terça-feira, 12 de abril de 2022

O Anjo da Incerteza



 MARCOS PAMPLONA

Marcos Pamplona (Curitiba, 1964) é poeta, cronista e editor. Os seus poemas foram selecionados para três edições do Prémio Off Flip de Literatura, integrando as coletâneas de 2006, 2008 e 2010. Publicou o livro de poemas Tranverso, pela Kotter Editorial, em 2016; e o livro de crónicas Ninguém nos Salvará de Nós, também pela Kotter, em 2021. Vários textos seus podem ser encontrados em suportes eletrónicos ou de papel, tais como Mallarmargens, Jornal Relevo, Cândido, Pássaros Ruins, Radiocaos e Musa Rara (Brasil); Revista InComundade e Leiria Poetry Festival (Portugal). Vive em Lisboa, onde é editor da Kotter Portugal. Desde abril de 2019 escreve crónicas para o Jornal Plural, nascidas das suas andanças pelas terras portuguesas.

  

Ontem pela manhã o telefone começou a tocar. Pessoas próximas me desejavam um feliz aniversário: os filhos, a mãe, alguns amigos, o irmão. Eu agradecia, satisfeito por terem se lembrado de mim. Uns ligavam do Brasil, outros daqui de Portugal, mas era como se estivessem todos por perto. O calor do seu afeto ia aquecendo o fundo frio que acompanha meus pensamentos nestas datas. Graças a eles e à companheira, que me dedicou uma atenção carinhosa ao longo do dia, passei razoavelmente bem pelo ligeiro incômodo que os aniversários me causam. Pensar que os outros podem me esquecer ou que falam comigo por mero protocolo me deixa contrafeito ou desoladamente efusivo.

Quando fui me deitar, à noite, respirei fundo: estava livre do “meu dia”, da terrível convenção segundo a qual aquela data reserva algo de especial para mim. Já podia voltar ao tempo verdadeiro, ao tempo anônimo de toda gente. Adormecer com a cabeça confortavelmente acomodada em minha ineludível insignificância.

 

            Hoje é domingo. Escrevo diante desta janela bem no alto do prédio, de onde vejo a cidade ainda meio adormecida, sob o azul esbranquiçado onde às vezes some uma gaivota. Procuro responder à pergunta que meu filho mais velho me fez ontem. “Como você se sente?”, disse ele, num tom ambíguo que hesitava entre me provocar e não querer a resposta. Na hora falei algo banal, “vou bem”, “vou levando”, não lembro ao certo. Na verdade fui pego de surpresa. Mas a pergunta dormiu ao meu lado, levantou-se da cama comigo hoje, ficou me rondando como um cão à espera de atenção.

            “Como você se sente?”

           

            Depois de conhecê-la por cinquenta e oito anos, não vejo grandes motivos para festejar a vida. O que houve de melhor foram respingos de alegria, fumos de prazer numa senda de monótonas inquietações. O trágico disso é que também não chego a deplorar a existência, pelo menos nunca a ponto de querer abandoná-la. De tal maneira que me arrasto aos pés do que quase sempre me faz sofrer, como um amante maltratado e servil. E a sabedoria que se supõe colher desta experiência excruciante não vai além de algumas técnicas para diminuir a humilhação, como fingir indiferença ao futuro (carpe diem!) ou buscar na arte o sopro divino que me nega o carrasco.

             Essas considerações poderiam levar você a me supor um homem triste. Ou ultrajado pela sua condição, no fundo fraco. E você estaria certo, mas também errado. Porque ao mesmo tempo sou (absurdamente) forte, como o protagonista de O Castelo, aquele agrimensor que não desiste de buscar o alto, apesar dos labirintos insolúveis que lhe oferecem os poderes terrenos. Então você também poderia, claro, me perguntar o que é o “alto”, mas tal qual o agrimensor jamais chegarei lá, não sei nem nunca saberei o que seja. Simplesmente sou impulsionado pela força cega da vida, o eros que pode conceber e pode matar, jamais deter-se. (Toda a civilização oscila entre estes dois extremos, de criação e destruição, e senta-se diante do prato de sopa como um pássaro exilado do céu.) O alto é talvez apenas o contrário do baixo, do reles, do chão, daquilo a que estamos condenados. Às vezes acredito que é também uma lembrança, a nostalgia de uma completude perdida. O que há em nós de obscuramente divino, se você quiser. Mas outras vezes acho que é apenas nosso corpo com uma saudade oceânica da matéria inanimada, liberta de existir. Não sei; por mais que lhe digam o contrário, ninguém realmente sabe. Não saber parece ser o combustível indispensável para que a roda do mundo gire.

            E aqui, talvez, eu consiga dizer algo que pode ser útil neste espetáculo a que somos lançados nus, sem saber o texto, divisar a plateia ou conhecer o diretor. Digo a você que fuja dos que sabem, dos que professam certezas, dos que “conhecem o caminho”. Tudo que eles querem é escravizar o elenco, amealhar para si a bilheteria e os aplausos. Não lhe trarão nada que sequer se aproxime de amor ou afeto, porque estão comprometidos com a mentira até os ossos.

Você pode achar esquisito, mas o que sinto agora é ternura e respeito pelos confusos, pelos hesitantes, pelos tímidos, perdidos, céticos, por todos aqueles que caminham sobre a mais profunda ignorância, sem impor seu exemplo a ninguém. Os que não querem dominar os outros porque não transformam em matéria de ressentimento ou menosprezo a sua própria insuficiência e, pelo contrário, olham com fraterna largueza para a nossa pequenez.

Para estes abro minha porta, com eles compartilho água, comida, calor. Sei que não irão me devorar nem exigir de mim um predador nauseado.  

Mas evito os que “sabem”, os que se arrogam os poderes do céu e da terra, os que escravizam os outros com verdades que não passam de ilusionismo tirânico, destilado por uma vaidade rasa, violenta, estúpida. Evito os pastores como uma ovelha que sabe que vai ser abatida pelo seu zelo.

 

O que sinto hoje, meu filho, é essa paz relativa que só a derrota pôde me dar. E a presença protetora de um anjo cabisbaixo, esquivo. Poderia chamá-lo de anjo da nossa incerteza.



           

           

            

sábado, 4 de dezembro de 2021

Os 10 jogadores com mais jogos pelo 1º de Dezembro no Campeonato de Portugal


DAVID PEREIRA
Jornalista no Diário de Notícias, autor de "O Blog do David"

Fundada a 1 de dezembro de 1880, sob foral de D. Carlos, então Rei de Portugal, e como cor da bandeira o azul, símbolo da monarquia, a Sociedade União 1º Dezembro dedicou-se inicialmente à instrução e ao recreio, nomeadamente à música, mas veio a tornar-se num clube bastante representativo do concelho de Sintra na modalidade de futebol.

