sábado, 4 de abril de 2015

Credível e Previsível



JOÃO CACHADO

Quando um executivo autárquico anuncia determinados projectos, mesmo sem se comprometer com um específico cronograma, deve usar do maior cuidado para não suscitar nos cidadãos fundadas reservas quanto à sua viabilidade e concretização, dentro de prazos mais ou menos consentâneos com as mais justas expectativas. Convém lembrar que alguns daqueles projectos surgem na sequência de infelizes pendentes à pele dos quais se colou o estigma da perpetuidade mais indesejada…


Ora bem, remontando a Outubro de 2013 a tomada de posse do actual executivo autárquico, a verdade é que, cerca de ano e meio depois, persistem situações em relação às quais alguns Senhores Vereadores e também o próprio Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sintra, anunciaram iniciativas que não tiveram desenvolvimento notório, algumas das quais até acabaram por obrigar os seus autores à sempre desagradável emenda da mão.

Centro de Saúde inviável

Sem preocupação do escrupuloso respeito pela ordem cronológica das ocorrências, primeiramente, lembraria o caso do Centro de Saúde de Sintra. Foi anunciado que sairia das precárias instalações actuais, na Rua Dr. Alfredo da Costa, para ocupar o edifício sito na Av. Dr. Desidério Cambournac, cujo destinatário inicial seria a Junta de Freguesia.

Como é do conhecimento geral, há bastantes anos, a construção foi interrompida na sequência da falência do empreiteiro. Enfim, ali permanece, chaga inestética e pouco recomendável às sensibilidades mais fragilizadas, qual caixote e cinzentão paralelepípedo de betão, quotidiana agressão e, seja ela de quem for, a incompetência gritada de quem não resolve ou não deixa resolver o problema.

Como não podia deixar de ser, saudei a notícia da mudança de instalações e, através dos meios de comunicação em que habitualmente me manifesto, dei largas à natural satisfação. Pois, cerca de um ano mais tarde, por altura da Presidência Aberta de 7 de Novembro de 2014, soube-se que o Ministério da Saúde inviabilizara a intenção, por manifesta falta de condições do edifício em questão.

Cabe perguntar porque razão, antes de fazer o anúncio, não houve a prudência de colher a informação absolutamente indispensável que pudesse sustentar a viabilização ou demonstrar a incompatibilidade do propósito em apreço.

Netto, oportunidade desperdiçada

No badaladíssimo caso do Netto também algo de semelhante se passou. Tendo decidido exercer o direito de preferência, a Câmara Municipal de Sintra decidiu-se pela compra do hotel, assim impedindo que a Parques de Sintra Monte da Lua concretizasse o projecto de recuperação do edifício, praticamente adjacente ao Palácio Nacional da Vila de Sintra, monumento este cuja gestão e administração lhe estão afectas.

Tudo estava programado em relação à intervenção naquela unidade hoteleira abandonada e, há dezenas de anos, em processo de permanente degradação. Factor determinante para a concretização do projecto, o seu financiamento estava totalmente garantido por instituições de crédito, ao corrente do alto nível de capacidade da PSML em obras que tais.

Naturalmente, a Câmara Municipal de Sintra estava no seu pleno direito. Contudo, muito mal se entende que, passado cerca de um ano sobre a data de tal anúncio, o Senhor Presidente tivesse vindo a público, perplexo, em sede de Assembleia Municipal, afirmar que ‘o Património’ o obrigava a manter a fachada do Netto e que, só tal operação, implicava no dispêndio de montante incomportável para os cofres da Câmara…

Então, compreende-se que, em nome dos munícipes, habituados à eficiência e impecabilidade de actuação da PSML, a CMS tivesse decidido nos termos anunciados sem cuidar de se munir da informação bastante – e, neste aspecto reside a analogia com a situação do Centro de Saúde – que a habilitasse para o efeito?

Ou seja, em 6 de Novembro de 2013, quando anunciou o imediato envolvimento da empresa no projecto, o Prof. António Ressano Garcia Lamas, então Presidente da PSML sabia tudo e, inclusive, que a fachada do Netto era para manter, que tal determinação‘do Património’ era condição sine qua nonpara a sua efectivação e, pois claro, em quanto é que isso montava…

Respondendo à questão formulada no penúltimo parágrafo, de modo algum se compreende, até porque, pelo menos um ano de atraso já lá vai. Foi uma oportunidade desperdiçada. Seria suposto, isso sim, o Senhor Presidente da Câmara estivesse tecnicamente bem aconselhado, já que não pode, não tem de saber tudo. E implícita e explicitamente, para que, a posteriori, não se visse obrigado a assumir uma falta que não deveria ter ocorrido, é que adjuntos e assessores deveriam ajudá-lo a defender-se.

Ponte pedonal

Devido à insistência com que o tenho feito, até corro o risco de ser mal-entendido. De qualquer modo, prefiro que assim aconteça, portanto, por excesso, do que não manter em permanente ordem do dia, o caso da reposição da ponte metálica pedonal que permite a circulação expedita de transeuntes entre os bairros da Estefânia e da Portela.

Repetidas vezes anunciada pelo Senhor Vereador com o pelouro da Mobilidade Urbana – que, perante testemunhas insuspeitas, chegou ao ponto de usar a expressão doa a quem doer!, porque está em causa o interesse geral dos cidadãos contra o de particulares – tal operação, afinal, continua por concretizar apesar da incontestável urgência.

