terça-feira, 28 de julho de 2020

Os hotéis da Vila Velha


CAÍNHAS

Sem qualquer tipo de pesquisa, eu falo daquilo que vi,ou ouvi contar. E, em jeito de conversa de café, vou falando daquilo que me lembro. Pode haver até alguma falta de rigor com datas, nomes, e outras falhas, que espero me desculpem, pois não tenho pretensões nenhumas, não quero ser comparável com ninguém, vejam as minhas estórias, como isso mesmo, “estórias” da minha juventude, apenas e só. Obrigado! 

Nas décadas de cinquenta e sessenta, os Hotéis na Vila de Sintra, eram apenas três, o CENTRAL da família Raio, o NUNES da família Lopes Alves, e o NETTO que tinha à frente, uma Senhora de Sintra, originária de Nafarros, muito alta, bonita e elegante, não me lembro bem do nome, estou com a mania que era Manuela. 

 A 7 de Agosto de 1951, Schiappa de Carvalho e Glenville Américo Marques são encarregues do projecto de adaptar Seteais a um hotel. A 29 de Setembro de 1955, é inaugurado o Hotel de Seteais, com a presença do ministro da Presidência, Marcelo Caetano. (in Conhecer Sintra). 

Muitos dos que se fizeram bons profissionais na indústria hoteleira, e foram para o Hotel Seteais, aprenderam nos hotéis da Vila Velha, foram para lá quando abriu, tendo chegado a lugares de destaque, casos do Luís, que chegou a cozinheiro chefe, e do Bonifácio, que se iniciou como pasteleiro na Piriquita, e chegou a chefe pasteleiro dos Seteais. Reformou-se, e abriu a sua pastelaria na Rua das Padarias, fatalmente aquela doença que não perdoa, levou-o precocemente. 

Todos os Hotéis eram diferentes, tanto na oferta ao cliente, como no modo de gestão. Comecemos pelo CENTRAL, até porque o nome diz tudo. 

O HOTEL CENTRAL


Esta unidade hoteleira, estava à frente no seu tempo para o Turismo que vinha visitar Sintra, e tinha protocolos com várias agências de viagens, que lhe metiam pela porta dentro diariamente ou perto disso, vários autocarros com turistas para almoçar, dentro da capacidade do Hotel em receber condignamente esses turistas. A camionagem da Capristanos, a determinada altura investiu nos autocarros de turismo de luxo, que sobretudo faziam o circuito, Lisboa, Sintra, Cascais, Lisboa, trabalhavam com Agências, e era ali que vinham desembocar. Porquê? - Porque a Sra. Dona Laura Raio, era mesmo uma Senhora com todas as letras, e sabia muito do metier, falava inglês como qualquer Ministro de sua Majestade, tinha estudado em Inglaterra, era a alma daquela casa, estava bem relacionada no meio, muito conceituada, tinha muitos bons contactos, porque não se via aquele tipo de negócio nos outros hotéis. 

As suas origens estão em Galamares (Saraivas), lá tinham uma quinta, de onde vinham muitos produtos, desde a uva para o vinho, que era feito nas adegas por debaixo do Hotel, até produtos hortícolas, e fruta. 

Todas estas coisas que vinham de Galamares, eram transportadas numa carroça puxada por um macho, e o seu carroceiro foi um homem que serviu aquela casa até morrer, morava na quinta, em Galamares, tinha um filho chamado Rui, mais velho que eu, mas que ainda apanhei na Instrução Primária. 

Uma vez o Rui apareceu na Escola (hoje Piriquita 2, era nosso professor o Sr. Rovisco de Andrade), com uma régua de 50 centímetros em pinho, mais grossa que um dedo, e com 5 furos, a chamada menina dos cinco olhos, lá vem o Rui com a régua parece que estou a vê-lo:
 - Sou “pressor”, trago-lhe aqui esta régua para lhe oferecer! 

-Ai trazes? Então vais já ser o primeiro a estreá-la. 

Bumba, cinco réguadas em cada mão. Eu assisti a isto tudo, devia eu andar na primeira ou segunda classe, ele na quarta classe. Todos os dias lá vinha o pai do Rui com a carroça fazer serviço ao Hotel, na Rua da Pendôa, parava em frente a taberna do João Magalhães, perto da Adega e armazém. No tempo da vindima, o desgraçado do macho, fazia por vezes três viagens diárias de Galamares para Sintra, e volta, de sol a sol, com uma dorna cheia de uvas, brancas e tintas, mas mais tintas. Se o carroceiro se distraía, lá ia o pessoal deitar a mão e tirar um ou dois cachos de uva. A taberna do Sr. João Magalhães também conhecida pelo “Vintesinho”, foi desativada para passar a ser, já depois de 1965 (por aí) a garagem do patrão Raio, que até essa altura guardava os carros nos baixios do prédio do Sr. Vicente Soares, junto à Praça Velha, prédio que é hoje do meu amigo António Loureiro. Essa garagem foi também durante muito tempo garagem do Senhor José Américo, casado com a D. Rosa (pais do Zé Manuel Brandão, e da Fernandinha Brandão), famíliares da D. Laura Raio. O Senhor José Américo era embarcadiço, assim era o termo dessa época, para designar alguém tripulante da marinha mercante, estava muito tempo fora, e o Sr. José Américo, tinha um Mercedes (matateu) de matricula AF-18-10, cuja missão que lhe estava destinada, era, quando ele chegasse a Lisboa, o ir buscar ao navio, porque quando se desembarcava, o dispenseiro tinha que se desfazer de muitos produtos que se estragavam, por isso eram vendidos ao desbarato, tipo feijão, batata, arroz, e então havia sempre alguém designado para ir buscar o Sr. José Américo no “Matateu”. 