 
Em meados de 1935, o 1º Dezembro integrou um grupo de jovens denominado de “Os Terríveis”, que se dedicava à prática de vários desportos, como ténis de mesa, ciclismo e futebol, mas que debatia-se com grandes dificuldades financeiras. No mesmo ano, o então Conde de Sucena doou os terrenos onde ainda hoje está situado o Parque de Jogos do 1º Dezembro.
 
Porém, foi necessário esperar até ao século XXI para ver a equipa sénior masculina a tornar-se presença assídua nos campeonatos nacionais, tendo competido ininterruptamente na III Divisão entre 2003-04 e 2010-11, na II Divisão B em 2011-12 e 2012-13 e no Campeonato de Portugal entre 2013-14 e 2020-21.
 
Em oito participações no Campeonato de Portugal, o melhor que o 1º Dezembro conseguiu foi alcançar o apuramento para a fase de promoção em 2014-15 e 2015-16.
 
Paralelamente, a equipa feminina sagrou-se pela primeira vez campeã nacional em 1999-00 e conquistou onze títulos consecutivos (!) entre 2001-02 e 2011-12, constituindo um recorde de 12 títulos nacionais. Porém, a formação foi dissolvida devido a problemas económicos no final da época 2013-14.Vale por isso a pena recordar os dez futebolistas com mais jogos pelo 1º Dezembro no Campeonato de Portugal.
 

10. Edmar (63 jogos)

Edmar Silva
Experiente médio brasileiro, que tem no currículo um título cipriota e mais de uma dezena de jogos nas competições europeias, reforçou o 1º Dezembro no verão de 2018 após onze anos no Chipre, numa altura em que já tinha 36 anos de idade.
Ao longo das três primeiras temporadas ao serviço dos guerreiros de Sintra amealhou 63 encontros (59 a titular) no Campeonato de Portugal, mostrando-se impotente para evitar a descida aos distritais da AF Lisboa em 2021. Em 2021-2022 permaneceu no clube, apesar da despromoção

9.Benjumea (67 jogos)


Defesa central colombiano que jogou no principal campeonato da Colômbia ao serviço do Deportivo Pasto, entrou no futebol português precisamente pela porta do 1º Dezembro durante o verão de 2017.Ao longo de pouco mais de três anos nos guerreiros de Sintra amealhou 67 encontros (63 a titular) e seis golos no Campeonato de Portugal, despedindo-se no início da temporada 2020-21, quando voltou à Colômbia para representar o Bogotá, da II Divisão.Pelo meio, chegou a ser anunciado como reforço do Olímpico Montijo em meados de 2018, mas acabou por voltar ao Campo Conde de Sucena sem que tivesse disputado qualquer jogo oficial pelos montijenses.



8. Marco Pinto (69 jogos)

Marco Pinto
Guarda-redes internacional jovem português que jogou na formação do Sporting ao lado de Rui Patrício, Fábio Paim, Daniel Carriço e Bruno Pereirinha, passou por clubes como BelenensesMafraBeira-Mar Monte GordoEstrela da Amadora e Pêro Pinheiro antes de ingressar no 1º Dezembro no verão de 2012.
Na primeira época em São Pedro de Penaferrim ajudou a equipa a alcançar um honroso 6.º lugar na Zona Sul da II Divisão B e, consequentemente, a assegurar a presença na edição inaugural do Campeonato de Portugal, competição em que Marco Pinto amealhou 69 partidas e 66 golos sofridos ao serviço dos guerreiros de Sintra entre 2013 e 2016. Nesse período contribuiu para o apuramento para a fase de promoção à II Liga em 2014-15 e 2015-16.

No verão de 2016 transferiu-se para o Desp. Aves, clube pelo qual haveria de festejar a subida à I Liga.
 
 
 

7. Martim Águas (70 jogos)

Martim Águas
Médio ofensivo/avançado filho e neto de dois antigos internacionais portugueses, José e Rui Águas, jogou ao lado de Ricardo PereiraJoão Mário, Ricardo Esgaio e João Carlos Teixeira nas camadas jovens do Sporting e de João Cancelo, Ivan Cavaleiro, Bruno Gaspar e Hélder Costa na formação do Benfica.
Após passagens pelos seniores de Casa Pia e Vitória de Sernache, ingressou no 1º Dezembro em janeiro de 2016. Ao longo de duas temporadas e meia no Campo Conde de Sucena totalizou 70 encontros (65 a titular) e 20 golos no Campeonato de Portugal, contribuindo para o apuramento para a fase de promoção à II Liga em 2015-16.Paralelamente, em outubro de 2016 marcou um golo e atuou os 90 minutos numa eliminatória da Taça de Portugal diante do Benfica em que os guerreiros de Sintra estiveram a escassos segundos de adiar a decisão para prolongamento.
No verão de 2018 transferiu-se para o Pinhalnovense.  
 

 
 

6. Pipas (81 jogos)

Pipas
Médio ofensivo natural de Sintra e formado maioritariamente no rival Sintrense, concluiu a formação no 1º Dezembro, tendo transitado para a equipa principal em 2009-10, na altura para jogar na III Divisão Nacional.
No verão de 2011 mudou-se para o vizinho Sp. Lourel, mas um ano depois regressou ao Campo Conde de Sucena para a equipa a alcançar um honroso 6.º lugar na Zona Sul da II Divisão B e, consequentemente, a assegurar a presença na edição inaugural do Campeonato de Portugal, patamar em que amealhou 72 partidas (56 a titular) e oito golos entre 2013 e 2016. Nesse período contribuiu para o apuramento para a fase de promoção à II Liga em 2014-15 e 2015-16.
Entre 2016 e 2020 esteve ao serviço do Sintrense, mas na primeira metade de 2020-21 voltou aos guerreiros de Sintra para atuar em nove jogos (todos como titular) e marcar um golo ao Lourinhanense no Campeonato de Portugal, numa campanha que ficou marcada pela descida aos distritais da AF Lisboa. Porém, Pipas acabou por não ficar toda a temporada no clube pois rumou ao Olímpico Montijo no início de 2021.
 

 
 

5. João Lima (84 jogos)

João Lima
Defesa central natural de Alfornelos, concelho da Amadora, dividiu a formação entre Estrela da Amadora e Atlético, tendo iniciado o seu percurso no futebol sénior ao serviço da formação de Alcântara, que em 2013-14 o emprestou ao 1º Dezembro.
Nessa temporada atuou em 16 encontros (12 a titular) no Campeonato de Portugal e apontou dois golos, diante de Operário e Futebol Benfica.Em 2014-15 e no início da época seguinte, já vinculado em exclusivo aos guerreiros de Sintra, amealhou mais 24 partidas (22 a titular) no inicialmente designado por Campeonato Nacional de Seniores, tendo contribuído para o apuramento para a fase de promoção em ambas as temporadas.
Nos derradeiros dias do mercado de inverno de 2016 mudou-se para o Pinhalnovense, mas no verão desse ano regressou ao Campo Conde de Sucena para mais duas temporadas em São Pedro de Penaferrim, nas quais totalizou 44 jogos (41 a titular) e cinco golos no Campeonato de Portugal.
Paralelamente, em outubro de 2016 atuou os 90 minutos numa eliminatória da Taça de Portugal diante do Benfica em que os guerreiros de Sintra estiveram a escassos segundos de adiar a decisão para prolongamento.
No verão de 2018 emigrou para o Reino Unido.
 

