terça-feira, 22 de abril de 2014

Sintrenses em Alcácer Quibir


CARDOSO MARTINS
Advogado, antigo vereador na C.M.Sintra

Naquele fatídico dia de 4 de Agosto de 1578, nas margens do rio " El Makhezin" e perto do castelo de Ketama (Alcacer el-kebir), o Exército Português, comandado pelo seu jovem Rei D. Sebastião , sofreu a mais humilhante derrota da História de Portugal, devida ,sobretudo, à enorme desproporção dos efectivos, de cerca de 16 mil contra mais de 60 mil muçulmanos! A Batalha durou apenas 4 a 5 horas e foram chacinados ,para além do nosso Rei, cerca de 8.000 combatentes (incluindo mercenários estrangeiros ) entre eles 2 filhos de D. Álvaro de Castro (que mandou construir o Convento dos Capuchos, onde D.Sebastião terá passado uma das suas últimas noites antes de partir para África) e o alcaide-mor de Sintra, André Gonçalvez (dos Ribafria)! Os restantes (cerca de 8.000) foram feitos prisioneiros e vendidos como escravos! Da parte do exército muçulmano, comandado por Mulei Muluco, doente e transportado numa liteira, terão sido mortos cerca de 18 mil combatentes! Entre os cativos distinguiu-se,no cativeiro em Marrocos (actual Marraquexe), um rapaz de apenas 12 anos, natural de Colares, de nome Amaro, filho de Silvestre Gonçalves e de Francisca Jorge. Já  com 18 anos de idade terá  sido torturado e morto com um garrote, juntamente com outros seis jovens portugueses, por não ter abjurado a fé cristã.
Quem o contou foi Jerónymo de Mendonça, também cativo no campo da batalha, no seu livro JORNADA DE ÁFRICA, editado em 1607, depois de ter sido libertado.



segunda-feira, 21 de abril de 2014

Balanço do II Congresso da Cidadania Lusófona: uma pequena grande “semente”.

RENATO EPIFÂNIO  

O balanço do II Congresso da Cidadania Lusófona, que decorreu a 16 de Abril de 2014, relativamente ao primeiro, realizado em Abril de 2013, igualmente na Sociedade de Geografia de Lisboa, foi claramente positivo. Eis o que foi devidamente salientado na mesa final de Conclusões, onde, sob a presidência de Carlos Vargas, intervieram João Salgueiro, António Gentil Martins, Miguel Real, Manuel Ferreira Patrício e Garcia Leandro que, tendo tido que se ausentar ao final da tarde, deixou uma mensagem, que foi lida, onde desde logo salientou “o sucesso, com muito trabalho, do II Congresso da Cidadania Lusófona, organização das Sociedades Civis da Lusofonia, que, pouco a pouco, se vai reforçando”, ressalvando que “estes Congressos são apenas pequenas sementes duma rede que deve sempre crescer”, dado que, como acrescentou, “a Lusofonia tem potencial para ultrapassar as fronteiras políticas, já que é uma realidade cultural, que deve ser também económica”.

Era já essa, de resto, a aposta de Agostinho da Silva, um dos grandes inspiradores deste desígnio estratégico da convergência lusófona, por diversas vezes evocado ao longo do Congresso, nos 20 anos do seu falecimento, que, ainda em vida, nunca se cansou de dizer: “Trata-se de poder começar a fabricar uma comunidade dos países de língua portuguesa, política essa que tem uma vertente cultural e uma outra, muito importante, económica”. Os mais cínicos dirão que isso será uma mercantilização da Lusofonia, não percebendo que a sua força reside precisamente em cruzar os vários planos: não só o cultural e o económico, como ainda o político e o social. A convergência lusófona cumprir-se-á, simultaneamente, em todos esses planos ou não se cumprirá. No essencial, foi essa a resposta que resultou da questão geral deste Congresso: “Que prioridades na cooperação lusófona?”. Tendo cada país e região as suas especificidades, o que, em geral, todos salientaram foi que essa cooperação deve ter sempre presente esses diversos planos: o cultural, desde logo, mas também o social, o económico e o político.

