terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Terceiro Capítulo


TUGAREG

Tugareg nasceu em Junho de 1957, no antigo hospital de Sintra, foi Saloio sem o sentir, já que a sua ascendência e vivência eram Beirãs. Estudou no colégio Dom Afonso V, e no liceu de Sintra, acabou por seguir para gestão de empresas, já que na época a faculdade de Belas Artes lhe pareceu demasiado politizada, vazia de ensino, época das passagens administrativas, de grande convulsão social e estudantil, inviabilizaram o gosto pela arquitetura.
Pai solteiro aos 19 anos, foi obrigado a abraçar a vida real deixando a chama pela música adiada, trabalhando de dia e estudando à noite. Nos poucos tempos livros foi descobrindo Sintra, uma de suas paixões, outra, a escrita, foi tomando forma, pequenas poesias, formaram um livrinho, impresso em casa, 40 exemplares de "escritos dedicados" à família e amigos, sobre a forma de prenda de Natal em 2002.
Um dos "amigos", num livro que publicou decidiu plagiar alguns dos poemas e a conselho da escritora Raquel Ochoa, com quem fez um curso de literatura em 2016, acabou por registar todos os seus escritos e títulos na SPA. Vários livros começados, que um dia serão concluídos, e muita prosa solta, são ainda só um fraco espólio.

