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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O naufrágio da Nau Nossa Senhora da Conceição em 1621

ANDRÉ MANIQUE



A Nau do séc. XVII e o seu naufrágio em 1621 (muitas vezes confundido com o da Nau do mesmo nome, naufragada em 1651 em Buarcos, na Figueira da Foz ou com o da naveta ao largo da Praia das Maçãs, em 1637), entre a Ericeira e o Cabo da Roca, tem levantado múltiplas questões ao longo dos últimos três séculos. Primeiro, e logo após o naufrágio, a da responsabilidade do então general da armada D. António de Ataíde, acusado de não ter acorrido em seu socorro logo que se souberam as notícias de uma armada de corsários turco-argelinos nas imediações. Por fim, e já mais recentemente, a localização do naufrágio, bastante procurado por equipas de caçadores de tesouros.
Esta Nau, de 22 peças de artilharia, foi a vigésima primeira a ser baptizada em honra de Nossa Senhora da Conceição.
Comandada por Jerónimo Correia Peixoto, largou de Goa no dia 1 de Março de 1621, com destino a Lisboa, juntamente com a Nau Nossa Senhora da Penha de França. Transportando pimenta, pedrarias e sedas, e abarrotada de passageiros com suas respectivas bagagens tornou-se uma presa apetecível, não só durante o seu percurso, como também pelos actuais caçadores de tesouros.
As duas naus suportaram durante mais de um mês um fortíssimo temporal ao largo do Cabo da Boa Esperança, acabando por se perderem de vista. Continuando sozinha, a Nossa Senhora da Conceição fez escala na ilha de Santa Helena, onde viria a morrer de acidente Jerónimo Correia Peixoto. O comando da nau foi entregue a D. Luís de Sousa, que a dirigiu para os Açores. Ao largo do Faial voltou a encontrar forte temporal, sendo necessário aportar na Terceira. Aqui foi-lhes alertado, por duas caravelas que traziam notícias do reino, para o perigo de encontro com uma frota de piratas argelinos, que se sabia rumarem de Argel em direcção à costa portuguesa.
Com apenas 14 artilheiros e 6 soldados e com poucos tripulantes para pegarem em armas, D. Luís de Sousa pede ao governador da Terceira alguns soldados para ajudarem a engrossar a guarnição da sua Nau. O pedido foi aceite, porém logo se constatou que os embarcados ou eram bastante idosos, ou os mais novos, não tinham qualquer experiência. Ainda assim foi então decidido rumar até à costa portuguesa pelo norte das ilhas Berlengas, onde uma esquadra de Guarda-Costas de D. António de Ataíde a escoltaria até à barra do Tejo.
As Berlengas são avistadas a dia 8 de Outubro. Durante a madrugada avistam-se alguns vultos de navios no meio da neblina e a ouvem-se vozes, o que fez os da Nau de D. Luís de Sousa julgarem tratar-se da esquadra de D. António de Ataíde. Mas o amanhecer logo veio revelar o mais temido. A Nossa Senhora da Conceição encontrava-se rodeada de cerca de 17 naus e patachos Argelinos, cada um deles com cerca de 30 a 40 peças de artilharia. Comandados por Tábaco-Arrais, esta frota já havia capturado dias antes, ao largo do cabo Espichel, 19 navios ingleses. A nau da Índia, carregada e solitária, mostrava-se assim uma presa fácil. Forçado a navegar em direcção a terra, D. Luís de Sousa prepara-se no entanto para o combate. Sendo mais velozes, os navios de Tábaco-Arrais logo se aproximam, disparando um tiro de salva, no intuito de deter o navio português. Ao responder com um tiro de bala, começou um prolongado