terça-feira, 5 de maio de 2015

A Questão do Autor: de Barthes a Foucault

HUGO LUZIO
 
L'unité d'un texte n'est pas dans son origine mais dans sa destination. La naissance du lecteur doit se payer de la mort de l'Auteur.
Roland Barthes, La Mort de l’Auteur






 


Introdução

Pretende o presente artigo o desenvolvimento de uma investigação bipartida. Procede-se, primeiramente, à exposição e análise críticas das principais temáticas dominantemente associadas à questão da morte ou desaparecimento do autor. Em seguida, discute-se, de forma particularizada, a chamada função-autor, a partir da obra O Que é um Autor?[1], de Michel Foucault.

Quando se verifica uma tão densa produção literária como aquela existente a respeito dos temas que exploramos, poderá ser tendência natural discorrer sobre uma profusão de autores, referências e estudos visivelmente secundários ou suplementares. As questões aqui discutidas foram metodologicamente seletadas de modo a contrariar esta tendência, garantindo a justa equilibração entre o tratamento das perspetivas tradicionais da crítica literária incidente sobre a questão do autor e o progresso analítico subsequente, do qual a proposta foucauldiana visada é parte integrante.

1. A Questão do Autor: de Barthes a Foucault

1.1. Génese – La Mort de L’Auteur, de Roland Barthes

O ensaio crítico, A Morte do Autor[2], de Roland Barthes, disputa diretamente a perspetiva crítico-literário tradicional, muitíssimo manifesta no seu tempo, segundo a qual o significado último da produção literária de determinado autor é diretamente correlacionável com aspetos particulares da sua identidade pessoal. As caraterísticas individuadas do autor – o seu contexto histórico, atributos biográficos, perspetivas políticas, religiosas, etc – são, assim, tomadas como aspetos fortemente implicativos de determinada explicação ou interpretação definitivas do significado da obra produzida.

Afirma Barthes que “a imagem da literatura [que encontramos] na cultura contemporânea está tiranicamente centrada na figura do autor, na sua pessoa, história, gostos e paixões”[3]. Se o entendimento interpretativo da produção artística de, exemplifiquemos, William Kurelek (pintor), não pode ser vinculativamente associado à conjunção de determinados aspetos individuais de Kurelek (pessoa)[4] – e era célebre a sua esquizofrenia –, i.e., se não existe transparência ou permeabilidade totais entre as singularidades do homem e o que é impresso na sua obra, então, algum tipo de inversão interpretativa deve ocorrer: ao autor não pode caber um despótico papel de significação da sua produção; o autor não pode ser autocentrado.

Em O Que é um Autor?, Foucault questiona: “(...) em que momento se começou a contar a vida dos autores de preferência à dos heróis, como é que se instaurou essa categoria fundamental da crítica que é «o-homem-e-a-obra»?” (p.34). Sob a influência de uma estética romântica, uma hermenêutica subjetivista e um biografismo literário dominantes a partir dos séculos XVIII e XIX, a consagração e naturalização da figura do autor desenrolou-se como processo natural de uma estruturação literária em renovada adaptação. Em consonância com uma “lógica capitalista de coloração autoritária e proprietária”[5], estes procedimentos históricos originaram uma sobrelevação firme da figura do criador sobre a sua criação.

A crítica barthesiana empreendida em A Morte do Autor não procura negar a existência trivial de uma figura autoral ou criadora. Isto seria propriamente impensável – é quase indisputável ou incontroverso que toda a produção artística tem produtor, toda a obra tem o seu obreiro –. Antes, é a lógica subversiva de remissão do significado, explicação e interpretação de determinada obra à figura e circunstâncias próprias do seu produtor, que se procura adversar. As interpretações centradas na figura do autor como significante máximo da sua obra devem ser, então, suplantadas pela análise do sistema textual uno com o qual a sua figura se consubstancia; a partir do qual, em verdade, se origina.

1.2. Estruturalismo, Pós-Estruturalismo e Desconstrução

A análise avançada por Barthes evidencia algumas das tendências críticas preponderantes da chamada filosofia continental da década de 1960. Este ensaio viria a influenciar sobremodo as diretrizes fundamentais das correntes de análise desenvolvidas na teoria da literatura (e não só) de 1970 em diante. O pós-estruturalismo e o desconstrutivismo são exemplos significativos destas renovadas correntes críticas. É relevante explorarmos brevemente cada uma delas, uma vez que muitos aspetos da análise foucauldiana que tratamos são resultado explícito da sua influência.

