quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A cruz e a rosa

PAULO BRITO E ABREU












A CRUZ E A ROSA


( convoco, para a minha Musa, o 3 de Copas Arcano )


( à memória, caroal, de Eliphas Lévi )


Se todos forem rudes, e a Rosa, em castigo,

Não tiver um Amigo, não beijar a benesse,

Ergue os olhos ao Pai, que o Paulo é contigo,

Ergue os olhos à missa, e lá será a messe.


E quando, ó Rosa minha, tu quando sentires

Que a noite é solitária, e o lábaro, um lamento,

Ergue os olhos ao Céu, ergue os olhos à Íris,

- E firme ficarei, ficarei no Firmamento...........


MENS AGITAT MOLEM


PAULO JORGE BRITO E ABREU

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Abriram a caixa...


JOÃO CACHADO

No princípio deste ano, aquando do atentado ao Charlie Hebdo, não fui capaz de aderir àquela onda generosa do slôgane Je suis Charlie e, no dia 11 de Janeiro, nesse contexto da minha cínica incapacidade, escrevi um texto publicado nas redes sociais do qual passo a reproduzir o seguinte excerto:

 "(...) Tenho a maior das dúvidas acerca da «eficácia» desta mega-manifestação em curso entre a République e Nation. Está ali concentrada a crème de la crème dos «estadistas» da classe política europeia, com nível mais que duvidoso,... responsável pelo statu quo que enquadra e «viabiliza» o surgimento de fenómenos como o que emoldura o terrorismo jiadista. Ou, de facto, se dispõem a mudar a política que têm conduzido, ou esta marcha perde qualquer significado. (...)"

Hoje, 14 de Novembro, recorrentemente, só me ocorre a cena antológica em que certo Primeiro Ministro do governo de um periférico Estado europeu - que, não muito mais tarde, guindando-se ao supremo cargo de Presidente da Comissão Europeia, colheu as subsequentes «mais-valias» do seu heróico feito - recebia nos Açores a quadrilha dos malfeitores que destaparam a caixa de Pandora ao decidirem a segunda Guerra do Golfo, contra o ditador que, pretensamente, dispunha de armas de destruição maciça.

Passados doze anos, no dia 3 deste mês, morreu em Bagdad, Ahmed Chalabi, xiita laico ultra-ortodoxo iraquiano, que passou aos neocons americanos a mentira da posse de armas químicas e biológicas pelo regime de Saddam Hussein, mentira que, sabiamente aproveitada, não podia ter sido servida mais a tempo e tão a propósito da gula avassaladora dos senhores da guerra, afinal, tão bem amestrados por Bush e Blair.

Xiitas contra sunitas, pondo em causa os equilíbrios mais instáveis do planeta, destruindo Iraque, Líbano, Síria, Líbia, mancha de óleo alastrando num campo que a embebe em sorvos imparáveis, eis o cenário que, inevitavelmente, a jusante, apresenta estes «efeitos colaterais» de actos terroristas levados a cabo nas grandes metrópoles.

Paris, Londres, Madrid, Nova Iorque «vítimas» de ignorantes implacáveis, de títeres habilmente manipulados, que recrutam para a guerra santa miúdos desenraizados, descrentes, subprodutos de inimagináveis subúrbios? Aparentemente, também. Contudo, convém evitar a precipitação de juízos «confortáveis». A lucidez, mãe do desassossego, não nos concede território para mais asneiras. E nós é que somos os senhores do Mundo!

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Paris

ANTÓNIO LUÍS LOPES



  







 Partiram. Era de noite e havia música

 e perfume no ar, havia risos, havia

 uma rua cheia de gente, uma cidade a

 transbordar de Vida,

 as pontes, as vielas, as luzes que se

 refletem no rio, talvez uma concertina,

 talvez uma voz cantando.

 Partiram. Tinham dado as mãos. A felicidade

 era agora, era ali, eram eles. Podiam

 respirar a energia daquele momento,

 sentir-se únicos, sentir todos os sabores

 do Mundo na ponta da língua e serem o Mundo,

 podiam entrar ou sair dos cafés, trocar

 olhares com quem passava, folhear os livros

 nas bancas dos alfarrabistas, pontapear

 as folhas mortas no chão.

 Partiram. As balas não os escolheram, eles

 apenas estavam lá, aquela era a hora, aquela

 era a noite, queriam ainda sorver o último

 golo de café quente, queriam ainda

 sentir nos dedos o cabelo um do outro,

 mas não havia tempo, as balas não têm relógio,

 não hesitam, não se detêm perante a beleza

 do momento, não têm remorsos.

 Partiram. De mãos dadas. Mas nunca sairão

 de Paris, onde se continuarão a amar, a sorrir

 um para o outro, a percorrer os boulevards,

 a rir da Morte, a rir das balas, a debruçar-se

 nas pontes e a escarnecer do ódio

 sempre que as folhas caírem e o

 Outono chegar.

sábado, 24 de outubro de 2015

Alimpar e consertar os orgauos



RUI OLIVEIRA

Continuando a saga dos Tangedores e Conservadores dos órgãos do Paço Real de Sintra que se presumem ter sido dois, por referências documentais, nomeadamente um na capela e um outro no salão; trazemos hoje novo documento da Chancelaria Régia de D. Manuel, em que faz concessão a António Martins, Clérigo, para a função de limpar e consertar os órgãos do paço
A nomeação para tal função é a partir de janeiro de 1521, com dois mil reis de mantimento, ou seja de ordenado; o mesmo que recebia Frei Diogo, o anterior conservador.
Aqui fica a transcrição da carta de nomeação: «ant[óni]o ma[rti]inz [no lado interno da folha] - Dom man[u]ell etc. Aquantos [e]sta nossa carta birem faze |1 mos saber qui querendo nós fazer certa graça e mercee a |2 ant[óni]o m[a]r[tin]z creliguo de Mis[s]a e m[orad]or em Sintra temos p[er] bem e |3 nos [a]p[ra]z qui elle tenha e aja de nós de mamtimento cada ano |4 de janeiro q[ue] bem de be XXi [isto é: [1]521] em diante de dous mil r[ei]s p[er] ter car[r]eguo |5  de alimpar e consertar os orgauos da nossa cap[el]a e da sala dos |6 paçoos da dita bila asi e per maneira qui tinha Frey |7 diogo qui se foy pa[ra] castela e porem ma[m]damos ao nosso almox[arife] |8 qui ora he e ao diante for do dito almox[arifado] de Sintra |9  qui em cada hum anno lhe deem paguua per esta so carta sem |10 mais tirar [?] di nossa fazenda e per o treslado della qui |11 sera registada nos liuros do dito almox[arifa]do per esp[c]riuam delle |12 com o c[onhecimen]to do dito amtam m[art]i[n]z lhe seram [l]evados em c[on]ta dada |13 em a nossa cidade debora aos quatro de novembro andré brás a fez |14 de mil be [= 5oo] XX anos||15 ».







Normas seguidas na transcrição: Carecendo a ortografia medieval de regras rígidas, tanto no que diz respeito à grafia, como no que diz respeito à segmentação ou junção de sílabas, torna os textos em leitura desafiadora, pelo que optamos por os manter na sua máxima pureza. Apenas desdobramos abreviaturas, colocando os caracteres em falta dento do parêntesis rectos [a]: Qualquer comentário nosso, ao texto, é, também, colocado em parêntesis rectos, mas o texto a vermelho e corpo inferior; As mudanças de linha são assinaladas com barra vertical e numeradas a vermelho |0, nos parágrafos assinalamos com barra dupla ||0