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sexta-feira, 11 de março de 2016

Música erudita,- o novo Festival de Sintra

JOÃO CACHADO

Seja qual for a escala da vida cultural que se tiver em consideração, desde a local à da região metropolitana e, em muito menor grau, nacional ou internacional, a primeira constatação a assinalar é a evidência da cada vez mais reduzida visibilidade e diminuto impacto do Festival de Sintra.

 

No entanto, até há relativamente pouco tempo, a situação era totalmente diferente. A própria experiência no-lo confirma já que, durante décadas, muitos de nós nos habituámos a contar com os eventos programados pela organização do Festival como mais uma possibilidade de acolher em Sintra os nomes mais sonantes, por exemplo, da pianística mundial.

 

De facto, o Festival de Sintra era um acontecimento especialmente aguardado. Quem o frequentava sabia que, pautando-se a programação por rígidos padrões da mais alta qualidade, podia perspectivar a presença dos mais destacados músicos. Tanto assim sucedia que, ao longo de anos, com toda a pertinência, bem pude escrever que o Festival era o mais sofisticado produto cultural de Sintra sem que ninguém ousasse contradizer.

 

Atingiu-se uma tão alta fasquia, que, manifesta e naturalmente, a iniciativa era remetida para o patamar da excelência. Apresentando-se como o mais antigo, o Festival também era considerado o de maior prestígio, olhado como paradigma e, no melhor sentido, ‘invejado’ porque contava com os meios que lhe permitiam ocupar posição tão destacada no panorama da música erudita nacional.

 

Motivos de ordem vária, cujo enquadramento socio-cultural impõe que sejam devidamente analisados e registados – com indicação da correcta cronologia das opções estratégicas de sucessivos executivos autárquicos –  resultaram no actual modelo. Desde já fique muito claro que não estou fazendo quais quer juízos de valor quanto à qualidade e, muito menos, a cerca de dois meses do início da próxima edição.

 

 

Tendo alcançado ímpar notoriedade nacional e gabarito internacionalmente reconhecido, circunstância a que Sintra se habituou durante 50 edições, lembrarei que, a título de mero exemplo, no programa de 2008 apareciam os nomes de Grigory Sokolov, Viktoria Postnikova, Nikolai Lugansky, Kirill Gerstein, Valentina Igoshina, Denis Matsuev, Larissa Gergieva (que, na altura, era «só» a directora artística do Conservatório Mariinsky de São Petersburgo), Eldar Nebolsin, etc. E, novamente, em 2012, o mesmo Grigory Sokolov, nada mais nada menos do que considerado o maior pianista vivo.  

 

Na realidade, não é fácil que, a seco e desapaixonadamente, consigamos articular as memórias de um passado não muito longínquo, memórias referentes à presença dos nomes mais sonantes, os tais galácticos, com as realidades da programação actual, cujas características induzem algumas dificuldades de interpretação sempre que se pretende concretizar o inevitável exercício das comparações com a qualidade de outros festivais nacionais mais recentes.*

 

Tenho afirmado, e confirmo, que é possível organizar um festival, com uma certa dignidade, sem a presença de galácticos. De qualquer modo, conhecedor profundo que me considero da história de um festival que comecei a frequentar ainda garoto de calções, nos anos cinquenta do século passado, o que não posso é deixar de recordar o seu palmarés absolutamente honroso, património que exige estar e saber estar à altura de tamanha responsabilidade.

 

Um Festival outro

Pois bem, confiando aos actuais responsáveis pela programação do Festival de Sintra a difícil tarefa de compatibilizar tão difíceis ingredientes, seja-me permitido partilhar uma sensação de certo alívio na medida em que uma alternativa relativamente recente protagonizada pela Parques de Sintra.  

Para o efeito, tenhamos presente que, com o concerto do passado dia 4 do corrente, terminou o Ciclo dos Serões Musicais do Palácio da Pena, altura propícia para vos pedir que considerem mais dois ou três eventos que, com este, se relacionam inequivocamente.

