segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O António latoeiro e a Maria Domingas, sua mulher

RUI OLIVEIRA e CARLOS LEITE


A mais das vezes, em documentos escritos antigos, é possível, sobretudo nos de foro jurídico e de raiz sentencial, vislumbrar histórias de vida, formas de estar e de interagir em sociedade ou, somente, a nível individual. É o caso dos processos do famigerado Tribunal do Santo Ofício. Processos volumosos, em geral, burocráticos mas, por essas mesmas razões, ricos em informação sobre pessoas, ideias e acções. A história que aqui deixamos é curiosa e bem ilustrativa de uma época, pautada por esplendor social generalizado, em que todas as classes sociais se procurava a promoção social e económica, nos mais variados títulos, desde o simples irmão da irmandade de……; ou cavaleiro de….; ou Conde de….:
Bem…. vamos então à história!
Era uma vez um António, que era casado com uma Maria…
Geralmente, as Marias (ou quase todas) são sempre casadas com um José, mas desta vez não. Até porque a Maria não se chamava só Maria (era Domingas Maria), e o António não era carpinteiro, mas sim latoeiro…de martelo.
Estamos em Lisboa, em pleno século XVIII.
Faltam alguns anos até a cidade ser sacudida por um violento terramoto, algo que irá ficar para sempre na memória de todos.
Mas isso ficará para outra história.
Dizíamos nós, estamos em pleno século XVIII, mais concretamente em 1733.
Naquela que virá a ser a futura Rua da Vitória (na actual Baixa Pombalina), mora o tal António com a Maria.
O António é latoeiro (que são aqueles artesãos que fazem trabalhos em lata ou folha da flandres), e segundo consta é muito bom no seu ofício, dado que é chamado de “Mestre Latoeiro”. E a fama dele é tal, que lhe permite viver abastadamente.
Mas uma parte do seu percurso de vida tem pormenores bastante curiosos…
Quem for à Torre do Tombo e quiser saber mais sobre este personagem da História de Lisboa, terá que consultar o seu processo da Inquisição (Tribunal do Santo Ofício, Conselho Geral, Habilitações, António, Maço 80, Doc. 1538).
“Inquisição”?
Então mas esses não eram…?
Eram, sim. Mas no caso do nosso António, o seu processo na Inquisição não tem a ver com algum crime de Fé (ou contra a Fé), mas sim com o facto de ele ter pedido uma licença para pertencer ao Santo Ofício (que é outro dos nomes pelo qual era conhecida a Inquisição).
Mas, e o que era isso de querer pertencer ao Santo Ofício?
O nosso António queria pertencer à Inquisição na qualidade de “Familiar”. Um “Familiar” do Santo Ofício era uma pessoa que tinha como função policiar os demais cidadãos, cabendo-lhes, por exemplo, prender alguém suspeito de heresia (assim como confiscar os seus bens), ou até mesmo examinar os presos afim de confirmarem, ou não, se eles podiam aguentar torturas.
Aos nossos olhos, que vivemos em pleno séc. XXI e temos outra mentalidade, outra visão das coisas (graças a Deus), este tipo de atitudes podem parecer-nos um pouco estranhas e até mesmo repugnantes.
Mas….. para as pessoas daquela época, ser “Familiar” do Santo Ofício era uma honra e um estatuto. Por um lado, porque isso conferia-lhes um certo prestígio. Por outro, porque concedia alguns privilégios (como por exemplo, o não pagamento de certos impostos).
Mas, e como em qualquer história, há sempre um “mas”
Para se ser “Familiar” do Santo Ofício, tinha de ser feita uma averiguação de toda a vida do pretendente e da sua mulher, inclusive dos seus familiares (até à terceira geração). A isso chamavam, naquela época, de “Pureza de Linhagem”, ou “Limpeza de Sangue”.
E é no decorrer disto que ficamos a saber, entre outras coisas, que o nosso António não é natural de Lisboa (mas sim de Coimbra), que vive abastadamente do seu negócio e que nunca tinha sido preso nem cometera qualquer crime contra a Fé.
Até aqui, nada de surpreendente; regra geral, estas eram as primeiras informações que a Inquisição procurava saber.
Mas a partir de certa altura, ficamos também a saber que ele era uma pessoa de confiança, capaz de levar a cabo, e em segredo, certos negócios importantes.
Mas o melhor fica para o fim: segundo algumas testemunhas que foram ouvidas pela Inquisição, o nosso António era descendente de mulatos (o seu bisavô materno era mulato).
E há ainda uma outra surpresa: lembram-se da Maria, a sua mulher? Pois ficam a saber que esta Maria, aliás, Domingas Maria, era natural de, nada mais, nada menos, do que da Agualva. E a sua mãe (que também era Maria, mas desta vez Ana Maria, de alcunha a cerra bodes, lavadeira que morreu tragicamente a caminho de Lisboa…. caiu do burro, diz-se) também era da Agualva. E o avô materno desta Maria (a mulher do nosso Mestre Latoeiro, o António de quem temos estado a falar) também era de Agualva, do Casal de Rocanes, ao passo que a sua avó materna era da Rinchoa.
 

