segunda-feira, 18 de maio de 2015

Dúvida e Certeza, em Da Certeza, de Ludwig Wittgenstein

HUGO LUZIO


Introdução

Parte o presente trabalho de dois objetivos centrais: (1) o de tratar as noções substanciais da filosofia da linguagem wittgensteiniana a que o conjunto de excertos reunidos no texto «Questionando a dúvida e a certeza: Ludwig Wittgenstein» fazem menção explícita, como é caso da noção de «jogo de linguagem», das conceções de «dúvida», «certeza» e «sistematização de crenças», entre outros; (2) o de responder, ao longo desta análise, às questões (a) tem sentido duvidar de tudo ou só se pode duvidar quando se tem certezas?, (b) qual o fundamento das nossas certezas?, (c) qual o alcance de conceitos como «jogos de linguagem», «jogos de juízos», «sistemas de crenças», para o esclarecimento da correlação dúvida-certeza?, (d) um homem sensato pode ser um filósofo? e, finalmente, (e) qual o valor da comunidade ligada pela ciência e pela educação para a filosofia?.

Suporte Textual – Questionando a dúvida e a certeza: Ludwig Wittgenstein

«61.… Um significado de uma palavra é um género de utilização desta. Porque é aquilo que aprendemos quando a palavra é incorporada na nossa linguagem.

62. Se imaginamos os factos diferentemente do que são, certos jogos de linguagem perdem alguma importância, enquanto outros se tornam importantes. E, desse modo, há uma alteração – gradual – no uso do vocabulário de uma língua.

64. Compare-se o significado de uma palavra com a “função” de um funcionário. E “diferentes significados” com “diferentes funções”.

65. Quando os jogos de linguagem mudam, há uma modificação nos conceitos e, com as mudanças nos conceitos, os significados das palavras mudam também.» Ludwig WITTGENSTEIN, Da Certeza, Edição bilingue, trad. Maria Elisa Costa, rev. António Fidalgo, Lisboa, Edições 70, 1990, p.31. 1

«121. Poderá alguém dizer: “Onde não há dúvida, também não há conhecimento”?

122. Não precisaremos de razões fundamentadas para duvidar?

123. Para onde quer que olhe, não encontro razão fundamentada para duvidar de que…

124. Quero dizer: usamos juízos como princípios para a formulação de juízos.

125. Se um cego me perguntasse: “Tem duas mãos?” eu não me asseguraria olhando para elas. Se tivesse alguma dúvida, então não sei por que acreditaria nos meus olhos. Então, qual a razão para não testar os meus olhos olhando para verificar se vêem as minhas duas mãos? O que tem de ser verificado e pelo quê? (Quem decide o que é ponto assente?). – E o que é que significa dizer que isto ou aquilo é ponto assente?

126. Não tenho mais certezas quanto ao significado das minhas palavras do que tenho acerca de certos juízos. Posso duvidar de que se chama “azul” a esta cor? – (As minhas) dúvidas formam um sistema.

127. Com efeito, como é que sei que alguém duvida? Como é que sei que ele usa as palavras “Duvido disso” como eu uso?

128. Desde criança que aprendi a formar juízos assim. Isto é fazer juízos.

129. Eis como aprendi a fazer juízos; aprendi isto como sendo um juízo.

130. Mas não será a experiência que nos ensina a fazer juízos desta maneira, isto é, que é correcto julgar assim? Mas como é que a experiência nos ensina, então? É possível que nós consigamos isso através da experiência, mas a experiência não nos ensina a conseguir seja o que for da experiência. Se é o fundamento para nós julgarmos assim (e não apenas a causa), continuamos sem ter fundamento para encarar isso, por sua vez, como fundamento.

131. Não, a experiência não é o fundamento para o nosso jogo de juízos. Assim como também não o é o seu êxito notável.» IDEM, op. cit., pp.47-49.

140. Não aprendemos a prática de formular juízos empíricos através da aprendizagem de regras: ensinam-nos juízos e a sua ligação a outros juízos. Torna-se plausível para nós uma totalidade de juízos.

141. Quando começamos a acreditar em qualquer coisa, aquilo em que acreditamos não é uma proposição isolada, é um sistema completo de proposições. (Faz-se luz gradualmente sobre o conjunto). 2

142. Não são os axiomas isolados que me parecem óbvios, é um sistema em que as conclusões e as premissas se apoiam mutuamente.

