Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura e Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura e Poesia. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 12 de abril de 2022

O Anjo da Incerteza



 MARCOS PAMPLONA

Marcos Pamplona (Curitiba, 1964) é poeta, cronista e editor. Os seus poemas foram selecionados para três edições do Prémio Off Flip de Literatura, integrando as coletâneas de 2006, 2008 e 2010. Publicou o livro de poemas Tranverso, pela Kotter Editorial, em 2016; e o livro de crónicas Ninguém nos Salvará de Nós, também pela Kotter, em 2021. Vários textos seus podem ser encontrados em suportes eletrónicos ou de papel, tais como Mallarmargens, Jornal Relevo, Cândido, Pássaros Ruins, Radiocaos e Musa Rara (Brasil); Revista InComundade e Leiria Poetry Festival (Portugal). Vive em Lisboa, onde é editor da Kotter Portugal. Desde abril de 2019 escreve crónicas para o Jornal Plural, nascidas das suas andanças pelas terras portuguesas.

  

Ontem pela manhã o telefone começou a tocar. Pessoas próximas me desejavam um feliz aniversário: os filhos, a mãe, alguns amigos, o irmão. Eu agradecia, satisfeito por terem se lembrado de mim. Uns ligavam do Brasil, outros daqui de Portugal, mas era como se estivessem todos por perto. O calor do seu afeto ia aquecendo o fundo frio que acompanha meus pensamentos nestas datas. Graças a eles e à companheira, que me dedicou uma atenção carinhosa ao longo do dia, passei razoavelmente bem pelo ligeiro incômodo que os aniversários me causam. Pensar que os outros podem me esquecer ou que falam comigo por mero protocolo me deixa contrafeito ou desoladamente efusivo.

Quando fui me deitar, à noite, respirei fundo: estava livre do “meu dia”, da terrível convenção segundo a qual aquela data reserva algo de especial para mim. Já podia voltar ao tempo verdadeiro, ao tempo anônimo de toda gente. Adormecer com a cabeça confortavelmente acomodada em minha ineludível insignificância.

 

            Hoje é domingo. Escrevo diante desta janela bem no alto do prédio, de onde vejo a cidade ainda meio adormecida, sob o azul esbranquiçado onde às vezes some uma gaivota. Procuro responder à pergunta que meu filho mais velho me fez ontem. “Como você se sente?”, disse ele, num tom ambíguo que hesitava entre me provocar e não querer a resposta. Na hora falei algo banal, “vou bem”, “vou levando”, não lembro ao certo. Na verdade fui pego de surpresa. Mas a pergunta dormiu ao meu lado, levantou-se da cama comigo hoje, ficou me rondando como um cão à espera de atenção.

            “Como você se sente?”

           

            Depois de conhecê-la por cinquenta e oito anos, não vejo grandes motivos para festejar a vida. O que houve de melhor foram respingos de alegria, fumos de prazer numa senda de monótonas inquietações. O trágico disso é que também não chego a deplorar a existência, pelo menos nunca a ponto de querer abandoná-la. De tal maneira que me arrasto aos pés do que quase sempre me faz sofrer, como um amante maltratado e servil. E a sabedoria que se supõe colher desta experiência excruciante não vai além de algumas técnicas para diminuir a humilhação, como fingir indiferença ao futuro (carpe diem!) ou buscar na arte o sopro divino que me nega o carrasco.

             Essas considerações poderiam levar você a me supor um homem triste. Ou ultrajado pela sua condição, no fundo fraco. E você estaria certo, mas também errado. Porque ao mesmo tempo sou (absurdamente) forte, como o protagonista de O Castelo, aquele agrimensor que não desiste de buscar o alto, apesar dos labirintos insolúveis que lhe oferecem os poderes terrenos. Então você também poderia, claro, me perguntar o que é o “alto”, mas tal qual o agrimensor jamais chegarei lá, não sei nem nunca saberei o que seja. Simplesmente sou impulsionado pela força cega da vida, o eros que pode conceber e pode matar, jamais deter-se. (Toda a civilização oscila entre estes dois extremos, de criação e destruição, e senta-se diante do prato de sopa como um pássaro exilado do céu.) O alto é talvez apenas o contrário do baixo, do reles, do chão, daquilo a que estamos condenados. Às vezes acredito que é também uma lembrança, a nostalgia de uma completude perdida. O que há em nós de obscuramente divino, se você quiser. Mas outras vezes acho que é apenas nosso corpo com uma saudade oceânica da matéria inanimada, liberta de existir. Não sei; por mais que lhe digam o contrário, ninguém realmente sabe. Não saber parece ser o combustível indispensável para que a roda do mundo gire.