Simon Blackburn define estruturalismo como “a crença de que os fenómenos da vida humana não são inteligíveis exceto através das suas inter-relações”[6].  Um dos eixos basilares do estruturalismo corresponde, no tocante à linguística, à distinção extensiva entre linguagem em sentido abstrato e linguagem funcional, aquela que diariamente usamos. O símbolo linguístico surge composicionalmente de um significante e de um significado. Se diferentes linguagens funcionais se referem aos mesmos objetos ou conceitos, não parece haver, segundo os estruturalistas, uma razão substancial para que um signo específico seja incondicionalmente associado a determinado significante. Logo, os signos ganham o seu significado partindo das suas relações e contrastes com outros signos.[7]

O pós-estruturalismo pode ser entendido como uma superação do estruturalismo[8].  A sua tarefa primária é, em conjunção com o desconstrutivismo, a de desestruturar a unidade interna dos textos, identificando os seus padrões linguísticos implícitos, por forma a atingir, ulteriormente, uma multiplicidade intérmina de significados. Derrida, expoente máximo do desconstrutivismo, questiona, com efeito, a existência objetiva de significado: “(...) para ele, o significante é gerado a partir da cadeia discursiva [e] a significação nunca está presente num único signo, gerando-se, antes, na cadeia de significantes”[9]. Foucault é, também, uma das figuras máximas do pós-estruturalismo. O programa de análise da «ontologia da atualidade» que empreende visa, fundamentalmente, a descomplexificação do sujeito moderno e a clarificação plena das condições de funcionamento das práticas discursivas.

2. A Proposta Foucauldiana

2.1. A problemática da subjetividade

2.1.1. A Escrita e a Morte

O início da obra O que é um Autor? é marcado pela identificação dos paradigmas da «escrita contemporânea», dos fundamentos contextualmente associados à crítica das relações entre a estrutura textual, o significado e a sua remissão à figura central do autor. Como afirmado, a libertação da expressão escrita – a referência da escrita a si própria como jogo ordenado de signos num espaço onde o sujeito-de-escrita (as marcas do autor-pessoa mas não as do autor como figura ou função) constantemente desaparece – pode ser intimamente relacionada com a evolução simbiótica entre a escrita e a morte, em que, ultimamente, a escrita ou fala representam o contínuo apagamento do sujeito-autor.

Para ilustrar esta ideia, Foucault faz uso de exemplos concretos da história da literatura. O discurso da narrativa árabe Mil e uma Noites, tem, como afirma, “[a] motivação, tema [e] pretexto [de] adiar a morte, [contando-se] histórias até de madrugada para afastar a morte, para evitar o momento em que o narrador se cala”. Também a narrativa grega “[se] destinava a perpetuar a imortalidade do herói, e se [este] aceitava morrer jovem era para [passar] à imortalidade”. De modo distinto, a obra que tinha antes o dever de conferir a imortalidade passou a ter, agora, o direito de matar, de ser a assassina do seu autor. A escrita está, como afirmado, presentemente ligada ao “sacrifício da própria vida”, ao apagamento voluntário que “não tem de ser representado nos livros [porque] já se cumpre na própria existência do escritor” (O Que é um Autor?, pp.36-37).

2.1.2.Categoria, Estatuto e Gesto Biográfico

O problema da subjetividade autoral – o que entendemos por autor e como se manifesta esta entidade no texto que produz? – reporta-se à dificuldade de compreensão do processo remissivo na relação texto-autor, i.e., ao complexo esforço de identificação do autor-indivíduo como exterioridade para a qual o texto aponta, tácita ou expressamente. De que modo se relacionam, portanto, autor e obra, exterior e interioridade literárias?

O autor de determinado texto possui um nome próprio, um referente fixo do indivíduo nomeado. No entanto, são inúmeras as partículas referenciais potencialmente identificativas desta exterioridade. Diferentes designações identificativas explícitas – o mesmo autor, Foucault, pode ser referenciado como «o autor de O que é um Autor?», «um dos mais importantes filósofos pós-estruturalistas», etc –, partículas identitárias inerentes ao texto, coisas como referentes e pronomes pessoais – a afirmação discursiva «eu», «meu» -, entre outros, constituem conjuntos de marcas de subjetividade e autoria que podem apontar, ultimamente, para uma figura discursiva externa à textualidade.

A ligação do nome próprio com o indivíduo nomeado e a ligação do nome do autor com o que é parte concreta da sua autoria, não apresentam, no entanto, funcionamentos isomórficos. A forma como lidamos com uma e outra conexões é distinta. Por exemplo, se me aperceber que Fernando Pessoa não viveu em Lisboa, ou não usava chapéus, nada de significativo se segue em relação à forma como me refiro a Fernando Pessoa ele próprio, a Pessoa-pessoa, se assim quisermos. Ao invés, se descubro que não foi Fernando Pessoa que escreveu O Livro do Desassossego, ou que a poesia de Campos não é da sua autoria, o estatuto e funcionamento do referente Fernando Pessoa altera-se substancialmente. A forma como nos referimos a indivíduos parece, assim, ser assimétrica relativamente à forma como nos referimos a indivíduos que são, simultaneamente, autores. 

O nome do autor não é, portanto, um nome próprio como os outros: corresponde, antes, ao resultado qualificativo do conjunto do seu trabalho, assegurando, simultaneamente, a ruptura individuante de um tipo de discursos por ele autorizados. Não é o caso que o nome do autor se constitua como mero elemento discursivo. Ele assegura, antes, relativamente ao discurso, uma funcionalidade classificativa, delimitando e relacionando associativamente a produção textual. Daqui não se segue, naturalmente, que as circunstâncias particulares (pessoais, individuais) do autor sejam transitáveis para o interior do discurso ele próprio, moldando-o intransigentemente. Esta modelação discursiva não tem de ser explicada em função das singularidades autorais.