Além desta iniciativa que, em pleno Inverno, explora os mais evidentes aspectos de uma envolvente ambiental do Romantismo cultural, tão propício no Palácio da Pena, reparem que a Parques de Sintra ainda é promotora de mais duas de grande relevância.

Refiro-me, primeiramente, em pleno Verão, aos Reencontros - Memórias Musicais de um Palácio, privilegiando a produção musical medieval e renascentista, e, em segundo lugar, às Noites de Queluz - Tempestade e Galanterie, proposta afecta à música dos períodos barroco e clássico, em expressos ciclos primaveril e outonal.

Palácio da Pena, Palácio da Vila, Palácio de Queluz, lugares da maior sofisticação, sejam quais forem as coordenadas geográficas em apreço, que acolhem uma programação cuidadíssima, do mais alto nível, nos termos da qual temos assistido a recitais, concertos e ópera concertante, contando com as prestações de alguns dos mais autorizados especialistas de fama mundial.

Em face deste quadro excepcional de iniciativas, uma conclusão evidente não pode deixar de se retirar: através desta intervenção cultural, a nossa Sintra - lugar que se orgulha da passada fama do seu Festival de Música - está a recuperar e, nitidamente, a ultrapassar aquelas marcas de um saudoso passado de grande prestígio e notoriedade.

Actualmente, portanto, temos a possibilidade de aceder a ciclos da melhor música de todos os tempos, em locais únicos, praticamente ao longo de todo o ano! Ao apostar numa tal estratégia, o Conselho de Administração da Parques de Sintra bem pode orgulhar-se de já contar com um público que esgota os eventos, público que, das mais diferentes proveniências, se desloca expressamente para o efeito.

Trata-se de um investimento à altura dos pergaminhos da Parques de Sintra e que já está a render os mais significativos dividendos. Este, um novo Festival de Sintra, com a presença de outros galácticos, deslumbrados com as condições de que aqui dispõem, e dos mais significativos nomes nacionais. Este o Festival outro, com as suas diferentes vertentes de música erudita, que percorre mil anos da mais notável produção musical europeia e já tanto lugar ocupa como iniciativa cultural do maior prestígio.

 

Grigory Sokolov, por muitos considerado o maior pianista vivo, participou algumas vezes no «antigo» Festival de Sintra
 
Inequivocamente, o mais prestigiado dos pianistas portugueses, Artur Pizarro já participou em eventos programados pela Parques de Sintra, nas "Noites de Queluz, Tempestade e Galanterie.



*Mesmo tendo em consideração quaisquer dificuldades financeiras e/ou logísticas na preparação da próxima edição, não consigo entender que motivos ponderáveis poderão ter inviabilizado a concretização de eventos na Quinta da Piedade. Não entendo. A afirmação constante de que Sintra honra a memória da Senhora Marquesa de Cadaval, também passa por manter bem viva a prática de promover a realização de concertos e recitais naquele espaço quase mítico, que a mecenas amorosamente preparou e soube abrir aos frequentadores de um Festival indissociável da sua anual presença.

[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Por linhas tortas, caminho a direito


JOÃO CACHADO

Não será pelo facto de, muitas vezes, fazer a mesma caminhada – entre a Estefânea e o Caminho da Fonte dos Amores, através de ruas imensamente familiares, cujos ínfimos detalhes conheço e reconheço como os da palma da mão – que desaparece ou se atenua a sensação de agressão em relação a tudo quanto de menos positivo vai aparecendo diante dos meus olhos.

Aliás, neste contexto, será em sentido oposto o testemunho a partilhar já que, na ausência de intervenções de beneficiação, as razões de queixa apenas se agravam. Se perguntarem a que tipo de agressão me refiro, confesso que, a mais desconfortável, me levará a mencionar cenários que, há décadas, constituem desgosto dificilmente suportável.

