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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Entrevista com os Diamantes Negros

FERNANDO MORAIS GOMES


Os Diamantes Negros foram uma das bandas mais emblemáticas de Sintra dos anos 60. Carlos José "Cainhas" (bateria), Carlos Rodrigues (saxofone), Álvaro José Silvestre (guitarra), e Carlos Henriques "Xixó" (guitarra) a que se juntou depois Luís Cardoso na guitarra baixo, foram sem dúvida uma lufada de ar fresco na Sintra da época, animando bailes e festas ao som dos Shadows, Beatles ou Beach Boys. À beira de completar 50 anos de carreira, depois da estreia a 25 de Janeiro de 1964 na Sociedade União Sintrense, falámos com eles numa solarenga tarde de Dezembro:

Querem recordar a vossa estreia em 25 de Janeiro de 1964?

25 de Janeiro de 1964, Sociedade União Sintrense, pano fechado e grande expectativa, tudo a postos. O Carlos Nascimento fez a apresentação, e surgiu a primeira música- Round and Round- às 22 horas, mais coisa menos coisa, o velho pano de boca de cena, verde pela frente e vermelho para o palco abriu-se, e apareceram quatro jovens, nervosos mas decididos, a tocar uma música dos Shadows, sem viola baixo. Foi o delírio. Mas as palmas foram tantas que daí até às cinco da manhã, cada música foi um êxito, palmas e mais palmas. O Xixó tocou piano com estrondo no Quando calienta el sol , e cantou em espanhol, o que para ele, todo virado para o inglês, era assim o mesmo que lhe arrancar os dentes todos. Mas nós queríamos ser e éramos abrangentes, tínhamos música inglesa (era a base) francesa, italiana, e no dia da apresentação até o Caínhas, sempre à bateria, cantou uma canção do Marino Marini, o Perdoname, com o Xixó ao piano, o Álvaro José na guitarra, o Carlinhos Rodrigues no sax.

Tínhamos para a apresentação coisas muito rudimentares. Quem estava melhor equipado, embora mal e por pouco tempo era o Xixó. Ele tinha uma viola nova, uma Egmond, que custou três contos, uma fortuna para a época; o Álvaro José tinha uma Tulip comprada em segunda mão; o Caínhas tinha uma bateria velha que desencantou numa casa de penhores e que, se virem bem a foto da época, concluem que era impossível tocar alguma coisa naquele instrumento, mas deu para a festa de apresentação.

Temos vários episódios giros. A aparelhagem da guitarra de acompanhamento do Álvaro José era uma telefonia e a ligação para o pick up era feita com duas bananas. E aquilo dava som? Quase nada, mas naquele tempo davam-se bailes no Parque da Vila para mil pessoas ou mais sem aparelhagem e com o Avelino Gil a cantar, ou com uma aparelhagem de 15 watts!

Qual foi o percurso da banda ao longo destes cinquenta anos?

Quando fizemos um ano foi uma festa de arromba, tivemos um banquete servido no gabinete da Direcção da S.U.S., espectacular! Seria uma grande falha não falar na Comissão de Senhoras que se esmerava em apresentar um beberete feito à custa da mobilização de quase todas as senhoras e do comércio da Vila Velha, que por ordem da D. Martinha Correia e da D. Mariana Gaspar, mais tarde também da D. Esmeralda (de Monte Santos), tudo fizeram para que os nossos aniversários fossem uma festa. Destaque para o dia 11 de Setembro de 1965 quando vencemos a terceira eliminatória do Concurso Yé Yé no Teatro Monumental, em Lisboa. Concorreram outras bandas sintrenses, eliminadas logo à primeira. Na meia-final, a 8 de Janeiro de 1966, fomos eliminados pelos Sheiks, na altura “só”, a melhor banda portuguesa, Outro momento a destacar é a edição em 1966 do nosso único disco EP, que incluiu os temas “O dia em que te vi”, “Rosas Brancas”, “Quero-te sempre a meu lado, meu amor”, e “Eu sei meu amor”.