2.1.3. O que é uma obra?

A que corresponde, constitutiva e estruturalmente, uma obra? Qual a marca que distancia um discurso individualmente proferido de uma unidade discursiva, de um tipo de discurso singular cuja aglomeração constitui o que nomeamos por obra? As noções de autor e escritor podem ser congruentemente dissociadas? Será que uma frase isolada, maior ou menormente significante, que Cesariny escreveu num guardanapo de papel pode ser integrada como parte inclusa da sua obra poética?[10] O discurso anónimo, desautorizado, não é modalizável, i.e., não forma qualquer tipo de instituição apta à diferenciação classificativa, é apenas texto – “Um texto anónimo que se lê numa parede da rua terá um redator, mas não um autor” (Idem, p.46).

Foucault declara: “(...) não basta afirmar «deixemos o escritor, deixemos o autor e estudemos a obra em si mesma»” (Idem, p.39). A menos que a escrita seja autonomizada, ou seja, tornada parte total e completamente independente da figura autoral, a figura do autor não pode, de maneira nenhuma, deixar de existir. A autonomização da escrita “[permitiria] não apenas que se dispensasse a referência ao autor, mas também que se desse estatuto à sua nova ausência” (Idem, p.39); que figurássemos, para este vazio, uma autêntica estética da ausência. O facto é que as aproximações críticas à literatura evidenciam quase uniformemente a necessidade in extremis de remissão do texto para uma figura de autoria. A intolerância manifesta ao anonimato artístico é, também, evidência clara da impossibilidade de aceitarmos seriamente uma autonomização deste tipo.

2.2. A função-autor

2.2.1.  Sujeito e Representação – o texto como apropriação

A função-autor, epicentro da proposta foucauldiana que exploramos, pode ser entendida como uma cisão entre a procura do autor no escritor real e no locutor fictício. Mas quem procura, verdadeiramente, o autor? Quem lida com a linguagem e a sua predominante sugestividade ou remissão inerentes? Naturalmente, o leitor. É ao leitor que cabe apreender a figura autoral como parte funcional de um sistema textual independente que, não obstante ser gerado a partir de um discurso autorizado, não é centrado na figura que o permite, fabricando-a, ao invés. Ocorre, assim, o que podemos chamar de inversão geracional – o autor possibilita o discurso e é este que, autonomizando-se, possibilita a figuração do autor como tal.

Os signos discursivos não funcionam da mesma maneira nos discursos providos da função-autor e nos que dela são desprovidos. Questiona Foucault: “Como é que se carateriza, na nossa cultura, um discurso portador da função-autor?” (Idem, p.46). Este tipo de discurso pode ser identificado a partir de quatro caraterísticas centrais: (1) trata-se de um objeto de apropriação (o discurso, que era originalmente um ato, é agora um bem); (2) a função não se exerce universalmente, nem sempre o anonimato autoral levantou dificuldades[11]; (3) a função não se formula com a atribuição de um discurso a um indivíduo, mas através de uma operação complexa de construção do que chamamos autor; (4) o texto traz consigo um certo conjunto de signos – e.g. gramáticos – que reenviam para o autor.

A função-autor não é, portanto, em Foucault, uma confirmação da morte da figura do autor, mas uma forma de recuperação desta. A figura do autor não pode morrer na medida em que é necessária à formulação dos diversos discursos. Se os textos de autor não podem ser lidos exclusivamente a partir dos atributos e caraterísticas pessoais do autor-pessoa, a figura do autor, a função-autor irradiada do discurso por ele formulado – um discurso não é nunca anónimo – é o que oferece sentido ao texto, possibilitando a sua compreensão. É neste sentido que a função-autor não se formula com a atribuição de um discurso a um indivíduo, a uma pessoa exterior cujos aspetos particulares oferecem uma explicação concreta do significado do texto, mas através de uma operação de construção que parte do autor como função do discurso.

A operação complexa de construção do autor parte de um discurso formulado ele próprio por uma figura autoral. É a função-autor, a de formulação de um tipo de discursivo, que permite que entendamos o texto, a partir das caraterísticas próprias do discurso erguido. Assim, podemos considerar que a morte do autor é uma metáfora que denota uma renovada aproximação à figura autoral, considerando em primeiro lugar, não as caraterísticas particulares do autor-pessoa mas as marcas próprias do autor como figura fundadora do discurso e que a partir dele se constrói. Como afirmado por Couturier, a proposta central de Foucault é a de “apresentar uma teoria intersubjetiva de entendimento do texto autorizado, demonstrando que ambos leitor e autor são «capturados» dentro do texto, quaisquer que sejam as suas estratégias de fuga, e que interagem um e outro de maneira não simétrica e frequentemente conflituosa”[12]. O autor é “aquele que dá à inquietante linguagem da ficção as suas unidades, os seus nós de coerência [e] inserção no real” (A Ordem do Discurso, p.23) e é esta a sua função particular. É nesta medida que o autor se torna um fundador de discursividade. A função-autor não se define, assim, pela atribuição espontânea de um discurso ao seu produtor, mas através de uma série de operações específicas e complexas que operam reciprocamente sobre estas duas categorias. Não reenvia simplesmente para um indivíduo real mas dá lugar a vários «eus» em simultâneo, a várias posições-sujeitos que classes diferentes de indivíduos podem ocupar. O autor é, assim, transformado numa função do discurso que produz. É essa função, a de fundar novos tipos discursivos, que trataremos em seguida.

