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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Agustina Bessa-Luís- a obra e a crítica



MIGUEL REAL

A edição de cinco romances incompletos de Agustina Bessa-Luís (AB-L) pela Fundação Calouste Gulbenkian, coincidente com a realização do I Congresso Internacional do Círculo Literário AB-L, “Ética e Política na Obra de AB-L”, fica a dever-se ao trabalho de Silvina Rodrigues Lopes (SRL), e o próprio título geral do volume, Elogio do Inacabado, espelha a visão específica dos romances de Agustina desta professora da Universidade Nova de Lisboa. Digamos que a sua teoria estética sobre o romance e em particular sobre a arte do romance de Agustina contaminam positivamente, muito positivamente, esta edição de inéditos da escritora mais importante de Portugal da segunda metade do século XX.
Com efeito, existe uma tal fusão entre a crítica de SRL e a obra romanesca de AB-L que é hoje difícil ler a romancista sem o olhar analítico expresso pela primeira. De facto, publicadas em Portugal, existem diversas leituras descritivas da obra de Agustina, mas poucas, pouquíssimas, interpretações teóricas da sua obra. Entre as primeiras, citaríamos Catherine Dumas (Estética e Personagens nos Romances de Agustina, 2002) e Laura Bulger (diversos livros, especialmente sobre O Ângulo Crítico do Entendimento do Mundo, 2007). Entre os segundos, sublinharíamos três autores: Eduardo Lourenço (os dois artigos publicados na Colóquio e no Tempo e o Modo em 1963 e 1964), que estabeleceu o modelo historiográfico da leitura da emergência de Agustina na literatura portuguesa na década de 50; Álvaro Manuel Machado (sobretudo em AB-L. O Imaginário Total, 1983); finalmente, a leitura de SRL que, em Alegria da Comunicação, 1989, e AB-L. As Hipóteses do Romance, 1992, inscreveu a obra da romancista de um modo original no panorama da literatura portuguesa contemporânea.
Em 1984, em “Bruscamente – Sobre a Obra de AB-L” (inserto em A Aprendizagem do Incerto, 1990) a autora refere que “… inacabamento e complexidade são os dois eixos que orientam a escrita dos romances de Agustina” (p. 119). De facto, fundamentada histórica e hermeneuticamente a teoria do “Incerto” e do “Inacabado” na sua obra maior, A Legitimação em Literatura (1994), SRL defende que nos romances de Agustina não existem “um princípio e um fim estruturais” (AB-L. As Hipóteses do Romance, p. 12), ficções construídas sem modelo nem plano, sem critérios prévios de hierarquia categorial (espaço, tempo, acção…), como uma tapeçaria fina de pormenores descontínuos e fragmentários em torno de situações e personagens, na qual “é a própria construção do romance que concretiza a ideia de romance ou que dá a pensar as suas hipóteses” (p. 11). Dito de outro modo, “a história [narrada] não só nunca é completa mas aquilo que nela é hipótese, puro possível sem realidade na ordem de sucessão temporal, é essencial para que ela se desencadeie ou para que prossiga” (p. 12).
Existe assim uma “subjectividade empírica” (p. 12) ou, diríamos nós, um intuicionismo estético (porventura marcado pela predominância no Porto, na primeira metade do século XX, da obra filosófica de Henry Bergson) na obra de Agustina que a impede, enquanto autora, de reflectir o âmago da experiência em forma de tipos sociais (neo-realismo) ou de caracteres psicológicos (presencismo) cristalizados e definidos, devido à sua visão da radical incompletude e complexidade da realidade, transposta esteticamente em forma de fluxos ou correntes sintácticas (as “hipóteses de romance”), que, posteriormente, ao longo da teia assim tecida, ora se concretizam ou não. Ou, como afirma Álvaro Manuel Machado no que diz respeito às personagens criadas por Agustina: elas são “a manifestação simbólica (…) de uma complexidade imensa de elementos heteróclitos, sobrepostos no tempo” (AB-L. O Imaginário Total, 1983, p. 189). Para este crítico, Agustina reconstrói pela imaginação, não raro em forma de aforismo, a totalidade da experiência vivida que, por sua vez, SRL defende não só não poder nunca ser reconstruída literariamente como a expressão da sua carência, da sua incerteza, da sua incompletude, do seu “inacabado”, constituem a singularidade estética da literatura de Agustina. Daí o título do volume ora publicado: Elogio do Inacabado.
Diferente de Fernando Pessoa, que experimenta este íntimo, essencial e ontológico inacabamento do mundo, espelhando-o de um modo disperso por via da pluralidade dos seus eus autorais, Agustina funde a constitutividade fragmentária do real numa oscilação “sem cessar entre o buraco negro e o lago cintilante”, no dizer imagético de Eduardo Lourenço (“Prefácio” ao livro citado de Laura Bulger, p. 7), numa espécie de fusão luxuriante de vida das palavras que o mesmo autor considera ser semelhante a uma “floresta amazónica”.
Enquanto Óscar Lopes vincula a obra de Agustina, seja às profundas mudanças sociais ocorridas no Norte de Portugal na passagem, no século XX, entre uma vida rural, fundamentalmente católica, e uma sociedade urbana e europeia, seja ao efeito de dissolução e decadência de uma burguesia originariamente rural, SRL considera que Agustina é dos poucos autores portugueses contemporâneos que acolhe na sua obra o permanente e contínuo ritmo de mudança de toda a sociedade e história, e, no interior desta mudança, a incapacidade de a razão humana a entender de um modo claro e distinto. Neste sentido, toda a obra de arte culminaria num retrato inacabado da realidade, e o grande autor seria aquele que desse conta na sua obra deste constitutivo inacabamento. Assim, SRL refere que a obra de Agustina é marcada pela ”resistência à comunicabilidade total e imediata. Daí que a proliferação de matéria romanesca [o que Álvaro Manuel Machado designa por “complexidade imensa de elementos heteróclitos” e Eduardo Lourenço identifica, imageticamente, com “floresta amazónica”], aparentemente agenciado por simples acumulação e associação, sem hierarquização visível, se fecha sobre um centro pleno e vazio, como um segredo indecifrável que provoca uma explosão de respostas e dúvidas” (SRL, Exercícios de Aproximação, 2003, p. 127). É justamente para este mistérico “centro pleno e vazio” (um “buraco negro” e ao mesmo tempo um “lago cintilante”) que os textos de Agustina nos convocam, revelando e ocultando simultaneamente, de um ponto de vista estético, a incerteza, a imperfeição-perfeita e o inacabamento do mundo.
Porém, observa SRL, “os finais inconclusivos dos romances de AB-L não são puramente inconclusivos, eles são uma espécie de conclusão da impossibilidade de concluir, que se vai reafirmando de romance em romance, como se fosse essa a «moral da história» do escritor, da sua história de escrever romances” (As Hipóteses do Romance, p. 17).

