segunda-feira, 18 de maio de 2015

Dúvida e Certeza, em Da Certeza, de Ludwig Wittgenstein

HUGO LUZIO


Introdução

Parte o presente trabalho de dois objetivos centrais: (1) o de tratar as noções substanciais da filosofia da linguagem wittgensteiniana a que o conjunto de excertos reunidos no texto «Questionando a dúvida e a certeza: Ludwig Wittgenstein» fazem menção explícita, como é caso da noção de «jogo de linguagem», das conceções de «dúvida», «certeza» e «sistematização de crenças», entre outros; (2) o de responder, ao longo desta análise, às questões (a) tem sentido duvidar de tudo ou só se pode duvidar quando se tem certezas?, (b) qual o fundamento das nossas certezas?, (c) qual o alcance de conceitos como «jogos de linguagem», «jogos de juízos», «sistemas de crenças», para o esclarecimento da correlação dúvida-certeza?, (d) um homem sensato pode ser um filósofo? e, finalmente, (e) qual o valor da comunidade ligada pela ciência e pela educação para a filosofia?.

Suporte Textual – Questionando a dúvida e a certeza: Ludwig Wittgenstein

«61.… Um significado de uma palavra é um género de utilização desta. Porque é aquilo que aprendemos quando a palavra é incorporada na nossa linguagem.

62. Se imaginamos os factos diferentemente do que são, certos jogos de linguagem perdem alguma importância, enquanto outros se tornam importantes. E, desse modo, há uma alteração – gradual – no uso do vocabulário de uma língua.

64. Compare-se o significado de uma palavra com a “função” de um funcionário. E “diferentes significados” com “diferentes funções”.

65. Quando os jogos de linguagem mudam, há uma modificação nos conceitos e, com as mudanças nos conceitos, os significados das palavras mudam também.» Ludwig WITTGENSTEIN, Da Certeza, Edição bilingue, trad. Maria Elisa Costa, rev. António Fidalgo, Lisboa, Edições 70, 1990, p.31. 1

«121. Poderá alguém dizer: “Onde não há dúvida, também não há conhecimento”?

122. Não precisaremos de razões fundamentadas para duvidar?

123. Para onde quer que olhe, não encontro razão fundamentada para duvidar de que…

124. Quero dizer: usamos juízos como princípios para a formulação de juízos.

125. Se um cego me perguntasse: “Tem duas mãos?” eu não me asseguraria olhando para elas. Se tivesse alguma dúvida, então não sei por que acreditaria nos meus olhos. Então, qual a razão para não testar os meus olhos olhando para verificar se vêem as minhas duas mãos? O que tem de ser verificado e pelo quê? (Quem decide o que é ponto assente?). – E o que é que significa dizer que isto ou aquilo é ponto assente?

126. Não tenho mais certezas quanto ao significado das minhas palavras do que tenho acerca de certos juízos. Posso duvidar de que se chama “azul” a esta cor? – (As minhas) dúvidas formam um sistema.

127. Com efeito, como é que sei que alguém duvida? Como é que sei que ele usa as palavras “Duvido disso” como eu uso?

128. Desde criança que aprendi a formar juízos assim. Isto é fazer juízos.

129. Eis como aprendi a fazer juízos; aprendi isto como sendo um juízo.

130. Mas não será a experiência que nos ensina a fazer juízos desta maneira, isto é, que é correcto julgar assim? Mas como é que a experiência nos ensina, então? É possível que nós consigamos isso através da experiência, mas a experiência não nos ensina a conseguir seja o que for da experiência. Se é o fundamento para nós julgarmos assim (e não apenas a causa), continuamos sem ter fundamento para encarar isso, por sua vez, como fundamento.

131. Não, a experiência não é o fundamento para o nosso jogo de juízos. Assim como também não o é o seu êxito notável.» IDEM, op. cit., pp.47-49.

140. Não aprendemos a prática de formular juízos empíricos através da aprendizagem de regras: ensinam-nos juízos e a sua ligação a outros juízos. Torna-se plausível para nós uma totalidade de juízos.

141. Quando começamos a acreditar em qualquer coisa, aquilo em que acreditamos não é uma proposição isolada, é um sistema completo de proposições. (Faz-se luz gradualmente sobre o conjunto). 2

142. Não são os axiomas isolados que me parecem óbvios, é um sistema em que as conclusões e as premissas se apoiam mutuamente.