Porque é que vem para aqui chamado, o Matateu/carro? - Porque o meu amigo José Manuel Brandão, seu filho, sacava a chave do carro e no Verão lá ia o Matateu carregado de malta para os bailes na Ericeira, no Parque de Santa Marta. O único que tinha carta de condução, era o António Luís do Couto, já falecido, neto do Sr. Luís do Couto, era um grande maluco. O carro estava ali parado meses, para o tirar tínhamos que o trazer de empurrão, fazer pouco barulho, para não incomodar a família Soares, e também porque o carro não tinha bateria e não pegava, já estaria mesmo “nas lonas” e sem recuperação. Virava-se o Matateu para a Estrada do Macieira, e lá se punha a pegar de empurrão. Para a bateria carregar se tivesse recuperação, tinha que levar uma carga valente, no mínimo um dia. Não se enxergava um palmo à frente do nariz, mas lá íamos nós à sorte e à aventura. Chegámos a ir oito dentro do Matateu, não se via nada, e os outros carros também não nos viam a nós, o Tó Luís, punha o carro no meio da estrada, de Sintra até à Ericeira, e ouvíamos do bom e do melhor, curtas e compridas, saíam todas. Nunca houve acidentes, só porque nunca calhou. 

Outra clientela que procurava muito o Central, eram os recém casados, pareciam que tinham escrito na cara (casados de fresco), elas muito branquinhas, depois de uma noite mais mal dormida, muitas vinham ali pela primeira vez saber o que era aquela nova realidade. Os tempos eram outros, e embora não fosse a generalidade, casar virgem ainda era tradição. Eles todos de fatinho de segundo dia, todos engravatados, sapatinho novo, e meios coxos da trabalheira a que tinham sido sujeitos na noitada. Um fartote, para quem vê, com olhos malandros. Sintra foi, é, e sempre será a Capital do Romantismo, era um destino procurado, para jovens recém casados, e não só jovens. Não estando ao alcance de todas as bolsas, o Hotel Central era muito mais em conta que a maioria da concorrência dos hotéis da linha de Cascais, e de Lisboa. Não quero dizer com isto que este tipo de clientes fossem exclusivos do Central, o Neto e o Nunes também teriam naturalmente, só que como estavam mais lá para o canto, o “quadrilhum”, não se apercebia tanto. O patrão novo, ou seja o António de Jesus Raio Jr. não mexia uma palha, enquanto os pais foram vivos, foi sempre um bon vivant, dedicou-se sempre muito ao hóquei, foi um exímio executante, considerado naquele tempo o melhor do mundo, fez parte da equipa portuguesa que alcançou pela primeira vez esse título (em baixo)
Em cima Sidónio Serpa, Futebol Benfica, Emídio Pinto, Paço D’Arcos, Edgar Bragança Soares, H.C. Sintra, Jesus Correia, Paço d’Arcos, António Raio, H. C. Sintra, e Correia dos Santos, Paço d’Arcos. 


                                                   Ao lado, António Raio
Era um Senhor, culto, educado, brincalhão, e amigo do seu amigo. Passei muitas horas a ouvi-lo contar as suas histórias. Os mais velhos que eu, chamavam-lhe o Dr. Helénio Herrera, nome de um treinador chileno que veio treinar o Benfica e que tinha estado em Itália a treinar o Inter de Milão, porque o António Raio além de bom executante de hóquei, foi selecionador nacional, e poucas vezes terá perdido. 

Para fechar o capítulo do Central, dizer que tinha a vantagem sobre os outros hotéis de ter aquela excelente esplanada, como ainda hoje tem, e que ao principio se diferenciava da do Café Paris, porque as suas cadeiras eram de vime, muito confortáveis, depois mudaram para ferro, visto terem menor manutenção, e mais durabilidade.  

O HOTEL NUNES 


Estava situado, parcialmente, onde é hoje o Hotel Tivoli, este foi ocupar toda a área do Hotel Nunes mais o jardim que o envolvia, e até todo o casario do Beco do Forno, até à Rua da Pendôa, tendo apanhado a propriedades da D. Maria do Máximo, e todas as outras até ao Passeio dos Velhos. Seria talvez o Hotel mais pequeno, lembro-me ainda da mãe do Henrique, uma senhora já com idade avançada, e por morte desta o Hotel ficou sobre as ordens deste seu filho, que tinha um irmão cujo nome agora não me recordo, mas recordo o nome do filho, António Lopes Alves, que era mais velho que eu e andava também no Externato Académico de Sintra, era o mais graduado da Mocidade Portuguesa, e aos Sábados à tarde lá tínhamos nós aquele petisco de estar ali a fazer ordem unida (marchar), das três às cinco. 

Por morte da senhora, o negócio foi caindo, eles não estavam muito para ali virados, montaram um negócio em Mem Martins, café e bomba de gasolina, o Mira Serra, e o Hotel assim que puderam, viram-se livres dele. O Henrique tinha um daqueles namoros eternos com uma senhora que era ecónoma do Hospital da Santa Casa da Misericórdia, a D. Jeninha, não sei se são vivos ainda. Deste hotel, pouco ou nada tenho para contar, a não ser que foi um local que acolheu uns irmãos que vinham do Norte, primeiro veio para cá o mais velho, e foi mandando vir os mais novos, dali partiram para as suas vidas, sempre ligados à hotelaria. O mais velho, o António, ainda tem uma propriedade no Linhó, é viúvo da sua querida de sempre, a D. Alzira, uma senhora baixinha, bonita, que era empregada doméstica, mesmo ali ao lado, na casa da família Almeida e Brito. Para melhor informação, sobre este hotel, vale muito a pena consultar o blogue Rio das Maçãs, do meu amigo Pedro Macieira, que tem tudo escrito, e baseado em estudos, que eu não faço. Eu é mais, tipo quadrilheiro da Vila, e estar à coca com os acontecimentos da época, que ainda me recordo. 
http://riodasmacas.blogspot.com/2007/02/hotel-nunes.html

O HOTEL NETO 


Este hotel, para quem não o conheceu na sua pujança, e só o viu em ruínas, há-de pensar que aquilo era um pardieiro. Nada disso. Era uma unidade hoteleira com categoria, tinha uma boa restauração, um jardim atrás, que dá para a Rua de trás do Paço, tinha um bom salão de festas, cheguei a lá ir tocar várias vezes, sobretudo com o Conjunto Avelino Gil, não sei se alguma vez lá fui tocar com os Diamantes Negros. 