Quanto à sua admissão no Santo Ofício, não sabemos qual terá sido a decisão da Comissão de Investigação, dadas as informações rocambolescas que os investigadores foram recolhendo pelo caminho.
 

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

In Memoriam Maria Almira Medina

ANTÓNIO LUÍS LOPES











"eras o desenho, não o que desenhavas. eras

as palavras, não o que elas diziam. eras a menina

girassol no olhar vivo e fugidio, não envelhecias.

terna alma agitada, doçura agreste, por vezes

o mar das Azenhas em dias de tempestade, de outras

a mansidão da Pena na tarde cálida de Agosto.

eras a lâmina, não a ferida. eras a causa, não a moda.

eras o grito, nunca o silêncio.

eras tu. apenas tu. imensamente tu. correndo da Foz

para a nascente. pintando o céu de vermelho.

adoçando o fel. chorando sem motivo ou rindo até

chorares.

Hoje levantei-me cedo, olhei a Serra pela

janela de casa

e vi desenhar-se o teu rosto."
 

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Melomania-Memento

PAULO BRITO E ABREU
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
MELOMANIA-MEMENTO

( avoco, para a Musa, o Arcano e Arcaico da estética Estrela )

Perdida eternamente,
Pra sempre, sempre morta,
A Bela está presente
E bate à minha porta.

Visita-me em segredo,
Às horas mais caladas,
Crisóloga no credo,
As mãos amendoadas.

E Bela volta à campa,
Com passos de veludo,
A Nela que foi estampa,
A Dona que foi tudo.

E eu digo, eu digo à Dona:
«Não vás, ó deia amiga!!!»
Mas ela, que apaixona,
Tão frol, numa cantiga,

É Paz, calor e mente,
É liga, junco, porta,
Amada eternamente
Mas nunca, nunca morta.

AD AUGUSTA PER ANGUSTA

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Jardins de Queluz- mais uma excelente notícia

JOÃO CACHADO

A Parques de Sintra arrancou em dezembro com as obras de recuperação do Jardim Botânico nos Jardins do Palácio Nacional de Queluz. Esta intervenção, com um investimento superior a meio milhão de euros, faz parte do projeto global de recuperação do Palácio Nacional e Jardins de Queluz, cujas obras arrancaram em janeiro de 2015. (…)

Esta intervenção surge ainda como resposta à urgente necessidade de recuperação, salvaguarda e valorização do património cultural e paisagístico que os jardins de Queluz compreendem, com o intuito de lhes devolver o caráter lúdico e interpretativo, respeitando a sua composição e a sua relação com a envolvente. (…)”

[Início das obras de recuperação do Jardim Botânico nos Jardins do Palácio Nacional de Queluz. 15 Dezembro, 2015]
____________________________

Quando deparamos com frequentes notícias deste teor, sempre nos ocorre o facto de se tratar de obras que, em todos os domínios, são extremamente significativas, envolvidos que estão valores como a ética da recuperação do património, a estética, a soberba qualidade das intervenções e os custos afins. Porém, tendo em consideração que, no caso da Parques de Sintra, os recursos financeiros têm origem, praticamente exclusiva, no produto das bilheteiras, ainda mais surpreendidos ficamos.

