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sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Caderno de Encargos para um Autarca

VÍTOR RAMOS

Nesta época de veraneio, em que estamos mais disponíveis para usufruir dos locais de lazer e dispomos de mais tempo para relaxar e descontrair, é frequente termos também momentos para uma boa leitura e para refletir no novo ano de trabalho que se avizinha. ( para quem o tem !...)
Este ano por coincidência, oportuna ou não, as eleições autárquicas terão lugar no final de Setembro, pelo que, para o cidadão comum será inusitado conviver estes dois meses de férias com uma campanha eleitoral concorrida e colorida,onde muitas vezes os momentos são caraterizados por discussões que não raras vezes extravasam a mera política e se concentram em mesquinhas querelas e guerrilhas que em nada contribuem para o esclarecimento geral.
É pois, com este cenário que trago uma pequena reflexão sobre o que deveria ser a determinação de base para o exercício das funções autárquicas,aproveitando uma leitura recente do livro de Sidónio Pardal e Poças Esteves intitulado “Ser autarca”, ( ed. GAPTEC e SaeR , 2013 ) e onde são abordados sob diferentes perspetivas as valência sectoriais da atividade autárquica.
São diferentes áreas do domínio do conhecimento que são sistematizadas e que devem fazer parte dos requisitos do cidadão que assume funções de responsabilidade política executiva na comunidade, áreas como o Urbanismo,o Direito, a Gestão, a Economia, a Sociologia e a História. Se de umas o conhecimento é mais formal , já noutras este conhecimento é mais empírico e vivenciado e, mesmo sem ter a formação exaustiva e profissional destas disciplinas não deixa de ser necessária uma consciência muito precisa da importância no exercício destas funções do Poder Local. Um autarca não é um técnico nem um administrador em comissão de serviço, mas sim um líder que trabalha necessariamente em equipa.
“O cargo de autarca é um desafio intenso que obriga a uma permanente exposição e disposição de serviço público, é uma tarefa exigente, sem horário, absorvente, que envolve um elevado esforço mental, físico, emocional, um competente exercício de coordenação atento às mudanças e que pode ser cansativo e desgastante quanto gratificante e honroso.” (Pardal : 16)
O exercício do poder que lhe é conferido por meio do voto, poder político, confere-lhe a responsabilidade das decisões , da avaliação das mesmas e ainda da capacidade de avaliar da execução destas e do seu cumprimento.
Este exercício deve ser tomado em função do seu programa, previamente apresentado nas suas linhas ao eleitorado e por este sufragado. Esta capacidade não deve ser confundida com as opiniões técnicas e os pareceres técnicos ou administrativos. Se há distinção efetiva a fazer, ela é a de que o poder político não se deve confundir com a responsabilidade administrativa e das diferentes competências técnicas . O poder político é na sua essência, independente e discricionário, respondendo perante o eleitorado e a lei. É exercido no universo próprio da autonomia do órgão autárquico e aplica-se aos seus componentes através da decisões e ordens que os serviços acatam e executam. A Responsabilidade Administrativa, incide sobre o procedimento burocrático do cumprimento das diversas operações e no respeito pela legislação aplicável. Já a competência técnica é aplicada no âmbito dos trabalhos das diferentes especialidades a que as ordens se aplicam, encontram-se aí com particular relevância as especialidades mencionadas onde resumidamente se apontam o Urbanismo, a Engenharia, a Arquitetura, a Economia, o Direito, entre outros domínios que exigem competência e responsabilidade de índole profissional.
Estas referências, são basilares à apreciação que se fará do desempenho de cada um dos eleitos, e o aprofundamento destas questões serão o que denomino de um verdadeiro “caderno de encargos” para um Autarca.

Bibliografia :
Ser Autarca, Missão e desafios . Sidónio Pardal, José Poças Esteves, ed GAPTEC e SaeR, 2013 , Lisboa

terça-feira, 9 de julho de 2013

As cidades estão a ficar mais fortes

VÍTOR RAMOS

Com tantos focos de discussão e motivos de preocupação sobre os dias que passam, existem na imprensa muitos artigos e informações que acabam por ficar menos expostas e ensombradas e esquecidas no ricochete de tantos “megabites” do ruído circundante.
 
Serve de exemplo o artigo que figura no jornal Expresso da última semana (6/7), da autoria de Virgílio Azevedo, e que titula com a seguinte frase: “ As cidades estão a ficar mais fortes”, interpretando um recente estudo do I.N.E. onde se avança que o crescimento da população abrandou mas a concentração urbana é maior e está em mudança. Seguia ainda com vária argumentação, referindo que no estudo, existiriam dados novos do CENSOS 2011 que indiciariam que Lisboa perdeu menos população do que nos censos anteriores e que as freguesias do interior da cidade estarão a ganhar novas dinâmicas populacionais. Concluía ainda o articulista que, segundo os autores do trabalho, existe uma recomposição de duas Áreas Metropolitanas, encontrando-se a surgir novas polaridades de emprego na periferia, exemplificando com o caso de Oeiras na Área Metropolitana de Lisboa. O artigo era acompanhado por vários quadros, sendo significativo um que me chamou particular atenção, a identificação dos 20 maiores aglomerados urbanos do Portugal, onde o primeiro é Lisboa e o vigésimo a cidade da Maia.

O que me leva a refletir sobre este artigo é que nas 20 maiores aglomerações se encontram três do Concelho de Sintra (único que não é tomado como um todo), sem que Sintra seja sequer referida. Dir-me-ão, Sintra não teria de figurar, pois não tem o número de habitantes por si própria como aglomerado, mas a reflexão passa por isso mesmo, como território, a área do Município continua a necessitar de um pensamento estratégico que articule as suas urbes, não como elementos separados (com ligações saturadas que funcionam como separadores), mas como partes de uma rede de um universo maior, onde emprego, habitação, mobilidade, ambiente e lazer, cultura num todo, possam potenciar o que muito em breve vai ser mensurado e escalpelizado (vai?) em termos de eleições municipais. Resta-me desejar que Agualva-Cacém, Queluz e Algueirão-Mem-Martins não surjam como meras figuras menores nos quadros do INE e a Sintra esteja reservado um papel de dinamização da rede urbana que se integra na Área Metropolitana de Lisboa. Desejar ainda que a cultura de Governança1 em rede possa ser assumida neste Município e que através desta possam os seus indicadores de qualidade de vida melhorar, tornando-se (à semelhança de outros da A.M.L.) verdadeiros modelos de desenvolvimento.
Sintra, 7 de Julho


1 Governança, concebida como Governo com, onde as autoridades estão em permanente diálogo com os parceiros, nomeadamente as comunidades e os agentes da Sociedade Civil.


Vítor Manuel da Silva Ramos. Arquiteto, Pós-Graduado em Direito do Ordenamento, Ambiente pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, Mestrando no Mestrado de Administração Pública do ISCTE-IUL. Exerce funções na Câmara Municipal de Sintra, tendo sido Diretor do Departamento de Urbanismo da Câmara Municipal de Grândola e Diretor Geral da Infratróia. Vive em Colares