João Ribeiro olha uma última vez para Grazina antes de adormecer e fica a matutar no que lhe tem vindo a acontecer nos últimos tempos.
Imagina-se ainda no Oriente e na chegada dos Espanhóis a quem os Reis Portugueses tinham acabado de entregar as ilhas Molucas.
Sentiu na pele as consequências, de quem perde o que tem, uma vida boa, casas, fazendas, ganhas à custa de ter emigrado por ser preciso expandir a Fé e o Império, sentiu as consequências do mandar político, que com uma mão lhe abre novas possibilidades e com a outra lhe manda regressar ao reino com o que pudesse trazer.
Quis a sorte que um Espanhol se engraçasse com ele e lhe comprasse os bens imóveis, umas quantas Dobras, foi justo esse Catalão, já que se tivesse esperado  poderia ter ficado com eles de graça.
Dois elefantes que possuía trocou-os por especiarias e jade, um terceiro deixou-o a um seu criado á laia de agradecimento.
De outros mealheiros comprou diversas mercadorias, que sabia render bom dinheiro em Portugal, a um outro elefante que morrera para lhe salvar a vida, serrou os cornos, curtiu-os e encheu-os de pimenta, achou que tinha o resto da sua vida garantida.
Ele e a sua garantia embarcaram rumo a Portugal, vinham as caravelas cheias, com ele vinham outros retornados e alguns Espanhóis, a um deles  de nome Alvarez iria ficar a dever  vários favores, tal como o elefante também Alvarez iria morrer para lhe salvar a vida, do elefante aproveitou o marfim, do homem herdou uma promessa que teria de pagar em Espanha.
Antes de África avistaram um barco de piratas e dele fugiram, rumando para terra na esperança de entrar na foz de algum rio ou abrigarem-se numa enseada das que sabiam haver a norte de Moçambique, da Armada, que soubessem, só sobravam eles, no horizonte viam fumos de combate, ajoelharam e rezaram pelos companheiros que àquela hora se estariam a apresentar ao Criador .João Ribeiro e Alvarez estavam lado a lado, estrangeiros um do outro, o medo? era  o mesmo, perceberam a sua pequenez e a grandiosidade de Deus, capaz  de lhes conceder abrigo, e receber ao mesmo tempo, rezas em línguas diferentes, foi neste momento que deixaram de ser estranhos.
 Incólumes, acabaram por meter ferros com terra á vista, acoitados de ventos e de piratas, a noite que chegava, ajudou-os a esconderem-se.
Com o nascer do dia renasceram os medos, do alto do mastro, um marujo procurou os perigos, do lado do mar não os havia, para norte e para terra também não, a sul havia dúvidas. Avistou ao longe, junto da costa, um dragão negro a sair da água, que lhe pareceu, não estava certo…
Logo no convés, se puseram alguns a rezar, nada melhor que apelar para um especialista, quando estão em causa matérias do desconhecido, que se fossem dali! antes os piratas! que deles sabiam com o que podiam contar.
O mestre do navio, mais avisado que os restantes, quis que para lá rumassem, que dragões nunca nenhum houvera visto vivo, e que aquele por não se mexer, a ser dragão já estaria morto. É destas vontades, destas buscas, deste destrinçar de fenómenos, que os homens vão roubando aos mistérios Divinos e acrescentando ao conhecimento. Levantaram ferro, e pelo meio do dia avistaram os destroços do que  lhes pareceu ser uma caravela, estava negra, encalhada, na popa só restavam os vigames principais, a proa estava inclinada para cima e menos destruída, tinha havido um incêndio…
Mandou o mestre que baixassem três bateis, dois iriam a terra em busca de água, frutas e mais que houvesse que lhes desse préstimo, o outro que fosse com cuidado investigar o dragão morto, riram-se da graça e do alívio, desta vez ninguém rezou.
Entraram terra a dentro, com as barricas as costas, um olho nas feras, outro no desconhecido e encontraram uma lagoa de água caída de uma cascata, era límpida, e por nela viverem rãs e peixes a tomaram boa para beber, outros colheram alguns frutos, depois das provisões prontas, banharam-se e de homens rudes apareceram crianças, brincando, chapinhando na água, alheios aos perigos, ás feras, aos fogos de dragão, limpando a salmoura acumulada e a maldade.
Um deles colocou o indicador da mão em frente dos lábios, em sinal de silencio, todos se calaram e agachados ficaram onde estavam de ouvidos aguçados, para além da água a cair, ouviram um restolhar, na selva, nus na água, indefesos  se encontraram, esperaram mais um pouco algo no meio do mato se abeirava da lagoa, um correu na direção das vestes e das armas, os outros seguiram-no, o que ia na frente, cobriu-se, não enfrentaria o perigo despudorado.
Um grande vulto correu na sua direção, pegou no arco, apontou e de uma flechada feriu de morte um grande porco do mato, as vestes caíram junto com o porco e do medo passou-se ao riso, haveria rancho melhorado nesse dia.
No outro batel misturavam-se os cuidados com a audácia e nas águas claras ao aproximarem-se puderam ver a caravela encalhada.
