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quarta-feira, 22 de julho de 2020

As padarias da Vila Velha



CAÍNHAS


Na Vila Velha, felizmente nada faltava, tanto no comércio como na indústria, e até com casas a fazer concorrência, duas três e quatro vezes. Era o caso da Panificação, todas as Padarias coziam e comercializavam o seu pão, e eram três.

A que talvez fosse a maior, tanto na dimensão de área, centralização, distribuição, e na venda ao balcão, seria a do António Loureiro, pai do meu amigo de infância, António de Almeida Marques Loureiro, cujo forno tinha a porta de entrada virada para o Largo da Vila, e ficava à direita de quem sobe a Rua das Padarias, hoje, salvo erro, é uma casa de bonecos, quando deixou de ser o forno, passou a ser algo entre o restaurante e a tasca fina, que se chamava A TIBORNA.

Era impressionante ver chegar aquelas camionetas de carga grandes, cheias de molhos de lenha de pinho, que alimentavam aqueles enormes fornos, feitos de tijolo refratário, só me recordo de o forno da padaria Tavares ter uma enorme chaminé. Dos outros já não me lembro bem, mas parece-me que os fornos não tinham exaustão de fumos, porque a lenha era só para aquecer o forno e as brasas mantinham-no aceso e quente. Como as casas do forno tinham arejamento, quando estava muito calor abria-se a porta, para entrar o fresco.

Com o fim dos fornos de lenha perdeu-se uma maneira natural de limpeza dos pinhais, porque só na Vila grandes fornos a cozer a lenha de pinho, eram quatro, três padarias, e ainda o da Piriquita, que gastava quase tanto como os padeiros.

Naquele prédio ninguém passava frio. Os sobrinhos do Sr. António Loureiro, o Manuel, o Joaquim, que tinha uma bicicleta e ma emprestava para eu vir namorar a minha mulher, e o António, que também trabalhavam para o tio, moravam numa casinha pequenina com a mãe, que enviuvara ainda nova, tendo ficado com aqueles filhos e uma menina, que apesar da desdita, foram a sua salvação, trabalhavam que nem mouros, todos se fizeram à vida, dois ligados à panificação, e outro não, mas todos singraram, e se fizeram homens. Só o meu Grande Amigo Joaquim, malogradamente, já depois de casado, teve uma morte prematura, derivado a um acidente.

Para terem a noção da casinha de que vos falo, depois deles saírem de lá, foi a Delegação na Vila da Agência do Banco Totta e Açores da Estefânia. Um espaço minúsculo, como muitos se hão-de lembrar. Foi para a época uma jogada de alguém com muita visão comercial, no que ao negócio bancário diz respeito, porque quem quisesse fazer depósitos tinha que ir à Estefânia, e a Vila tinha muito negócio, e o Totta foi apanhar muitos deles. Mas, fui falar da casinha pequena onde moravam os meus amigos, porque se situava, é bom de ver, num plano superior ao forno, e este cozia de noite, e muitas horas depois ainda se sentia o calor do mesmo nos andares superiores do prédio, o que era o caso vertente. Uma espécie de aquecimento central de borla.

A loja onde se comercializava o pão do Loureiro, era onde ainda hoje se pode ver (não sei se funciona ainda), a melhor lanchonete de Sintra, pela localização e pelos bons produtos que vendia. Virada para o Largo da Vila, na descida para a Camélia, era a segunda casa do lado direito.

Tinha uma grande montra, e por alturas do Baile das Camélias, era toda ornamentada com umas colchas, com camélias pregadas às mesmas, e uma grande jarra que havia na Sociedade, de louça chinesa, com ramos de cameleira com flor, aí se publicitava o Baile com as celebérrimas cartolinas, e com as fotografias que os artistas nos facultavam, para a divulgação da festa.

O Sr. António Loureiro era pau para toda a obra, ele estava no forno na produção, ia descansar um bocado, e lá estava ele no balcão, a vender o pão. Era um homenzarrão, muito calmo, passo lento, mas com mais de 1,80m, e teria perto dos 100kg ou mais, parece que o estou a ver com uns enormes sapatos pretos, muito fartos de andar no fadário da padaria.