2.2.2. Fundações de discursividade: uma inversão

Evidencia Foucault que “ao longo do século XIX europeu, apareceram tipos de autor bastante singulares mas inconfundíveis com os «grandes» autores literários” (O Que é um Autor?, p. 58). Estes são não apenas os autores das suas próprias obras, mas os fundadores de renovadas possibilidades discursivas, renovadas possibilidades de formulação de outros textos, de novas vozes. O facto de que Freud fundou a psicanálise não é implicativo da ocorrência do conceito de libido em Abraham ou Mélanie Klein. Significa, antes, que “Freud tornou possível um certo número de diferenças relativamente aos seus textos, aos seus conceitos, às suas hipóteses.” (Idem, p. 60). Estes autores são, portanto, fundadores de discursividade[13]. A subordinação do sistema textual ao poder delineador do autor como deus-significante do discurso sofre, assim, uma profunda inversão: dando lugar a novas e variadas tipologias discursivas o autor desaparece, fundindo-se na estrutura linguística que formaliza, no tipo de discurso que autoriza.[14] O autor transforma-se, assim, em discurso, porque é ele mesmo, o discurso, a linguagem autonomizada que estrutura o autor.

É, com efeito, para a inexorável morte do autor que as novas formas de unificação e apropriação dos discursos, agora tomados como informações instantaneamente compartilhadas em rede, nos encaminham? Poderá a formulação de Beckett «Que importa quem fala, disse alguém, que importa quem fala.» vir a representar apropriadamente um anonimato crescente no qual todos os discursos, qualquer que seja o seu estatuto e forma, se pautam pela mudez das vozes discursivas, pela ausência? Quanto tempo resta para que a nossa voz não mais seja do que um murmúrio sumido no frenesim da aldeia global?


Bibliografia

1ª Parte – Antecedentes: de Barthes a Foucault

AYLESWORTH, Gary, «Postmodernism» em The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Ed. Edward N. Zalta, Summer Edition, 2013. Disponível em: http://plato.stanford.edu/archives/sum2013/entries/postmodernism/

 Acesso em: 18 de outubro.

BARTHES, Roland, «The Death of the Author» em Image-Music-Text. Fontana Press, 1977, pp.142-149.

BLACKBURN, Simon, «Structuralism» em Oxford Dictionary of Philosophy. Oxford University Press, 2008, p.365.

DERRIDA, Jacques, «Structure, Sign, and Play in the Discourse of the Human Sciences»[15]  em Writing and Difference. Routledge & Kegan Paul Ltd, 1978, pp.351-370.

LAWLOR, Leonard, «Jacques Derrida» em The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Ed. Edward N. Zalta, Spring Edition, 2014. Disponível em:


 Acesso em: 18 outubro.

SILVERMAN, Hugh, J., Between Hermeneutics and Deconstruction, Routledge & Kegan Paul Ltd, London: 1994. Ensaios consultados: «Textuality and Literary Theory» pp.71-79, «The Self-Inscription of Sartre and Barthes» pp.125-133, «Writing on Writing - Merleau-Ponty/Derrida –» pp.183-192.

2ª Parte – Foucault e a Função-Autor

ALVES, Marco António Sousa, O autor em questão em Barthes e Foucault. Disponível em:


Acesso em: 18 de outubro.

ATKINS, Douglas, MORROW, Laura, Contemporary Literary Theory. Macmillan, Basingstoke and London, 1989.

COUTURIER, Maurice, La Figure de L’Auteur. Collection Poétique Seuil, 1995.

FOUCAULT, Michel, A Ordem do Discurso, Relógio D’Água Editores, julho de 1997.

FOUCAULT, Michel, O Que é um Autor?. Nova Vega, 8ª edição, 2012. Originalmente, Qu’est-ce qu’un Auteur? em Bulletin de la Société française de philosophie, 63º ano, nr.3, julho-setembro de 1969, pp.73-104.

GUTTING, Gary, «Michel Foucault» em The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Ed. Edward N. Zalta, Winter Edition, 2014. Disponível em: http://plato.stanford.edu/archives/win2014/entries/foucault/

Acesso em: 18 de outubro.

MIRANDA, José A. Bragança de, CASCAIS, António Fernando, «A lição de Foucault» - texto integralmente presente no prefácio à edição acima referenciada de O Que é um Autor?.

MONTEIRO, Maria do Socorro de Assis, Autoria e Discurso: Diálogos com Michel Foucault... Disponível em:


Acesso em: 18 de outubro.



[1] Originalmente «Qu’est-ce qu’un auteur?». Trata-se do registo de uma comunicação apresentada por Foucault à Societé Française de Philosophie, em 1969, na qual a relação entre o homem e a obra é direcionalmente abordada. Tal como em Les Mots et les Choses, as condições de funcionamento das práticas discursivas são objeto de reflexão.