            E aqui, talvez, eu consiga dizer algo que pode ser útil neste espetáculo a que somos lançados nus, sem saber o texto, divisar a plateia ou conhecer o diretor. Digo a você que fuja dos que sabem, dos que professam certezas, dos que “conhecem o caminho”. Tudo que eles querem é escravizar o elenco, amealhar para si a bilheteria e os aplausos. Não lhe trarão nada que sequer se aproxime de amor ou afeto, porque estão comprometidos com a mentira até os ossos.

Você pode achar esquisito, mas o que sinto agora é ternura e respeito pelos confusos, pelos hesitantes, pelos tímidos, perdidos, céticos, por todos aqueles que caminham sobre a mais profunda ignorância, sem impor seu exemplo a ninguém. Os que não querem dominar os outros porque não transformam em matéria de ressentimento ou menosprezo a sua própria insuficiência e, pelo contrário, olham com fraterna largueza para a nossa pequenez.

Para estes abro minha porta, com eles compartilho água, comida, calor. Sei que não irão me devorar nem exigir de mim um predador nauseado.  

Mas evito os que “sabem”, os que se arrogam os poderes do céu e da terra, os que escravizam os outros com verdades que não passam de ilusionismo tirânico, destilado por uma vaidade rasa, violenta, estúpida. Evito os pastores como uma ovelha que sabe que vai ser abatida pelo seu zelo.

 

O que sinto hoje, meu filho, é essa paz relativa que só a derrota pôde me dar. E a presença protetora de um anjo cabisbaixo, esquivo. Poderia chamá-lo de anjo da nossa incerteza.



           

           

            

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Oblata



PAULO BRITO E ABREU









SONETO CLÁSSICO

( avoco, para a Musa minha, o 6 de Ouros )

«A arte só faz versos, apenas o coração é poeta.»

André de Chénier

Não pede Amor a pena, minha Dama,
Não pede Amor a mágoa, mas só quer
A vida, ó flor, o néctar, o prazer
Prosternados na luz e verde rama.

Quer Amor pela paz, e inda que brama,
Inda que sofra Amor pela mulher,
A amorosa tarefa busca o Ser,
Sofre Amor pela paz de quem vos ama.

Porém, quer verde Vénus, quer Maria,
Se apuram em vós, flor, que vós sois Flora.
Cantam Zéfiros, cantam, cantaria

Eternamente Amor pela pastora,
Mas tenebrosa Dor, por varonia,
Sofrera só por si, minha Senhora.

Lisboa, 10/ 01/ 1992

SPES MESSIS IN SEMINE

POETA, JORNALISTA, BIBLISTA E ALFARRABISTA

PAULO JORGE BRITO E ABREU   

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Menino da Mátria

PAULO BRITO E ABREU













MENINO DA MÁTRIA

( avoco, para a Musa minha, o Arcano do Sol )

Quando o sono chega, alfim,

Vem a Bela, e canta a noite…

Morfeu dono do jasmim,

Sê princesa de cetim,

Ninho sê, onde me acoite.

Vem a Bela, ó Mãe serena,

Qual avena vem cantando,

Vem cantando a cantilena

Minha Musa bem Camena

Até quando? Até quando?

Dorme, dorme, filho meu,

Que é já tarde e vem a Lua…

Imagina que és Orfeu

E a menina do Romeu

É só tua, é só tua.

E descansa a criancinha

Que no sono é todo o homem…

Têm o leito por bainha

E a Lua por madrinha

As crianças que já dormem.