Experientes que eram, colheram informações, não havia vestígios de batalha, o que não ardera estava pronto a navegar e não entendiam o que se passara, alguns mergulharam em busca de tesouros e de esqueletos e nada encontraram a não ser peixes, era certo que não havia ninguém a bordo quando afundara, nada aproveitaram, também não havia carga a bordo, logo alguns se encheram de maus presságios e quiseram ir dali, rodearam pela proa e logo abaixo da linha de água estava escrito “São Rafael”.
Era portuguesa, não havendo mais nada quiseram salvar a placa com o nome, e entregá-la em Lisboa, mas o mar já tinha decidido que a mesma era dele, que o querer dos homens nem sempre vence o querer do mar, e quando já a tinham solta do casco, a placa escorregou, e afundou de imediato, ainda dois deles mergulharam para a trazer, um ultimo mergulho, o marinheiro demorou-se quanto pode e quando veio à superfície trazia algo em cada mão, eram lagostas, do esforço sempre se aproveitou algo para além do relatório que teria de ser escrito no diário de bordo.
Recolheram-se os batéis, levantaram-se os ferros, e sem demora rumaram a sul, que o vento era favorável, navegaram sempre com terra à vista e nessa noite foi grande a festa, água nova, carne fresca, e outros mimos faziam esquecer as agruras dos últimos dias e com o moral e as velas ao alto se aproximaram da ponta sul de África.
João Ribeiro ficou desperto, chegou  alguma lenha para a fogueira, olhou o corpo adormecido de Grazina, que não tinha mares que lhe tirassem o sono, pelo fogachar do lume pode perceber o corpo belo por debaixo das cobertas e encheu-se de desejo, ao lado estava Pavel, ressonando, lobos uivavam ao longe na noite, afastados pelo sentir dos cães e dos ursos, sentiu-se seguro, pior, já ele sabia iria ser, o recordar da ida para o cabo da Boa Esperança que todas as noites o atormentava, deitou-se esperando o inevitável…
Fechou os olhos e imediatamente se viu em pensamentos, dentro da caravela no canal de Moçambique.
Recordou que até ali tinha escapado das febres, viu-se dias depois prostrado com dores agarrado à barriga, de todos só o espanhol Alvarez de Sá Plama passava incólume, seria da água? Que por lá viverem rãs e peixes não era garantia que fosse boa para homens, que destes nem sinal de os haver por lá.
Não se conhecia a maleita e por isso não se conhecia o remédio, e a bordo pouco mais havia que chás, rum, e ópio, nenhum dos três fazia efeito e estando João em grande sofrimento ouviu Alvarez sussurrar: - masca estas folhas, e tirando de um alforge lhas deu sem que os outros vissem, tenho poucas, para nós bastará…
Melhorou em três dias e das Dobras que trazia quis que Alvarez aceitasse algumas, este recusou dignamente, pagaria ele e as gerações futuras com amor e amizade.
O vento sempre soprou de feição, cada dia que passava ficava mais forte, ele e as correntes empurravam a embarcação para os limites em choque, daquele mar com outro, a velocidade aumentava, ficou vertiginosa, as ondas elevavam a massa flutuante de madeira carregada de almas e de seguida baixavam-na no abismo.
Chovia quando se aproximaram de desdobrar o cabo que tanto era da Boa Esperança como das Tormentas, o céu, o mar e o vento estavam entregues ao Demo e este divertia-se a empurrar a caravela para as rochas, os marinheiros tudo faziam para o contrariar, conscientes de que uma parte das suas almas também era Dele, não havia padre a bordo e muitos não tinham como confessar os seus pecados, iriam para o inferno…
O mestre dava as ordens no afrouxar das rajadas do vento, os marinheiros mal as ouviam e tudo faziam por manobrar o navio na direção do mar alto, em  vão, um rochedo abriu um rombo no casco, o estalar da madeira fez aparecer a sombra da morte que entrou na forma de água dos oceanos, inundando o porão, arrastando homens, galinhas e cabras, caixas de sonhos e outras mercadorias.
O barco começou a querer afundar, e logo o mestre ordenou que deitassem carga ao mar, apontava a proa do navio, ora para as ondas, ora para longe de terra, no meio destas escolhas acreditou que iriam naufragar, clamou pela ajuda de Deus.
João Ribeiro, empenhado nos seus afazeres de salvação, viu que no meio do tributo que estavam a pagar, sob a forma da carga que jogavam borda fora, estavam alguns dos seus pertences,  correu para salvar o mais valioso, abriu um dos baús e tirou as dobras, os cruzados e o jade, tirou também os dentes de elefante com a pimenta e atou-os às costas, nem tudo se perderia se dali saísse vivo.
Com a carga no mar, o mestre arriscou mais para ocidente, estalavam as ondas agora de lado, inclinando o navio perigosamente, as velas estavam no limite do rasgar, todo o vergame rangia e estalava, os homens não se tinham de pé, arrastados pelas ondas que varriam o convés.
