domingo, 10 de abril de 2016

A Alcobela árabe de Sintra

JORGE LEÃO





Vamos falar de um sítio antiquíssimo, lindíssimo, e com uma história especialmente dignificante. Mas primeiro, precisamos de ir ao Castelo dos Mouros.

Estamos no castelo. Sabemos que estamos no castelo edificado pelos mouros, com a função de atalaia, de vigia, e de reduto em caso de invasões. Cumpriu a sua função de proteger a população moura e os seus bens, nas sucessivas invasões cristãs e normandas, nos séculos IX e seguintes. Em tempo de paz, dele se controlava a imensidão do Atlântico e a vasta planície do território, a Norte e a Oeste. Mas e o Sul? A Sul temos dois montes muito próximos e que nos tapam a visão do resto. Proporcionam-nos hoje uma vista magnífica do Palácio da Pena, com Santa Eufémia à esquerda. Mas na altura seriam dois montes que já impediam a visualização do sul, tanto a costa, que actualmente corresponde à Linha do Estoril, como o mar, especialmente a barra do Tejo e a sua aproximação. E os mouros prescindiam disso podendo fazê-lo, nesses conturbados tempos? Pensamos que não. Como? Ocupando um local da serra suficientemente elevado, a Sul desses dois montes e também evitando o monte da Cruz Alta que fica ainda a Sul e é o ponto mais elevado deste conjunto. De preferência o mais perto possível do castelo, porém, com uma condição:  ter água e madeira com abundância, necessidades primárias na época para a boa habitabilidade de um sítio. Qual é a zona mais perto com estas características?

Vamos descer do castelo. Vamos contornar o monte de Santa Eufémia. É muito perto. Descemos em direcção à actual Igreja de Santa Maria (Arrabalde) mas antes dela viramos à direita. Vamos pela Rua da Trindade, entramos em São Pedro de Penaferrim (Calaferrim), passamos o Largo da Feira, entramos na Rua Dr. Leão de Oliveira e ao fundo desta rua temos a Fonte do Forno. Olhemos. Aqui já temos tudo que precisamos. Uma magnífica vista sobre o mar a Sul, a barra do Tejo e as praias da Costa da Caparica, e Lisboa a nascente. Com água abundante, madeira e terra fértil. Mais à frente, com os mesmos requisitos, temos um recatado sítio, orograficamente muito curioso, muito bonito, a que os árabes deram um nome que chega ainda a 1312 (1) como Alcubela (2),  e que hoje se chama Covelo.
Este encantador sítio foi habitado por população árabe. População que por lá deve ter ficado após a reconquista. É o mais provável nos casos em que a toponímia não muda imediatamente após a vitória militar e a ocupação do território por colonos cristãos. A pródiga toponímia árabe de Sintra é o resultado da permanência dessas populações após a reconquista, com a anuência de D. Afonso Henriques, a quem também interessava essa permanência. E lá continuou a vida.

Com o andar dos tempos e a vontade dos homens acaba por perder o artigo arábico Al, latinizou-se, e no início do século XVII já se chama, na maior parte das vezes, Cobello.

Uma volta à Serra

A Chancelaria de D. Filipe II, em 1606, a propósito da regulamentação das actividades na serra, considerada coutada real, traça-nos dela o perímetro, como ela era entendida na época, começando exactamente aqui, em São Pedro. Vamos lá então, para desanuviar um pouco, dar uma volta à Serra, segundo este documento:

São Pedro de Penaferrim, Ano Bom, Covelo, Linhó, Ranholas, Penha Longa, Ribeira da Penha Longa, Açamassa, Porto Covo, Zambujeiro, Janes, Malveira, Almoinhas Velhas, Figueira, Biscaia, Azóia, Ulgueira, Pé da Serra, Almoçageme, Penedo, Colares, Eugaria, Vinagre, Ribeira de Galamares, Rio (de Colares?) para a Serra até Sintra com seus arrabaldes, até chegar novamente a São Pedro. (3)

