sábado, 24 de outubro de 2015

Alimpar e consertar os orgauos



RUI OLIVEIRA

Continuando a saga dos Tangedores e Conservadores dos órgãos do Paço Real de Sintra que se presumem ter sido dois, por referências documentais, nomeadamente um na capela e um outro no salão; trazemos hoje novo documento da Chancelaria Régia de D. Manuel, em que faz concessão a António Martins, Clérigo, para a função de limpar e consertar os órgãos do paço
A nomeação para tal função é a partir de janeiro de 1521, com dois mil reis de mantimento, ou seja de ordenado; o mesmo que recebia Frei Diogo, o anterior conservador.
Aqui fica a transcrição da carta de nomeação: «ant[óni]o ma[rti]inz [no lado interno da folha] - Dom man[u]ell etc. Aquantos [e]sta nossa carta birem faze |1 mos saber qui querendo nós fazer certa graça e mercee a |2 ant[óni]o m[a]r[tin]z creliguo de Mis[s]a e m[orad]or em Sintra temos p[er] bem e |3 nos [a]p[ra]z qui elle tenha e aja de nós de mamtimento cada ano |4 de janeiro q[ue] bem de be XXi [isto é: [1]521] em diante de dous mil r[ei]s p[er] ter car[r]eguo |5  de alimpar e consertar os orgauos da nossa cap[el]a e da sala dos |6 paçoos da dita bila asi e per maneira qui tinha Frey |7 diogo qui se foy pa[ra] castela e porem ma[m]damos ao nosso almox[arife] |8 qui ora he e ao diante for do dito almox[arifado] de Sintra |9  qui em cada hum anno lhe deem paguua per esta so carta sem |10 mais tirar [?] di nossa fazenda e per o treslado della qui |11 sera registada nos liuros do dito almox[arifa]do per esp[c]riuam delle |12 com o c[onhecimen]to do dito amtam m[art]i[n]z lhe seram [l]evados em c[on]ta dada |13 em a nossa cidade debora aos quatro de novembro andré brás a fez |14 de mil be [= 5oo] XX anos||15 ».







Normas seguidas na transcrição: Carecendo a ortografia medieval de regras rígidas, tanto no que diz respeito à grafia, como no que diz respeito à segmentação ou junção de sílabas, torna os textos em leitura desafiadora, pelo que optamos por os manter na sua máxima pureza. Apenas desdobramos abreviaturas, colocando os caracteres em falta dento do parêntesis rectos [a]: Qualquer comentário nosso, ao texto, é, também, colocado em parêntesis rectos, mas o texto a vermelho e corpo inferior; As mudanças de linha são assinaladas com barra vertical e numeradas a vermelho |0, nos parágrafos assinalamos com barra dupla ||0  



quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Sintra livre de maus ares

RUI OLIVEIRA



O Martim (Martinho) Albernas, oficial régio em Sintra escrevia ao seu Senhor, El Rei D. João III, a 17 de junho de 1527 uma carta, em que relata a situação da vila face à peste e recursos locais, nomeadamente, alimentares, para que o Rei pudesse aqui folgar e desenfadar-se. O teor da carta é ilustrativo da vida na Vila de Sintra, nos princípios do segundo quartel do século XVI. Aqui deixo a transcrição e imagem, dessa carta que integra o Corpo Cronológico (primeira parte), incerta no Maço 37 e com o numero de documento 56 : « Eu detremjney fazer sab[e]r a bos[s]a alteza como estava esta byla |1 a Inda que a ella qui[zes]se bir  folgar fazendo este Sam joham cy|2 nquo anos que quan[d]o beio. Syntra S[enh]or esta muyto fora dos |3  ares de peste nos[s]o S[enh]or deos seja sempre muyto honnrado e asy co[mo] |4 comarcas darredor. E p[ar]a ho [?] esta de pam muyto boa|5 e asy binho aInda q[ue] hi belho tem muytas carnes pescados|6 fruytas aInda que no[m] sam muytas muyto pouços calmos|7 E bo[o]ns ares e aguas muyto fr[es]cas esta de maneyra que|8 ouuera bos[s]a alteza nella de folgar porque asy ho fazy |9 am os Reis passados que ho mor descansso que tinham |10 by[e]ram cadano ca ter birom. E asy ho devera difazer|11 bosa alteza por Synt[r]a no[m] ser tam agravada porque S[enh]or |12 ser  certo que villa e seu termo e comarca manteram bosa |13 alteza mylhor que n[e]nhu[m]a billa de portugall tamanha p[or]|14 tamanha e  aInda agora posto que bosa alteza esta tam [?] |15 [?] podya fazer hu[m]a romarya a nossa S[enho]ra da pena e fol |16 gar qua [ o mesmo que: cá na Vila] binte ou trinta dias e desenfadar da cans |17 canseyra [?] [?] E si eu S[enh]or aceytem s[er] guarda da billa|18 há tantos tempos foi por amor di bosa alteza[?]|19 aella e no[m] ter razom de dizer p[er] [?] [?] |20 saa eu fora la folgar e por tyrar estes [?]|21 [?] ho miu [?] e no[m] ma aproveyta  pois bosa |22 alteza qua no[m] bem nosso S[enh]or  [?] Riall |23 estado de bosa alteza com [?] de  byda aseu S[er]|24 vyço [?] de sint[r]a a xbii d[ias] de Julho m[il]b10 [b = 510 = 500] e xxbii||25