De acordo com os termos em que me tenho referido à falta deste equipamento, volto a lembrar que, uma vez reposto, permitirá que o parque de estacionamento adjacente ao edifício do Departamento do Urbanismo seja indicado, tanto pela CMS como pelas autoridades policiais, como inequívoco preferencial para os condutores das viaturas que demandam o Centro Cultural Olga Cadaval aquando da realização de eventos nocturnos, altura em que aquele espaço está totalmente deserto e disponível…

Porque assim não acontece, vem a propósito contar que, na noite da passada sexta-feira, 6 de Fevereiro, nova cena de terceiro mundo esteve armada nas imediações do CCOC. Cerca da meia-noite e um quarto, não conseguindo circular, os condutores buzinavam insistentemente e insultavam-se com todos os efes-e-erres. Polícia? Nem vê-la! O que será preciso mais fazer para que, contra o escândalo actual, em nome do sossego e da civilidade a que os munícipes têm direito, a CMS se disponha a fazer intervir a autoridade policial?

Outros casos
Faz um ano, no próximo dia 28 deste mês, que, na sequência da publicação de um artigo no Jornal de Sintra, subordinado ao título“Defesa do Património, coerência de propósitos”, o Senhor Presidente da Câmara teve a gentileza de me contactar pessoalmente para garantir que, imediatamente, iria dar instruções no sentido de remediar as situações que eu tinha denunciado, certo é que nada estruturantesmas sintomáticas de um statu quo.

Referira-me ao estado lastimoso em que se encontrava algum do património edificado e classificado da Estrada Velha de Colares, casos Chafariz d’El Rei e a Fonte dos Ladrões, bem como o Casal de São Domingos, na Rua Dr. Alfredo da Costa e o vizinho Vale da Raposa. Se não tive a menor dúvida em confiar na sinceridade dos propósitos do Senhor Presidente, na verdade, um ano passado sobre a publicação do artigo e conversa pessoal subsequente, que tão positivamente me tinha impressionado, tudo permanece inalterado…

Ou, melhor, foi beneficiado o aspecto geral da Fonte dos Ladrões, porque, aproveitando o facto de ter feito uma obra do outro lado da via, o Conde Filipe Schönborn deu instruções ao empreiteiro para rebocar os muros e limpar o pavimento à volta… Portanto, o bónus de uma intervenção particular. Mais nada!

Também no dia 13 do mês de Março, terá passado um ano sobre a data em que foi anunciado oQuarteirão das Artes, uma proposta para a Estefânia.Entretanto, como mais nada se soube acerca de tal projecto, não é possível perceber em que medida ele se insere na requalificação da Heliodoro Salgado, em ambas as partes, viária e pedonal, e se esta requalificação vai mesmo acontecer e quando.

Aliás, em articulação com esta incógnita, uma outra faz o dilema. Foi anunciada a intenção – e não há quem não aplauda! – de prolongar a linha do eléctrico, em primeira fase, desde a Vila Alda até à estação terminal da CP e, depois, como antigamente, chegando à Vila Velha. Assim sendo, importa perceber se, efectiva e necessariamente, as obras indispensáveis à sua passagem pela Heliodoro Salgado, já serão contempladas durante a próxima intervenção para requalificação da via. Como facilmente se compreende, não faria qualquer sentido intervir agora, sem contemplar esta vertente tão importante da questão para que, mais tarde, se destruísse o benefício em apreço…

As dúvidas são mais que muitas. E o tempo passa, corre inexoravelmente. Ainda noutro dia foram as eleições e, já passado um terço do mandato, estamos com uma série de promessas de problemático cumprimento. Também por isto, prevejo muito complicada a actuação das associações cívicas e culturais que, na autarquia, seria suposto encontrarem uma entidade credível e previsível. Por vezes, tenho de lamentar que tal não aconteça. De qualquer modo, apesar de muita dúvida, ainda o benefício da dúvida porque permanece o conforto da esperança.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Inês Pedrosa- A paixão conduz a escrita

MIGUEL REAL


Belíssimo novo romance de Inês Pedrosa, Desamparo, tão festivo quanto fúnebre, tão cosmopolita quanto nacional, tão céptico quanto esperançoso, percorre toda a gama de sentimentos humanos, da alegria esfuziante ao fracasso mais atroz, do amor atormentado e obstinado à humilhação nos negócios.

Em Desamparo, a história e as personagens entrecruzam-se de um modo inextrincável, desconhecendo-se qual a mais importante, se a história, uma síntese dos tempos recentes de Portugal, se as personagens, das mais sólidas e vibrantes que a autora criou. A história decorre na aldeia de Arrifes, Vila de Lagar (lugar inventado, claro) e possui personagens fortes, (i) como as três vizinhas Jacinta, Alice e Rosário, as duas primeiras falecidas, Jacinta adoecida e levada para o hospital no princípio do romance, desencadeando a acção deste, Alice no final, “desamparada, isolada num baldio; (ii) como Raul e os seus dois irmãos, Rafael e Rita; (iii) como Vanessa assassinada numa danceteria; (iv) como Clarisse, antiga jornalista desempregada e animadora cultural em Arrifes, que, pelo amor, redime a vida de Raul; (v) como o literato inconstante Pedro Gama Lousada, belíssimo retrato de escritor e activista cultural decadentista encontrado na vida boémia de Lisboa.