14 filhos em 24 anos

Neste século, mais precisamente em 1645, o “Cubello” faz parte do morgado de Baltasar Peles Sinel, mercador, filho de mercadores, abastado e com pretensões à nobreza. Desse morgado, com casa mãe em Barcarena, fazem ainda parte outras propriedades nesta freguesia, em Leceia, Queijas, Santarém, Manique, Outeiro da Boa Vista. O “Cubello” consta de “...terras de pão, E hua Vinha, e mattos, e outras pertenças que trás de Arendamento Rafael Luís, morador no Lugar do Linho junto ao dito Lugar do Cubello...”(4). E o Rafael Luís deve subarrendá-lo, pois por lá moram alguns casais e respectiva criançada. E houve pelo menos um casamento feliz; Semeão Roiz e Maria Jorge levam a baptizar à igreja de São Pedro, entre 1648 e 1672 a seguinte prole, por ordem de vinda ao mundo: Maria, Sebastianna, João, Catharina, Manoel, Engrácia, Domingos, Caterina, Domingas, Domingos, João, Jerónima, Antonia e Antonio. 14 filhos em 24 anos. Foram felizes ou não? Saudáveis parece que foram!(5)(6)

Entre brenhas

Estamos agora no século XVIII. Nas “Memórias Paroquiais” de 1758, o prior Antonio de Souza Sexas que, na maior parte das vezes nomeia laconicamente os lugares só para indicar o número existente de casas e moradores, destaca o “Cobelo” pelo seu carácter algo áspero, e pela vista privilegiada que tem sobre o mar e o Tejo:

“Ha sim na falda desta sera, hum pequeno Lugar chamado o Cobelo, situado entre brenhas, e sô tem de bom, nos poucos dias, em que o deixaó as nevoas, descortinar huma grande parte de mar, e rio de Lisboa; e sô por esta parte da Sera athe o Convento de Penha Longa, he q se cria alguá Cassa de perdizes, e coelhos: tem suas ortas, e pumares de espinho(7) em cujos fructos se entereçaó muito seus donos, recolhendo naó menos algum trigo, e Sevada: tem este lugar 8 fogos, em que rezidem 36 pessoas...”.

O Cubêlo agora é Quinta.

No século XIX, o nosso Covelo sobe pela primeira vez à condição de Quinta e aparece empertigado, em 1825, na Gazeta de Lisboa, orgão oficial do Reino:

“Vendem-se duas quintas, sitas, huma no Linhó, e outra no Cubêlo, termo da Villa de Cintra, que constão de casas, pomares de espinho e caroço, terras de semear curraes etc., ambas tem agua nativa, e são muradas: quem as quizer comprar, falle na loja de livros de viuva Bertrand e Filhos, junto á Igreija de Nossa Senhora dos Martyres, em Lisboa.”

Se na altura foi vendida, não sabemos. Mas o pacato lugar não irá ficar sossegado por outra razão. A propósito da campanha da tomada de Lisboa por D. Afonso Henriques, e se havia ou não tomado Sintra antes de Lisboa, lembra-se o Visconde de Juromenha, em 1838, na sua “Cintra Pinturesca”, de propor, tentando conciliar dados diferentes:

Podia comtudo ter acontecido a D. Affonso haver tomado Cintra, e perdida, recupera-la; ... podia tambem acontecer ter o mesmo Rei tomado antes alguma fortificação exterior fóra da linha das muralhas, talvez no monte que ainda conserva o nome de Cubello.”

Na verdade, a posição privilegiada do lugar parece não passar despercebida a ninguém e António A. R. da Cunha, na posterior edição de 1905, anota:

“Cubello, ou, como hoje se escreve: - Covêlo, - é o monte situado entre a Costa do Pó, e a Cruz Alta. Tem actualmente tres casas de habitação, e a quinta, que é propriedade da Congregação do Espirito Santo, da quinta do Bom Despacho. Disfruta-se d’ali um vasto panorama para o sul e nascente.”

O século XX

No início referimos que iríamos falar de um sítio antiquíssimo, lindíssimo, e com uma história especialmente dignificante. Sim, o sítio é muito antigo, é muito bonito, mas o que tem de especialmente dignificante? A sua história na primeira metade do século XX, que começará exactamente em 21 de Agosto de 1915. Mas já subimos ao Castelo para explicar a utilidade árabe da Alcobela, já descemos, já demos uma volta à Serra, já andámos mil e tal anos. Estamos cansados. Essa história fica para a próxima ocasião. Até lá.



(1)  - Chancelaria de D. Dinis, Livro III, p. 78 vs.