Tempos houve em que, muito provavelmente, devido a falhas de lucidez que a idade se encarregou de suprir, consentia eu que tal quadro me avinagrasse os dias. Actualmente, não. Depois de um fartar de promessas e de muitas palmadinhas nas costas, consigo caminhar serenamente, sem as dores que outros devem carregar…

E, assim, aliando os benefícios para a saúde de uma caminhada diária de seis quilómetros, tenho o privilégio de fazer um percurso invejável – que, em qualquer parte do civilizado mundo, sempre seria incensado devido aos seus incomparáveis e sucessivos ingredientes de beleza – mantendo a boa esperança de que seja transposto o cabo a partir do qual estará à vista a solução para as questões em presença.

Gerais mas bem concretos

Poderia detalhar a rua de pavimento tão irregular que até os condutores de veículos todo o terreno têm dificuldade no seu controlo? Claro que sim. Mas, se o fizesse também teria de me referir ao seu troço pedonal, cinzentão, mal feito, impermeabilizado, a coisa mais horrível de Sintra, antiga artéria comercial cheia de movimento, que, desde o início do século XXI, passou a ser um inqualificável cemitério, tantas vezes transformado em inqualificável parque de estacionamento…

Não, neste escrito, não há necessidade de ir identificando, porque são perfeitamente conhecidos os precisos objectos do desconchavo. Assim, apenas em termos gerais, é que lembro os escorregadios, sujos, irregulares e perigosos passeios, com os lancis partidos, impróprios para pessoas normais e, muito menos, cidadãos com mobilidade reduzida e pais que tenham de empurrar carrinhos ou cadeiras de bebés.

Ou os muros descuidados. E os fios eléctricos pendurados? E as casas? Várias neste percurso, em ruína imparável, decadentes, absolutamente periclitantes, algumas com arbustos crescendo na ponta do telhado, fachadas descoloridas, rachadas, a desfazerem-se, janelas podres, vidraças partidas, deixando aperceber o interior desventrado.

Trata-se de propriedade particular? Nalguns casos, é verdade. E não haverá dispositivo legal que resolva esta questão que carrega um legado de geracional mas tão característica incompetência? Contudo, também há edifícios do património municipal. Por exemplo, na Alfredo da Costa. Claro que não há necessidade de identificar…

Em pleno centro histórico, na Vila Velha, além do mais recente desmando da esplanada, multiplicam-se os casos afins do quadro e da moldura a que venho aludindo. Para quê continuar alinhando mais motivos de desgosto? Com o risco de ser contraproducente?

De uma vez por todas!

Em contrapartida, muito melhor me sinto repetindo a ideia que, tantas vezes, tenho partilhado no sentido de operacionalizar uma entidade gestora da sede do concelho, abrangendo todo o território definido pelas anteriores três freguesias. Em qualquer parte do mundo, com desafios congéneres aos de Sintra, a gestão local é extremamente exigente, totalmente focalizada para a sofisticação dos lugares únicos com que deve estar preocupada, única e exclusivamente preocupada.

De tal modo importantes e sui generis são as necessidades, deste coração do concelho que só uma entidade exclusivamente dedicada, bem dotada de recursos humanos e materiais, com uma boa transferência de competências, poderá estar à altura dos desafios. Para o efeito, porque não se trata de matéria para brincadeira, jamais pensaria na União das Freguesias de Sintra…

“(…) mantendo a boa esperança de que seja transposto o cabo a partir do qual estará à vista a solução para as questões em presença. (…)”

Com tão sincero desejo, poderia terminar. Se não o faço de imediato, é porque gostaria de recordar uma tão sincera quanto frequente atitude do Dr. Basílio Horta. Homem que tem servido a República nos mais diferentes postos da Administração, com larguíssima experiência de direcção e gestão, a quem o país deve inestimável empenho na defesa dos interesses nacionais, o actual Presidente da Câmara Municipal de Sintra queixa-se imenso da lentidão dos procedimentos administrativos.

Como não entendê-lo? Na realidade, como não concordar quanto à ideia de que tudo parece armadilhado para obstaculizar as melhores vontades de bem resolver as situações apontadas? De qualquer modo, perante o desabafo do edil, como toda a compreensão deste mundo, nada adianta para que, em tempo oportuno, os munícipes vejam satisfeitos os seus anseios, então, o que fazer?