Este hotel era o preferido pela Federação Portuguesa de Futebol, e pelos clubes, Sporting e Benfica, mais o Sporting, já que era para cá que normalmente vinham nos anos cinquenta. Com esta clientela do futebol há várias peripécias. Quem leu o que escrevi sobre a Torre do Relógio, terá lido que aquele relógio já ouviu muita coisa! Uma dessas coisas foi uma “acusação” como lá foi dito, de um guarda redes do Sporting, que estagiou aqui com a equipa, num ano em que o Sporting tinha que ganhar ou pelo menos não perder no último jogo para ser campeão, esse jogo era com o Benfica na Luz, o Sporting perdeu e ele foi o “coveiro” dessa derrota, depois desculpou-se que ia mal dormido porque as badaladas do relógio não o deixavam dormir.

A Selecção Nacional também vinha para cá. Nomes como Carlos Gomes, Vasques, Travassos, Albano, Martins, Caldeira, Juca, e outros do Sporting, do Porto, Monteiro da Costa, Virgílio, Acúrsio (gr). Hernâni, do Benfica, Costa Pereira, Jacinto, Ângelo, Águas, José Augusto, Santana, Coluna e Cavém, ainda não havia o Eusébio, (esse nunca cá veio). Do Belenenses, os manos Matateu e Vicente, do Lusitano de Évora, havia um que era muito bom e foi selecionado várias vezes, chamava-se José Pedro. Atenção que o Lusitano de Évora era clube de primeira divisão e bom, o Sporting era raro lá passar, mesmo com os violinos. 

O jogador mais castiço, e uma das estrelas da companhia era o Matateu, que teve a pouca sorte de nascer cedo de mais, (hoje não havia dinheiro para lhe pagar), desde que ele soubesse gerir a carreira, ou tivesse quem o orientasse. 

Matateu era alcunha, porque o nome dele era Sebastião Lucas da Fonseca, se calhar os puristas hoje não deixavam o homem ter essa alcunha, era considerado racismo, quando veio de Moçambique para cá já trazia a alcunha, e não havia essas mariquices. Tudo se dava bem. Ainda o vi jogar algumas vezes, jogou até tarde, a última vez que o vi, foi na seleção nacional, num Portugal-Argentina, no Estádio Nacional, em 1961, tinha o Benfica acabado de ser campeão Europeu, e praticamente era o Benfica reforçado com o Matateu e mais um ou outro, os nossos levaram um baile, meu Deus!... “empatámos” esse jogo salvo erro 6-0, com os argentinos a dançar o tango quase a passo e os nossos a cheirar a bola. 

Nesse dia o Matateu foi pai, e nesse jogo, foi de longe o melhor dos portugueses, quiçá o melhor em campo, e deu o nome à sua filha de Argentina. O Matateu, era um homem que tinha uma certa dependência do álcool, no Belenenses, sei de pessoa muito ligada ao clube, que ele tinha ordem de no intervalo beber uma cervejinha fresca, mas, já se sabe que nestas coisas de estágios, ainda por cima da seleção, há sempre rigor, com o que se come e bebe, então o Matateu para não estar à mercê desses rigores do estágio da seleção, estava combinado com o Chico Romina, que era o barbeiro junto à mercearia do seu irmão António Batista/(Tonecas), e tinha lá sempre vinho para o Matateu, este ia lá fazer a barba, e de caminho bebia o seu copinho, ou copinhos. 

Era simpático o Sr. Matateu, passava pelos miúdos, sorria, e dava uma festa na cabeça. Tenho um episódio na primeira pessoa, com o Acúrsio Carrelo, guarda redes do Porto e da Selecção.  Uma vez que veio para cá estagiar com a seleção, eu e o meu amigo Augusto Pimenta de Sousa andávamos muito aos caracóis, levávamos para casa dele, e depois a mãe cozinhava aquilo para nós comermos, com os irmãos mais velhos incluídos. A miudagem andava sempre de volta dos craques. Um dia falámos nos caracóis, e o Acúrsio prometeu-nos uma bola de futebol se nós lhe arranjássemos uma caracolada, a caracolada foi para o Acúrsio e mais dois ou três, a bola é que nunca mais veio. Andámos a apanhar caracóis de empreitada, a D. Maria a fazê-los como só ela sabia fazer, e a bola ainda hoje estamos à espera dela. Dali já não pode vir, porque o homem já morreu. 

O Hotel Neto tinha umas figuras típicas, o Zézinho do Hotel, irmão da dona, assim mais ou menos como o menino frágil, mas uma boa esponja, um tipo fixe , alinhava com aquela malta velha, ia também aos passeios do Escalhabardo, mas ao fim do dia quem o queria ver era acampado na Taberna do Acácio. Havia lá um outro, criado de mesa, mas fazia parte da família, um galego, o Xé Maria, caçador e pescador, tinha um cão pequeno tipo fox terrier, um dia foi abordado pelo guarda da caça:
-Boa tarde! Boa tarde, xô guarda. Então o Sr. tem aí os seus documentos? 
-Tenho xim xenhor, tudo xertinho! 
-Então mostre lá a sua licença de caça.
-Oh xô guarda, está aqui a ouvir a gente. 
Procura, remexe, tira daqui e dali, até que aparece uma licença de caça com mais de cinco anos, caducada. 
-Isto está caducado! 
-Ai está? Eu tenho xempre tanto cuidado, olhe escapou. A licença de uso e porte de arma’ Xó um bocadinho, a mesma fita, tudo caducado. 
-O senhor vai ser autuado, não tem nada em dia. 
-Ai xim xõ guarda, olhe que eu xô muito cuidadoxo com estas coisas isto paxoume. 
-Pois sim, está-se a ver. Então e a licença do cão,e as vacinas? 
-Oh Xô guarda, essa tá mesmo aqui, tudo xertinho. 
-Então mostre cá. 

O mesmo teatro, quando apresenta os papéis do cão, tudo caducado. Lá vai o Xé Maria, para o posto. A minha mãe trabalhou no Hotel Netto, aí conheceu o Caínhas Pai, lá juntaram os trapinhos, no tempo da Segunda Grande Guerra, eu nasci em 1947, ainda havia o racionamento, e vim ao mundo para aumentar a família, e assim haver mais margem para produtos alimentares. 