 
 

4. Ruizinho (87 jogos)

Ruizinho
Extremo nascido em Lisboa e formado no 1º Dezembro, foi pela primeira vez convocado para jogos da equipa principal em 2013-14, mas só na época seguinte é que se estreou oficialmente.
Entre 2014 e 2019 amealhou 87 partidas (66 a titular) e oito golos no Campeonato de Portugal, tendo contribuído para o apuramento para a fase de promoção em 2014-15 e 2015-16.  Paralelamente, em outubro de 2016 atuou os 90 minutos numa eliminatória da Taça de Portugal diante do Benfica em que os guerreiros de Sintra estiveram a escassos segundos de adiar a decisão para prolongamento.

Assolado por lesões, chegou a deixar o futebol em 2019, mas acabou por voltar à atividade em 2020-21 com a camisola do Sp. Lourel.
 

 
 

3. Luisinho (126 jogos)

Luisinho
O melhor marcador de sempre do 1º Dezembro no Campeonato de Portugal, com 47 golos.
Avançado lisboeta que começou a jogar futebol nos infantis do Sporting, entrou para os iniciados do 1º Dezembro em 2002-03 e transitou para a equipa principal em 2008-09, numa altura em que os guerreiros de Sintra militavam na III Divisão Nacional.
Após uma passagem pelo Sp. Lourel em 2011-12, Luisinho voltou ao Campo Conde de Sucena para se afirmar como goleador, tendo contribuído para o apuramento para a edição inaugural do Campeonato de Portugal, patamar em que entre o verão de 2013 e dezembro de 2014 amealhou 45 jogos (39 a titular) e 23 golos.
Embora tivesse rumado ao Benfica de Macau em janeiro de 2015, o atacante contribuiu para a qualificação para a fase de promoção em 2014-15. Na época seguinte regressou ao clube e repetiu esse feito, desta vez com sete golos em 32 partidas (todas como titular).
No verão de 2016 mudou-se para o Omonia Aradippou, da II Divisão de Chipre, tendo ainda passado pela AD Oliveirense antes de regressar ao 1º Dezembro em 2018-19, em mais uma temporada de grande produtividade à frente da baliza, uma vez que somou 15 remates certeiros em 32 encontros (todos como titular).
Após uma nova passagem pela AD Oliveirense e uma aventura de alguns meses no Olímpico Montijo, voltou uma vez mais a Sintra em 2020-21, uma temporada de má memória tanto em termos coletivos, devido à descida de divisão, como a nível pessoal, uma vez que não foi além de dois golos em 17 partidas (nove a titular).
Após a despromoção permaneceu no clube, que está a competir nos distritais da AF Lisboa.
 

 
 

2. Leonel (130 jogos)

Leonel Correia
Médio nascido em Lisboa e que jogou ao lado de Miguel Vítor, Miguel Rosa, Rúben Lima e André Carvalhas nas camadas jovens do Benfica, terminou a formação e iniciou o seu percurso como futebolista sénior no Oeiras.
Em 2013-14 representou pela primeira vez o 1º Dezembro, numa época em que disputou 30 jogos (24 a titular) e apontou dois golos no Campeonato de Portugal.
Entre 2014 e 2016 representou Malveira e Oriental, tendo regressado ao Campo Conde de Sucena em novembro de 2016 para iniciar um ciclo nos guerreiros de Sintra que dura até aos dias de hoje.
Desde o regresso a São Pedro de Penaferrim até meados de 2021 amealhou 100 partidas (94 a titular) e sete golos no Campeonato de Portugal, mostrando-se impotente para evitar a despromoção aos distritais da AF Lisboa em 2020-21.
 

 
 

1. Oumar (136 jogos)

Oumar Diatta
Defesa/médio senegalês de baixa estatura (1,68 m), passou pelos juniores do Belenenses e pelos seniores de OdivelasEstrela da Amadora e Casa Pia antes de ingressar no 1º Dezembro no verão de 2012.
Na primeira época no clube contribuiu para o apuramento para a edição inaugural do Campeonato de Portugal, patamar em que amealhou 136 partidas (116 a titular) e um golo (ao Almancilense, em 2016-17) entre 2013 e 2020. Nesse período contribuiu para o apuramento para a fase de promoção à II Liga em 2014-15 e 2015-16.
Paralelamente, em outubro de 2016 atuou os 90 minutos numa eliminatória da Taça de Portugal diante do Benfica em que os guerreiros de Sintra estiveram a escassos segundos de adiar a decisão para prolongamento.
Em janeiro de 2021 mudou-se para o Desportivo dos Olivais e Moscavide. 


terça-feira, 28 de julho de 2020

Os hotéis da Vila Velha


CAÍNHAS

Sem qualquer tipo de pesquisa, eu falo daquilo que vi,ou ouvi contar. E, em jeito de conversa de café, vou falando daquilo que me lembro. Pode haver até alguma falta de rigor com datas, nomes, e outras falhas, que espero me desculpem, pois não tenho pretensões nenhumas, não quero ser comparável com ninguém, vejam as minhas estórias, como isso mesmo, “estórias” da minha juventude, apenas e só. Obrigado! 

Nas décadas de cinquenta e sessenta, os Hotéis na Vila de Sintra, eram apenas três, o CENTRAL da família Raio, o NUNES da família Lopes Alves, e o NETTO que tinha à frente, uma Senhora de Sintra, originária de Nafarros, muito alta, bonita e elegante, não me lembro bem do nome, estou com a mania que era Manuela. 

 A 7 de Agosto de 1951, Schiappa de Carvalho e Glenville Américo Marques são encarregues do projecto de adaptar Seteais a um hotel. A 29 de Setembro de 1955, é inaugurado o Hotel de Seteais, com a presença do ministro da Presidência, Marcelo Caetano. (in Conhecer Sintra). 

Muitos dos que se fizeram bons profissionais na indústria hoteleira, e foram para o Hotel Seteais, aprenderam nos hotéis da Vila Velha, foram para lá quando abriu, tendo chegado a lugares de destaque, casos do Luís, que chegou a cozinheiro chefe, e do Bonifácio, que se iniciou como pasteleiro na Piriquita, e chegou a chefe pasteleiro dos Seteais. Reformou-se, e abriu a sua pastelaria na Rua das Padarias, fatalmente aquela doença que não perdoa, levou-o precocemente. 

Todos os Hotéis eram diferentes, tanto na oferta ao cliente, como no modo de gestão. Comecemos pelo CENTRAL, até porque o nome diz tudo. 