Embora com o risco de que seja entendida como simplista ou redutora, a solução passa pela assunção plena, por parte de executivo municipal, de um dos grandes princípios da Democracia e do Estado Democrático de Direito, qual seja o do inequívoco exercício da autoridade democrática que detém para cumprir e fazer cumprir as leis em vigor.

Se tal estivesse a acontecer, em vez da institucionalizada cultura do desleixo, que subjaz a todas, todas as situações anteriormente referidas, razões não teríamos para manifestar estes desgostos.

[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]
 

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Jardins de Queluz- mais uma excelente notícia

JOÃO CACHADO

“A Parques de Sintra arrancou em dezembro com as obras de recuperação do Jardim Botânico nos Jardins do Palácio Nacional de Queluz. Esta intervenção, com um investimento superior a meio milhão de euros, faz parte do projeto global de recuperação do Palácio Nacional e Jardins de Queluz, cujas obras arrancaram em janeiro de 2015. (…)

Esta intervenção surge ainda como resposta à urgente necessidade de recuperação, salvaguarda e valorização do património cultural e paisagístico que os jardins de Queluz compreendem, com o intuito de lhes devolver o caráter lúdico e interpretativo, respeitando a sua composição e a sua relação com a envolvente. (…)”

[Início das obras de recuperação do Jardim Botânico nos Jardins do Palácio Nacional de Queluz. 15 Dezembro, 2015]
____________________________

Quando deparamos com frequentes notícias deste teor, sempre nos ocorre o facto de se tratar de obras que, em todos os domínios, são extremamente significativas, envolvidos que estão valores como a ética da recuperação do património, a estética, a soberba qualidade das intervenções e os custos afins. Porém, tendo em consideração que, no caso da Parques de Sintra, os recursos financeiros têm origem, praticamente exclusiva, no produto das bilheteiras, ainda mais surpreendidos ficamos.

É neste contexto que, de facto, se enquadra a pertinente questão que passo a colocar. Como regatear o preço dos ingressos se, tão manifestamente, se entende, avalia e conclui acerca do alto discernimento e proveito com que são aplicadas as verbas assim geradas? E, assim acontecendo, durante três anos consecutivos, quando, cumulativamente, a mesma entidade promotora das obras é reconhecida como a melhor do Mundo em recuperação do património?! Ah, se coisas semelhantes sucedessem em tudo «o resto», não só em Sintra mas também em todo o país!...

De qualquer modo, como se verifica em todas as latitudes, é invariavelmente caro o preço do bilhete para visita a qualquer monumento congénere. Não pode ser de outro modo. Por isso e para isso, previamente preparam os visitantes a respectiva bolsa. Sabem que é caro. É caro, torna-se caro e, naturalmente, também por este factor tão determinante, a concretização da visita se transforma num evento perfeitamente extraordinário, raro. Repare-se que se trata de um «investimento» cultual que a família decide aplicar, necessariamente, em detrimento de outras opções.

Famílias haverá às quais jamais se lhe coloca sequer a questão de aceder a um tal espaço, não porque não disponham da verba para o efeito mas porque, pura e simplesmente, é coisa que não lhes interessa. Não foram nem estão motivadas, ignoram olimpicamente, têm diferentes opções. Em contrapartida, outras pensarão, frequentemente, em aproveitar todas as oportunidades de acesso o mais conveniente possível.

A propósito, como não propor um pequeno exercício. Imaginem, por exemplo, uma família de Coimbra, de Castelo Branco ou de Beja, de recursos médios, com um mínimo de interesses de ordem cultural. Quantas vezes visitará a Pena em vinte anos, ou na vida inteira? Talvez uma, duas, quando o(s) filho(s) andava(m) na escola, por ocasião de alguma especial comemoração? E os Palácios de Queluz, da Vila, de Monserrate, o Castelo dos Mouros ou o Convento dos Capuchos?