São personagens fortes, isto é, cada uma dotada de uma personalidade vincada, totalmente distinta das restantes, e com acção singular no seio da história narrada. As restantes personagens (Joaquim, o dono da funerária Zorro, idosos do Centro de Dia, Gaspar e Cátia, Carla Fontinha, habitantes de Arrifes, funcionários camarários, Ema de Castro, o Grande Escritor ressuscitado e o Grande Arquitecto premiado…) compõem, digamos assim, o pano de fundo ou o horizonte social donde se destacam as personagens marcantes, sobretudo Raul.

Trata-se, sem dúvida, da história simultaneamente feliz e infeliz de Jacinta de Sousa e da vida derrotada mas redentora de seu filho Raul. E, com Jacinta e Raul, é, ainda que raramente se descrevam episódios do poder político, da história de Portugal que se trata, sobretudo dos anos mais recentes. Da tenacidade de Raul, que, embora nascido no Brasil, vindo para Portugal para acompanhar a mãe, recusa emigrar; do amor de Clarisse, que aceita emigrar um ano para Berkeley para pagar a parte do Casal da Bela Vista que coubera em herança a Raul e aos seus dois irmãos; da vida de Jacinta levada menina para o Brasil pelo pai Artur, tipógrafo, casada com o galante Ramiro, que a trocou por mulher mais nova, e regressada a Portugal para fazer companhia à mãe Margarida e viver até à morte na casa de Arrifes.

Desde o seu primeiro romance, A Instrução dos Amantes (1992), a paixão comanda a escrita de Inês Pedrosa: paixão gizada em torno de um realismo social participante, prestando testemunho do seu tempo; paixão alimentada pela observação atenta e racional da realidade, na qual, porém, a emoção, o sentimento, a escrita na primeira pessoa do singular comandam a estrutura aparentemente labiríntica das suas narrativas; paixão igualmente na selecção das histórias de vida narradas e no levantamento das personagens principais.

A metodologia de escrita, ainda que emotivamente espontânea, parece residir num conjunto concêntrico de abordagens, isto é, parte-se de um facto nuclear (morte de Jacinta de Sousa; fracasso de vida de Raul, seu filho), ampliado posterior e sucessivamente ao nível local e ao nível da vida do país (neste caso Portugal e Brasil, já que Jacinta viveu e casou no Brasil e Raul nasceu neste país). Mais do que tecido labirinticamente, Desamparo parece assim viver de sucessivos círculos concêntricos, entre os quais, até às derradeiras páginas, o capítulo seguinte concentra e supera os anteriores, arrastando e enlevando a mente do leitor.

Desamparo, título sintético mas muito sugestivo, reflecte o estado actual de Portugal, um país simultaneamente amado pela sensibilidade das personagens, sobretudo Jacinta, Raul e Clarisse, e odiado pela racionalidade analítica dos diversos narradores. Um país “desamparado” por uma elite político-administrativa tecnocrática, no qual mais contam as boas contas orçamentais do que a qualidade de vida dos seus habitantes.

Com efeito, os últimos capítulos de Desamparo fazem lembrar o final do último romance publicado em vida de Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires, no qual, através da personagem principal, Gonçalo Mendes Ramires, regressado de Moçambique, se tematiza a essência da identidade histórica e antropológica de Portugal, concluindo-se que Portugal é um país que simultânea e paradoxalmente “desampara” e redime os seus habitantes, tanto provocando neles um estado de abandono e abatimento quanto, em outros momentos, os estimula à e lhes concede a salvação.

Um dos melhores romances da já vasta obra de Inês Pedrosa.

Desamparo,

D. Quixote, 315 pp,, 15,90 euros

terça-feira, 31 de março de 2015

Sintra. Cultura em 2015-Expectativa moderada

JOÃO CACHADO
 


De facto, são muitas e especialmente desafiantes as questões cuja resolução depende da Câmara Municipal de Sintra. Espera-se que, durante este ano, se resolvam algumas delas e se inicie o desbloqueio de problemas que suscitaram desassossegos vários. Como as pessoas estão muito descrentes, a expectativa é quase nula ou apenas moderada. É compreensível. Acrescentemos que, consoante os casos, de tal modo a corda se foi esticando até ao limite que, agora, qualquer adiamento não deixará de ser interpretado como incapacidade ou incompetência.

Comecemos pelo Casino de Sintra, propondo uma visita comparada ao antes e agora. Sediado no Casino, paredes-meias com o Centro Cultural Olga Cadaval, dois edifícios traçados por Norte Júnior, um dos mais notáveis arquitectos portugueses do século vinte, o MU.SA faz parte de um dispositivo cultural com ímpares e invejáveis características no todo nacional.

A verdade é que, depois do entusiasmo inicial, coincidente com o período da inauguração, a solução ali vertida, indubitavelmente bem-intencionada – qual seja a de expor a Coleção Municipal de Arte Contemporânea, incluindo zonas para Arte Fotográfica, Livraria Municipal e Galeria de exposições temporárias de artistas nacionais e estrangeiros – não está a surtir os benéficos efeitos que, a partir de condições tão favoráveis, era suposto colher.

