terça-feira, 15 de setembro de 2015

Domingos Caldas Barbosa, O Lereno

RUI OLIVEIRA


Poeta vulgarmente é um farroupilha
Osga do ofício: antípoda do agrado
Duns iludido d’outros procurado
A capa do vestir da sopa a pilha.
(Domingos Caldas Barbosa, 1780).

Domingos Caldas Barbosa nasceu no Rio de Janeiro, em 1738, filho do capitão António Caldas Barbosa e de Antónia de Jesus, negra forra angolana (libertada pelo seu senhor para que o seu filho não nascesse também escravo), e faleceu em Lisboa, em 1800, no palacete dos Condes de Pombeiros, à Bemposta, em Lisboa. A sua formação inicia-se como aluno do Colégio dos Jesuítas do Morro do Castelo, onde teria escrito sátiras mordazes ao Conde de Bobadela, então representante do poder Real na Província do Rio de Janeiro do século XVIII.

Após uma carreira militar infrutífera, no Brasil, ruma a Portugal, matriculando-se em 1º de Outubro de 1763, na Universidade de Coimbra, onde concluiu a sua formação académica, em Leis. Foi, inicialmente, protegido pela família Vasconcelos e Sousa, família muito ligada ao Estado do Brasil, onde exerceram elevados cargos políticos e militares, a qual o acolheu e o introduziram na melhor sociedade portuguesa da época, o mesmo será dizer: os Condes de Pombeiro.

Nas festas da Corte Portuguesa destacou-se como o “Trovador de Vénus e Cupido”, como podemos constatar na sua obra compilada e editada com o título: a Viola de Lereno. Obra dividida em dois volumes (1798, vol. I - 1836, vol. II), preciosa colectânea de suas modinhas, as mais famosas entre os Serões da Corte, de D. Maria I, e da Sessões da Nova Arcádia, do qual era membro ilustre. Agremiação de raiz cultural então sediada no Paço dos Condes de Pombeiros e marqueses de Belas, em Lisboa, e, em Belas, na sua monumental Quinta de Recreio vulgo Quinta dos Marqueses ou do Senhor da Serra. Porém, parte da sua obra, expressa em vários documentos e, também, em poemas, mostram outra faceta do poeta, até então tido, apenas, como trovador e cantor de modinhas. Domingos Caldas Barbosa passa, então, a ser visto como autor de poesia encomiástica, isto é: poesia que visa enaltecer uma determinada pessoa ou situação social, tão comum na Era Neoclássica.

Precisamente, uma poesia, que serviu segundo a indicação do próprio editor, como cantiga de caracter encomiástica, que trazemos, novamente, à estampa neste nosso artigo. É de referir, ainda, que AMIRA era o pseudónimo, na Nova Arcádia, de D. Maria Rita Castelo-Branco, Marquesa de Belas.




 Amira formosa,

 Escuta os louvores,

 Que os simples Pastores

Vem hoje entoar:

O seu Nome ilustre,

Subindo as Estrelas,

Nos Bosques de Bellas

Já vai reôar:



Offrendas singelas,

Das suas campinas

Cheirosas boninas

Te vem offertar:

E o Pomo, que pende

Para ti nascido,

Para ti colhido

Te vem entregar



O Pomo da China

Que cresce em teus campos,

C’os figos que lampos

Eu ouço chamar:

Os Limões pontudos,

Esféricas Limas,

te dão a gostar.

Em honra a teu Nome

Contentes trabalhão,

Num louro o entalhão

Por vê-lo durar:

Em honra a teus Filhos

Seis plantas creáram,

E a Outras preparão

Bastante lugar.



Teu Nome tem feito

Que do canto gostem,

Tu fazes que apostem

Teu Nome cantar:

No rude Psalteio,

Na harmónica Lyra

O Nome de Amira

Se ouve resoar.



Assim tua vida

Durar sempre possa,

Que he vida q’adoça

O nosso pezar:

Seremos alegres,

Não digo mentira,

O Tempo em q’Amira

Bellas animar.






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