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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Um poema de Gonçalo Moleiro

GONÇALO MOLEIRO









O comboio aproxima-se de Lisboa
Transportando apenas o meu corpo.
Os sonhos vão saindo a cada estação
Agarrando-se às casas, aos jardins 
e a cada vida que enriquece a cidade.
Já não sei de mim ao chegar
Nem sei se soube quando parti.
Da janela vejo o homem que trata a horta
Um pedaço de terra entre prédios disformes
E admiro a sinceridade na criação do espaço
E o carinho com que a enxada afasta a terra.
Aqui, perto do destino, nenhum deles dá sinais de existir.
Apenas o meu corpo
Devidamente decorado, como mandam os dias de hoje,
Longe da alma que viajou até outro lugar.

quarta-feira, 5 de março de 2014

8.25- Um texto de Gonçalo Moleiro

GONÇALO MOLEIRO

 08:25. 

O comboio parte e Sintra fica, aos poucos, para trás. O verde dá lugar ao cinzento que caracteriza o território urbanizado. Depois de algum tempo sem viver este percurso, tudo parece novo.

Os estendais enchem de cor os edifícios, conferindo-lhes uma nova pele que o vento manobra conforme a sua vontade. É ao seu toque que as roupas dançam, entrelaçando-se e acrescentando confusão às fachadas gastas pelo tempo. A nova paleta de cores funde-se, assim, às varandas, às manchas esverdeadas de humidade e às marquises claramente descontextualizadas.

Começa a chover. As pessoas debruçam-se à janela na tentativa de salvar a roupa de uma nova carga de água. Também dentro do comboio, apesar de salvos da tempestade, os passageiros demonstram o seu desconforto, pedindo a todos os santos para que termine mal o corpo passe a porta da carruagem rumo ao exterior. A rua enfeita-se de chapéus de várias cores e padrões que se movem à velocidade dos passos, transformando-a num palco onde o movimento se acentua. 

Os pés escorregam na irregular calçada portuguesa mas, no comboio, contactam de modo forçado e desconfortável com as pernas e as mochilas de quem se senta nos bancos mais próximos. Fala-se de tudo, apesar de identificarmos conversas que, preferencialmente, deveriam apanhar outro comboio. Fala-se da chuva e dos males do corpo, do trabalho e dos males que caminham de mãos dadas com a nossa raça. Fala-se do mundo através de ideias oferecidas pelo horário nobre dos nossos nobres canais de televisão. 

Os muros coloridos por grafittis sucedem-se, dinamizando o rápido percurso. Consigo identificar novos desenhos. De cotovelo pousado no parapeito da janela tento ler, muitas vezes sem sucesso, as mensagens deixadas por quem as pintou. A terra e o musgo deixados pelo inverno rigoroso dificultam a minha tarefa, mostrando que a natureza tem também uma palavra a dizer. 

Ouve-se "com lincença" e sentem-se gestos bruscos em cada paragem, provas da confusão característica das entradas e saídas. As rotinas são as mesmas. A cidade que assiste à vida e é palco dela encontra-se, no entanto, em constante mutação.
 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Gonçalo Moleiro, poeta do casario

FERNANDO MORAIS GOMES

Gonçalo Moleiro, arquitecto, artista plástico e também contribuidor do Sintra Deambulada tem presentemente uma exposição de trabalhos seus no Teatro Taborda, à Costa do Castelo. Possuidor dum traço firme e apaixonado, nele se detectam visões deliciosas de Lisboa e Sintra desconstruídas, a Cidade a pedir renascimento, tudo baralhando para tudo de novo renascer, poeticamente desordenado, e contudo, identificável e com tal registo confiável.
Sem pretensões, ali podemos descansar a vista na Cidade em Construção, reconhecível e apetecível, convidando a entrar e deleitar. Um conjunto notável de trabalhos que auspiciam outros futuros que aguardaremos com ansiedade. No casario.



sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Exposição no Teatro da Garagem