O HOTEL CENTRAL


Esta unidade hoteleira, estava à frente no seu tempo para o Turismo que vinha visitar Sintra, e tinha protocolos com várias agências de viagens, que lhe metiam pela porta dentro diariamente ou perto disso, vários autocarros com turistas para almoçar, dentro da capacidade do Hotel em receber condignamente esses turistas. A camionagem da Capristanos, a determinada altura investiu nos autocarros de turismo de luxo, que sobretudo faziam o circuito, Lisboa, Sintra, Cascais, Lisboa, trabalhavam com Agências, e era ali que vinham desembocar. Porquê? - Porque a Sra. Dona Laura Raio, era mesmo uma Senhora com todas as letras, e sabia muito do metier, falava inglês como qualquer Ministro de sua Majestade, tinha estudado em Inglaterra, era a alma daquela casa, estava bem relacionada no meio, muito conceituada, tinha muitos bons contactos, porque não se via aquele tipo de negócio nos outros hotéis. 

As suas origens estão em Galamares (Saraivas), lá tinham uma quinta, de onde vinham muitos produtos, desde a uva para o vinho, que era feito nas adegas por debaixo do Hotel, até produtos hortícolas, e fruta. 

Todas estas coisas que vinham de Galamares, eram transportadas numa carroça puxada por um macho, e o seu carroceiro foi um homem que serviu aquela casa até morrer, morava na quinta, em Galamares, tinha um filho chamado Rui, mais velho que eu, mas que ainda apanhei na Instrução Primária. 

Uma vez o Rui apareceu na Escola (hoje Piriquita 2, era nosso professor o Sr. Rovisco de Andrade), com uma régua de 50 centímetros em pinho, mais grossa que um dedo, e com 5 furos, a chamada menina dos cinco olhos, lá vem o Rui com a régua parece que estou a vê-lo:
 - Sou “pressor”, trago-lhe aqui esta régua para lhe oferecer! 

-Ai trazes? Então vais já ser o primeiro a estreá-la. 

Bumba, cinco réguadas em cada mão. Eu assisti a isto tudo, devia eu andar na primeira ou segunda classe, ele na quarta classe. Todos os dias lá vinha o pai do Rui com a carroça fazer serviço ao Hotel, na Rua da Pendôa, parava em frente a taberna do João Magalhães, perto da Adega e armazém. No tempo da vindima, o desgraçado do macho, fazia por vezes três viagens diárias de Galamares para Sintra, e volta, de sol a sol, com uma dorna cheia de uvas, brancas e tintas, mas mais tintas. Se o carroceiro se distraía, lá ia o pessoal deitar a mão e tirar um ou dois cachos de uva. A taberna do Sr. João Magalhães também conhecida pelo “Vintesinho”, foi desativada para passar a ser, já depois de 1965 (por aí) a garagem do patrão Raio, que até essa altura guardava os carros nos baixios do prédio do Sr. Vicente Soares, junto à Praça Velha, prédio que é hoje do meu amigo António Loureiro. Essa garagem foi também durante muito tempo garagem do Senhor José Américo, casado com a D. Rosa (pais do Zé Manuel Brandão, e da Fernandinha Brandão), famíliares da D. Laura Raio. O Senhor José Américo era embarcadiço, assim era o termo dessa época, para designar alguém tripulante da marinha mercante, estava muito tempo fora, e o Sr. José Américo, tinha um Mercedes (matateu) de matricula AF-18-10, cuja missão que lhe estava destinada, era, quando ele chegasse a Lisboa, o ir buscar ao navio, porque quando se desembarcava, o dispenseiro tinha que se desfazer de muitos produtos que se estragavam, por isso eram vendidos ao desbarato, tipo feijão, batata, arroz, e então havia sempre alguém designado para ir buscar o Sr. José Américo no “Matateu”. 

Porque é que vem para aqui chamado, o Matateu/carro? - Porque o meu amigo José Manuel Brandão, seu filho, sacava a chave do carro e no Verão lá ia o Matateu carregado de malta para os bailes na Ericeira, no Parque de Santa Marta. O único que tinha carta de condução, era o António Luís do Couto, já falecido, neto do Sr. Luís do Couto, era um grande maluco. O carro estava ali parado meses, para o tirar tínhamos que o trazer de empurrão, fazer pouco barulho, para não incomodar a família Soares, e também porque o carro não tinha bateria e não pegava, já estaria mesmo “nas lonas” e sem recuperação. Virava-se o Matateu para a Estrada do Macieira, e lá se punha a pegar de empurrão. Para a bateria carregar se tivesse recuperação, tinha que levar uma carga valente, no mínimo um dia. Não se enxergava um palmo à frente do nariz, mas lá íamos nós à sorte e à aventura. Chegámos a ir oito dentro do Matateu, não se via nada, e os outros carros também não nos viam a nós, o Tó Luís, punha o carro no meio da estrada, de Sintra até à Ericeira, e ouvíamos do bom e do melhor, curtas e compridas, saíam todas. Nunca houve acidentes, só porque nunca calhou. 

Outra clientela que procurava muito o Central, eram os recém casados, pareciam que tinham escrito na cara (casados de fresco), elas muito branquinhas, depois de uma noite mais mal dormida, muitas vinham ali pela primeira vez saber o que era aquela nova realidade. Os tempos eram outros, e embora não fosse a generalidade, casar virgem ainda era tradição. Eles todos de fatinho de segundo dia, todos engravatados, sapatinho novo, e meios coxos da trabalheira a que tinham sido sujeitos na noitada. Um fartote, para quem vê, com olhos malandros. Sintra foi, é, e sempre será a Capital do Romantismo, era um destino procurado, para jovens recém casados, e não só jovens. Não estando ao alcance de todas as bolsas, o Hotel Central era muito mais em conta que a maioria da concorrência dos hotéis da linha de Cascais, e de Lisboa. Não quero dizer com isto que este tipo de clientes fossem exclusivos do Central, o Neto e o Nunes também teriam naturalmente, só que como estavam mais lá para o canto, o “quadrilhum”, não se apercebia tanto. O patrão novo, ou seja o António de Jesus Raio Jr. não mexia uma palha, enquanto os pais foram vivos, foi sempre um bon vivant, dedicou-se sempre muito ao hóquei, foi um exímio executante, considerado naquele tempo o melhor do mundo, fez parte da equipa portuguesa que alcançou pela primeira vez esse título (em baixo)
Em cima Sidónio Serpa, Futebol Benfica, Emídio Pinto, Paço D’Arcos, Edgar Bragança Soares, H.C. Sintra, Jesus Correia, Paço d’Arcos, António Raio, H. C. Sintra, e Correia dos Santos, Paço d’Arcos. 


                                                   Ao lado, António Raio
Era um Senhor, culto, educado, brincalhão, e amigo do seu amigo. Passei muitas horas a ouvi-lo contar as suas histórias. Os mais velhos que eu, chamavam-lhe o Dr. Helénio Herrera, nome de um treinador chileno que veio treinar o Benfica e que tinha estado em Itália a treinar o Inter de Milão, porque o António Raio além de bom executante de hóquei, foi selecionador nacional, e poucas vezes terá perdido. 