As padarias fabricavam essencialmente pão, depois aos poucos foram aparecendo outros produtos na área do pão doce, como as célebres arrufadas, que eram uma maravilha, enormes, fofinhas, e com açúcar no topo. Quando por qualquer motivo ele não podia estar no estabelecimento, lá ia a sua esposa, ou os filhos, a Gracinha ou o Toninho. Este foi sempre bem dotado fisicamente, e com seis anos, o seu pai, pelo Natal, em vez de lhe oferecer um brinquedo, ofereceu-lhe um cesto de vime, mais pequeno que os da distribuição porta a porta, e deu ao Toninho, para este fazer a sua rota de distribuição, que incluía (vejam só), a Quinta da Cabeça, que fica a uns bons quilómetros da Vila, e ainda distribuía por diversos clientes até lá. A Gracinha era mais poupada aos trabalhos, mas tinha que alinhar no balcão, isso era fatal como o destino.

Tenho grandes aventuras com o Toninho, o pai dele “além de explorador do trabalho infantil”, não remunerava esse trabalho, mas o Toninho não se perdia, de vez em quando lá ia uma “estalada” na gaveta do dinheiro,(sempre só nos trocos, claro), mas aquilo dava para irmos para a FRESCA, do Fernando Luz Costa, jogar aos bonecos tardes inteiras de Domingo, depois de ver a televisão no canal único e onde passava a programação juvenil, que tanto apreciávamos. Outras vezes, e se era verão, íamos ao Valadas, ou ao Manuel Raio, alugar uma bicicleta, uma tarde inteira 7$50 cada bicicleta, nem sempre a “estalada”, dava para essa folia, aí virávamo-nos para os bonecos...


Outra padaria, a segunda de maior em dimensão, era a Padaria Tavares, com um grande forno, e esta sim, com uma grande chaminé, já que tinha da parte de trás do prédio onde colocar essa dita chaminé.

Esta padaria, estava também muito bem situada, os seus padeiros, eram também gente muito popular na Vila, e de uma simpatia muito grande. O Sr. António, pai da minha boa amiga Raimunda, mais conhecido pelo Paga Bem, era um homem respeitado e respeitador. Outro padeiro era o Carlos, que tinha a alcunha do “Escalhabardo”, era muito espalhafatoso a falar.

Na  Vila do meu tempo, a Velhada não deixava ninguém sem título: tinha característica, levava o rótulo. Este senhor Carlos era o nosso agente de viagens naquele tempo, estava sempre a organizar passeios, a que aquelas famílias aderiam em peso, tantas excursões a que fui com os meus pais, organizadas pelo Carlos Escalhabardo.

Aquilo era como se fosse uma só família, naqueles tempos, levava-se o farnel e acampava-se em qualquer pinhal onde desse jeito, não havia cá mariquices, nem dinheiro para ir a restaurantes almoçar ou jantar, nem isso tinha graça, e tirava o pitoresco da coisa, já que se comia e bebia de um e de outro, (os velhos mais a beber, porque às tantas era cada “cega”...)

Neste Turismo do garrafão, sim porque era disso que se tratava, lembro-me do meu tio Zé Marques, que Deus lá terá em bom lugar, iniciava sempre as hostes com um garrafão pequeno daqueles de dois litros, logo de manhã a “matar a sede ao pessoal”, corria todos homens e mulheres, claro que só o pessoal do copo lhe dava saída, mas o típico da coisa é que ele obrigava a beber por um corno que ele tinha, resultado de uma aparadela de um corno de boi, e, apanhava a parte fechada e a parte mais larga, dava para aí um copo de três, mais coisa menos coisa. Depois, vinha outro com uma caixinha com pasteis de bacalhau para empurrar, pronto, lá começava a estragação, muitas vezes ao meio dia já havia umas boas carraspanas, e se haviam visitas, e horas marcadas para estar nos autocarros, esse pessoal andava sempre atrasado.

Se o circuito o permitia lá ia a saloiada toda direita ao aeroporto da Portela, muito rudimentar como podem calcular, estamos a falar dos anos cinquenta do século passado, parava-se para ir ver os aviões grandes, descolar e aterrar. Sim aviões grandes, porque pequenos tínhamos nós cá, e com fartura, já que a BA1 na Granja do Marquês tinha certamente o maior fluxo de tráfego aéreo militar do país.

Nestas visitas ao aeroporto, duas histórias verídicas, com gente de Sintra, uma num passeio do Escalhabardo, e outra não.