O Hotel Neto depois passou para um senhor de Torres Vedras, o nome varreu-se-me. Foi ainda uns anos bons diretor do Hockey Clube de Sintra, tinha esposa e filha, muito bonitas, qualquer delas, a filha ainda andou a estudar no Externato Académico de Sintra. O negócio começou a decair, e com a perspetiva da construção do Tivoli, ele vendeu o recheio, (ainda lhe comprei uma cama de ferro muito bonita), e saíram de Sintra, perdi-lhes o rasto, era boa gente. 

Não sou do tempo do Hotel Costa, esteve sempre fechado, até ir para lá o Turismo, tinha lá um casal de caseiros, com a sua filha, a Nazaré. O pai amanhava umas hortas na Mata do Carago, donde vinham todos os produtos hortícolas, criavam galinhas e coelhos e um porquinho, para se governarem, Deviam passar um frio de morrer dentro daquele “mausoléu” sem aquecimento, e até duvido que tivessem luz.. 

As minhas origens, estão ligadas por parte do meu pai também a um Hotel, pois a minha avó paterna, veio da região do Cadaval (Rocha Forte), região hoje da Pera Rocha, trabalhar para o então designado Grande Hotel Vítor, aí conheceu o meu avô Zé Caetano dos Santos (Zé Borralho), e fizeram uma prole de oito filhos. É obra, bolas!... 

Hoje em Sintra está-se mais bem servido de hotéis, a oferta é boa, a procura também foi, mas o micróbio deu cabo disto tudo. 

Sintra, 24 de Julho de 2020 

Carlos José Paulo dos Santos

quarta-feira, 22 de julho de 2020

As padarias da Vila Velha



CAÍNHAS


Na Vila Velha, felizmente nada faltava, tanto no comércio como na indústria, e até com casas a fazer concorrência, duas três e quatro vezes. Era o caso da Panificação, todas as Padarias coziam e comercializavam o seu pão, e eram três.

A que talvez fosse a maior, tanto na dimensão de área, centralização, distribuição, e na venda ao balcão, seria a do António Loureiro, pai do meu amigo de infância, António de Almeida Marques Loureiro, cujo forno tinha a porta de entrada virada para o Largo da Vila, e ficava à direita de quem sobe a Rua das Padarias, hoje, salvo erro, é uma casa de bonecos, quando deixou de ser o forno, passou a ser algo entre o restaurante e a tasca fina, que se chamava A TIBORNA.

Era impressionante ver chegar aquelas camionetas de carga grandes, cheias de molhos de lenha de pinho, que alimentavam aqueles enormes fornos, feitos de tijolo refratário, só me recordo de o forno da padaria Tavares ter uma enorme chaminé. Dos outros já não me lembro bem, mas parece-me que os fornos não tinham exaustão de fumos, porque a lenha era só para aquecer o forno e as brasas mantinham-no aceso e quente. Como as casas do forno tinham arejamento, quando estava muito calor abria-se a porta, para entrar o fresco.

Com o fim dos fornos de lenha perdeu-se uma maneira natural de limpeza dos pinhais, porque só na Vila grandes fornos a cozer a lenha de pinho, eram quatro, três padarias, e ainda o da Piriquita, que gastava quase tanto como os padeiros.

Naquele prédio ninguém passava frio. Os sobrinhos do Sr. António Loureiro, o Manuel, o Joaquim, que tinha uma bicicleta e ma emprestava para eu vir namorar a minha mulher, e o António, que também trabalhavam para o tio, moravam numa casinha pequenina com a mãe, que enviuvara ainda nova, tendo ficado com aqueles filhos e uma menina, que apesar da desdita, foram a sua salvação, trabalhavam que nem mouros, todos se fizeram à vida, dois ligados à panificação, e outro não, mas todos singraram, e se fizeram homens. Só o meu Grande Amigo Joaquim, malogradamente, já depois de casado, teve uma morte prematura, derivado a um acidente.

Para terem a noção da casinha de que vos falo, depois deles saírem de lá, foi a Delegação na Vila da Agência do Banco Totta e Açores da Estefânia. Um espaço minúsculo, como muitos se hão-de lembrar. Foi para a época uma jogada de alguém com muita visão comercial, no que ao negócio bancário diz respeito, porque quem quisesse fazer depósitos tinha que ir à Estefânia, e a Vila tinha muito negócio, e o Totta foi apanhar muitos deles. Mas, fui falar da casinha pequena onde moravam os meus amigos, porque se situava, é bom de ver, num plano superior ao forno, e este cozia de noite, e muitas horas depois ainda se sentia o calor do mesmo nos andares superiores do prédio, o que era o caso vertente. Uma espécie de aquecimento central de borla.

A loja onde se comercializava o pão do Loureiro, era onde ainda hoje se pode ver (não sei se funciona ainda), a melhor lanchonete de Sintra, pela localização e pelos bons produtos que vendia. Virada para o Largo da Vila, na descida para a Camélia, era a segunda casa do lado direito.

Tinha uma grande montra, e por alturas do Baile das Camélias, era toda ornamentada com umas colchas, com camélias pregadas às mesmas, e uma grande jarra que havia na Sociedade, de louça chinesa, com ramos de cameleira com flor, aí se publicitava o Baile com as celebérrimas cartolinas, e com as fotografias que os artistas nos facultavam, para a divulgação da festa.

O Sr. António Loureiro era pau para toda a obra, ele estava no forno na produção, ia descansar um bocado, e lá estava ele no balcão, a vender o pão. Era um homenzarrão, muito calmo, passo lento, mas com mais de 1,80m, e teria perto dos 100kg ou mais, parece que o estou a ver com uns enormes sapatos pretos, muito fartos de andar no fadário da padaria.

As padarias fabricavam essencialmente pão, depois aos poucos foram aparecendo outros produtos na área do pão doce, como as célebres arrufadas, que eram uma maravilha, enormes, fofinhas, e com açúcar no topo. Quando por qualquer motivo ele não podia estar no estabelecimento, lá ia a sua esposa, ou os filhos, a Gracinha ou o Toninho. Este foi sempre bem dotado fisicamente, e com seis anos, o seu pai, pelo Natal, em vez de lhe oferecer um brinquedo, ofereceu-lhe um cesto de vime, mais pequeno que os da distribuição porta a porta, e deu ao Toninho, para este fazer a sua rota de distribuição, que incluía (vejam só), a Quinta da Cabeça, que fica a uns bons quilómetros da Vila, e ainda distribuía por diversos clientes até lá. A Gracinha era mais poupada aos trabalhos, mas tinha que alinhar no balcão, isso era fatal como o destino.

