segunda-feira, 2 de março de 2015

André Gonçalves: do almoxarifado à provedoria da Misericórdia de Sintra

CARLOS MANIQUE

André Gonçalves foi uma das personalidades mais prestigiadas da vila de Sintra durante a primeira metade do século XVI, constituindo, aliás, um caso notável de ascensão social e económica. Anselmo Braamcamp Freire, o principal biógrafo de André Gonçalves, traçou uma visão precisa da sua atividade, particularmente enquanto almoxarife da vila de Sintra. Contribuições posteriores do conde de Sabugosa, sobretudo pela publicação do conhecido e importante “Livro Truncado da Receita e Despesa de André Gonçalves” (datado de 1508), e de Silva Marques, que identificou e deu a conhecer “novas” folhas do citado códice, além de divulgar outros dados extratados no Cartório da Igreja de S. Martinho de Sintra, enriqueceram a biografia de tal figura. É com base nas informações coligidas pelos citados autores, acrescentando um facto significativo, que pretendo valorizar o percurso de um homem que conseguiu a nobilitação da sua família, recebendo, ademais, várias mercês dos reis D. Manuel I e D. João III. 
Sendo André Gonçalves escudeiro da Casa de D. Manuel, foi nomeado pelo monarca, em 21 de novembro de 1501, almoxarife de Sintra e paços da vila, assim como juiz das sisas de Colares e das coutadas do termo; nomeação confirmada no reinado de D. João III, precisamente em 23 de outubro de 1528. Decorria o ano de 1507 quando, pela primeira vez, são pedidas contas a André Gonçalves da despesa feita nos paços de Sintra; despesa correspondente ao seu exercício durante os anos de 1501 a 1505, do qual mostrou dar boa conta, recebendo, por isso, carta de quitação do soberano.   
Do ano de 1508 temos uma relação dos gastos efetuados com uma importante campanha de obras que decorria no paço real, encontrando-se tudo discriminado no citado “Livro Truncado da Receita e Despesa de André Gonçalves”. 
Da documentação conhecida, referenciada ou publicada por Silva Marques, sabemos que ainda por três vezes foram pedidas contas ao almoxarife André Gonçalves, cobrindo, grosso modo, o período compreendido entre 1521 e 1533. 
Certamente pelo exemplar zelo com que desempenhou as funções de almoxarife, André Gonçalves foi sendo agraciado com doações e mercês honoríficas. Destaco, no reinado de D. Manuel, as doações de metade do valor de um casalinho chamado do Maridelo, sito em Gouveia, corria o ano de 1509, bem como da herdade das Laranjeiras, em 1515 (esta última confirmada no reinado de D. João III). 
De uma condição de escudeiro no ano de 1501, André Gonçalves ascende a cavaleiro da casa de El-Rei, intitulando-se como tal desde o ano de 1531. Quatro anos mais tarde exerce (cumulativamente) o ofício de escrivão da Confraria dos Fiéis de Deus, ereta na Igreja de S. Martinho. No ano de 1544 mantinha-se no cargo de almoxarife de Sintra, certamente em proveta idade, detendo, então, o título de cavaleiro da Ordem de Cristo.   
O singular caminho traçado por André Gonçalves até à nobilitação vem a permitir-lhe, na fase final da vida, o desempenho de funções a que só a nobreza tinha acesso. É justamente a essa luz que deve ser compreendida a eleição de André Gonçalves para primeiro provedor da Misericórdia de Sintra (fundada em meados de 1545). Desse facto tive conhecimento através de um documento de arquivo, do qual se dá transcrição: 
Aos dezanove dias do mês de março da Era de mil quinhentos e quarenta e seis anos, nas pousadas de André Gonçalves, provedor da Misericórdia desta vila de Sintra, estando aí Jerónimo Rodrigues de Paiva e Diogo Ribeiro, escrivão da dita confraria, eleitos pelos Irmãos [para] que tomassem conta a Miguel Ferreira, que foi provedor do Hospital e Gafaria da dita vila, os quais lhe tomaram conta deste livro atrás do ano de quarenta e três se acaba no ano de quarenta e quatro.[1]
Dada a natureza do livro e o aditamento nele feito em 1546, não estranha que a identidade do primeiro provedor tivesse passado despercebida aos historiadores que prospetaram o cartório da Misericórdia. Por outro lado, concorreu também para o citado desconhecimento o facto de o primeiro livro de acórdãos da confraria se iniciar a 4 de julho de 1546, data em que estava já em exercício um novo provedor (Diogo Ribeiro) e de nele serem omissas assinaturas de André Gonçalves. Contudo, o seu nome, na qualidade de provedor precedente, é indicado a fl. 3 do mesmo livro.       
A referida eleição de André Gonçalves explica-se pelo prestígio que granjeou, pela nobilitação, bem como pelas suas virtudes pessoais, nomeadamente aquelas que, em 1501, na carta que o nomeou almoxarife de Sintra, eram assinaladas por D. Manuel: bondade e discrição. 
Uma análise aos compromissos das Misericórdias permite reconhecer que o perfil exigido para o exercício do cargo de provedor não se coadunava, pelo próprio fundamento dessas instituições, com a simples figura de um plutocrata. Na verdade, o provedor seria obrigatoriamente de condição nobre, virtuoso, de boa fama e, ao mesmo tempo, humilde. 
André Gonçalves cumpriu integralmente o seu mandato como provedor, ou seja, até julho de 1546, data em que novos corpos sociais foram eleitos. Em agosto do dito ano continuava a exercer o cargo de almoxarife do rei na vila de Sintra, momento em que lavrou o seu testamento. Desconheço posteriores desenvolvimentos até ao seu falecimento, o qual tinha já sucedido em 6 de dezembro de 1546.    