combate de cerca de onze horas, no qual a Nossa Senhora da Conceição sofreu vários bombardeamentos de través, ficando bastante danificada e com inúmeros feridos. Um desses feridos foi o próprio D. Luís de Sousa, que foi obrigado a comandar as operações deitado sobre um caixote. Os argelinos, no entanto, também sofreram várias perdas. A artilharia portuguesa era de maior calibre, provocando graves danos no casco e aparelho dos navios argelinos, bem como numerosos mortos e feridos entre os mesmos. Um dos navios argelinos mais atingidos, estando a meter água, resolve abordar o navio português, travando-se um duro combate no castelo da proa. Amontoados em tão reduzido espaço os argelinos tornam-se presa fácil. Um deles, mais atrevido, resolve cortar os cabos de manobra das velas para tentar reduzir a velocidade da nau. Por engano, corta os cabos errados, fazendo cair estrondosamente a verga da Gávea sobre o castelo, matando grande número de argelinos. Os restantes, que não tiveram tempo de se atirar ao mar, foram mortos pelos portugueses
Com os seus navios bastante danificados os argelinos acabam por desistir da perseguição, afastando-se com o cair da noite para oeste. A Nossa Senhora da Conceição continuou a navegar em direcção à costa, bastante danificada. Mais de 30 mortos e feridos e dos 14 artilheiros, apenas 1 sobrevivera.
A 10 de Outubro é avistada a Ericeira. D. Luís de Sousa decide então aí fundear, com o objectivo de pedir reforços para o caso de um novo ataque argelino. Foi-lhe proibido fundear com o argumento que não era possível dar abrigo nessa época do ano e aconselhado a dirigir-se para o largo, onde a esquadra de D. António de Ataíde o aguardava. Foi-lhe também recusado o pedido de recolha dos feridos, mulheres e crianças, por terem ordem de não atracar à nau. D. Luís de Sousa não teve outra alternativa se não abandonar o intento e dirigir-se para o largo, na esperança de encontrar a frota do capitão da armada de costa. Sem o habitual vento de feição de noroeste, e incapaz de navegar mais rapidamente para sul, a nau volta a encontrar-se com a armada de Arrais no dia 11 de Outubro, entre a Ericeira e o Cabo da Roca. Da esquadra de D. António de Ataíde nem sinal. 
Depois de pesados bombardeamentos por parte da frota argelina e uma abordagem do navio, a Nossa Senhora da Conceição acabaria por incendiar-se, afundando-se com toda a riqueza que trazia da Índia. Os portugueses que se salvaram foram feitos cativos e levados para Argel, entre os quais, o heroico capitão D. Luís de Sousa, que viria a falecer dos ferimentos causados três dias depois. Alguns dos cativos conseguiram voltar ao reino após pagamento do resgate. Entre estes constava João Carvalho Mascarenhas, libertado em 1625 ou 1626, e que viria a deixar o seu testemunho na sua Memorável Relação da Perda da Nau Conceição. Esta narrativa relata os eventos que estiveram relacionados com o naufrágio da Nossa Senhora da Conceição, bem como o seu período de cativeiro em Argel.
A D. António de Ataíde foi imputada a culpa da perda da nau da Índia e preso no Limoeiro. O processo arrastou-se por três anos. Como defesa, D. António de Ataíde justificou a incapacidade de poder socorrer a Nau, como era seu dever, devido às condições de navegação que se faziam sentir na altura do infortúnio, tentando no entanto perseguir a armada argelina no mar alto, porém sem sucesso. Acabaria por ser considerado inocente.