Tenho grandes aventuras com o Toninho, o pai dele “além de explorador do trabalho infantil”, não remunerava esse trabalho, mas o Toninho não se perdia, de vez em quando lá ia uma “estalada” na gaveta do dinheiro,(sempre só nos trocos, claro), mas aquilo dava para irmos para a FRESCA, do Fernando Luz Costa, jogar aos bonecos tardes inteiras de Domingo, depois de ver a televisão no canal único e onde passava a programação juvenil, que tanto apreciávamos. Outras vezes, e se era verão, íamos ao Valadas, ou ao Manuel Raio, alugar uma bicicleta, uma tarde inteira 7$50 cada bicicleta, nem sempre a “estalada”, dava para essa folia, aí virávamo-nos para os bonecos...


Outra padaria, a segunda de maior em dimensão, era a Padaria Tavares, com um grande forno, e esta sim, com uma grande chaminé, já que tinha da parte de trás do prédio onde colocar essa dita chaminé.

Esta padaria, estava também muito bem situada, os seus padeiros, eram também gente muito popular na Vila, e de uma simpatia muito grande. O Sr. António, pai da minha boa amiga Raimunda, mais conhecido pelo Paga Bem, era um homem respeitado e respeitador. Outro padeiro era o Carlos, que tinha a alcunha do “Escalhabardo”, era muito espalhafatoso a falar.

Na  Vila do meu tempo, a Velhada não deixava ninguém sem título: tinha característica, levava o rótulo. Este senhor Carlos era o nosso agente de viagens naquele tempo, estava sempre a organizar passeios, a que aquelas famílias aderiam em peso, tantas excursões a que fui com os meus pais, organizadas pelo Carlos Escalhabardo.

Aquilo era como se fosse uma só família, naqueles tempos, levava-se o farnel e acampava-se em qualquer pinhal onde desse jeito, não havia cá mariquices, nem dinheiro para ir a restaurantes almoçar ou jantar, nem isso tinha graça, e tirava o pitoresco da coisa, já que se comia e bebia de um e de outro, (os velhos mais a beber, porque às tantas era cada “cega”...)

Neste Turismo do garrafão, sim porque era disso que se tratava, lembro-me do meu tio Zé Marques, que Deus lá terá em bom lugar, iniciava sempre as hostes com um garrafão pequeno daqueles de dois litros, logo de manhã a “matar a sede ao pessoal”, corria todos homens e mulheres, claro que só o pessoal do copo lhe dava saída, mas o típico da coisa é que ele obrigava a beber por um corno que ele tinha, resultado de uma aparadela de um corno de boi, e, apanhava a parte fechada e a parte mais larga, dava para aí um copo de três, mais coisa menos coisa. Depois, vinha outro com uma caixinha com pasteis de bacalhau para empurrar, pronto, lá começava a estragação, muitas vezes ao meio dia já havia umas boas carraspanas, e se haviam visitas, e horas marcadas para estar nos autocarros, esse pessoal andava sempre atrasado.

Se o circuito o permitia lá ia a saloiada toda direita ao aeroporto da Portela, muito rudimentar como podem calcular, estamos a falar dos anos cinquenta do século passado, parava-se para ir ver os aviões grandes, descolar e aterrar. Sim aviões grandes, porque pequenos tínhamos nós cá, e com fartura, já que a BA1 na Granja do Marquês tinha certamente o maior fluxo de tráfego aéreo militar do país.

Nestas visitas ao aeroporto, duas histórias verídicas, com gente de Sintra, uma num passeio do Escalhabardo, e outra não.

Partíamos cedo, algumas vezes ainda de noite, e chegava-se ao Aeroporto ainda o dia não tinha clareado, daí os autocarros da Carris andarem ainda de luzes acesas, passando  um autocarro de dois andares que tinha ido fazer serviço para aquelas bandas, vai uma senhora do nosso grupo para afilha:

 - Olha, olha, ó filha não vês ali aquele café a andar? Risada geral!…

Uma família de sintrenses foi ao aeroporto, ou na missão de mirones como nós, ou porque iam embarcar ou esperar alguém. A matriarca, que raramente saía da sua aldeia, toda espevitada, tomou a dianteira do grupo, e dirigiu-se para a porta. Assim que pôs os pés na zona da porta automática, esta de imediato se abriu, entretanto a família ficou a conversar e atrasou-se, ela voltou atrás, e lá ia ela de novo, a porta voltava a abrir, até que quatro ou cinco vezes depois deste trabalho, danada, foi ter com os familiares, e disse-lhes: 

- Oh criaturas, vamos embora, porque as pessoas coitadas estão fartas de abrir e fechar a porta e vocês nunca mais vêm.

O Sr. Tavares, tinha uma filha, que lhe deu um neto, o Cali Calé, diminutivo de Carlos, de que também muitas vezes sou apelidado, mas o neto do Tavares tinha um carro de pedais de ferro e folha, era um miúdo uns anos mais novo que eu, mas aí com uns cinco anos era exímio condutor do carrinho de pedais. Havia a esplanada da sede do Hóckey Clube de Sintra, nessa altura era mesmo do Clube, mas dada à exploração do Fernando Luz Costa. Tinha muitas mesas e cadeiras em ferro, iguais às do Café Paris de então, mas pintadas a azul, como o Sintra, embora um pouco mais claro. O Cali Calé fazia verdadeiras gincanas no meio daquilo tudo, fazia peões, e servia de entretimento aos basbaques, que sem nada para fazer se punham a ver as habilidades do pequeno.

A padaria do Tavares, era a que estava ali mais à mão de semear, quando vínhamos de madrugada dos bailes da Sociedade, batia-se à porta e vinha sempre alguém. Tinha a vantagem de o António Paga Bem ser nosso amigo, bem como o Carlos Escalhabardo, perguntávamos se já havia pão, e muitas vezes, as raparigas e os rapazes, ou compravam ou eles davam, um casqueiro quente, e, alguém ia a casa buscar manteiga, para comer pão quente com manteiga.