[2] Originalmente publicado, em inglês, no jornal americano Aspen (nr. 5-6), em 1967, e mais tarde, em Francês, na revista Manteia (nr. 5), em 1968. O texto pode ser encontrado na antologia de ensaios de Barthes, Image-Music-Text (1977). Este ensaio influenciou extraordinariamente o paradigma da teoria literária da década de 70. Em La Figure de l’auteur, Couturier sustenta que é este mesmo ensaio que, “dez anos após o seu lançamento, viria a servir de carta fundadora a todo o movimento desconstrutivista”. A obra O Que é um Autor?, de Foucault, surge também no seguimento desta publicação.

[3] BARTHES, Roland, The Death of the Author. Image-Music-Text, Fontana Press, 1977. p.43

[4] Barthes reitera a ideia: “(...) dizer que a obra de Baudelaire é o falhanço do homem Baudelaire [e] que a de Van Gogh é a sua loucura” é procurar o significado da produção apenas do lado de quem a produziu, não lhe conferindo autonomia ou singularidade próprias.

[5] A expressão certeira é empregue por Marco António Sousa Alves em “O autor em questão em Barthes e Foucault”, disponível em: http://www.academia.edu/2543136/O_autor_em_questao_em_Barthes_e_Foucault/
[6] BLACKBURN, Simon, «Structuralism», em Oxford Dictionary of Philosophy. Oxford University Press, 2008.

[7] John Searle sumariza a questão da seguinte forma: “Eu entendo a frase «o gato está na cadeira» da forma como a entendo porque sei como esta frase particular se relaciona com uma infinitude de outras proposições associáveis a esta, tais como: «o gato está no tapete», «o gato está na mesa», etc”. (SEARLE, John, «Literal Meaning», 1977, disponível em: http://cas.uchicago.edu/workshops/wittgenstein/files/2008/01/searle-literal-meaning.pdf/

[8] É normalmente associado ao conjunto de desenvolvimentos realizados por uma série de filósofos franceses da segunda metade do séc. XX de entre os quais constam nomes como Foucault, Derrida, Deleuze, entre outros.

[9] Maria do Socorro de Assis Monteiro, em Autoria e Discurso: Diálogos com Michel Foucault. Disponível em:


Acesso em: 18 de outubro.

[10] Uma tentativa de solucionar o problema da unificação discursiva, de atribuir diferentes discursos a um mesmo autor, de modo que a sua obra se constitua a partir de um conjunto conexo de discursos é apresentada por São Jerónimo em quatro critérios: (1) constante de valor – um texto não deve ser qualitativamente inferior ou superior a outro; (2) campo de coerência conceptual – devem ser excluídas as obras escritas num estilo diferente da restante produção literária; (3) autor como unidade estilística; (4) contexto histórico do autor ­– consideração de que o autor é ponto de encontro de um certo número de acontecimentos de forro contextual histórico.

[11] Os discursos científicos começaram a ser recebidos por si mesmos, no anonimato, a partir dos sécs. XVII e XVIII. Era a sua pertença a um conjunto sistemático que lhes conferia garantias e credibilidade, secundarizando-se manifestamente a referência ao indivíduo seu produtor.

[12] COUTURIER, Maurice, La Figure de l’Auteur. Collection Poétique Seuil, 1995.

[13] “Freud não é simplesmente o autor da Traumdeutung ou do Mot d’Espirit; Marx não é simplesmente o autor do Manifesto ou de O Capital: eles estabeleceram uma possibilidade indefinida de discursos.” (O Que é um Autor?, p.58). Noto, a este propósito, o curioso título de um dos capítulos de Contemporary Literary Theory, de Douglas Atkins e Laura Morrow – “Reading after Freud” – que bem ilustra a afirmação de Foucault.

[14] Segundo Maria Assis Monteiro, “(...) esta forma de arregimentação tem profundas relações com a psicanálise Freudiana, onde a ideia de sujeito unitário, o eu, não é o sujeito autopresente, mas a inconsciência é a marca fundadora do sujeito.” (O autor em questão em Barthes e Foucault, p.327. Disponível em:


[15] Trata-se de uma comunicação realizada por Derrida no Colóquio Internacional da Universidade Johns Hopkins (Baltimore), sob a denominação “Les Langages Critiques et Les Sciences de L’Homme”, a 21 de outubro de 1966.

domingo, 3 de maio de 2015

Amor Fugaz

EURICO LEOTE

Ela era linda, simpática e parecia eficiente. Linhas bem perfeitas, torneadas e cativantes. Tinha 19 frescos e alegres anos. Estatura mediana, escorreita, cabelos morenos curtos e aparados. Ar garoto e andar bamboleante, atraente e direi mesmo algo provocador. Peito miúdo mas firme, exibindo mamilos deliciosos e agradáveis à vista.