Não houve ninguém que tivesse posto isso em causa – nem da parte da manhã, onde tomaram a palavra Luís Aires Barros (Sociedade de Geografia de Lisboa), Carlos Manuel Castro (Câmara Municipal de Lisboa), Maria Perpétua Rocha (PASC: Plataforma Activa da Sociedade Civil), Renato Epifânio (MIL: Movimento Internacional Lusófono) e Luísa Janeirinho (Sphaera Mundi: Museu do Mundo), na Sessão de Abertura e, depois, Adriano Moreira (Presidente Honorário do Congresso), Ana Paula Laborinho (Instituto Camões), Gilvan Müller (Instituto Internacional de Língua Portuguesa), Guilherme de Oliveira Martins (Centro Nacional de Cultura) e Vítor Ramalho (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa); nem da parte da tarde, onde falaram representantes de Associações da Sociedade Civil de todo o espaço lusófono: Vítor Fortes e Zeferino Boal (Angola), Armando Jorge Silva e Loryel Rocha (Brasil), Alberto Rui Machado (Cabo Verde), Maria Dovigo e Alexandre Banhos (Galiza), Djarga Seidi (Guiné-Bissau), José Lobo do Amaral (Macau), Luísa Timóteo (Malaca), Delmar Gonçalves (Moçambique), Mário Lopes e Celso Soares (São Tomé e Príncipe), e David Guterres (Timor-Leste).

Como eu próprio defendi, enquanto Presidente do MIL: “Se há povo que compreende bem a importância da Lusofonia é, precisamente, o timorense; porque ela foi a marca maior de uma autonomia linguística e cultural que potenciou a resistência à ocupação indonésia e a consequente afirmação de uma autonomia política que, como sabemos, só se veio a concretizar mais recentemente, já no século XXI. Mesmo após esse período, tem sido a Lusofonia o grande factor de resistência ao assédio anglo-saxónico, via, sobretudo, Austrália. Contrapolarmente, o Brasil, pela sua escala, poderia ser o único país a ter a tentação de desprezar a mais-valia estratégica da Lusofonia. Nunca o fez, porém. Pelo contrário – apesar de alguns sinais contraditórios, a aposta na relação privilegiada com os restantes países e regiões de língua portuguesa parece ser cada vez maior. Quanto aos PALOPs: Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, essa também parece ser, cada vez mais, a aposta. Simplesmente, reiteramo-lo, porque é do interesse de cada um desses países este caminho de convergência. Por isso, é a Lusofonia um caminho de futuro. Por isso, é a Lusofonia um espaço naturalmente plural e polifónico, que abarca e abraça as especificidades linguísticas e culturais de cada um dos povos desta comunidade desde sempre aberta ao mundo”.

Não foi, porém, o caso de Timor-Leste que esteve em destaque neste II Congresso da Cidadania Lusófona, mas o da Galiza, por causa do Prémio Personalidade Lusófona, promovido pelo MIL, com o patrocínio do Instituto Internacional de Macau. Depois de já terem sido premiados Lauro Moreira, Ximenes Belo, Adriano Moreira e, mais recentemente, Domingos Simões Pereira, ex-secretário-executivo da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, o premiado deste ano foi Ângelo Cristóvão, em reconhecimento de todo o seu incansável trabalho em prol do reforço dos laços entre a Galiza e a Lusofonia. Tal como quase todos os timorenses, também muitos galegos sabem bem a importância da Lusofonia. Se não fosse esta, a Galiza, na sua autonomia linguística e cultual, já se teria dissolvido de vez no espaço castelhano. Eis, desde logo, o que foi salientado ao final da manhã, na mesa em que estiveram presentes Alarcão Troni (Presidente da SHIP: Sociedade Histórica da Independência de Portugal), José Lobo do Amaral (em representação do Instituto Internacional de Macau), Renato Epifânio e Fernando Nobre (em representação do MIL), para além, obviamente, do premiado.

Saliente-se ainda, ao final da tarde, a intervenção de representantes de algumas entidades da Sociedade Civil de Portugal – nomeadamente: a DARIACORDAR – Associação Contra o Desperdício, a Associação 8 Séculos de Língua Portuguesa, a Associação Mares Navegados, o Centro de Estudos da Lusofonia Agostinho da Silva e o Instituto dos Mares da Lusofonia –, para além da conferência proferida pelo Secretário de Estado do Mar, Manuel Pinto Abreu, que, naturalmente, defendeu a importância estratégica do mar. Por fim, registe-se que, no âmbito do II Congresso da Cidadania Lusófona, decorreu ainda um muito concorrido Jantar-Concerto no Palácio Foz, magnificamente organizado pela Sphaera Mundi, com cerca de uma centena e meia de pessoas, onde houve espaço para a música, a dança e a poesia de diversas proveniências lusófonas, e, sobretudo, para os afectos. Como sublinhou Maria Perpétua Rocha, a Lusofonia não pode ser apenas motivo para o exercício da teoria mas também para o encontro de afectos. De resto, terá sido essa a segunda grande conclusão deste II Congresso da Cidadania Lusófona: para que venha a haver uma Comunidade Lusófona importa haver primeiro um genuíno sentimento de fraternidade entre todos os falantes de língua portuguesa. Nesse plano, foi também este Congresso uma “semente”, uma pequena grande “semente”.