[1] Arquivo Histórico da Misericórdia de Sintra, Livro de Receita e Despesa do Hospital e Gafaria de Sintra, n.º 11, 1543-1544.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Os bens da Ordem do Templo em Sintra

RUI OLIVEIRA


A Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão [Ordo Pauperum Commilitonum Christi Templique Salominici] também, e sobretudo, conhecidos por “Os Templários”, têm, por via da sua história algo atribulada, merecido a atenção de muitos entusiastas da História medieva.

Uns, levados por prodigiosa imaginação, julgam ver nessa antiga e extinta instituição canónica, seres oriundos de outros “mundos”, ou detentores de sapiências e poderes extraterrestres. Outros, mais realistas mas, ainda assim, Românticos, cuidam que esta poderosa canónica continua a sua existência, secretamente, guardadora de bens materiais incalculáveis habilmente escondidos um pouco por essa Europa fora. Quer uns, quer outros, apenas refletem a riqueza histórica, de prestígio militar, de poder económico que esta Ordem, de Persona-Mista, granjeou na Idade Média. Poderes que acabariam por a levar à ruína, minada pela inveja e choque de interesses vários.

Como árvore frondosa, profundamente enraizada no solo europeu cristão esta, apesar de cortada, rebentou enxertada. O rebento mais profícuo aconteceu, precisamente, no Reino de Portugal com a sua transformação em a Ordem do Senhor Jesus Cristo, vulgo Ordem de Cristo, que passou a incorporar todos os bens que então detinha no mesmo, a sua antecessora, bem como os que, fruto do seu trabalho na senda da descobertas marítimas, haveria de incorporar.

Na Sintra dos tempos genesíacos dos Templários em Portugal, bem como do Pós-Reconquista da região de Lisboa, em 1147, sabemos, por Inquirições Régias, coevas e posteriores, que os bens desta Ordem dos Templários, eram bem modestos; quer em relação a outras regiões do reino, quer por comparação com os bens de outras Ordens em Sintra e seu termo. Pelo Rol da Inquirição Régia de 1220, para parte da Estremadura e região de Lisboa, sabemos que a Ordem do Templo detinha em Sintra:

«Umas boas casas; tendas [espaço de venda que podiam ser aforadas ou de exploração directa, e nas quais era, ou podia ser, vendido, o vinho, a fruta e leguminosas de sua produção local]; duas vinha; uma almoínha [horta] e um moinho de água [engenho moageiro de cereais]», isto na vila de Sintra. 