Cryado de bosa alteza                                          m[ar]ty[nho] alb[er]naz||26»  (1)

 Esta família, de apelido Albernás, esta ligada a Sintra por via das suas actividades no Paço Real da vila. Temos notícia de um outro Albernás, um tal Fernão Martins Albernás, que julgo poder ser filho de Martinho, ou mesmo seu neto, que El Rei D. João III, no mesmo ano de 1527,  nomeia tangedor dos órgãos da capela do paço. Cargo que acumula com o de Escrivão das Obras do mesmo paço: « Eu ey por bem e me apraz que Fernão Martiz Albernaz, meu moço de camara, escriuão das obras de meus paços da villa de Syntra Tenha daquy em diamte carguo de tamger os orguãos da capella dos ditos paços, e de olhar por eles, e asy poll orguãos dos ditos paços e de os concertar e fazer alimpar asy pola maneira que o fazia frey D[iog]o já defunto, que o dito carreguo tinha: e ey por bem que o dito Fernão Martiz aja com ele deordenado em cada huu[m]  anno, de janeiro que passou deste presente anno de b[int]e Ij [1522] em diamte dous mil rs [reis], que he outro tamto como tinha o dito frey diogo, os quaes dous mil r.s [reis] lhe serão paguos com certidão do almoxarife dos ditos de como asy deles tem carreguo na maneira que  dito hee manduuos que lhes facais assentar os ditos dous mil r.s [reis] de mantimento no liuro das ordinárias de minha faenda e leuar em cada huu[m] anno do dito janeiro em diamte na folha do assentamento do almoxarifado da dita vila pera lhe nelle serem paguos polla dita maneira, e este aluaraa quero que valha e tenha força e uigor como se carta fosse feyta em meu nome per mim asynada e pasada pella chancelaria sem embargo das ordenações do segundo liuro que dispõem o comtrario – Luis Tauares o fez em Almeirim a dezasseis de março de jbeIi [ (1)527]  eu Antão dAfonsequa o fez escrever.» (2).

Dois vizinhos sintrenses, moradores na Vila, que conhecemos, hoje, através destes documentos mas que, por pistas documentais, a vida os levou também, para outras paragens ligadas ao nascimento do Império Marítimo do Reino de Portugal. A seu tempo acompanharemos tanto quanto for possível esse périplo. Seja como for, esta primeira geração de Albernás  jaz em terra sintrense, no jazigo de família, na Igreja de Santa Maria de Sintra.


(1)- Nota: As normas utilizadas nesta transcrição são as seguintes: o desdobramento das abreviaturas são feitas colocando os caracteres em falta entre parênteses rectos [z]; no caso de existir dificuldade de leitura de palavra o estas serem ilegíveis, colocamos um ponto de interrogação entre parênteses rectos [?]; qualquer comentário adicional, ao texto, original é colocado também em parêntese rectos e o respectivo comentário em corpo mais reduzido e a vermelho [a vila]. A mudança de linha no texto é assinalada com barra vertical com respectiva numeração, sobrelevada, a vermelho |0; no caso dos parágrafos ou mudança de folha a barra, vertical, é dupla||0

(2) - TT – Chancelaria Regia de D. João III, livro 67, folha 160.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Palácio de Queluz, pretextos para uma reflexão

JOÃO CACHADO





É já no dia 22 de Setembro que a Parques de Sintra apresentará o programa do ciclo de música barroca Noites de Queluz – Tempestade e Galanterie, cuja segunda edição volta a ter como Director Artístico o Maestro Massimo Mazzeo, que falará detalhadamente sobre o programa.