Pois o mesmo acontece na Áustria, país que bem conheço, com uma família de Melk - cidade que faz parte da Paisagem Cultural de Wachau, classificada como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO - de visita a Salzburg. Nem mais nem menos! Visitará uma vez os famosos Festung Hohensalzburg ou Schloss Hellbrunn. E, tanto em Sintra como em Salzburg, todos ficarão com uma extraordinária memória para o resto das suas vidas…

Estes «investimentos culturais» das famílias nacionais e estrangeiras serão, aliás, tanto mais ou menos frequentes quanto mais «viradas» elas estiverem para o mundo da Cultura e menos focalizadas nos centros comerciais e similares «superfícies» alcatroadas, cimentadas ou arrelvadas... Aliás, como não poderia deixar de acontecer, a verdade é que tal conclusão também é evidente no caso de Sintra porquanto, mesmo com o ingresso gratuito aos domingos, é perfeitamente residual a percentagem de munícipes que usufruem essa vantagem tão generosa.

Daí que não me canse de lembrar e aconselhar os residentes no concelho de Sintra a efectuarem as visitas nos fins de semana, na medida em que os 'nossos' monumentos dependentes da PSML gozam desse privilégio absolutamente excepcional, durante todos os 52 domingos do ano. Convém não esquecer que, em relação aos espaços dependentes do Ministério da Cultura, os portugueses apenas beneficiam de regime algo semelhante no primeiro domingo de cada mês, portanto, apenas 12 vezes por ano…

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Desarmadilhar Sintra

JOÃO CACHADO
 
Se ainda precisa fosse qualquer demonstração suplementar para confirmar como Sintra  continua armadilhada, os feriados espanhóis entre os dias 4 e 8 deste mês de Dezembro, que tiveram o condão de exportar para este extremo sudoeste dezenas de milhar de viaturas, acabaram por confirmar como não há sequer uma hora a perder relativamente às soluções que cumpre concretizar imediatamente.

Neste quase fim de ano e, apenas há meia dúzia de dias, tendo celebrado a redonda data das duas décadas da classificação pela UNESCO de Sintra como Paisagem Cultural da Humanidade, gostaria de partilhar com os leitores, pela enésima vez,  algumas preocupações acerca de um assunto indissociável, qual seja o do acesso às sofisticadas peças de património paisagístico e edificado da sede do concelho.

Afectas à administração e gestão da Parques de Sintra – entidade que, pela terceira vez, acaba de ser considerada como a melhor do mundo em conservação do património – Castelo dos Mouros, Palácio e Parque da Pena, Palácio e Parque de Monserrate e Palácio Nacional de Sintra, são autênticas jóias da coroa que, de facto, não poderiam estar mais bem entregues.

Implantadas em plena Serra, nos pontos altos, a meia encosta ou pontificando no Centro Histórico, suscitam a procura anual de cerca de dois milhões de visitantes que, muito natural e justamente, Sintra pretende cativar, no sentido de cá passarem o máximo do seu tempo disponível, com as inerentes mais-valias.

Para o efeito, imprescindível se torna que a significativa percentagem de tais visitantes, que chega a este destino conduzindo a sua viatura, a possa estacionar civilizadamente, tal equivalendo à já decidida mas ainda não concretizada instalação dos imprescindíveis parques periféricos.

É impossível pensar noutros termos, noutro tipo de parques, já que os de proximidade, a exemplo do que aconteceu com o projecto do subterrâneo na Volta do duche, foi liminar e terminantemente condenado, aliás, porque tal hipóteses de solução até já tinha sido abandonada em qualquer latitude com idênticas características

Portanto, só por fatal ignorância, infelizmente, como tenho continuado a assistir, alguém poderá hoje advogar tal opção que, cumulativa e sintomaticamente, é deveras contundente para a memória de imensa quantidade de militantes da defesa do património, gente como eu e tantos amigos de Sintra, de todos os pontos do país e estrangeiro, incluindo artistas, mulheres e homens das Artes e das Letras, que tanto se empenharam, impedindo a construção de um parque de estacionamento a poucas dezenas de metros do coração de Sintra.