No termo da mesma: «em Almosquer um pomar; em Manzanária [que alguns investigadores assinalam como Maceira] uma boa granja com quatro casais; no Vimieiro uma herdade; em Almoçageme [no documento Almozaieme] outra herdade; na Adraga outra; e em Rebanque [no documento Revanqui] dois casais».

Não consta que nestas antigas propriedades existam tesouros alguns escondidos; nem túneis secretos, muito menos se acredita que o “Santo Gral” aqui esteja secretamente guardado.




sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Escoliose Cerebral

FREDERICO PARADELA DE ABREU


A escoliose define-se como um desvio da coluna vertebral para um dos lados. As actividades que fazemos ao longo da vida podem potenciar esse desvio. Quem estiver familiarizado com a silhueta do tenista Rafael Nadal captará bem a noção das assimetrias provocadas pelo uso que damos ao nosso corpo. Tomados de forma isolada, facilmente se atribuiria o seu braço esquerdo a um lutador de Jiu Jitsu, na categoria de peso pesado, e o direito a um bibliotecário que recentemente se inscreveu num ginásio por recomendação do seu médico. O problema é que estas duas «personagens» musculares, bastante distintas, estão ligadas à mesma estrutura e isso interfere com o seu bom funcionamento a longo prazo.

É normal que haja sempre um lado mais desenvolvido do que o outro, um destro dará inconscientemente preferência ao braço direito para executar uma panóplia de actividades rotineiras ao longo da sua vida, como levar o saco das compras, lavar os dentes, et cetera. Contudo, existem estilos de vida que conduzem para um desalinhamento e assimetria da coluna vertebral acentuados podendo degenerar em dor e desconforto muscular, deficiências respiratórias, entre outros malefícios. Não mata mas mói.

Passando agora para o órgão mais misterioso do corpo humano, onde nestes últimos anos se tem descoberto novas e surpreendentes evidências sobre ele. Digo surpreendentes porque realmente quem pagou uma operação para retirar o apêndice deve estar surpreendido por ele afinal ser preciso. Mas deixemos isso agora. Passemos antes para o segundo órgão mais misterioso do corpo humano: o cérebro.

O cérebro está dividido em dois hemisférios, esquerdo e direito, cada um responsável por determinadas funções. Contudo, as novas experiências neste campo têm vindo a questionar a tese de que os hemisférios cerebrais possuem uma divisão de tarefas rígida, sendo portanto um processo interactivo entre ambos mas mantendo a lateralização nos domínios em que cada metade é especialista. Aliás, estamos a falar de uma área em que as evidências científicas que existem são frágeis e facilmente temos de manhã uma evidência a dizer que é por ali, e à tarde, no próprio dia, termos outra a dizer que afinal é por acolá – semelhante às alterações de governo durante a Primeira República mas sem tanto aparato – Portanto, tudo o que for aqui dito vale enquanto valer.

O hemisfério esquerdo processa de forma lógica, racional, analítica, funcional. Pensa sequencialmente – reconhece ocorrências em série. Exemplos de funções seriais desempenhadas pelo hemisfério esquerdo são as actividades verbais como falar, compreender o discurso de outras, ler e escrever. Por seu turno, o hemisfério direito processa de forma simultânea, contextual, sintética, metafórica e estética. Apreende a realidade em termos holísticos – reconhece padrões e interpreta as coisas simultaneamente. É responsável por compreender o significado das emoções e expressões não-verbais. Inúmeros estudos demonstram que o hemisfério direito está incumbido de perceber as metáforas. Imaginemos que recebe uma carta nos dia dos namorados de alguém a dizer que vai “abrir o coração para si”. Graças ao hemisfério esquerdo foi capaz de ler a frase contida na carta mas pode agradecer ao hemisfério direito por fazer com que não entre em pânico julgando que o remetente acabou de espetar uma faca no seu próprio peito para que você pudesse espreitar o interior do coração dessa pessoa, pois é o hemisfério direito o responsável pelo decifrar de que aquela frase é o anúncio de uma declaração de amor e não um convite para um novo e bizarro hobby da moda: heartwatching – Peço encarecidamente aos cibernautas com queda para o satanismo que não abandonem o exercício retórico em que aquele conceito foi criado e não o tornem «uma coisa», por favor.