Elogio do Inacabado
(pref. Silvina Rodrigues Lopes)
Fundação Calouste Gulbenkian, 534 pp. 40 euros.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Carlos Vale Ferraz- Arte da Memória

MIGUEL REAL 

Porventura com excepção de Os Lobos Não Usam Coleira (1991), toda a obra de Carlos Vale Ferraz é de cunho memorialístico. A obra ora publicada, A Estrada dos Silêncios, não escapa a esta regra.
Na literatura, a memória é historicamente vital e esteticamente transbordante quando reconstrói a realidade, não segunda uma imitação fiel, mas segundo o poder simbólico da evocação que permite recordar e recriar a pluralidade de significações sociais e imagéticas do passado, inclusive o que não se viveu, mas, estando na lógica do acontecimento, se poderia ter vivido. Carlos Vale Ferraz é um escritor da memória.
Recentemente, vimos aqui o modo como Álvaro Manuel Machado trabalha a arte literária da memória, ancorando-a em três ou quatro vivências da realidade individual (Foz Velha do Porto, infância e juventude, a casa da família, exílio…). Carlos Vale Ferraz trabalha a memória literária de um outro modo, não menos nem mais legítimo do que o de Álvaro Manuel Machado.
O autor do incontornável romance Nó Cego (1983) sobre a Guerra Colonial, concretamente sobre a operação militar desencadeada por Kaúlza de Arriaga no Norte de Moçambique, mas também de Soldadó (1988), a história do povo miúdo analfabeto e rural forçado a sobreviver de armas na mão em defesa do Império, reconstrói literariamente a memória logrando confluir os acontecimentos evocados pelas personagens com os diversos sentidos histórico-políticos de Portugal. A memória é, aqui, eminentemente colectiva e reprodutora dos rumos da História - e as personagens verdadeiras metonímias circunstanciais do destino de Portugal. Assim nos seus livros sobre a Guerra Colonial; assim nos romances sobre África, Fala-me de África (2007); assim em O Livro das Maravilhas (1999); assim em A Mulher do Legionário (2013), um dos seus melhores romances; assim no romance ora publicado, A Estrada dos Silêncios, que, portanto, segue em continuidade a oficina literária do autor.
Com a acção decorrida nos finais da década de 80, A Estrada dos Silêncios, fazendo jus ao trabalho da memória a um nível histórico, encontra as suas raízes estruturais no início da Guerra Peninsular, nas consequentes Invasões Francesas (1807 – 1810) e na rebelião dos povos do Sardoal, Vila de Rei e Abrantes contra os soldados franceses.
Uma nova estrada, projectada com Fundos Europeus e anunciada pelos serviços oficiais do Estado e das Câmaras Municipais como símbolo do Progresso, ligando esta zona relativamente desértica do interior à fronteira, é impedida de ser construída pela aparente teimosia de Francisco Afonso, proprietário do Monte Cimeiro, cuja herdade será amputada pela estrada, principalmente um morro de onde sobressai uma oliveira centenária.
Porém, a aparente teimosia de Francisco Afonso revela-se de contornos históricos e de fundamentação dinástica (familiar) e reenvia para duzentos e cinquenta anos antes, quando dois militares franceses, o capitão Alfonse Barre e o sargento Jean Secail desertam e não regressam a França. Os motivos para a deserção de ambos são profundamente diferentes, o primeiro apaixona-se por uma portuguesa de Abrantes (Ana Mendonça), o segundo quer e tenta por diversas vezes mas não consegue retornar a Paris.
Ambos dão origem a duas dinastias familiares diferentes, a do capitão, que finda em Francisco Afonso, e aqui termina definitivamente (sem filhos), e a do sargento que desemboca na pessoa da juíza do Tribunal de Abrantes que analisa o processo de expropriação do Monte Cimeiro, Joana Secalha.
Cruzam-se assim, nos finais da década de 1980, duas visões da história de Portugal, uma, que crê no progresso europeu e encara a adesão à Comunidade Europeia em 1986 como motor da futura felicidade desenvolvimentista dos portugueses; outra, que intenta respeitar o passado e honrar os mortos, já que, sob as raízes da oliveira, se encontram os ossos daqueles que um dia, em 1807, vieram da Europa revolucionária trazer o Progresso e a Razão Iluminista e provocaram uma autêntica hecatombe bárbara em Portugal, com violações e morticínios. Os antigos caminhos de cabras e carroças que Junot, Soul e Massena foram forçados a palmilhar e, de certo modo, contribuíram para a sua derrota, transformar-se-ão agora, por vida de dinheiro europeu, numa estrada lisa, recta e directa por onde os novos invasores entrarão sem impedimento. A própria fronteira já não existe. O Portugal antigo e tradicionalista de Francisco Afonso está a morrer e a machadada final, entende a personagem, será dada pela construção da estrada. Por isso a impede, contra a justiça, o Estado, as Câmaras e, até, contra a Europa, ou, melhor, contra a visão desenvolvimentista de Portugal apoiada pela Comunidade Europeia.
Como decidirá a juíza Joana Secalha, ela própria descendente desse ancestral passado - também europeu – de Portugal? Como reagirá Francisco Afonso à morte desse Portugal de antanho, que ele considera representar? E à cigana e ao cão que vivem solitariamente com ele no Monte? E o que sucederá ao engenheiro Carlos Matias, funcionário da Junta Autónoma das Estradas, encarregue de abrir a estrada europeia e filho do soberbo construtor de Cabora Bassa?
Entre todas, a personagem de Joana Secalha é a mais completa, embora o protagonismo vá inteiro para Francisco Afonso. Joana Secalha sintetiza, de certo modo, a vida dos portugueses universitários pós-25 de Abril de 1974. Maoísta, cultora do amor livre, que pratica em vastas orgias, torna-se senhora respeitável na década de 80 com o cavaquismo, pertencente às elites de Abrantes e arredores. Descendente do primitivo Secail, nome aportuguesado para Secalha, Joana tem a inspecção da máquina do Estado pendente sobre a sua decisão. Como decidirá?


