sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Carlos Vale Ferraz- Arte da Memória

MIGUEL REAL 

Porventura com excepção de Os Lobos Não Usam Coleira (1991), toda a obra de Carlos Vale Ferraz é de cunho memorialístico. A obra ora publicada, A Estrada dos Silêncios, não escapa a esta regra.
Na literatura, a memória é historicamente vital e esteticamente transbordante quando reconstrói a realidade, não segunda uma imitação fiel, mas segundo o poder simbólico da evocação que permite recordar e recriar a pluralidade de significações sociais e imagéticas do passado, inclusive o que não se viveu, mas, estando na lógica do acontecimento, se poderia ter vivido. Carlos Vale Ferraz é um escritor da memória.
Recentemente, vimos aqui o modo como Álvaro Manuel Machado trabalha a arte literária da memória, ancorando-a em três ou quatro vivências da realidade individual (Foz Velha do Porto, infância e juventude, a casa da família, exílio…). Carlos Vale Ferraz trabalha a memória literária de um outro modo, não menos nem mais legítimo do que o de Álvaro Manuel Machado.
O autor do incontornável romance Nó Cego (1983) sobre a Guerra Colonial, concretamente sobre a operação militar desencadeada por Kaúlza de Arriaga no Norte de Moçambique, mas também de Soldadó (1988), a história do povo miúdo analfabeto e rural forçado a sobreviver de armas na mão em defesa do Império, reconstrói literariamente a memória logrando confluir os acontecimentos evocados pelas personagens com os diversos sentidos histórico-políticos de Portugal. A memória é, aqui, eminentemente colectiva e reprodutora dos rumos da História - e as personagens verdadeiras metonímias circunstanciais do destino de Portugal. Assim nos seus livros sobre a Guerra Colonial; assim nos romances sobre África, Fala-me de África (2007); assim em O Livro das Maravilhas (1999); assim em A Mulher do Legionário (2013), um dos seus melhores romances; assim no romance ora publicado, A Estrada dos Silêncios, que, portanto, segue em continuidade a oficina literária do autor.
Com a acção decorrida nos finais da década de 80, A Estrada dos Silêncios, fazendo jus ao trabalho da memória a um nível histórico, encontra as suas raízes estruturais no início da Guerra Peninsular, nas consequentes Invasões Francesas (1807 – 1810) e na rebelião dos povos do Sardoal, Vila de Rei e Abrantes contra os soldados franceses.
Uma nova estrada, projectada com Fundos Europeus e anunciada pelos serviços oficiais do Estado e das Câmaras Municipais como símbolo do Progresso, ligando esta zona relativamente desértica do interior à fronteira, é impedida de ser construída pela aparente teimosia de Francisco Afonso, proprietário do Monte Cimeiro, cuja herdade será amputada pela estrada, principalmente um morro de onde sobressai uma oliveira centenária.
Porém, a aparente teimosia de Francisco Afonso revela-se de contornos históricos e de fundamentação dinástica (familiar) e reenvia para duzentos e cinquenta anos antes, quando dois militares franceses, o capitão Alfonse Barre e o sargento Jean Secail desertam e não regressam a França. Os motivos para a deserção de ambos são profundamente diferentes, o primeiro apaixona-se por uma portuguesa de Abrantes (Ana Mendonça), o segundo quer e tenta por diversas vezes mas não consegue retornar a Paris.
Ambos dão origem a duas dinastias familiares diferentes, a do capitão, que finda em Francisco Afonso, e aqui termina definitivamente (sem filhos), e a do sargento que desemboca na pessoa da juíza do Tribunal de Abrantes que analisa o processo de expropriação do Monte Cimeiro, Joana Secalha.
Cruzam-se assim, nos finais da década de 1980, duas visões da história de Portugal, uma, que crê no progresso europeu e encara a adesão à Comunidade Europeia em 1986 como motor da futura felicidade desenvolvimentista dos portugueses; outra, que intenta respeitar o passado e honrar os mortos, já que, sob as raízes da oliveira, se encontram os ossos daqueles que um dia, em 1807, vieram da Europa revolucionária trazer o Progresso e a Razão Iluminista e provocaram uma autêntica hecatombe bárbara em Portugal, com violações e morticínios. Os antigos caminhos de cabras e carroças que Junot, Soul e Massena foram forçados a palmilhar e, de certo modo, contribuíram para a sua derrota, transformar-se-ão agora, por vida de dinheiro europeu, numa estrada lisa, recta e directa por onde os novos invasores entrarão sem impedimento. A própria fronteira já não existe. O Portugal antigo e tradicionalista de Francisco Afonso está a morrer e a machadada final, entende a personagem, será dada pela construção da estrada. Por isso a impede, contra a justiça, o Estado, as Câmaras e, até, contra a Europa, ou, melhor, contra a visão desenvolvimentista de Portugal apoiada pela Comunidade Europeia.
Como decidirá a juíza Joana Secalha, ela própria descendente desse ancestral passado - também europeu – de Portugal? Como reagirá Francisco Afonso à morte desse Portugal de antanho, que ele considera representar? E à cigana e ao cão que vivem solitariamente com ele no Monte? E o que sucederá ao engenheiro Carlos Matias, funcionário da Junta Autónoma das Estradas, encarregue de abrir a estrada europeia e filho do soberbo construtor de Cabora Bassa?
Entre todas, a personagem de Joana Secalha é a mais completa, embora o protagonismo vá inteiro para Francisco Afonso. Joana Secalha sintetiza, de certo modo, a vida dos portugueses universitários pós-25 de Abril de 1974. Maoísta, cultora do amor livre, que pratica em vastas orgias, torna-se senhora respeitável na década de 80 com o cavaquismo, pertencente às elites de Abrantes e arredores. Descendente do primitivo Secail, nome aportuguesado para Secalha, Joana tem a inspecção da máquina do Estado pendente sobre a sua decisão. Como decidirá?