Sendo que cada hemisfério é especializado em certas áreas, as actividades ligadas as esses domínios desenvolvem maioritariamente o hemisfério que é chamado a intervir. Ao ler estarei a trabalhar maioritariamente o hemisfério esquerdo e ao desenhar estarei a trabalhar maioritariamente o hemisfério direito, por exemplo. Posto isto, e com o eco da linha de pensamento supracitada (lá bem supra no texto) ainda bastante audível, facilmente inferimos que as actividades que fazemos ao longo da vida podem contribuir para uma assimetria entre hemisférios podendo degenerar em escoliose cerebral.

E isto é preocupante? Epá… é. Uma escoliose cerebral para o lado esquerdo dá origem a uma existência fria sem emoção, semelhante à das máquinas, e uma escoliose cerebral para o lado direito gera uma realidade histérica e disfuncional incapaz de criar o seu próprio manual de instruções de sobrevivência. Quem precisar de evidências para aceitar esta tese basta convidar um contabilista para ir tomar café ou tentar organizar um evento de relativa complexidade com um indivíduo de belas-artes.            

Tal como a escoliose normal, a escoliose cerebral também causa dor e desconforto (deficiências respiratórias ainda não houve registo de algum caso clínico) mas neste contexto em vez de nos músculos é na mente. E isso torna tudo muito mais delicado porque a mente é terreno intangível e portanto mais difícil de tratar mas também de diagnosticar. A escoliose cerebral também não mata mas mói porém se calhar era preferível que matasse porque assim receberia a devida atenção. As pessoas falham o diagnóstico porque habituam-se à redução dos padrões de bem-estar mental e emocional, acomodando-se a essa realidade «moída». O hábito gera tolerância.

Com base nos estudos do INEI (Instituto Nacional de Estatísticas Inventadas), as estatísticas dizem-nos que 3 em cada 5 portugueses sofrem de escoliose cerebral. Ora os números são assustadores mas mais assustador é o facto de uma das principais causas ter na génese do seu propósito o desígnio oposto. O ensino público português forma todos os anos milhares de «Rafaeles Nadales» cerebrais. Porquê? Porque dedica mais tempo e atenção às disciplinas que trabalham com o hemisfério esquerdo: Português, Matemática, etc., negligenciando as restantes.

Esta conversa não é nova, e tão-pouco é minha intenção dizer que o hemisfério esquerdo é um vilão opressor do hemisfério direito. Mas a verdade é que há na sociedade uma enorme assimetria estrutural para o lado esquerdo. Mas se há, ainda bem que é para o lado esquerdo, se fosse para o lado direito estávamos tramados. Os relógios derreteriam e nenhum transporte público chegaria a horas, os aviões não estariam sincronizados e as buzinas dos carros emitiriam excertos de textos humorísticos a cada apitadela, entre outros surrealismos insustentáveis para a vida gregária de animais verbalizadores. Se bem que seria giro imaginar um pintor a chegar ao ponto de saturação pela falta de rotina, atirando o pincel e a palete ao chão, gritando veemente “Basta! Fini cette merde!”, e saindo a correr do seu ateliê em direcção à primeira loja Armani que encontrasse, vestindo um bom fato, sacrificando o conforto da sua traqueia com genuíno prazer através da utilização de uma gravata, e, libertando-se do mundo desregrado e desconexo onde trabalhava há já mais de 30 anos, indo perseguir o seu sonho de criança de ser banqueiro, trabalhando com um horário e salário fixos, vivendo de forma estável e pacata.