143. Contam-me, por exemplo, que alguém subiu a esta montanha há muitos anos. Informo-me sempre sobre a confiança que merece o narrador e se a montanha existia de facto há anos? Uma criança aprende que há informadores fidedignos e não-fidedignos muito mais tarde do que aprende factos que lhe são contados. Não aprende de modo algum que essa montanha existe há muito tempo: isto é, não se põe em questão isso ser assim. A bem dizer, engole essa conclusão juntamente com aquilo que aprende.

144. A criança aprende a acreditar num grande número de coisas. Isto é, aprende a actuar de acordo com essas convicções. Pouco a pouco forma-se um sistema daquilo em que acredito e, nesse sistema, algumas coisas permanecem inabalavelmente firmes, enquanto algumas outras são mais ou menos susceptíveis de alteração. Aquilo que permanece firme não o é assim por ser intrinsecamente óbvio ou convincente; antes aquilo que o rodeia é que lhe dá consistência.» IDEM, op. cit., p.53.

«220. O homem sensato não tem certas dúvidas.

221. Posso duvidar daquilo de que quero duvidar?

222. Não posso duvidar de que nunca estive na estratosfera. Será que isso me faz sabê-lo? Torná-lo-á verdade?

223. Pois não poderia eu ser louco e não duvidar daquilo de que deveria absolutamente duvidar?

224. “Eu sei que nunca aconteceu porque, se tivesse acontecido, não teria sido possível esquecê-lo”. – Mas, supondo-se que aconteceu mesmo, teria pois acontecido que você se esqueceu disso. E como sabe que não poderia esquecer-se? Não será justamente a partir de uma experiência anterior?

225. Aquilo a que me agarro não é uma proposição, mas um conjunto de proposições.» IDEM, op. cit., pp.69-71.

«291. Sei que a Terra é redonda. Verificámos definitivamente que a Terra é redonda. – Manteremos esta opinião, a menos que mude toda a nossa visão da natureza. “Como é que sabe isso?” – Acredito nisso. 3

292. Novas experiências não podem contradizer as anteriores, quando muito podem alterar toda a nossa visão das coisas.

293. Do mesmo modo acontece com a frase “A água ferve a 100º C.”

294. É assim que adquirimos convicções, chama-se a isto “estar convencido com razão”.

295. Não se tem, nesse sentido, uma prova da proposição? Mas o facto da mesma coisa ter acontecido de novo não a prova; ainda que digamos que nos dá direito a supô-la.

296. É a isto que chamamos um “fundamento empírico” das nossas hipóteses.

297. Porque aprendemos, não só que estas e aquelas experiências deram estes e aqueles resultados, mas também a conclusão que se tira. E, evidentemente, não há nada de errado em procedermos assim. Porque esta proposição inferida é um instrumento para uma utilização definida.

298. “Estamos muito certos disso” não significa que toda e qualquer pessoa esteja certa disso, mas que pertencemos a uma comunidade que está ligada pela ciência e pela educação.

299. Estamos convencidos de que a Terra é redonda.» IDEM, op. cit., p.87

1. Jogos de Linguagem e Significado

Uma linguagem é um sistema de expressões cujo uso é especificamente regrado. Em Da Certeza, tal como em Investigações Filosóficas, Wittgenstein afirma que o significado de uma palavra corresponde ao género de utilização que lhe conferimos. Este uso deve ser entendido como uma funcionalidade dos termos, i.e., como um modo de funcionamento das expressões quando inseridas numa dada estrutura linguística. Porque há, neste sentido, uma correspondência entre significado e regra, o funcionamento das linguagens naturais exige uma subdeterminação semântica, um padrão normativo que regule a aplicação dos termos particulares. Não é, portanto, irrelevante acentuar a afirmação wittgensteiniana de que o significado de uma palavra corresponde a um género de utilização e não a uma utilização determinada.

Não se sustenta, portanto, que o significado de uma expressão é inteiramente determinado pelo seu uso, uma vez que a ideia de que o uso de uma expressão é contextual – no sentido de ser relativo a determinado jogo 4 de linguagem – está subsumida na afirmação. Se os conceitos utilizados numa determinada linguagem mudam, também os significados das palavras se alterarão.