Duas observações marginais. Uma: o espírito paganista africano tem lugar em quase todos os romances de Carlos Vale Ferraz, mas pensamos que exageradamente em A Estrada dos Silêncios, atribuindo a culpa do afogamento do pai de Carlos Matias a uma maldição lançada pelo feiticeiro da tribo deslocada à força do seu território para a construção da barragem de Cabora Bassa. Trata-se de uma enxertia africana forçada num romance que é todo ele escrito segundo a razão europeia. Outra, sente-se por vezes a necessidade de uma revisão literária do romance, há frases, esporádicas, raras, demasiado ligeiras e quotidianas para serem consideradas literárias.


A Estrada dos Silêncios,
Casa das Letras, 352 pp., 17,90 euros.

terça-feira, 21 de abril de 2015

O Espírito da Europa

MIGUEL REAL

Da abundante literatura sobre o tema, ninguém melhor que George Steiner definiu a Europa de hoje: a Europa é um “lieu de mémoire”, assim mesmo, escrito em francês como homenagem à língua de Descartes, de Napoleão e da “Razão Universal”. Com efeito, provocatoriamente, poderíamos postular que, das três dimensões do tempo, nenhuma se harmoniza melhor com a Europa que a do “passado”, e um passado tão cheio, tão absoluto, que outro continente não existe com tão grandiloquente e realizador passado.

Improvisada a cada momento do tempo pelos diversos países constituintes, sacudida permanentemente pelos contributos cruzados e desencontrados do sul (da Itália renascentista, resgatadora inicial da cultura greco-romana, seguido da expansão ultramarina de Portugal e Espanha, até ao final do século XVI) e do centro e do norte (a II Expansão Ultramarina protagonizadas pela França, a Inglaterra e a Holanda; a revolução francesa iluminista e burguesa e a revolução industrial inglesa), a Europa tornou-se não só a criadora da imagem geográfica e cultural do mundo que hoje possuímos como transmitiu a este, historicamente, mal e bem, as suas categorias sociais e as suas estruturas mentais. Daquelas, realça-se tanto a diferencialidade marcante em classes e grupos sociais e étnicos (que o século XIX e a primeira metade do XX designarão por “colonialismo”), quanto a capacidade singular do indivíduo, pelo mérito, pela manha ou pela especulação, estilhaçar as fronteiras da distinção social (que os séculos XIX e XX designarão por “individualismo” e “liberalismo”). No que se refere às estruturas mentais, a Europa espalhou no mundo, como um vírus, uma íntima inquietação metafísica marcante e uma vontade de progresso que se encontram na base ontológica do húmus do pensamento crítico que a tem constituído. No entanto, indubitavelmente, a Europa foi feita sem plano, falhando nela todas as previsões históricas de longo prazo:

a. - falhou a perpetuidade dos valores metafísicos do catolicismo medieval;

b. -  falhou a predominância do classicismo italiano;

c. - falhou a superioridade dos valores cristãos protestantes ingleses e alemães;

d. -  falhou a soberania da ética burguesa mercantil e a pureza de uma razão científica iluminista e positivista;

e. – falhou o sonho visionário comunista de igualdade social absoluta.

Em cada fracasso, porém, como o pelicano que extrai carne do seu próprio peito para alimentar as crias, ou como a Fénix que em cada morte renasce das cinzas, a Europa ressuscita diferente a cada momento e porventura mais sólida e mais forte face ao futuro, ainda que, face ao passado, mais existencialmente desorientada.