Em jeito de conclusão para esta reflexão sobre as assimetrias cerebrais poderia inserir uma máxima (em itálico) sobre o «equilíbrio» ou poderia coligir uma mão cheia de estudos de várias áreas, capitaneadas pela Psicologia, para dar força à mensagem de que o equilíbrio é a chave do bem-estar mental e emocional mas a verdade é que ao longo das nossas vidas fomos acumulando evidências estatísticas de dias e dias de acordar de manhã e ir viver acontecimentos e experiências que demonstram que o equilíbrio é mesmo a chave de tudo. Combater a escoliose cerebral é acumular mais uma evidência aos resultados dessa investigação científica em que todos trabalhamos diariamente chamada: existência.      


sábado, 7 de fevereiro de 2015

Coisices de moça

ZÉLIA NOGUEIRA
Esta manhã estava aquele frio fininho característico desta zona húmida de Colares, a rua enlameada pintava-me os sapatos e eu vestia um casaco grande comprido e grande de afecto também...foi da minha mãe.
Andei como sempre a uma velocidade proibida até perceber o tal barulho que me caracteriza, o de quem está ofegante depois de uma meia maratona e fui diminuindo a marcha até á paragem de autocarro...que cerebro estranho que nega as fragilidades, que falta de inteligência e teimosia absurda...!
Pelo caminho a garça que habita por aqui levantou voo e como são elegantes as garças!! Hoje olhei para os patos com olhos de ver e percebi que eles voam como se os seus corpos pesassem quilos a mais porque parece que "aventam" a cabeça para a frente num esforço grande para que o resto do corpo acompanhe e não se "esbaldeire" pela ribeira, ou no meio das couves ou das alfaces.
Quando vou a Lisboa gosto de olhar para os prédios e imaginar o acordar dos que ainda não se levantaram e os olhos e rostos de quem lá habitará, afinal eu cresci num primeiro andar de um prédio e lembro-me dos hábitos, dos sons, dos tapetes postos ao ar pelas donas de casa primorosas, o cheiro a torradas que saía de um ou outro andar...dos maridos que desciam apressados para ir trabalhar para a Cuf ou para Lisboa e havia o autocarro pejado de pessoas e depois o barco em horas de ponta atulhado até á outra margem...tão antiga esta minha lembrança ui!!!
Há prédios feios, bonitos, tristonhos, solitários, outros alegres e ainda os arrojados na construção, afinal a linha de Sintra é um mix...entretem-me, faz-me pensar em "coisas nenhumas" de importancia alguma... entretém!
Hoje a sala de espera tinha tetos altos e aquele edificio muitos anos. Estavam espalhadas ordenadamente pelo espaço cadeiras semelhantes aquelas do posto médico no Barreiro perto do parque Alfredo da Silva onde eu ia com a minha mãe quando era miudinha e tinha espirrado uma vez ou tossido duas ou três, a minha mãe era uma zeladora mestra.
Olhei para todos os cantos daquela sala com móveis muito antigos e bonitos, com um espelho enorme que tinha mal disfarçado a fechadura aparafusada na moldura de madeira, deverá ter pertencido a um roupeiro talvez e havia no meio de tantas coisas com idade, Orquídeas lindíssimas com um ar tão juvenil que quase destoavam de todo o resto...e passou um senhor bonito, mulato, enfermeiro ou médico talvez, que atravessou a porta de vai-vem e para que não fizesse barulho porque o silencio ali era tão agradável, amparou-a já depois de transposta...e lá estava aquela mão bem desenhada e elegante com uma aliança a segurar o barulho...
Gosto de mãos de homem que não escondem uma aliança, um pacto, um elo...!
Na volta e quase a chegar a casa contei ao Edgar que tenho mais um médico novíssimo e giraço e o Edgar gargalha porque me conhece de ginjeira, sabe que sou desbocada e sabe que nada supera o riso lindo que tem...a mais aquele cabelo grisalho precoce que ele deixa que eu cuide!
Coisices de moça!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Em memória do Barão de Eschwege