domingo, 20 de abril de 2014

Raul Lino, Francisco Costa e uma Casa.

EUGÉNIO MONTOITO

A forma de ver um espaço proporcionador de momentos contemplativos, penserosos e criativos com um novo destino
 Quando esta casa, feita mesmo em frente da serra verde, ainda mal se erguia, e as traves da futura moradia eram belos pinheiros, simplesmente, houve uma tarde, sob um sol ardente, em que o suor em bagas escorria da testa dos pedreiros e fazia da cal e areia uma argamassa quente.

Hoje, há paredes contra os vendavais, mas é cá dentro que soltamos ais nos dias mais aflitos ou mais duros. Enquanto gemem temporais lá fora, pagamos nós em lágrimas, agora, a dor incorporada nestes muros.
(Francisco Costa, Última Colheita, 1987)

Nos primeiros dias de Abril assisti, no Palácio de Seteais, a um conjunto de conferências integradas no Colóquio Nacional sobre Raul Lino em Sintra, iniciativa da responsabilidade científica do IADE (tendo apoio logístico do Hotel Tivoli Palácio de Seteais, da Câmara Municipal de Sintra, da Colares Editora e da Discovery – Culture & Taste).


O presente colóquio procurou assinalar os 40 anos do falecimento de Raul Lino e os 100 anos da inauguração da Casa do Cipreste, relançando a discussão sobre as suas distintas valências no campo das artes e na sua intervenção como arquitecto.


No seguimento desta oportunidade comemorativa e no aproveitamento das palavras e dos discursos ouvidos sobre estes registos, estas memórias e estes patrimónios, veio-me à lembrança um edifício desenhado por Raul Lino que, actualmente, pertence à Câmara Municipal de Sintra e que está fechado e sem utilização. Falo da casa do escritor e ensaísta sintrense Francisco Costa (1900-1988), localizada na Rua Sacadura Cabral, perto do Largo do Morais.




A obra de Raul Lino possuirá sempre uma dualidade antagónica nos fundamentos identificadores do seu traço e da sua filosofia. Para uns, estamos perante um espirito conservador e tradicionalista, enquanto, para outros, o epiteto será de revolucionário e ousado. No entanto, julgo que, em ambas as leituras, Raul Lino será sempre considerado um dos grandes arquitectos portugueses do século XX, sendo a sua vasta e ecléctica obra reconhecida como ímpar no panorama arquitectónico nacional. 

Esboço Aguarelado de Raul Lino – Casa de Francisco Costa
Na observação dos especialistas da nossa História da Arte, a obra de Raul Lino assenta em três postulados interligados e permanentemente consolidados. O primeiro, «num arquétipo culturalista, no qual predomina a ideia de que só o conhecimento do terreno/paisagem sobrevalorizam conceitos e valores tradicionais da pura arquitectura portuguesa». O segundo, num reconhecimento de que estamos perante um registo romântico ruralista, onde Raul Lino vai «procurar a naturalidade, a integração paisagística, a simplicidade, a harmonia decorativa, a estética das proporções, a funcionalidade prática e simbólica das casas alegres e simples que, no seu entender, constituíam a tradição popular nacional, camponesa ou urbana». E, por último, as influências filosóficas e ideológicas recebidas e estruturadas – muito em resultado de uma materialização teórica obtida no seu percurso académico realizado na Alemanha e em Inglaterra –, e, posteriormente, aplicadas nas suas sínteses arquitectónicas em Sintra e em Portugal, no que respeita à sua arquitectura doméstica, paisagística, monumental ou urbana.
Os desenhos e os perfis finais, muitos deles aguarelados, enunciam os elementos e as virtudes que, nos seus projectos mais amorosamente concretizados, configuram a sua mítica recriação da "casa portuguesa". Para Raul Lino, «a arquitectura só ganharia sentido, quer prático quer simbólico, quando organicamente integrada na paisagem natural e na cultura ou no espírito do próprio homem que nela habita», em rejeição absoluta às concepções científicas e racionalizantes da habitação e do espaço, quer fossem exemplos de mau gosto de fin-de-siècle ou de um racionalizante modernismo arquitectónico.
Raul Lino encontrou em Francisco Costa um interlocutor de excelência nesta aplicação gramatical de soluções arquitectónicas, equacionadas na base da sensibilidade lírica interpretativa do espírito nacional da época e da contextualização filosofada na leitura da sua alma poética.