Outro momento alto, foi o Concurso Académico de Música Moderna, organizado pela CITU, (Centro de Intercâmbio e Turismo Universitário), a 17 de Maio de 1968. Ganhámos as eliminatórias, fomos à final e ficámos em segundo lugar, só batidos pelos Espaciais do Porto, que actuaram com o pseudónimo de PSICO, e tinham nas suas fileiras entre outros o Miguel Graça Moura.

A guerra de África afastou o grupo e os Diamantes, primeira fase, acabaram em 1970, tendo havido uma tentativa de reanimação do grupo em 1974 com uma formação que tinha como meta música do tipo do conjunto Chicago. Tinha José Freitas no trompete, Álvaro Cruz no sax alto e tenor, Caínhas na bateria, Reinaldo Nunes, guitarra e voz, Jaime Pereira, baixo e voz e Augusto nas teclas. Acabou no início de 1976. Mais modernamente, o reconhecimento oficial da carreira dos Diamantes Negros, dá-se em 1997 com a inclusão do tema “O dia em que te vi”, na esgotadíssima dupla coletânea, “Biografia do Pop Rock” e em 2004 na coletânea “All You Need Is Love” com o tema “Quero-te sempre a meu lado”. Em Março de 2003, no Auditório Olga Cadaval, voltaram a juntar-se.

Os Diamantes Negros fizeram digressões por todo o país, actuaram na Madeira, Espanha, França e Itália, e em 1998 uma formação dos Diamantes Negros, com Luís Cardoso, viola baixo, Júlio Ribeiro, voz e guitarra, José Raimundo, bateria, e Dr. Mário Braga, viola solo, fizeram até uma digressão a Toronto, Canadá, onde foram muito aplaudidos e bem recebidos. Daí para cá os Diamantes Negros nunca mais pararam. Com esta formação e mais tarde com os elementos fundadores, Caínhas e Xixó.

E hoje, ainda vão mantendo viva a chama?

A amizade e união que sempre nos guiou, juntou-nos novamente no pós-reforma. Actualmente a Banda tem quatro elementos: Carlos José Santos “Caínhas”, Carlos Henriques, “Xixó”, Luís Cardoso, e Jaime Pereira. Temos feito actuações com carácter beneficente, e também em festas populares e particulares. O nosso quadragésimo aniversário, festejado no Salão da Terrugem, teve a presença de mais de seiscentas pessoas, e será de celebração o programa dos 50 anos que teremos em 2014.

domingo, 27 de outubro de 2013

Diamantes Negros- a caminho dos 50 anos

25 de Janeiro de 1964, apresentava-se na Sociedade União Sintrense o grupo Diamantes Negros que durante anos animou bailes e festas e trouxe um toque de modernidade à sempre pachorrenta vida sintrense. Vivos e intervenientes, todos esperamos com expectativa esse momento de reencontro, comemoração e redenção com o passado, para muitos, e de exemplo de luta por um sonho para os mais novos. Desta feita, algumas memórias fotográficas:





 





Mais sobre os Diamantes Negros no Sintra Deambulada em




sábado, 31 de agosto de 2013

A verdadeira história dos Diamantes Negros-II Parte

CARLOS JOSÉ SANTOS (CAÍNHAS)



I PARTE EM





O 25 DE JANEIRO DE 1964

25 de Janeiro de 1964. Apresentação do Novel Conjunto Sintrense Diamantes Negros, era o que dizia o programa da Sociedade nesse dia.

22 horas, pano fechado, grande expectativa, tudo a postos. Eis que surge no palco um jovem de 18 anos completamente fora do estalão português, ou seja, alto, louro e de olhos azuis, se não são azuis peço desculpa, pois na família dele há olhos para todos os gostos, até tem um irmão com um olho azul e outro castanho. O apresentador da noite mágica tem nome, e que nome…Fui buscar um bom amigo de infância, com quem partilhei muitos dias e anos em sua casa, também pela amizade que tinha com os outros irmãos, especialmente o do meio, o Zé.