(2) – Segundo José Pedro Machado: “Deve tratar-se duma palavra derivada com o sufixo românico-ela. A palavra primitiva era Alcuba, do ár. Al-qubba, a cúpula. Alcubela será, portanto, cupulazinha e deve referir-se possivelmente a algum monumento religioso que outrora existisse nessa região.” Ver nºs 332, 333, 334, do Jornal de Sintra de 1940, ou separata Sintra Muçulmana, editada em Sintra pela “Imprensa Mediniana”, com estes artigos, ainda em 1940.

Nós acrescentamos, com uma vénia ao ilustre mestre: religioso e/ou defensivo. Uma edificação (com cúpula?) melhoraria a capacidade de visão. Também a orografia do sítio sugere uma cúpula. Veja-se o que refere o Sr. Visconde de Juromenha, mais à frente.

(3)  – Chancelaria de D. Filipe II, Privilégios, Livro I, Fl. 96.

(4)  - Cadernos do Arquivo Municipal de Lisboa. Janeiro-Junho 2015.

(5) – A repetição de um nome próprio deve-se ao óbito do 1º titular? É o mais provável. Neste caso, a insistência no nome tem razões afectivas: Domingos Jorge e Catherina Jorge também são moradores no Cobello. Domingos Jorge parece ser irmão de Maria Jorge. Ele foi o padrinho do 7º filho do casal, Domingos (1658). Mais tarde, a mulher, Catherina Jorge,  será madrinha do segundo Domingos(1665). Além disso, Semeão e Maria baptizam duas filhas com o nome Catarina (1654 e 1660). A par,  Domingos Jorge e Catherina Jorge tiveram quatro filhos, entre 1659 e 1671: Maria, Manoel, Simão e Francisca.

(6)  – Paróquia de São Pedro de Penaferrim, Livro de registos mistos, 1648/1682, Arquivo Nacional Torre do Tombo.

(7)   - Laranjeiras e limoeiros.

Artigo publicado no Jornal de Sintra de 26 de Fevereiro de 2016

terça-feira, 5 de abril de 2016

Primavera Pascal


PAULO BRITO E ABREU
I
 
 
 
 
 
 
 
 


In memoriam de Maria Almira Medina

( convoco, para a Musa minha, o 10 de Copas Arcano )

Só da Luz, quero a Luz e muita Luz.
Que ela é Pão, que ela é prémio prò dolente...
Ela é Nova, ela é noiva, eu digo sus!!!
Coragem para o pobre e o doente.

Só da Luz. Só d' Amor, em farta Vinha,
O Sol agora vem, e é bem-vindo...
Ai cânticos e frol duma andorinha!!!
O dia é Primavera, eu digo lindo!!!

Só da Luz, minha leda, e só do Vate.
Vem d' amora, de poma, e vem de véu...
Vem comigo, a lidar o bom combate:
Eu n' asa dos teus olhos, vejo o Céu.

AD AUGUSTA PER ANGUSTA

sexta-feira, 11 de março de 2016

Música erudita,- o novo Festival de Sintra

JOÃO CACHADO

Seja qual for a escala da vida cultural que se tiver em consideração, desde a local à da região metropolitana e, em muito menor grau, nacional ou internacional, a primeira constatação a assinalar é a evidência da cada vez mais reduzida visibilidade e diminuto impacto do Festival de Sintra.

 

No entanto, até há relativamente pouco tempo, a situação era totalmente diferente. A própria experiência no-lo confirma já que, durante décadas, muitos de nós nos habituámos a contar com os eventos programados pela organização do Festival como mais uma possibilidade de acolher em Sintra os nomes mais sonantes, por exemplo, da pianística mundial.

 

De facto, o Festival de Sintra era um acontecimento especialmente aguardado. Quem o frequentava sabia que, pautando-se a programação por rígidos padrões da mais alta qualidade, podia perspectivar a presença dos mais destacados músicos. Tanto assim sucedia que, ao longo de anos, com toda a pertinência, bem pude escrever que o Festival era o mais sofisticado produto cultural de Sintra sem que ninguém ousasse contradizer.

 

Atingiu-se uma tão alta fasquia, que, manifesta e naturalmente, a iniciativa era remetida para o patamar da excelência. Apresentando-se como o mais antigo, o Festival também era considerado o de maior prestígio, olhado como paradigma e, no melhor sentido, ‘invejado’ porque contava com os meios que lhe permitiam ocupar posição tão destacada no panorama da música erudita nacional.