Para fechar o capítulo do Central, dizer que tinha a vantagem sobre os outros hotéis de ter aquela excelente esplanada, como ainda hoje tem, e que ao principio se diferenciava da do Café Paris, porque as suas cadeiras eram de vime, muito confortáveis, depois mudaram para ferro, visto terem menor manutenção, e mais durabilidade.  

O HOTEL NUNES 


Estava situado, parcialmente, onde é hoje o Hotel Tivoli, este foi ocupar toda a área do Hotel Nunes mais o jardim que o envolvia, e até todo o casario do Beco do Forno, até à Rua da Pendôa, tendo apanhado a propriedades da D. Maria do Máximo, e todas as outras até ao Passeio dos Velhos. Seria talvez o Hotel mais pequeno, lembro-me ainda da mãe do Henrique, uma senhora já com idade avançada, e por morte desta o Hotel ficou sobre as ordens deste seu filho, que tinha um irmão cujo nome agora não me recordo, mas recordo o nome do filho, António Lopes Alves, que era mais velho que eu e andava também no Externato Académico de Sintra, era o mais graduado da Mocidade Portuguesa, e aos Sábados à tarde lá tínhamos nós aquele petisco de estar ali a fazer ordem unida (marchar), das três às cinco. 

Por morte da senhora, o negócio foi caindo, eles não estavam muito para ali virados, montaram um negócio em Mem Martins, café e bomba de gasolina, o Mira Serra, e o Hotel assim que puderam, viram-se livres dele. O Henrique tinha um daqueles namoros eternos com uma senhora que era ecónoma do Hospital da Santa Casa da Misericórdia, a D. Jeninha, não sei se são vivos ainda. Deste hotel, pouco ou nada tenho para contar, a não ser que foi um local que acolheu uns irmãos que vinham do Norte, primeiro veio para cá o mais velho, e foi mandando vir os mais novos, dali partiram para as suas vidas, sempre ligados à hotelaria. O mais velho, o António, ainda tem uma propriedade no Linhó, é viúvo da sua querida de sempre, a D. Alzira, uma senhora baixinha, bonita, que era empregada doméstica, mesmo ali ao lado, na casa da família Almeida e Brito. Para melhor informação, sobre este hotel, vale muito a pena consultar o blogue Rio das Maçãs, do meu amigo Pedro Macieira, que tem tudo escrito, e baseado em estudos, que eu não faço. Eu é mais, tipo quadrilheiro da Vila, e estar à coca com os acontecimentos da época, que ainda me recordo. 
http://riodasmacas.blogspot.com/2007/02/hotel-nunes.html

O HOTEL NETO 


Este hotel, para quem não o conheceu na sua pujança, e só o viu em ruínas, há-de pensar que aquilo era um pardieiro. Nada disso. Era uma unidade hoteleira com categoria, tinha uma boa restauração, um jardim atrás, que dá para a Rua de trás do Paço, tinha um bom salão de festas, cheguei a lá ir tocar várias vezes, sobretudo com o Conjunto Avelino Gil, não sei se alguma vez lá fui tocar com os Diamantes Negros. 

Este hotel era o preferido pela Federação Portuguesa de Futebol, e pelos clubes, Sporting e Benfica, mais o Sporting, já que era para cá que normalmente vinham nos anos cinquenta. Com esta clientela do futebol há várias peripécias. Quem leu o que escrevi sobre a Torre do Relógio, terá lido que aquele relógio já ouviu muita coisa! Uma dessas coisas foi uma “acusação” como lá foi dito, de um guarda redes do Sporting, que estagiou aqui com a equipa, num ano em que o Sporting tinha que ganhar ou pelo menos não perder no último jogo para ser campeão, esse jogo era com o Benfica na Luz, o Sporting perdeu e ele foi o “coveiro” dessa derrota, depois desculpou-se que ia mal dormido porque as badaladas do relógio não o deixavam dormir.

A Selecção Nacional também vinha para cá. Nomes como Carlos Gomes, Vasques, Travassos, Albano, Martins, Caldeira, Juca, e outros do Sporting, do Porto, Monteiro da Costa, Virgílio, Acúrsio (gr). Hernâni, do Benfica, Costa Pereira, Jacinto, Ângelo, Águas, José Augusto, Santana, Coluna e Cavém, ainda não havia o Eusébio, (esse nunca cá veio). Do Belenenses, os manos Matateu e Vicente, do Lusitano de Évora, havia um que era muito bom e foi selecionado várias vezes, chamava-se José Pedro. Atenção que o Lusitano de Évora era clube de primeira divisão e bom, o Sporting era raro lá passar, mesmo com os violinos. 

O jogador mais castiço, e uma das estrelas da companhia era o Matateu, que teve a pouca sorte de nascer cedo de mais, (hoje não havia dinheiro para lhe pagar), desde que ele soubesse gerir a carreira, ou tivesse quem o orientasse. 

Matateu era alcunha, porque o nome dele era Sebastião Lucas da Fonseca, se calhar os puristas hoje não deixavam o homem ter essa alcunha, era considerado racismo, quando veio de Moçambique para cá já trazia a alcunha, e não havia essas mariquices. Tudo se dava bem. Ainda o vi jogar algumas vezes, jogou até tarde, a última vez que o vi, foi na seleção nacional, num Portugal-Argentina, no Estádio Nacional, em 1961, tinha o Benfica acabado de ser campeão Europeu, e praticamente era o Benfica reforçado com o Matateu e mais um ou outro, os nossos levaram um baile, meu Deus!... “empatámos” esse jogo salvo erro 6-0, com os argentinos a dançar o tango quase a passo e os nossos a cheirar a bola. 

Nesse dia o Matateu foi pai, e nesse jogo, foi de longe o melhor dos portugueses, quiçá o melhor em campo, e deu o nome à sua filha de Argentina. O Matateu, era um homem que tinha uma certa dependência do álcool, no Belenenses, sei de pessoa muito ligada ao clube, que ele tinha ordem de no intervalo beber uma cervejinha fresca, mas, já se sabe que nestas coisas de estágios, ainda por cima da seleção, há sempre rigor, com o que se come e bebe, então o Matateu para não estar à mercê desses rigores do estágio da seleção, estava combinado com o Chico Romina, que era o barbeiro junto à mercearia do seu irmão António Batista/(Tonecas), e tinha lá sempre vinho para o Matateu, este ia lá fazer a barba, e de caminho bebia o seu copinho, ou copinhos. 