Os significados dos termos não estão fixados, dependendo, antes, do condicionamento que a experiência impõe ao uso da linguagem descritiva. Neste sentido, a fixação do sentido é definida pragmaticamente, ou seja, os limites do sentido não podem ser postos ou figurar essencialmente em proposições. As nossas práticas judicativas constituem, assim, uma forma de agir e de julgar que fundamenta os diferentes jogos de linguagem, possibilitando a elaboração de proposições significativas. Os jogos de linguagem não são, em último caso, jogos na linguagem, mas relações de alternância entre significados e conceitos no seio de uma mesma estrutura linguística.

2. Dúvida e Certeza

A dúvida é condição necessária para o conhecimento? A nossa forma de julgar depende das estruturações simbólicas estabelecidas a partir das nossas práticas judicativas. A disposição para aceitar como certas algumas proposições é necessária à possibilidade de ação. A certeza deve ser compreendida como um elemento constitutivo do pensamento e da ação, na medida em que é a convicção de fundo por ela assumida que permite o desenvolvimento do curso das nossas práticas. Se não assumir como inquestionavelmente verdadeiras algumas proposições fundamentais como, por exemplo, a proposição “eu existo”, a revisibilidade incessante deste tipo de convicções-base torna-se infinitamente regressiva. Como afirmado em Da Certeza (§341), as perguntas que fazemos e as dúvidas apoiam-se em certas proposições que são excluídas da dúvida, ou seja, que não são submetidas a escrutínio. Podemos afirmar, neste sentido, que a certeza é primitiva em relação à dúvida; é a primeira que possibilita a última.

Será, então, sensato duvidar de tudo? A resposta parece ser assumidamente negativa. Duvidar de tudo não é, neste sentido, uma dúvida. Antes, a radicalização da dúvida suspende o próprio método de conhecer, investigar e duvidar que empreendemos. Se o homem sensato assume que toda a dúvida parte de proposições dadas como certas, ou seja, que a certeza é necessária para a dúvida e, inversamente, que a dúvida é manifestação suficiente da fixação da verdade de certas proposições básicas, então duvidar destas 5 proposições fundacionais acreditadas torna-se inexequível. O homem sensato pode ser filósofo apenas se assumir explicitamente que: (1) o questionamento filosófico não corresponde à formulação arbitrária de dúvidas aleatórias, desconexas e sem alvo, (2) que a indagação intransigente não é equivalente a um ceticismo absoluto e (3) que a inquestionabilidade de certas proposições é necessária ao erguimento do edifício do conhecimento.

Para que uma proposição seja afirmada, negada ou colocada em dúvida, pressupõe-se que outras proposições sejam encaradas como certas, seguras ou firmes. Mas quando podemos estar totalmente certos em relação à veracidade de uma dada proposição? Wittgenstein afirma que a certeza objetiva é aquela na qual a dúvida está logicamente excluída – uma proposição p é certa somente se não é possível que não-p –. A diferenciação entre o tipo de crenças básicas que formam o fundamento do conhecimento e as crenças não-básicas, posteriormente formuladas, que o edificam e possibilitam apoiando-se nas primeiras, é fundamental para considerarmos que o fundacionalismo é uma resposta coesa ao ceticismo radical. O problema parece residir, em última instância, não na definição, mas na identificação daquelas proposições que fundamentam o conhecimento, que são certas.

3. Da Sistematização de Crenças

Os juízos que formulamos são-nos, primeiramente, ensinados: ensinam-nos juízos e a sua ligação a outros juízos (Da Certeza, §140). À medida que novos juízos empíricos ou proposições descritivas são formuladas, é o sistema basilar de proposições acreditadas – ou o esquema conceptual – que viabiliza, ou não, a acomodação de novas proposições no seu sistema. Acreditar numa proposição não é, neste sentido, atestar objetivamente a sua verdade, mas integrá-la num sistema completo de proposições no qual faz sentido que seja acomodada. Acredito em p se p for coerentemente articulável no esquema conceptual, ou sistema de crenças, que mantenho. É, portanto, neste sentido que Wittgenstein afirma “[fazer-se] luz gradualmente sobre o conjunto [de proposições acreditadas]” (Da Certeza, §141). É o match entre o esquema referencial que a minha própria estrutura linguística mantém e o equilíbrio ou unificação resultantes da inclusão de p neste sistema que me leva a atestar p como verdade; a ter a certeza de que p. A 6 certeza é um processo inclusivo, dependente de uma dinâmica própria entre os significados atribuídos aos termos com que me refiro às coisas a partir das quais formulo juízos e o panorama geral de inserção ou rejeição desses juízos no leque de proposições sistematizadas que confio como verdades firmadas. O que permanece, as proposições que progressivamente acomodo, não são intrinsecamente óbvias ou convincentes, antes, é o que as rodeia, o sistema de crenças, que lhes dá consistência. Há uma diferença substancial entre afirmar que se tem uma crença forte de que p ou que se sabe que p. A primeira afirmação cai sobre o grau de convencimento que um sujeito mantém em relação à proposição acreditada ou o grau de inclusão que uma proposição mantém em relação ao sistema em que é inserida, ao passo que a segunda afirma um tipo de conhecimento conclusivo sobre a verdade intrínseca dessa proposição. A fundamentação empírica das nossas hipóteses não constitui, muitas vezes, prova suficiente para as afirmações que sustentamos.