À semelhança dos tempos romanos e medievais, a Europa arrasta hoje às costas o gigante que é o passado constitutivo da sua verdadeira essência. Se o passado o tem bem conservado em museus, monumentos e, sobretudo, na prática diária de vida, os sonhos de futuro que a Europa sonha, esses, têm sido realizados, desde o final da II Guerra Mundial, por outros, nomeadamente os Estados Unidos da América, mas também, no estrito campo da tecnologia, pelo Japão e pela Coreia do Sul, e, recentemente, pela Índia, em parte pela China e, também em parte, pelo Brasil. 

Neste sentido, a Europa é, hoje, um estado de espírito que, gerado nas suas entranhas ao longo de cerca de três mil anos, amassado a sangue, a fogo e a felicidade, se generalizou pela totalidade do mundo numa fúria devastadora de religiões, tradições, línguas, culturas e costumes locais, nivelando os continentes segundo a luz da propriedade privada e da razão contabilista (ou, para falar a linguagem de Heidegger, a razão “calculista”; ou, segundo H. Marcuse “a razão unidimensional”, ou, se permitem citar um filósofo português, José Enes, a “razão funcionalista”, a razão eficiente do Estado).

Deve a Europa respeitar e orgulhar-se dos seus feitos passados:

- primeiro, de criadora dos valores que se encontram na base permanente do Humanismo, da defesa da liberdade e dos direitos humanos e ambientais;

- segundo, de mediadora entre continentes, culturas e religiões, criando o actual arquipélago de continentes a que chamamos Terra;

- terceiro, de instauradora de uma nova ordem no mundo, uma ordem racional e mercantil, a primeira ordem global, de tendência humanista, socorrido do espírito missionário da religião cristã.

No entanto, a Europa não deve orgulhar-se nem deve venerar os meios utilizados (a guerra, o genocídio, a substituição violenta de culturas e religiões, a criação da escravatura industrializada, a rapina dos recursos naturais, a destruição de habitats ecológicos). Por este motivo, tão positivo quanto negativo, deu-se à ordem mundial assim instaurada, de que Portugal foi cabeça e motor, o nome de “ocidentalização do mundo”, radicalmente diferente da actual globalização; a nossa “globalização”, de origem ibérica,  possuía uma tendência espiritual e humanista, inclinada a salvar o outro, o bárbaro, o pagão, o incréu, o ímpio, o gentio, o não-civilizado; a segunda, possui um explícito carácter materialista, desprovido de qualquer laivo de transcendência.

Por isso, G. Steiner identifica o espírito da Europa com a cultura nascida no e pelo “café”, entendido este como um lugar livre de meditação, de escrita e de discussão ou debate de ideias. De outro modo, acrescentamos nós, o símbolo da actual globalização identifica-se com a Coca-cola e o McDonald’s, símbolos do hedonismo individualista. Com efeito, para a antiga Europa, a ideia circulada pelos cafés constituía a essência, ateia ou religiosa, por que o cidadão instruído via o mundo, lutando e morrendo pela sua dimensão política. Onde Steiner escreve café, podemos nós, também, escrever a “ágora” grega, o “forum” romano, o átrio da igreja, o claustro do convento, o rossio da aldeia ou vila, a albergaria ou a pousada acolhedora de desconhecidos e o botequim dos séculos XVII e XVIII, antecessores do “café”, nascido e generalizado nos séculos XIX e XX. Não fala Steiner, injustamente, dos corredores e das celas dos conventos e, hoje, dos gabinetes das Universidades. Em todos, é comum o encontro, a partilha de inquietações e descobertas, a generalização de saberes, o entusiasmo na aceitação da ideia nova, a mordacidade e a sátira de grupos e tipos sociais decadentes, a liberalização de costumes, isto é, a concretização social do espírito crítico.

De facto, que espírito é esse que, mais do que em foro privado e íntimo, se centra recorrentemente no espaço público e que presta contorno de figura relevante à Europa, simultaneamente que lhe faz pulsar acelerado o coração? Que forma mentis é essa que forçou Ulisses a penar uma viagem de dez anos e Xenófanes de Cólofon a clamar que se os bois adorassem deuses estes teriam necessariamente cornos? Que sopro da consciência é esse que forçou Antígona, uma mulher, a revoltar-se contra o Estado, que a proibia de enterrar o corpo defunto do irmão? Que ânimo vital é esse que fez nascer o Homem da revolta contra os deuses (Prometeu), roubando-lhe o fogo do pensamento (a razão) ou recebendo destes o fruto do conhecimento (Eva e Adão)?

Esse quid que fez e faz a Europa, e tão integral e puro não existe em outro continente, consiste no puro nada sem conteúdo nem forma que se dá pelo nome de inquietação, de frenesi de conhecimento, de desejo de saber, de questionamento, de substituição da certeza pela dúvida, da resposta definitiva pela pergunta anómala, por vezes e aparentemente sem sentido, da substituição da aceitação crédula pela crítica demolidora. Numa palavra, pela realização do sentimento que os filósofos designam por “espanto”, a capacidade de assombramento pela existência das coisas, assim mesmo como são e estão e por que não são e estão de outro modo, ou, numa frase lapidar, escrita por Leibnitz há trezentos anos, “Porque existe o ser e não o nada?”, ser que pressupõe ordem, organização, estrutura, e não o nada, que pode pressupor também o caos, a desordem anárquica.

Numa palavra sintética, a Europa é o lugar da formação do saber gerado como resposta (sempre inconclusiva) a esse espanto:


a.     o lugar da filosofia (a interrogação fundamental)

b.    o lugar da ciência pura (desinteressada, o porquê das coisas individuais)

c.     o lugar da poesia (a projecção lírica ou trágica do sentimento do espanto)

d.    o lugar do romance (a projecção da aventura de uma consciência em processo de descoberta e conhecimento concretos)

e.     o lugar do ensaio (a projecção da aventura de uma consciência em processo de descoberta e conhecimento abstractos)

f.      o lugar da arte (a cristalização do sentimento de espanto em papel, tela, som, cores, formas da realidade).