Duas observações marginais. Uma: o espírito paganista africano tem lugar em quase todos os romances de Carlos Vale Ferraz, mas pensamos que exageradamente em A Estrada dos Silêncios, atribuindo a culpa do afogamento do pai de Carlos Matias a uma maldição lançada pelo feiticeiro da tribo deslocada à força do seu território para a construção da barragem de Cabora Bassa. Trata-se de uma enxertia africana forçada num romance que é todo ele escrito segundo a razão europeia. Outra, sente-se por vezes a necessidade de uma revisão literária do romance, há frases, esporádicas, raras, demasiado ligeiras e quotidianas para serem consideradas literárias.


A Estrada dos Silêncios,
Casa das Letras, 352 pp., 17,90 euros.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O naufrágio da Humanidade

FERNANDO MORAIS GOMES

Existe hoje no mundo um contingente de cerca de 160 milhões de refugiados, pessoas forçadas a fugir por recearem pela sua vida e liberdade, e que na maioria dos casos, abandonaram tudo – casa, bens, família e país – rumo a um futuro incerto em terras estrangeiras, vindos da Síria, Líbia, Eritreia, Sudão, Afeganistão ou Iraque, países mergulhados em conflitos étnicos, religiosos, palco de senhores da guerra e do cinismo geopolítico das grandes potências.
Cada vez em maior número, vistos numa óptica securitária e com receio, os refugiados são em larga escala pessoas indefesas ante a violação cabal dos seus direitos humanos, não obstante os piedosos e retóricos tratados, acordos e protocolos internacionais visando protegê-los, mas que no terreno esbarram com a rejeição e o desdém do Outro, vizinho ou conterrâneo, por vezes com uma mera fronteira física ou um lago a separá-los.
A separação dicotómica neste mundo pós-moderno entre ricos e pobres, cristãos e muçulmanos, ocidentais e orientais, sunitas e xiitas, com que se tem rotulado comunidades inteiras, criou uma nova categoria de cidadãos de primeira e cidadãos de segunda, os desejados de um lado e os indesejados do outro. Hoje, deparamo-nos com novos escravos e estes têm um nome: refugiados, os novos indesejados, ameaçando a estabilidade económica e social e fazendo florescer sentimentos xenófobos e de afastamento, apesar das piedosas mas distantes e súperfluas campanhas nas redes sociais ou em protestos coloridos mas que não tiram ninguém da sua zona de conforto, como o não tiraram os Charlies ou os protestos anti-globalização dum passado recente, mobilizadores de jovens burgueses para happenings vistosos e pouco mais.
São precisas políticas humanitárias de inclusão social e acolhimento. O refugiado é alguém que perdeu quase tudo, e para quem apenas subsistiu a esperança, a raiar o desespero. Forçado a deixar o seu país, deambula hoje como zombie esmolando uma cidadania e implorando por liberdade, estima, emprego ou educação.
Segundo um relatório de 2002 do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, o ACNUR, em cada dez refugiados no mundo, sete foram acolhidos por países pobres, e entre 1992 e 2001, do total de refugiados, 86% provinham de países pobres. Quando virão os países desenvolvidos a assumir um papel proeminente na protecção dessas massas humanas em constante movimento, em diáspora permanente das suas pátrias, buscando nada mais que o sagrado direito à vida?. É urgente um Pacto de Humanidade visando a superação deste estado de insegurança colectiva em que o mundo vive, em colapso ético e moral, e que destaque a urgência do respeito pelo ser humano na sua diversidade bem como as diferentes culturas e crenças religiosas e políticas.
Se na frente diplomática é preciso por fim aos conflitos, sem sofismas ou tacticismos, é preciso igualmente tudo fazer para acabar com o tráfico de seres humanos, que acrescenta sofrimento e insegurança a populações já causticadas pelos conflitos que não criaram. E rejeitar os discursos etnocêntricos, pois a humanidade constitui um só povo.
Aos refugiados é preciso reconhecer o direito de ser aceite, conferir-lhe direitos de cidadania que lhes devolva uma identidade e o direito de constituir e manter uma unidade familiar, o reconhecimento do casamento e os direitos para os seus filhos, sem cuja superação teremos o crescimento de um contingente de párias sociais. Mas também o direito a manter as suas crenças religiosas, a manter e praticar a sua língua materna e o seu património e herança cultural, o direito à educação e reconhecimento das suas qualificações, o direito a um emprego e remuneração dignos e em igualdade com os naturais dos países de acolhimento, e, sobretudo, o direito à segurança que os fez sair das suas pátrias, comunidades e famílias, para um mundo que julgavam deles e muitos teimam em considerar coutada privada com admissão reservada, e o direito de poder transitar livremente dentro do país que os acolheu e deste para o exterior, sem serem tratados como presos em liberdade condicional.
A Terra é um só país, e os seres humanos os seus cidadãos. Se esta visão pudesse ser rapidamente transformada em realidade pelos governos nacionais, muito em breve, e quem sabe ainda na primeira metade deste século XXI, teríamos um mundo onde o conceito de refugiado seria considerado algo ultrapassado. Até lá, continuaremos a ver chegar às praias do Mediterrâneo vidas que se perderam pela indiferença e rejeição. Uma vez mais, os sinos dobram. E dobram por nós, analfabetos da Humanidade e náufragos da solidariedade, alcateia ao invés de rebanho e seita em vez de comunidade.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Amor Celeste

PAULO BRITO E ABREU












AMOR CELESTE

( avoco, para a Musa minha, o Arcano, o Arcaico da Força )

Em Númen's multicores, em beleza,
Marinela de plantas se vestia,
E as Graças, os Cupidos, a Magia,
Nos seus cabelos eram a lindeza.

Mansíssima oração, alada deusa,
Coa Lua vens silente em Poesia.
Bendita sejas tu, bendito o dia
Em que o Vate a ti veio com pureza.