É neste contexto que, de facto, se enquadra a pertinente questão que passo a colocar. Como regatear o preço dos ingressos se, tão manifestamente, se entende, avalia e conclui acerca do alto discernimento e proveito com que são aplicadas as verbas assim geradas? E, assim acontecendo, durante três anos consecutivos, quando, cumulativamente, a mesma entidade promotora das obras é reconhecida como a melhor do Mundo em recuperação do património?! Ah, se coisas semelhantes sucedessem em tudo «o resto», não só em Sintra mas também em todo o país!...

De qualquer modo, como se verifica em todas as latitudes, é invariavelmente caro o preço do bilhete para visita a qualquer monumento congénere. Não pode ser de outro modo. Por isso e para isso, previamente preparam os visitantes a respectiva bolsa. Sabem que é caro. É caro, torna-se caro e, naturalmente, também por este factor tão determinante, a concretização da visita se transforma num evento perfeitamente extraordinário, raro. Repare-se que se trata de um «investimento» cultual que a família decide aplicar, necessariamente, em detrimento de outras opções.

Famílias haverá às quais jamais se lhe coloca sequer a questão de aceder a um tal espaço, não porque não disponham da verba para o efeito mas porque, pura e simplesmente, é coisa que não lhes interessa. Não foram nem estão motivadas, ignoram olimpicamente, têm diferentes opções. Em contrapartida, outras pensarão, frequentemente, em aproveitar todas as oportunidades de acesso o mais conveniente possível.

A propósito, como não propor um pequeno exercício. Imaginem, por exemplo, uma família de Coimbra, de Castelo Branco ou de Beja, de recursos médios, com um mínimo de interesses de ordem cultural. Quantas vezes visitará a Pena em vinte anos, ou na vida inteira? Talvez uma, duas, quando o(s) filho(s) andava(m) na escola, por ocasião de alguma especial comemoração? E os Palácios de Queluz, da Vila, de Monserrate, o Castelo dos Mouros ou o Convento dos Capuchos?

Pois o mesmo acontece na Áustria, país que bem conheço, com uma família de Melk - cidade que faz parte da Paisagem Cultural de Wachau, classificada como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO - de visita a Salzburg. Nem mais nem menos! Visitará uma vez os famosos Festung Hohensalzburg ou Schloss Hellbrunn. E, tanto em Sintra como em Salzburg, todos ficarão com uma extraordinária memória para o resto das suas vidas…

Estes «investimentos culturais» das famílias nacionais e estrangeiras serão, aliás, tanto mais ou menos frequentes quanto mais «viradas» elas estiverem para o mundo da Cultura e menos focalizadas nos centros comerciais e similares «superfícies» alcatroadas, cimentadas ou arrelvadas... Aliás, como não poderia deixar de acontecer, a verdade é que tal conclusão também é evidente no caso de Sintra porquanto, mesmo com o ingresso gratuito aos domingos, é perfeitamente residual a percentagem de munícipes que usufruem essa vantagem tão generosa.

Daí que não me canse de lembrar e aconselhar os residentes no concelho de Sintra a efectuarem as visitas nos fins de semana, na medida em que os 'nossos' monumentos dependentes da PSML gozam desse privilégio absolutamente excepcional, durante todos os 52 domingos do ano. Convém não esquecer que, em relação aos espaços dependentes do Ministério da Cultura, os portugueses apenas beneficiam de regime algo semelhante no primeiro domingo de cada mês, portanto, apenas 12 vezes por ano…

domingo, 27 de dezembro de 2015

Fim de Tarde

FILOMENA MARONA BEJA



      Eram quatro cadeiras e uma mesa.

     Era um sofá e, em frente, o aparelho de televisão.

       Era a sala.