A água continuava a entrar, apesar de alguns  terem empurrado trapos e pregado um baú na direção do rombo, neste baloiçar violento, João agarrou-se ao bordo do navio com todas as suas forças, os cinco dedos de cada mão cravados na madeira e dali não os tirou, por várias vezes o mar lhe arrastou os pés e caiu, mas nunca soltou as mãos da amurada, Alvarez foi ter com ele, para que se abrigasse melhor, ao que João retorquiu, que se tivesse de morrer, seria ali e não nas tripas rebentadas de um navio, uma onda mais forte quase os arrastou, e Alvarez reparou que os dedos  de João sangravam do esforço, sabia que o amigo português ainda estava convalescente e não se aguentaria muito tempo, respeitou a vontade, talvez a última, e atou-o com uma grossa corda á amurada, pondo em perigo a sua própria segurança, já que para além destes dois, apenas o mestre e os homens necessários para manobrar estavam no convés, expostos ao vento e ás ondas, todos os outros estavam recolhidos no porão, agarrados ao que podiam, aos tombos os que tentavam tapar a entrada da morte.
Uma ponta de um rochedo aflorava na frente do navio e parecia que o Demo se tinha enfastiado deste jogo e queria partir para outra diversão acabando com este, o mestre percebeu que não haveria mão de homem que evitasse o choque, mesmo assim,  rodou ele e mais dois outros a roda do leme até ao fim e fechou os olhos esperando o inevitável…
No último momento o navio rodou, inclinou os mastros para terra, algumas velas rasgaram-se molhadas, arrastaram cabos e varas de madeira, um dos mastros partiu-se e resvalou lascado para o centro da caravela.
Deus, embora tardio, fez a sua aparição, ocupado que estava a empurrar  das rochas para o mar outros navios e a salvar outras almas, quase não chegava a tempo de desviar este da meta do Diabo, é certo que ao longo dos tempos já tinha desdobrado estas tarefas divinas com Alá, Jeová e outros santos e ajudantes terrenos, tendo cada um a seu cargo e ao seu jeito rebanhos humanos, sendo que na falta de um acodem os outros, tendo depois de repassar os agradecimentos à respetiva divindade.
Vigilante e apressado, tratou de amainar os ventos a este oceano já Atlântico, deixando a caravela a navegar mais sossegada e foi cuidar de resolver outros desastres ou jogos do Diabo, não reparando que Alvarez se esvaía em sangue debaixo das lascas de madeira e do peso do mastro que desabara.
Não reparo fatal para Alvarez, que acreditava que Ele escrevia direito por linhas tortas, e não um Deus vigilante no geral e distraído nos pormenores.
João Ribeiro conseguiu finalmente libertar os dedos da madeira, desatou-se, e foi acudir ao amigo espanhol  com o resto das forças que lhe sobravam, e outras que foi buscar não sabe onde, levantou o mastro com a ajuda de uma alavanca, Alvarez arrastou-se no convés, livrando-se da madeira, não da morte, João sentou-se no chão tomando o amigo nos braços, sabendo que mais não podia fazer por ele que ajuda-lo a não morrer sozinho.
Os olhos verdes de Alvarez focaram os castanhos de João e pediram-lhe que, se chegasse á Ibéria, agora terra de ambos, que fosse ter com a mulher e os filhos a Ciudad Rodrigo e lhes entregasse o seu amor e uma bolsa que Alvarez tinha com ele, estrebuchou, jorrou uma golfada de sangue pela boca, e a sua alma foi atrás de Deus que pelo tempo ainda não estaria longe,  João prometeu aos olhos  já mortos que o faria.
Passou-lhe a mão pelo rosto e em caricia fechou-lhe os olhos, o  céu, que entretanto tinha ficado azul, apagou-se para Alvarez, chorou abraçado ao cadáver, reviu a amizade longa na intensidade, curta no tempo que viveram, revistou-o, encontrou a bolsa e um terço de jade que guardou, descalçou-lhe as botas e deu-as a outro que tinha ficado sem o que calçar na tempestade, sem mais o que aproveitar pegou no falecido ao colo e caminhou com ele até á borda do navio, no caminho ouviram-se rezas e choros, mais quatro mortos, trazidos do porão se alinhavam por onde horas antes tinham deitado a carga ao mar, encomendaram-nos a Deus, não esquecendo de encomendar outro arrastado pelas ondas, por baixo acabavam de calafetar o rombo com estopa, sisal e pez, já não entrava a água, jogaram os corpos no mar, deitaram a morte fora e foram com baldes tirar a que tinha entrado.
Mais tarde, João, deitou-se no convés a olhar o mesmo céu azul, o sol poente ainda teve tempo de lhe secar as vestes e um pouco da tristeza que trazia, finalmente relaxou os dedos das mãos, abrindo-as, o mestre, cúmplice na dor, deu-lhe a beber um pouco de rum, neste calmo torpor quente, João Ribeiro finalmente adormeceu.
Já em sonhos, ainda teve tempo de rever o resto da viagem até Lisboa, o reencontro que tiveram em alto mar com outra das caravelas que tinha partido com eles das Molucas, escapara dos piratas e passara dias depois deles pelo cabo já com a tempestade acalmada.
Chegaram-se a eles e ajudaram nas reparações, partilharam alegrias, provisões e cargas, mais leves e juntos depressa chegariam ao destino.
Já num sono profundo, ainda sonhou com o escorbuto que apanhou já no final da viagem e de que se recompôs já em Lisboa, perto de si Grazina sonhava com ele…