Mas cautela, que o herói

Desta história, é uma quimera…

Pois o tempo a vis corrói

O homem diz ( como isso dói! ):

– Minha Mãe, que foi, que foi?

– É que foi-se a Primavera.

Tomar, 05/ 09/ 1994

MENS AGITAT MOLEM


POETA, JORNALISTA, BIBLISTA E ALFARRABISTA

Nadia e Dylan




     
FILOMENA MARONA BEJA












Acordou-se de madrugada muitas vezes, nesse Verão.

     Verão de 1976. Quente. Ligava-se o rádio e sabia-se dos trinta graus, ou mais, que se previam para lisboa.

     Menos, de certeza, no Canadá. Montréal. Cidade onde estavam a acontecer os Jogos Olimpicos.

     Que horas são?

     Cinco. Já de manhã, por aqui. Meia-noite, do lado de lá do Atlântico. E imagens de televisão a saltarem de fuso em fuso, a chegarem cá quase em directo.

     Uma garota, em cima de uma trave. É magra. Malha de ginástica branca, laço branco apanhando-lhe o cabelo num rabo-de-cavalo. Franja para a testa. Estica as pontas dos pés, dobra a cintura. Movimentos perfeitos. Parece que vai rodar.

     E nisto, uma guitarra. Uma voz.

Pistol shots ring out in the barroom…

… … …

     A garota parada, braços em arco por cima da cabeça. Talvez aquelas palavras venham do nada, não as percebe. Não sabe inglês.

     A voz, porém, fascinava-a.

Enter Patty Valentine from the up hall,

She sees the bartender in a pool of blood

Cries out, “My God, they killed them all!” 

     Por instantes, só a guitarra se fez ouvir. E logo a voz configurou,

Here comes the story of the Hurricane!

     A voz (voz de homem) repetiu a estrofe.

     A garota, pela primeira vez naquela língua e sem saber como, pronunciou com ele,

… … the story of the Hurricane!

     Tinha catorze anos, nessa altura.

     “O que quererá isto dizer?!…”

     Ainda imóvel em cima da trave a garota decidiu, “Hei-de saber”.

     De seguida, o nome dela nos altifalantes. Um sinal do treinador.

     Ela adiante, atrás, flectindo, ficando a prumo.

     Palmas. E, minutos depois, pontuação máxima,

     MEDALHA DE OURO!

     A guitarra voltou no intervalo, antes do pódio.

     Voltaram as palavras,

… … And so, Patty calls the cops

And they arrive on the scene

 with their red lights flashing,

In the hot New Jersey night… …

     Contavam um caso que aconcera, anos antes. E voltariam, insistentemente, até ao fim dos Jogos.

     Até lá, a garota foi fazendo pinos, fazendo arcos. Voando. Encantando.

     Quem cantava dizia que, quando se dera o tiroteio, Rubin Carter e uns amigos andavam por perto. No entanto, deveriam ter sido mais cuidadosos.

     Pois deviam,

If you are black,

You might do well

not show up on the street.

     Na sua lingua, a garota perguntou,

    “E quem é ele, Rubin Carter?…”

The champion of the world,

     Respondeu-lhe a voz. A canção.

     Fora campião de boxe. Preso por participar no tiroteio de New Jersey, disse sempre que nada tivera a ver com aquilo. Ficou na prisão quase duas décadas até que se provou: Inocente!

     Realmente, estava inocente. Assim se escrevera no poema.

 HURRICANE!

     Assim se cantara.

     Ele, o cantor, tinha então trinta e cinco anos. Era

Bob Dylan.

     Ela, a garota que nos Jogos de Montréal ganhou três medalhas de ouro, uma de prata e outra de bronze, chamava-se Nadia,

Nadia Comaneci.

     Nadia era romena.

     Voltou para a Roménia, depois dos Jogos Olímpios de 1976. Mas não para casa, não para Onesti. Ficou em Bucareste. Aprendeu inglês, tornou-se fluente. Aprendeu francês.

     Era, porém, difícil viver na Roménia daquela época.

 Quartos sem janelas, dias sem liberdade,

 como se ouvira em Montréal, na voz de Bob Dylan.