Partíamos cedo, algumas vezes ainda de noite, e chegava-se ao Aeroporto ainda o dia não tinha clareado, daí os autocarros da Carris andarem ainda de luzes acesas, passando  um autocarro de dois andares que tinha ido fazer serviço para aquelas bandas, vai uma senhora do nosso grupo para afilha:

 - Olha, olha, ó filha não vês ali aquele café a andar? Risada geral!…

Uma família de sintrenses foi ao aeroporto, ou na missão de mirones como nós, ou porque iam embarcar ou esperar alguém. A matriarca, que raramente saía da sua aldeia, toda espevitada, tomou a dianteira do grupo, e dirigiu-se para a porta. Assim que pôs os pés na zona da porta automática, esta de imediato se abriu, entretanto a família ficou a conversar e atrasou-se, ela voltou atrás, e lá ia ela de novo, a porta voltava a abrir, até que quatro ou cinco vezes depois deste trabalho, danada, foi ter com os familiares, e disse-lhes: 

- Oh criaturas, vamos embora, porque as pessoas coitadas estão fartas de abrir e fechar a porta e vocês nunca mais vêm.

O Sr. Tavares, tinha uma filha, que lhe deu um neto, o Cali Calé, diminutivo de Carlos, de que também muitas vezes sou apelidado, mas o neto do Tavares tinha um carro de pedais de ferro e folha, era um miúdo uns anos mais novo que eu, mas aí com uns cinco anos era exímio condutor do carrinho de pedais. Havia a esplanada da sede do Hóckey Clube de Sintra, nessa altura era mesmo do Clube, mas dada à exploração do Fernando Luz Costa. Tinha muitas mesas e cadeiras em ferro, iguais às do Café Paris de então, mas pintadas a azul, como o Sintra, embora um pouco mais claro. O Cali Calé fazia verdadeiras gincanas no meio daquilo tudo, fazia peões, e servia de entretimento aos basbaques, que sem nada para fazer se punham a ver as habilidades do pequeno.

A padaria do Tavares, era a que estava ali mais à mão de semear, quando vínhamos de madrugada dos bailes da Sociedade, batia-se à porta e vinha sempre alguém. Tinha a vantagem de o António Paga Bem ser nosso amigo, bem como o Carlos Escalhabardo, perguntávamos se já havia pão, e muitas vezes, as raparigas e os rapazes, ou compravam ou eles davam, um casqueiro quente, e, alguém ia a casa buscar manteiga, para comer pão quente com manteiga.

Outras vezes comprava-se e levava-se para casa para acompanhar com café com leite, assim a modos que um pré-pequeno almoço.

Outra padaria era a do Senhor Jacinto Penaforte, que se situava nas Escadinhas do Teixeira, logo na primeira porta à direita, tinha estabelecimento e forno também, tal como as outras.

Talvez fosse a mais pequena, mas deu para governar várias famílias do seu produto, era daí que o Caínhas Velho gastava, talvez por fidelidade ao seu amigo Jacinto Penaforte, um sintrense como ele.

Os seus padeiros, além do Senhor Jacinto Penaforte, eram os seus sobrinhos Eduardo e José Penaforte. Este tinha a alcunha do Zé Careca (nunca soube porquê, porque o homem tinha cabelo), pai do meu bom amigo Eduardo Penaforte. Tanto o Sr. Jacinto Penaforte como o seu sobrinho Zé foram filarmónicos, qualquer deles tocava clarinete, com uma diferença, o Sr. Jacinto era um bom músico amador, tinha a alcunha dos velhos do seu tempo de “O Palestrino”, algo que tinha a ver com a música penso eu, ainda toquei com ele, e era um bom primeiro clarinete. O seu sobrinho Zé Penaforte deveria ser o homem que melhor sabia solfejar, tinha muitos saberes da teoria da música, mas tocar, parecia um cão a roer ferro, era mais vento que notas boas. Mas muito meritório, estes homens eram padeiros e sacrificavam o seu descanso para ir ao ensaio, nunca faltavam. O Senhor Jacinto vinha a pé da Estefânia, morava atrás da Estação, para vir aos ensaios, nunca faltava, até a saúde lhe faltar e ele já não poder mais.

Gente do melhor, e que deixou saudades a quem com eles privou.

Ainda sou do tempo do Senhor Raimundo, fundador da padaria, e que era tio do Sr. Jacinto Penaforte, morava lá para a Ribeira de Sintra.

Tinham outro padeiro, também de nome Jacinto, homem que arribou para aí, morava lá para o Arrassário, tinha uma senhora toda jeitosa, que era um saco de pancada, pois o malvado era desses “heróis” (hoje diz-se violência doméstica), naquele tempo era mais terra a terra, e dizia-se que o Jacinto dava porrada na mulher, e bêbado ainda pior! E dava mesmo, porque de vez em quando lá andava a desgraçada com um olho à belenenses.