Em ti bailam as flores da floresta,
Em ti cessa o meu mal por que eu me afoite.
Bendita sejas tu, ó meiga mesta,

Bendito seja o ventre em que me acoite.
Maria, Mãe das flores, vem qual Vesta,
Maria, Mãe dos astros e da Noite.

AMOR MAGISTER EST OPTIMUS

sábado, 25 de julho de 2015

D.Joana, Princesa de Portugal e de Sintra

RUI OLIVEIRA



   
Nasceu em Lisboa a 6 de fevereiro de 1452 e faleceu no Mosteiro de Jesus de Aveiro, de regra dominicana, a 12 de maio de 1490. Logo no berço foi jurada em cortes por Princesa Herdeira do Reino, titulo que pela primeira vez se dava em Portugal, situação que, com o nascimento de seu irmão o Infante D. João se alterou. O nome de Joana, que recebeu no baptismo, Testemunha a memória de S. João Evangelista, a que sua mãe, D. Isabel consagrava cordial afecto. Aliás, esta devoção a S. João Evangelista e aos seus Cónegos Regrantes, tinha um âmbito familiar basta, por exemplo, ver o empenho que o seu avô materno, o Infante Regente D. Pedro, teve no apoio a esta congregação, nomeadamente no apoio para que fossem os Reformadores do vetusto Hospital – Escola de São Paulo, São Clemente e Santo Eloy, em Lisboa. Quando faleceu a Rainha sua mãe, D. Joana teria apenas três anos, e, o seu pai, D. Afonso V, logo lhe deu casa com a mesma grandeza e fausto, e por mordomo, primeiramente a Fernão Telo de Meneses, do seu conselho, e depois a D. João de Lima, 2.º visconde de Vila Nova de Cerveira. É neste contexto que devemos entender a doação da Vila de Sintra e do seu termo, dentro dos parâmetros que o documento nos revela: «Dom afonso per graça de deo rei de Portugall e do[s] algarves daquém e dalém mar de africa aqu[an]tos esta nossa carta birem fazemos saber querendo faz[er] graça |1  e merce a princessa mynha  sobre  todas muiyto  amada e prezada filha real (por) nosso moto próprio (e) livre bontade certa [?] poder absoluto seus nella e lhe |2 pedir  nem outra por ella lhe fazemos pura e Inrrivogavel doação [?] os bymos baliidar deste dia po[r] os todollos dias de sua byda do nossa billa|3 de Sintra castello e alcaydaria co[m] todos seus termos e senhorios meyo [?] Imp[u]tuo e jurisdiçom [?] e[?] ressalvando pa[ra] nos a correiço[m] e [?]|4 [?]  e com todollas rendas das jugadas rreguengos quartos e oytavos e todos outros dyr[ei]tos [?] q[ue] nos [?] [?] billa e termo avemos e podemos |5 aver e a nos de dyr[ei]to perte[n]cem per quall guysa q[ue] sejam ressalvando per nos some[n]te as sisas geraes e detodo o mais lhe fazemos doaçam e merce |6 como dito é E orem mandamos a todollos corregedores juízes e justiças contadores almoxarifados e oficiais e pessoas q[ue] esta [?] e esta nossa carta |7 for mostrada q[ue] lhe obed[ece]rem logo [?] [?]e lhe [?] com as rrendas e dyr[ei]tos e [?] no dito e [?] [?] castello e alcaydaria aquem|8 ella mandar por quanto nos lhe fizemos de todo nosso como dito é E co[mo] testemunho lhe mandamos dar esta nossa carta por nos assinada e Sel |9 lada do nosso sello de chumbo dada na billa de biana XXXI de janeiro bras lopo a fez anno da Graça de Nosso Senhor Jhesus [Chri]x[t]o de mil IIII LXXX ||10

                                                                    Assinatura Régia e selo

(Cota: Corpo Cronológico, parte 1, maço 1, n.º 27)