 

Motivos de ordem vária, cujo enquadramento socio-cultural impõe que sejam devidamente analisados e registados – com indicação da correcta cronologia das opções estratégicas de sucessivos executivos autárquicos –  resultaram no actual modelo. Desde já fique muito claro que não estou fazendo quais quer juízos de valor quanto à qualidade e, muito menos, a cerca de dois meses do início da próxima edição.

 

 

Tendo alcançado ímpar notoriedade nacional e gabarito internacionalmente reconhecido, circunstância a que Sintra se habituou durante 50 edições, lembrarei que, a título de mero exemplo, no programa de 2008 apareciam os nomes de Grigory Sokolov, Viktoria Postnikova, Nikolai Lugansky, Kirill Gerstein, Valentina Igoshina, Denis Matsuev, Larissa Gergieva (que, na altura, era «só» a directora artística do Conservatório Mariinsky de São Petersburgo), Eldar Nebolsin, etc. E, novamente, em 2012, o mesmo Grigory Sokolov, nada mais nada menos do que considerado o maior pianista vivo.  

 

Na realidade, não é fácil que, a seco e desapaixonadamente, consigamos articular as memórias de um passado não muito longínquo, memórias referentes à presença dos nomes mais sonantes, os tais galácticos, com as realidades da programação actual, cujas características induzem algumas dificuldades de interpretação sempre que se pretende concretizar o inevitável exercício das comparações com a qualidade de outros festivais nacionais mais recentes.*

 

Tenho afirmado, e confirmo, que é possível organizar um festival, com uma certa dignidade, sem a presença de galácticos. De qualquer modo, conhecedor profundo que me considero da história de um festival que comecei a frequentar ainda garoto de calções, nos anos cinquenta do século passado, o que não posso é deixar de recordar o seu palmarés absolutamente honroso, património que exige estar e saber estar à altura de tamanha responsabilidade.

 

Um Festival outro

Pois bem, confiando aos actuais responsáveis pela programação do Festival de Sintra a difícil tarefa de compatibilizar tão difíceis ingredientes, seja-me permitido partilhar uma sensação de certo alívio na medida em que uma alternativa relativamente recente protagonizada pela Parques de Sintra.  

Para o efeito, tenhamos presente que, com o concerto do passado dia 4 do corrente, terminou o Ciclo dos Serões Musicais do Palácio da Pena, altura propícia para vos pedir que considerem mais dois ou três eventos que, com este, se relacionam inequivocamente.

Além desta iniciativa que, em pleno Inverno, explora os mais evidentes aspectos de uma envolvente ambiental do Romantismo cultural, tão propício no Palácio da Pena, reparem que a Parques de Sintra ainda é promotora de mais duas de grande relevância.

Refiro-me, primeiramente, em pleno Verão, aos Reencontros - Memórias Musicais de um Palácio, privilegiando a produção musical medieval e renascentista, e, em segundo lugar, às Noites de Queluz - Tempestade e Galanterie, proposta afecta à música dos períodos barroco e clássico, em expressos ciclos primaveril e outonal.

Palácio da Pena, Palácio da Vila, Palácio de Queluz, lugares da maior sofisticação, sejam quais forem as coordenadas geográficas em apreço, que acolhem uma programação cuidadíssima, do mais alto nível, nos termos da qual temos assistido a recitais, concertos e ópera concertante, contando com as prestações de alguns dos mais autorizados especialistas de fama mundial.

Em face deste quadro excepcional de iniciativas, uma conclusão evidente não pode deixar de se retirar: através desta intervenção cultural, a nossa Sintra - lugar que se orgulha da passada fama do seu Festival de Música - está a recuperar e, nitidamente, a ultrapassar aquelas marcas de um saudoso passado de grande prestígio e notoriedade.

Actualmente, portanto, temos a possibilidade de aceder a ciclos da melhor música de todos os tempos, em locais únicos, praticamente ao longo de todo o ano! Ao apostar numa tal estratégia, o Conselho de Administração da Parques de Sintra bem pode orgulhar-se de já contar com um público que esgota os eventos, público que, das mais diferentes proveniências, se desloca expressamente para o efeito.