O meu tio Augusto, era um homem a quem a natureza nada favoreceu, tinha um atraso de nascença, sem ser imbecil, porém, era um alcoólico, era difícil tê-lo ocupado para se desviar do vinho, mas tinha um compromisso com a padaria do Penaforte, e levantava-se todos dias de madrugada, para ir fazer uma venda de pão, logo de manhã muito cedo. Esse tal Jacinto homem de mau carácter, sabedor das fraquezas do meu tio no que ao vinho dizia respeito, logo de madrugada oferecia-lhe vinho com sal, o meu tio muitas das vezes ainda trazia a bezana da véspera, e aquilo marchava tudo.

O meu tio morava connosco, na casa do meu pai, que era a antiga casa dos meus avós paternos, o meu pai era como se fosse o seu tutor, e tinha a responsabilidade de o ter debaixo de olho, e foi até morrer quem se interessou por ele. Um dia, foram-lhe fazer queixa, e o Jacinto ficou debaixo de olho do Caínhas Velho. 

O tempo foi passando, até que num domingo, estavam todos no Largo da Vila, não se trabalhava, as tascas abarrotavam com o pessoal do copo e as esplanadas do Paris, do Central e do Hóckey estavam cheias, (o turismo, não sendo como era antes da pandemia, já era muito). Normalmente aos domingos o  meu pai  ia sempre para a oficina trabalhar, menos que o normal, mas tinha que ir, porque não frequentava tabernas, e estar ali na Vila de braços caídos sem fazer nada,  ficava com as mãos inchadas, e não gostava de desperdiçar o tempo desse modo. 

Estava ele na oficina, alguém lhe veio dizer que esse tal Jacinto estava a por o meu tio Augusto “a dar sessão”, como se dizia naquele tempo.  O meu tio, já com os copos, era asneira por tudo o que era lado, e estava a ser uma vergonha, ver aquele infeliz a dar espetáculo. Ok, obrigado eu já lá vou. 

O Jacinto tinha a reputação de rufia, costumava puxar por facas, e já tinha marcado uns quantos. Isso para o meu velho eram trocados, está ainda aí felizmente o meu bom amigo António Luís Miranda que assistiu a isso, o meu pai chegou perto do Jacinto, puxou-lhe pela gola do casaco e ferrou-lhe uma cabeçada que o enrolou no chão, desmaiado. Pegou no Augusto, e toca a andar à minha frente já para casa. O meu tio não obedecia a ninguém, mas com o Mestre Carlos, como ele e muitos lhe chamavam, nem ai, nem ui. A minha mãe ficou numa ralação, com medo que o Jacinto fizesse uma espera ao meu pai, e lhe desse alguma facada. Da oficina do meu pai à padaria do Penaforte eram para aí uns 20 passos, nunca mais houve vinho com sal, nem faltas de respeito, foi remédio santo.

Veio a União das Padarias de Sintra, e “fundiu” as padarias todas!… Acabou-se.

E aqui ficam as histórias das boas padarias da VILA VELHA do meu tempo, misturadas com outras histórias que se passaram com gente dessas padarias.

Sintra, 20 de Julho de 2020.

Carlos José Paulo dos Santos

segunda-feira, 20 de julho de 2020

O Rádio Rata

CAÍNHAS









Nos meus bons tempos de rapaz novo, nascido e criado na Vila Velha, fazíamos ali a nossa vida, trabalho casa, casa Café Paris, sede do Hockey, por ali, eu a determinada altura com a “febre” da música, intervalei desde os meus 16 anos até ir para Angola, era só ensaios, e atuações, e consequentemente dias inteiros na Sociedade União Sintrense a ensaiar ou nas deslocações para atuar.

Tínhamos o culto da amizade, não haviam telemóveis, redes sociais e essas coisas modernas, mas, tínhamos imaginação e divertia-mo-nos.

Passávamos horas a conversar, quantas vezes juntávamos um grupo, ou mesmo conversas a dois, e íamos para o Paço andar para trás e para a frente a falar do quotidiano, de música, desporto, do Hockey de Sintra, das miúdas, e de uma quadrilhice ou outra. Não podíamos fugir, então como conseguíamos passar o tempo.

Mas, em termos de quadrilhice, ninguém batia o RÁDIO RATA, o tal que nós dizíamos que estava sempre a funcionar, 24 sobre 24 horas! E estava!