GONÇALO MOLEIRO

 
Dia 9 de Novembro inaugurou, no Teatro da Garagem, a minha exposição de desenho RETRATOS DA NÃO-CIDADE.
As paisagens apresentadas constituem, aqui, a materialização do imaginário construído com base numa realidade onde Lisboa e Sintra assumem enorme importância.
Viajamos por diferentes escalas. O percurso propõe que a cidade, observada de diferentes perspectivas, se vá transformando em edifícios, ruas e interiores até incidir sobre a vida de quem a habita.
Entre as obras, uma janela aberta para Lisboa.
A inauguração trouxe muitos espectadores e, essencialmente, muitos olhares sobre os desenhos. Espero poder contar com o vosso.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Biblioteca com Vida

GONÇALO MOLEIRO

Olhar a paisagem permite-nos desvendar a história. A arquitectura constrói camadas que são marcas de uma época, relacionando-se com as pré-existências e esperando pelo que de novo nascerá. A Biblioteca de Sintra, desenhada pelo arquitecto Alexandre Marques Pereira, apresenta-se como uma marca do nosso tempo que se liga ao passado e lança directrizes para o futuro, envolvendo-se com o que a rodeia e sendo igualmente abraçada pela ambiência característica da nossa Vila. Contém história e conta histórias, constituindo uma obra de inegável qualidade arquitectónica e destacando-se ainda pela forte vertente humana. Utilizando a antiga Casa Mantero como ponto de partida é criado um novo edifício que define a Rua Gomes de Amorim e se estende para trás, ligando-se ao denso verde. Tal como no interior, também o espaço exterior nos apresenta uma enorme diversidade de espaços, naturalmente de cariz distinto, destinados a diversos usos. Assim, mais que um lugar de estudo, a Biblioteca de Sintra é essencialmente um lugar de encontro. É deste modo que é guardado na memória de quem aqui vive. É um lugar dotado de alma, cumprindo o propósito essencial da arquitectura como arte de cariz humano: constituir o palco da vida, oferecendo espaços com significado que permitam ao Homem sentir-se em casa, identificando-se[i]


[i] “Quando o ambiente criado pelo homem tem significado, o homem sente-se em casa” (NORBERG-SCHULZ, Christian (1979) – Genius Loci : Towards a phenomenology of architecture. New York : Rizzoli., p. 50) 
  

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Caos, por Gonçalo Moleiro

GONÇALO MOLEIRO

Da minha janela, distante da realidade das cidades, vejo copas de árvores.Não sei nem pretendo conhecer o número exacto. Interessam-me as tonalidades, semelhantes às de um godé onde diversos tons de castanho, verde e amarelo dançam com a água trazida no pincel. A construção é quase inexistente. Destaca-se o Palácio da Pena que, apesar da sua posição,parece nascer das rochas que se erguem no topo da Serra. Faz parte dela, dialogando com a natureza com a intimidade de quem se conhece há séculos. O mesmo não acontece com o edificado que observo da janela do comboio. A rapidez da construção e a especulação imobiliária sobrepuseram-se à sensibilidade e ao planeamento. Cores, materiais e alturas diferem, originando um enorme caos que se reflecte na vida de quem habita o espaço.
Os blocos de betão revelam-se incapazes de comunicar com o que os rodeia, com a cidade e, consequentemente, com o Homem. O espaço entre prédios, ou a ausência dele, permite a existência de pouco mais que vias, valorizando o carro em detrimento do peão. O espaço público é quase inexistente. As árvores vivem solitárias em vasos esculpidos na calçada que se deforma pela presença de raízes. A sombra das copas mistura-se, aqui, com a dos prédios disformes, criando corredores escuros que nos obrigam a acelerar o passo numa clara manifestação de desconforto. Hoje conhecemos estes problemas e tentamos resolvê-los. Por vezes o espaço ganha, assim como quem o vive. Mas, em muitos casos, existe pouca margem de manobra. No livro "Saber Ver a Arquitectura" Bruno Zevi referiu que "[…] Qualquer um pode desligar o rádio e abandonar os concertos, não gostar de cinema e de teatro e não ler um livro, mas ninguém pode fechar os olhos diante das construções que constituem o palco da vida citadina e trazem a marca do homem no campo e na paisagem." É interessante desenhar o caos, vivê-lo, nem tanto. O urbanismo e a arquitectura têm outras responsabilidades, participando activamente na vida das pessoas que não os podem evitar. Vejo-o da janela do comboio.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Voo-artigo de Gonçalo Moleiro



