quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Não votar não resolve nada

PEDRO SANTOS

Com o desaparecimento do período revolucionário e quase quarenta anos após o 25 de abril de 1974, a velha palavra de ordem “o voto é a arma do povo” desapareceu para dar lugar, ao afastamento por parte deste mesmo povo da cidadania participativa, que na minha opinião também deixou de ser propositadamente promovida pelos sucessivos governos. Este afastamento do cidadão da cidadania participativa constitui uma ameaça para a sobrevivência e manutenção do sistema democrático, pois o voto é a principal alavanca da democracia. Este estado de alienação social por parte do cidadão na participação dos destinos do país faz com que a cidadania se torne um ato cada vez mais individual, quando deveria ser um ato coletivo e de impulso para a construção e desenvolvimento de uma sociedade mais justa. É urgente combater este afastamento que também se deve a questões culturais, muito agarrado à ideia de que a política é um conceito abstrato e de pouco valor para a vida em sociedade. A sociedade tem de criar a consciência no cidadão de que a política influencia todos os aspetos da vida. Todos vemos alguns sinais de crise no funcionamento da sociedade e nos valores da democracia, manifestações de falta de civismo como a ação dos meios de comunicação social, que não estimulam a opinião pública e a manipulam, o enfraquecimento de valores éticos, a prática da corrupção, as elevadas taxas de absentismo nos processos eleitorais, a fraude fiscal, o desinteresse pela vida pública, a indiferença e a desconfiança nas instituições políticas. Todas estas questões afastam o cidadão da participação na vida pública, e rompem os laços que nos unem à vida em comunidade. O cidadão sabota inconscientemente a cidadania, desresponsabilizando-se e projetando essa mesma responsabilidade no Outro, um conceito semelhante ao da bola de neve mas com a consciência coletiva. Este “eclipse” do cidadão da participação ativa na sociedade, pode conduzir a médio prazo a uma crise civilizacional, o esquecimento dos valores democráticos a falta de conhecimento dos direitos e deveres sociais consagrados na Constituição Portuguesa, o individualismo e a apatia coletiva que se vive em Portugal conduz-nos ao retrocesso da civilização, pois transforma-a numa sociedade quebrada, sem opinião, mais intolerante, menos consciente, mais injusta, mais corrupta e discriminatória. Se a definição de pessoa é “ um ser em relação” então parece-me importante que cada um saiba estar em sociedade de uma forma socialmente humanizante, os mais novos aprendem com os mais velhos as gerações mais adultas têm o dever cívico de formar comunidades de cidadão atentos conscientes, participativos e responsáveis. É partilhada por todos a convicção de que o exercício da cidadania é sustentado por um conjunto de valores e de virtudes aplicados universalmente, a justiça, a verdade, a coragem, a liberdade, educação, solidariedade, a partilha, a atenção a todos e, especialmente, aos que têm mais dificuldades, seja em que campo for. Mas o que é a cidadania? Citando Jorge Sampaio “ A cidadania é a responsabilidade perante nós e perante os outros, é a consciência de dever e de direitos, é o impulso para a solidariedade, é a participação e o sentido de comunidade e de partilha, é a insatisfação perante o que é injusto ou que esta mal, é a vontade de aperfeiçoar, de servir, é o espírito de inovação, de audácia de risco, é pensamento que age e ação que pensa".

Sem comentários:

Enviar um comentário