Outras vezes comprava-se e levava-se para casa para acompanhar com café com leite, assim a modos que um pré-pequeno almoço.

Outra padaria era a do Senhor Jacinto Penaforte, que se situava nas Escadinhas do Teixeira, logo na primeira porta à direita, tinha estabelecimento e forno também, tal como as outras.

Talvez fosse a mais pequena, mas deu para governar várias famílias do seu produto, era daí que o Caínhas Velho gastava, talvez por fidelidade ao seu amigo Jacinto Penaforte, um sintrense como ele.

Os seus padeiros, além do Senhor Jacinto Penaforte, eram os seus sobrinhos Eduardo e José Penaforte. Este tinha a alcunha do Zé Careca (nunca soube porquê, porque o homem tinha cabelo), pai do meu bom amigo Eduardo Penaforte. Tanto o Sr. Jacinto Penaforte como o seu sobrinho Zé foram filarmónicos, qualquer deles tocava clarinete, com uma diferença, o Sr. Jacinto era um bom músico amador, tinha a alcunha dos velhos do seu tempo de “O Palestrino”, algo que tinha a ver com a música penso eu, ainda toquei com ele, e era um bom primeiro clarinete. O seu sobrinho Zé Penaforte deveria ser o homem que melhor sabia solfejar, tinha muitos saberes da teoria da música, mas tocar, parecia um cão a roer ferro, era mais vento que notas boas. Mas muito meritório, estes homens eram padeiros e sacrificavam o seu descanso para ir ao ensaio, nunca faltavam. O Senhor Jacinto vinha a pé da Estefânia, morava atrás da Estação, para vir aos ensaios, nunca faltava, até a saúde lhe faltar e ele já não poder mais.

Gente do melhor, e que deixou saudades a quem com eles privou.

Ainda sou do tempo do Senhor Raimundo, fundador da padaria, e que era tio do Sr. Jacinto Penaforte, morava lá para a Ribeira de Sintra.

Tinham outro padeiro, também de nome Jacinto, homem que arribou para aí, morava lá para o Arrassário, tinha uma senhora toda jeitosa, que era um saco de pancada, pois o malvado era desses “heróis” (hoje diz-se violência doméstica), naquele tempo era mais terra a terra, e dizia-se que o Jacinto dava porrada na mulher, e bêbado ainda pior! E dava mesmo, porque de vez em quando lá andava a desgraçada com um olho à belenenses.

O meu tio Augusto, era um homem a quem a natureza nada favoreceu, tinha um atraso de nascença, sem ser imbecil, porém, era um alcoólico, era difícil tê-lo ocupado para se desviar do vinho, mas tinha um compromisso com a padaria do Penaforte, e levantava-se todos dias de madrugada, para ir fazer uma venda de pão, logo de manhã muito cedo. Esse tal Jacinto homem de mau carácter, sabedor das fraquezas do meu tio no que ao vinho dizia respeito, logo de madrugada oferecia-lhe vinho com sal, o meu tio muitas das vezes ainda trazia a bezana da véspera, e aquilo marchava tudo.

O meu tio morava connosco, na casa do meu pai, que era a antiga casa dos meus avós paternos, o meu pai era como se fosse o seu tutor, e tinha a responsabilidade de o ter debaixo de olho, e foi até morrer quem se interessou por ele. Um dia, foram-lhe fazer queixa, e o Jacinto ficou debaixo de olho do Caínhas Velho. 

O tempo foi passando, até que num domingo, estavam todos no Largo da Vila, não se trabalhava, as tascas abarrotavam com o pessoal do copo e as esplanadas do Paris, do Central e do Hóckey estavam cheias, (o turismo, não sendo como era antes da pandemia, já era muito). Normalmente aos domingos o  meu pai  ia sempre para a oficina trabalhar, menos que o normal, mas tinha que ir, porque não frequentava tabernas, e estar ali na Vila de braços caídos sem fazer nada,  ficava com as mãos inchadas, e não gostava de desperdiçar o tempo desse modo. 

Estava ele na oficina, alguém lhe veio dizer que esse tal Jacinto estava a por o meu tio Augusto “a dar sessão”, como se dizia naquele tempo.  O meu tio, já com os copos, era asneira por tudo o que era lado, e estava a ser uma vergonha, ver aquele infeliz a dar espetáculo. Ok, obrigado eu já lá vou. 

O Jacinto tinha a reputação de rufia, costumava puxar por facas, e já tinha marcado uns quantos. Isso para o meu velho eram trocados, está ainda aí felizmente o meu bom amigo António Luís Miranda que assistiu a isso, o meu pai chegou perto do Jacinto, puxou-lhe pela gola do casaco e ferrou-lhe uma cabeçada que o enrolou no chão, desmaiado. Pegou no Augusto, e toca a andar à minha frente já para casa. O meu tio não obedecia a ninguém, mas com o Mestre Carlos, como ele e muitos lhe chamavam, nem ai, nem ui. A minha mãe ficou numa ralação, com medo que o Jacinto fizesse uma espera ao meu pai, e lhe desse alguma facada. Da oficina do meu pai à padaria do Penaforte eram para aí uns 20 passos, nunca mais houve vinho com sal, nem faltas de respeito, foi remédio santo.

Veio a União das Padarias de Sintra, e “fundiu” as padarias todas!… Acabou-se.

E aqui ficam as histórias das boas padarias da VILA VELHA do meu tempo, misturadas com outras histórias que se passaram com gente dessas padarias.

Sintra, 20 de Julho de 2020.

Carlos José Paulo dos Santos

segunda-feira, 20 de julho de 2020

O Rádio Rata

CAÍNHAS









Nos meus bons tempos de rapaz novo, nascido e criado na Vila Velha, fazíamos ali a nossa vida, trabalho casa, casa Café Paris, sede do Hockey, por ali, eu a determinada altura com a “febre” da música, intervalei desde os meus 16 anos até ir para Angola, era só ensaios, e atuações, e consequentemente dias inteiros na Sociedade União Sintrense a ensaiar ou nas deslocações para atuar.