  
A Infanta, que chegou a ser jurada Princesa e herdeira da Coroa de Portugal, enveredou pela vida religiosa. Tornando-se digna da admiração de todos pelas suas elevadas virtudes; pelo decoro da sua pessoa que, unia os rigores da maior austeridade nas suas vestes interiores, com a ostentação, a que estava obrigada pelo seu estatuto social, em público e pelas galas a pompa e fausto senhoril. Não faltava nas festas e nas danças com o semblante alegre, mas não perdia um só momento de se entregar com humildade ao jejum, à oração e, sobretudo, às muitas esmolas que repartia com largueza, e por sua própria mão aos pobres. Chegou a ter por divisa, pela sua grande devoção, e a mandar pintar uma coroa de espinhos em todas as salas do seu paço, fazendo-a gravar em sua prata, e esmaltar em todas as suas jóias. Alguns príncipes desejaram tê-la por esposa; Luís XI, rei de França, pediu-a em casamento para o delfim seu filho; Maximiliano, Rei dos Romanos, filho do imperador Frederico III; [Ricardo III], Rei de Inglaterra; porém a Santa Princesa, que na realidade é só Beata, todos rejeitou, porque o seu maior desejo era consagrar-se a Deus.

Nota: A leitura deste documento é bastante dificultada pelo seu mau estado, e, também, devido ao micro filme antigo. As normas de transcrição são as usuais; desdobramento de abreviaturas, com o acrescento dos caracteres em falta entre colchetes rectos [aa]; sempre que uma ou mais palavras são ilegíveis estas são assinaladas com ponto de interrogação entre colchetes rectos [?]; as mudanças de linha, no texto original, são assinaladas com barra vertical e numerada a vermelho |0 ; mantivemos o texto na sua máxima pureza, mas para a sua compreensão utilizamos pontualmente a introdução de algumas vogais ou palavras para auxiliar a compreensão do discurso, que foram colocadas a vermelho entre colchetes curvos (e).
            Túmulo da Infanta no Convento de Jesus, em Aveiro


quarta-feira, 15 de julho de 2015

O jogo da “batota” e o castigo!

RUI OLIVEIRA


O João de Belas, Feitor na Armada de Ormuz, capitaneada por Gonçalo Duarte de Lemos, por falecimento de Gomes de Figueiredo, em cuja feitoria esteve entre Janeiro de 1510 e Junho de 1511, foi um “Ilustre” vizinho de Belas que a toponímia local regista como navegador. Cavaleiro da Casa Real, mas, como muitos outros, a sua fidalguia era circunstancial. Todos sabemos que Portugal, como reino pequeno e de população diminuta, para a grande tarefa dos Descobrimentos e levantamento do fabuloso empório comercial, facilitava a ascensão económica e social de muitos plebeus, Cristãos e não Cristãos, nacionais e estrangeiros.
 
Como tudo na vida, nada é perfeito, e, como justificando o secular adágio popular: “o hábito não faz o monge”, o nosso João de Belas meteu-se em trabalhos; foi apanhado a jogar as cartas, o mesmo será dizer: “na batota”, em sua casa, com outros indivíduos. Nessa época, na Lisboa quinhentista, o jogo das cartas e dados eram considerados vícios poucos cristãos e, como tal, crime, como referem as Ordenações Manuelinas, no título 48 - no Livro 5 - “como sam defesas as cartas, e dados”. A justiça régia não se fez tardar. Assim, o João de Belas perde metade da sua casa (a mesma onde se reuniam para a jogatana, Jorge Annis, Joham Afonsso e Foyas Joham Anriiquiz) para o denunciante do crime, um tal Francisco Tavares, Moço de Câmara del-Rei, a quem D. Manuel fez Mercê. 