4. Ciência e Educação – As Comunidades Linguísticas

Considerar certas proposições como verdadeiras ou falsas decorre, também, da nossa pertença a uma comunidade plenamente unificada pela ciência e pela educação, em que vigora um sistema próprio de referências, um método particular de estruturação linguística e significação dos termos e em que um leque de proposições ou afirmações são consensualmente creditadas pela comunidade. Embora este pano de fundo seja relativamente permanente e as proposições fulcrais sejam, em geral, óbvias demais para serem informativas, demonstrar que uma determinada proposição fulcral é errónea pode, ou não, resultar num colapso da rede de crenças estabelecidas, dependendo, naturalmente, do grau de alteração que a mutação do valor de verdade da proposição particular repercutirá sobre as restantes crenças sustentadas. Quando alguém diz, “eu sei que p”, a veracidade de p não é apenas acessível ao sujeito que a atesta. Pode, antes, ser ponderada pelo conjunto de membros da comunidade linguística a que o sujeito pertence. No contexto da matemática formal, por exemplo, afirmar que 2+2=5 é incoerente com o conjunto axiomático de proposições (ou princípios) próprios deste tipo de linguagem. Por paridade de raciocínio, uma contradição formal não é admissível no seio da lógica tradicional porque os princípios axiomáticos da linguagem lógica não 7 viabilizam a validade deste tipo de ocorrência. Se afirmarmos que todas as contradições formais são improcedentes em lógica, então todas as verdades lógicas irradiadas do funcionamento particularizado deste tipo de linguagem procederão apenas na condição de não serem contradições formais. O mesmo acontece com as restantes comunidades científicas e educativas, em que vigoram normas próprias de estruturação linguística, diferentes jogos de linguagem.

Nas comunidades científicas, o estabelecimento da verdade de uma proposição, p.e. A Terra é redonda”, corresponde à consolidação de um consenso comunitário acerca do grau de fiabilidade dos fundamentos empíricos que a sustentam. A quase total revisibilidade da ciência – as alterações que algumas verdades creditadas sofrem por força do desenvolvimento científico – parece constituir evidência de que chegar a uma prova inteiramente conclusiva ou infalível, não trivial e informativa, é tarefa muitíssimo difícil. Antes, estamos convencidos de que determinadas proposições são verdades. As proposições aprendidas são acreditadas mas não provadas independentemente do nosso sistema proposicional. Estar certo ou convencido que p não é saber que p. A proposição (a) “Ptolomeu sabia que a Terra era o centro do Universo.” não representa uma atribuição de conhecimento verdadeira à luz do sistema de verdades que contemporaneamente acolhemos. No entanto, a afirmação (b) “Ptolomeu julgava estar certo de que a Terra era o centro do Universo.” corresponde a uma atribuição de conhecimento verdadeira, sendo possível considerar (a) como uma mera pretensão de conhecimento. Se transformarmos a frase (a) em (b), então a atribuição de conhecimento em (b) é de facto verdadeira uma vez que foi sempre falso que a Terra era o centro do Universo, ainda que Ptolomeu estivesse certo da veracidade da proposição. O critério de certeza não está, portanto, fundamentado no sujeito (não é um estado mental subjetivo), mas no mecanismo de aceitação ou exclusão de determinados factos como verdades incontroversas para uma comunidade linguística específica. É responsabilidade conjunta das comunidades científicas e educativas e da Filosofia que a indagação crítica não seja reduzida a uma arbitrariedade alheia à realidade concreta; que os alvos do questionamento sejam constantemente atualizados. 8

Bibliografia

GLOCK, Hans-Johann, Wittgenstein: A Critical Reader, Blackwell Publishers Ltd, 2001.