Moro a escassos metros, conheço porque acompanho diariamente a situação, não posso tapar o Sol com a peneira e, interessado que estou na resolução do problema, o mais que tenho a fazer é ventilar, partilhar frontalmente a preocupação. Com muito escassa procura actual por parte do público e, perante a ausência de estratégia de promoção, inevitáveis são as comparações com o que ali acontecia até 2013. Naturalmente, não me dedicaria a qualquer exercício de cotejo, com previsíveis e tão desanimadores resultados em relação à actualidade, se o meu propósito não fosse, tão só, o de propiciar matéria de reflexão.

MU.SA vs SMAC

Uma vez que só pode e deve comparar-se o que é comparável, terei de pedir-vos que me acompanhem num regresso a 1997, altura em que a presidência do executivo municipal era assegurada por Edite Estrela, que teve o rasgo estratégico de fazer do edifício do Casino o Museu de Arte Moderna e Contemporânea-Colecção Berardo (SMAC), negociando com o Comendador Joe Berardo um Protocolo que vigoraria até 2013.

Não farei quaisquer considerações acerca da qualidade do acervo em exposição permanente que, se bem lembrados estão, enquanto parte de uma das mais famosas colecções de Arte do mundo, incluía peças dos mais notáveis artistas. Referir-me-ei, isso sim, às exposições temporárias que, durante quase década e meia, constituíram propostas que muito honraram Sintra, tanto a nível nacional como internacional.

Com dados bastante acessíveis, através de catálogos de belíssima qualidade geral, que guardo religiosamente, lembrarei alguns dos mais significativos sucessos, referindo os patrocínios sem os quais é impossível trabalhar com uma certa dignidade:

17.06.2000 a 30.09.2000 - Um olhar sobre a Colecção Berardo – Rui Sanches

15.10.2000 a 31.12.2000 –Durante o Fim – Rui Chafes (articulação Palácio da Pena e CMS)

08.04.2001 a 30.06.2001 – O Surrealismo na Colecção Berardo

10.11.2001 a 30.03.2002 – Living – Site Specific Wall Paintings - Michal Craig Martin (com apoio da Robbialac e Tabaqueira)

19.04.2002 a 15.09.2002 –Pop Arte & Compª na Colecção Berardo

08.05.2004 a 07.11.2004 –Pomar – Autobiografia (com apoio Colecionadores privados e do Millenium BCP)

01.02.2004 a 27.03.2005 – A Fotografia na Colecção Berardo

05.05.2005 a 09.10.2005 –Geração Esquecida – Erich Kahn, Judeu Sobrevivente – Expressionista Alemão

26.11.2005 a 30.04.2006 -Fernando Lemos e o Surrealismo

17.03.2007 a 14.10.2007 –Art Deco

17.04.2009 a 14.07.2009 –Rafael Bordalo Pinheiro - Da Caricatura à Cerâmica (em articulação com a CMS e Museu Rafael Bordalo Pinheiro)

26.07.2009 a 27.09.2009 –Gao Xingjian – Depois do Dilúvio (articulação com CMS, apoio Würth e Museu Würth La Rioja)

17.04.2010 a 31.10.2010 –Leal da Câmara – Retrospectiva

No meu diário, tenho registadas conversas com a Dra. Maria Nobre Franco, Directora do referido Museu, durante as quais aquela minha querida amiga me mostrou estatísticas das entradas de visitantes, por exemplo, cifrando-se na ordem média da centena por dia, em eventos culturais da maior repercussão, inclusive internacional.

Caso do World Press Cartoon

E, ainda neste contexto das exposições temporárias e temáticas, como não recordar, desde 2005, o êxito verdadeiramente estrondoso do World Press Cartoon, sob a coordenação de António [António Moreira Antunes] o nosso maior cartoonista, ao longo de nove edições, no Centro Cultural Olga Cadaval e, a partir de 2008, também no Museu de arte Moderna? Como não entender que tal sucesso potenciou as mais-valias de outras exposições no passado e ainda o poderia continuar a fazer no futuro?

Lembro-me muito bem das razões invocadas pela Câmara Municipal de Sintra para deixar de apoiar a realização deste grande festival do cartoon– meio de comunicação e de expressão artística que ganhou tão trágico protagonismo na semana passada – mas, de todo em todo, não as consigo entender. Ou também eu deveria aceitar a ideia que para aí vai vingando segundo a qual o actual executivo assim teria decidido porque um tão grande êxito, transitado dos mandatos anteriores, constituiria marca demasiado impressiva?…

É que o alcance da iniciativa era imenso, verdadeiramente global, projectando Sintra em todas as latitudes, funcionando como extraordinária e requintada campanha publicitária que, assim encarada, resultava num investimento perfeitamente compatível, mesmo em tempos de austeridade. E já sabem para onde vai o World Press Cartoon? Pois, nem mais nem menos do que para Cascais!... Aqui bem ao lado, Cascais imediatamente entendeu o que, motu proprio, Sintra deixou escapar. Que ironia!

No mais alto nível

Estou absolutamente convicto de que ninguém deixará de partilhar comigo o sacrossanto princípio, comum a todos os domínios de actividade, nos termos do qual, uma vez atingido determinado patamar de qualidade superior, como aconteceu com o Sintra Museu de Arte Contemporânea, jamais se poderá retroceder para soluções que não estejam à altura do nível e sucesso alcançados, princípio particularmente crítico neste dificílimo e sofisticado terreno da disponibilização da Arte moderna e contemporânea.