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Sintra e a defesa costeira da cidade de Lisboa ao tempo dos muçulmanos


JORGE LEÃO

 
AS ATALAIAS E A COMUNICAÇÃO À DISTÂNCIA
A necessidade de comunicação à distância deve ser inerente à existência de grupos humanos e é, por isso, muito remota a história dos procedimentos de envio de sinais à distância, que se empregaram em diferentes sociedades humanas, em diferentes épocas e em diferentes espaços geográficos.
Ao que parece, analisada a forma como os antigos utilizaram os métodos de envio de sinais à distância, estes podem-se dividir em dois grupos: acústicos (tambores, cornetas, sinos, etc.) e visuais (fogueiras, fumadas, bandeiras, espelhos, etc.). Consoante os condicionamentos geográficos ambientais (planícies, montanhas, bosques, etc.), um dos procedimentos vencia melhor a distância e se tornava mais eficaz. Também foram utilizados os dois em simultâneo: os soldados romanos usavam os seus escudos bem polidos para enviarem sinais reflectindo a luz do sol. Também usavam fogos e, na coluna de Trajano, podem-se ver esculpidas torres com tochas que seriam o modelo que se usaria na altura.
Aqui, no ocidente da Europa, hoje Espanha e Portugal, na idade média, foram utilizados sobretudo fogos e fumos. As fumadas, ahumadas em castelhano, seriam fogueiras feitas especialmente para produzir grande quantidade de fumo, mais visível durante o dia, consumindo principalmente palha da região. À noite, usando madeira e produzindo fogo, visível na escuridão.
Emitidos de atalaias ou torres de vigia, ribats, castelos, etc., estes sinais foram o sistema de mensagens mais incrementado no período islâmico e baseava-se no contacto visual entre diferentes pontos, no sentido de fazer chegar o mais rapidamente possível ao próximo castelo e ao conjunto do território, a informação importante sobre a presença e o comportamento do inimigo.
Escreve assim Aly Mazahéri: «Entre as cidades costeiras, escalonavam-se ribats, cuja guarda velava dia e noite, e acendia fogos, logo que via aproximarem-se navios normandos, a fim de prevenir a cidade mais próxima; esta enviava imediatamente reforços e barcos de guerra.
Todas as costas do Egipto, da África e da Andaluzia Setentrional estavam defendidas segundo este sistema»(1).
A toponímia revela-nos essa função exercida no passado em vários pontos do nosso território, sendo o mais comum o topónimo Atalaia.
 
O CASTELO DOS MOUROS
O Castelo dos Mouros, do período muçulmano, serviu para abrigar a população local protegendo pessoas, bens e animais, de ataques inimigos. E serviu também como elemento dessa linha defensiva que, comunicando com outros pontos, também estrategicamente colocados, ajudava a defender o conjunto do território e, especificamente, Lisboa, a cidade mais importante.
A essa tarefa defensiva, deram os muçulmanos especial importância após o ataque de uma frota de navios Vikings que, em 844, investiu sobre o Garb Al-Andaluz, atacando Lisboa e vários pontos da costa, até Sevilha. Naturalmente perplexo, o poder militar muçulmano intensificou então a vigilância da costa marítima, especialmente para Norte, tendo sido edificadas ou reedificadas várias estruturas vocacionadas para essa função. Foram, como já se referiu, de vários tipos: castelos, ribats, morábitos, atalaias ou simples torres de vigia, etc.
Na prática, no caso da defesa costeira da cidade de Lisboa, e para o caso que nos interessa estudar, vindo o inimigo do Norte, além de proteger a população local e preparar eventual combate, deveria o Castelo dos Mouros, como qualquer outra atalaia, avisar Lisboa e o resto do território, o mais rapidamente possível, da vinda de uma frota inimiga.
Usando o sistema de mensagens à distância, utilizando o fumo durante o dia e o fogo durante a noite, estas chegariam primeiro ao castelo de Lisboa que os emissários que, a cavalo, também poderiam ser enviados.
Entretanto, já foi observado que o Castelo dos Mouros não tem contacto visual com o castelo de Lisboa e que só por um sistema de triangulação de mensagens a informação chegaria a Lisboa (2). O Castelo dos Mouros também não tem a possibilidade de avistar o Sul nem parte do Sudeste. Não avista parte essencial do tejo, a sua foz. Tem exactamente a Sul o monte da Pena e um pouco mais para Sudeste o monte de Santa Eufémia, que o impedem de controlar a barra do Tejo.
Porém, sabemos que a Serra de Sintra tem, na mesma freguesia de São Pedro de Penaferrim, pontos com excelente visibilidade para Sul e Sudeste, em que se avista o território desde o cabo Espichel até Almada, controlando excelentemente a barra do Tejo. E isso era muito útil para observar o comportamento do inimigo.
Por outro lado, mesmo que do Castelo dos Mouros se aviste Almada, o que acontece por já não se ter os montes atrás referidos (Pena e Santa Eufémia) a impedir a visualização, esta é ténue. É distante. Distante demais para ser eficaz o sistema de comunicação à distância que, como vimos, se utilizava na época. Seriam necessários pontos intermédios, onde a percepção dos sinais fosse rápida, e eficaz a sua retransmissão.
Por isso, observando a toponímia e as características geográficas, pensamos ser necessário acrescentar às localidades já apontadas (3) como vocacionadas ou utilizadas para esta função, outras duas: o Covelo, em São Pedro de Penaferrim, ainda não analisada, e Talaíde, de que já se tinha uma noção, porém não suficientemente enquadrada.
 