HINTIKKA Jaakko, Language-Games em The Philosophy of Wittgenstein: Meaning, Canfield Ed.

MULINARI, Filicio, Saber, Certeza e Dúvida: Sobre Ceticismo e Fundacionalismo no Da Certeza de Wittgenstein, em Griot – Revista de Filosofia, nr.1, junho de 2014.

Disponível em:


[Data de consulta: 30 de novembro].

OLIVEIRA, Wagner Teles de, Wittgenstein e o Pragmatismo.


[Data de consulta: 30 de novembro].

WITTGENSTEIN, Ludwig, Da Certeza. Edições 70, Março de 2012.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Aspetos da correspondência literária do escritor Francisco Costa: o caso de Aquilino Ribeiro

CARLOS MANIQUE DA SILVA

Francisco Costa (1900-1988) foi sintrense de elevada craveira intelectual, tendo desenvolvido, a par de carreira profissional na área da contabilidade, intenso labor de romancista, de poeta e de historiador. Com uma vida longa, não se estranha que no seu espólio pessoal, por entre os manuscritos das obras produzidas, encontremos numerosa correspondência literária; tanto mais que a epistolografia era uma forma habitual de partilhar ideias, experiências e, mesmo, sentimentos. Para se ficar com uma ordem de grandeza, estamos a falar de mais de 3000 missivas, entre registos ativos e passivos, constituindo um importante repositório da memória coletiva, no qual se perspetiva, aliás, muito da vivência cultural, social e política do país durante boa parte do século xx.
O caso que trazemos hoje ao conhecimento dos nossos leitores diz respeito à correspondência que Aquilino Ribeiro (1885-1963) trocou com Francisco Costa. Na verdade, no citado espólio, encontramos duas cartas que o autor de O Malhadinhas endereçou ao escritor sintrense. A primeira missiva, da qual não se apresenta transcrição, optando-se por dar breve notícia, foi escrita em 15 de abril de 1956. Aquilino, em tom intimista, solicita a Francisco Costa, à data diretor da Biblioteca e Arquivo Municipais de Sintra, autorização (e facilidades) para fotografar frontispícios da “Camiliana”; notável acervo municipal para a constituição do qual contribuiu decisivamente o referido escritor sintrense. A segunda carta, porventura a mais interessante, redigida em 12 de novembro de 1959, versa um assunto totalmente distinto, conforme se pode verificar na transcrição que se apresenta. Antes, porém, impõe-se uma nota para contextualizar a missiva. Trata-se de um pedido que Aquilino formula no sentido de Francisco Costa ser uma espécie de “testemunha abonatória” num processo que lhe movia o Ministério Público; o assunto (que não está expresso no texto) prende-se com a edição do romance Quando os Lobos Uivam, visado pela censura por (supostamente) conter elementos de troça da magistratura. Desconheço ulteriores desenvolvimentos… Mas fiquemos com a carta de Aquilino.
Meu ilustre confrade e amigo:
O meu advogado no processo que me move o Ministério Público, acusando-me de atentar contra a segurança do Estado!, manifestou-me o desejo de vê-lo à barra da instrução contraditória a propósito de qualquer quesito que respeite a liberdade do Pensamento.
Não gosto de incomodar ninguém, mas antes de formular tal voto, já eu pretendia formulá-lo junto do meu colega. Não lhe repugnará prestar-nos tal obséquio? Muito lhe agradecia.
O atento admirador e obrigado
Aquilino Ribeiro
(Espólio pessoal de Francisco Costa)

segunda-feira, 11 de maio de 2015

As saudades


EURICO LEOTE
O vento irritado soprava intenso e vigoroso. O homem teimoso insistia em cobrir com um oleado a lenha disposta em camadas alinhadas e tranquilas.

As árvores com os seus ramos vergados e torcidos gemiam, enquanto buscavam um abrigo impossível face à desolação que as cercava.

Por detrás das vidraças uma criança brincava olhando de tempos a tempos para o exterior, sobressaltada pelo troar do vento.

O céu cobriu-se de negro o que levou a criança a espreitar mais de perto, agora de nariz colado na vidraça. O bater ruidoso e rápido das lágrimas caídas do céu, levou a criança a recuar num misto de defesa e de susto, pelo inesperado da cena. Uma luz forte que por breves momentos surgiu, anunciou um forte ribombar que estremeceu toda a casa, pelo que o salto dado pela criança, seguido de uma rápida corrida para junto de sua avó sentada no seu canapé, apostada em dar vida a um par de meias, fundiram-se numa só acção.