143. Contam-me, por exemplo, que alguém subiu a esta montanha há muitos anos. Informo-me sempre sobre a confiança que merece o narrador e se a montanha existia de facto há anos? Uma criança aprende que há informadores fidedignos e não-fidedignos muito mais tarde do que aprende factos que lhe são contados. Não aprende de modo algum que essa montanha existe há muito tempo: isto é, não se põe em questão isso ser assim. A bem dizer, engole essa conclusão juntamente com aquilo que aprende.

144. A criança aprende a acreditar num grande número de coisas. Isto é, aprende a actuar de acordo com essas convicções. Pouco a pouco forma-se um sistema daquilo em que acredito e, nesse sistema, algumas coisas permanecem inabalavelmente firmes, enquanto algumas outras são mais ou menos susceptíveis de alteração. Aquilo que permanece firme não o é assim por ser intrinsecamente óbvio ou convincente; antes aquilo que o rodeia é que lhe dá consistência.» IDEM, op. cit., p.53.

«220. O homem sensato não tem certas dúvidas.

221. Posso duvidar daquilo de que quero duvidar?

222. Não posso duvidar de que nunca estive na estratosfera. Será que isso me faz sabê-lo? Torná-lo-á verdade?

223. Pois não poderia eu ser louco e não duvidar daquilo de que deveria absolutamente duvidar?

224. “Eu sei que nunca aconteceu porque, se tivesse acontecido, não teria sido possível esquecê-lo”. – Mas, supondo-se que aconteceu mesmo, teria pois acontecido que você se esqueceu disso. E como sabe que não poderia esquecer-se? Não será justamente a partir de uma experiência anterior?

225. Aquilo a que me agarro não é uma proposição, mas um conjunto de proposições.» IDEM, op. cit., pp.69-71.

«291. Sei que a Terra é redonda. Verificámos definitivamente que a Terra é redonda. – Manteremos esta opinião, a menos que mude toda a nossa visão da natureza. “Como é que sabe isso?” – Acredito nisso. 3

292. Novas experiências não podem contradizer as anteriores, quando muito podem alterar toda a nossa visão das coisas.

293. Do mesmo modo acontece com a frase “A água ferve a 100º C.”

294. É assim que adquirimos convicções, chama-se a isto “estar convencido com razão”.

295. Não se tem, nesse sentido, uma prova da proposição? Mas o facto da mesma coisa ter acontecido de novo não a prova; ainda que digamos que nos dá direito a supô-la.

296. É a isto que chamamos um “fundamento empírico” das nossas hipóteses.

297. Porque aprendemos, não só que estas e aquelas experiências deram estes e aqueles resultados, mas também a conclusão que se tira. E, evidentemente, não há nada de errado em procedermos assim. Porque esta proposição inferida é um instrumento para uma utilização definida.

298. “Estamos muito certos disso” não significa que toda e qualquer pessoa esteja certa disso, mas que pertencemos a uma comunidade que está ligada pela ciência e pela educação.

299. Estamos convencidos de que a Terra é redonda.» IDEM, op. cit., p.87

1. Jogos de Linguagem e Significado

Uma linguagem é um sistema de expressões cujo uso é especificamente regrado. Em Da Certeza, tal como em Investigações Filosóficas, Wittgenstein afirma que o significado de uma palavra corresponde ao género de utilização que lhe conferimos. Este uso deve ser entendido como uma funcionalidade dos termos, i.e., como um modo de funcionamento das expressões quando inseridas numa dada estrutura linguística. Porque há, neste sentido, uma correspondência entre significado e regra, o funcionamento das linguagens naturais exige uma subdeterminação semântica, um padrão normativo que regule a aplicação dos termos particulares. Não é, portanto, irrelevante acentuar a afirmação wittgensteiniana de que o significado de uma palavra corresponde a um género de utilização e não a uma utilização determinada.

Não se sustenta, portanto, que o significado de uma expressão é inteiramente determinado pelo seu uso, uma vez que a ideia de que o uso de uma expressão é contextual – no sentido de ser relativo a determinado jogo 4 de linguagem – está subsumida na afirmação. Se os conceitos utilizados numa determinada linguagem mudam, também os significados das palavras se alterarão.

Os significados dos termos não estão fixados, dependendo, antes, do condicionamento que a experiência impõe ao uso da linguagem descritiva. Neste sentido, a fixação do sentido é definida pragmaticamente, ou seja, os limites do sentido não podem ser postos ou figurar essencialmente em proposições. As nossas práticas judicativas constituem, assim, uma forma de agir e de julgar que fundamenta os diferentes jogos de linguagem, possibilitando a elaboração de proposições significativas. Os jogos de linguagem não são, em último caso, jogos na linguagem, mas relações de alternância entre significados e conceitos no seio de uma mesma estrutura linguística.