Tínhamos o culto da amizade, não haviam telemóveis, redes sociais e essas coisas modernas, mas, tínhamos imaginação e divertia-mo-nos.

Passávamos horas a conversar, quantas vezes juntávamos um grupo, ou mesmo conversas a dois, e íamos para o Paço andar para trás e para a frente a falar do quotidiano, de música, desporto, do Hockey de Sintra, das miúdas, e de uma quadrilhice ou outra. Não podíamos fugir, então como conseguíamos passar o tempo.

Mas, em termos de quadrilhice, ninguém batia o RÁDIO RATA, o tal que nós dizíamos que estava sempre a funcionar, 24 sobre 24 horas! E estava!

Era uma família que morava numa casa, virada para o Largo da Vila, fosse a que horas fosse se chegasse alguém, ou houvesse movimento extraordinário, lá estavam ou ela ou ele, a remexer as cortinas para quadrilhar e ver o que se estava a passar. Nós moços irreverentes, começávamos logo a gritar, RÁDIO RATA A FUNCIONAR, a curiosidade daquela gente era tanta que não largavam a “vigilância”.

Como se estava em pleno salazarismo, havia sempre aquela dúvida, se seria vigilância pidesca, ou mesmo só curiosidade.

Se algum de nós se diferenciava por ser mais esperto, curioso, ou quadrilheiro, o apelido era ser Rato, ter muita ratice, daí o Rádio Rata, porque fazia parte da nossa terminologia.

Isto podia dar pano para mangas, mas é aborrecido pormenorizar, porque embora já tenham morrido os originais, que por isso nos merecem respeito, devem ter familiares descendentes, e não vou sujar o nome de ninguém, e não tenho memória que tenham prejudicado ninguém nestas suas “pesquisas de janela”.

O futebol em Sintra no tempo do meu pai

CAÍNHAS










Sintra, 23 de Dezembro de 1928.

Decorreu no campo dos Seteais, um desafio de futebol, num campo parte integrante da Quinta do Conde Sucena, que cedia aos clubes de Sintra o espaço fronteiro ao seu Palácio para a prática do futebol.

Na época haviam dois clubes na Vila, o Sintra Football Club, e o União Sportivo de Sintra. Da Estefânia, o Sport União Sintrense e o Sport Lisboa e Sintra, de São Pedro, a Sociedade União 1º de Dezembro. Havia ainda o Operário de Sintra, originário da Tuna Operária de Sintra, mas não sei se chegaram a jogar nos Seteais.

Naqueles tempos, os jogos tinham sempre um troféu em disputa, neste caso, num desafio entre o União Sportivo de Sintra, capitaneado por Américo Faria, e o seu maior rival o Sport União Sintrense, capitaneado por José André, considerados pelo repórter da época como os mais fortes grupos de Sintra, o troféu foi designado como “um artístico bronze”. Reza a crónica que os “Velhos Rivais”, levaram aos Seteais um grande número de ferrenhos adeptos, que durante o jogo se manifestarem “claramente”, tal o entusiasmo que estavam possuídos, (palavras do repórter), porrada de criar bicho, depreendo eu.

O jogo foi arbitrado pelo Senhor Adriano Resende, de novo convidado para arbitrar, “viu com aquela facilidade filha da competência” NR.(*)

O jogo foi de uma rijeza tal que o árbitro teve que fazer vista grossa a muita coisa, e teve que ser muito paciente, e surdo para as claques e cego para as cores em campo. NR

Começa o jogo. Não esquecer que estávamos em Sintra no dia 23 de Dezembro de 1928, pleno Inverno, diz a reportagem que, o tempo se cerrou por completo, mal os jogadores se viam uns aos outros. O Senhor árbitro queria adiar o jogo, aconselhando que não se devia continuar a jogar! Qual quê vamos a isto que é uma pressa, “não quiseram”, diz o relator.

Como a violência é inimiga da boa técnica, foi um jogo todo de peripécias, cujo epílogo representa vergonha trazer-se a lume. Mas eu trago, porque além de ainda não ser nascido, sei o epílogo.

A porrada começou dentro do campo, tendo acabado cá fora, com as duas claques, que estavam uma de cada lado da linha lateral, a invadirem o terreno de jogo. Foi uma autêntica batalha campal, em resumo, o costume nestes jogos.

Por estas e por outras, o Conde teve muita paciência, mas assim que pôde, correu de lá para fora com estes espetáculos degradantes. O repórter, muito punhos de renda, para não ofender nem gregos nem troianos, atenuou, dizendo que foi uma vergonha, enfim, o que lá vai, lá vai fazendo votos que o brio desportivo nunca abandone aqueles que prezam o seu nome e respeitam a sua colectividade. Um Senhor, este repórter.

Refere a determinada altura, o nome de CARLOS SANTOS, desportivamente, mais conhecido por “CAÍNHAS”, o melhor homem em campo, no jogo supra citado. CAÍNHAS, o meu falecido pai jogava no União Sportivo de Sintra (e também no Sintra Football Club), União Sportivo, que neste jogo levou de vencida o Sintrense por 2-1, sendo um dos golos de penalty, e o árbitro teve a coragem de anular um golo ao Sintrense. Faço ideia, aquilo era uma guerra. Se alguém dava um espirro, com estes ingredientes todos a alimentar a combustão, mesmo a chover, nada fazia apagar aquele lume.

Diz o repórter que o Sintrense não estava em Sintra. Toda a gente sabe que jogou mal. O Sintrense era regularmente o campeão destes jogos, daí o repórter dizer, às tantas, que estavam pouco habituados a perder, e que também é preciso “saber perder”. Refere ainda que a vitória do União se deve ao bom trabalho de toda a linha e ao seu melhor homem, aliás ao melhor homem em campo que foi “Caínhas” que “estava simplesmente colossal” NR É um óptimo defesa. Abusa por vezes do seu físico, lançando-se com uma violência que não é necessária” NR.  

Eu acrescento, era um poço de força, 1,80m, 80kg de peso, e uma vida de trabalho duro, e com muita natação nas presas de Monserrate, desde menino, onde iam tomar banho depois de grande parte dos jogos de futebol, a pé dos Seteais até Monserrate, e depois a pé para a Vila, não havia cá frio nem distâncias grandes, era tudo pujança, juventude, amor à camisola.

