens rodavam desenfreadamente arrastadas por um vento contínuo, mais activo nas camadas altas da atmosfera, pois as folhas das árvores dobravam de forma rítmica e suave.

O céu aos poucos carregava e escurecia. Uma chuva miúda principia a cair. Uma breve bátega abateu-se de repente, dando rapidamente lugar a um brilhante sol, banhando de luz os objectos e colocando cintilações nas pingas pendentes, e nas poças de água agora criadas. Estávamos no início da Primavera, e a incerteza desta estação, assim determinava estes comportamentos. Belos todos eles, pelas matizes colocadas nas folhas e ramos, pelas cores variegadas vindas dos campos, que se esforçam por sorrir e fazer desabrochar as flores.

Uma pequena e ténue neblina observada ao longe torna irreais os objectos apagando-os aos poucos no seu caminhar de proximidade. As casas perdem as suas cores e os seus contornos. A chuva miúda retorna a cair e desta vez parece que veio para ficar.

A claridade apesar de diminuta vinda através dos vidros da janela, permitem que continue a leitura da obra a que se dedicara nos últimos minutos. Trata-se de uma obra de conteúdo relaxante, o qual adquire outro sabor quando feito junto a esta janela aberta sobre o pequeno mundo no qual habita.

Através dela consegue alcançar outros mundos, outras vidas. Através dela deixa o seu olhar passear. Ousa sonhar e criar o seu próprio universo. Construir o seu castelo de cartas, e vê-lo ruir quando se retira para o interior e afasta da janela.

A janela constituía o contacto com o mundo exterior. Através dela chegavam os sons dos carros correndo na avenida, as sirenes das ambulâncias cavalgando apressadas, o vento rugindo ao passar na esquina do prédio. Escassas e imperceptíveis as vozes dos transeuntes dada a altura e a distância. No andar superior o cão do vizinho começou a falar de forma rápida e aparentemente de satisfação. Eram efectivamente horas dos donos regressarem a casa, e o bichano manifestava dessa forma a sua alegria.

O telefone tocou transportando-o para outra realidade. Alguém chamava do outro lado, necessitado de esclarecer alguma situação, ou prestar informações, sem colocar de lado a hipótese de ter havido engano no nº discado. Levantou-se rapidamente e caminhou para a sala onde se encontrava acordado e irritado o telefone pousado no descanso. Retinia com insistência e estridência, como se tivesse pressa. Levantou o auscultador, e do lado de lá ouviu um sinal sonoro indicador de corte de chamada. Certamente alguém se enganara e havia considerado essa hipótese, optando por interromper a comunicação. Pousou o auscultador com um singelo encolher de ombros. A hipótese formulada de possível engano vingara, pois não reconhecera o nº no visor.

Aproveitou para se deslocar à cozinha. Sentia uma ligeira necessidade de comer alguma coisa. Estava próximo da hora do lanche. O almoço fora aparentemente mais fraco que o habitual. Peixe e legumes segundo o ditado, não puxam carroça. Havia que comer algo para enganar o estômago e esperar assim pela hora do jantar. Preparou uma sandes com queijo, enquanto a cafeteira eléctrica entretanto ligada, cumpria a sua missão de aquecer  a água nela colocada. Iria tomar um chá a acompanhar a sandes.

Satisfeita esta necessidade básica e primária, já com recurso à iluminação artificial, pois a noite fechara-se sobre si, retomou à sala meio às apalpadelas, servindo-se agora da claridade vinda do exterior, que entrava pela vidraça adentro da janela redonda.

Perto e ao longe as lâmpadas da iluminação pública brilhavam, semelhantes a faróis faiscantes. No interior das casas próximas, a iluminação era bastante escassa. Os cidadãos encontravam-se a caminho de suas residências, após concluírem mais um dia de trabalho. Era assim um dos ciclos da vida e uma das rotinas a cumprir até à exaustão.

Sentou-se na cadeira contemplando o agora céu azul com bastantes nuvens, deixando antever escassos pontinhos brilhantes. Sentiu sonolência e as pálpebras algo pesadas. Optou por não contrariar este curto convite ao descanso. Encostou-se comodamente e fechou os olhos.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Carta a D.Manuel Clemente e ao Sheik Munir

ANTÓNIO LUÍS LOPES
 
Divulgo conteúdo de e-mail que irei enviar, nesta data, ao Sheik David Munir, da Mesquita de Lisboa, e ao Sr. Cardeal Patriarca de Lisboa:
"À atenção dos Exmºs Senhores
Sheik David Munir – Mesquita de Lisboa...
Cardeal Patriarca de Lisboa
Na sequência dos trágicos acontecimentos de Paris, enquanto cidadão Português, deputado na Assembleia Municipal de Sintra (líder da bancada do Partido Socialista) e católico, venho por esta via apresentar a seguinte proposta: que o Sr. Cardeal Patriarca de Lisboa e o Sheik David Munir, da Comunidade Islâmica, articulem entre si a realização, numa grande praça de Lisboa (Terreiro do Paço, por ex.) de cerimónia religiosa conjunta, em memória das vítimas de Paris e contra toda a violência extremista que, atualmente e de uma forma inaudita, ameaça o Continente europeu. Creio que seria um momento único e de grande significado no contexto europeu num País que tem, nas suas raízes, a cultura islâmica, mesclada ao longo dos séculos com a tradição cristã.
Considero, ainda, que as primeiras “vítimas” do extremismo islâmico são os meus irmãos muçulmanos - os que professam a sua religião pacificamente, os que têm em comum comigo (cristão) as raízes da sua Fé, os profetas iniciais, a crença num Deus único, a solidariedade com os mais fracos. Eles são os primeiros reféns da loucura criminosa dos terroristas islâmicos - porque a ignorância de muitos os confundirá com essa teia de medo, quando eles nada têm a ver com ela e são tão "vítimas" como qualquer um de nós.
Não é a religião que separa os homens - mas sim os homens e a forma como usam a religião para cavar trincheiras entre si. Não confundo a Fé no Islão com o terror islâmico, tal como não confundo o Papa Francisco com o inquisidor-mor, Tomás de Torquemada. Hoje (talvez mais do que nunca) é preciso relembrar isso - para que aqueles que legitimamente se insurgem contra a barbárie terrorista não acabem a ser os "cavalos de Tróia" da corrente xenófoba que ameaça percorrer a Europa (e o Mundo) de novo. In šāʾ Allāh. إن شاء الله.
Com os melhores cumprimentos,
António Luís Lopes"