terça-feira, 6 de maio de 2014

Onde Tudo Acaba?

HENRIQUE RODIL









Não sou mais que pó,
não sou mais que trevas,
sei que não acabo

nunca as nossas conversas.

Não sou pecado,
mas sou pecador.

Sei que vivo,

mas não sei o que respiro,
e é sonho

se é pesadelo adormecido.

Sei que sou negro,

sei que sou luz,
sei que o meu rumo

sei o que me conduz.

Não sou palavras,

não sou lágrimas,
mas sou versos

dos gloriosos caminhos.

Sou mentira,

sou verdade,
mas o que é verdadeiro?

o que é falso?

Não sou livro,

mas sou lido.
Sou a metáfora do vivo,

Sou a estrofe do morto.

Sou somente mais uma linha

que espera o ponto final.

Henrique Rodil

05-05-2014

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Uma gaivota voava, voava

FERNANDO MORAIS GOMES


-O Povo está! Com o MFA! - gritava a multidão Estefânia abaixo naquele dia 1º de Maio, mal refeita ainda dos eventos dos dias anteriores. Coisa nunca vista em Sintra, mesmo pelos antigos, o povo desfilava de braço dado desfraldando faixas gigantes e apregoando a palavra liberdade, como se houvesse que gritar sem parar para que acreditassem ser verdade.

Eufórica, Susana esperava junto ao Tirol, cravo vermelho na lapela, João vinha no cortejo, com as personalidades de Sintra e alguns militares à cabeça. O dr. Sargo, velho republicano com residência fixa em Sintra desde que nos anos trinta participara na revolta da Madeira, parecia uma criança, abraçado aos amigos, já falara com o Salgado Zenha, a quem a Junta de Salvação Nacional convidara para o novo Governo. Aqui e ali, profetas da desgraça agoiravam com os perigos do comunismo. O Quintas, fiscal da Câmara e salazarista convicto, que dias antes do golpe estivera num almoço da PIDE, em Queluz,  agitava com os riscos da anarquia, o Spínola estava na mão dos capitães, instigava, fora dinheiro o que os movera, depois de orientados com as comissões em África.

O desfile, que teve início na Vila e seguiu pela Volta do Duche, terminando na Portela de Sintra, foi uma inesquecível procissão da democracia, liturgia da nova liberdade, com crentes e conversos celebrando aquele dia redentor. De sorriso aberto e a vasta cabeleira ao vento, João chamou por Susana, que correu para ele, rompendo pela multidão, beijando-o e seguindo ambos no cortejo dum país de braço dado. Dois meses depois casariam, sortuda, já tinha emprego prometido como telefonista no serviço de PBX que se previa abrir em breve.

O dr. Sargo, na cabeça do cortejo, ao passar pelo Capote avistou o José Alfredo à conversa com o Cortêz Pinto e o Lacerda Tavares e acenou-lhes, com olhar cúmplice e sorriso largo:

-Viva Portugal! -saudou, qual general romano voltando a Roma depois da conquista da Gália.

-Viva! –responderam todos em uníssono, com o Zé Alfredo a orquestrar, os olhos brilhando atrás dos óculos de massa.

Um carro de som ecoava canções antes só trauteadas em surdina, e agora consagrados hinos. Fanhais, Adriano, a marcha do MFA. A democracia ganhava ícones, e os novos sons de Portugal chegavam a uma Sintra mais dada a passeios de charrete pela Vila que a ruidosas manifestações de rua. Mal sonharia o dr. Forjaz, que com pompa e circunstância recebera três meses antes o ministro do Interior, Moreira Baptista,  antigo presidente da Câmara, que pouco tempo decorrido o Portugal do “a bem da Nação” se veria arquivado na prateleira da História.