Ele a dar-se ares de filósofo, bem falante, cachimbo ao canto da boca, ar distante. Estatura acima da média para homem mediterrânico. De chapéu e de sapatos brilhantes, bem vestido e engomado. Conjunto de fato e gravata azul marinho, com bolinhas azuis mais escuras. Um verdadeiro cavalheiro, de cabelo algo desalinhado mas bem tratado. Conheceram-se no local de trabalho. Um encontro meramente casual e inevitável para quem partilha e cruza os mesmos caminhos. Cruzaram-se nas escadas altura em que ele lhe chamou a atenção para a ponta do tapete levantada, não fora ela tropeçar e cair. Sorriram. Agradeceu a atenção e cuidados. Trocaram um olhar mais demorado. Voltaram a sorrir e afastaram-se ambos com um ligeiro brilho nos olhos. O cupido estivera presente naquele rápido e fugaz encontro. Dera mais um tiro certeiro com o seu instrumento caça lovers, pelo menos momentaneamente. Sim, porque o futuro e continuidade deste processo já não era da sua conta nem responsabilidade. Uma vez alcançado este objectivo, partira em busca de outro parzinho de arma assestada. A fase seguinte ficava entregue ao deus dará, ao alinhamento da lua, à conjuntura social e política, aos deuses do amor, da saúde, da justiça e de outros criados e inventados pelo homem ao sabor das suas necessidades, e para satisfação dos seus interesses momentâneos e fugazes.

O namoro teve início uma semana depois, quando voltaram a cruzar-se à entrada para a cafetaria fronteira ao local de trabalho. Uma comum interligação e vontade de aprofundar conhecimento, levou-os até uma mesa, onde após breve troca de banalidades, passaram a entrecruzar ideias, e a partilhar experiências, e a aferir gostos e sentimentos. Passaram a encontrar-se diariamente e a sair juntos. Trocaram tudo o que havia para trocar. Partilharam o que bem lhes aprouve ao sabor de gostos e desejos momentâneos. Desencantaram a lua e descobriram o que havia guardado nos baús. Brincaram como crianças que descobrem o brinquedo desejado. Esqueceram por momentos o que havia à sua volta.

Contudo, tudo se complica e modifica, quando partilhar responsabilidades se torna necessário, e quando se acorda verdadeiramente para o real. Surgem as desconfianças. Os caracteres e comportamentos acordam do sonho e revelam-se verdadeiros. O encanto dos primeiros momentos cedeu lugar a pontuais discussões. Surgem as dúvidas e naturais interrogações.

Mais denso se avoluma o problema quando as chamadas liberdades pessoais e individuais são colocadas em causa.

Aos poucos foram-se afastando. Algo quebrara aqueles momentos mágicos e únicos, e dera agora lugar a ocasionais e fortuitos encontros.

Começaram mesmo a evitar-se. Fora algo meteórico, relâmpago, e está tudo dito. Não são necessárias mais palavras, quando falharam os actos associados a novas realidades.

O afastamento deu-se por completo quando a nossa jovem fazendo valer as suas qualidades responsáveis e a eficiência, foi estagiar para um gabinete de advogados na outra extrema da cidade, e aí arranjou apartamento provisório. Nunca mais se soube nem de um, nem do outro. Entre eles ficou a recordação dos bons momentos partilhados.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

A política e os políticos

EURICO LEOTE


Os políticos são essencialmente e exclusivamente políticos, e só sabem fazer política.

Fazem em primeiríssimo lugar a sua política pessoal, depois a politica dos familiares e para os familiares e amigos, e por último a politica daqueles que os mantêm e alimentam, apenas interessados na política praticada pelos ditos políticos, no que concerne às suas pessoas.

A política é suja. Os políticos são corruptos. Os amigos dos políticos são sabujos. Os que alimentam e mantêm os políticos são vampiros. Os políticos são vis e torpes. Manipulam opiniões públicas, praticam a política do obscurantismo. Escondem-se atrás de políticos pseudo sociais a troco de votos não esclarecidos, comprados, chorados sob a ameaça de tumultos, da fome e da instabilidade social.

Os políticos perpetuam-se no poder com falinhas mansas e pezinhos de lã, e pela força da força e das armas. Os políticos vendem a alma ao diabo para poderem continuar a sua carreira politica assente no poder. Surgem na politica e para a politica vindos do nada. Mentem e espezinham para se fazerem afirmar como os doutos, os sábios, os únicos, os dotados, os iluminados. Fazem passar a todo o custo essa mensagem. Alienam com a não informação. Dizem descaradamente que o povo não está preparado. Não está, nem nunca estará, pois é esse o interesse primeiro da politica. Se todos soubessem o mesmo, outro galo cantaria. E todos seríamos galos e aí o mundo dos políticos afundar-se-ia. Deixariam de se vender gravatas, sorrisos e discursos. As palmas, abraços e palmadinhas nas costas entravam para saldos ao preço da uva mijona. Os políticos fechavam a loja e abriam falência. O séquito de seguidores juntava os trapinhos, arrumava a mala e ia pedir esmola para as esquinas dos prédios. Se calhar nem para isso serviam, pois nem para isso têm engenho. Só sabem tirar e roubar, sem pedir, nem justificar.