Há quinze anos, a mobilização dos cidadãos conseguiu evitar uma aberração. Será ainda preciso vincar e repetir que essa força residual de cidadania persiste? E que, surgindo  qualquer novo projecto de réplica, a mais ou menos duzentos metros, quer no Vale da Raposa quer nas suas imediações, o resultado será idêntico? Porque, caros leitores, se há quinze anos, já não era possível, agora muito menos!

Portanto, parques periféricos! Inequivocamente, parques periféricos, com a máxima celeridade, nos locais já selecionados, a partir dos quais funcionarão carreiras de transportes público para todos os destinos, incluindo os pontos altos da serra, destinos aos quais, pura e simplesmente, deixarão de aceder quaisquer veículos particulares através da Rampa da Pena. Naturalmente, tal não contunde com a devida manutenção e requalificação das pequenas bolsas de estacionamento já existentes.

Como tenho acompanhado o processo de perto, sei que a Câmara Municipal de Sintra está igualmente preocupadíssima com a situação. Na realidade, Sintra não tem mais quaisquer folgas. Os prazos estão esgotados e, neste momento, com a autoridade democrática que detém, depois de ouvidos todas as partes interessadas, uma vez decidida a moldura integrada de soluções, só resta actuar.

A classificação atribuída pela UNESCO há vinte anos continua a exigir só o melhor de nós. As tais jóias da coroa pressupõem que, a montante, tudo funciona no sentido de que o próprio acesso já seja uma atitude cultural e civilizada. Desgraçadamente, com a sucessiva protelação de medidas que, afinal, são inevitáveis, não temos dado prova cabal de capacidade que se nos impõe.  Concluo como iniciei, enfatizando que não há sequer uma hora a perder.



[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]

domingo, 22 de novembro de 2015

Teleférico adiado,eléctrico na ordem do dia

JOÃO CACHADO



Segundo fonte fidedigna, a Câmara Municipal de Sintra decidiu considerar não prioritária a ideia da instalação do teleférico para acesso a um dos pontos altos da Serra, mais especificamente, num circuito entre São Pedro e a Pena. Cumpre sublinhar que, nunca tendo apresentado qualquer projecto mais ou menos formal nem contraído compromissos de ordem alguma quanto à sua concretização, a decisão da autarquia surge na melhor altura.

É natural que, já tendo ultrapassado a primeira metade do mandato, o executivo autárquico se sinta na obrigação de dissipar quaisquer dúvidas relativamente aos projectos que, efectivamente, não tenham pés para andar nos próximos dois anos. De facto, porque haveria o executivo municipal de manter alguma expectativa em relação àquilo que acolheu apenas como uma ideia que, por maioria de razões, tanta controvérsia, dúvidas e melindres tem suscitado? Porque insistiria na hipótese de solução do teleférico, se outras existem e até pouco ou nada contundentes, quando, por todo o concelho, não faltam situações carentes de urgente remediação, impondo uma criteriosa aplicação de empenho, engenho, arte e de todos os recursos materiais e humanos disponíveis?

Se, por enquanto, anuncia uma decisão que ainda deixa porta aberta para uma futura e eventual reconsideração da ideia, a Câmara Municipal de Sintra nada deverá recear quanto a favorecer o aparecimento de algumas reacções de circunstância, aparentemente menos positivas ou indesejáveis, porque estaria exibindo provas de hesitação e/ou de flagrante tibieza perante contrariedades de percurso… Enfim, mesmo que, num ou noutro caso, assim possa suceder, é um absoluto nada que nem sequer merece um minuto de reflexão.

No meu caso, há muito subscrevendo posição frontalmente contra a solução do teleférico, apenas me cumpre saudar a posição da Câmara. Como soe dizer-se, só os burros é que não mudam…  É por isso que saúdo calorosamente a decisão, confiante no discernimento que há-de prevalecer e que, uma vez instalado o sistema integrado de trânsito, articulando com as soluções de estacionamento a concretizar – nomeadamente, os parques periféricos e bolsa de proximidade que advogo há tantos anos –  o mesmo discernimento que, mais tarde ou mais cedo, acabará por alicerçar a victória de outra solução pela qual, em concomitância, tenho pugnado ao longo de tantos anos.