Era simpático o Sr. Matateu, passava pelos miúdos, sorria, e dava uma festa na cabeça. Tenho um episódio na primeira pessoa, com o Acúrsio Carrelo, guarda redes do Porto e da Selecção.  Uma vez que veio para cá estagiar com a seleção, eu e o meu amigo Augusto Pimenta de Sousa andávamos muito aos caracóis, levávamos para casa dele, e depois a mãe cozinhava aquilo para nós comermos, com os irmãos mais velhos incluídos. A miudagem andava sempre de volta dos craques. Um dia falámos nos caracóis, e o Acúrsio prometeu-nos uma bola de futebol se nós lhe arranjássemos uma caracolada, a caracolada foi para o Acúrsio e mais dois ou três, a bola é que nunca mais veio. Andámos a apanhar caracóis de empreitada, a D. Maria a fazê-los como só ela sabia fazer, e a bola ainda hoje estamos à espera dela. Dali já não pode vir, porque o homem já morreu. 

O Hotel Neto tinha umas figuras típicas, o Zézinho do Hotel, irmão da dona, assim mais ou menos como o menino frágil, mas uma boa esponja, um tipo fixe , alinhava com aquela malta velha, ia também aos passeios do Escalhabardo, mas ao fim do dia quem o queria ver era acampado na Taberna do Acácio. Havia lá um outro, criado de mesa, mas fazia parte da família, um galego, o Xé Maria, caçador e pescador, tinha um cão pequeno tipo fox terrier, um dia foi abordado pelo guarda da caça:
-Boa tarde! Boa tarde, xô guarda. Então o Sr. tem aí os seus documentos? 
-Tenho xim xenhor, tudo xertinho! 
-Então mostre lá a sua licença de caça.
-Oh xô guarda, está aqui a ouvir a gente. 
Procura, remexe, tira daqui e dali, até que aparece uma licença de caça com mais de cinco anos, caducada. 
-Isto está caducado! 
-Ai está? Eu tenho xempre tanto cuidado, olhe escapou. A licença de uso e porte de arma’ Xó um bocadinho, a mesma fita, tudo caducado. 
-O senhor vai ser autuado, não tem nada em dia. 
-Ai xim xõ guarda, olhe que eu xô muito cuidadoxo com estas coisas isto paxoume. 
-Pois sim, está-se a ver. Então e a licença do cão,e as vacinas? 
-Oh Xô guarda, essa tá mesmo aqui, tudo xertinho. 
-Então mostre cá. 

O mesmo teatro, quando apresenta os papéis do cão, tudo caducado. Lá vai o Xé Maria, para o posto. A minha mãe trabalhou no Hotel Netto, aí conheceu o Caínhas Pai, lá juntaram os trapinhos, no tempo da Segunda Grande Guerra, eu nasci em 1947, ainda havia o racionamento, e vim ao mundo para aumentar a família, e assim haver mais margem para produtos alimentares. 

O Hotel Neto depois passou para um senhor de Torres Vedras, o nome varreu-se-me. Foi ainda uns anos bons diretor do Hockey Clube de Sintra, tinha esposa e filha, muito bonitas, qualquer delas, a filha ainda andou a estudar no Externato Académico de Sintra. O negócio começou a decair, e com a perspetiva da construção do Tivoli, ele vendeu o recheio, (ainda lhe comprei uma cama de ferro muito bonita), e saíram de Sintra, perdi-lhes o rasto, era boa gente. 

Não sou do tempo do Hotel Costa, esteve sempre fechado, até ir para lá o Turismo, tinha lá um casal de caseiros, com a sua filha, a Nazaré. O pai amanhava umas hortas na Mata do Carago, donde vinham todos os produtos hortícolas, criavam galinhas e coelhos e um porquinho, para se governarem, Deviam passar um frio de morrer dentro daquele “mausoléu” sem aquecimento, e até duvido que tivessem luz.. 

As minhas origens, estão ligadas por parte do meu pai também a um Hotel, pois a minha avó paterna, veio da região do Cadaval (Rocha Forte), região hoje da Pera Rocha, trabalhar para o então designado Grande Hotel Vítor, aí conheceu o meu avô Zé Caetano dos Santos (Zé Borralho), e fizeram uma prole de oito filhos. É obra, bolas!... 

Hoje em Sintra está-se mais bem servido de hotéis, a oferta é boa, a procura também foi, mas o micróbio deu cabo disto tudo. 

Sintra, 24 de Julho de 2020 

Carlos José Paulo dos Santos

quarta-feira, 22 de julho de 2020

As padarias da Vila Velha



CAÍNHAS


Na Vila Velha, felizmente nada faltava, tanto no comércio como na indústria, e até com casas a fazer concorrência, duas três e quatro vezes. Era o caso da Panificação, todas as Padarias coziam e comercializavam o seu pão, e eram três.

A que talvez fosse a maior, tanto na dimensão de área, centralização, distribuição, e na venda ao balcão, seria a do António Loureiro, pai do meu amigo de infância, António de Almeida Marques Loureiro, cujo forno tinha a porta de entrada virada para o Largo da Vila, e ficava à direita de quem sobe a Rua das Padarias, hoje, salvo erro, é uma casa de bonecos, quando deixou de ser o forno, passou a ser algo entre o restaurante e a tasca fina, que se chamava A TIBORNA.

Era impressionante ver chegar aquelas camionetas de carga grandes, cheias de molhos de lenha de pinho, que alimentavam aqueles enormes fornos, feitos de tijolo refratário, só me recordo de o forno da padaria Tavares ter uma enorme chaminé. Dos outros já não me lembro bem, mas parece-me que os fornos não tinham exaustão de fumos, porque a lenha era só para aquecer o forno e as brasas mantinham-no aceso e quente. Como as casas do forno tinham arejamento, quando estava muito calor abria-se a porta, para entrar o fresco.

Com o fim dos fornos de lenha perdeu-se uma maneira natural de limpeza dos pinhais, porque só na Vila grandes fornos a cozer a lenha de pinho, eram quatro, três padarias, e ainda o da Piriquita, que gastava quase tanto como os padeiros.

Naquele prédio ninguém passava frio. Os sobrinhos do Sr. António Loureiro, o Manuel, o Joaquim, que tinha uma bicicleta e ma emprestava para eu vir namorar a minha mulher, e o António, que também trabalhavam para o tio, moravam numa casinha pequenina com a mãe, que enviuvara ainda nova, tendo ficado com aqueles filhos e uma menina, que apesar da desdita, foram a sua salvação, trabalhavam que nem mouros, todos se fizeram à vida, dois ligados à panificação, e outro não, mas todos singraram, e se fizeram homens. Só o meu Grande Amigo Joaquim, malogradamente, já depois de casado, teve uma morte prematura, derivado a um acidente.

Para terem a noção da casinha de que vos falo, depois deles saírem de lá, foi a Delegação na Vila da Agência do Banco Totta e Açores da Estefânia. Um espaço minúsculo, como muitos se hão-de lembrar. Foi para a época uma jogada de alguém com muita visão comercial, no que ao negócio bancário diz respeito, porque quem quisesse fazer depósitos tinha que ir à Estefânia, e a Vila tinha muito negócio, e o Totta foi apanhar muitos deles. Mas, fui falar da casinha pequena onde moravam os meus amigos, porque se situava, é bom de ver, num plano superior ao forno, e este cozia de noite, e muitas horas depois ainda se sentia o calor do mesmo nos andares superiores do prédio, o que era o caso vertente. Uma espécie de aquecimento central de borla.