Devo dizer que, nos alvores e na primeira metade de quinhentos a vida na urbe lisboeta era febril e palpitante. A azáfama quotidiana, aos olhos de alguns, assentava numa inata propensão para a materialidade, para o apego às riquezas, aos bens “terrenos” e, até, à luxuria decorrentes do “relaxamento de costumes”. O facto, e a resultante atitude apreensiva de certos sectores da Sociedade coeva é perceptível, por exemplo, no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, nomeadamente nas Cantigas de Álvaro de Brito; ou no Livro de Posturas Antigas da Câmara Municipal de Lisboa. Neste último, “descobrimos” que, o tal, João de Belas não morava propriamente num bairro “in” da cidade; antes e pelo contrário a sua rua, a julgar pela postura municipal, contida na folha 21 e com o título: “das molheres que fezerem por mays homens que por dous”, ficamos a saber que era o, ou um, dos locais da cidade de Lisboa onde a prostituição, no século XVI, era consentida. Será caso para dizer: “Fogo ao pé de palha o diabo lhe sopra.”





terça-feira, 14 de julho de 2015

Soneto inspirado no poeta Bocage

PAULO BRITO E ABREU











SONETO INSPIRADO NO POETA BOCAGE

( avoco, para a Musa minha, o Ás de Paus como Arcano )

aos meus Amigos da Academia Carioca de Letras
à memória de Jacob Levy Moreno
à Hermética Irmandade dos Amigos da Luz

Ó Musa, que me levas, já cansado,
Arrastando os farrapos, e banido,
Agora, já por zoilos maltratado,
Agora, por cruéis avorrecido......

Com minh'Alma chagada no valado,
Eu choro, e tu comigo, embravecido,
Tu que em cânticos jovens eras Fado,
Tu que arfavas e rias sendo f'rido.

Toma a lágrima, o canto, a solidão,
Toma a lama, as aspérrimas correntes.
Por que dás, por que dás a mim, canção,

As Musas clamorosas e ardentes?
«Verdes são campos da cor do limão.»
E a Nela? E os outros? E as gentes?

AD AUGUSTA PER ANGUSTA

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Festival de Sintra, cinquenta edições, milhentos cuidados