JOÃO RODIL

No passado dia 1 de Fevereiro, assinalaram-se os 160 anos da morte de Wilhelm Ludwig von Eschwege, mais conhecido entre nós como Barão de Eschwege, e que nasceu em Hesse, a 10 de Novembro de 1777, e veio a falecer em Kassel, precisamente a 1 de Fevereiro de 1855.

E Sintra não pode, nem deve, esquecer a memória deste fantástico homem de ciência que muito contribuiu para o engrandecimento e embelezamento desta terra maravilhosa. Se é certo que D. Fernando II foi o principal impulsionador e mentor do gosto romântico na arquitectura e na paisagem sintrense, também é certo que muito beneficiou da preciosa ajuda e conhecimento do Barão de Eschwege.

Homem de múltiplos recursos científicos, já que espalhou a sua actividade pela geologia, a geografia, a arquitectura, a metalurgia, a química e a física, e estudou – seguindo a corrente ecléctica da época – direito, ciências naturais, economia política e economia florestal, arquitectura, mineralogia e paisagismo, foi o grande parceiro de D. Fernando na mítica caminhada que levou à idealização e construção do Parque e do Palácio da Pena.

O primeiro estudo sério sobre o clima, a formação geológica e a qualidade dos solos da Serra de Sintra, é de sua autoria. Foi com base nesse estudo que ele e o rei perceberam que era possível trazer plantas de todas as partes do mundo e plantá-las no alto da serra, criando aquele verdadeiro «Jardim de Klingsor» que é hoje um fantástico laboratório vivo do reino animal e vegetal.

Também foi o Barão de Echwege quem encetou uma série de viagens pela Europa e Norte de África, catalogando elementos arquitectónicos que serviriam para a projecção do Palácio da Pena, o tal «Castelo do Santo Graal».

Mas a vida e a obra deste homem não cabem aqui. Há muito que Sintra lhe deve uma justa e tardia homenagem. Porque é bom não esquecer quem nos deu a Arte e a Natureza que hoje rende milhões. Nós não esquecemos, porque nos esqueceríamos.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

A mulher do poeta

ADELAIDE BERNARDO

A mulher do poeta sabe que apenas algumas palavras são sobre si.

Derrama lágrimas ocasionais ao perceber outros corpos nas suas palavras.

Mas a beleza das palavras surpreende-a sempre, porque a mulher do poeta ama-o por amor à poesia.

A sua dádiva é o lar de alguém que não pretende subjugar as palavras. Ela sabe-se há muito subjugada por elas. Elas são as grandes subjogadoras.

A mulher do poeta acarinha-o puerilmente. Aceita que não haverá outras crianças. Que o poeta apenas tem olhos para as palavras mesmo quando estes se distraem noutros corpos ávidos de palavras, mas sem a sua serenidade.

A mulher do poeta sente o que este não sente, vê o que este não vê.

Mesmo sem o registo do seu corpo, ela sabe que aquelas palavras também são suas.

Só ela sabe a humildade das palavras por interposta pessoa.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O Jardim da Castro