Foi com base naquela ideia que, cessado o Protocolo entre a CMS e o Comendador Joe Berardo, tanto me bati pela solução de ali sediar a Colecção Bartolomeu Cid dos Santos que é o único acervo disponível com nível artístico idêntico ao das obras que as paredes do Casino tinham acolhido nos últimos anos.

Se assim tivesse acontecido, a CMS estaria capitalizando o investimento concretizado durante o precedente período em questão, durante o qual aquela casa passou a ser procurada, expressamente, por um público nacional e internacional conhecedor, interessado, que se tinha habituado a demandar este Museu como elemento da rede nacional e mundial da Arte Moderna. E sabem que, ainda hoje mesmo, continua a aparecer gente à procura do que ali existiu?

Já que acima aludi, permitam um parêntesis acerca da Colecção Bartolomeu Cid dos Santos que, na realidade, já é uma extraordinária mais-valia para Sintra. Em 2013, Maria Fernanda dos Santos, viúva do gravador da maior reputação mundial, cedeu o espólio à Câmara Municipal de Sintra mediante Protocolo que, há largos meses, está em vias de reformulação no sentido de garantir a máxima protecção dos interesses de ambas partes. Os juristas já se terão pronunciado pelo que estaremos em vias de conhecer decisões.

Estou certo de que, dentre as várias opções em perspectiva, se encontrará o local mais adequado para acolher a obra e o centro de investigação que o Barto, meu querido e saudoso amigo, deixa a Sintra. A quem ainda possa desconhecer, cumpre esclarecer que o gabarito artístico de Bartolomeu Cid dos Santos é dos de maior abrangência, entre os melhores do mundo, por exemplo, como o de Paula Rego, de quem, aliás, foi amigo íntimo cá e em Londres.

Se, por desígnio do município vizinho, Paula Rego já está em Cascais – sempre a atenta e culta Cascais, constantemente a desafiar-nos com tão boas iniciativas no passado recente e na actualidade – então Barto, pela relação que manteve com Sintra, tem muitas mais e acrescidas razões para ficar entre nós, de acordo com o que estabelecerá o referido Protocolo. Assim saiba Sintra estar à altura de privilégio tão especial.

Findo o assunto que coube naquele parêntesis, volto à matéria com a qual está tão inequivocamente relacionado. Inconformado com o statu quo, recuso-me a aceitar a inevitabilidade daquele ambiente mais ou menos fúnebre do MU.SA. Há soluções de animação que urge operacionalizar. Não é fácil, bem sei, recuperar uma frequência média de cem visitantes por dia. Contudo, em 2015, o que fazer para atrair os visitantes? Que estratégia desenhar? Que pequenas exposições promover, v.g., Historia do Casino, História do Vinho de Colares, Historia do Foral de Sintra, História do Desporto em Sintra, Figuras importantes da História Sintrense etc?

Onde estão as pessoas, as instituições, entidades nacionais, ibéricas, europeias, às quais recorrer, através de convénios, parcerias? E os concursos, oficinas e outras iniciativas, bem publicitadas, atempadamente anunciadas, sob a coordenação e orientação de animadores bem conhecidos, param públicos infantis, juvenis e seniores? Há falta de recursos? Quais? Humanos, materiais, ambos? É o acervo que carece de uma outra abordagem, de diferentes diálogos e conotações temáticas interrelacionais, ou de uma outra estratégia com diferentes grelhas e linguagens expositivas? E que articulação ou articulações preferenciais com outros suportes culturais, Literatura, Música, etc?

(…)

O enquadramento da edição do Festival deste ano não pode deixar de radicar na cerimónia que teve lugar no Casino de Sintra, numa das salas do MU.SA, em 6 de Junho de 2014, ou seja aquando da apresentação da sua 49ª edição. Naquela ocasião, o Senhor Presidente da Câmara, Dr. Basílio Horta, obrigado à referência do redondo e jubilar quinquagésimo evento, anunciou-o em termos de tal modo entusiástico que a todos nos surpreenderia.

Porque importa recordar, passo a citar os dois parágrafos do artigo em que me referi à circunstância:

“(…) Finalmente, uma promessa que tem foros de compromisso público do maior realce. Com a satisfação que se lhe adivinha por poder concretizar tão auspicioso anúncio, o senhor Presidente da Câmara, informou e, perante a insistência de Adriano Jordão, confirmou que, em 2015, por ocasião da sua quinquagésima edição, o Festival de Sintra vai ter meios especiais para poder apresentar uma programação digna de Salzburg!... Nem mais nem menos!