Era uma família que morava numa casa, virada para o Largo da Vila, fosse a que horas fosse se chegasse alguém, ou houvesse movimento extraordinário, lá estavam ou ela ou ele, a remexer as cortinas para quadrilhar e ver o que se estava a passar. Nós moços irreverentes, começávamos logo a gritar, RÁDIO RATA A FUNCIONAR, a curiosidade daquela gente era tanta que não largavam a “vigilância”.

Como se estava em pleno salazarismo, havia sempre aquela dúvida, se seria vigilância pidesca, ou mesmo só curiosidade.

Se algum de nós se diferenciava por ser mais esperto, curioso, ou quadrilheiro, o apelido era ser Rato, ter muita ratice, daí o Rádio Rata, porque fazia parte da nossa terminologia.

Isto podia dar pano para mangas, mas é aborrecido pormenorizar, porque embora já tenham morrido os originais, que por isso nos merecem respeito, devem ter familiares descendentes, e não vou sujar o nome de ninguém, e não tenho memória que tenham prejudicado ninguém nestas suas “pesquisas de janela”.

O futebol em Sintra no tempo do meu pai

CAÍNHAS










Sintra, 23 de Dezembro de 1928.

Decorreu no campo dos Seteais, um desafio de futebol, num campo parte integrante da Quinta do Conde Sucena, que cedia aos clubes de Sintra o espaço fronteiro ao seu Palácio para a prática do futebol.

Na época haviam dois clubes na Vila, o Sintra Football Club, e o União Sportivo de Sintra. Da Estefânia, o Sport União Sintrense e o Sport Lisboa e Sintra, de São Pedro, a Sociedade União 1º de Dezembro. Havia ainda o Operário de Sintra, originário da Tuna Operária de Sintra, mas não sei se chegaram a jogar nos Seteais.

Naqueles tempos, os jogos tinham sempre um troféu em disputa, neste caso, num desafio entre o União Sportivo de Sintra, capitaneado por Américo Faria, e o seu maior rival o Sport União Sintrense, capitaneado por José André, considerados pelo repórter da época como os mais fortes grupos de Sintra, o troféu foi designado como “um artístico bronze”. Reza a crónica que os “Velhos Rivais”, levaram aos Seteais um grande número de ferrenhos adeptos, que durante o jogo se manifestarem “claramente”, tal o entusiasmo que estavam possuídos, (palavras do repórter), porrada de criar bicho, depreendo eu.

O jogo foi arbitrado pelo Senhor Adriano Resende, de novo convidado para arbitrar, “viu com aquela facilidade filha da competência” NR.(*)

O jogo foi de uma rijeza tal que o árbitro teve que fazer vista grossa a muita coisa, e teve que ser muito paciente, e surdo para as claques e cego para as cores em campo. NR

Começa o jogo. Não esquecer que estávamos em Sintra no dia 23 de Dezembro de 1928, pleno Inverno, diz a reportagem que, o tempo se cerrou por completo, mal os jogadores se viam uns aos outros. O Senhor árbitro queria adiar o jogo, aconselhando que não se devia continuar a jogar! Qual quê vamos a isto que é uma pressa, “não quiseram”, diz o relator.

Como a violência é inimiga da boa técnica, foi um jogo todo de peripécias, cujo epílogo representa vergonha trazer-se a lume. Mas eu trago, porque além de ainda não ser nascido, sei o epílogo.

A porrada começou dentro do campo, tendo acabado cá fora, com as duas claques, que estavam uma de cada lado da linha lateral, a invadirem o terreno de jogo. Foi uma autêntica batalha campal, em resumo, o costume nestes jogos.

Por estas e por outras, o Conde teve muita paciência, mas assim que pôde, correu de lá para fora com estes espetáculos degradantes. O repórter, muito punhos de renda, para não ofender nem gregos nem troianos, atenuou, dizendo que foi uma vergonha, enfim, o que lá vai, lá vai fazendo votos que o brio desportivo nunca abandone aqueles que prezam o seu nome e respeitam a sua colectividade. Um Senhor, este repórter.

Refere a determinada altura, o nome de CARLOS SANTOS, desportivamente, mais conhecido por “CAÍNHAS”, o melhor homem em campo, no jogo supra citado. CAÍNHAS, o meu falecido pai jogava no União Sportivo de Sintra (e também no Sintra Football Club), União Sportivo, que neste jogo levou de vencida o Sintrense por 2-1, sendo um dos golos de penalty, e o árbitro teve a coragem de anular um golo ao Sintrense. Faço ideia, aquilo era uma guerra. Se alguém dava um espirro, com estes ingredientes todos a alimentar a combustão, mesmo a chover, nada fazia apagar aquele lume.