     Então, nas primeiras semanas de 1989, Nadia – Nadia Elena Comaneci – meteu-se a caminho. Atravessou o Inverno, a neve, o gelo. Clandestina, passou para a Hungria. Chegou à Áustria.

     Depois, a América!

     Tornou-se americana. Casou e tem um filho.

     Antes de o filho nascer, Nadia já sabia como lhe iria chamar.

     Sim. E o nome que lhe pôs foi,

                                     DYLAN! 

Sintra,

Março / 2020.

Se castigo é dor

OFÉLIA CABAÇO

Ofélia Cabaço é natural de S. Miguel Açores, vive atualmente em Sintra e estuda Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa. Tem 63 anos, trabalhou em secretariado, gosta de jardinar e cozinhar. Aos doze anos de idade recebeu o primeiro prémio de poesia lírica, nos Jogos Florais de Luís de Camões, então, aluna da Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada, participou em revistas e jornais da sua escola. Escreveu O Aroma da Criptoméria em 2012, Folhas ao Vento em 2013, o Gatinho Jacinto em 2015 e Groselhas em Flor em 2020. Tem participado em várias Antologias de Poesia.


Se castigo é dor,
Eis-me destroçada
Como árvore arqueada
P´lo vento que não é justo,
Movida pela certeza
De por ninguém ser amada,
Por tudo isto,
Não desejo falsidade,
Nem fingido amor
Quero antes, em dificuldade
Viver uma doce tranquilidade
No meu coração sentir brancas noites,
E, olhar a Lua, além, encantadora,
Por entre noites incandescentes
Precedentes auroras sonhadoras,
Se castigo é dor,
Sou lápide e ardor…


domingo, 28 de junho de 2020

Dois poemas de Maria José Bento

MARIA JOSÉ BENTO





Maria José Bento nasceu a 13 de Março de 1960, e desde muito nova tem o gosto pela escrita. Costumo dizer que é “poeta” de gaveta, mas é das muitas gavetas dos nossos inúmeros poetas que temos de libertar a poesia e espalhar a magia da palavra.





“…FALO E DIGO…”

Assim falo e digo
Do poder da multiplicidade,
Não sentir vaidade
Da camada de nervos.
Da perfeita química do físico
Da energia fundamental,
Numa marcha triunfal
Da aparência, do sujeito.
Até do objectivo, da forma
Do além da vida,
Com a alma anda metida
Até do jogo das escondidas
Das intenções, da arte
Do que queremos e fazemos,
Do que pensamos e dizemos
Do que já está feito…
Do final, do perto, do longe
Dos poemas que quero e faço,
Nos gestos de repulsa ou de abraço
Porque tudo se vive e é vida!
Paro, escuto, e reconheço o querer
O som da minha voz no ar,
Anima-me a capacidade de julgar
E ser alguém que vive de energia!


“FALTA…QUALQUER COISA!”

Falta sempre qualquer coisa
Até a mim falta também,
Falta em cada cubo seis lados
E o saber exprimir bem!

Quatro lados em cada quadrado
A solidez na dimensão do papel,
Perpetuar o movimento da corda
Não sentir estático o cordel!

Criar mais movimento nos versos
Que as células não sejam…verme,
Na música criar todo o ritmo
Não temer na vida o treme-treme

Nunca copiar o eco das coisas
Ver no espelho o reflexo real,
Vibrar com a sensibilidade
Ter lucidez, não ser ilegal!

Falta cantar, sem poder cantar
Não dar o canto por conveniência,
Fazer dos gestos uma roda alta
Para não ver insipida a existência!




terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Terceiro Capítulo


TUGAREG

Tugareg nasceu em Junho de 1957, no antigo hospital de Sintra, foi Saloio sem o sentir, já que a sua ascendência e vivência eram Beirãs. Estudou no colégio Dom Afonso V, e no liceu de Sintra, acabou por seguir para gestão de empresas, já que na época a faculdade de Belas Artes lhe pareceu demasiado politizada, vazia de ensino, época das passagens administrativas, de grande convulsão social e estudantil, inviabilizaram o gosto pela arquitetura.
Pai solteiro aos 19 anos, foi obrigado a abraçar a vida real deixando a chama pela música adiada, trabalhando de dia e estudando à noite. Nos poucos tempos livros foi descobrindo Sintra, uma de suas paixões, outra, a escrita, foi tomando forma, pequenas poesias, formaram um livrinho, impresso em casa, 40 exemplares de "escritos dedicados" à família e amigos, sobre a forma de prenda de Natal em 2002.
Um dos "amigos", num livro que publicou decidiu plagiar alguns dos poemas e a conselho da escritora Raquel Ochoa, com quem fez um curso de literatura em 2016, acabou por registar todos os seus escritos e títulos na SPA. Vários livros começados, que um dia serão concluídos, e muita prosa solta, são ainda só um fraco espólio.