Enfim, com os «descontos» que se me impõem perante a tão generosa hipérbole do Dr. Basílio Horta, há tantos anos, que tão bem conheço a esplêndida oferta de Salzburg, adivinho, nas suas palavras, isso sim, um empenho digno da efeméride e da memória de quem foi a grande impulsionadora do mais sofisticado produto cultural de Sintra. (…)” (1)

Abro um pequeno parêntesis para melhor situar aquela referência a Salzburg, já que ainda teve o efeito de me lembrar os números absolutamente astronómicos que envolvem o festival austríaco, cifras que o remetem para uma realidade outra, que não só parece, como se enquadra mesmo noutra galáxia cultural

E, na realidade, porque assim acontece é que convém perceber o alcance da insinuação implícita nas palavras do Dr. Basílio Horta. Reparem que “(…) o último estudo datado de 2011, elaborado pela Universidade de Salzburg, entre outras conclusões, demonstra que o efeito deste Festival de Verão no domínio das receitas fiscais equivale ao triplo do montante do investimento das entidades públicas! Finalmente, que o impacto geral do Festival no volume de negócios e na produtividade se cifra em cerca de 276 milhões de euros! E, não esqueçam, em apenas 40 dias de Festival (…)”. (2)

Para que se tenha uma ideia da extraordinária escala das verbas em presença, recordo o facto espantoso de o orçamento geral da Câmara Municipal de Sintra ser inferior ao deste Festival de Verão! Aliás, sendo o mais famoso, é apenas um dos doze festivais que Salzburg promove ao longo do ano…

Fechado o parêntesis, retomo já o tema que hoje me traz, para assinalar que, cerca de um mês depois, escrevia eu:

“(…) De acordo com o que foi oportunamente divulgado, já sabemos que, no próximo ano, o Festival distinguirá a figura tutelar da Senhora Marquesa de Cadaval com especiais atitudes programáticas. Será de prever, por exemplo, que se faça um particular esforço em trazer até Sintra grandes figuras da actual pianística mundial, algumas das quais galácticas que, na juventude e início das respectivas carreiras, beneficiaram daquele mecenato.

Julgo que, igualmente, será altura de convocar pianistas portugueses intimamente relacionados não só com a génese mas também subsequente história do Festival, programando recitais e concertos, juntando-os em mesas redondas, conferências e atitudes análogas. Por outro lado, obedecendo a linhas de intervenção que eram caras à Senhora Marquesa, propiciar nos programas a integração de bandas de música, pensar na motivação do público jovem e na sua conquista para iniciativas informais, etc.

Como aconteceu há dez anos, veria com muito interesse a possibilidade de promover uma grande Conferência de Abertura, a proferir por uma conhecida figura da Cultura Portuguesa, tratando um assunto relacionado com o mundo da Música gerador da maior adesão de público indiferenciado. Natural será que, de maior fôlego ou como opúsculos, surjam obras sobre a História do Festival de Sintra. Por outro lado, assim esperamos, deverão ter lugar uma boa exposição documental, um ciclo de conferências, a disponibilização de materiais afins das vertentes áudio e audiovisual para consulta e venda, um ciclo de cinema, etc. (…)” (3)
Ora bem, tanto quanto me é possível afirmar e confirmar, porque participei em duas das reuniões exploratórias de preparação do Festival 2015, o ambiente em que decorreram não pôde ser mais auspicioso. Tudo leva a crer que, com a competência que se lhe reconhece, o Prof. Adriano Jordão, Director Artístico do festival de Sintra, apresentará uma proposta programática cuja matriz contemple as ideias constantes do texto citado imediatamente supra.

Atraso evitável

Dentre algumas das preocupações que sempre subsistirão em iniciativas que tais, a mais importante fonte de apreensão relaciona-se com o atraso da informação que já deveria circular há alguns meses. Tão pouco tempo faltando para o seu início, é com dificuldade que se aceita o desconhecimento sequer de uma linha do programa, calendário, artistas envolvidos, lugar de cada evento musical, das conferências, das actividades de animação paralela, etc.

Com o objectivo de tudo preparar atempadamente e com o grau de profissionalismo que é suposto estar dotada uma iniciativa congénere, considero que o Festival de Sintra mereceria ter afecta uma pequena equipa, não mais de dois elementos, em exclusividade de funções ao longo do ano, porque o trabalho a desenvolver assim o determina.

Há muito tempo que me bato pela sua concretização e, devo confessar, tive esperança de que, totalmente afecta aos serviços culturais da Câmara Municipal de Sintra, agora a organização pudesse ter dado esse salto. Infelizmente, ainda não foi possível. Permito-me insistir na sugestão porque, convencido que estou da sua pertinência, me parece que continuaremos a verificar os atrasos do costume se, de uma vez por todas, ela não se concretizar.

A verdade é que os nefastos efeitos decorrentes de tão lamentável incumprimento de prazos, tornam impraticável – com a qualidade que se impõe – a concretização de todas as atitudes e actividades de promoção, divulgação e publicitação de um Festival de música erudita.

Acresce que tais atitudes e actividades são tão específicas que pouco ou nada têm a ver com outras iniciativas, aparentemente congéneres, que, promovidas pelos mesmos serviços culturais da Câmara, não creditam experiência para este universo tão particular. Hoje em dia, é cada vez mais exigente a promoção de um festival com as características deste. Por isso, a aposta na equipa acima aludida sempre se revelará acertada medida de gestão.

Não esqueçamos que o Festival de Sintra é o mais antigo dos que se realizam em Portugal e o que se reclama dos mais ilustres pergaminhos, tanto ao nível dos artistas que nele participaram – sempre os melhores do mundo, ao longo de décadas – como dos programas interpretados e dos locais de privilégio absoluto onde os eventos se concretizam.

Também é pelo peso de tão honrosa herança que, em 2015, uma sua quinquagésima edição, sob os auspícios da tutelar figura da Senhora Marquesa de Cadaval, mesmo com os atrasos aludidos, tem de corresponder ao alto nível em que a fasquia foi colocada nos seus melhores anos. Se assim não acontecesse, estaria em causa o propósito de disponibilizar recursos dignos de Salzburg, que o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sintra anunciou tão generosamente.