A loja onde se comercializava o pão do Loureiro, era onde ainda hoje se pode ver (não sei se funciona ainda), a melhor lanchonete de Sintra, pela localização e pelos bons produtos que vendia. Virada para o Largo da Vila, na descida para a Camélia, era a segunda casa do lado direito.

Tinha uma grande montra, e por alturas do Baile das Camélias, era toda ornamentada com umas colchas, com camélias pregadas às mesmas, e uma grande jarra que havia na Sociedade, de louça chinesa, com ramos de cameleira com flor, aí se publicitava o Baile com as celebérrimas cartolinas, e com as fotografias que os artistas nos facultavam, para a divulgação da festa.

O Sr. António Loureiro era pau para toda a obra, ele estava no forno na produção, ia descansar um bocado, e lá estava ele no balcão, a vender o pão. Era um homenzarrão, muito calmo, passo lento, mas com mais de 1,80m, e teria perto dos 100kg ou mais, parece que o estou a ver com uns enormes sapatos pretos, muito fartos de andar no fadário da padaria.

As padarias fabricavam essencialmente pão, depois aos poucos foram aparecendo outros produtos na área do pão doce, como as célebres arrufadas, que eram uma maravilha, enormes, fofinhas, e com açúcar no topo. Quando por qualquer motivo ele não podia estar no estabelecimento, lá ia a sua esposa, ou os filhos, a Gracinha ou o Toninho. Este foi sempre bem dotado fisicamente, e com seis anos, o seu pai, pelo Natal, em vez de lhe oferecer um brinquedo, ofereceu-lhe um cesto de vime, mais pequeno que os da distribuição porta a porta, e deu ao Toninho, para este fazer a sua rota de distribuição, que incluía (vejam só), a Quinta da Cabeça, que fica a uns bons quilómetros da Vila, e ainda distribuía por diversos clientes até lá. A Gracinha era mais poupada aos trabalhos, mas tinha que alinhar no balcão, isso era fatal como o destino.

Tenho grandes aventuras com o Toninho, o pai dele “além de explorador do trabalho infantil”, não remunerava esse trabalho, mas o Toninho não se perdia, de vez em quando lá ia uma “estalada” na gaveta do dinheiro,(sempre só nos trocos, claro), mas aquilo dava para irmos para a FRESCA, do Fernando Luz Costa, jogar aos bonecos tardes inteiras de Domingo, depois de ver a televisão no canal único e onde passava a programação juvenil, que tanto apreciávamos. Outras vezes, e se era verão, íamos ao Valadas, ou ao Manuel Raio, alugar uma bicicleta, uma tarde inteira 7$50 cada bicicleta, nem sempre a “estalada”, dava para essa folia, aí virávamo-nos para os bonecos...


Outra padaria, a segunda de maior em dimensão, era a Padaria Tavares, com um grande forno, e esta sim, com uma grande chaminé, já que tinha da parte de trás do prédio onde colocar essa dita chaminé.

Esta padaria, estava também muito bem situada, os seus padeiros, eram também gente muito popular na Vila, e de uma simpatia muito grande. O Sr. António, pai da minha boa amiga Raimunda, mais conhecido pelo Paga Bem, era um homem respeitado e respeitador. Outro padeiro era o Carlos, que tinha a alcunha do “Escalhabardo”, era muito espalhafatoso a falar.

Na  Vila do meu tempo, a Velhada não deixava ninguém sem título: tinha característica, levava o rótulo. Este senhor Carlos era o nosso agente de viagens naquele tempo, estava sempre a organizar passeios, a que aquelas famílias aderiam em peso, tantas excursões a que fui com os meus pais, organizadas pelo Carlos Escalhabardo.

Aquilo era como se fosse uma só família, naqueles tempos, levava-se o farnel e acampava-se em qualquer pinhal onde desse jeito, não havia cá mariquices, nem dinheiro para ir a restaurantes almoçar ou jantar, nem isso tinha graça, e tirava o pitoresco da coisa, já que se comia e bebia de um e de outro, (os velhos mais a beber, porque às tantas era cada “cega”...)

Neste Turismo do garrafão, sim porque era disso que se tratava, lembro-me do meu tio Zé Marques, que Deus lá terá em bom lugar, iniciava sempre as hostes com um garrafão pequeno daqueles de dois litros, logo de manhã a “matar a sede ao pessoal”, corria todos homens e mulheres, claro que só o pessoal do copo lhe dava saída, mas o típico da coisa é que ele obrigava a beber por um corno que ele tinha, resultado de uma aparadela de um corno de boi, e, apanhava a parte fechada e a parte mais larga, dava para aí um copo de três, mais coisa menos coisa. Depois, vinha outro com uma caixinha com pasteis de bacalhau para empurrar, pronto, lá começava a estragação, muitas vezes ao meio dia já havia umas boas carraspanas, e se haviam visitas, e horas marcadas para estar nos autocarros, esse pessoal andava sempre atrasado.

Se o circuito o permitia lá ia a saloiada toda direita ao aeroporto da Portela, muito rudimentar como podem calcular, estamos a falar dos anos cinquenta do século passado, parava-se para ir ver os aviões grandes, descolar e aterrar. Sim aviões grandes, porque pequenos tínhamos nós cá, e com fartura, já que a BA1 na Granja do Marquês tinha certamente o maior fluxo de tráfego aéreo militar do país.

Nestas visitas ao aeroporto, duas histórias verídicas, com gente de Sintra, uma num passeio do Escalhabardo, e outra não.

Partíamos cedo, algumas vezes ainda de noite, e chegava-se ao Aeroporto ainda o dia não tinha clareado, daí os autocarros da Carris andarem ainda de luzes acesas, passando  um autocarro de dois andares que tinha ido fazer serviço para aquelas bandas, vai uma senhora do nosso grupo para afilha:

 - Olha, olha, ó filha não vês ali aquele café a andar? Risada geral!…

Uma família de sintrenses foi ao aeroporto, ou na missão de mirones como nós, ou porque iam embarcar ou esperar alguém. A matriarca, que raramente saía da sua aldeia, toda espevitada, tomou a dianteira do grupo, e dirigiu-se para a porta. Assim que pôs os pés na zona da porta automática, esta de imediato se abriu, entretanto a família ficou a conversar e atrasou-se, ela voltou atrás, e lá ia ela de novo, a porta voltava a abrir, até que quatro ou cinco vezes depois deste trabalho, danada, foi ter com os familiares, e disse-lhes: 

- Oh criaturas, vamos embora, porque as pessoas coitadas estão fartas de abrir e fechar a porta e vocês nunca mais vêm.