JOÃO CACHADO 
 
No ano passado, depois de ter anunciado que, em 2015, para celebrar a sua quinquagésima edição, o Festival de Sintra contaria com todos os meios adequados – chegando a dar como exemplo o incomparável caso de Salzburg, e assim usando uma hipérbole que expressava a inequívoca disposição e a conforme disponibilidade de o executivo autárquico se adequar ao desafio – o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sintra criou a natural e boa expectativa que, de facto, esta iniciativa cultural merece.
Convenhamos que não se afigurava fácil a tarefa, tanto mais que se acrescentou a responsabilidade de contar com a Senhora Marquesa de Cadaval, a mais desinteressada mecenas a quem o Festival, Sintra e o país tanto devem, como figura tutelar deste jubileu. Na sua condição de mais antigo e mais prestigiado do país, eis o Festival de Sintra, com pergaminhos tais que, para estar à sua altura, preciso é trabalhar com a fasquia muito alta, em todos os domínios, desde a concepção do programa e sua coerência temática, ao contrato atempado dos artistas e, necessariamente, até ao detalhe de todos os aspectos organizativos.
Pois bem, tendo terminado no passado dia 6, é tempo de partilhar algumas ideias, não à guisa de formal avaliação mas, tão somente, com o propósito de que, acerca da quinquagésima edição, fiquem elas alinhadas à consideração de quem pode e deve concluir se os objectivos inicialmente formulados terão sido alcançados e, eventualmente, em que medida poderão ser rectificados alguns procedimentos.
Não me deterei em referências a qualquer dos eventos já que, em tempo oportuno, tanto no Jornal de Sintra, sobre o concerto de Abertura como, posteriormente, nas redes sociais, me fui pronunciando à medida que iam sucedendo. Tal não significa que me furte a indicar momentos ou circunstâncias que considero terem constituído pontos mais altos e menos positivos do Festival.
Deixem-me, porém, voltar à questão dos pergaminhos para vos confessar que, por vezes, chegam a intimidar. É que, pelo Festival de Sintra, passaram só os melhores do mundo, desde maestros, a pianistas, violinistas, violoncelistas, agrupamentos de câmara, orquestras, etc. É verdade! Há poucos dias publiquei o palmarés que impressiona qualquer melómano por mais rodado que seja…
Gostaria de confirmar que o tal prevalecente propósito de estar à altura do passado, não equivale à absoluta necessidade de contratar galácticos de nível idêntico. Absoluta e inequivocamente indispensável, isso sim, a manutenção do maior respeito pelo serviço à Arte e nenhuma concessão à facilidade, ao improviso ou à falta de dignidade na celebração da grande Música.
2015, altos e baixos