Diz o repórter que o Sintrense não estava em Sintra. Toda a gente sabe que jogou mal. O Sintrense era regularmente o campeão destes jogos, daí o repórter dizer, às tantas, que estavam pouco habituados a perder, e que também é preciso “saber perder”. Refere ainda que a vitória do União se deve ao bom trabalho de toda a linha e ao seu melhor homem, aliás ao melhor homem em campo que foi “Caínhas” que “estava simplesmente colossal” NR É um óptimo defesa. Abusa por vezes do seu físico, lançando-se com uma violência que não é necessária” NR.  

Eu acrescento, era um poço de força, 1,80m, 80kg de peso, e uma vida de trabalho duro, e com muita natação nas presas de Monserrate, desde menino, onde iam tomar banho depois de grande parte dos jogos de futebol, a pé dos Seteais até Monserrate, e depois a pé para a Vila, não havia cá frio nem distâncias grandes, era tudo pujança, juventude, amor à camisola.

O meu pai era um homem muito respeitado na Vila, e não só, tinha amigos em todo o lado. Nunca esqueceu a rivalidade com o Sintrense, vá-se lá saber porquê, visto não ser pessoa de rancores nem de ter inimigos, talvez por ser uma rivalidade tipo Benfica /Sporting. A crónica diz também que os caseiros das quintas em redor, roubavam as bolas, que lhes iam lá parar, o que deve ter dado grande falatório, porque vem a desculpar-se e a tirar deste rol os “criados” da Quinta do Conde Sucena, que foi o grande impulsionador do futebol em Sintra, não só cedendo este espaço primitivamente, como mais tarde dando para os clubes de futebol os terrenos onde se situa hoje o património do 1º de Dezembro.

Se verificarmos as datas, isto era tudo como se fazia em Inglaterra, um autêntico Boxing Day, a terminologia do jogo era exatamente igual, os livres eram – free quick, penalty, corner, o team, os defesas eram os back’s, médios half-back, o árbitro era o refe, para simplificar o nome referee.

Na hora do fecho do jornal onde saiu esta reportagem, tinha acabado um jogo entre o Sport Lisboa e Sintra, e o União Sportivo de Sintra, ganho pelo Sport Lisboa e Sintra por 3-2. Ora este jornal saiu no dia de Natal de 1928, e o jogo que foi relatado jogou-se em 23 de Dezembro 1928, dois dias antes, tendo o União dois dias depois jogado de novo. Para amadores, é obra, um verdadeiro Boxing Day do futebol local. Dá ainda nota o Jornal que na quinta-feira, no Cine Tivoli haveria grande festa de homenagem ao Sport União Sintrense, campeão local.

Artigo escrito a partir duma notícia do jornal Sintra Regional de 25 de Dezembro de 1928, sendo redactor (NR) António Medina Júnior.


Carlos Caetano dos Santos, meu pai, terceiro da esquerda para a direita na fila de baixo
Terceiro, na fila de cima. Equipa do Sintra Foot Ball Clube em 1930
Quinto, na fila de baixo




A Torre do Relógio


CARLOS JOSÉ SANTOS (CAÍNHAS)