ADELAIDE BERNARDO


Licenciada em Português/Inglês, com experiência profissional nas áreas 
 Vivi grande parte da minha vida na Praceta Ferreira de Castro, em Agualva. Foi um óptimo lugar para se viver uma infância: tinha um parque infantil e um jardim. O parque, aquando do programa Polis, deu lugar a um estacionamento. O jardim foi perdendo ao longo da duas últimas décadas o esplendor de outrora, em que era o único jardim da freguesia e o cenário das tradicionais fotos de casamento.
A praceta foi habitada, na década de 60, por muito casais oriundos da migração do interior do pais, em busca de melhores condições de vida do que as que teriam na exploração dos pequenos terrenos agrícolas familiares. Aqui, cresceu uma geração de rapazes (eram quase 30), entre os quais os meus irmãos (nós, raparigas, éramos em menor número), que se reuniam nos seus bancos, sempre sob o olhar de uma qualquer vizinha. O jardim era um espaço familiar, vigiado (pelo olho de falcão da D. Ana e restantes vizinhos) e respeitado.
Mas as gerações crescem e vão à sua vida fora da praceta. Alguns vizinhos mudam-se, outros despedem-se desta vida. As casa recebem novos moradores. Moradores para quem a praceta é o local onde dormem e não o local onde os seus filhos crescem em comunidade na rua. Pessoas com outros valores que não o de vigiar um jardim que o descaso de uns, a falta de empenho de outros e o vandalismo de estranhos foi votando ao desleixo.
Que solução para este local? Muitos gostariam apenas de vê-lo transformado em mais lugares de estacionamento. Esquecem que o verde, uma vez perdido, nunca mais retorna. Outros, a velha guarda, querem o esplendor de há 45 anos. Desenganem-se. O tempo segue em frente e já nada será como era e há que perceber que a solução não pode passar só pela afectividade, que também não pode nem deve ser negligenciada pelos decisores. No entanto, é possível devolver a dignidade a este espaço.
Eu acredito na valorização deste espaço. Terá de ser um jardim renovado, mas diferente de outras décadas. Hoje, os valores e as prioridades são outros.
Hoje, as novas gerações crescem dentro de 4 paredes em frente aos computadores. As mães e avós trabalham a tempo inteiro. Isto é, se não estiverem à procura de um trabalho, o que lhes ocupa igual tempo. Hoje, o medo da violência e represálias de uns quantos vândalos impede a resistência dos mais velhos. Hoje, os valores da cidadania são praticados mas só a nível das exigências e não no que está ao nosso alcance e à nossa frente: a preservação de um espaço que é de todos.
Sempre que retorno à praceta onde os meus pais se estabeleceram após o casamento, criaram três filhos e fizeram amizades de toda uma vida, fico triste com o estado do meu jardim. Tecnicamente, não sei quais as melhores soluções, mas sei que já todas foram apresentadas. O meu senso diz-me que a vigilância e cuidados regulares, a rega e a plantação apropriadas darão os seus frutos. Talvez demore ainda uns meses a ver os resultados desejados. Mas também acredito que um jardim cuidado possa fazer com que novas gerações voltem a sentir o afecto que todos sentimos.
Se mais não posso pedir, posso, no entanto, dar este testemunho. Peço a todos que lutem por este espaço que é de todos e para que este venha a ter um novo esplendor. Merece a freguesia e merecemos todos nós que aqui residimos e trabalhamos. 

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Anoitecer em Amarelo Scotch


FERNANDO MORAIS GOMES
Chove na mente, é um dilúvio a alma, o fim, sempre ele espreitando, sinistra silhueta da esperança fugidia. Encafuado poeta de café, apátrida dos tempos, sombra velha dos espaços, em silêncio calcorreio o pontão sem gente. Como desolada está a praia, cinzenta como o espírito, náufragos de calção circulam aflitos por miragens. Recolho ao carro, e ao cúmplice rádio de roufenhas melodias.

É Inverno no país das flores, de vez foram os cravos furtados das armas, agora apontadas a subjugados prisioneiros no país que foi de Zeca. Volta Zeca, volta de teu túmulo, adormecida guitarra talhada no ventre dum povo culpado por sonhar. O mar provoca, desafia a vencer, qual Gama da nau catrineta, cavalgar a onda, ousando, e logo um atávico apelo a desistir, vencido de si, temeroso. Os amanhãs perdem cor, pardacentos, longe, muito longe, no chamuscado purgatório entre o pesadelo e a ilusão. No rádio do carro passa Kurt Weil, por onde o caminho para o próximo whisky bar?