     Na sala, ela passava a maior parte do dia. Almofada ao canto do sofá, caneca ao lado.

     Olhava o tecto, olhava as paredes. A mancha de humidade ao lado da janela, a mosca que se fora enredar numa teia de aranha.

     Ninguém para contar o que não acontecia. E as horas, umas atrás das outras.



     Um golo de café.

     Na lembrança, uma campainha a marcar o intervalo de dez minutos que parava a oficina. Deixavam-se as mesas de corte, as máquinas de costura. Corria-se para os sanitários.

     “Despacha-te!”

     “Estou aflita...”

     “Aflita!”

     “Olha... adiantou-se-me a coisa, este mês!”

     “Antes isso...”

     “...antes isso!

     A água remoinhava, as portas batiam. E já se estava na fila diante da máquina das bebidas.

    De copo na mão, tornava-se ao giz e às tesouras. Às máquinas que juntavam, cosiam, rematavam.

     Por quanto tempo, até à saída do turno?



     Era ele quem saía, de manhã, para fazer as compras. Trazia o pão, a hortaliça, alguma fruta, algum peixe.

     Carne? Quase nunca.

     “Faz melhor não comer”, dizia. “ E ao preço que está...”

     Era ele quem governava o que ambos recebiam de reforma.

    “É pouco, e tem de ir chegando...”

     Quando ele voltava da rua, ela ia para a cozinha. Fazia a sopa e amanhava o peixe, se havia peixe.

    “Já quase não sei assar um frango!” – dizia, às vezes.

     Entrecosto? O que levava de tempero? E fritar, como se fritava?

     Ao passar do meio-dia, punham a sopa na mesa e comiam.

     Depois, ela levantava-se e lavava, arrumava os pratos. Voltava para o canto do sofá.

     Outro golo de café.

     E, se precisava dar algum ponto, ia buscar o dedal, agulha e linhas.



     Guardava a caixa da costura no móvel da televisão.

     Armário em madeira, baixo, de um modelo que se usara muito noutro tempo.

     “Estilo rústico”.

     A caixa era de folha, o fundo picado pela ferrugem, tampa amolgada. Tinham-lha trazido de Espanha, cheia de caramelos.

     Emparelhava as peúgas que acabara de pespontar.

     “Estão a ficar usadas. Mas, por agora...”

     Ele ainda as iria calçando.

     Recostava-se na almofada e olhava para cima, para o tecto. Depois para a parede, onde a humidade continuava a entranhar-se.



     Ele olhava para fora

     Arredara da mesa uma das cadeiras e fora sentara-se no vão da janela.

     A rua por baixo, feita de gente a pé, postes de candeeiros, um ou outro toldo. Água de uma ruptura a jorrar para as sarjetas. Os carros à pressa pelo asfalto, e um autocarro que dava a curva para outra rua.

     A outra rua tinha árvores dos dois lados. E ia dar a um jardim.



     Ela tornou a ouvir a campainha.

     Agora a do fim do turno, que as punha de corrida para os vestiários. E de corrida, transpunham a porta, o portão.

     Ela também corria.

     Ao princípio porque era rapariga e ia namorar. Depois mulher casada, com pressa de chegar a casa, compor os desalinhos, fazer o jantar.

     Um dia, depois das férias, ela e as outras encontraram as oficinas vazias. Em duas semanas, as máquinas tinham sido vendidas. A fábrica fechada.

     Gritos. Vigílias. Desemprego.

     “Pois foi...”

     Até que chegara a idade da reforma.



     Levantou-se para ir buscar mais café.

     Voltou.

     Sem deixar de olhar a rua, ele disse que o dia estava no fim e era Outono.

     Engano:

     “Já é noite... e o Outono só acontece com o cair das folhas”.

     Com o vento que as leva, e outras coisas que desencantados e poetas costumam inventar.

     Não. Não era Outono.

     Mas talvez já se estivesse chegado ao Inverno.





     Ele chamava-se Camilo. Ela Cassilda.

     Alguém lhes quer dar outros nomes?