2. Dúvida e Certeza

A dúvida é condição necessária para o conhecimento? A nossa forma de julgar depende das estruturações simbólicas estabelecidas a partir das nossas práticas judicativas. A disposição para aceitar como certas algumas proposições é necessária à possibilidade de ação. A certeza deve ser compreendida como um elemento constitutivo do pensamento e da ação, na medida em que é a convicção de fundo por ela assumida que permite o desenvolvimento do curso das nossas práticas. Se não assumir como inquestionavelmente verdadeiras algumas proposições fundamentais como, por exemplo, a proposição “eu existo”, a revisibilidade incessante deste tipo de convicções-base torna-se infinitamente regressiva. Como afirmado em Da Certeza (§341), as perguntas que fazemos e as dúvidas apoiam-se em certas proposições que são excluídas da dúvida, ou seja, que não são submetidas a escrutínio. Podemos afirmar, neste sentido, que a certeza é primitiva em relação à dúvida; é a primeira que possibilita a última.

Será, então, sensato duvidar de tudo? A resposta parece ser assumidamente negativa. Duvidar de tudo não é, neste sentido, uma dúvida. Antes, a radicalização da dúvida suspende o próprio método de conhecer, investigar e duvidar que empreendemos. Se o homem sensato assume que toda a dúvida parte de proposições dadas como certas, ou seja, que a certeza é necessária para a dúvida e, inversamente, que a dúvida é manifestação suficiente da fixação da verdade de certas proposições básicas, então duvidar destas 5 proposições fundacionais acreditadas torna-se inexequível. O homem sensato pode ser filósofo apenas se assumir explicitamente que: (1) o questionamento filosófico não corresponde à formulação arbitrária de dúvidas aleatórias, desconexas e sem alvo, (2) que a indagação intransigente não é equivalente a um ceticismo absoluto e (3) que a inquestionabilidade de certas proposições é necessária ao erguimento do edifício do conhecimento.

Para que uma proposição seja afirmada, negada ou colocada em dúvida, pressupõe-se que outras proposições sejam encaradas como certas, seguras ou firmes. Mas quando podemos estar totalmente certos em relação à veracidade de uma dada proposição? Wittgenstein afirma que a certeza objetiva é aquela na qual a dúvida está logicamente excluída – uma proposição p é certa somente se não é possível que não-p –. A diferenciação entre o tipo de crenças básicas que formam o fundamento do conhecimento e as crenças não-básicas, posteriormente formuladas, que o edificam e possibilitam apoiando-se nas primeiras, é fundamental para considerarmos que o fundacionalismo é uma resposta coesa ao ceticismo radical. O problema parece residir, em última instância, não na definição, mas na identificação daquelas proposições que fundamentam o conhecimento, que são certas.

3. Da Sistematização de Crenças

Os juízos que formulamos são-nos, primeiramente, ensinados: ensinam-nos juízos e a sua ligação a outros juízos (Da Certeza, §140). À medida que novos juízos empíricos ou proposições descritivas são formuladas, é o sistema basilar de proposições acreditadas – ou o esquema conceptual – que viabiliza, ou não, a acomodação de novas proposições no seu sistema. Acreditar numa proposição não é, neste sentido, atestar objetivamente a sua verdade, mas integrá-la num sistema completo de proposições no qual faz sentido que seja acomodada. Acredito em p se p for coerentemente articulável no esquema conceptual, ou sistema de crenças, que mantenho. É, portanto, neste sentido que Wittgenstein afirma “[fazer-se] luz gradualmente sobre o conjunto [de proposições acreditadas]” (Da Certeza, §141). É o match entre o esquema referencial que a minha própria estrutura linguística mantém e o equilíbrio ou unificação resultantes da inclusão de p neste sistema que me leva a atestar p como verdade; a ter a certeza de que p. A 6 certeza é um processo inclusivo, dependente de uma dinâmica própria entre os significados atribuídos aos termos com que me refiro às coisas a partir das quais formulo juízos e o panorama geral de inserção ou rejeição desses juízos no leque de proposições sistematizadas que confio como verdades firmadas. O que permanece, as proposições que progressivamente acomodo, não são intrinsecamente óbvias ou convincentes, antes, é o que as rodeia, o sistema de crenças, que lhes dá consistência. Há uma diferença substancial entre afirmar que se tem uma crença forte de que p ou que se sabe que p. A primeira afirmação cai sobre o grau de convencimento que um sujeito mantém em relação à proposição acreditada ou o grau de inclusão que uma proposição mantém em relação ao sistema em que é inserida, ao passo que a segunda afirma um tipo de conhecimento conclusivo sobre a verdade intrínseca dessa proposição. A fundamentação empírica das nossas hipóteses não constitui, muitas vezes, prova suficiente para as afirmações que sustentamos.