Com o 25 de Abril foi designada uma Comissão Administrativa presidida por José Alfredo, com Cortêz Pinto, Álvaro de Carvalho e Lino Paulo entre outros, período conturbado que culminou no afastamento agastado do grande Zé em 1976. Teimoso, ainda conseguiu inaugurar a estátua a D. Fernando no Ramalhão e inumar as cinzas de Ferreira de Castro na serra. Era o mínimo. As autárquicas de 1976 valeram a Câmara ao PS e a presidência a Júlio Baptista dos Santos. Passado a embriaguez, o país construía uma normalidade.

Recentemente reformada da Portugal Telecom, e passeando com a neta depois do lanche no Tirol, Susana deu consigo assaltada por esses sons e memórias já distantes. O povo, unido, jamais será vencido! Cavernoso, lembrou-lhe cabelos compridos e calças à boca-de-sino. -Tão ridículos que nós éramos! –pensou, melancólica.

-Oh avó, andas ou não andas? -questionou a pequena, puxando-lhe o braço.

Subitamente desperta, apressou-se, o 441 para Fontanelas estava quase a passar.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Nem mesmo de graça?

JOÃO CACHADO

Mais uma vez, na edição do passado dia 11, o Jornal de Sintra lembrava que, todos os domingos de manhã, os munícipes sintrenses gozam da vantagem de entrada gratuita nos monumentos, parques e jardins sob administração da Parques de Sintra Monte da Lua (PSML). Desde logo me tendo congratulado com a atitude de divulgação, aproveitaria agora o ensejo do registo para partilhar algumas considerações que me surgem a propósito.

Primeiramente, para que conste, cumpre dar conta de um conflito de interesse. É que, cá por casa, somos sistemáticos beneficiários do regime dominical de acesso livre a lugares tão especiais como o Parque e Palácio da Pena, os jardins e palacete de Monserrate, Castelo dos Mouros, Capuchos, Palácio de Queluz, Palácio da Vila…

E fazemo-lo com duplo proveito, por um lado, para inquestionável enriquecimento espiritual, por outro, nada despiciendo nestes difíceis tempos de mínguas de toda a ordem, resultando na bem material e manifesta poupança de umas centenas de euros por ano porque, de facto, lá vamos com bastante frequência.

Pois bem, precisamente durante as manhãs de domingo em que, com a família e amigos, temos aproveitado a oportunidade do acesso gratuito, fui-me apercebendo de que, se vantagens tão evidentes podem ser partilhadas por todos os munícipes, afinal, aparente e empiricamente, poucos serão aqueles que o fazem.             

Contudo, não passava de uma pessoal e difusa impressão. Valeria a pena investir na demonstração cabal que só a pertinência dos números pode avalizar? Seria possível chegar a alguma conclusão e, a partir da mesma, promover alguma estratégia de motivação para o aproveitamento mais generalizado das visitas gratuitas?

Números inequívocos

Porque a resposta só poderia ser afirmativa, tendo procurado e colhido os dados imprescindíveis, imediatamente, avanço para a estatística. Relativamente à quantidade de visitantes dos espaços sob gestão da PSML, durante o ano de 2013, os números estão disponíveis em fontes distintas, tais como a própria PSML e Direcção Geral do Património Cultural. Começarei por apresentar resultados globais, desagregados pelas duas entidades em referência.

Assim, os parques e monumentos sob gestão da DGPC registaram um total de 2.563.059 visitas e os da PSML 1.705.724. Destas últimas, cerca de 90% equivaliam a estrangeiros. É a partir desta primeira premissa que poderei prosseguir até à informação mais esmiuçada que interessa pôr em comum.

Estamos em posição de concluir que apenas 10% dos visitantes dos parques e monumentos da PSML, grosso modo 170.000, eram de nacionalidade portuguesa, podendo acrescentar que, nos termos do quadro seguinte, dentre estes visitantes nacionais, apenas 22.642, ou seja, uma percentagem geral de 13,3 %, correspondia a munícipes de Sintra que aproveitaram o regime de entrada gratuita. 