Neste sentido, a Europa é o continente do inútil, do que não é absolutamente necessário à sobrevivência do homem, do supérfluo, do gratuito, do vão, isto é, da filosofia, da ciência pura (desinteressada de efeitos materiais), da poesia, do romance, do ensaio e da arte, que, sistematizados em configurações técnicas conjunturais, classificados, dispostos em correntes, logo sofrem de decadência, substituídos por outras filosofias, outras teorias científicas, outras formas de poesia, romance e arte.

Porventura melhor do que todas as outras, a forma do ensaio define a forma mentis da Europa – pensamento crítico descomprometido que avança tacteando pontos de apoio, atingindo instáveis certezas, logo traduzidas em incertezas, mas visíveis e sólidas plataformas para novas buscas, que de imediato se transfiguram em outras tantas dúvidas, algumas logo negadas, outras reafirmadas com grau rijo de ambiguidade, até se atingir uma certeza mais firme que todas as restantes, que, com algum grau de convicção, declaramos ser a verdade. A Europa é o único continente que sabe, hoje, que a verdade consiste na forma provisória da não-verdade.

De facto, qual a diferença entre a Europa e a cultura dos restantes continentes? O que a estes lhes faltou percorrer que os europeus já percorreram? Que experiência nova trouxe a Europa ao mundo, não vivida pelos restantes continentes? Falta-lhes ter atravessado o mundo, fazendo-o nascer para a consciência da humanidade, no que se formou e consistiu o espírito europeu da Idade Moderna. Falta-lhes, nesta travessia, o primitivo sentido aventureiro e trágico da viagem.

Tal como o ensaio no plano teórico e filosófico, a viagem torna-se, no sentido cultural, definidora do homem enquanto ser primitivamente nómada. Com efeito, viajar é imaginariamente retornar a esse estado de absoluta imprevisibilidade que definiu o homem pré-histórico e que nos definiu como animais humanos ao longo de cerca de 200 000 anos. Se não nos ficou nos genes, a viagem ficou-nos nos arquétipos imagiológicos reitores do inconsciente.

Em essência, a viagem ou o estado de nomadismo reside na imprevisibilidade, na ausência de qualquer plano prévio excepto a demarcação bem precisa de um objectivo final, que nos nossos patriarcas, habitantes da pré-história, se deveria circunscrever à busca de alimentos, isto é, de territórios onde abundasse água, carne, frutas, cereais. Não é impossível que a nossa visão do Paraíso, recorrente em todas as épocas e em todas as épocas adornada de novas qualidades, possua a sua mais arcaica fonte imagética nessa interminável busca do homem primitivo, seguindo sem cessar manadas sem, ao mesmo tempo, se afastar dos cursos de água.

Desse penar infindável, em termos de forma imagética, se alimenta a Ilíada (o livro mais livro da cultura europeia, verdadeiro arquetípico desta cultura) e o périplo imprevisível dos dez penosos anos de Ulisses, estatuindo-se como paradigma cultural da nossa civilização. Ítaca, por seu lado, gravou-se na literatura de todos os tempos como imagem substituta do Paraíso. Se atentarmos no itinerário físico e existencial de Ulisses e o compararmos com outras narrativas modelares da viagem, como a Eneida, de Vergílio, a Navegação de São Brandão, o Conto de Amaro ou Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, constatamos que no coração de todas estas obras reside a imprevisibilidade enquanto estado humano de absoluto inesperamento, de fortuitidade, de acaso, de percurso animado de múltiplos acidentes e peripécias que desviam o herói de atingir o seu objectivo, atrasando-o, jogando-o por caminhos e situações insólitas e por sentimentos e estados interiores que lhe são totalmente desconhecidos, forçando-o a ceder ou a resistir, a recuar ou a avançar, a hesitar e a conciliar, no que foi definido pelos gregos como a famosa “manha” de Ulisses.

Porém, a imprevisibilidade da viagem não se tece de um absoluto acaso. Diferentemente, a mão de Deus ou dos deuses existe por detrás dos acidentes de percurso sofridos pelo herói e constituem-se como provas pelas quais a divindade ou o Destino (a moira grega ou o fatum romano) experimenta as virtudes do herói. Ulisses, como Amaro, Brandão ou Fernão Mendes Pinto, sofrem todo o tipo de tentações (é-lhes oferecido riqueza, poder, fama…), experimentam o tremor e o terror kierkegaardiano da angústia e do desespero, da solidão, sofrem, expiam, suam, vomitam todo o mal que se encontra no seu interior, purificando-se, e, finalmente, superadas as limitações, transcendidas as provações, o herói atinge a sua realização, Ulisses reconquista a sua Ítaca, Brandão e Amaro sofrem a visão do Paraíso eterno, a Terra dos Bem-Aventurados, ou as Ilhas Afortunadas, Fernão Mendes Pinto regressa rico a Portugal e Vasco da Gama é erótica e espiritualmente premiado pelo conforto das deusas na Ilha dos Amores.

Assim, se seguirmos a lição dos clássicos, não há viagem que não seja tecida destes quatro elementos constituintes: imprevisibilidade, terror do inesperado ou provação/tentação, sofrimento/ expiação e visão transcendente.