Refiro-me à proibição do acesso à Pena em transporte particular e, portanto, para aquele efeito, como tantas vezes escrevi nas páginas do Jornal de Sintra, apenas a autorização para circulação do transporte público colectivo que, naturalmente, descarta qualquer necessidade de permanência dos parques de estacionamento nas imediações das entradas do Parque.

Aliás, a esmagadora maioria dos visitantes, cerca de noventa por cento de estrangeiros, está conforme ao tipo das civilizadas medidas que aqui volto a referir. Por outro lado mas, no mesmo sentido, apontar aqueles objectivos como praticáveis contribuirá decisivamente, estou certo, para evitar os evidentes pontos de fricção prevalecentes, tanto a nível local como em relação aos que os próprios peritos da UNESCO tiveram oportunidade de salientar em anterior visita e que, naturalmente, não deixarão de considerar na próxima, já em 2016.

A breve trecho,

reedição do trajecto da saudade!

Não deixa de ser curioso que, ao declarado adiamento da ideia do teleférico acabe por corresponder, também no domínio dos transportes, uma urgência manifesta que, como verificam, a ilustração desta página logo esclarece. Na cena, bem real há algumas décadas, até quase ao início dos anos sessenta, pontifica o famoso eléctrico de Sintra, no seu perfeito sossego da estação terminal da Vila Velha, cena que, não tenho a menor dúvida, todos muito gostaremos de partilhar, ou de voltar a partilhar, como é o meu caso e o de alguns leitores, num futuro relativamente próximo.

Para já, para já, tenhamos em consideração que, de acordo com anterior informação do Senhor Vereador Luís Patrício, a quem está afecto o pelouro da Mobilidade Urbana, confirmada durante a reunião com os representantes das associações cívicas e culturais de Sintra (*), no dia 9 do passado mês de Junho, foi salientado que, até ao fim do actual mandato autárquico, em Setembro de 2017, a referida linha vai ser prolongada, com o propósito de reinstalar o troço entre a Vila Alda, no Largo Nunes de Carvalho, e a estação ferroviária de Sintra.

É através desta medida que, finalmente, a Câmara Municipal de Sintra porá termo ao hediondo sarcófago da Heliodoro Salgado, pedonal cartaz do pior que Sintra tem oferecido a residentes e visitantes, que tanta polémica gerou nestes últimos quinze anos. A exemplo do que acontece noutros contextos nacionais e estrangeiros, com o eléctrico atravessando aquela artéria, prevê-se que recuperada será toda uma perdida animação que, de modo algum, é incompatível com a permanência das actuais e eventual instalação de mais esplanadas.

Esta é uma solução que se articula e conjuga perfeitamente, tanto com a circulação dos peões como com a eventual abertura de trânsito, condicionado e apenas num dos sentidos, como tem sido sugerido, alternativa que o referido senhor Vereador confirmou como estando em estudo. De vocação exclusivamente pedonal e a explorar em todas as vertentes de animação sociocultural, haverá que, inequívoca e convenientemente, dinamizar o tão favorável e vizinho espaço da Correnteza que tão desaproveitado tem sido. E, assim, também por esta via, se poderão compensar os desastrosos prejuízos e inconvenientes da pedonalização da Heliodoro Salgado.

Portanto, no prazo de dois anos, uma vez concretizada a primeira etapa do prolongamento da linha do eléctrico, a Estefânea em particular e Sintra em geral, logo poderão começar a colher os respectivos e previsíveis benefícios. Posteriormente, com o objectivo da Vila Velha no horizonte, teremos o especial gosto de rever, de reviver e de propiciar a grata experiência que a foto reproduz. Cerca de sessenta anos depois, é já o sonho a funcionar...

Na altura em que a referida reunião se realizou, tendo entendido que já havia estimativas de orçamento, é com certa tranquilidade que mantenho o ânimo em relação à concretização do projecto. Sei que o meu entusiasmo também é partilhado por milhares de munícipes, de olhos postos nesta promessa que, simultaneamente, já é uma das mais aliciantes propostas para o ganho de uma qualidade de vida urbana que Sintra tanto merece e tanto tem tardado.