Esboços de Raul Lino – Casa de Francisco Costa
Ora, quando nos abeiramos da janela alpendrada da casa de Francisco Costa, identificamos, de imediato, a clareza da aplicação do conceito do entender e interpretar o "espírito do lugar", bem como o riscar dos espaços e recantos do projecto, de acordo com as necessidades dos momentos contemplativos, penserosos e criativos do detentor final da obra. Segundo Carlos Manique, em artigo sobre esta casa e os escritos do seu proprietário, houve grande cumplicidade entre o poeta e o arquitecto no percurso da elaboração do projecto, intuindo Raul Lino que o seu desenho iria possibilitar que o escritor, em Diálogos Estéticos expressasse as suas certezas de que, ali, naquele alpendre sobranceiro à serra, preenchida de verdes e neblinas movediças, se podiam escrever romances e reflectir sobre a poesia deles.
Na interpretação e leitura de Irene Ribeiro (Arquitectura, Paisagem e Sintra. Raul Lino Romântico), o arquitecto considerava a casa como o espaço privilegiado do homem, visto como um lugar de abrigo e refúgio e de «realização da própria essência humana, quer pela sua dimensão material – a luz, o ar, o isolamento, a comodidade, a solidez, a companhia dos objectos, quer pela dimensão espiritual - condição de intimidade, recolhimento, protecção e hospitalidade, factor de paz, afecto e liberdade.»
Raul Lino não procurou, apenas, promover modelos éticos e estéticos, identificados com a tradição cultural e nacionalista, bem à mentalidade conservadora e individualizante da época, ele pretendeu educar e moralizar o espirito e as sensibilidades sociais para as suas verdades e valores, lidos na aplicação dos materiais, na negação do pastiche proveniente das influências estrangeiradas, na importância atribuída ao jardim e à decoração interior, desenhados e articulados, 4 arquitectonicamente, com elementos considerados tipicamente portugueses: beirais, alpendres, azulejos, cantaria, caiação.