Uma vez aninhada junto da avó e perante a tranquilidade desta, a criança serenou regressando às suas brincadeiras. O dia deu rapidamente lugar à noite e as luzes da casa surgiram de pronto acesas pela atenta serviçal que era dona de toda aquela casa, uma vez que era ela que punha e dispunha, procurando sempre ir ao encontro das necessidades de avó e neto, aos quais era dedicada.

A entrada do Inverno fazia-se assim anunciar, contrariando algumas previsões, e augurando a saída do período de seca que até então a população da aldeia havia sentido, e pela qual passara nos últimos meses, com fortes problemas e dificuldades para plantas e animais. A população da aldeia apesar de ver secar a água nas suas torneiras, conseguiu ultrapassar a situação e a carência de água recorrendo a cisternas e poços comunitários providenciais. A aldeia embora pequena era auto suficiente pois possuía igualmente um forno comunitário de onde se elevava um cheiro reconfortante e doce, especialmente quando se faziam os bolinhos típicos de mel, ou quando se assavam batatas doces.

Um moinho agora com as suas pás travadas e as respectivas mós paradas, não fora o vento mandar tudo pelos ares e estragar o engenho, era responsável pela moagem dos cereais usados na confecção. Do milho ao trigo usado pelo homem a outras farinhas utilizadas na alimentação do gado, tudo era triturado por aquelas mós já gastas pelo tempo, onde o Sr. José com o seu saber gosto e esforço se empenhava em manter a funcionar, consciente da importância do mesmo para toda a aldeia.

A avó com os seus óculos na ponta do nariz, acabara de compor a meia e jogava agora a mão a uma peça de roupa do menino, de onde se soltara um botão cansado de estar sempre no mesmo lugar, e que de vez em quando espreitava da sua casa.

A avó era a tranquilidade em pessoa, trabalhando com os seus gestos lentos mas eficientes e perfeitos, pois a pilha de roupa já composta e reparada ía ganhando altura no tabuleiro. De ali seguiria para as gavetas da cómoda e do roupeiro, levadas e arrumadas pela Carlota. Era bonita a avó apesar da idade que aparentava e das rugas que sulcavam a sua cara. Os óculos de aro de tartaruga balançando na ponta do seu nariz conferiam-lhe um ar de pessoa sapiente, meiga e amiga. Volvidos vários anos e após ter criado o filho, cabia-lhe agora e ainda tomar conta do neto. Não que isso lhe não desse prazer. Sempre se sentia mais acompanhada, e as correrias e diabruras da criança ajudavam a preencher os espaços da casa e a quebrar os silêncios que em nada ajudavam a passar o tempo, em quanto aguardava que os seus filhos como os tratava, regressassem de outras paragens para as quais foram compulsivamente atirados face à impossibilidade de encontrar trabalho dentro de portas. Este era um panorama generalizado por todo o país, com os jovens a sair em busca de trabalho e buscando a independência, cansados de viverem debaixo do mesmo tecto com os pais e os irmãos. Há uma altura para tudo, e por muito que custem os cortes e separações, é preciso partir em busca de realização pessoal. As saudades serão mitigadas dentro do possível e sempre que surjam as oportunidades.

Agora mais tranquila a criança e passada que fora a borrasca, regressou à janela para ver recolher a casa e de enxada às costas o homem teimoso que conseguira vencer por agora o vento, e cobrir a sua lenha para a manter seca para os tempos mais frios que se aproximavam. Lançou um adeus à criança que por detrás da janela e a coberto da intempérie assistia ao que se passava no exterior. A criança timidamente correspondeu reconhecendo de pronto e a coberto do capote o Sr. António que por vezes aparecia lá por casa para dar um jeito no jardim. Sorriu, e agora sim manifestou toda a sua simpatia com um aceno mais violento e contínuo. O Sr. António sorriu igualmente e afastou-se no seu passo permitido pelo ainda forte vento que se instalara, e que de acordo com as previsões viera para ficar toda a santa semana.

O acalmar da chuva trouxe à rua o cachorro do Sr. Filipe, animal meigo que se mantinha normalmente por aqueles lados, recebendo as carícias dos vários amigos que por ele passavam. Era vê-lo deitado dormitando ou de orelhas à escuta, atento aos ruídos e à vizinhança.