BELLO, Mónica. A Costa dos Tesouros, Temas e Debates, 2006.
PEREIRA, José António Rodrigues. Grandes Naufrágios Portugueses (1194-1991), A Esfera dos Livros, 2013.
DOMINGUES, F.C ; GERREIRO, Inácio. D. António de Ataíde, capitão-mor da armada da Índia de 1611 in A Abertura do Mundo, Estudos de História dos Descobrimentos Europeus, Vol. II, Editorial Presença, 1987.
MASCARENHAS, Joam Carvalho. Memoravel Relaçam da Perda da Nau Conçeicam, Lisboa, 1627.
 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Uma eremítica estadia no Convento de Santa Ana do Carmo no séc XIX

ANDRÉ MANIQUE
O excerto do texto do poeta Bulhão Pato (1828-1912) que aqui deixo, e que vai narrando a eremítica estadia no Convento de Santa Ana do Carmo de Colares, em 1849, de três personagens ilustres da Cultura portuguesa, Alexandre Herculano, o próprio Bulhão Pato e o Marquês de Sabugosa, António de Mello César de Menezes, procura servir de paralelismo entre Cultura e Património, numa tentativa de entender a importância deste último na valorização da primeira. 

Em Agosto de 2012 deu-se o centenário da morte do poeta, e muito embora o seu texto se centre em torno da figura de Alexandre Herculano e do seu poema da “Harpa do Crente”, A Cruz Mutilada, é o próprio Bulhão Pato quem aqui se pretende evocar.Bulhão Pato enaltece assim ao longo do texto Alexandre Herculano, figura com quem priva e tem particular convivência durante esse período conturbado da sociedade portuguesa, da segunda metade do séc. XIX, bem como com Almeida Garrett, Andrade Corvo, Latino Coelho, entre outros.A convivência com personalidades literárias e políticas da época fê-lo adepto das ideias liberais e mais radicais, abraçando assim a causa Setembrista. Embora tivesse apoiado a revolta da Maria da Fonte e a Emboscada, em 1846, nunca teve um papel político-partidário interventivo, no entanto, deixou obras como memorialista muito interessantes para se perceber a cultura e mentalidade vigentes, tendo como cenários a cidade de Lisboa e seus arredores. Nessa altura, e após a extinção das Ordens Religiosas na sequência do decreto de 30 de Maio de 1834 pelo então Ministro dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, Joaquim António de Aguiar, a propriedade do Convento de Santa Ana do Carmo de Colares encontrava-se já posse de D. Francisco de Almeida Portugal, o 2º Conde de Lavradio, distinto diplomata, político e alto representante do Liberalismo na Europa. Será a convite deste que os três ilustres personagens resolvem então partir a pé de Lisboa em direcção a Colares para visitarem o amigo e a sua propriedade, onde ficam instalados uns dias. É um excerto desse relato que aqui fica:

“Em 1849, Alexandre Herculano tinha trinta e nove anos e umas pernas de aço. Havia-as exercitado pelas serras dentadas, escalões e fraguedos, como valente soldado de infantaria no heróico regimento de Voluntários da Rainha.
(…) O marquês de Sabugosa e eu tínhamos nossas fumaças de bons andadores. Ufanavamo-nos de, havendo saído de uma reunião em casa do marquês de Penalva, à Patriarcal, de chibatinha na mão – das que então se chamavam Polkas – irmos até ao palácio de São Lourenço, a Santo Amaro, e, resolvendo-nos subitamente, sem pregar olho, batermos connosco em Cintra!
Contámos, com certo orgulho, a aventura a Alexandre Herculano, quando na volta, que foi também a pé no dia seguinte, lhe caímos em casa sobre a ceia, impando de glória e mortos de fome.
(…) Combinou-se uma ida a pé a Cintra, para ficarmos uma semana na serra, no convento do Carmo, que pertencia ao conde de Lavradio, cunhado do marquês de Sabugosa.
Era no fim de Setembro. Levantámo-nos ainda muito de noite. De sacco a tiracollo, com leve bagagem, e sapato de salto raso – sapato de campino, que é o melhor -, cada um pegou no seu cajado e partimos serra de Monsanto acima, cortando para Queluz, onde devíamos almoçar.
Dos altos da serra via-se já o sol a romper, atirando horizontalmente as frechas rubras sobre o escudo brunido e esverdeado do Tejo.
(…) Até Queluz o caminho era bravo, – tudo serra. Não havia estrada. Herculano seguia a passo cadenciado e militar; o corpo curvado e pendido um pouco sobre o lado direito. Pelo caminho ia-nos contando os passos do seu tempo de soldado; os dias mais felizes da sua vida, e também os da emigração, com terem tido muitas horas amargas.
(…) Terminado o almoço em Queluz, seguimos, estrada fora, até Cintra. Em Cintra comemos alguma fruta e partimos, serra acima, até ao convento do Carmo.

O mestre ia ovante! Nós não queríamos dar parte de fracos, mas suspirávamos intimamente pelo termo da viagem!