Escrevo. Apago. Escrevo de novo. Rasgo, despótico. Que fazer? Dar o corpo à arma? Recomeçar, com novos cravos em cano agora apontado a nós? Brancos, desta vez querem-se brancos, alvos e puros. A Primavera fugiu… Volta, és nossa, és Sul, és Sal, e tão longe de Portugal…

Ululantes hordas de conformados patrulham a Cidade, raptada pelo tédio e pelo spleen, assustam-te, confessa. Mudaram as madrugadas, antes límpidas e ledas, agora ameaçadoras, promessa de castigos, cruéis e castradores, estivais armagedeões relampejados. Que fazer para não despertar, para voltar ao filme onde todos são felizes?. Ah, como é puro o cheiro do iodo!

Caneta, papel, umas linhas esculpidas com uma cana no areal, ao lado ujm trilho de passos na areia molhada. Empolga, a canção do CD, são os Doors, albergue de errantes, trôpegos de futuro e sem pedras de gelo. Vamos para Alabama, acolhidos ao whisky bar! Cheers! Lá vai a Sílvia com o caniche, a caminho do Angra, e eu sóbrio ainda...

O Chico emigrou, cansado de desesperar. Emigrou não, globalizou-se. O Zé Luís morre aos poucos, licenciado em currículos e catedrático de bares. Ao Manel surpreendi ouvindo o Zeca, cinco aguardentes durou, no esconso da casa do Gil, só pela madrugada alcançou o nirvana, enroscado no sofá do canto.

No quiosque da praia, anoréticos jornais vendem insegurança e medo, intranquilos, invasores, cardíaco relato dum diário crepúsculo. Aconselhado deixar de ler jornais. Aliás, deixar de ler em absoluto. De tão abusadas, gastaram-se as palavras e analfabetos não descobrimos novas, entre silêncios soltamos enredos, esboçamos adjectivos, talvez se salve o mundo aí pelo quinto gin. Limão. É o limão que tira a piada à vida.

Deixou-me, a Mafalda. Cansou-se. Também eu a havia deixado já, amancebado com o álcool redentor e concubino. Amigo certo, presenteou-me com uma poética cirrose, maleita de intelectual, é o mínimo. Não morrerei de pijama, mas de fraque, não se vai para o outro mundo de pijama. Espero que no tal Céu haja Visa, parece que não deixam levar dinheiro. De partida agora, posso pensar em novas madrugadas com cravos brancos, quero cravos brancos sobre uma laje fria, fica bem nas fotos, com Chopin em fundo, talvez o Fernando faça um poema. Campa, sim, quero uma campa, quero alistar-me no exército das cruzes, entre memoriais de defuntos imortais, nada do irrespirável e tórrido crematório, coisa para frango ou Joana d'Arc.

Neste último texto registo silenciosos gritos, cúmplices cirroses servidas com caneta de aparo. Passou a Ângela no calçadão, trauteio baixinho uma canção de Brel, pelo retrovisor vejo o Max no banco de trás. Grande Max, já partiu, e de fraque, sete Outonos atrás, aguarda-me Max, vou a caminho!

É cruel, a caneta de aparo. As palavras sangram e impiedoso o aparo mata, invasiva arma contra palavras vãs, com tinta preta se deviam proclamar revoluções, gritar esperanças, borrar epitáfios, apunhalar palavras errantes em confidenciais cadernos. 

É sábado. Cristo morreu, Marx também, e eu não me sinto lá muito bem.. São cruéis os dias, e convocam à lassidão do corpo. O homem de Nazaré morreu numa sexta. Aninhado entre pregos de aço, ressuscitou num sábado, hora de Greenwich. Todos os dias ressuscito para tornar a morrer. Melhor ir a mais um gin, no bar. Esfíngico, o sol põe-se no horizonte, não serviu de nada hoje, fugido do Verão, o CD no carro repete o Brel em looping, aguarda, Max, vou já!…. Eis-me poeta de cirroses, servidas em copo alto, em vésperas de Libertação.