João Ribeiro olha uma última vez para Grazina antes de adormecer e fica a matutar no que lhe tem vindo a acontecer nos últimos tempos.
Imagina-se ainda no Oriente e na chegada dos Espanhóis a quem os Reis Portugueses tinham acabado de entregar as ilhas Molucas.
Sentiu na pele as consequências, de quem perde o que tem, uma vida boa, casas, fazendas, ganhas à custa de ter emigrado por ser preciso expandir a Fé e o Império, sentiu as consequências do mandar político, que com uma mão lhe abre novas possibilidades e com a outra lhe manda regressar ao reino com o que pudesse trazer.
Quis a sorte que um Espanhol se engraçasse com ele e lhe comprasse os bens imóveis, umas quantas Dobras, foi justo esse Catalão, já que se tivesse esperado  poderia ter ficado com eles de graça.
Dois elefantes que possuía trocou-os por especiarias e jade, um terceiro deixou-o a um seu criado á laia de agradecimento.
De outros mealheiros comprou diversas mercadorias, que sabia render bom dinheiro em Portugal, a um outro elefante que morrera para lhe salvar a vida, serrou os cornos, curtiu-os e encheu-os de pimenta, achou que tinha o resto da sua vida garantida.
Ele e a sua garantia embarcaram rumo a Portugal, vinham as caravelas cheias, com ele vinham outros retornados e alguns Espanhóis, a um deles  de nome Alvarez iria ficar a dever  vários favores, tal como o elefante também Alvarez iria morrer para lhe salvar a vida, do elefante aproveitou o marfim, do homem herdou uma promessa que teria de pagar em Espanha.
Antes de África avistaram um barco de piratas e dele fugiram, rumando para terra na esperança de entrar na foz de algum rio ou abrigarem-se numa enseada das que sabiam haver a norte de Moçambique, da Armada, que soubessem, só sobravam eles, no horizonte viam fumos de combate, ajoelharam e rezaram pelos companheiros que àquela hora se estariam a apresentar ao Criador .João Ribeiro e Alvarez estavam lado a lado, estrangeiros um do outro, o medo? era  o mesmo, perceberam a sua pequenez e a grandiosidade de Deus, capaz  de lhes conceder abrigo, e receber ao mesmo tempo, rezas em línguas diferentes, foi neste momento que deixaram de ser estranhos.
 Incólumes, acabaram por meter ferros com terra á vista, acoitados de ventos e de piratas, a noite que chegava, ajudou-os a esconderem-se.
Com o nascer do dia renasceram os medos, do alto do mastro, um marujo procurou os perigos, do lado do mar não os havia, para norte e para terra também não, a sul havia dúvidas. Avistou ao longe, junto da costa, um dragão negro a sair da água, que lhe pareceu, não estava certo…
Logo no convés, se puseram alguns a rezar, nada melhor que apelar para um especialista, quando estão em causa matérias do desconhecido, que se fossem dali! antes os piratas! que deles sabiam com o que podiam contar.
O mestre do navio, mais avisado que os restantes, quis que para lá rumassem, que dragões nunca nenhum houvera visto vivo, e que aquele por não se mexer, a ser dragão já estaria morto. É destas vontades, destas buscas, deste destrinçar de fenómenos, que os homens vão roubando aos mistérios Divinos e acrescentando ao conhecimento. Levantaram ferro, e pelo meio do dia avistaram os destroços do que  lhes pareceu ser uma caravela, estava negra, encalhada, na popa só restavam os vigames principais, a proa estava inclinada para cima e menos destruída, tinha havido um incêndio…
Mandou o mestre que baixassem três bateis, dois iriam a terra em busca de água, frutas e mais que houvesse que lhes desse préstimo, o outro que fosse com cuidado investigar o dragão morto, riram-se da graça e do alívio, desta vez ninguém rezou.
Entraram terra a dentro, com as barricas as costas, um olho nas feras, outro no desconhecido e encontraram uma lagoa de água caída de uma cascata, era límpida, e por nela viverem rãs e peixes a tomaram boa para beber, outros colheram alguns frutos, depois das provisões prontas, banharam-se e de homens rudes apareceram crianças, brincando, chapinhando na água, alheios aos perigos, ás feras, aos fogos de dragão, limpando a salmoura acumulada e a maldade.
Um deles colocou o indicador da mão em frente dos lábios, em sinal de silencio, todos se calaram e agachados ficaram onde estavam de ouvidos aguçados, para além da água a cair, ouviram um restolhar, na selva, nus na água, indefesos  se encontraram, esperaram mais um pouco algo no meio do mato se abeirava da lagoa, um correu na direção das vestes e das armas, os outros seguiram-no, o que ia na frente, cobriu-se, não enfrentaria o perigo despudorado.
Um grande vulto correu na sua direção, pegou no arco, apontou e de uma flechada feriu de morte um grande porco do mato, as vestes caíram junto com o porco e do medo passou-se ao riso, haveria rancho melhorado nesse dia.
No outro batel misturavam-se os cuidados com a audácia e nas águas claras ao aproximarem-se puderam ver a caravela encalhada.