Assim sendo, a todo o momento, depois dos habituais e morosos trâmites, esperemos pelo início das obras. Porque, na realidade, o tempo é escasso! Entretanto, como condição sine qua non da viabilização e concretização da obra em perspectiva, indispensável se torna proceder a uma série de alterações muito significativas, quer ao nível do trânsito quer em relação ao estacionamento, regime de cargas e descargas, rígido condicionamento e exclusividade de circulação a determinados veículos, em vias tão sensíveis, não só como a já aludida Heliodoro Salgado mas também Miguel Bombarda e Volta do Duche.

Trabalho imenso, em tempo tão reduzido, é um grande desafio que as mencionadas associações não deixarão de acompanhar com o empenho e a disponibilidade que a autarquia sabe poder contar sem reservas.

_________

(*) Reunião coordenada por Rui Pereira, Vice-Presidente da Câmara, acerca das previstas alterações de trânsito e soluções alternativas de tráfego e estacionamento, com representantes das associações de Defesa do Património de Sintra, Alagamares- Associação Cultural e Canaferrim- Associação Cívica e Cultural.


[João Cachado escreve de acordo com a antiga ortografia]

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Abriram a caixa...


JOÃO CACHADO

No princípio deste ano, aquando do atentado ao Charlie Hebdo, não fui capaz de aderir àquela onda generosa do slôgane Je suis Charlie e, no dia 11 de Janeiro, nesse contexto da minha cínica incapacidade, escrevi um texto publicado nas redes sociais do qual passo a reproduzir o seguinte excerto:

 "(...) Tenho a maior das dúvidas acerca da «eficácia» desta mega-manifestação em curso entre a République e Nation. Está ali concentrada a crème de la crème dos «estadistas» da classe política europeia, com nível mais que duvidoso,... responsável pelo statu quo que enquadra e «viabiliza» o surgimento de fenómenos como o que emoldura o terrorismo jiadista. Ou, de facto, se dispõem a mudar a política que têm conduzido, ou esta marcha perde qualquer significado. (...)"

Hoje, 14 de Novembro, recorrentemente, só me ocorre a cena antológica em que certo Primeiro Ministro do governo de um periférico Estado europeu - que, não muito mais tarde, guindando-se ao supremo cargo de Presidente da Comissão Europeia, colheu as subsequentes «mais-valias» do seu heróico feito - recebia nos Açores a quadrilha dos malfeitores que destaparam a caixa de Pandora ao decidirem a segunda Guerra do Golfo, contra o ditador que, pretensamente, dispunha de armas de destruição maciça.

Passados doze anos, no dia 3 deste mês, morreu em Bagdad, Ahmed Chalabi, xiita laico ultra-ortodoxo iraquiano, que passou aos neocons americanos a mentira da posse de armas químicas e biológicas pelo regime de Saddam Hussein, mentira que, sabiamente aproveitada, não podia ter sido servida mais a tempo e tão a propósito da gula avassaladora dos senhores da guerra, afinal, tão bem amestrados por Bush e Blair.

Xiitas contra sunitas, pondo em causa os equilíbrios mais instáveis do planeta, destruindo Iraque, Líbano, Síria, Líbia, mancha de óleo alastrando num campo que a embebe em sorvos imparáveis, eis o cenário que, inevitavelmente, a jusante, apresenta estes «efeitos colaterais» de actos terroristas levados a cabo nas grandes metrópoles.

Paris, Londres, Madrid, Nova Iorque «vítimas» de ignorantes implacáveis, de títeres habilmente manipulados, que recrutam para a guerra santa miúdos desenraizados, descrentes, subprodutos de inimagináveis subúrbios? Aparentemente, também. Contudo, convém evitar a precipitação de juízos «confortáveis». A lucidez, mãe do desassossego, não nos concede território para mais asneiras. E nós é que somos os senhores do Mundo!