A Casa de Francisco Costa integra-se, perfeitamente nesta leitura, tanto pela sua estrutura arquitectónica modelar, quer pelo seu significado. A par disso, a paisagem envolvente da Sintra que dali se avizinha corresponde ao gosto do desafio ideológico do arquitecto. Deste ponto, também se sentem as forças naturais e desafiantes de «um terreno descontínuo, de relevo muito variado, onde o céu nunca se vê num hemisfério total, com grandes variações de luz e sombra e uma vegetação que funciona como diferentes filtros do olhar», conferindo-lhe, tudo isto, uma aura de encantamento e mistério que vai expressivamente ao encontro do ao arquétipo romântico do arquitecto Raul Lino.
Feito este pequeno apontamento, gostava de deixar, também, registado a minha opinião sobre o emprego a dar a este magnifico espaço sem subverter o que autor do projecto e proprietário entendiam e interpretavam por "espírito do lugar" e criando novos acordos entre os espaços e os recantos desenhados no projecto com novas utilizações e necessidades, também elas proporcionadoras de momentos contemplativos, penserosos e criativos. Refiro-me, em concreto, à instalação neste edifício dos serviços do Arquivo Histórico do Município de Sintra que, segundo murmurativos falares, irá sair da sua primitiva, única e actual morada, no Palácio Valenças.
Esta opinião de instalar neste espaço o Arquivo Histórico não se resume a um simples exercício académico, analisados que são os factores de ordem prática consentâneos a uma deslocação do Arquivo, julgo que este aproveitamento e, consequente, integração do edifício existente e da área adjacente responde como a solução mais consensual em reposta a três itens: O primeiro, como processo mais enquadrado e digno de Salvaguarda e Promoção do Património Arquivístico Municipal dos suportes de memória dos 860 anos de existência do Concelho de Sintra; O segundo, visto como aproveitamento e requalificação do Património Edificado Municipal com identificação histórica; E, o terceiro, como espaço passível de ser alvo de uma intervenção consentânea com as necessidades especificas de segurança, de funcionamento e de preservação imposta a um Arquivo Municipal.
Em suma, a escolha da Casa do Escritor francisco Costa, como possibilidade de instalação do Arquivo Histórico, justifica-se, acima de tudo, na oportunidade de se utilizar propriedade municipal e, paralelamente, no possuir uma dualidade funcional que qualquer Arquivo Histórico deve ter em linha de conta, através da observação das necessidades dos utilizadores e das condições de acesso aos documentos. Um edifício para Arquivo não pode estar fisicamente inacessível aos utilizadores, sejam eles cidadãos anónimos que procuram um documento probatório, ou estudantes e investigadores que pesquisam informação histórica ou, até, funcionários da autarquia que necessitam do registo administrativo. Deste modo, considero que a localização escolhida satisfaz, plenamente, esta premissa, pois coloca o Arquivo Histórico suficientemente perto dos organismos e com uma boa acessibilidade à população. Considero, ainda, que os três pisos do edifício respondem às necessidades de instalação do Arquivo Histórico, na perspectiva de utilização arquitectónica requalificada, observadas que são as três áreas funcionais do serviço: Áreas de Tratamento Técnico e Classificação, Áreas de Depósitos e Recepção Documental e, por último, Áreas de Circulação Pública e de Consulta.
As particularidades e a dimensão do actual Arquivo Histórico, instalado no Palácio Valenças, no que respeita aos dois circuitos de circulação documental e de circulação do público, encontram paralelismos nas áreas limpas e nos espaços da Casa. Aliás quem conheceu a casa por dentro, com as características mobiliadas do seu antigo proprietário, consegue perceber que a única alteração será na altura do vão de prateleira, porque onde, antes, havia estantes para livros, agora poderá passar a haver estantes para caixas de arquivo, mantendo-se a função do destino dos seus espaços – obviamente, impondo um conjunto de requisitos específicos, consoante a sua utilização, mas nada mais do que isso. Na cave do edifício poderão ser instalados os depósitos, bastando, para isso, criar as condições de impermeabilidade, arejamento e controle de humidade adequados à segurança e salvaguarda da documentação, enquanto que os locais de trabalho e de consulta pública se distribuirão na observação dos espaços, naquilo que eles em tempos foram, escritórios e salas de estar.
Estou totalmente convencido que esta proposta é exequível no seu propósito e na dimensão do seu custo financeiro e, igualmente, imbuído do espirito do lugar e da memória do escritor Francisco Costa, como responsável pela criação do Arquivo Histórico do Município de Sintra e seu primeiro arquivista.



Baleia. 10 de Abril de 2014

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O druida da Regaleira

FERNANDO MORAIS GOMES

Executado o solicitado, Manini e Carvalho Monteiro faziam a primeira visita ao poço, uma impressiva galeria com escadaria em espiral sustentada por colunas esculpidas.

-Signore Monteiro, está como pediu, nove patamares separados por lanços de quinze degraus cada, e referências à Divina Comédia. Lá em baixo mandei embutir em mármore a rosa-dos-ventos sobre a cruz templária -ia explicando o italiano, cenógrafo de óperas metido a arquitecto.

-Perfeito! -soltou o velho Monteiro, tirando a cartola e escorrendo suor, esse era o seu emblema heráldico e indicativo da Ordem Rosa-Cruz, tudo estudara para dar cunho simbólico à Quinta da Regaleira, onde pedras de Ança chegavam às toneladas e canteiros trabalhavam sem parar há quatro anos. Com ar enigmático, deixou escapar um comentário:

-Sabe que é impossível a alguém elevar-se para a luz sem antes descer ao inferno? Só o afrontar do Mal em nome do Bem permite o acesso aos estados superiores do Ser!

Entrados no poço, o eco ampliou como um rugido a tonitruante voz do magnata. O labiríntico poço estava ligado por várias galerias e túneis a outros pontos da quinta, a Entrada dos Guardiães, o Lago da Cascata e o Poço Imperfeito, os morcegos deambulavam, guardiões do escuro e do desassossego. Pela primeira vez iria subir a escadaria, qual ritual, secreto e cadenciado, começando pela torre subterrânea. Antes de subir, levantou um braço e abordou Manini:

-Este era já o Espaço, é agora o Tempo de abandonar o velho e enfrentar o novo. A cada entrada, um novo nascimento, uma nova renovação…

-Como vê, sente-se a mão do Grande Arquitecto…-ironizou Manini, retorcendo o bigode.