 Parque/Monumento

 Número de visitantes munícipes em 2013

 Parque e Palácio Pena

 6.792 -  média*130/domingo

 Sintra (Palácio da Vila)

 2.009 -       »        38/        » 

 Palácio de Queluz

 3.301 -       »        63/        »  

 Castelo dos Mouros

 3.539 -       »        68/        »

 Conv. Capuchos

1.288  -      »        24/        »

Monserrate

4.003  -      »        76/        »

Chalet da Condessa

1.710 -       »        32/        »

TOTAL

22.642  -      »      431/       »

*média aproximada, por defeito

O caso da Pena merece algum destaque. Tendo recebido um total de 787.163 visitantes, é o monumento mais visitado do país, ultrapassando o Mosteiro dos Jerónimos (que registou 722.758). Se aplicarmos a mesma taxa de 10%, 78.700 eram de nacionalidade portuguesa, 6.792 dos quais munícipes sintrenses visitantes dominicais e, neste caso, numa percentagem de 8,6 %, menor do que a geral acima referida.

Contra a desinformação

Sendo ainda possível fazer outras contas a partir dos números supra, nenhuns dos seus resultados, contudo, contradirão a irrefutavelmente baixa quantidade de cidadãos residentes no concelho de Sintra que aproveitam a nítida vantagem de que desfrutam. Na realidade concreta dos números, aquela minha impressão correspondia a uma situação cujos contornos são bem claros.

Ora bem, perante desafios tão fascinantes, porque não aparecem os munícipes nestes lugares, num dia como o domingo, em que tudo lhes é favorável? Ou muito me engano ou, haverá por aí muita informação corrompida e, eventualmente, até vozes apostadas em baralhar e desinformar potenciais interessados, acabando por prejudicar quem desejam proteger…

Assim sendo, vítimas de tal paradoxo, não será de admirar que muitas pessoas desistam de visitar aqueles locais, ignorando as condições vantajosas de que podem beneficiar. Ou seja, leram, ouviram dizer que é tudo muito caro e quedam-se numa inércia que lhes é totalmente nociva.

Uns parágrafos acima, referia eu que o conhecimento dos números poderia conduzir a uma estratégia de remediação da situação que, além dos excelentes materiais de divulgação da PSML, nomeadamente, o site tão apelativo, pudesse contribuir para ainda levar mais longe a informação em apreço.

Porque há muitos cidadãos que não acedem à internet e, igualmente, tendo em conta o elevadíssimo nível de iliteracia que os atinge, parece-me impor-se a necessidade de intermediar as mensagens através das associações culturais, recreativas e desportivas, procurando o concurso dos párocos, para o efeito recorrendo, por exemplo, a simples cartazes, bem concebidos, elucidativos, com mensagens curtas e incisivas.

Num concelho com as características socioculturais do nosso, ainda há muito lugar para media congéneres. Urge sensibilizar os pais, avós e outros adultos de referência das crianças e jovens. Alguns deles, convenientemente esclarecidos, poderão tomar a atitude que mais os favorece neste domínio.

Claro que, com os pés bem assentes na terra, bem sabemos que sempre haverá quem não esteja minimamente interessado em visitar tais lugares. Têm as suas alternativas? Pois muito bem. Esses, malgrado a melhor vontade dos proponentes, infelizmente, jamais reclamarão pela possibilidade de qualquer modalidade de acesso gratuito.