O COVELO
Em São Pedro de Penaferrim, na vertente Sudeste da serra, na direcção que parece ser a melhor para o fim que se pretendia, temos alertado para a existência passada de um pequeno povoado, hoje já desabitado e em ruínas, que se chama Covelo. Este povoado é conhecido desde os primórdios da nacionalidade e em 1312 ainda é designado como Alcubela, o que deixa perceber a sua existência já durante o período de domínio muçulmano desta região.
Alcobela, segundo quem entende, vem do termo Alcoba, que em árabe quer dizer “a cúpula” ou “o morábito”(4). Alcobela seria provavelmente a pequena cúpula, ou seja, pequena edificação, eventualmente de carácter religioso, com dignidade para se distinguir com uma cúpula e com eventuais funções de vigilância. Sabe-se que foi muito comum na sociedade muçulmana medieval, a utilização de espaços estrategicamente colocados, com a dúplice funcionalidade de espaços religiosos e de atalaia, como os ribats.
Em Murfacém, na freguesia da Trafaria, concelho de Almada, ainda se pode ver uma destas estruturas, acompanhada por outros vestígios de permanência muçulmana. No ponto mais elevado da zona, com vasto controlodo território para Sul (Cabo Espichel) e para Norte (Tejo e serra de Sintra), o morábito de Murfacém, terá sido uma construção de arquitectura religiosa com nítida função de vigilância.
O caso de Sintra parece ser simétrico a este. Assim como Almada tinha Murfacém, utilizando um morábito, para vigiar uma vasta dimensão de território, também Sintra parece ter tido algo similar, sendo o eixo dessa “simetria axial”, o rio Tejo. Nos dois casos parece ter havido e com razão, com objectiva utilidade, um ponto que, sendo de carácter religioso, era também uma atalaia. E um ponto de comunicação intermédia com contacto visual mais próximo e mais eficaz, entre os principais pontos, os castelos.
O Covelo e Murfacém têm contacto visual entre si. Em ambos se avista o Cabo Espichel. Em ambos se pode controlar a barra do Tejo. Murfacém controla melhor o Sul e a barra do Tejo, por estar mais próximo. O Covelo controla melhor a vasta charneca a Sudeste de Sintra, controla a barra do Tejo, e recebe informação directamente do Castelo dos Mouros sobre a costa atlântica do Norte.
No caso de Almada temos lá o morabito. No caso de Sintra temos a toponímia (Alcobela)a propor-nos que haveria ali um morábito, no sítio certo...(5)
 
O morábito de Murfacém, freguesia da Trafaria,
concelho de Almada.
 
 
TALAÍDE
Seria possível enviar sinais do Covelo para Murfacém? sim, já vimos ser possível por haver contacto visual. Mas, mesmo assim, são 19 quilómetros em linha recta. Põe-se, parecida, a mesma questão da distância que já referimos. Para qualquer sinal que se emitisse, seria necessária bastante atenção do outro lado para que essa informação não passasse muito tempo despercebida. E não se devia descurar isso, para que Lisboa e toda a região se preparasse, com a maior antecedência possível, para um ataque, eventualmente para um cerco ou para a defesa contra uma tentativa de saque (6).
 O Covelo e Murfacém estavam em pontos realmente estratégicos e viam-se entre si mas a distância entre eles já torna falível a rapidez na percepção de mensagens. Havia ainda a necessidade de, pelo menos, um ponto de retransmissão de mensagens, preferivelmente a meia distância, que servisse para isso mesmo, para retransmitir mensagens e torná-las, pelo fumo ou pelo fogo, obrigatoriamente notadas e interligadas.
Havia que procurar para Sudeste da serra, nessa charneca que começa no seu sopé e vai direito a Paço de Arcos e a Oeiras, algum lugar em que se pudesse acreditar poder ter sido ali sítio de óptima visualização e retransmissão de mensagens. Outra atalaia.
Chega-se assim à existência de um topónimo de origem árabe num povoado que satisfaz em pleno o que se esperava para o efeito: Talaíde.
Talaíde é um topónimoque vem de talaia, de origem árabe, que é o mesmo que atalaia (ex: Penalva do Castelo, Feira, Senhora da Talaia em documentos antigos). O sufixo “ide” vem do grego e pode significar semelhança ou equivalência nas suas características ou funções. Talaíde seria então um lugar semelhante ou com equivalentes funções de uma atalaia?
O local, é uma das elevações que existe nessa zona e é a que está mais para Sudoeste, tendo por isso, com 175 metros de altitude, uma vista privilegiada desde Almada até à Serra de Sintra, ou seja, para o Covelo, para a barra do Tejo e para a outra banda.
 