Inteligente e muito perspicaz, tinha habilidade para tudo que tivesse relação com o desporto, no hóquei em patins esteve entre os melhores. Não frequentava bailes, tão pouco ia à Sociedade União Sintrense. Eu arrisquei nele porque o conhecia bem, pela sua inteligência, o saber dizer, a presença e apresentação. Tinha de dar certo, o meu escolhido tal como nós também ia debutar.

E foi logo aí que começámos a ganhar. O Carlos José da Conceição Nascimento (Carlos Nascimento) pois é dele que falo, foi um sucesso, apresentou-nos como um profissional experiente, eventualmente tremendo por dentro como amador que era, mas nada transpareceu.

Feita a apresentação, surge a primeira música- Round and Round- às 22 horas, mais coisa menos coisa, o velho pano de boca de cena, verde pela frente e vermelho para o palco, abriu-se, apareceram quatro jovens, nervosos mas decididos, a tocar uma música dos Shadows, sem viola baixo. Foi o delírio. Só posso falar por mim, deu-me uma dor tão forte no peito que acho que só tive igual agora depois de usado e por isso só parou no hospital Amadora-Sintra com oito dias de “estágio” à mistura.

Mas as palmas foram tantas que daí até às cinco da manhã, cada música, cada êxito, palmas e mais palmas.

Ainda me lembro de alguns números que interpretámos com sucesso: vários dos Shadows, o tema de abertura que já referi e que passou a ser durante muito tempo, Peace Pipe, e mais alguns. O Xixó tocou piano com estrondo no Quando calienta el sol , e cantou em espanhol, o que para ele, todo virado para o inglês, era assim o mesmo que lhe arrancar os dentes todos. Mas nós queríamos ser e éramos abrangentes, tínhamos música inglesa (era a base) francesa, italiana, e no dia da apresentação, meus senhores, eu cantei!. Não que eu não saiba cantar, mas a minha voz nunca me ajudou muito. E cantei uma canção do Marino Marini, com o Xixó ao piano, o Álvaro José na guitarra, o Carlinhos Rodrigues no sax e eu à bateria e voz o Perdoname.

O nosso instrumental:

Aparelhagem de vozes, o que era isso? Tínhamos para a apresentação coisas muito rudimentares. Quem estava melhor equipado, embora mal e por pouco tempo, era o Xixó. Ele tinha uma viola nova, Egmond, era a marca e custou três contos, uma fortuna para a época; o Álvaro José tinha uma Tulip comprada em segunda mão; eu tinha uma bateria velha que fui desencantar numa casa de penhores e que, se virem bem a foto da época, concluem que era impossível tocar alguma coisa naquele instrumento, mas deu para a festa de apresentação.

Aí ganhámos bom dinheiro, e apetrechámo-nos dentro das nossas posses. Sempre nos preocupámos em comprar bom equipamento, em detrimento de levar dinheiro para casa.

Éramos mesmo amantes da música, fazíamos tudo com muito amor, até as discussões permanentes, Xixó/Luís, Caínhas/Luís, Caínhas/Xixó/Luís, o Luís, como vêm…

Temos vários episódios giros, mas ainda sobre equipamento, posso acrescentar que a aparelhagem da guitarra de acompanhamento do Álvaro José era uma telefonia que o senhor Cochicho tirou de sua casa e, a ligação para o pick up era feita com duas bananas. E aquilo dava som? Quase nada, mas naquele tempo davam-se bailes no Parque da Vila para mil pessoas ou mais, sem aparelhagem e com o Avelino Gil a cantar, ou com uma aparelhagem de 15 watts. É que o pessoal era pacato. 

Continua