 (1) JS, Sob a égide da Senhora Marquesa de Cadaval, edição de 13.06.2014;
(2) JS, Festival de Salzburg, outro planeta, edição de 20.06.2014

(3) JS, Festival de Sintra, quarenta e nove, cinquenta! Edição de 18.07.2014

quinta-feira, 26 de março de 2015

Palavra de Rei


ANTÓNIO LUÍS LOPES
Diálogo imaginário entre D.Fernando II e um nobre:

- Estou a pensar fazer um palácio soberbo no cimo da Serra de Sintra... Adquiri o velho convento ali existente, a cerca que o envolve, assim como o Castelo dos Mouros e as quintas e matas em redor...

- Vossa Majestade não sabe em que apuros se vai envolver...

- Porquê? O ar é puro, a vista magnífica, o arvoredo soberbo... Aquela Serra é mágica e o palácio que pretendo erguer será um cântico em pedra, uma oração à eternidade, um vislumbre do Paraíso...

- Vossa Majestade é um visionário mas dou-lhe por garantido que irá encontrar mais escolhos do que mar chão, até que tal obra se conclua. Até parece que já estou a ver: o Grupo de Amigos da Serra irá colocar em causa o transporte de materiais e o gigantismo da obra, as árvores a derrubar, a vozearia dos operários, o espezinhar dos caminhos, quiçá o calcar de vestígios arqueológicos ainda por estudar e recuperar... A Associação de Benfeitores do Monte da Lua irá certamente questionar Vossa Majestade pela alteração do perfil da paisagem, pela nova edificação que alterará a vista do cume de tão soberba serrania e que impossibilitará a plena visão das nuvens em determinadas épocas do ano... A Liga de Proteção das Aves fará sessões invetivando contra a destruição do habitat natural da carriça e do chapim real... A Confraria dos Devotos de Nossa Senhora da Pena irá questionar a destruição da capelinha, ainda que a mesma esteja em ruínas já bem antes de 1755, mas Vossa Majestade sabe bem que a polémica, em Sintra, anda sempre de mão dada com o início de qualquer obra... O povo interrogar-se-á pelos gastos da Coroa e em tudo verá grossa despesa sem necessidade, com tanto palácio que já por aí há... Como vê, Vossa Majestade, vai meter-se numa carga de trabalhos...
- Entendo, velho e fiel amigo, são sábias e corretas as tuas palavras...

 Mas, no final, será tão magnífica a obra que suplantará qualquer dúvida ou objeção. Palavra de Rei!...

terça-feira, 3 de março de 2015

Fala-vos um “radical”…

ANTÓNIO LUÍS LOPES
Há coisas em que sou radical. Sou radical na defesa da democracia e da liberdade. Sou radical na defesa de quem trabalha, dos seus salários, dos seus direitos. Sou radical numa Justiça igual para todos, independentemente do estatuto, classe social, cargo ou fortuna pessoal. Sou radical na defesa de Educação e Saúde públicas para todos, porque um país com cidadãos mais cultos e devidamente apoiados na doença é um país certamente mais desenvolvido e justo.
Sou radical na lealdade, na lisura, na honestidade, na equidade. Sou radical na coerência, na verdade, na frontalidade. Sou radical na memória daqueles que nos antecederam e deram o melhor de si para o bem comum, muitas vez com o custo da própria vida - devem ser lembrados e servir de exemplo. Sou radical no combate ao fascismo, ao nazismo, a todos os totalitarismos ideológicos ou religiosos que degradam a condição humana e renegam o espírito de concórdia e de paz. Sou radical contra a estupidez erigida em sabedoria.
Sou radical na defesa das tradições que são como as raízes profundas das árvores e que, quando cortadas, fazem a árvore morrer. Sou radical contra as ervas daninhas que, mesmo aparentando belas cores, impedem as plantas úteis de crescer. Sou radical contra a prepotência, contra a intolerância, contra o medo enfiado na alma como forma de limitar a natural divergência entre os seres humanos. Sou radical contra a vulgaridade, contra a mentira, contra as falsa aparências.
Sou radical na defesa do trabalho coletivo, no elogio do contributo individual e na repartição justa dos elogios e dos louros por todos. Sou radical na defesa da Pátria. Sou radical na defesa das minhas convicções e não as altero em função de interesses ou de pressões se continuar a achar que são justas e corretas. Sou radical no elogio ao bom trabalho alheio. Sou radical a cumprimentar seja quem for com a mesma atenção e respeito. Sou radical no amor à minha família e na lealdade aos meus amigos.
Dizem alguns que este radicalismo já não se usa na Política atual - e, talvez sem se darem conta, estão a apontar para a razão de ser do definhamento das democracias modernas.