Estatuto sólido e credível

Naturalmente, vem a propósito considerar que a Parques de Sintra Monte da Lua, não recebe um cêntimo do Orçamento Geral do Estado. Assim sendo, apesar de se tratar de uma entidade à qual portugueses em geral e sintrenses em particular tanto devem, nada custa aos contribuintes! Num país onde, infelizmente, tanta razão de queixa existe e subsiste no domínio do património público visitável, é um privilégio imenso poder contar com uma entidade que, em Sintra, é absolutamente modelar.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Pensar a Lusofonia no Séc. XXI

RENATO EPIFÂNIO

No século XXI, para pensarmos a Lusofonia, temos que superar os paradigmas colonialistas e mesmo pós-colonialistas. Estes estão ainda reféns de um olhar enviesado por uma série de complexos históricos que há que transcender de vez, de modo a podermos realizar essa visão futurante do que pode ser a Lusofonia.
Transcender não significa escamotear. Indo directo ao assunto, é evidente que a Lusofonia se enraíza numa história que foi em parte colonial e, por isso, violenta. Não há colonialismos não violentos, por muito que possamos e devamos salvaguardar que nem todas as histórias coloniais tiveram o mesmo grau de violência. Eis, de resto, o que se pode aferir não apenas pelas análises históricas, mas comparando a relação que há, nos dias de hoje, entre os diversos povos colonizadores e colonizados. Assim haja honestidade para tanto.
Não será, porém, esse o caminho que iremos aqui seguir. Não pretendemos alicerçar a Lusofonia na relação que existe, nos dias de hoje, entre Portugal e os países que se tornaram independentes há cerca de quarenta anos. Se assim fosse, estaríamos ainda a fazer de Portugal o centro da Lusofonia, estaríamos ainda a pensar à luz dos paradigmas colonialistas e mesmo pós-colonialistas.
O que pretendemos salientar é que, sem excepção, é do interesse de todos os países que se tornaram independentes há cerca de quarenta anos a defesa e a difusão da Lusofonia. Eis, desde logo, o que se prova por nenhum desses países ter renegado a língua portuguesa como língua oficial. Se o fizeram, não foi decerto para agradar a Portugal. Foi, simplesmente, porque esse era o seu legítimo interesse, quer interno – para manter a unidade nacional de cada um dos países –, quer externo – fazendo da língua portuguesa a grande via de inserção na Comunidade Internacional.
Obviamente, cada caso tem as suas especificidades. Pela minha experiência, sou levado a afirmar que o povo que mais facilmente compreende a importância da Lusofonia é o povo timorense; porque ela foi a marca maior de uma autonomia linguística e cultural que potenciou a resistência à ocupação indonésia e a consequente afirmação de uma autonomia política que, como sabemos, só se veio a concretizar mais recentemente, já no século XXI. Mesmo após esse período, tem sido a Lusofonia o grande factor de resistência ao assédio anglo-saxónico, via, sobretudo, Austrália.
Contrapolarmente, o Brasil, pela sua escala, poderia ser o único país a ter a tentação de desprezar a mais-valia estratégica da Lusofonia. Nunca o fez, porém. Pelo contrário – apesar de alguns sinais contraditórios, a aposta na relação privilegiada com os restantes países e regiões de língua portuguesa parece ser cada vez maior. Quanto aos PALOPs: Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, essa também parece ser, cada vez mais, a aposta. Simplesmente, reiteramo-lo, porque é do interesse de cada um desses países este caminho de convergência. Por isso, é a Lusofonia um caminho de futuro. Por isso, é a Lusofonia um espaço naturalmente plural e polifónico, que abarca e abraça as especificidades linguísticas e culturais de cada um dos povos desta comunidade desde sempre aberta ao mundo.

domingo, 27 de abril de 2014

Despejados de nós

JOÃO AFONSO AGUIAR














Despejados de nós,

ardentemente tudo ambicionamos:

Fortuna, fama, ser amados,

Deuses dos próprios fados…

Mas em tudo nada vemos.



Somos seres pendentes

no vazio de nada saber;

Se perdida a beleza de ser

e de criar formas elegantes;

Somos tempo sem passagem

uma liberdade sem voz…

Ó despejados de nós!

Ficará o reflexo de apenas ter.



Somente a harmonia,

de ser feliz existindo

na natureza com poesia

nos oferta um indício sério:

da vida ser um mistério

desvendado quando vivido.





João P. Afonso Aguiar

Sintra, 29 de Março de 2014