4. Ciência e Educação – As Comunidades Linguísticas

Considerar certas proposições como verdadeiras ou falsas decorre, também, da nossa pertença a uma comunidade plenamente unificada pela ciência e pela educação, em que vigora um sistema próprio de referências, um método particular de estruturação linguística e significação dos termos e em que um leque de proposições ou afirmações são consensualmente creditadas pela comunidade. Embora este pano de fundo seja relativamente permanente e as proposições fulcrais sejam, em geral, óbvias demais para serem informativas, demonstrar que uma determinada proposição fulcral é errónea pode, ou não, resultar num colapso da rede de crenças estabelecidas, dependendo, naturalmente, do grau de alteração que a mutação do valor de verdade da proposição particular repercutirá sobre as restantes crenças sustentadas. Quando alguém diz, “eu sei que p”, a veracidade de p não é apenas acessível ao sujeito que a atesta. Pode, antes, ser ponderada pelo conjunto de membros da comunidade linguística a que o sujeito pertence. No contexto da matemática formal, por exemplo, afirmar que 2+2=5 é incoerente com o conjunto axiomático de proposições (ou princípios) próprios deste tipo de linguagem. Por paridade de raciocínio, uma contradição formal não é admissível no seio da lógica tradicional porque os princípios axiomáticos da linguagem lógica não 7 viabilizam a validade deste tipo de ocorrência. Se afirmarmos que todas as contradições formais são improcedentes em lógica, então todas as verdades lógicas irradiadas do funcionamento particularizado deste tipo de linguagem procederão apenas na condição de não serem contradições formais. O mesmo acontece com as restantes comunidades científicas e educativas, em que vigoram normas próprias de estruturação linguística, diferentes jogos de linguagem.

Nas comunidades científicas, o estabelecimento da verdade de uma proposição, p.e. A Terra é redonda”, corresponde à consolidação de um consenso comunitário acerca do grau de fiabilidade dos fundamentos empíricos que a sustentam. A quase total revisibilidade da ciência – as alterações que algumas verdades creditadas sofrem por força do desenvolvimento científico – parece constituir evidência de que chegar a uma prova inteiramente conclusiva ou infalível, não trivial e informativa, é tarefa muitíssimo difícil. Antes, estamos convencidos de que determinadas proposições são verdades. As proposições aprendidas são acreditadas mas não provadas independentemente do nosso sistema proposicional. Estar certo ou convencido que p não é saber que p. A proposição (a) “Ptolomeu sabia que a Terra era o centro do Universo.” não representa uma atribuição de conhecimento verdadeira à luz do sistema de verdades que contemporaneamente acolhemos. No entanto, a afirmação (b) “Ptolomeu julgava estar certo de que a Terra era o centro do Universo.” corresponde a uma atribuição de conhecimento verdadeira, sendo possível considerar (a) como uma mera pretensão de conhecimento. Se transformarmos a frase (a) em (b), então a atribuição de conhecimento em (b) é de facto verdadeira uma vez que foi sempre falso que a Terra era o centro do Universo, ainda que Ptolomeu estivesse certo da veracidade da proposição. O critério de certeza não está, portanto, fundamentado no sujeito (não é um estado mental subjetivo), mas no mecanismo de aceitação ou exclusão de determinados factos como verdades incontroversas para uma comunidade linguística específica. É responsabilidade conjunta das comunidades científicas e educativas e da Filosofia que a indagação crítica não seja reduzida a uma arbitrariedade alheia à realidade concreta; que os alvos do questionamento sejam constantemente atualizados. 8

Bibliografia

GLOCK, Hans-Johann, Wittgenstein: A Critical Reader, Blackwell Publishers Ltd, 2001.

HINTIKKA Jaakko, Language-Games em The Philosophy of Wittgenstein: Meaning, Canfield Ed.

MULINARI, Filicio, Saber, Certeza e Dúvida: Sobre Ceticismo e Fundacionalismo no Da Certeza de Wittgenstein, em Griot – Revista de Filosofia, nr.1, junho de 2014.

Disponível em:


[Data de consulta: 30 de novembro].

OLIVEIRA, Wagner Teles de, Wittgenstein e o Pragmatismo.


[Data de consulta: 30 de novembro].

WITTGENSTEIN, Ludwig, Da Certeza. Edições 70, Março de 2012.

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