Que vivam os políticos enquanto não morrem.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Exéquias

ADELAIDE BERNARDO












Na minha morte

Não quero bandeiras a meia haste


O luto durará o necessário

A quem o sinta


As palavras e os silêncios

De mãos dadas

Guiar-nos-ão ao renascer

Que sempre sobrevém à ausência


A memória

Ilusória

Consumir-se-á no trânsito dos dias


O meu pó

Ao pó voltará

Remoinhado

No riso dos deuses

domingo, 26 de abril de 2015

Imediato!

JOÃO CACHADO
De tal modo foi o eco do “Inadiável!” que, na sequência de alguns comentários extremamente pertinentes, subscritos por conhecidos sintrenses, me senti obrigado a continuar a matéria então tratada e, se não a acrescentar, pelo menos, a recordar e sublinhar soluções que, há tantos anos, tenho advogado e partilhado com os meus leitores.


Funicular? Dar tempo ao tempo


Primeiramente, gostaria de esclarecer que a minha opinião, contrária à da Câmara Municipal de Sintra, que pretende instalar um teleférico entre São Pedro, Santa Eufémia e a Portela de Sintra, de modo algum, poderá ser interpretada como coincidente com outra, que subscrevo, em relação ao funicular. Há, de facto, uma distinção que cumpre assinalar inequivocamente.
Se, quanto ao teleférico, a solução se me afigura inadequada em relação ao objectivo que a autarquia se propõe resolver, isto é, do transporte expedito e rápido dos visitantes à Pena, na medida em que põe em causa e, inclusive, agride valores históricos e paisagísticos que, até ao presente, foi possível manter intactos, já no que respeita ao funicular a sua viabilidade apenas estará comprometida devido à abundante existência de vestígios arqueológicos.
 Por outro lado, acerca da posição do Doutor José Cardim Ribeiro, se “(…) me rendo, total e boamente perante a impossibilidade decretada pelo famoso arqueólogo (…)”, palavras que  subscrevi no artigo acima mencionado, tal não significa que, futuramente, depois de ter disposto do tempo imprescindível ao diagnóstico exaustivo mas sereno de todos os factores em presença, arqueológicos e outros, não venha a ser possível encarar devidamente a sua adopção.
 Também estou em crer que se encontrará uma alternativa viável, através de um circuito que se venha a revelar compatível com as circunstâncias, sem temer que, em Sintra, o funicular possa vir a matar a galinha dos ovos de ouro, animal e produtos estes que jamais foram postos em causa nos locais em que o funicular tanto sucesso conhece… Portanto, e sempre no respeito pelos interesses da História em geral e da Arqueologia em particular, a instalação do funicular, ainda que pertinente, poderá esperar por melhores dias.
A verdade é que, repito, Sintra não aguenta qualquer adiamento relativamente à instalação dos parques periféricos de estacionamento, dissuasores do acesso das viaturas particulares ao centro do burgo, razão sine qua non para advogar a sua imediata construção, e aí concentrando todos os esforços e todos os recursos, sem a mínima distracção.
É nela que radica o sistema integrado de estacionamento-rede de transportes públicos que poderá resolver a expressiva maioria dos urgentes problemas de mobilidade em que Sintra se enredou. De acordo com o que desde sempre tenho defendido e insistido, esta, sim, é a solução. (1)
E, na realidade, cumpre não esquecer que a estratégica instalação dos parques periféricos constituirá a estrutura de base em que se alicerçará a rede de transportes, – nas zonas de Lourel (Santa Maria), Ribeira (São Martinho) e Ramalhão (São Pedro), a montante das entradas de acesso à sede do concelho, bem como as bolsas de proximidade, nomeadamente, uma junto à estação da Portela e outra adjacente ao edifício do Urbanismo  – constituirá a estrutura de base em que se alicerçará a rede de transportes.


Sintomático? Talvez não…


Permitam que, acerca daquele espaço, vos confronte com uma notícia da Lusa que ontem – escrevo no dia 24 – era veiculada pelo jornal Público. Há escassos quatro meses, durante uma 'Presidência Aberta', o Senhor Presidente da Câmara anunciou que “(…) a autarquia já não tenciona construir um silo de estacionamento na Portela de Sintra, onde irá apenas reordenar o actual parque junto ao edifício do urbanismo. (…)”
Tratava-se da concretização de um projecto cujas características, muito menos ambiciosas, de modo algum, coincidem com as deste. Não vale muito a pena nem estou particularmente interessado em especular sobre as motivações que terão presidido a alteração tão substancial da decisão inicial.
A verdade é que, no caso precedente, as obras, estavam a cargo dos serviços camarários, limitando-se a uma requalificação do recinto. Agora, infere-se que a concretização deste dependerá de investidores privados, aumentando a dimensão para o dobro da capacidade, com restaurantes, zona comercial, e jardim suspenso. Ou seja, transfere-se para a Portela a solução que esteve pensada para o Vale da Raposa, lembram-se?
Agora, o anúncio deste determinará um adiamento imprevisível em relação ao anterior, já que pressupõe uma intervenção muito mais «pesada». Enfim, sem que me possam apontar qualquer espécie de espírito menos colaborante, não posso deixar de me interrogar, não só quanto às vantagens de complicar a proposta inicial, embora de menor capacidade de estacionamento, mas também relativamente às perniciosas consequências do atraso em perspectiva.
Porque não manter a requalificação do parque anunciado durante a ‘Presidêmcia Aberta’ e, em simultâneo, aumentar a capacidade do Parque da estação da CP Portela, parques baratos, à superfície, expeditos, operacionais, sem investimento significativo?
Parques dissuasores, complementos & suplementos