O meu pai era um homem muito respeitado na Vila, e não só, tinha amigos em todo o lado. Nunca esqueceu a rivalidade com o Sintrense, vá-se lá saber porquê, visto não ser pessoa de rancores nem de ter inimigos, talvez por ser uma rivalidade tipo Benfica /Sporting. A crónica diz também que os caseiros das quintas em redor, roubavam as bolas, que lhes iam lá parar, o que deve ter dado grande falatório, porque vem a desculpar-se e a tirar deste rol os “criados” da Quinta do Conde Sucena, que foi o grande impulsionador do futebol em Sintra, não só cedendo este espaço primitivamente, como mais tarde dando para os clubes de futebol os terrenos onde se situa hoje o património do 1º de Dezembro.

Se verificarmos as datas, isto era tudo como se fazia em Inglaterra, um autêntico Boxing Day, a terminologia do jogo era exatamente igual, os livres eram – free quick, penalty, corner, o team, os defesas eram os back’s, médios half-back, o árbitro era o refe, para simplificar o nome referee.

Na hora do fecho do jornal onde saiu esta reportagem, tinha acabado um jogo entre o Sport Lisboa e Sintra, e o União Sportivo de Sintra, ganho pelo Sport Lisboa e Sintra por 3-2. Ora este jornal saiu no dia de Natal de 1928, e o jogo que foi relatado jogou-se em 23 de Dezembro 1928, dois dias antes, tendo o União dois dias depois jogado de novo. Para amadores, é obra, um verdadeiro Boxing Day do futebol local. Dá ainda nota o Jornal que na quinta-feira, no Cine Tivoli haveria grande festa de homenagem ao Sport União Sintrense, campeão local.

Artigo escrito a partir duma notícia do jornal Sintra Regional de 25 de Dezembro de 1928, sendo redactor (NR) António Medina Júnior.


Carlos Caetano dos Santos, meu pai, terceiro da esquerda para a direita na fila de baixo
Terceiro, na fila de cima. Equipa do Sintra Foot Ball Clube em 1930
Quinto, na fila de baixo




A Torre do Relógio


CARLOS JOSÉ SANTOS (CAÍNHAS)

O relógio da Vila, tinha e tem que ter sempre alguém que lhe dê corda, essa tarefa é nada mais nada menos que mover umas enormes rodas dentadas que fazem subir e descer uns pesos de umas boas centenas de quilos.
Na Vila do meu tempo, lembro-me do Júlio Santos, e do Luís Talagão, que tiveram essa incumbência, que devia ser mal remunerada, mas os ordenados eram pequenos, tinha que se aproveitar tudo.
Este relógio tão característico, e centenário, já “viu” muita coisa.
Já serviu de desculpas a muita gente, até a um antigo guarda redes do SPORTING, quando este clube estagiava cá no Hotel Neto, e se queixava que não conseguia dormir por causa do som das badaladas do relógio da torre, nós morávamos ali nem sequer o ouvíamos.
No rés do chão, havia um sapateiro, o Clemente, que certo dia lá estava ele na sua tarefa, quando se desprende lá do alto um peso do relógio, e como por milagre, foi cair separado por milímetros do lado direito do banquinho do Clemente. O susto do Clemente foi de tal ordem que ficou gago para o resto dos seus dias.
O Clemente morava na Rua do Arco do Teixeira, e era um homem muito calado e discreto, fazia parte da convivência dos mais velhos da Vila do meu tempo, depois do trabalho era cliente certo da Casa das Bananas do Sr. Acácio Soares Faria, onde ia beber o seu copinho.
Na Vila de que vos falo, logo ao lado da Torre do Relógio, para Ocidente, os CTT, que tinham uma azáfama digna de uma Sede de Concelho, até terem passado para a Estefânia. Ainda recordo os Chefes de Estação que ali residiam com as suas famílias, os carteiros e os outros funcionários que tinham a incumbência de transportar encomendas, num carro de madeira com duas rodas e varais, daqueles que o homem tem que empurrar e puxar para o movimentar até ao destino. Os seus uniformes eram em cotim, pele de rato, estavam na linha dos das Forças Armadas, ou seja, de um mau gosto atroz.
Da Torre do Relógio para Nascente, era a mercearia do Senhor Joaquim Vitoriano, que tinha, só na Vila, a concorrência de mais quatro mercearias: a do seu irmão, José Soares, a do Tonecas, a do Fernando Luz Costa (na Praça) e a do José Antunes, um misto de lugar de legumes e mercearia. O Sr. J. Vitoriano não tinha descendência, e deixou a casa para o seu fiel colaborador José Maurício, que foi andando até poder, tendo o epílogo esperado, o fecho. Este estabelecimento comercial ficou fechado anos, até que o comerciante mais bem-sucedido desse tempo, o Sr. Catalão, tomou o espaço.
À esquina, era o talho do Sr. António Simplício. O cortador que mais tempo esteve à frente do estabelecimento (no meu tempo), era um homem do Linhó, já falecido, que se chamava Otávio. Era o típico empregado do comércio daquele tempo, muito atencioso e educado, servil até. Amigo do copo, mesmo que estivesse a enrolar o cliente, tinha sempre boa cara, foi mais uma figura típica da Vila, sem ser de lá, deixou lá muitos amigos, que ainda hoje se lembram dele.
Este edifício centenário que foi cadeia comarcã noutros tempos, nos seus baixios, que se situam para a Rua da Pendôa, tinham o armazém de bebidas do Café Paris, e à esquina, mais abaixo, eram os urinóis da vila, uma coisa horrenda, que exalava um cheiro nauseabundo. Era sua responsável a Tia Alice, que se limitava a mandar uns baldes de água, e varrer as imundícies para a rua.
Deixou aquilo para se juntar com o Zé das Bananas, dono da Adega das Caves. Era um espaço de terror, porco e exíguo, que além de servir os dois sexos ainda, serviu depois da Alice de abrigo a uma senhora viúva com a sua jovem filha, embora que por pouco tempo. Mais tarde foram feitos debaixo do Paço, os atuais sanitários, com condições mais dignas de uma terra de turismo.
Carlos José Santos