Pouco depois da chegada ao convento, fumegava sobre a toalha de linho, muito branca, uma grande terrina de canja. Devorámos a ceia, quase sem dar palavra e em seguida caímos na cama com o profundo sono do justo. Herculano levantou-se às sete. Cerca das onze, veio acordar-nos, e repetia-nos a seguinte cantilena:

Quatro horas dorme o santo.
Cinco o que não é tanto.
Seis o estudante.
Sete o viandante.
Oito o porco.
E nove o morto!
Nós tínhamos dormido doze! “

       ***



A quem estiver na vazante da vida, como eu, e tenha visto alguma coisa, aconselho que faça os seus apontamentos. 
Neste relembrar do que foi, há um consolo que não se define!Vivemos retrospectivamente. Estas memórias, que não terão valor para os outros, são preciosas para mim! Respiro horas inteiras no horizonte da mocidade, e a consciência com que escrevo desafoga-me o espírito, e dá-me uma tranquilidade salutar. 
São como a confissão para o verdadeiro religioso! Confissão geral; e, di-lo-ei – embora seja censurado – posso fazê-la alto, sem que as faces se me acendam nem de leve. Pecadilhos, fraquezas, arrebatamentos próprios do temperamento, não me faltam decerto; mas criminoso não sou, nem fui.Todo o homem que disser com verdade: “ Eu nunca roubei nem dinheiro, nem honra – há mais ladrões desta espécie de moeda, e são os piores! – eu nunca caluniei ninguém, esse homem morre em paz!


       ***

A pouca distância do convento do Carmo, naquela agreste e encantadora posição da nossa Cintra, a que o próprio Lord Byron, inimigo figadal dos portuguezes, chama “a mais bela da Europa”, estava a cruz que impressionou Herculano.

Tinha um braço partido, e a hera, a mãe solícita das ruínas, deitara-lhe em volta os ramos verdejantes e cariciosos. 
A poesia foi começada no convento do Carmo.

Abre com estes magníficos versos:

Amo-te, ó cruz, no vértice firmada
De esplêndidas igrejas;
Amo-te quando, à noite, sobre a campa,
Junto ao cipreste alvejas;
Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,
As preces te rodeiam;
Amo-te, quando em préstito festivo
As multidões te hasteiam;
Amo-te, erguida no cruzeiro antigo,
No adro do presbitério,
Ou quando o morto, impressa no ataúde,
Guias ao cemitério!
Amo-te, ó cruz, até, quando no vale
Negrejas triste e só,
Núncia do crime, a que deveu a terra
Do assassinado o pó!

Alexandre Herculano, censurado de ímpio e herege espécie de papão com que em certa sociedade se chegou a meter medo às crianças e até às mulheres já feitas –, era uma alma profundamente religiosa. É correr os seus livros. 
Há um sabor, um perfume do misticismo santo de Jesus, em centos de versos e em relanços da sua prosa escultural. 
Nesta composição da ‘ Cruz Mutilada ’, escrita em dias prósperos, sob o céu do nosso Outono, na convivência de dois amigos íntimos, está o coração grande e virtuoso de Alexandre Herculano. Inspiravam-no a natureza e Deus!
Aos que o acusavam de blasfemo respondia com estes versos:

……………As linhas puras
De teu perfil, falhadas, tortuosas,
Ó mutilada cruz, falam de um crime
Sacrílego, brutal, e ao ímpio inútil!


O poeta da ‘ Harpa do Crente ’ não compreendia a natureza sem lhe aliar outro ideal.

(…) Correram-nos oito dias naquele deserto, ora descendo à fertilíssima várzea de Colares, ora subindo às assomadas crespas da serra ou indo ver as ondas, que batiam, refervendo, nos recôncavos do precipício da Pedra de Alvidrar; dias que ficaram para sempre impressos no espírito de Alexandre Herculano e no nosso!

Há dois annos – havia já quatro que vira agonizar o autor da História da Inquisição – passei pela serra… 
Era um dia belíssimo e temperado de Setembro; mas, olhando para o convento do Carmo, senti um frio tão intenso e mordente, que parecia que o nordeste invernal me trespassava até ao coração!

O mocidade, o sol és tu!