De dentro a voz soou trazendo o menino à realidade. Chamavam-no para ir tomar o seu lanche. Menino em idade de crescer precisa de estar bem alimentado dizia a avó. Até porque tinha contas a dar aos pais, quando estes aparecessem, ainda que por um curto período de tempo. Não estavam ainda criadas as condições que permitissem o retorno, e estava fora de causa fazer deslocar o menino para um outro meio mais hostil, onde a língua seria indubitavelmente uma forte barreira ao crescimento e desenvolvimento. Pelo menos assim o pensavam os pais, que estavam de comum acordo nesta matéria.

Por vezes o silêncio da casa era perturbado por suspiros mais profundos da pobre senhora, que sentia o peso da responsabilidade. Acontece que os anos não perdoam, e uma pobre velha tem dificuldade em criar uma criança, a qual necessita do convívio de outras idades, e de ter por perto os pais, para ser criada de acordo com os padrões e exigências familiares.

A aldeia era o espelho do país no tocante à constituição da população. Os muito novos e os muito velhos como ela, o Sr. António, o Sr. Filipe e a tia Maria que sempre viveram agarrados à terra e aos animais. Os braços produtores e as cabeças sãs e instruídas haviam emigrado em busca de trabalho que mitigasse a fome e permitisse uma satisfação pessoal, uma lufada de ar e uma esperança no futuro, em oposição a um país moribundo, cheio de velhos do Restelo, sem uma visão globalista, antes pelo contrário fechada e monolítica. Haviam de regressar um dia. Essa era a esperança e o sonho que os mantinha longe e ao mesmo tempo tão perto.