O Sr. Tavares, tinha uma filha, que lhe deu um neto, o Cali Calé, diminutivo de Carlos, de que também muitas vezes sou apelidado, mas o neto do Tavares tinha um carro de pedais de ferro e folha, era um miúdo uns anos mais novo que eu, mas aí com uns cinco anos era exímio condutor do carrinho de pedais. Havia a esplanada da sede do Hóckey Clube de Sintra, nessa altura era mesmo do Clube, mas dada à exploração do Fernando Luz Costa. Tinha muitas mesas e cadeiras em ferro, iguais às do Café Paris de então, mas pintadas a azul, como o Sintra, embora um pouco mais claro. O Cali Calé fazia verdadeiras gincanas no meio daquilo tudo, fazia peões, e servia de entretimento aos basbaques, que sem nada para fazer se punham a ver as habilidades do pequeno.

A padaria do Tavares, era a que estava ali mais à mão de semear, quando vínhamos de madrugada dos bailes da Sociedade, batia-se à porta e vinha sempre alguém. Tinha a vantagem de o António Paga Bem ser nosso amigo, bem como o Carlos Escalhabardo, perguntávamos se já havia pão, e muitas vezes, as raparigas e os rapazes, ou compravam ou eles davam, um casqueiro quente, e, alguém ia a casa buscar manteiga, para comer pão quente com manteiga.

Outras vezes comprava-se e levava-se para casa para acompanhar com café com leite, assim a modos que um pré-pequeno almoço.

Outra padaria era a do Senhor Jacinto Penaforte, que se situava nas Escadinhas do Teixeira, logo na primeira porta à direita, tinha estabelecimento e forno também, tal como as outras.

Talvez fosse a mais pequena, mas deu para governar várias famílias do seu produto, era daí que o Caínhas Velho gastava, talvez por fidelidade ao seu amigo Jacinto Penaforte, um sintrense como ele.

Os seus padeiros, além do Senhor Jacinto Penaforte, eram os seus sobrinhos Eduardo e José Penaforte. Este tinha a alcunha do Zé Careca (nunca soube porquê, porque o homem tinha cabelo), pai do meu bom amigo Eduardo Penaforte. Tanto o Sr. Jacinto Penaforte como o seu sobrinho Zé foram filarmónicos, qualquer deles tocava clarinete, com uma diferença, o Sr. Jacinto era um bom músico amador, tinha a alcunha dos velhos do seu tempo de “O Palestrino”, algo que tinha a ver com a música penso eu, ainda toquei com ele, e era um bom primeiro clarinete. O seu sobrinho Zé Penaforte deveria ser o homem que melhor sabia solfejar, tinha muitos saberes da teoria da música, mas tocar, parecia um cão a roer ferro, era mais vento que notas boas. Mas muito meritório, estes homens eram padeiros e sacrificavam o seu descanso para ir ao ensaio, nunca faltavam. O Senhor Jacinto vinha a pé da Estefânia, morava atrás da Estação, para vir aos ensaios, nunca faltava, até a saúde lhe faltar e ele já não poder mais.

Gente do melhor, e que deixou saudades a quem com eles privou.

Ainda sou do tempo do Senhor Raimundo, fundador da padaria, e que era tio do Sr. Jacinto Penaforte, morava lá para a Ribeira de Sintra.

Tinham outro padeiro, também de nome Jacinto, homem que arribou para aí, morava lá para o Arrassário, tinha uma senhora toda jeitosa, que era um saco de pancada, pois o malvado era desses “heróis” (hoje diz-se violência doméstica), naquele tempo era mais terra a terra, e dizia-se que o Jacinto dava porrada na mulher, e bêbado ainda pior! E dava mesmo, porque de vez em quando lá andava a desgraçada com um olho à belenenses.

O meu tio Augusto, era um homem a quem a natureza nada favoreceu, tinha um atraso de nascença, sem ser imbecil, porém, era um alcoólico, era difícil tê-lo ocupado para se desviar do vinho, mas tinha um compromisso com a padaria do Penaforte, e levantava-se todos dias de madrugada, para ir fazer uma venda de pão, logo de manhã muito cedo. Esse tal Jacinto homem de mau carácter, sabedor das fraquezas do meu tio no que ao vinho dizia respeito, logo de madrugada oferecia-lhe vinho com sal, o meu tio muitas das vezes ainda trazia a bezana da véspera, e aquilo marchava tudo.

O meu tio morava connosco, na casa do meu pai, que era a antiga casa dos meus avós paternos, o meu pai era como se fosse o seu tutor, e tinha a responsabilidade de o ter debaixo de olho, e foi até morrer quem se interessou por ele. Um dia, foram-lhe fazer queixa, e o Jacinto ficou debaixo de olho do Caínhas Velho. 

O tempo foi passando, até que num domingo, estavam todos no Largo da Vila, não se trabalhava, as tascas abarrotavam com o pessoal do copo e as esplanadas do Paris, do Central e do Hóckey estavam cheias, (o turismo, não sendo como era antes da pandemia, já era muito). Normalmente aos domingos o  meu pai  ia sempre para a oficina trabalhar, menos que o normal, mas tinha que ir, porque não frequentava tabernas, e estar ali na Vila de braços caídos sem fazer nada,  ficava com as mãos inchadas, e não gostava de desperdiçar o tempo desse modo. 

Estava ele na oficina, alguém lhe veio dizer que esse tal Jacinto estava a por o meu tio Augusto “a dar sessão”, como se dizia naquele tempo.  O meu tio, já com os copos, era asneira por tudo o que era lado, e estava a ser uma vergonha, ver aquele infeliz a dar espetáculo. Ok, obrigado eu já lá vou. 

O Jacinto tinha a reputação de rufia, costumava puxar por facas, e já tinha marcado uns quantos. Isso para o meu velho eram trocados, está ainda aí felizmente o meu bom amigo António Luís Miranda que assistiu a isso, o meu pai chegou perto do Jacinto, puxou-lhe pela gola do casaco e ferrou-lhe uma cabeçada que o enrolou no chão, desmaiado. Pegou no Augusto, e toca a andar à minha frente já para casa. O meu tio não obedecia a ninguém, mas com o Mestre Carlos, como ele e muitos lhe chamavam, nem ai, nem ui. A minha mãe ficou numa ralação, com medo que o Jacinto fizesse uma espera ao meu pai, e lhe desse alguma facada. Da oficina do meu pai à padaria do Penaforte eram para aí uns 20 passos, nunca mais houve vinho com sal, nem faltas de respeito, foi remédio santo.

Veio a União das Padarias de Sintra, e “fundiu” as padarias todas!… Acabou-se.

E aqui ficam as histórias das boas padarias da VILA VELHA do meu tempo, misturadas com outras histórias que se passaram com gente dessas padarias.

Sintra, 20 de Julho de 2020.

Carlos José Paulo dos Santos