-Neste caso, você, meu caro! -retorquiu o ricaço, espetando uma palmada nas costas do italiano.

-Agora repare: saindo da escada em espiral, o elemento aquático ganha novo esplendor, previ uma passagem sobre o lago por cima de quinze pedras ziguezagueantes -com as mãos abertas e gestos largos, Manini explicava o plano, qual mapa do tesouro, Monteiro tomava atenção aos pormenores, enquanto dois cisnes brancos nadavam no lago. Passaram de seguida por uma íbis egípcia, logo surgindo a estátua de um leão encravada entre três bancos:

-Este leão simboliza os reis de Chipre, familiares dos Lusignan, seus antepassados. Eu mesmo o desenhei!

-Podia ser maior…E agora?

-Agora sobe-se a torre, em direcção à cripta.

A escada em caracol remetia-os para um mundo de sombras que a megalomania do velho bibliófilo idealizara, uma hiperbólica teia acabada de ser tecida. Passando ao palácio, para onde a biblioteca de Lisboa estava a ser transferida, Monteiro fez questão que Manini observasse um livro adquirido recentemente:

-Conhece este livro? -um largo volume encadernado continha a cópia de um manuscrito, Fama Fraternitatis. Abrindo-o desfiou:

-Aqui está a verdadeira história dos rosa cruzes. Sabia que o Rosenkrautz era descendente de uma família alemã que abraçava as doutrinas albigenses? Toda a família foi condenada à morte por Conrad de Turíngia, excepto ele. Com cinco anos foi levado secretamente para um mosteiro onde conheceu os quatro Irmãos que mais tarde fundariam a Irmandade Rosa Cruz.

Manini ouvia em silêncio, mais interessado num magnífico relógio que dois empregados acabavam de trazer com luvas brancas. O milionário reparou, e foi mostrar-lhe o troféu:

-Já tinha visto o meu Leroy O1? Esteve na exposição de Paris, tem um mecanismo de quatro níveis e mais de novecentas peças…Custou-me vinte mil francos, um capricho! -e riu como uma criança com um brinquedo de estimação, o mundo de Carvalho Monteiro era sem dúvida outro.

De seguida, completaram o périplo subindo ao Patamar dos Deuses, a água da serra-mãe corria cristalina na fonte dos íbis, detendo-se na Entrada dos Guardiões, imponente e altiva. Na gruta de Leda, Monteiro colocou a mão sobre o cisne, também ele Zeus do seu império terreno, e suspirou, enrolando a barba:

-Quem nunca demandar o interior da terra nunca encontrará a verdade oculta! Aqui semearei a verdade, caro Manini!

Nesse final de 1909 Carvalho Monteiro tinha o seu Olimpo concluído, deus entre os deuses, sortilégio das trevas, a torre, ímpar, rasgando o céu triunfante. Nos anos seguintes, o caldeirão do Espírito fervilhou nas entranhas da terra-gruta, guardando segredos que só o génio de alguns podia desvendar. Até que uma noite, findava já 1920, o Druida partiu para a Grande Viagem, etéreo descendo ao poço, etapa por etapa, das Trevas á Luz, ecoando ao longe o grasnar dos cisnes brancos, refletidos pela Lua-Prata protectora do Jardim.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Não deixemos fugir Abril!

GONÇALO SALVATERRA
Caros amigos, o meu nome é Gonçalo, tenho 22 anos, nasci em 1992, 18 anos depois da revolução de Abril, um dos acontecimentos – se não o mais importante- da história contemporânea portuguesa. Uma revolução que pela forma como foi feita impressiona os cientistas políticos, historiadores, estrategas entre outros. Uma revolução que ocorreu quase que por milagre com menos de uma dezena de mortes. Em curtos parágrafos, venho expor aqui a minha visão sobre o mais bonito feito português.