A Europa, transformando os continentes em ilhas de um grande arquipélago chamado Terra, provou o sabor desta cultura nómada da viagem, interiorizando-a na sua mentalidade social. Por isso sabe que o nomadismo, hoje desprovido de transcendência paradisíaca, constitui a forma por que o espanto da existência melhor concretiza geográfica e politicamente a natureza errática do homem. Hoje, três mil anos depois de Moisés e Homero, a Europa sabe que o Paraíso, a Terra Prometida, não constitui um ponto de chegada, mas o motor ético que força o homem a partir. O Paraíso tornou-se o cais de partida de todo o homem aventureiro, isto é, ensaísta, isto é, europeu. Esta a grande, grande diferença entre a Europa e os restantes continentes. A Europa já viajou pela Terra inteira, verdadeiramente criou a actual representação da Terra, e já regressou a casa; os outros continentes, sobretudo o Americano (que faz da viagem uma epopeia espacial) e o Africano (que, infelizmente, por culpas de que não nos são de todo alheias, transformou o nomadismo da viagem em naufrágio) ainda se encontram em viagem.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Inês Pedrosa- A paixão conduz a escrita

MIGUEL REAL


Belíssimo novo romance de Inês Pedrosa, Desamparo, tão festivo quanto fúnebre, tão cosmopolita quanto nacional, tão céptico quanto esperançoso, percorre toda a gama de sentimentos humanos, da alegria esfuziante ao fracasso mais atroz, do amor atormentado e obstinado à humilhação nos negócios.

Em Desamparo, a história e as personagens entrecruzam-se de um modo inextrincável, desconhecendo-se qual a mais importante, se a história, uma síntese dos tempos recentes de Portugal, se as personagens, das mais sólidas e vibrantes que a autora criou. A história decorre na aldeia de Arrifes, Vila de Lagar (lugar inventado, claro) e possui personagens fortes, (i) como as três vizinhas Jacinta, Alice e Rosário, as duas primeiras falecidas, Jacinta adoecida e levada para o hospital no princípio do romance, desencadeando a acção deste, Alice no final, “desamparada, isolada num baldio; (ii) como Raul e os seus dois irmãos, Rafael e Rita; (iii) como Vanessa assassinada numa danceteria; (iv) como Clarisse, antiga jornalista desempregada e animadora cultural em Arrifes, que, pelo amor, redime a vida de Raul; (v) como o literato inconstante Pedro Gama Lousada, belíssimo retrato de escritor e activista cultural decadentista encontrado na vida boémia de Lisboa.

São personagens fortes, isto é, cada uma dotada de uma personalidade vincada, totalmente distinta das restantes, e com acção singular no seio da história narrada. As restantes personagens (Joaquim, o dono da funerária Zorro, idosos do Centro de Dia, Gaspar e Cátia, Carla Fontinha, habitantes de Arrifes, funcionários camarários, Ema de Castro, o Grande Escritor ressuscitado e o Grande Arquitecto premiado…) compõem, digamos assim, o pano de fundo ou o horizonte social donde se destacam as personagens marcantes, sobretudo Raul.

Trata-se, sem dúvida, da história simultaneamente feliz e infeliz de Jacinta de Sousa e da vida derrotada mas redentora de seu filho Raul. E, com Jacinta e Raul, é, ainda que raramente se descrevam episódios do poder político, da história de Portugal que se trata, sobretudo dos anos mais recentes. Da tenacidade de Raul, que, embora nascido no Brasil, vindo para Portugal para acompanhar a mãe, recusa emigrar; do amor de Clarisse, que aceita emigrar um ano para Berkeley para pagar a parte do Casal da Bela Vista que coubera em herança a Raul e aos seus dois irmãos; da vida de Jacinta levada menina para o Brasil pelo pai Artur, tipógrafo, casada com o galante Ramiro, que a trocou por mulher mais nova, e regressada a Portugal para fazer companhia à mãe Margarida e viver até à morte na casa de Arrifes.

Desde o seu primeiro romance, A Instrução dos Amantes (1992), a paixão comanda a escrita de Inês Pedrosa: paixão gizada em torno de um realismo social participante, prestando testemunho do seu tempo; paixão alimentada pela observação atenta e racional da realidade, na qual, porém, a emoção, o sentimento, a escrita na primeira pessoa do singular comandam a estrutura aparentemente labiríntica das suas narrativas; paixão igualmente na selecção das histórias de vida narradas e no levantamento das personagens principais.

A metodologia de escrita, ainda que emotivamente espontânea, parece residir num conjunto concêntrico de abordagens, isto é, parte-se de um facto nuclear (morte de Jacinta de Sousa; fracasso de vida de Raul, seu filho), ampliado posterior e sucessivamente ao nível local e ao nível da vida do país (neste caso Portugal e Brasil, já que Jacinta viveu e casou no Brasil e Raul nasceu neste país). Mais do que tecido labirinticamente, Desamparo parece assim viver de sucessivos círculos concêntricos, entre os quais, até às derradeiras páginas, o capítulo seguinte concentra e supera os anteriores, arrastando e enlevando a mente do leitor.

Desamparo, título sintético mas muito sugestivo, reflecte o estado actual de Portugal, um país simultaneamente amado pela sensibilidade das personagens, sobretudo Jacinta, Raul e Clarisse, e odiado pela racionalidade analítica dos diversos narradores. Um país “desamparado” por uma elite político-administrativa tecnocrática, no qual mais contam as boas contas orçamentais do que a qualidade de vida dos seus habitantes.