domingo, 10 de maio de 2015

Filosóficas Notas

PAULO BRITO E ABREU


«ex toto corde», ao Mago Merlin, de Tomar
de todo o coração, ao José Manuel Rabaça
I
Como dizia o Professor, e o professo, no Colégio Militar ( e Carlos Dias, o seu nome, em Portuguesa disciplina ), «agora vamos às palavrinhas». Para a mentalidade herdada do Positivismo, e da Revolução Industrial, os poemas, como os sonhos, não servem para nada. As actrizes, nos dias de antanho, eram vistas, ó ledor, como as pécoras e pegas – e «letras são tretas» é o que diz, alfim, o materialeiro. Para Nicolas de Malebranche, o ocasionalista, a imaginação era, literalmente, «a louca da casa», «la folle du logis» na sua triste expressão. Não pensavam, dessarte, os povos Antigos. Para os Egípcios, por exemplo, o deus da Palavra  era, outrossim, o deus da Magia – e seguiram, nessa esteira, os Helenos aticistas. Os nomes, por isso mesmo, são Numes, e na escrita, polida, do Pinharanda Gomes, «quando pronunciamos uma palavra, invocamos um espírito»: e é tal a escola e o escopo da especulação. Para impugnar, aqui mesmo, o filisteu, não é preciso entrarmos, nós outros, na Kabbalah operativa: basta irmos, solertes, ao biblista S. João: «Ao princípio», por isso, «era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus» - e era tal o que assertava o discípulo amado. Provido, desse modo, de Logos, o homem, aqui, é um ser comunicante – e na «communio», por isso, duma Eucaristia, colabora, o ser humano, com Deus, no projecto ou prospecto Criacionista – pois seguindo e segundo o Génesis bíblico, é dever, do «Adam», o criar um mundo novo – e criá-lo, genesíaco, dando graças, e à sua imagem, semelhança e maturação…….
II
Mas o poder das imagens, quero eu dizer, a lição do «Homo Ludens», não é restrito, nem limitado, ao pensar religioso. Pois Sigmund Freud, o promotor da Psicanálise, verificou, veramente, o entremez, entrenoite, do inconsciente: ele se exprime, ou ele se expressa, através das imagens – e a Psicologia abissal foi definida, por Anna O., como a «talking cure», uma «cura», dessarte, «através da palavra». Qual um novo Champollion perante os hieróglifos, devolvia-se, às palavras, seu antigo poder mágico – e nisto se baseava a hermenêutica do Freud. A essa reacção, ou ab-reacção, deu o Sigmund, certeiro, o nome de Catarse: se bem relembras Aristóteles, é, no espectador, a purgação das paixões, oferendada, ao homem simbólico, através do teatro, da música e Poesia. Conjuntamente com Freud, o método catártico foi inventado, para o tratamento da histeria, por os nomes, jubilosos, de Josef Breuer e Pierre Janet. Pois na elação e na moção, a Catarse é outrossim o que emocionam, proporcionam, Mistérios de Elêusis. Patética, por isso, é a purga. Com-pensar, portanto, é pôr o penso. A Catarse é o catarro. E o exprimir, nas ciências humanas, é um pouco o espremer. A Psicanálise, aqui, é qual a retórica; na linguagem do sonho, o inconsciente se revela através de metáforas, de Mitos, de metonímias e mentiras. Pois «tout songe est mensonge», o «ça parle». Toda a Arte é mentira, ou mitomania, que mentada, digerida e matutada, se transforma, mendace, na verdade promissora. Onírica, portanto, a ironia; Sigmund Freud, entanto, um linguista. E é fácil prová-lo: o complexo de Édipo, que é fulcral e crucial em aberta Psicanálise, foi buscar o seu nome ao Sófocles, o «sócio», o Autor e promotor de «O Édipo Rei». Que na linha de Freud, do Ernest Jones e do Jacques Lacan, a edipiana personagem pode ser, mitologicamente, aproximada, à «persona» do Hamlet: a arte mágica é o Mito e a situação é a mesma. Poder-se-ia ligar, em liança, Aristóteles a Freud – e fazer, como em Jacob Levy Moreno, do psicótico e do sonho o solerte psicodrama – e aqui eis a Teurgia. E eis, no Teatro, o fundamento e alimento da Psicoterapia.
III
Às parábolas, aos Mitos e às fábulas eu demando, com fulgor, o mesmo que eu pergunto aos Arquétipos, aos símbolos, aos génios dos Arcanos: dos Arcanos, por isso mesmo, guardaremos a doutrina. E também a Disciplina. Caminhemos, entanto, para uma Arquetipologia ou Logoterapia. Quero assertar, e dizer: de romântica raiz, e fervor idealista, Carl Gustav Jung, o generoso, no conhecimento da Alma deu um passo mais além do que Sigmund Freud. Expliquemo-nos, dessarte: àquilo a que chamava, William Blake, o «génio poético», denominou o suíço, e o sofista, Inconsciente Colectivo: pois tanto um, como o outro, ao serem Religiões são a «fons, et origo», das imagens, dos Mitos, das metáforas: como é facto e como é feito, os grandes livros cultuais ( «verbi gratia», o Alcorão, a Bíblia, e o Bhagavad-Gîtâ ), foram escritos em versos e versículos, quero eu dizer, de forma oracular. Apelemos, então, aqui, por Paracelso, o Pansofista; o Físico só existe pra sarar e o sanar. Se o oráculo é de oração, todo o Sacerdote é assistido, e protegido, por o génio de Mercúrio. Sempre que um Poeta dorme, e sempre que um Poeta sonha, os Anjos sobem e descem por a escada de Jacob – e a escada é a «schola» e a escola é o escol. Se o Vate, linguisticamente, é Vaticano, o Profeta ou Professor é qual o médium, medianeiro, entre Deus e os homens – e ao proferir, o Provençal, ele está, por isso mesmo, a profetizar: e alembramos, com Saudade, um Álvaro Ribeiro, um Swedenborg, um Délio Nobre dos Santos; pois apostemos, por isso, no grémio, no grupo, da Cultura Portuguesa: o paradigma e pascoal, um novo Génio, de Luso ou de Lisa, está por nascer. Muda fonética? Kabbalah? Simples jogo de palavras? Um Poeta, que prezamos, nos dá a resposta; para João Belo, para a Luz, ou para o Jano, «não é por acaso que nada é por acaso».
Tomar, Cidade Templária, 11/ 11 / 2010
AD AUGUSTA PER ANGUSTA









sexta-feira, 8 de maio de 2015

A mulher amada nunca envelhece

ANTÓNIO LUÍS LOPES










A mulher amada nunca envelhece,

nunca as suas rugas provocam

estranheza,

no seu rosto o dia jamais

anoitece e o peso dos anos dança

com leveza,


a mulher amada é sempre a menina

com quem nos cruzámos há

mil anos atrás,

porque o tempo é nada quando nos

fascina a lembrança eterna

de um amor fugaz,


pode ser a mãe, a irmã, a avó

para quem a ama ela é uma

só,

e de cada vez que à mulher amada

roubarmos o beijo que a boca deseja,

ainda que aos 100 anos voltamos a ser

o rapaz que treme

quando a amada beija.