Desde já, poderei adiantar não ter a menor dúvida de que, depois do êxito da primeira edição, esta próxima continuará exactamente na mesma linha. A Parques de Sintra é uma entidade que nos habituou a não deixar créditos por mãos alheias. E, porque assim é, também no domínio das propostas musicais, uma vez alcançado o patamar da excelência, vai saber mantê-lo.


Com os ciclos Tempestade e Galanterie, no Palácio de Queluz, no Outono e Primavera, Serões Musicais, no Palácio da Pena, durante o Inverno, e Reencontros – Memórias Musicais de um Palácio, em pleno Verão, no Palácio Nacional de Sintra, a Parques de Sintra tem vindo a promover a melhor música dos períodos clássico, barroco, romântico, medieval e renascentista, com palestras de enquadramento por especialistas do melhor nível.


Neste universo da actividade musical, Sintra está a beneficiar extraordinariamente com as iniciativas da Parques de Sintra, Monte da Lua, entidade que, afinal e novamente, a reposiciona como local onde se pratica a melhor música, por grandes intérpretes.


É com estas preocupações, tendo em conta os mais permanentes e exigentes padrões de qualidade e no quadro de propostas tão interessantes e requintadas, que consegue atrair a esta terra, não só os melómanos de toda a zona de Lisboa mas também de outros pontos do país, que se deslocam propositadamente, bem como estrangeiros de passagem que não perdem a ocasião para acederem a tais programas.


Regime mais-que-perfeito


É, portanto, no Palácio de Queluz, objecto de uma importante campanha de obras de recuperação e restauro em curso, que se vão concretizar os eventos do ciclo cujos detalhes de programação se aguardam. Pois bem, nada mais a propósito que a conveniência de mais uma chamada de atenção para assuntos, que, tão frequentemente, tenho abordado acerca de peças que, com o máximo orgulho, designamos como as jóias da coroa, pelo Estado português confiadas à Parques de Sintra.


Fê-lo de acordo com um regime de afectação em que, nem um cêntimo - dos vários milhões de que a empresa necessita para manter, administrar, gerir e, portanto, também financiar todas as obras congéneres com a qualidade que, é do domínio público, se reconhece como a melhor do mundo - nem um cêntimo, repito, sai do bolso dos contribuintes!


Nalguns casos, tais necessidades também são supridas por subsídios internacionais aos quais a Parques de Sintra se candidata. Contudo, é o produto das verbas obtidas através da venda dos bilhetes de acesso, isso sim e inequivocamente, que financia obras tão exemplares. Trata-se de um regime do maior interesse, cujos positivos e benéficos resultados estão à vista, nomeadamente, através das obras de preservação e restauro já efectuadas e em curso. E, não esqueçamos, tudo o resto como, por exemplo, as tão sofisticadas propostas de animação musical como a do caso presente…


Ninguém duvida de que tanto a Câmara Municipal de Sintra como a Parques de Sintra e o recentíssimo Gabinete do Património Mundial, este que surge de um Protocolo entre aquelas duas entidades, saberão estar à altura dos benefícios decorrentes daquele regime.


E, porque assim é, em função dos óptimos resultados que a experiência e a prática têm demonstrado, não me parece que careça de quaisquer alterações, nem ao nível do pacto social da PSML, nem quanto ao destino e à aplicação do importantíssimo volume das verbas resultantes dos bilhetes liquidados por cerca dois milhões de visitantes.


Por fim, não esqueçamos que, muito especialmente, em resultado da acção da Parques de Sintra, tão divulgada por esse mundo fora, a procura turística disparou para números que a comunidade de Sintra dificilmente acompanha, em particular, nos aspectos mais críticos do transporte e estacionamento, mobilidade em geral e acesso aos pontos altos da Serra.


Com o objectivo de contribuir para a resolução de tais questões, todos não seremos demais. E, pessoalmente, bem posso dar testemunho de que as associações cívicas e culturais de Sintra, nomeadamente, Alagamares, Associação de Defesa do Património de Sintra e Canaferrim - Associação Cívica e Cultural, chamadas ao envolvimento que lhes compete, não têm regateado os seus préstimos.

sábado, 19 de setembro de 2015

Escorreguei na cauda de um dragão

BÁRBARA JORDÃO RODHNER


Desci a cauda de um dragão. Escorreguei.


A beleza de um animal ancestral é a sua brutalidade, a sua ausência de medo. Garras em vez de mãos. Escamas em vez de pele. Queimada do sol, suei. O corpo-crocodilo imanava um cheiro ácido de sexo versus a minha virgindade árida e adocicada. Sabia ao que ia. Sabíamos os dois...