Volto já ao cerne das questões que vinha conjugando antes do subtítulo precedente. Por si só, contudo, o sistema em apreço só pode ser encarado como globalmente estratégico se, a propósito, apesar de já não sei quantas vezes ter escrito acerca do assunto, lembrar que, em determinadas artérias do centro histórico, a circulação de viaturas particulares, pura e simplesmente, deverá ser interdita e, tão somente, autorizada a residentes, comerciantes, veículos prioritários e congéneres universalmente considerados em situações análogas.
No artigo anterior, se bem lembrados estão, referi a fundamental proibição de circulação na Rampa da Pena. Mas não se pode ficar por aí já que a montagem de um dispositivo integrado desta dimensão pressupõe outras atitudes semelhantes e indubitavelmente complementares. Por exemplo, o caso do eléctrico é paradigmático.
Como me afiançou o Senhor Vereador com o Pelouro da Mobilidade Urbana, se a Câmara Municipal de Sintra pretende prolongar a linha do eléctrico até à estação terminal da CP e Vila Velha, num prazo tão curto como os dois anos e meio que ainda faltam para terminar o actual mandato do executivo autárquico, ou seja, até ao fim de 2017, pois então tal projecto só será concretizável, precisamente, mediante o condicionamento do trânsito na Alfredo da Costa, Miguel Bombarda e Volta do Duche...
Por outro lado, tudo quanto venho lembrando e veementemente sublinhando, deve articular-se com a resolução de um problema tão simples (!?!) como o da implantação de um civilizado regime de cargas e descargas, considerando um horário adequado às novas exigências suscitadas pela solução integrada dos parques periféricos e bolsas de proximidade. É, meus senhores, a perspectiva sistémica ditando a operacionalização e a viabilidade das medidas.
E, neste ínterim, importa ter o passado bem presente. Em anteriores intervenções, como a da pedonalização da Heliodoro Salgado ou, mais recentemente, aquando da infeliz supressão da ponte metálica, se tivesse prevalecido uma perspectiva sistémica, tanto na fase de diagnóstico como na da subsequente concretização das decisões, não estaria a Estefânea e a Portela de Sintra na lamentável situação em que se encontram. Neste domínio da mobilidade, incalculáveis são os custos quando se toma determinada medida isolada dos contextos tanto a montante como a jusante.
Espanto-me, isso sim, como, em Sintra, temos incorrido em erros tão sistemáticos e, por vezes, tão grosseiros, se dispomos de tão bons técnicos nos serviços, boa gente que conhecemos e respeitamos, técnicos que dominam todo este saber fazer muito melhor do que eu jamais saberia expressar. Neste enquadramento não consigo deixar de partilhar convosco a inocente pergunta constante do parágrafo seguinte.
Perante o leque das opções técnicas que, ao longo dos anos e de sucessivos mandatos, lhes têm sido apresentadas, e em função de compromissos de ordem vária que não souberam ou não quiseram contornar, não terá acontecido que os decisores políticos impuseram, aos serviços e à comunidade, soluções tão prejudiciais à qualidade de vida dos sintrenses e visitantes?
Se, a nível nacional, multiplicarmos pelos n casos que nem nos atrevemos a imaginar, e, nessa operação, não nos esquecermos de incluir os locais donos disto tudo, entre outras, as  conclusões, também nos remeterão para a ideia do prejuízo pelo qual se traduz a ausência dos cidadãos da vida cívica em que deveriam estar envolvidos, não fossem as razões que desfavorecem a concretização de tal civismo em acção. Pois é, níveis de escolaridade diminuta ou muita limitada, preocupantes índices de literacia, modelos sociais desviantes, enfim, contas de um rosário outro a que muito se resume o nosso lusitano fado…
Finalmente. A terminar, não tenho palavras para vos dizer da minha preocupação relativamente aos períodos quentes que se avizinham em termos da demanda turística. Sei que também a União das Juntas de Freguesia de Sintra está a fazer diligências no sentido de articular as suas justas preocupações no âmbito do estacionamento e da circulação, com a Câmara e com as polícias. Para satisfação do interesse geral, espero bem que os esforços de todos sejam coroados de êxito.
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(1)
Não gostaria de vos maçar com a indicação dos artigos que, em tantos e sucessivos anos, sem qualquer ponta de originalidade, me pronunciei acerca da estratégia dos parques dissuasores. É escusado, creio, os leitores sabem o que tem sido a minha luta a favor de uma forma civilizada de viver a urbe e, em simultâneo, de defender o seu património, bem como propondo as melhores condições possíveis para o usufruto dos bens culturais em que Sintra é tão pródiga.