Experientes que eram, colheram informações, não havia vestígios de batalha, o que não ardera estava pronto a navegar e não entendiam o que se passara, alguns mergulharam em busca de tesouros e de esqueletos e nada encontraram a não ser peixes, era certo que não havia ninguém a bordo quando afundara, nada aproveitaram, também não havia carga a bordo, logo alguns se encheram de maus presságios e quiseram ir dali, rodearam pela proa e logo abaixo da linha de água estava escrito “São Rafael”.
Era portuguesa, não havendo mais nada quiseram salvar a placa com o nome, e entregá-la em Lisboa, mas o mar já tinha decidido que a mesma era dele, que o querer dos homens nem sempre vence o querer do mar, e quando já a tinham solta do casco, a placa escorregou, e afundou de imediato, ainda dois deles mergulharam para a trazer, um ultimo mergulho, o marinheiro demorou-se quanto pode e quando veio à superfície trazia algo em cada mão, eram lagostas, do esforço sempre se aproveitou algo para além do relatório que teria de ser escrito no diário de bordo.
Recolheram-se os batéis, levantaram-se os ferros, e sem demora rumaram a sul, que o vento era favorável, navegaram sempre com terra à vista e nessa noite foi grande a festa, água nova, carne fresca, e outros mimos faziam esquecer as agruras dos últimos dias e com o moral e as velas ao alto se aproximaram da ponta sul de África.
João Ribeiro ficou desperto, chegou  alguma lenha para a fogueira, olhou o corpo adormecido de Grazina, que não tinha mares que lhe tirassem o sono, pelo fogachar do lume pode perceber o corpo belo por debaixo das cobertas e encheu-se de desejo, ao lado estava Pavel, ressonando, lobos uivavam ao longe na noite, afastados pelo sentir dos cães e dos ursos, sentiu-se seguro, pior, já ele sabia iria ser, o recordar da ida para o cabo da Boa Esperança que todas as noites o atormentava, deitou-se esperando o inevitável…
Fechou os olhos e imediatamente se viu em pensamentos, dentro da caravela no canal de Moçambique.
Recordou que até ali tinha escapado das febres, viu-se dias depois prostrado com dores agarrado à barriga, de todos só o espanhol Alvarez de Sá Plama passava incólume, seria da água? Que por lá viverem rãs e peixes não era garantia que fosse boa para homens, que destes nem sinal de os haver por lá.
Não se conhecia a maleita e por isso não se conhecia o remédio, e a bordo pouco mais havia que chás, rum, e ópio, nenhum dos três fazia efeito e estando João em grande sofrimento ouviu Alvarez sussurrar: - masca estas folhas, e tirando de um alforge lhas deu sem que os outros vissem, tenho poucas, para nós bastará…
Melhorou em três dias e das Dobras que trazia quis que Alvarez aceitasse algumas, este recusou dignamente, pagaria ele e as gerações futuras com amor e amizade.
O vento sempre soprou de feição, cada dia que passava ficava mais forte, ele e as correntes empurravam a embarcação para os limites em choque, daquele mar com outro, a velocidade aumentava, ficou vertiginosa, as ondas elevavam a massa flutuante de madeira carregada de almas e de seguida baixavam-na no abismo.
Chovia quando se aproximaram de desdobrar o cabo que tanto era da Boa Esperança como das Tormentas, o céu, o mar e o vento estavam entregues ao Demo e este divertia-se a empurrar a caravela para as rochas, os marinheiros tudo faziam para o contrariar, conscientes de que uma parte das suas almas também era Dele, não havia padre a bordo e muitos não tinham como confessar os seus pecados, iriam para o inferno…
O mestre dava as ordens no afrouxar das rajadas do vento, os marinheiros mal as ouviam e tudo faziam por manobrar o navio na direção do mar alto, em  vão, um rochedo abriu um rombo no casco, o estalar da madeira fez aparecer a sombra da morte que entrou na forma de água dos oceanos, inundando o porão, arrastando homens, galinhas e cabras, caixas de sonhos e outras mercadorias.
O barco começou a querer afundar, e logo o mestre ordenou que deitassem carga ao mar, apontava a proa do navio, ora para as ondas, ora para longe de terra, no meio destas escolhas acreditou que iriam naufragar, clamou pela ajuda de Deus.
João Ribeiro, empenhado nos seus afazeres de salvação, viu que no meio do tributo que estavam a pagar, sob a forma da carga que jogavam borda fora, estavam alguns dos seus pertences,  correu para salvar o mais valioso, abriu um dos baús e tirou as dobras, os cruzados e o jade, tirou também os dentes de elefante com a pimenta e atou-os às costas, nem tudo se perderia se dali saísse vivo.
Com a carga no mar, o mestre arriscou mais para ocidente, estalavam as ondas agora de lado, inclinando o navio perigosamente, as velas estavam no limite do rasgar, todo o vergame rangia e estalava, os homens não se tinham de pé, arrastados pelas ondas que varriam o convés.