Nenhum vacilou. Nenhum se demorou...


Desviando o olhar um do outro, procurámos as bocas onde ainda não moravam beijos. Respiramos juntos...


No entreaberto-pequeno por onde vibram os corações humanos as línguas encontraram-se num ninho. Unindo-se, uniram-nos. Senti as pernas encharcadas, as costas feridas sangravam pequenas gotinhas de fel.


Silêncio! A boca fechou-se. O arco da cabeça vibrou. Entregamo-nos os dois...


Não há amor onde existe ego. Não houve performance. Nem tão pouco houve só sexo. Houve tudo o resto... Mão na mão. Peito a favor de peito.


- Porque demoraste tanto?


- Acho que perdi o foco no caminho...


Palavras a mais para quê? Chegámos onde éramos destinados. Reconhecemo-nos. Reencontramo-nos. O resto são literalmente restos sem nexo...


Senti o líquido sagrado subir-me as entranhas.


- És meu?


- Todo teu.


As bocas reuniram-se em paz e foi assim que o primeiro beijo da humanidade se deu.


Desci a cauda do dragão... Escorreguei mas não cai.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Mulher Braba

BÁRBARA JORDÃO RODHNER






Os sapatinhos vermelhos ardem-nos nos pés.

Quem somos nós?

As brabas...

Mulher carcomidas em suas almas.

Mulheres desmembradas.

Mulheres mal-amadas...

Somos as mulheres-filhas-da-mães que fazem o fogo nos seus fogões, que assam a comida nas suas entranhas, que lavam o chão com o seu suor, que limpam os talheres até brilharem no escuro e com as suas lágrimas ainda esfregam o fogão...

Somos as Sylvias Plath fartas deste caminho. As mulheres sem mãos...

Perdemos o norte, o sul, o oeste e o faroeste.

Perdemos os índios porque fomos comidas por cowboys...

Em noites de lua cheia fugimos das camas perfumadas e passadas a ferro para corrermos nuas e inteiras nas clareiras das fogueiras.

(Pois) Já não somos ninguém...

Procuramos o "tudo" para encontrarmos rigorosamente nada.

Já não somos ninguém...(?)

Ergueram-nos estátuas-frias para depois nos arderam junto dos livros antigos.

Fomos adoradas para rapidamente sermos esquecidas...

Já não somos ninguém (...)

Mulher braba, também eu ando perdida, estende-me o teu braço que eu dou-te a minha mão.

Quando a lua regressar com os seus segredos de negrume-preto vamos prometer(nus) caminhar juntas pelas entradas da loucura até ao vale da imensidão.

Mulher braba, calaram-nos a voz mas não nos calaram a alma que ainda arde ao sabor do vento nas lareiras vazias de fogo cheias de teias de aranha esquecidas...

Trocaram-nos por ares condicionados, é um facto, mas não estamos totalmente perdidas.

Mulher Braba, que as tuas noites de horror se juntem às minhas, que o teu útero jorre, agora, somente de alegria, que a tua avó sossegue junto da minha porque nem tu, nem eu, nem as nossas filhas, devem sofrer esta agonia de cantar um canto cândido que toda a alma dança mas só ás escondidas...

Que se fodam as torradeiras!

Que se queimem as assadeiras!

Que vão para o inferno as barrigas-gordas cheias de fome porque o nosso destino é dançar loucas e sem destino até nos cortarem os pés.

E já agora "Sapatinhos vermelhos"...

Esses fodidos e estrupidos "sapatinhos vermelhos" que se expludam em mil pedaços!

Até ao final de todas as Brabas.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Eros Extático

PAULO BRITO E ABREU












EROS EXTÁTICO

( convoco, para a Musa minha, o 10 de Copas caroal )

Os meus lábios são húmidos da boca
Que aprendi a beijar como ninguém,
Que Maio é comoção, a terra é pouca:
No mar, o teu Amor é mais além.

E à noite, a cor é vela em nossa toca,
A rosa a ti, Maria, te convém.
Marina e a fiar, navio ou roca,
A voz rouca, tu lias em Belém.

Por isso à Bela eu amo. Ao lado o círio
Me diz que ela é Cibele, e eu fecundo;
Gritamos, ela grita em seu delírio,

Infinita ela jaz, e eu no fundo......
Por isso a Paz, a Lua até ao lírio,
Bela vás, vás até ao fim do mundo.

SIC ITUR AD ASTRA