Com efeito, os últimos capítulos de Desamparo fazem lembrar o final do último romance publicado em vida de Eça de Queirós, A Ilustre Casa de Ramires, no qual, através da personagem principal, Gonçalo Mendes Ramires, regressado de Moçambique, se tematiza a essência da identidade histórica e antropológica de Portugal, concluindo-se que Portugal é um país que simultânea e paradoxalmente “desampara” e redime os seus habitantes, tanto provocando neles um estado de abandono e abatimento quanto, em outros momentos, os estimula à e lhes concede a salvação.

Um dos melhores romances da já vasta obra de Inês Pedrosa.

Desamparo,

D. Quixote, 315 pp,, 15,90 euros

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

António Tavares- O esteticismo como motor narrativo

MIGUEL REAL

O romance de estreia de António Tavares, As Palavras que me Deverão Guiar um Dia, finalista do Prémio Leya 2013, anuncia um autor raro no campo da filosofia da construção romanesca, privilegiando menos o realismo (teoria hoje dominante no romance português) e mais uma visão estética na composição da narrativa. O autor foi igualmente galardoado com uma menção honrosa no Prémio Literário Alves Redol de 2013 com o romance O Tempo Adormeceu sob o Sol da Tarde, ainda não publicado (cf. “António Tavares. Vereador da memória”, de Luís Ricardo Duarte, “JL” de 3/9/14). João Céu e Silva não hesitou em classificar este romance como “um dos livros mais inovadores que esta rentrée literária de 2014 deverá oferecer” (QI, “Diário de Notícias” de 6/9/14)


Poucos são os romancistas estetas hoje. Porventura Vasco Graça Moura, José Sasportes, António Mega Ferreira e alguns textos de Hélia Correia, sobretudo Adoecer, a que se junta agora, com justiça, o nome de António Tavares. Esteta é o autor que, na composição dos seus textos, privilegia as referências culturais (história da música, da literatura, da pintura, da ciência…) às referências da realidade social imediata e exterior (o realismo). O seu intento é continuar, prolongar com subtileza, o longo entrelaçar milenário da história da cultura, evidenciando que as ideias, as imagens, os sons estéticos e culturais criados pelo homem modelam, ou podem modelar, a realidade exterior, agindo nesta de um modo transformador e, até, revolucionário, perfazendo, assim, a construção de um mundo do espírito paralelo ao mundo social e político. Esteta é o autor que vê o mundo através dos óculos históricos da cultura, da arte, da ciência, aquele que para toda a situação existencial encontra o seu modelo e motor no mundo paralelo da cultura. Neste sentido, esteta é todo o autor que, mais do que se inspirar na realidade exterior, se inspira no passado histórico da sua especialidade artística. No caso de António Tavares, na história da literatura e do pensamento europeus. Só no “Prólogo” e no primeiro capítulo, constituído por 7 páginas, o autor enuncia mais de doze autores, evidenciando assim o esteticismo do romance.
António Tavares confessou a Gonçalo F. Santos, da revista Time Out de 27 do passado mês de Agosto, que as personagens dos seus romances têm equivalências literárias, “Neca, por exemplo, é tão pontual como Kant”. Com efeito, o narrador de As Palavras que me Deverão Guiar um Dia vai assentando num caderno, ao longo da passagem da puberdade para a juventude, as reflexões pessoais sobre os acontecimentos havidos no seu bairro da cidade de Moçâmedes (Angola), registando um paralelismo harmónico entre os acontecimentos do bairro e situações semelhantes descritas pelos autores em romances e ensaios. Consoante o narrador vai crescendo e bairro vai mudando ao longo da década de sessenta (passagem de moradias para prédios de apartamentos, encerramento da mercearia e abertura de um supermercado, morte de habitantes, aparecimento de novos modelos de carros, emergência de novos costumes, rodagem de um filme com cenas ostensivas de sexo…), vai registando no caderno, posteriormente passadas a romance, as “palavras”, isto é, as cenas ou personagens de romances e as mensagens de ensaios que o “deverão guiar um dia”. A realidade conforma-se com a literatura e o texto, constituído por palavras, evidencia-se como um outro e novo mundo, tão ou mais relevante que o primeiro: “Se as palavras nomeiam as coisas – que o mesmo é dizer, este meu mundo – mas também dão existência à realidade, aqui fica ela [no conteúdo do romance], toda a minha realidade” (p. 9). Não admira que o romance termine com o levantamento de uma biblioteca numa velha carrinha da Gulbenkian e, depois, com a oferta de todos os livros aos habitantes do bairro. Ficou apenas um: o caderno, que se transformará no romance ora publicado, isto é, na realidade verdadeiramente pensada e vivida.
Assim, o esteticismo de As Palavras que me Deverão Guiar um Dia reside justamente na conformidade da descrição da realidade do bairro e das personagens com trechos de romances clássicos ou de pensamento de ensaios famosos. Por exemplo, nas primeiras partes do romance, o narrador tem por hábito subir à copa de uma árvore e daí contemplar as pessoas, exactamente como a personagem Cosimo de O Barão Trepador, de Calvino. De facto, este processo de identificação de situações narradas com trechos literários ou filosóficos constitui-se como motor narrativo de todo o romance e confere, de certo modo, um tom melancólico à narração. A melancolia é expressa, não através da análise psicológica das personagens, mas através da sucessão contínua de acontecimentos que, sob a impotência do narrador, que desejaria contemplar um mundo mais estável do alto da árvore, alteram profundamente a face do bairro. Da copa da árvore, o narrador observa a outra personagem permanente, Luísa, a menina sem mãe que chupa limões, habitante num ferro-velho com o pai e as três irmãs, que partirão; no final o pai também partirá, entregando a sucataria ao narrador. Este, já na década de 1970, irá à guerra, combaterá, sofrerá um ano de tortura preso a uma árvore e, no final, regressará para abraçar a menina, agora rapariga, e viver com ela.
Das nádegas lésbicas da São modista aos prédios do Ivo mudo, da menina da mercearia sujeita a violência doméstica e depois fugida com o charmoso Cunha Mendes à dona Alice, mulher do copofónico Santiago e futura amante da São modista , do puritano e oportunista Amadeu à repressão moral do padre Neves, do Neca pontual, carregado de remorsos, ao congolês enfermeiro Tyrone, do Américo preso pela vida a uma máquina à Aninhas deprimida finha do defunto senhor Leal, da Dona Vitória carnal e adúltera ao marido ferroviário ausente, do Bill cineasta à incandescente Mila actriz… é, de facto, o  mundo a passar debaixo da árvore do narrador, levantada entre um montão de tralha de sucateiro.
Por fim, tudo passou, só as palavras ficaram como monumentos imorredoiros.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O Chalet das Cotovias – Um policial clássico passado em Sintra