Setembro, 29, 1883. “ 1








[1] Pato, Bulhão, A Cruz Mutilada, Memórias – Scenas de Infancia e homens de letras, Tomo 1, Lisboa, 1894.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

A capela do Séc XV do Casal da Torre, em Janas

ANDRÉ MANIQUE



André Manique nasceu em Lisboa, em 1975. Licenciou-se em História pela Universidade Lusíada de Lisboa, em 2002. Teve formação complementar em áreas directamente ligadas com a História, a Arqueologia e o Património, como História da Náutica, Cartografia Antiga, Arqueologia do Navio, Artilharia Antiga, Arqueologia Náutica e Subaquática, entre outras.

A partir de 2001 começou a participar em diversos trabalhos arqueológicos, fora e dentro do país. Em 2008, e já a título profissional, começa a desempenhar funções como Técnico de Arqueologia e Património, percorrendo o país de norte a sul, em diversos trabalhos arqueológicos e de salvaguarda do Património, abarcando diversas cronologias, desde a Pré-História antiga até à Época Moderna e Contemporânea. Actualmente encontra-se numa intervenção num edifício Lisboeta, um antigo palacete do séc. XVI, parte dele assente em cima da antiga Cerca/Muralha Fernandina.



Na zona de Sintra, à entrada da povoação de Janas, existe um casal, primeiramente designado de Miguel Joanes, e que posteriormente ficou a ser conhecido por Casal da Torre. Para ali chegar, segue-se por um caminho de terra batida que parte da estrada principal, e cerca de uns 100 metros adiante, encontram-se umas ruínas de uma antiga capela de estilo gótico. A Capela do séc. XV do Casal da Torre.

Esse casal pertenceu a Mestre Henriques, um distinto Medico que durante o reinado de D. Duarte, foi físico mor do Reino.

Mestre Henriques era um grande devoto da Ordem religiosa do Carmo, tratando os Carmelitas com particular veneração, mantendo estreitas relações com os carmelitas do Convento de Lisboa, o qual havia sido fundado em 1389 pelo Condestável D. Nuno Álvares Pereira. Não tendo herdeiros e julgando que o seu casal reunia as condições para fundar um Convento da Ordem em Sintra, resolveu pedir assim licença ao rei. Ainda antes de lhe ser concedida a licença régia, a 14 de Novembro de 1436, ergue uma capela, que denomina de Oratório, e que acabaria por se tornar o primeiro cenóbio carmelita em Sintra. Posteriormente, os monges acabariam por abandonar o local e instalar-se numa zona sobranceira à serra, próximo de Colares.

Mas eis, antes de mais, como nos descreve Visconde de Juromenha esse primeiro local, na sua “Cintra Pinturesca”:

“Foi primeiro fundado este Convento no casal da Torre, antigamente chamado de Miguel Joanes no termo de Cintra, que pertenceo a mestre Henrique, physico mór d’El-Rei D. Duarte, o qual tendo primeiro impetrado licença do dito Rei para a sua fundação, [que lhe foi concedida por Carta dada em Lisboa em 14 de Novembro de 1436], deixou em testamento o dito casal, onde já tinha edificado huma Capellinha ou Oratório, á ordem do Carmo para por sua morte se fundar naqelle logar o dito Convento deixando por testamenteiro e executor desta sua ultima vontade a D. Fr. João Manoel, Bispo de Ceuta e Capellão mór.” (Juromenha, 1838, 158)

Mestre Henriques viria a explicitar no seu testamento que as obras do futuro cenóbio só continuariam após a sua morte, pois que pelas suas funções e exigentes permanências na corte, não lhe era possível ausentar-se para o acompanhamento das mesmas. Acabaria por morrer em 1449, e no ano seguinte, a herdade, os seus bens e as suas rendas entraram na posse do convento do Carmo de Lisboa, tendo Frei Constantino Pereira, sobrinho do Condestável D. Nuno Álvares Pereira, sido escolhido para fundar o novo convento.

Todavia, e como nos descreve um frade carmelita do séc. XVII, José Pereira de Stª Ana, o lugar do Casal da Torre em breve se mostrou inóspito, “assim pela esterilidade da terra, só própria de pão, e de gados, como pela falta de vizinhos, que se podessem aproveitar das doutrinas dos Religiosos (...) [e] por ser totalmente desabrigado [pois] nelle reinaõ com irreparavel furia os ventos, que saõ nocivos á saude” (Stª Ana, 1751, II:96).