O relógio da Vila, tinha e tem que ter sempre alguém que lhe dê corda, essa tarefa é nada mais nada menos que mover umas enormes rodas dentadas que fazem subir e descer uns pesos de umas boas centenas de quilos.
Na Vila do meu tempo, lembro-me do Júlio Santos, e do Luís Talagão, que tiveram essa incumbência, que devia ser mal remunerada, mas os ordenados eram pequenos, tinha que se aproveitar tudo.
Este relógio tão característico, e centenário, já “viu” muita coisa.
Já serviu de desculpas a muita gente, até a um antigo guarda redes do SPORTING, quando este clube estagiava cá no Hotel Neto, e se queixava que não conseguia dormir por causa do som das badaladas do relógio da torre, nós morávamos ali nem sequer o ouvíamos.
No rés do chão, havia um sapateiro, o Clemente, que certo dia lá estava ele na sua tarefa, quando se desprende lá do alto um peso do relógio, e como por milagre, foi cair separado por milímetros do lado direito do banquinho do Clemente. O susto do Clemente foi de tal ordem que ficou gago para o resto dos seus dias.
O Clemente morava na Rua do Arco do Teixeira, e era um homem muito calado e discreto, fazia parte da convivência dos mais velhos da Vila do meu tempo, depois do trabalho era cliente certo da Casa das Bananas do Sr. Acácio Soares Faria, onde ia beber o seu copinho.
Na Vila de que vos falo, logo ao lado da Torre do Relógio, para Ocidente, os CTT, que tinham uma azáfama digna de uma Sede de Concelho, até terem passado para a Estefânia. Ainda recordo os Chefes de Estação que ali residiam com as suas famílias, os carteiros e os outros funcionários que tinham a incumbência de transportar encomendas, num carro de madeira com duas rodas e varais, daqueles que o homem tem que empurrar e puxar para o movimentar até ao destino. Os seus uniformes eram em cotim, pele de rato, estavam na linha dos das Forças Armadas, ou seja, de um mau gosto atroz.
Da Torre do Relógio para Nascente, era a mercearia do Senhor Joaquim Vitoriano, que tinha, só na Vila, a concorrência de mais quatro mercearias: a do seu irmão, José Soares, a do Tonecas, a do Fernando Luz Costa (na Praça) e a do José Antunes, um misto de lugar de legumes e mercearia. O Sr. J. Vitoriano não tinha descendência, e deixou a casa para o seu fiel colaborador José Maurício, que foi andando até poder, tendo o epílogo esperado, o fecho. Este estabelecimento comercial ficou fechado anos, até que o comerciante mais bem-sucedido desse tempo, o Sr. Catalão, tomou o espaço.
À esquina, era o talho do Sr. António Simplício. O cortador que mais tempo esteve à frente do estabelecimento (no meu tempo), era um homem do Linhó, já falecido, que se chamava Otávio. Era o típico empregado do comércio daquele tempo, muito atencioso e educado, servil até. Amigo do copo, mesmo que estivesse a enrolar o cliente, tinha sempre boa cara, foi mais uma figura típica da Vila, sem ser de lá, deixou lá muitos amigos, que ainda hoje se lembram dele.
Este edifício centenário que foi cadeia comarcã noutros tempos, nos seus baixios, que se situam para a Rua da Pendôa, tinham o armazém de bebidas do Café Paris, e à esquina, mais abaixo, eram os urinóis da vila, uma coisa horrenda, que exalava um cheiro nauseabundo. Era sua responsável a Tia Alice, que se limitava a mandar uns baldes de água, e varrer as imundícies para a rua.
Deixou aquilo para se juntar com o Zé das Bananas, dono da Adega das Caves. Era um espaço de terror, porco e exíguo, que além de servir os dois sexos ainda, serviu depois da Alice de abrigo a uma senhora viúva com a sua jovem filha, embora que por pouco tempo. Mais tarde foram feitos debaixo do Paço, os atuais sanitários, com condições mais dignas de uma terra de turismo.
Carlos José Santos

quinta-feira, 10 de março de 2016

Relatos de um Alagamarense em Cubucaré IV

GONÇALO SALVATERRA


Numa destas manhãs que passaram, os meus ouvidos registaram as vozes que escapavam da rádio de um dos vizinhos. Diziam as vozes num crioulo claramente da capital, a julgar pela facilidade com que percebi, que dois homens ligados ao estado islâmico tinham sido apanhados em território guineense.

Ficaria mais preocupado se eu parecesse europeu, mas sabem, aqui muita gente pensa que sou árabe, vejam bem que até respondo com frequência alekusalam – só não sei escrever, e o meu corrector ortográfico é demasiado ocidental para o corrigir – e mais, quando me perguntam em sosso se amanheci bem (ereki) eu respondo, bem, graças a deus (altanto). Portanto acho que não vou ter problemas, basta que para isso continue a deixar crescer a barba e a responder desta forma.

Mas para o caso de alguém da minha família ou amigos continuar preocupado, alegre-se porque onde estou dificilmente se chega, até os Toyotas do estado islâmico, oferecidos sabemos nós por quem, furariam tantos pneus que desistiriam a meio do caminho, amaldiçoando estas terras de Cabral para todo o sempre. Já estou a imaginar a praga que rogariam, por entre vozes esganiçadas de frustração ao bater a retirada. – Que nenhuma virgem pise este chão.