segunda-feira, 2 de março de 2015

André Gonçalves: do almoxarifado à provedoria da Misericórdia de Sintra

CARLOS MANIQUE

André Gonçalves foi uma das personalidades mais prestigiadas da vila de Sintra durante a primeira metade do século XVI, constituindo, aliás, um caso notável de ascensão social e económica. Anselmo Braamcamp Freire, o principal biógrafo de André Gonçalves, traçou uma visão precisa da sua atividade, particularmente enquanto almoxarife da vila de Sintra. Contribuições posteriores do conde de Sabugosa, sobretudo pela publicação do conhecido e importante “Livro Truncado da Receita e Despesa de André Gonçalves” (datado de 1508), e de Silva Marques, que identificou e deu a conhecer “novas” folhas do citado códice, além de divulgar outros dados extratados no Cartório da Igreja de S. Martinho de Sintra, enriqueceram a biografia de tal figura. É com base nas informações coligidas pelos citados autores, acrescentando um facto significativo, que pretendo valorizar o percurso de um homem que conseguiu a nobilitação da sua família, recebendo, ademais, várias mercês dos reis D. Manuel I e D. João III. 
Sendo André Gonçalves escudeiro da Casa de D. Manuel, foi nomeado pelo monarca, em 21 de novembro de 1501, almoxarife de Sintra e paços da vila, assim como juiz das sisas de Colares e das coutadas do termo; nomeação confirmada no reinado de D. João III, precisamente em 23 de outubro de 1528. Decorria o ano de 1507 quando, pela primeira vez, são pedidas contas a André Gonçalves da despesa feita nos paços de Sintra; despesa correspondente ao seu exercício durante os anos de 1501 a 1505, do qual mostrou dar boa conta, recebendo, por isso, carta de quitação do soberano.   
Do ano de 1508 temos uma relação dos gastos efetuados com uma importante campanha de obras que decorria no paço real, encontrando-se tudo discriminado no citado “Livro Truncado da Receita e Despesa de André Gonçalves”. 
Da documentação conhecida, referenciada ou publicada por Silva Marques, sabemos que ainda por três vezes foram pedidas contas ao almoxarife André Gonçalves, cobrindo, grosso modo, o período compreendido entre 1521 e 1533. 
Certamente pelo exemplar zelo com que desempenhou as funções de almoxarife, André Gonçalves foi sendo agraciado com doações e mercês honoríficas. Destaco, no reinado de D. Manuel, as doações de metade do valor de um casalinho chamado do Maridelo, sito em Gouveia, corria o ano de 1509, bem como da herdade das Laranjeiras, em 1515 (esta última confirmada no reinado de D. João III). 
De uma condição de escudeiro no ano de 1501, André Gonçalves ascende a cavaleiro da casa de El-Rei, intitulando-se como tal desde o ano de 1531. Quatro anos mais tarde exerce (cumulativamente) o ofício de escrivão da Confraria dos Fiéis de Deus, ereta na Igreja de S. Martinho. No ano de 1544 mantinha-se no cargo de almoxarife de Sintra, certamente em proveta idade, detendo, então, o título de cavaleiro da Ordem de Cristo.   
O singular caminho traçado por André Gonçalves até à nobilitação vem a permitir-lhe, na fase final da vida, o desempenho de funções a que só a nobreza tinha acesso. É justamente a essa luz que deve ser compreendida a eleição de André Gonçalves para primeiro provedor da Misericórdia de Sintra (fundada em meados de 1545). Desse facto tive conhecimento através de um documento de arquivo, do qual se dá transcrição: 
Aos dezanove dias do mês de março da Era de mil quinhentos e quarenta e seis anos, nas pousadas de André Gonçalves, provedor da Misericórdia desta vila de Sintra, estando aí Jerónimo Rodrigues de Paiva e Diogo Ribeiro, escrivão da dita confraria, eleitos pelos Irmãos [para] que tomassem conta a Miguel Ferreira, que foi provedor do Hospital e Gafaria da dita vila, os quais lhe tomaram conta deste livro atrás do ano de quarenta e três se acaba no ano de quarenta e quatro.[1]
Dada a natureza do livro e o aditamento nele feito em 1546, não estranha que a identidade do primeiro provedor tivesse passado despercebida aos historiadores que prospetaram o cartório da Misericórdia. Por outro lado, concorreu também para o citado desconhecimento o facto de o primeiro livro de acórdãos da confraria se iniciar a 4 de julho de 1546, data em que estava já em exercício um novo provedor (Diogo Ribeiro) e de nele serem omissas assinaturas de André Gonçalves. Contudo, o seu nome, na qualidade de provedor precedente, é indicado a fl. 3 do mesmo livro.       
A referida eleição de André Gonçalves explica-se pelo prestígio que granjeou, pela nobilitação, bem como pelas suas virtudes pessoais, nomeadamente aquelas que, em 1501, na carta que o nomeou almoxarife de Sintra, eram assinaladas por D. Manuel: bondade e discrição. 
Uma análise aos compromissos das Misericórdias permite reconhecer que o perfil exigido para o exercício do cargo de provedor não se coadunava, pelo próprio fundamento dessas instituições, com a simples figura de um plutocrata. Na verdade, o provedor seria obrigatoriamente de condição nobre, virtuoso, de boa fama e, ao mesmo tempo, humilde. 
André Gonçalves cumpriu integralmente o seu mandato como provedor, ou seja, até julho de 1546, data em que novos corpos sociais foram eleitos. Em agosto do dito ano continuava a exercer o cargo de almoxarife do rei na vila de Sintra, momento em que lavrou o seu testamento. Desconheço posteriores desenvolvimentos até ao seu falecimento, o qual tinha já sucedido em 6 de dezembro de 1546.    


[1] Arquivo Histórico da Misericórdia de Sintra, Livro de Receita e Despesa do Hospital e Gafaria de Sintra, n.º 11, 1543-1544.