Nos últimos tempos, a revolução de Abril tem vindo a ser discutida nos meios mediáticos, coisa normal tendo em conta que celebra 40 anos, o que já não acho normal é um certo aproveitamento político que algumas forças fazem dela. Fica bem a qualquer “democrata” que se preze, defender os valores de abril. Bem, pelo menos nas palavras, porque nas atitudes manifestadas ao longo destes 40 anos, conseguimos perceber, quem está e quem não está com Abril. O memorando da Troika, esse, com certeza não está com Abril, se é que me entendem. Esta agitação mediática, também motiva muita conversa de café. A minha escola (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas) não foge à regra. Os que parecem mais interessar-se por este assunto são os estudantes de ciência política, muitos dos quais insistem que o fascismo português não existiu, mas sim um regime autoritário moderado ou que a revolução não se tratou, de facto, de uma revolução mas sim de um golpe de estado. Isto para mim é difícil de aceitar, pensemos que professores lhes dão aulas, e rapidamente chegaremos a uma conclusão, afinal de contas – e por muito que me custe admitir- a minha escola ainda tem alguma tradição de “24”, era ela chamada de  Instituto Superior de Estudos Ultramarinos. Mas pronto, isto tudo são apenas deambulações, por vezes frustradas.



Há uns tempos, enquanto via um documentário do realizador Rui Simões, Bom Povo Português, pensava em como teria sido bom ter vivido a época da revolução, o sentimento do PREC, onde o povo, embebido em poder merecido, conquistou com sucessivas lutas os direitos que vim a usufruir ao longo da minha curta vida. Mas agora que penso nisso, roubo a ideia do filme Meia-noite em Paris de Woody Allen. Não podemos viver na golden age, em que a ideia de um passado melhor nos impossibilita de viver o presente, e o meu presente são os valores de Abril, e se agora tenho 22 anos, é com a energia de um jovem que tenho que lutar pelas lutas presentes, manter os valores de Abril que tantos nos tentam roubar.



Eu tive a sorte de poder ter uma educação, sou um privilegiado, pois saímos do fascismo com uma taxa de analfabetismo na orla dos 26%, hoje a taxa é de 5.23%, um feito de Abril, mas muito ainda há para transformar. Os sucessivos ataques à Constituição de ‘76 feitos em sete revisões, fizeram com que, hoje tenha que trabalhar para poder estudar, mas continuo a ser um privilegiado, tenho trabalho, pois há aqueles que não podem estudar por condições económicas, e aqueles que também não conseguem usufruir de um serviço nacional de saúde gratuito e de qualidade e ainda aqueles que nem a uma habitação têm direito, esta é a luta presente, e se vivo agora, é agora que tenho que lutar para no futuro de Portugal mantermos bem presentes e vivos os valores de Abril.


segunda-feira, 14 de abril de 2014

Em Seteais, com Raul Lino

JOÃO CACHADO


Nos passados dias 3 e 4, em Seteais, pudemos assistir ao primeiro dos quatro ciclos de conferências que integram o Colóquio Nacional Raul Lino em Sintra, neste ano de 2014 em que, simultaneamente, passam quatro décadas sobre o seu falecimento e se comemora o centenário da construção da Casa do Cipreste.

Desde já, muito apraz registar como estão de parabéns tanto o IADE, organizador da iniciativa, bem como a Câmara Municipal de Sintra, Hotel Palácio de Seteais, Colares Editora e DCV (Discovery, Taste & Culture), entidades cujos esforços se conjugaram no sentido de que se registasse o assinalável sucesso que todos os participantes tiveram oportunidade de testemunhar.

Ao privilégio da partilha de excelentes comunicações proferidas, no primeiro dia por José Augusto França, João Santa Rita e José Cardim Ribeiro e, na manhã seguinte, a cargo de Maria Helena Maia, José Manuel Martins Carneiro, Miguel Real e Michel Toussaint, suceder-se-ia, pela tardinha, o fascínio de uma visita à Casa do Cipreste.

Concebido que foi com a evidente pertinência da lógica, depois do lugar à palavra esclarecedora, no registo de historiadores, arquitectos e filósofos, o programa do Colóquio encerraria pela mão de Manuel Gandra e Martinho Pimentel. Foram guias absolutamente inexcedíveis, introduzindo e esclarecendo aspectos primordiais daquela especialíssima obra de mestre Raul Lino, lugar geométrico de um saber ali plasmado, livro aberto a iniciados ao qual também os profanos podem aceder se, como foi o caso, forem devidamente acompanhados… 

Permitam, contudo, que ainda regresse ao Palácio de Seteais. Na sala Gildemeester, de tal modo foram densos os trabalhos que, apesar de alguns desvios de horário, dificilmente haveria lugar para fugas de atenção. O cerne do interesse comum era de tal ordem impositivo e determinante que, até nos intervalos das comunicações, as conversas continuavam a propósito do excepcional artista e homem cuja obra e memória ali nos congregava.