Em geral, nada houve que tivesse posto em causa os exigentes e exigíveis padrões de qualidade. Pelo contrário, momentos como o do recital inicial de Nelson Freire, no Centro Cultural Olga Cadaval, ou de ambos os concertos que contaram com Olga Prats, no Palácio da Vila bem como, na Quinta da Piedade, os eventos com o Quarteto Moscovo e o recital do pianista Jeffrey Swann, incluíram momentos da maior elevação. Pelo contrário, infelizmente, terei de registar – não inerentes a momentos de vivência musical mas a falhas de organização – circunstâncias que, de todo em todo, por não terem sido evitadas, afectaram o usufruto do público.
Muito especificamente, mesmo não entrando em pormenores, de referir uma série de indícios de manifesta escassez de recursos que acabariam por  comprometer o nível desejável. Desde os pianistas que, na maioria dos casos, não tinham quem lhes virasse as folhas das pautas, até aos programas de sala e programa geral, paupérrimos, pouco mais se limitando do que ao registo das biografias dos artistas, estivemos perante uma indigência que, hoje em dia, é raro encontrar.
Não esqueçamos que, além de lugares geométricos de relação com e de partilha da Música, um recital, um concerto, um festival também são lugares de aprendizagem, de profundo enriquecimento pessoal. Para o efeito, suposto é que os programas impressos se apresentem e sirvam como elementos imprescindíveis do acesso às obras, para consulta no momento e memória futura. Nos programas da 50ª edição do Festival de Sintra nem uma palavra sobre as peças, nada sobre os compositores, e, francamente, muito pouco, praticamente nada sobre a grande homenageada, a Senhora Marquesa de Cadaval.
Ainda de registar uma falha de organização que terá impedido a apresentação dos Carmina Burana, de Carl Orff, tal como anunciava o programa do concerto de encerramento, com a Banda da GNR, as vozes solistas de Ana Paula Russo, soprano, Mário João Alves, tenor e Armando Possante, barítono, bem como o Coro Lisboa Cantat. Em sua substituição, imprevistamente e sem qualquer relação programática, cronológica, temática ou outra, a referida formação musical apresentou peças de Samuel Hazo, Schostakovitch, Duarte Pestana, Saint Saens, Manuel de Falla e Tchaikovsky.
Sob a designação de Contrapontos, as conferências e concertos por bandas filarmónicas correram de forma bastante satisfatória. Entretanto, a transmissão televisiva dos eventos do Festival para as comunidades – em diferentes pontos do concelho, via streaming, em directo ou diferido – foi um programa que deu uns primeiros e tímidos passos que será necessário melhorar significativamente para que o resultado ora perspectivado seja efectivamente alcançado.
Em suma, uma edição do Festival de Sintra cujo interesse, num ano particularmente crítico de celebração e de homenagem, foi potenciado pela efeméride que alimentaria expectativas algo mitigadas por dificuldades que importa avaliar convenientemente.
Tal como tenho vindo a insistir em diferentes oportunidades, considero de toda a pertinência de operacionalizar o funcionamento permanente de  pequena equipa, não mais de dois elementos, exclusivamente afecta à preparação de todas as operações de uma iniciativa cultural com o gabarito que o Festival de Sintra já teve e que cumpre recuperar a todo o transe.