Existe um provérbio em sosso, a propósito de quando pisamos a cobra Tambalumbi, cujo nome científico desconheço que diz o seguinte – Ibaracaduiána folo, Ibaracaduiana taguili, ibaracaduiana dili. Ou seja se pisarmos a cabeça chegámos ao mundo, se pisarmos o meio, chegámos a meio do mundo, se pisarmos o fim, chegámos ao fim do mundo, pois ela morde e nós morremos. Bom, com isto não pretendo dizer que aqui vou morrer, mas que podemos considerar Cubucaré, especialmente o regulado de Cabedu e Cadique, como ibaracaduiadana díli, o fim do mundo.

Contrariamente ao provérbio, é precisamente no fim do mundo que não morremos vítimas da guerra, pelo menos é isso que a história de conflitos pós-coloniais da Guiné nos indica. O que quereria o estado islâmico aqui? Só se for produção de arroz deficitária.

Por outro lado, em caso de doença torna-se complicado, e é tão complicado que não ouso utilizar o meu sarcasmo nisto. Basta dizer que andei de montanha russa pela primeira vez no caminho entre Bissau e Madina de Cantanhez. Uma experiência que o meu corpo, especialmente a minha coluna jamais esquecerá.

Por isso, fiquem descansados, a não ser que o estado islâmico decida entrar pelos caminhos do trabalho de bolanha, para substituir a venda de petróleo à Turquia, pela venda de arroz, não me parece que queiram vir para aqui. Sabem, o arroz dá trabalho e o ocidente não quer saber disso para nada, já o ouro negro, esse sim, dá-lhes Toyotas.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Relatos de um Alagamarense em Cubucaré III



GONÇALO SALVATERRA
Sempre me perguntei como seria comer, aquilo que chamamos corriqueiramente de bichos. Bichos como aqueles que se comem lá no Oriente, onde a variedade alimentar é quase maior que o numero de habitantes.

Descobri aqui na Guiné que não precisamos ir para as terras de Mao experienciar esta exótica iguaria. Todos os dias engulo alguns, ora quando ando de mota ou bicicleta no sol poente, bem como no expoente, ora quando como pão e até quando como a famosa bianda (arroz) seja qual for o Mafe (acompanhamento) que acompanhe a minha refeição. Mas o pão de todas estas formas de degustação é o que mais aprecio, afinal de contas por apenas 100 francos cfa, posso comer uma baguete recheada. Faz lembrar aquele pão com passas, mergulhadas na massa.

Bom, o procedimento é o mesmo, com apenas uma excepção, não é o padeiro que decide mergulhar os insectos na massa, são eles que numa demonstração, algo admirável, de suicídio colectivo, escolhem um último banquete em glúten para depois torrar no fogo ardente do inforno.

Agora já não preciso ir à China, um dos pontos fortes da viagem era comer bichos, sim, porque os bichos portugueses não são comestíveis, se é para comer gafanhoto que seja de olhos em bico ou de pele negra, porque comer um bicho de pele branca soa a canibalismo, e portanto não pode ser.

Estou aqui só a falar da minha relação paladar com os bichos, e nem falo de quão boa é esta comida, o meu estômago adora comida guineense. Ai, ai, estou armado em Brutus a dar a facadinha nas costas da cozinha guineense. Vejam bem que a minha médica achava que eu ia esvair-me em diarreia, mas a única que tive foi no dia em que o professor ganhou as eleições.
Por aqui, come-se bem, como é maravilhoso o siti (óleo palma) e o bonto (caldo de palma), já para não falar do caldo de mancara (caldo de amendoim), tudo claro misturado com arroz, aquele arroz verdadeiro, sem produto - devo acrescentar, porque não há dinheiro para comprar insecticidas, só por isso - comprado na mão do produtor. Para intensificar a experiência da língua, colocamos um belo peixe seco, – que para ser franco, é bom de sabor, mas mau de aparência moído naqueles grandes pilões - e claro para alegria da minha mãe, uma boa dose diária de verdura com uma saborosa palha de batata (folha da batata doce).

Por cá também há cebola, alho e afins, plantado no que nós chamamos horta, e por eles hortaliça, aliás eu andei o tempo todo até há uns dias atrás a pensar que “hortaliça” era de facto a nossa hortaliça, mas não. Basicamente tenho quase 30 entrevistas para alterar nos próximos dias.

Amanhã é dia de comer, mas não sei ainda o que será o acompanhamento, a parte principal, essa já eu sei, o mesmo de todos os dias – para provar que certos determinismos existem - o belo do arroz, ou bianda se quisermos chamar as coisas pelos nomes. Tenho que me tratar bem, porque à velocidade com que os mosquitos me comem, se o almoço atrasar não restará nada se não pele e osso.