O núcleo central do Taguspark, no Alto dos Cabeços, em Talaíde, concelho de Oeiras.
Provavelmente baseada no topónimo, uma atalaia projectada pela arquitectura
contemporânea.
 
Quando, do Covelo ou de outro ponto da parte Sudeste de São Pedro de Penaferrim, se olha para a charneca, Talaíde está à frente.
O povoado, no sopé do monte, já é conhecido em 1253.
No alto, foi construído há poucos anos o Taguspark, parque de ciência e tecnologia. A “arquitectura”, podia não suspeitar desta parte da triangulação de sinais, nos tempos islâmicos. Mas provavelmente suspeitava, pela origem do topónimo e pela paisagem, da sua função de atalaia. A torre do núcleo central, belo exemplo de arquitectura contemporânea, lá tem um mirante virado para Sudeste, para Murfacém, para Almada e para o Tejo.
Além de outros pontos com igual função que podem ainda ser desconhecidos, Talaíde receberia as mensagens do Covelo para as retransmitir a Murfacém, do outro lado do Tejo para, por aí, chegarem a Lisboa? é o que nos parece, compreendendo os usos do tempo e a toponímia existente.
 
Pontos do sistema de triangulação de sinais entre Sintra e Lisboa. Mapa extraído do Google Earth.
 



  1. – “A vida quotidiana dos muçulmanos na Idade Média”, Aly Mazahéri.
  2. – “Fortificações de iniciativa omíada no Gharb al-Andalus nos séculos IX e X”, Fernando Branco Correia.
  3. – A obra referida na nota anterior refere estas, sendo que algumas, perante a falta de intervenção arqueológica, devem ser consideradas como propostas para investigação futura: castelo de Alcobaça, castelo de Alfeizerão, castelo de Óbidos, castelo da Atouguia da Baleia, Lourinhã, Torres Vedras, Alto da Vigia (Praia das Maçãs), Castelo dos Mouros, Murfacém, Alcolena (Restelo), castelo de Almada e Almaraz.
  4. –Morábito: «eremita», «sufi» - membro da Cavalaria Espiritual islâmica que vigiava e defendia as fronteiras; eremitério onde o sufi está sepultado; cp. Cuba. Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa – Adalberto Alves.
  5. – O Covelo tem hoje um acesso difícil, como difícil é a percepção deste assunto no local, invadido de eucaliptos. Muito próximo do local, pode ter o leitor uma percepção do que dizemos e contemplar confortavelmente a foz do Tejo e a paisagem que relatámos. Procure a Rua Dr. Leão de Oliveira. No seu termo encontra-se a Fonte do Forno, num dos extremos do povoado de São Pedro de Penaferrim.
       Sobre a pertinência da escolha do local (vista ampla para Sul, abundância de água, terra arável, acesso fácil), ver artigo do autor destas linhas no Jornal de Sintra de 10 de Fevereiro de 2017. Sobre a história do povoado ver de 26 de Fevereiro de 2016.
  6. – Mais tarde, já durante a vigência do Reino de Portugal, a vigilância pelas atalaias continuou a ser exercida. Os atalaeiros que adormecessem no seu posto ou que de outra forma descurassem o seu serviço, eram considerados traidores e severamente punidos, pois disso dependia a vida de muitas pessoas.
     
     
     
    Artigo publicado no Jornal de Sintra de 26 de Outubro de 2018