MIGUEL REAL

Com força literária inusitada, publicado em 2013, O Chalet das Cotovias, de Carlos Ademar, antigo inspector da Polícia Judiciária e professor na Escola Superior de Polícia, resgata para a literatura portuguesa o romance policial clássico segundo o tradicional modelo de Georges Simenon e Agatha Christie (o policial como espelho das taras sociais e psicológicas da comunidade) e dos seus famosos inspectores da polícia Maigret e Poirot.

Trata-se de uma narrativa de intriga e mistério, de pendor realista que, extrapolando a ocorrência policial específica, intenta constituir-se como espelho histórico da sociedade, afirmando a fidelidade ao real e a veracidade escrupulosa da História, determinada a partir do ponto de vista dos documentos objectivos. No caso de O Chalet das Cotovias, aborda uma história real a partir de fontes reais, envolvendo-as numa trama narrativa exigente.

Em O Chalet das Cotovias, trata-se de retratar os grupos sociais emergentes do Estado Novo ao longo das décadas de 1930 e 40, bem como a especial comunidade de habitantes femininos do Chalet das Cotovias em Sintra. Perfazendo as vezes de Maigret, desponta o chefe de polícia Manuel do Rosário, tão heterodoxo nas investigações quanto o seu homólogo francês.


Assim, por via das investigações em torno do desaparecimento do advogado Luís Lencastre e do aparecimento do seu corpo num descampado em Sintra, o autor, vocacionado por ofício e mestria para a escrita do romance policial, como a sua obra romanesca o prova e este romance o manifesta de um modo absoluto, explora tanto o universo de possibilidades de resolução do mistério policial, segundo metodologias de investigação próprias do período em questão, quanto a descrição de costumes sociais e de mentalidade psicológica do momento histórico, tendo em conta, sobretudo, a aversão moral na época ao lesbicismo, uma época puritana, fundada numa ética rural e católica fundamentalista, que intenta morigerar o liberalismo e o positivismo morais da I República.

No caso da investigação policial, o romance explora todas as possibilidades urdidas pela caracterização das personagens e pelo desenvolvimentos dos factos, desde a possibilidade de vingança política e de ciúme (Arnaldo Veiga, cuja mulher, Margarida, se tornara amante de Luís Lencastre,  e os seus dois serventuários, descritos como autênticos “cães-polícia”) até à de ajuste de contas financeiro (o advogado Costa Valente), passando pela hipótese de roubo e assassinato (os mendigos “Matagatos”  e “Zarolho”).

A solução, só atingida no final do romance, constitui um verdadeiro achado e corre o risco (justo e legítimo) de ficar na história do policial português devido ao seu carácter insólito, ainda que perfeitamente lógico.

No caso da segunda vertente, o de se constituir como retrato da sociedade, João Céu e Silva escreveu no “QI” do “Diário de Notícias” de 3 de Agosto de 2013, que O Chalet das Cotovias opera a “perfeita reconstituição histórica de uma época fundacional do país que sobrevive até hoje”, isto é, evidencia com rigor a formação da polícia política (a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) e a criação da Legião Militar, mostrando que o modo como ambas as instituições arregimentam os seus servidores tem mais a ver com interesses pessoais do que com a defesa de propósitos ideológicos.

No Chalet das Cotovias, em Sintra, sucedem-se reuniões de senhoras que não se limitam ao chá, à quermesse ou bazar ou ao jogo de distracção. Frequentado por Florbela Espanca e Fernanda de Castro, intelectual e mulher de António Ferro, o ideólogo de Oliveira Salazar, as reuniões são animadas por Ju, dona do Chalet, que mantém relações de sentimento carnal com Gabi, Zefa e Maria. A irmã de Luís Lencastre, Rosinha, participa nestas soirées, e o advogado sai de Lisboa e dirige-se para o chalet, em Sintra, onde desaparece.

Ju, avassalada por uma sociedade puritana, fundada nos bons costumes da família burguesa, e por uma ideologia salazarista nascente, baseada na tripla instituição moral purista de Deus, Pátria e Família, fecha o chalet de Sintra e parte para o estrangeiro.

Sob a repressão política, a censura intelectual e a pobreza social, Portugal dormirá o longo sono de 48 anos do Estado Novo, até ressuscitar no dia 25 de Abril de 1974 e as novas Jus não precisarem de exilar-se para darem livre curso à sua sexualidade.

O Chalet das Cotovias,

Parsifal, 332 pp., 14,94 euros.