Inevitável seria que, referidos por alguns oradores, certos aspectos da actividade de Raul Lino afins da defesa, preservação e recuperação do património natural e edificado, também se impusessem, como plataforma propícia à lembrança de casos que suscitaram e determinaram alguma da intervenção cívica que, em Sintra, com alguns amigos presentes, foi protagonizada ao longo dos anos.

Naturalmente, num contexto de aparente serenidade e não menor amenidade, o próprio lugar de Seteais teria de vir à baila, ele que foi palco de inusitada polémica em certas ocasiões no passado longínquo e mais recente. Se, por exemplo, a luta pela manutenção do estatuto de acesso público ao terreiro e belvedere é já coisa secular – remontando  ao ano de 1800, com episódios que o saudoso José Alfredo tão bem documentou – nos nossos dias, já em pleno século vinte e um, também não temos razão de queixa…

Pois bem, em 2005, a título de exemplo e sem ser exaustivo, lembraria o casamento da filha do banqueiro Ricardo Espírito Santo Salgado, presidente do grupo que inclui a empresa concessionária da unidade hoteleira, altura em que foi erguida uma tenda cuja estrutura danificou o relvado por muitos meses. Posteriormente, durante o período de obras de beneficiação no interior do Palácio, alegando questões de segurança, aconteceu o intempestivo encerramento do recinto exterior, chegando ao ponto de ser impedido o acesso ao então Presidente da Junta de Freguesia de São Pedro…

“(…) Ora, é justamente o amor, um certo amor, que torna a Arte e a Natureza afins entre si. Pode-se amar uma paisagem, uma árvore com o mesmo amor com que se ama uma obra de Arte ou uma antiguidade, podem-se amar as flores do campo ou do jardim, de mistura com estátuas ou monumentos; mas não se pode amar um motor Diesel, o cilindro ou a biela de uma máquina, não se pode amar uma chave inglesa ou o martelo-pilão. E, se é possível amar-se qualquer destas últimas coisas, pelo menos há uma diferença entre aqueles dois amores. E são as pequenas diferenças que tornam a vida gostosa e merecedora de ser vivida (…)” Raul Lino, Conferência na Sociedade de Geografia de Lisboa, 16 de Janeiro de 1957.

Sintomático que, sensivelmente na mesma altura, tenha sido destruído o tanque da quinta, peça essencial de um agradável dispositivo de lazer, com conversadeiras, caramanchão e todos os ingredientes propícios ao desfrute do local. Ali, com o beneplácito do IGESPAR, as paredes do tanque foram aproveitadas para a construção de prosaica casa de máquinas, no exterior da qual, hoje em dia, existe uma ordinária esterqueira, em total desrespeito daquilo que soe designar-se como espírito do lugar, envergonhando o hoteleiro e que, inevitavelmente, tanto ofende os sintrenses. Claro que urge pôr cobro à situação.

Fiz eu alusão ao espírito do lugar? Então como classificar aquilo que, do outro lado da estrada, continua a suceder? Naturalmente, me refiro à construção [escandalosamente licenciada e enquadrada como «reconstrução»…] da mansão de Miguel Pais do Amaral. Com uma área inusitada, a implantação da grande residência, que provocou vultuosa manobra de terraplanagem, ergue-se em cota de terreno acima da do monumento fronteiro que é o próprio Palácio de Seteais. Enfim, um escândalo inominável!

Muitos outros são os items de controvérsia que, oportunamente, a respeito destes casos de Seteais, apresentei em vários artigos, nas páginas do Jornal de Sintra. Tive e tenho cúmplices nestas lides, gente como Fernando Morais Gomes, João Faria, Fernando Castelo, e homens da imprensa regional e nacional como Luís Galrão, Paulo Parracho ou Luis Filipe Sebastião e João Carlos Sebastião, a quem Sintra muito deve pela denúncia de situações que não podem permanecer ignorados ou na semiobscuridade dos gabinetes onde estagnam impunes.

Compreendam que, não tivesse eu subscrito estas linhas, e não me sentiria digno da memória de Raul Lino que fui celebrar a Seteais, numa saudade mesclada de memórias quero continuar a saber honrar e a ensinar aos meus  netos.



[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]