GONÇALO MOLEIRO 
Imaginar a cidade vista de cima é voar. Desenhá-la é materializar o imaginário, desvendando os segredos de cada espaço que, simultaneamente, sobrevoo e construo no íntimo. Sobrevoar a cidade e desenhá-la é afastar-me do que me é familiar, fazendo desaparecer paredes, portas e janelas e trabalhando apenas com texturas que mancham telhados e pavimentos. A aproximação ao abstracto é evidente. As vias são artérias fortemente hierarquizadas que, bombeando veículos e pessoas, assumem um carácter vital no funcionamento da cidade e na composição criada. São elas os elementos transversais às diversas partes do desenho, estabelecendo ligações entre os inúmeros edifícios que nascem de um solo demasiado fértil. Há pouco espaço vazio. O betão sobrepõe-se à natureza nesta cidade imaginária e na folha em que a construo. O protagonismo de construções antigas é apagado por novas, autistas e cegas em relação ao que as envolve. O espaço público desaparece para que se levantem mais edifícios. Imagino, sem as desenhar, as pessoas encerradas em caixas a que, revelando simpatia, damos o nome de casas. A rua, estreita, não mais lhes pertence. Vista de cima é, aliás, praticamente inexistente.
Sintra está presente nesta composição. Não só a Vila mas toda a linha que, ao longo de uma enorme artéria, nos liga à capital. Tal como se verificou neste e em tantos outros territórios, a cor branca da folha deixou de existir aos poucos. O desenho reúne várias cidades numa só. O caos materializa-se em linhas e manchas que, uma vez mais, reflectem sentimentos e acontecimentos relativos à cidade e traduzem, caricaturando, o que nela existe de bom e de mau, num exercício simultâneo de elogio e crítica aos nossos tempos.




segunda-feira, 3 de junho de 2013

"Atenção senhores passageiros!"- por Gonçalo Moleiro

GONÇALO MOLEIRO


"Atenção senhores passageiros!”

Entrei no comboio. A porta fechou-se pouco depois, acompanhada de um estrondo. Descansei alguns segundos da corrida que me levou do metro ao comboio em tempo record e sentei-me apenas quando este já estava em andamento. A janela apresentou-me, mais uma vez, a cidade como um organismo vivo, revelando segredos que até então desconhecia.

Parece-me curioso constatar que é possível encontrar encanto na paisagem caótica que se agarra à linha de comboio que une Sintra e Rossio e que, como possível agravante, vejo quase diariamente há alguns anos. A velocidade a que o corpo é transportado permite apenas um olhar breve sobre aquilo que desperta a atenção de cada um. O resto cabe à imaginação, veículo de velocidade distinta. Viajo à volta dos pormenores que registo rapidamente no caderno e construo a minha própria cidade.

Um choque inesperado forçou a caneta deslizar no papel de modo aleatório. O braço do senhor do lado escorregou e, roubando apoio à cabeça, fê-lo acordar com um movimento inexpectável de um sono que me parecia profundo. Arrumei o caderno, terminando a viagem pelo imaginário. A de comboio, pelo contrário, ainda me reservava alguns minutos.



Gonçalo Moleiro

29.05.2013

Gonçalo Moleiro é arquitecto e oriundo de Sintra.A paixão pelo desenho justificou a sua primeira exposição de nome “Lugares de Sintra” que decorreu em Novembro de 2011 no café “Cantinho da Várzea". Em Setembro de 2012  foi premiado no Internacional Watercolor Contest da Sennelier e, em Outubro de 2012, participou numa exposição colectiva na Adega Viúva Gomes, em Almoçageme. Em Novembro de 2012 publica o seu trabalho no Facebook, onde se podem encontrar aguarelas, esquissos e algumas experiências gráficas.Gonçalo Moleiro convida-nos ao seu quotidiano através da sua página com os registos no seu diário gráfico, as suas fantasias gráficas,  excertos de banda desenhada, e não só, há também acesso aos locais onde costuma desenhar sob suporte fotográfico. Gonçalo não é só um aguarelista,  explora igualmente outras técnicas, conforme o trabalho que tenta criar e a situação com que se depara.
“Dar a cada emoção uma personalidade, a cada estado de alma uma alma.” de Fernando Pessoa em “O Livro do Desassossego”, foi a frase que escolheu para justificação da sua página