A água continuava a entrar, apesar de alguns  terem empurrado trapos e pregado um baú na direção do rombo, neste baloiçar violento, João agarrou-se ao bordo do navio com todas as suas forças, os cinco dedos de cada mão cravados na madeira e dali não os tirou, por várias vezes o mar lhe arrastou os pés e caiu, mas nunca soltou as mãos da amurada, Alvarez foi ter com ele, para que se abrigasse melhor, ao que João retorquiu, que se tivesse de morrer, seria ali e não nas tripas rebentadas de um navio, uma onda mais forte quase os arrastou, e Alvarez reparou que os dedos  de João sangravam do esforço, sabia que o amigo português ainda estava convalescente e não se aguentaria muito tempo, respeitou a vontade, talvez a última, e atou-o com uma grossa corda á amurada, pondo em perigo a sua própria segurança, já que para além destes dois, apenas o mestre e os homens necessários para manobrar estavam no convés, expostos ao vento e ás ondas, todos os outros estavam recolhidos no porão, agarrados ao que podiam, aos tombos os que tentavam tapar a entrada da morte.
Uma ponta de um rochedo aflorava na frente do navio e parecia que o Demo se tinha enfastiado deste jogo e queria partir para outra diversão acabando com este, o mestre percebeu que não haveria mão de homem que evitasse o choque, mesmo assim,  rodou ele e mais dois outros a roda do leme até ao fim e fechou os olhos esperando o inevitável…
No último momento o navio rodou, inclinou os mastros para terra, algumas velas rasgaram-se molhadas, arrastaram cabos e varas de madeira, um dos mastros partiu-se e resvalou lascado para o centro da caravela.
Deus, embora tardio, fez a sua aparição, ocupado que estava a empurrar  das rochas para o mar outros navios e a salvar outras almas, quase não chegava a tempo de desviar este da meta do Diabo, é certo que ao longo dos tempos já tinha desdobrado estas tarefas divinas com Alá, Jeová e outros santos e ajudantes terrenos, tendo cada um a seu cargo e ao seu jeito rebanhos humanos, sendo que na falta de um acodem os outros, tendo depois de repassar os agradecimentos à respetiva divindade.
Vigilante e apressado, tratou de amainar os ventos a este oceano já Atlântico, deixando a caravela a navegar mais sossegada e foi cuidar de resolver outros desastres ou jogos do Diabo, não reparando que Alvarez se esvaía em sangue debaixo das lascas de madeira e do peso do mastro que desabara.
Não reparo fatal para Alvarez, que acreditava que Ele escrevia direito por linhas tortas, e não um Deus vigilante no geral e distraído nos pormenores.
João Ribeiro conseguiu finalmente libertar os dedos da madeira, desatou-se, e foi acudir ao amigo espanhol  com o resto das forças que lhe sobravam, e outras que foi buscar não sabe onde, levantou o mastro com a ajuda de uma alavanca, Alvarez arrastou-se no convés, livrando-se da madeira, não da morte, João sentou-se no chão tomando o amigo nos braços, sabendo que mais não podia fazer por ele que ajuda-lo a não morrer sozinho.
Os olhos verdes de Alvarez focaram os castanhos de João e pediram-lhe que, se chegasse á Ibéria, agora terra de ambos, que fosse ter com a mulher e os filhos a Ciudad Rodrigo e lhes entregasse o seu amor e uma bolsa que Alvarez tinha com ele, estrebuchou, jorrou uma golfada de sangue pela boca, e a sua alma foi atrás de Deus que pelo tempo ainda não estaria longe,  João prometeu aos olhos  já mortos que o faria.
Passou-lhe a mão pelo rosto e em caricia fechou-lhe os olhos, o  céu, que entretanto tinha ficado azul, apagou-se para Alvarez, chorou abraçado ao cadáver, reviu a amizade longa na intensidade, curta no tempo que viveram, revistou-o, encontrou a bolsa e um terço de jade que guardou, descalçou-lhe as botas e deu-as a outro que tinha ficado sem o que calçar na tempestade, sem mais o que aproveitar pegou no falecido ao colo e caminhou com ele até á borda do navio, no caminho ouviram-se rezas e choros, mais quatro mortos, trazidos do porão se alinhavam por onde horas antes tinham deitado a carga ao mar, encomendaram-nos a Deus, não esquecendo de encomendar outro arrastado pelas ondas, por baixo acabavam de calafetar o rombo com estopa, sisal e pez, já não entrava a água, jogaram os corpos no mar, deitaram a morte fora e foram com baldes tirar a que tinha entrado.
Mais tarde, João, deitou-se no convés a olhar o mesmo céu azul, o sol poente ainda teve tempo de lhe secar as vestes e um pouco da tristeza que trazia, finalmente relaxou os dedos das mãos, abrindo-as, o mestre, cúmplice na dor, deu-lhe a beber um pouco de rum, neste calmo torpor quente, João Ribeiro finalmente adormeceu.
Já em sonhos, ainda teve tempo de rever o resto da viagem até Lisboa, o reencontro que tiveram em alto mar com outra das caravelas que tinha partido com eles das Molucas, escapara dos piratas e passara dias depois deles pelo cabo já com a tempestade acalmada.
Chegaram-se a eles e ajudaram nas reparações, partilharam alegrias, provisões e cargas, mais leves e juntos depressa chegariam ao destino.
Já num sono profundo, ainda sonhou com o escorbuto que apanhou já no final da viagem e de que se recompôs já em Lisboa, perto de si Grazina sonhava com ele…