A construção do convento, ao tempo reduzida à capela a que Mestre Henriques chamara Oratório – e que milagrosamente ainda hoje resiste à irreparável fúria dos ventos –, foi interrompida e, por doação de um terreno, em 1457, e num lugar chamado Boca da Mata, próximo de Colares, os religiosos acabariam por erguer e fundar um novo cenóbio, o Convento de Santa Ana do Carmo, o qual, contrariamente ao primeiro local se encontrava agora “(…) edificado em hum sitio ameno, em huma planície na raiz da Serra, e sobranceiro á Villa de Collares, cercado de frondoso arvoredo. Gosa ao perto da aprazível vista da varsea, casas de campo, pomares, e quintas revestidas de copados arvoredos, e mais longe de logares, e casaes, terminado o horizonte de hum tão variado e deleitavel painel o occeano, cujas vagas prateadas se estão vendo em distancia quebrar naquellas praias” (Juromenha, 1838, 160-61).

José Alfredo da Costa Azevedo, ilustre sintrense do séc. XX, que muito batalhou e contribuiu pela divulgação e preservação do património natural, cultural e edificado da sua terra, descreve assim o primitivo convento do Casal da Torre aquando da sua visita, na década de 1980:

“Fui ao Casal da Torre, ultimamente, umas duas ou três vezes e tive ocasião de verificar que ainda existem algumas casas já sem telhado; e na parede de uma delas ainda se pode ver, reduzida às cantarias, uma longa porta ogival, a qual se apresenta vedada por uma cancela feita de canas; no interior vivem galinhas. O casal parece estar habitado – e a presença das galinhas assim o atesta –, mas a verdade é que, em qualquer das vezes que ali fui, não tive a confirmação do facto” (Costa Azevedo, 1997, II: 11).
Actualmente o Casal da Torre encontra-se de facto habitado, com algumas dependências anexas às sobreditas ruínas, e muito embora a pequena capela já não sirva de galinheiro, o seu estado de conservação merece especial atenção. Seriam de extrema importância obras de recuperação neste monumento, um importante elemento patrimonial sintrense e que a irreparável fúria dos ventos e restantes elementos naturais poderão condenar para sempre.



     ***


 Volvidos dez anos desde que foram escritas estas linhas para um dos capítulos de um trabalho que efectuei sobre o Convento de Santa Ana do Carmo de Colares e seis desde que o mesmo foi apresentado no III Encontro de História de Sintra, resolvi ir visitar de novo o Casal da Torre. Infelizmente o passar dos anos e o fustigar dos ventos e restantes elementos naturais acabaram por prevalecer. Grande parte do alçado sul da capela e seu respectivo portal desabaram por completo, restando apenas parte do alçado nascente e seu portal, muito embora também este em perigo de derrocada.
Surge-me apenas terminar este artigo com o parágrafo com o qual terminei o trabalho na altura.


A importância de um monumento como este vai muito para além da simples valorização arquitectónica e física. Um monumento surge de uma certa necessidade humana em secularizar, não apenas os estímulos técnicos, artísticos e estilísticos do momento, mas também as suas crenças e necessidades de vida, eternizando-se deste modo às gerações vindouras a cultura e sociedade em que se enquadram. Por isso a importância do estudo, conservação, e valorização do Património. Evita-se assim a perda no espaço e no tempo de tudo aquilo que foi vivido, pensado e idealizado antes de nós.
  Alçado Sul antes da derrocada
  Alçado Sul após a derrocada

Bibliografia

- COSTA AZEVEDO, José Alfredo da – “ O Convento do Carmo “ in Recantos e Espaços, Obras de José Alfredo da Costa Azevedo, Vol. II, Sintra, 1997
- JUROMENHA, Visconde de – “ Sintra Pinturesca, ou Memória descritiva da vila de Sintra, Colares e seus arredores “ – Lisboa, 1838
- STª. ANA, José Pereira de – “Chronica dos Carmelitas da antiga, e regular observancia nestes reynos de Portugal, Algarves e seus dominios... ”, Vol. II, Lisboa, 1745-1751