Trata-se de um investimento à altura dos pergaminhos da Parques de Sintra e que já está a render os mais significativos dividendos. Este, um novo Festival de Sintra, com a presença de outros galácticos, deslumbrados com as condições de que aqui dispõem, e dos mais significativos nomes nacionais. Este o Festival outro, com as suas diferentes vertentes de música erudita, que percorre mil anos da mais notável produção musical europeia e já tanto lugar ocupa como iniciativa cultural do maior prestígio.

 

Grigory Sokolov, por muitos considerado o maior pianista vivo, participou algumas vezes no «antigo» Festival de Sintra
 
Inequivocamente, o mais prestigiado dos pianistas portugueses, Artur Pizarro já participou em eventos programados pela Parques de Sintra, nas "Noites de Queluz, Tempestade e Galanterie.



*Mesmo tendo em consideração quaisquer dificuldades financeiras e/ou logísticas na preparação da próxima edição, não consigo entender que motivos ponderáveis poderão ter inviabilizado a concretização de eventos na Quinta da Piedade. Não entendo. A afirmação constante de que Sintra honra a memória da Senhora Marquesa de Cadaval, também passa por manter bem viva a prática de promover a realização de concertos e recitais naquele espaço quase mítico, que a mecenas amorosamente preparou e soube abrir aos frequentadores de um Festival indissociável da sua anual presença.

[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]

quinta-feira, 10 de março de 2016

Relatos de um Alagamarense em Cubucaré IV

GONÇALO SALVATERRA


Numa destas manhãs que passaram, os meus ouvidos registaram as vozes que escapavam da rádio de um dos vizinhos. Diziam as vozes num crioulo claramente da capital, a julgar pela facilidade com que percebi, que dois homens ligados ao estado islâmico tinham sido apanhados em território guineense.

Ficaria mais preocupado se eu parecesse europeu, mas sabem, aqui muita gente pensa que sou árabe, vejam bem que até respondo com frequência alekusalam – só não sei escrever, e o meu corrector ortográfico é demasiado ocidental para o corrigir – e mais, quando me perguntam em sosso se amanheci bem (ereki) eu respondo, bem, graças a deus (altanto). Portanto acho que não vou ter problemas, basta que para isso continue a deixar crescer a barba e a responder desta forma.

Mas para o caso de alguém da minha família ou amigos continuar preocupado, alegre-se porque onde estou dificilmente se chega, até os Toyotas do estado islâmico, oferecidos sabemos nós por quem, furariam tantos pneus que desistiriam a meio do caminho, amaldiçoando estas terras de Cabral para todo o sempre. Já estou a imaginar a praga que rogariam, por entre vozes esganiçadas de frustração ao bater a retirada. – Que nenhuma virgem pise este chão.

Existe um provérbio em sosso, a propósito de quando pisamos a cobra Tambalumbi, cujo nome científico desconheço que diz o seguinte – Ibaracaduiána folo, Ibaracaduiana taguili, ibaracaduiana dili. Ou seja se pisarmos a cabeça chegámos ao mundo, se pisarmos o meio, chegámos a meio do mundo, se pisarmos o fim, chegámos ao fim do mundo, pois ela morde e nós morremos. Bom, com isto não pretendo dizer que aqui vou morrer, mas que podemos considerar Cubucaré, especialmente o regulado de Cabedu e Cadique, como ibaracaduiadana díli, o fim do mundo.

Contrariamente ao provérbio, é precisamente no fim do mundo que não morremos vítimas da guerra, pelo menos é isso que a história de conflitos pós-coloniais da Guiné nos indica. O que quereria o estado islâmico aqui? Só se for produção de arroz deficitária.

Por outro lado, em caso de doença torna-se complicado, e é tão complicado que não ouso utilizar o meu sarcasmo nisto. Basta dizer que andei de montanha russa pela primeira vez no caminho entre Bissau e Madina de Cantanhez. Uma experiência que o meu corpo, especialmente a minha coluna jamais esquecerá.

Por isso, fiquem descansados, a não ser que o estado islâmico decida entrar pelos caminhos do trabalho de bolanha, para substituir a venda de petróleo à Turquia, pela venda de arroz, não me parece que queiram vir para aqui. Sabem, o arroz dá trabalho e o ocidente não quer saber disso para nada, já o ouro negro, esse sim, dá-lhes Toyotas.